Escritos sobre a Guerra Civil Americana
Artigos do New-York Daily Tribune, Die Presse e outros (1861-1865)

Karl Marx e Friedrich Engels


Seção III. Questões de política interna e sociedade
Assuntos americanos
(Marx. Die Presse, número 61, 3 de março de 1862)
Escrito em 26 de fevereiro de 1862


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O presidente Lincoln não ousa dar um passo à frente sem que o curso dos acontecimentos e o clamor generalizado da opinião pública proíbam-no hesitar por mais tempo. Mas uma vez que o “Old Abe” se convence de que tal ponto chegou, então surpreende tanto amigos quanto inimigos com uma operação repentina, conduzida com o menor ruído possível. Assim, há pouco e da maneira mais sorrateira foi levado a cabo um golpe que, há seis meses, talvez tivesse lhe custado a cadeira de presidente, e que há um mês teria suscitado uma tempestade de debates. Estamos falando da destituição de McClellan do posto de comandante-chefe dos exércitos da União.

Em primeiro lugar, Lincoln substituiu o ministro da guerra Cameron, um jurista enérgico e implacável, pelo Sr. Edwin Stanton. Este despachou imediatamente uma ordem do dia aos generais Buell, Halleck, Butler, Sherman, dentre outros comandantes de departamentos ou condutores de expedições, comunicando que no futuro todas as ordens públicas ou secretas chegariam diretamente do Ministério da Guerra, e que deveriam responder diretamente ao dito ministério. Por fim, Lincoln expediu algumas ordens assinando-as como Commander in chief of the Army and Navy [Comandante chefe do exército e da marinha], atributo que lhe é conferido pela Constituição. Dessa forma tranquila o “jovem Napoleão” foi despojado do comando supremo que até então exercia sobre as forças armadas reunidas, sendo reduzido ao comando exclusivo do exército do Potomac, embora tenha conservado o título de Commander in chief. Os êxitos obtidos no Kentucky, Tennessee e na costa atlântica inauguraram favoravelmente a subida do presidente Lincoln ao comando supremo.

O posto de Commander in chief, ocupado até então por McClellan, foi legado aos Estados Unidos pela Inglaterra, e corresponde mais ou menos à dignidade de um grande connétable no antigo exército francês. Já durante a Guerra da Crimeia, a própria Inglaterra descobriu que essa velha instituição estava um tanto ultrapassada. Realizou-se, pois, um acordo, graças ao qual parte das atribuições do commander in chief foi transmitida ao Ministério da Guerra.

Carecemos de mais material necessário para julgar a tática fabiana de McClellan no Potomac. Mas não restam dúvidas de que sua atuação foi um estorvo no direcionamento das operações militares como um todo. Pode-se dizer de McClellan o que Macaulay dizia de Essex:

“Os defeitos militares de Essex advém essencialmente de suas apreensões políticas. Ele foi honesto, mas de forma alguma esteve fortemente ligado à causa do parlamento; a única coisa que temia mais do que uma grande derrota era uma grande vitória”.

McClellan, como a maioria dos oficiais formados em West Point pertencentes aos exércitos regulares, encontra-se mais ou menos ligado por esprit de corps aos antigos camaradas que agora residem no campo inimigo. Eles são inspirados pelo mesmo ciúme dos parvenus que existem em meio aos “soldados civis”. Na visão deles, a guerra deve ser conduzida de forma estritamente técnica, como uma transação comercial, tendo em vistas sempre restaurar a União sobre sua antiga base; para eles convém antes de tudo manterem-se à margem de quaisquer tendências formulaicas e revolucionárias. Uma bela abordagem sobre uma guerra que é, em essência, uma guerra de princípios! Os primeiros generais do parlamento inglês caíram no mesmo equívoco.

“Mas”, diz Cromwell em seu discurso de 4 de julho de 1653 ao Parlamento Manco, “como tudo mudou assim que homens que reconheciam um princípio de Divindade e de religião subiram ao topo!”

O Star de Washington, órgão particular de McClellan, declara ainda em seu último número:

“O alvo de todas as maquinações militares do general McClellan é o restabelecimento da União no formato existente antes do advento da rebelião”.

Não é de surpreender, portanto, que no Potomac o exército se dedique, sob os olhares de seu oficial-general, à captura de escravos! Bem recentemente McClellan mandou expulsar do acampamento, via ordem especial, a família de músicos Kutchinson — e isso por cantarem canções antiescravistas.

A parte de tais manifestações “contrárias às tendências”, McClellan estendeu sua proteção redentora até mesmo para traidores dentro do exército da União. Ele, por exemplo, conferiu a Maynard um posto mais alto na hierarquia, apesar de Maynard ter atuado como agente dos secessionistas, como se provou mediante documentos oficiais do comitê de investigação da Câmara dos Representantes. Nos casos do general Patterson, cuja traição foi decisiva para a derrota em Manassas, e do general Stone, que organizou a derrota de Balls Bluff em direta conivência com o inimigo, McClellan tratou de subtrair os traidores militares do tribunal de guerra, e até mesmo impediu que fossem destituídos de seus cargos. O comitê de investigação do Congresso revelou fatos ainda mais surpreendentes a esse respeito. Lincoln decidiu mostrar, por meio de uma medida enérgica, que com sua tomada do comando superior a hora dos traidores havia chegado; chegara a hora de virada na política de guerra. Por ordem sua, o general Stone foi preso em seu leito no dia 10 de fevereiro às 2 da manhã e transportado ao Forte Lafayette. Algumas horas mais tarde chegou a ordem de detenção assinada por Stanton, que continha o veredito de “alta traição”, expedido pelo Tribunal da Guerra. A detenção de Stone e a instauração de seu processo ocorreram sem que o general McClellan fosse previamente informado.

McClellan estava claramente decidido, enquanto permanecesse ocioso e trajasse sua coroa de louros (conferida, aliás, antes da hora), a não permitir que outro general desse um golpe antecipado. Os generais Halleck e Pope prepararam um movimento combinado para coagir o general Price a uma batalha decisiva — o mesmo Price que já uma vez fora salvo por Frémont  mediante uma intervenção vinda de Washington. Um telegrama de McClellan os proibiu de levar a ofensiva adiante. Por meio de um telegrama similar, o general Halleck foi obrigado a “desconsiderar a ordem” de tomar o Forte Columbus no momento em que se encontrava prestes a cair. McClellan havia proibido expressivamente que os generais do Oeste trocassem correspondência. Todos eles tinham de se voltar primeiramente a Washington sempre que se tratava de coordenar uma operação conjunta. O presidente Lincoln acaba, agora, de lhes restituir a tão necessária liberdade de agir.

A prova do quão benéfica para a secessão foi a política bélica de McClellan encontra-se nos panegíricos que o New York Herald lhe dirigiu sem descanso. Ele é o herói do Herald. O notório Bennett, proprietário e redator-chefe do Herald, liderou na época da administração de Pierce e Buchanan por intermédio de seus “representantes especiais”, também chamados de correspondentes em Washington. Sob a administração de Lincoln, buscou reconquistar o mesmo poder insinuando-se por meio de seu “representante especial”, Dr. Ives, um sulista e irmão de um oficial desertor dos Confederados, e tudo com o fim de cair nas graças de McClellan. Grandes liberdades esse Ives deve ter gozado sob a patronagem de McClellan, sobretudo na época em que Cameron se encontrava no topo do Ministério da Guerra. Aquele [Ives] esperava, evidentemente, que Stanton lhe concedesse os mesmos privilégios e, por conseguinte, apresentou-se em 8 de fevereiro no escritório do Ministério da Guerra, onde o ministro e alguns membros do Congresso discutiam medidas bélicas. Estes lhe apontaram a porta de saída. Antes de bater em retirada, ele subiu em seus tamancos, voltando-se para os presentes com a ameaça de que o Herald abriria fogo contra o atual Ministério da Guerra caso este retirasse seu “privilégio especial” (a saber: o privilégio de receber informações sobre as deliberações de gabinete, telegramas, informações gerais e notícias da guerra). Na manhã seguinte, em 9 de fevereiro, o Dr. Ives reuniu todo o estado maior de McClellan para um café da manhã regado a champanhe. A desgraça, todavia, não tardou a chegar. Um suboficial, acompanhado de seis homens, adentrou o recinto, dominou o violento Ives e o levou para o Forte MacHenry, onde — como dito expressamente na ordem do ministro da guerra — está sendo mantido “sob estrita custódia na qualidade de espião”.


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Inclusão: 18/08/2022