Escritos sobre a Guerra Civil Americana
Artigos do New-York Daily Tribune, Die Presse e outros (1861-1865)

Karl Marx e Friedrich Engels


Seção V. Tensões diplomáticas
Os atores principais no drama Trent
(Marx. Die Presse, 8 de dezembro de 1861)


capa

Londres, 4 de dezembro de 1861

Neste momento, é de suma importância que conheçamos em alguma medida as personagens principais do drama Trent. Por um lado, temos o herói ativo, capitão Wilkes, o comandante do San Jacinto; por outro lado, os heróis passivos, J. M. Mason e John Slidell. O capitão Charles Wilkes é descendente direto do irmão do célebre demagogo inglês [John] Wilkes, o mesmo que por um momento ameaçou chacoalhar o trono de George III. A luta com as colônias norte-americanas salvou a dinastia de Hannover no exato momento de estourar uma revolução inglesa, sintomas os quais se fizeram perceptíveis no clamor de um tal Wilkes e nas cartas de um tal Junius. O capitão Wilkes, nascido em Nova York em 1798, ativo há 43 anos na marinha americana, comandou o esquadrão que, de 1838 a 1842, explorou o Oceano Pacífico norte e sul por ordem do governo da União. Ele publicou um relatório de sua expedição em cinco volumes.(1) É, igualmente, autor de uma obra sobre o oeste americano, a qual contém informações valiosas sobre a Califórnia e o distrito do Oregon. Agora é certo que Wilkes improvisou seu coup de main independentemente e sem quaisquer ordens de Washington.(2)

Os dois comissários da Confederação sulista interceptados — os senhores Mason e Slidell — são opostos em todos os sentidos.

Mason, nascido em 1798, descende de uma daquelas antigas famílias aristocráticas da Virgínia que fugiram da Inglaterra assim que os royalistas foram derrotados na batalha de Worcester. O avô do nosso herói pertence ao círculo de homens que, ao lado de Washington, Jefferson e companhia, foram designados pelos americanos como seus “pais revolucionários”.

John Slidell não é nem aristocrata como Mason, nem, como o colega, um escravocrata de nascença. Sua cidade natal é Nova York, onde seu avô e pai viveram como honestos candeeireiros. Mason, após ter se ocupado por alguns anos com o estudo do direito, adentrou o palco político. Compareceu repetidamente desde 1826 como um membro à Câmara dos Comuns [House of Representatives] da Virgínia; compareceu em 1837 à Câmara dos Comuns do Congresso Americano para uma sessão. Seu momento de proeminência, porém, data somente de 1847, ano em que a Virgínia o elegeu para o Senado americano, no qual ele assegurou seu assento até a primavera de 1861. Slidell, que neste momento conta sessenta e oito anos de idade, foi obrigado a deixar Nova York ainda jovem em consequência de um adultério e de um duelo; em resumo, de um escândalo. Partiu para Nova Orleans, onde viveu primeiro de jogatina, depois da advocacia. Tendo se tornado um membro da legislatura da Louisiana, logo obteve acesso à Câmara dos Comuns e, por fim, ao Senado do Congresso dos Estados Unidos. Como diretor de falcatruas eleitorais durante a eleição presidencial de 1844 e, mais tarde, como participante em um embuste acerca de terras estaduais, chocou um pouco aquele tipo de moralidade que ainda prevalece na Louisiana.

Mason herdou sua influência; Slidell adquiriu a sua. Esses dois homens se encontraram e se complementaram dentro do Senado americano, o baluarte da oligarquia escravista. De acordo com a Constituição americana, o Senado elege um Comitê Especial de Relações Internacionais, o qual exerce o mesmo papel que o privy council exerceu previamente na Inglaterra (antes de o aclamado “Gabinete”, mais uma grandeza da constituição britânica teoricamente oblívia, ter usurpado as funções do privy council). Por bastante tempo, Mason foi presidente do tal comitê; Slidell foi ali um membro proeminente.

Mason, firmemente convencido de que todo cidadão da Virgínia é um semideus e todo ianque é um plebeu malandro, nunca disfarçou seu desprezo contra os colegas do Norte. Altivo, impertinente e insolente, ele sabia como retorcer a testa em uma carranca como a de Zeus e, de fato, levou ao Senado hábitos próprios da lavoura. Um fanático encomiasta da escravidão, difamador desbocado tanto do Norte quanto da classe trabalhadora nortista, além de sempre vociferar contra a Inglaterra, Mason deu uma canseira no Senado com sua importunação prolixa e discursos persistentes que, em vão, tentavam esconder sua vacuidade generalizada com certa pomposidade rasa. Em uma tentativa de protesto, ele andou por aí nos últimos anos trajado de pano cru cinza vindo da Virgínia; porém — isso caracteriza o homem — o tal casaco cinza foi adornado com botões brilhantes vindo de um estado da Nova Inglaterra, Connecticut.(3)

Enquanto Mason encenava o Jupiter Tonans [Júpiter, deus do trovão] da oligarquia escravista no proscênio, Slidell trabalhava nos bastidores. Com um talento raro para a intriga, perseverança incansável e uma falta de consideração sem escrúpulos — mas ao mesmo tempo de modo comedido, oculto, nunca intrusivo, sempre insinuante — Slidell foi a alma do conclave conspiratório dos sulistas. Pode-se julgar a fama do homem a partir do fato de, em 1845, pouco antes do início da guerra com o México, ele ter sido enviado para lá na condição de embaixador. O México, por sua vez, se recusou a tratá-lo como tal. As intrigas de Slidell tornaram [James K.] Polk presidente. Ele foi um dos conselheiros mais perniciosos do presidente [Franklin] Pierce, e o gênio do mal por detrás da administração [James] Buchanan. Os dois, Mason e Slidell, foram os principais patrocinadores da lei sobre os escravos fugidos; ocasionaram o massacre no Kansas e, em conjunto, foram os causadores ocultos das medidas pelas quais a administração Buchanan proveu às mãos dos sulistas meios para executar a Secessão, enquanto deixava o Norte sem defesas.(4)

Já em 1855, Mason declarou em uma ocasião na Carolina do Sul que “só resta um caminho para o Sul — separação imediata, absoluta e eterna”. Em março de 1861, declarou no Senado que “não possuía qualquer deferência ante o governo da União”. Entretanto, manteve seu assento no Senado e continuaria a receber seu salário de senador enquanto a segurança de sua pessoa estivesse garantida — um espião dentro do conselho supremo da nação e um parasita fraudulento junto ao tesouro estatal.

A bisavó de Mason era filha do célebre senhor William Temple. Ele, portanto, é um parente distante de Palmerston. Mason e Slidell se apresentam ao povo do Norte não meramente como oponentes políticos, mas como inimigos pessoais. Daí o grande júbilo de sua captura, grande o bastante para abafar, nos primeiros dias, mesmo uma preocupação com riscos ameaçadores por parte da Inglaterra.


Notas:

(1) Charles Wilkes. Narrative of the United States exploring expedition during the years 1838, 1839, 1840, 1841, 1842. Philadelphia: Lea & Blanchard, 1845. (retornar ao texto)

(2) Coup de main é um conceito advindo da cultura militar francesa e alemã do século XVI: trata-se de uma tática em que se ataca o adversário de surpresa em um ponto, para então escapar para bater em um outro lugar, ao mesmo tempo que se recua para dar reforço à linha anterior. (retornar ao texto)

(3) O episódio foi relatado na mídia da época como atestado da excentricidade de Mason: ao vestir pano cru cinza, ele estaria mostrando aos inimigos da escravidão como seriam as vestes americanas caso não houvesse um mercado algodoeiro (movido, é claro, por mão-de-obra escrava). O ato, planejado como protesto, tornou-o objeto de ridículo.(retornar ao texto)

(4) Marx se refere, respetivamente, ao Fugitive Slave Act de 1850, à revolta liderada por John Brown no episódio do Bleeding Kansas, e aos trâmites da Secessão em 1861. Ver linha do tempo. (retornar ao texto)

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Inclusão: 18/08/2022