Um Mau Serviço à Unidade dos Trabalhadores

União Democrática Popular

14 de Janeiro de 1977


Primeira Edição: ....

Fonte: Ephemera - Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira

Transcrição: Graham Seaman

HTML: Fernando Araújo.


Resposta da UDP às Recentes Calúnias e Ataques do PCP

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Sérias ameaças pesam sobre o povo português. Prepara se a direita para entrar para o governo e, com ela, um ainda maior aumento do custo de vida e do desemprego, novos ataques contra a Reforma Agrária e contra as liberdades. É hora de unidade e de luta, é hora de todos os antifascistas, todos os trabalhadores portugueses se levantarem e fazerem vigorosamente face ao avanço da direita reaccionária.

Surpreenderam-se pois muitos antifascistas com os ataques desenfreados do PCP, de "o diário”, e de alguns dirigentes sindicais que resolveram tomar como inimigo principal um partido antifascista e revolucionário, a UDP.

Acaba "o diário'' de publicar na sua primeira página, com grande destaque, um comunicado de direcções de sindicatos agrícolas acusando a UDP de estar "contra os trabalhadores e as suas organizações de classe, embora em palavras diga o contrário — o mesmo faz o MRPP, o CDS e o PPD"; falando também de ''manobras divisionistas, intrigas e calúnias de que os trabalhadores têm sido vítimas por parte da reacção, do Casqueiro, do Barreto, passando pelos esquerdistas e divisionistas da UDP e afins"; e finalmente, acusando os trabalhadores agrícolas que militam na UDP de virem "fomentando a preguiça e a anarquia" nas UCPs!

Dias atrás, o Secretariado das Comissões de Trabalhadores da Cintura Industrial de Lisboa tinha-se dedicado a elaborar um comunicado fazendo idênticas acusações à UDP.

Por sua vez, um artigo publicado no dia 2 de Janeiro no "Diário de Lisboa" titulava, a propósito de um comunicado da UDP: "CGTP e PCP visados por ataques da UDP". Não referindo nada de concreto do referido comunicado que comentava sobretudo as negociações secretas entre os quatro partidos e atacava a direita, esse artigo do "Diário de Lisboa" visava divulgar a ideia, profundamente falsa, de uma UDP preocupada acima de tudo em atacar desvairadamente a CGTP e o PCP.

Já semanas antes "o diário" tinha acusado a UDP de neonazi e punha no mesmo saco Acácio Barreiros, Arnaldo Matos e Freitas do Amaral. Ao mesmo tempo, em vários discursos públicos, Álvaro Cunhal e outros dirigentes do PCP tinham atacado furiosamente a UDP apelidando-a de divisionista e reaccionária.

Não há pois lugar para dúvidas: estamos perante uma verdadeira campanha, concertada e comandada pelos dirigentes do PCP e que, servindo-se de "o diário", de um ou outro jornalista de outros jornais, de algumas direcções sindicais que influenciam e de todos os meios ao seu alcance, visa atacar a UDP e as suas posições revolucionárias repetindo mil vezes a calúnia de que a UDP faz o jogo da reacção.

Não podem certamente os militantes antifascistas do PCP, não podem os leitores progressistas de "o diário", não podem os trabalhadores agrícolas nem os sindicalizados concordar com estes furiosos ataques nem com a identificação da UDP com o CDS, o PPD ou o MRPP.

Não podem também certamente os antifascistas concordar que enquanto Soares, Sá Carneiro e Freitas do Amaral são esquecidos, o centro dos ataques do PCP, de certas direcções sindicais e de algumas organizações representativas dos trabalhadores passe a ser a UDP.

É espantoso que perante a ameaça de um governo de direita, perante a crescente arrogância fascista, Álvaro Cunhal vá a Letras e dedique a maior parte das suas intervenções a atacar o PCP(R) e a UDP!

É espantoso que, face à intensificação dos ataques da direita à Reforma Agrária, face ao "esquecimento" de qualquer dos quatro partidos envolvidos nas negociações dessa conquista dos trabalhadores, direcções de sindicatos agrícolas reúnam e no seu comunicado final não falem da luta dos trabalhadores em defesa das UCPs e dediquem as suas linhas aos ataques desenfreados à UDP!

É espantoso que, face ao aumento do desemprego, às desintervenções sucessivas e à miséria crescente, o Secretariado das Comissões de Trabalhadores da Cintura Industrial de Lisboa se reúna e dedique as suas conclusões à UDP, caluniando-a!

É esta a política que os militantes antifascistas do PCP, que os assalariados rurais e os operários de Lisboa pretendem ver seguida?

DE QUE ACUSAM A UDP?

A primeira característica desta campanha, que imediatamente salta a vista de todos os antifascistas sinceros é o absurdo, o incoerente, o vazio de todas estas acusações.

De facto, porque é a UDP divisionista? Porque é a UDP reaccionária? Porque se compara a UDP aos reaccionários e fascistas do PPD, CDS e MRPP?

Sobre isto, nem uma palavra! Nem uma justificação! Não há um único argumento político em toda esta chusma de comunicados, de artigos e de discursos! Não há nem podia haver. Calúnias e calúnias, insultos constantes, mentiras cem vezes repetidas para parecerem verdade — é esta a única arma dos dirigentes do PCP e dos seus instrumentos no ataque à UDP.

Vejamos, por exemplo, a acusação de atacarmos a CGTP. Têm os dirigentes do PCP divulgado ataques imaginários da UDP à central sindical dos trabalhadores portugueses, dizem mesmo que apoiamos a Carta Aberta. Totalmente falso!

A UDP sempre defendeu a organização sindical unitária dos trabalhadores portugueses, sempre defendeu a unidade e a unicidade sindical, sempre apoiou a CGTP, sempre combateu firmemente a Carta Aberta que justamente considera uma ponta de lança da burguesia para dividir os trabalhadores e o movimento sindical. A UDP tem, isso sim, criticado estes dirigentes do secretariado da Intersindical, assim como alguns dirigentes de sindicatos que têm seguido uma política reformista e de conciliação, que se têm recusado a cumprir as exigências da luta dos trabalhadores, que têm boicotado a realização da jornada nacional aprovada nos plenários sindicais e o caderno reivindicativo definido no Congresso dos Sindicatos, que nos seus cinco pontos apresentados para solução do vazio governamental "esquecem" a defesa da Reforma Agrária e a recusa das negociações com o FMI.

É PELAS SUAS POSIÇÕES REVOLUCIONARIAS QUE A UDP É ATACADA

Acusam-nos de divisionismo mas não o provam nem podem provar. Defendemos a unidade dos trabalhadores mas uma unidade baseada na luta firme contra a direita. Criticamos todos aqueles que. como o PCP, conciliam e capitulam perante o avanço dos reaccionários. E se somos vítimas destes ataques injustificados e desenfreados é porque o PCP sente que não tem outros argumentos. O PCP não tem razão e a prova está logo bem à vista dos trabalhadores.

Logo após a queda do governo a UDP alertou para os perigos da direita reaccionária e declarou que só a luta dos trabalhadores poderia impedir a formação de um governo de direita. Impunha-se uma denúncia firme das intenções do PPD e do CDS formarem governo, impunha-se um combate cerrado ao conluio do PS. impunha-se demonstrar a grande força dos trabalhadores e a sua recusa a uma maior viragem à direita na política nacional. Era necessário sair à rua. lutar nos locais de trabalho, nas fábricas e nos campos, mobilizar os trabalhadores, quebrar toda a expectativa, recusar o "pacto social" aberto ou camuflado. Impunha-se uma jornada de luta nacional que. levantando as reivindicações dos trabalhadores, mostrasse que um governo que fosse contra as aspirações populares estaria à partida isolado e derrotado. Foi por isto que batalhámos. Não tinha razão a UDP?

Que fizeram no entanto os dirigentes do PCP?

Opuseram-se à luta dos trabalhadores considerando o momento inoportuno. Sabotaram a jornada de luta nacional chamando divisionistas aos seus proponentes. Andaram a contradizer-se de dia para dia dizendo que não estava em causa a fórmula do governo para depois afirmarem que se opunham a que o CDS para lá fosse, dizendo que a UDP agitava o espantalho da direita para depois afirmarem que a situação era perigosa. Disseram que "nós não temos exigências temos apenas boa vontade" (Álvaro Cunhal em 29.12.77), defenderam "uma pausa que um acordo de classes fixasse" (Angelo Veloso em 7.1.78 ao J.N.). Embrenharam-se em acordos com o PS, nas costas do povo, e procederam como se uma solução de governo favorável aos trabalhadores dependesse dessas conversações e manobras de gabinete.

A prova dos nove vai ser tirada. A formação de um governo de direita com a participação do CDS é quase certa, as ameaças ao 25 de Abril avolumam-se. Cabe agora perguntar se não tem o PCP responsabilidades na expectativa criada e se a sua "hábil táctica" serviu para alguma coisa senão para favorecer as manobras da direita e a formação de um governo de direita.

A UDP responde que sim, e que é precisamente para esconder a sua conciliação com a direita reaccionária que o PCP move neste momento uma campanha tão furiosa contra aqueles que têm mantido posições revolucionárias firmes e consequentes.

A REACÇÃO NÃO PASSARÁ

Pretendem os dirigentes do PCP desviar a atenção dos seus militantes e dos trabalhadores não só das suas traições como da luta revolucionária contra a direita.

Pretendem criar um clima sectário contra a UDP e outras forças antifascistas consequentes mesmo dividindo os trabalhadores, pretendem criar um ambiente semelhante àquele que em tempos fomentaram, quando mal qualquer trabalhador se levantava apresentando propostas de luta, imediatamente o assobiavam gritando ''Abaixo a reacção". Não estão ainda os trabalhadores esquecidos das calúnias levantadas contra os revolucionários que eram acusados de pertencer à CIA só por não concordarem com as propostas de conciliação do PCP.

Mas está a UDP firmemente convicta de que os antifascistas, os trabalhadores, o povo português não se deixarão ludibriar por esta manobra de diversão, não esquecerão a luta contra o fascismo, a burguesia e o imperialismo, inimigos ferozes das liberdades, do progresso e do povo. Qualquer governo de direita não terá um minuto de descanso e será derrotado pelo fogo da luta popular contra todas as suas medidas reaccionárias.

A UDP tudo fará para quê a direita e o fascismo encontrem pela sua frente a barreira de aço da luta e da unidade popular e não se deixará atemorizar pelos ataques furibundos do PCP nem pela política de todos aqueles que entravam a marcha do nosso povo para a liberdade, o progresso e o socialismo.

14 de Janeiro de 1977

A Comissão Permanente do Conselho Nacional da UDP UNIÃO DEMOCRÁTICA POPULAR


Inclusão 10/04/2019