Operação “Mãos sujas”

António Barata

Setembro de 1994


Observação: António Barata é trabalhador gráfico. Militou na UDP e no PCP(R) entre 1976 e 1984, tendo participado na cisão encabeçada por Francisco Martins Rodrigues que levou à criação da Organização Comunista Política Operária, fazendo desde então parte do colectivo redactorial do jornal Política Operária. Tem integrado e participado em movimentos de defesa de presos políticos, anti-racistas e anticoloniais, antimilitaristas, contra a celebração do 5º centenário da “descoberta” da América, contra as guerras imperialistas, de defesa dos direitos dos imigrantes, pelo direito à habitação, de solidariedade com a Palestina etc.

Transcrição: Ana Barradas

HTML: Fernando Araújo.


Com o processo Ferreira Torres arquivado, o “mistério” continua impenetrável. Não há que estranhar – envolve o PS, PSD, Igreja Católica, Conselho da Revolução, Mário Soares, Spínola, Eanes, Alpoim Calvão, cónego Melo… toda a “bela sociedade” mafiosa que na época se afadigava na luta contra o “anarcopopulismo”

O ajuste de contas entre os operacionais e cabecilhas da rede bombista conheceu um novo episódio. A poucos dias do arquivamento do processo relativo ao assassinato de Ferreira Torres por prescrição do prazo, Macedo Correia e o irmão do assassinado voltaram a ameaçar contar o que sabem. E enquanto o primeiro prometia para breve um livro altamente comprometedor, Avelino Ferreira Torres, qual “capo” napolitano, ameaçava mandar matar o autor do atentado que vitimou o irmão. Mas, assente a poeira, parece que tudo vai ficar na mesma.

NINHO DE VÍVORAS

O mais significativo nas confusas acusações e contra-acusações dos bombistas é a sua desajeitada tentativa para despolitizar o assassinato de Ferreira Torres e o desligar da morte do padre Max e da estudante Maria de Lurdes Correia. Disso foi encarregado José Freitas, ex-segurança do CDS e homem de mão do ELP/MDLP, a cumprir pena por assassinato, que afirmou ter-se devido a morte de Ferreira Torres a um ajuste de contas entre traficantes de diamantes; a política nada teria a ver com o assunto e a PJ-DCCB há muito o poderia ter confirmado se em tal estivesse interessada, assegurou.

Mas o expediente depressa caiu por terra quando a família do industrial financiador dos bombistas acusou formalmente o comandantes Alpoim Calvão e o inspector Júlio Regadas, já falecido, como autores do assassinato. Embora a menção a estes nomes pretenda nitidamente desviar as atenções dos principais responsáveis, como o marechal Spínola e o cónego Melo, ela desmente a teoria do negócio de diamantes e aproxima-se do melindroso centro da teia.

Do mesmo modo, as insinuações de Macedo Correia, apontado à boca pequena como um dos implicados nas mortes do padre Max e de Maria de Lurdes, contêm um recado: ele não está disposto a servir de bode expiatório, e poderá arrastar consigo vário notáveis do regime caso o deixem cair.

TERRORISMO DE ESTADO

Novidade também incómoda para a classe política foram os esclarecimentos prestados a um semanário por um oficial dos serviços de informação espanhóis, que terá estado clandestinamente em Portugal entre 1979 e 1983 integrando um grupo policial do país vizinho para investigar o caso Ferreira Torres. Segundo ele, não restam dúvidas sobre o “móbil político do crime” e “não teria sido difícil à polícia portuguesa esclarecê-lo”, se as investigações não tivessem sido “obstruídas por pressão governamental”.

Embora limitando-se a confirmar factos do domínio público silenciados pelo “interesse nacional”, estas declarações valem por mais uma vez desnudarem a teia de sórdidas conivências que unem, nesta questão, PS, PSD e CDS – os partidos que têm partilhado o poder – com a Igreja católica, polícias e tribunais, sem falar nos serviços secretos estrangeiros.

Não estranhemos, portanto, se as investigações sobre o crime vierem a atribuir culpas a algum bombista falecido ou a um ex-operacional sem eira nem beira. Ainda não chegou a hora de uma operação “mãos limpas” em Portugal, que varra o lixo deixado pelo empreendimento mafioso a que se chamou a “defesa da democracia” e a “luta contra o anarcopopulismo”.


Inclusão: 30/04/2020