De onde vem o amor da nossa burguesia abrilista pelas liberdades

António Barata

2 de dezembro de 2018


Fonte: Bandeira Vermelha — https://bandeiravermelhablog1.wordpress.com/2018/12/02/de-onde-vem-o-amor-da-nossa-burguesia-abrilista-pelas-liberdades/

Observação: António Barata é trabalhador gráfico. Militou na UDP e no PCP(R) entre 1976 e 1984, tendo participado na cisão encabeçada por Francisco Martins Rodrigues que levou à criação da Organização Comunista Política Operária, fazendo desde então parte do colectivo redactorial do jornal Política Operária. Tem integrado e participado em movimentos de defesa de presos políticos, anti-racistas e anticoloniais, antimilitaristas, contra a celebração do 5º centenário da “descoberta” da América, contra as guerras imperialistas, de defesa dos direitos dos imigrantes, pelo direito à habitação, de solidariedade com a Palestina etc.

Transcrição: Ana Barradas

HTML: Fernando Araújo.


Em silêncio, ignorado, passou mais um aniversário, o 43º, sobre o golpe político-militar do 25 de Novembro de 1975, que pôs fim à crise pré-revolucionária que se seguiu ao 25 de Abril e restaurou a ordem burguesa, devolvendo-lhe as principais alavancas do poder e o controlo dos aparelhos repressivos, em particular as forças armadas.

Encomendado pela CIA, que fez deslocar para Lisboa o seu agente Frank Carlucci sob o disfarce de embaixador, no golpe empenharam-se políticos, militares e a igreja católica, uma aliança que foi da social-democracia aos fascistas e bombistas, e para cujo êxito foi fundamental a neutralidade do PCP  – negociada por Melo Antunes e Álvaro Cunhal –, deixando isolada a esquerda revolucionária que, sem qualquer estratégia que não passasse pelos militares de esquerda, capitulou sem luta quando estes se mantiveram quietos nos quartéis. É conhecida a gratidão e o apareço da burguesia portuguesa a Frank Carlucci, de quem Mário Soares se tornou grande amigo. Depois da “normalização democrática” ele tornou-se uma espécie de eminencia parda participando em diversos negócios, em particular no imobiliário (Euroamer/Grupo Carlyle), com os grandes da banca portuguesa, como a família Espírito Santo ou Américo Amorim. Isto apesar de ser conhecido o seu envolvimento directo no assassinato do líder anticolonialista e chefe de estado congolês Patrice Lumumba, em 1960, na intervenção da ONU que pôs no poder o corrupto lacaio dos EUA, Mobutu, e no golpe militar que instaurou a ditadura fascista no Brasil em 1964.

Hoje, sem as discussões apaixonadas de há alguns anos, tornou-se um lugar-comum dizer que o 25 de Novembro repôs o espírito libertador e democrático do 25 de Abril, fazendo passar por verdade a conveniente versão da burguesia sobre o que foi esse golpe e o que ele representou quanto ao silenciamento da voz e do querer dos explorados portugueses. Como pode ela invocar e fazer passar como verdadeira a lenda de que o 25 de Novembro foi a defesa e a reposição das liberdades ameaçadas pelo “totalitarismo de esquerda”, essa mesma burguesia que conviveu harmoniosamente durante 40 anos com o salazarismo e que até ao final dos anos 60 defendeu com unhas e dentes o império e a guerra colonial e que, passados mais de 40 anos sobre o 25 de Abril, ainda conserva tiques autoritários – veja-se a forma como o governo violou há dias a lei da greve, combinando com o patronato da Autoeuropa e da estiva de Setúbal a maneira de furar a greve dos estivadores daquele porto, enviando a polícia para proteger os fura-greves; ou a prepotência do quero, posso e mando relativamente aos professores e aos enfermeiros; a complacência com que trata os juízes que proferem sentenças que deixam impunes violadores e agressores e culpam as vítimas por “se porem a jeito”, ou ainda on esbulho a que sujeito os trabalhadores portugueses durante a troika e o despudor como na altura reprimiu os protestos populares e legitimou os espancamentos e abusos policiais, por exemplo.

Por isso interessa reflectir sobre a reciclagem da nossa classe dominante de colonial-fascista a democrática, e a persistência desses e outros tiques autoritários. Para a burguesia portuguesa, seja ela democrática ou salazarista, a questão de alienar o império nunca se pôs. Por isso ela foi surpreendida pelo golpe militar do 25 de Abril sem qualquer plano. Apanhada de surpresa pelos acontecimentos, foi ultrapassada pelo movimento popular que, sem oposição, se foi radicalizando e criando uma situação pré-revolucionária.

Para a burguesia portuguesa, o neocolonialismo nunca pôde ser uma solução pura a o problema colonial. Embora para isso tenha sido fortemente pressionado pelos EUA, as potências europeias e a NATO após a segunda guerra mundial, o carácter essencialmente agrícola e comercial da sua economia não lho permitia. Daí que a dominação das “províncias ultramarinas” tivesse obrigatoriamente de ser exercida à bruta, pela ocupação militar, e não pelos métodos sofisticados e “invisíveis” da exportação de capitais. Se a viragem neocolonial preconizada por Norton de Matos, Botelho Moniz, Adriano Moreira e Spínola não vingou; se o não reconhecimento do direito à autodeterminação e as guerras coloniais foram a grande causa nacional que uniu todas as classes e as sensibilidades burguesas desde o século passado; se este unanimismo colonial-patriótico entre monárquicos, republicanos, salazaristas e social-democratas só foi quebrado no fim dos anos 60, quando se começou a desenhar a derrota das tropas portuguesas –, a explicação só pode ser uma: todas as camadas e classes que constituíram a burguesia nacional estavam conscientes dos seus limites, isto é, do atraso estrutural da economia portuguesa, dependente e sem indústria pesada, e que, nestas condições, seria suicídio tentar competir com os países industrializados da Europa e a América do Norte. É esta a razão por que nunca vingaram os projectos neocoloniais. Não a obstinação tacanha que dizem ter acometido Salazar após a segunda guerra, como é moda agora pensar.

Então, se não foram as miragens neocoloniais a que se agarrou a burguesia colonial-fascista na tentativa de sobreviver, o que é que a fez tornar-se tão progressista e revolucionária, de um dia para o outro, após o 25 de Abril? O que fez a burguesia democrática, principalmente a pequena – não a salazarista, essa encontrava-se em fuga, borrada de medo e de malas feitas para o Brasil, deixando a banca, os negócios, as terras e fábricas ao abandono – “descobrir-se” amiga dos trabalhadores e do socialismo, foi o colapso do poder, que se transferiu dos ministérios para a rua. Constantemente ultrapassados pelos acontecimentos, ministros e Junta de Salvação Nacional assistiam impotentes à explosão e radicalização do movimento popular, à paralisação do aparelho repressivo, à passagem dos soldados para o lado do povo que era suposto reprimirem, a um MFA cada vez mais permeável à vontade popular, ao país varrido por greves e plenários, ao saneamento de patrões, pides e bufos, à recusa de mais embarques de soldados para as colónias, às ocupações de casas e terras, aos trabalhadores a ensaiarem formas de autogestão nas fábricas abandonadas pelos patrões, etc., etc., etc. Foi a desagregação crescente da ordem burguesa por todo esse movimento popular e revolucionário, que incontrolado varreu o país até às eleições para a Constituinte, que obrigou a grande burguesia democrática, e fundamentalmente a pequena burguesia, a travestirem-se de socialistas e, em desespero de causa, até de comunistas. Constantemente ultrapassada pelos acontecimentos e com o poder do estado cada vez mais transformado em ficção, com a política a ser imposta pelo povo nas ruas, a burguesia procurava unicamente estar com as massas, com os operários, para os iludir e fazer recuar, oferecendo-lhes versões tão recuadas quanto possível daquilo que as vanguardas revolucionárias propunham.

A sua primeira grande e decisiva vitória pelo controlo e domesticação do movimento popular e revolucionário obteve-a quando convenceu os partidos, as organizações populares e revolucionárias e o MFA, da necessidade de cumprirem o prazo das eleições para a Assembleia Constituinte. Com o PS e o PPD, partidos da pequena e média burguesia ao serviço da grande, a arrecadarem 2/3 dos votos, o argumento da legitimidade revolucionária em que se apoiavam as massas populares para imporem a sua vontade a, partir das ruas, dos campos, fábricas e quartéis, deixou de ter sentido. Agora havia que respeitar a vontade popular expressa nas urnas. Ou seja, a burguesia, através do PS e do PSD, exigia retomar as rédeas do poder e fazê-lo regressar aos gabinetes, tirá-lo das ruas.

Era a falta de meios do estado para se fazer obedecer que fazia correr a burguesia. Foi o medo provocado pela erupção incontrolada do movimento popular e revolucionário, espicaçado pelos desajeitados golpes reaccionários de Spínola, que dispôs a burguesia a engolir os sapos e elefantes que fossem precisos para ganhar a cabeça do movimento popular e domá-lo.

A isto se reduz o seu amor à democracia e às liberdades.


Inclusão: 30/04/2020