A Propósito do Discurso do Presidente Eisenhower

Pravda

25 de Abril de 1953


Primeira Edição: Artigo publicado pelo jornal "Pravda" de 25 de abril de 1953.
Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 47 - Julho de 1953.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

Oito anos se passaram depois da vitória dos Aliados — U.R.S.S., Estados Unidos, Inglaterra e França — sobre o fascismo hitlerista e depois do fim da segunda guerra mundial. Os soviéticos suportaram o peso principal dessa grande luta. E isso para salvaguardar a liberdade e a independência de sua pátria, para ajudar os povos subjugados da Europa a se libertarem do jugo fascista e para assegurar, após a guerra, uma paz duradoura e a segurança internacional.

Defendendo sem desfalecimentos a causa da paz entre os povos, a União Soviética se esforça, como no passado, para desenvolver a cooperação internacional. Os discursos pronunciados a 9 de março de 1953 por G. Malênkov, L. Beria e V. Molotov [leia o discursos: Malenkov, Beria, Molotov] exprimem a vontade inabalável do povo soviético de consolidar a paz universal.

Em 16 de abril o presidente dos Estados Unidos, Eisenhower, pronunciou perante a Associação dos diretores de jornais americanos um discurso consagrado às questões internacionais. Esse discurso, surgiu como uma resposta às recentes declarações do governo soviético sobre a possibilidade de uma solução pacífica das questões internacionais em litígio.

É isto, precisamente, o que explica o interesse manifestado em todos os países, em torno do discurso presidencial, nos altos círculos sociais, que aguardavam a reação dos dirigentes do bloco anglo-americano à manifestação renovada das aspirações pacíficas da U.R.S.S.

As seguintes palavras do presidente Eisenhower foram acolhidas com simpatia:

"Procuramos uma paz verdadeira e completa em toda Ásia assim como em todo o mundo",

da mesma forma que a sua declaração, segundo a qual

"Nenhuma dessas questões litigiosas, seja ande ou pequena, é insolúvel se houver a vontade de respeitar os direitos de todos os outros países".

Todavia, as palavras do presidente sobre a paz e sobre o fato de que nennuma das questões em litígio é insolúvel, estão em contradição com outras passagens de seu discurso.

Todo aquele que queira ver no discurso de Eisenhower uma verdadeira aspiração à paz, não pode deixar de perguntar por que, num discurso de apelo à paz, o presidente achou que devia agitar de maneira inequívoca a ameaça de uma eventual "guerra atômica". Será que realmente argumentos desse gênero tornam mais convincente o discurso do presidente sobre a paz? Em todo o caso, no que concerne à União Soviética, esses argumentos, ou, para falar mas claramente, essas ameaças, jamais atingiram e jamais poderão atingir seu objetivo.

O presidente dos Estados Unidos abordou em seu discurso uma série de problemas internacionais de diferentes graus de importância. Mas, no fim de contas, ele consagrou seu discurso sobretudo à questão das relações com a União Soviética. Declarou:

"Eu não conheço senão uma questão da qual depende o progresso. Essa questão se resume a isso: "que fará a União Soviética?"

E acrescenta:

"Há um forma muito simples para se saber a verdade. Só podemos nos convencer através de atos".

Muito bem, não se pode deixar de concordar: atos valem mais que palavras.

Assim, examinemos esses importantes problemas internacionais de cuja justa solução depende o reforçamento da paz.

Pôr Fim à Guerra da Coréia

Antes de tudo, a questão coreana.

Pode-se negar que, nestes últimos anos, questões como as da guerra da Coréia, do restabelecimento da unidade nacional da Coréia, estiveram no centro da atenção dos meios internacionais? Sabe-se que são precisamente estas questões que serviram de teste à política exterior de numerosos países durante estes anos.

O povo soviético apoiou constantemente todas as demarches visando à conclusão de um armistício justo na Coréia. A recente proposta dos governos da República Popular da China e da República Democrática Popular da Coréia, que deu uma nova possibilidade de passar das palavras às ações e de abrir a perspectiva para o fim da guerra da Coréia, teve também o apoio do governo soviético.

Aqueles que procuram respostas concretas — não em palavras mas em atos — visando resolver as questões atuais relativas às relações internacionais, podem avaliar a importância do fato acima mencionado.

Examinemos outros problemas internacionais.

Por uma Solução Pacífica do Problema Alemão

Quem pode omitir, por exemplo, a questão alemã ou esquivar-se através de frases gerais diante de um problema internacional tão portante como é o restabelecimento da unidade nacional da Alemanha à base de princípios democráticos e pacíficos? Quem pode estar satisfeito, não somente na Alemanha mas também fora das fronteiras desse país, quando tal ou qual Estado aborda esta questão, por exemplo, considerando muito simplesmente a parte ocidental da Alemanha como um instrumento de sua política exterior "dinâmica" na Europa sem ter em conta a reação de certos povos da Europa, sobretudo o povo francês que foi mais de uma vez vítima da Alemanha militarista?

Não é claro que a solução da questão alemã exige que sejam tidos em conta os interesses vitais de todos os vizinhos da Alemanha interesse do reforçamento da paz na Europa e que sejam absolutamte consideradas sobretudo as aspirações nacionais do povo alemão.

O discurso do presidente dos Estados Unidos não fornece base à solução desse problema. Ele não toma em consideração a existência dos acordos de Potsdam, das quatro potências, sobre o problema alemão, como também o fez também o anterior governo dos Estados Unidos. Mas, se reconhece como racional a necessidade de uma solução positiva fdo problema alemão com o espírito de reforçar a paz na Europa, pelo que se esforça constantemente a União Soviética, não é possível omitir os importantes acordos internacionais supracitados que trazem a assinatura de nossos dois Estados, assim como da Inglaterra e da Franca que aderiram a esses acordos.

Se o bloco anglo-americano não tem em conta essas considerações e se continua a avançar no caminho que se traçou, tornando impossível a unificação nacional da Alemanha e transformando a sua parte ocidental em um Estado militarista onde o poder ficará nas mãos dos revanchistas, cometer-se-á um erro fatal, sobretudo em relação ao povo alemão. Ao mesmo tempo, esta atitude na questão alemã é incompatível com os interesses de todos os Estados da Europa desejosos de paz e de toda a humanidade progressista.

Torna-se necessário concluir, o mais rapidamente possível, um tratado de paz com a Alemanha que dê ao povo alemão a possibilidade de unir-se num Estado unificado e de ocupar o lugar que lhe compete na união fraternal dos povos pacíficos, para que sejam em seguida retiradas da Alemanha as tropas de ocupação cuja manutenção constitui um fardo suplementar para o povo da Alemanha.

Reconhecimento dos Direitos da China

No discurso do presidente dos Estados Unidos, que aborda um grande número de questões internacionais, nada se diz da República Popu!ar da China, do estabelecimento dos direitos nacionais da China na Organização das Nações Unidas, assim como dos seus legítimos direitos territoriais, inclusive os que dizem respeito à Ilha Formosa. Essa questão não se relaciona aos problemas internacionais urgentes de hoje? Subsiste entretanto o fato de que em seu longo discurso não se lança nenhuma luz sobre o problema da China. Isso significa que a política ditada pelo desejo de fazer retroceder o desenvolvimento irresistível dos acontecimentos, é seguida obstinadamente em relação à China, se bem que todo homem de bom senso veja que uma tal política é destinada a um fracasso inelutável.

O direito dos povos de disporem de si mesmos

Eisenhower formula em seu discurso cinco "preceitos" que, a seu ver, definem "a atitude dos Estados Unidos no domínio das questões internacionais". Afirma-se nesses "preceitos" que

"toda a humanidade tem sede de Paz, de fraternidade e de justiça", que "todos os países têm o direito inalienável de criar, segundo sua própria escolha, sua forma de governo e seu sistema econômico", que "a tentativa de um país impor a outros países uma forma de governo não pode justificar-se", etc.

Se esses princípios definissem realmente a política dos Estados Unidos e se não passassem unicamente de declarações de ordem geral, deveriam também se traduzir em relação ao problema da Coréia, da Alemanha e da China. Ora, o fato é que essas declarações não são confirmadas por atos, e que até hoje a política real dos Estados Unidos tem considerado muito pouco declarações desse gênero quando se trata de solucionar essas questões internacionais e numerosas outras.

O discurso do presidente dedica uma atenção particular aos povos da Europa oriental. Conclui-se por essas palavras que as formas de governo nos países da Europa oriental seriam impostas de fora se bem que essa afirmação esteja em contradição com os fatos universalmente conhecidos e com a situação real desses países.

Os fatos demonstram que foi somente através de uma luta tenaz pelos seus direitos que os povos da Europa oriental chegaram à atual forma de governo democrático popular e que é somente nas novas condições atuais que podem assegurar em seus Estados um desenvolvimento impetuoso da economia e da cultura. Seria estranho esperar que a União Soviética interviesse em favor da restauração de regimes reacionários derrubados por esses povos.

Ao mesmo tempo, o presidente peca pura e simplesmente contra a lógica histórica universalmente conhecida quando faz um apelo aos dirigentes da União Soviética no sentido de "utilizar sua influência decisiva no mundo comunista" para frear o movimento de libertação que ergue os povos coloniais e semicoloniais da Ásia contra uma opressão e uma escravidão seculares. É difícil demonstrar uma compreensão justa dos problemas internacionais quando se considera que o movimento de libertação nacional seja fomentado por pessoas "mal intencionadas".

O que não se compreende de forma alguma é a menção que o presidente fêz de se conceder "aos outros povos e notadamente aos povos da Europa Oriental" a liberdade de se associarem a outros países numa "comunidade de direito mundial". Todos sabem quem, precisamente, impede a admissão de certos países de democracia popular na Organização das Nações Unidas, quem impede o restabelecimento da grande China em seus direitos legítimos de ingressar na ONU. Os representantes da União Soviética não propuseram admitir na Organização das Nações Unidas quatorze países e a sua proposição não foi recusada pelos votos do bloco anglo-americano?

Quanto à questão austríaca, não se pode deixar de repetir, igualmente, a esse respeito, que também aí não há problema impossível de resolver à base dos acordos anteriormente realizados, respeitando-se realmente os direitos democráticos do povo austríaco.

Para que a ONU possa Salvaguardar Eficazmente a Paz

A propósito da Organização das Nações Unidas, o presidente disse, em seu discurso, que estava pronto a fazer da ONU uma ínstituição capaz de salvaguardar eficazmente a paz e a segurança de todos os povos.

Não é por culpa da União Soviética que essa organização não realiza atualmente a tarefa que lhe incumbe. Todavia, não é tarde demais, mesmo agora, para aumentar a importância de sua atividade, notadamente no que concerne ao reforçamento da paz e da segurança internacional, que é o objetivo essencial para o qual foi criada essa organização.

Para isso, é preciso sobretudo que os princípios da ONU sejam respeitados por todos os seus membros e que as próprias bases de sua carta não sejam violadas.

É indispensável, para isso, que nenhum governo procure fazer da ONU um organismo auxiliar de sua política exterior, porque isso não é compatível nem com os princípios da Organização das Nações Unidas nem com a defesa dos interesses de uma cooperação internacional normal e da consolidação da paz.

Com que objetivo, pergunta-se, os sessenta membros da Organização das Nações Unidas assinaram sua Carta, cuja parte essencial é a regra da unanimidade entre as cinco grandes potências por ocasião do exame, no Conselho de Segurança, dos problemas relativos à manutenção da paz. Evidentemente, não foi para que essa regra reconhecida por todos os países seja pisoteada na prática por certos Estados. E não é evidentemente para que esse princípio internacional seja considerado como uma carga, ou como um entrave ao funcionamento da ONU e do Conselho de Segurança!

Enfim, quem pode julgar normal uma situação em que o maior país do mundo — a China — é privado da possibilidade de participar do trabalho do Conselho de Segurança e da Assembléia Geral e em que, em seu lugar, um fantoche do Kuomintang se incrusta nos organismos da ONU?

Esta situação pode contribuir para reforçar o prestígio da ONU? Pode-se esperar, nessas condições, um desenvolvimento normal da atividade da Organização das Nações Unidas no que concerne ao cumprimento de seus deveres quanto ao reforçamento da paz e da segurança internacional?

Em todo o caso, não se pode fugir à solução desse problema, como de toda uma série de outros problemas internacionais que precisam ser resolvidos. Se todos nós procurarmos agir de forma a haver menos palavras e mais ações, encontrar-se-ão evidentemente meios de resolver toda essa espécie de problemas.

A Cooperação Internacional deve Basear-se no Respeito aos Direitos Soberandos dos Povos

Não sem razão, o presidente ligou em seu discurso a questão da redução dos armamentos à necessidade de conceder maior atenção aos prolemas econômicos, aos problemas da luta contra a pobreza e a miséria. Entretanto, é pouco provável que satisfaça a quem quer que seja se tudo isso se limitar à constituição de um certo "fundo de ajuda ao mundo inteiro", de que trata em seu discurso.

Não é suficiente dar a um tal "fundo" um título retumbante.

Os resultados serão totalmente diferentes se esse problema for abordado à base de uma cooperação realmente ampla e democrática entre os países com um respeito total dos direitos soberanos dos povos e sem que os países beneficiários da ajuda se vejam subjugados por condições políticas.

Por enquanto, o que o presidente diz do "fundo de ajuda ao mundo inteiro" dá a impressão de que se trata de uma nova variante do "plano Marshall" que não cumpriu suas promessas e, ao mesmo tempo, da continuação, sob um outro nome, do impopular "Ponto IV de Truman" que visava, por meio de esmolas irrisórias a tais ou quais Estados fracos, subordinar o orçamento e a economia de certos países e territórios coloniais — e também esses próprios países e territórios — aos chamados objetivos "dinâmicos" da política externa dos Estados Unidos. Vê-se que se trata, no presente momento, de ir mais longe nesse mesmo caminho.

Não se pode deixar de ter em conta o fato de que, nos últimos tempos, a "ajuda" econômica americana seja abertamente recusada, como se vê pelo exemplo da Birmânia e de certos outros Estados.

Sabe-se também que nos últimos tempos um certo número de Estados declararam expressamente que se interessam menos pelo que se chama de "ajuda" dos Estados Unidos, do que em ver os Estados Unidos da América deixarem de levantar constantemente novos obstáculos no caminho do desenvolvimento de um comércio normal entre os Estados, no caminho da ampliação do comércio internacional.

As coisas chegaram a um ponto em que mesmo nos países ligados ao bloco dirigido pelos Estados Unidos, sobretudo na Inglaterra, protesta-se cada vez mais ruidosamente contra as limitações impostas pelos Estados Unidos ao comércio com os Estados do campo democrático.

O Comportamento Belicoso de Foster Dulles

Admitamos que os apelos à paz contidos no discurso do presidente sejam acolhidos por nós com o apoio que merecem. É difícil, todavia, omitir o fato de que, no momento, o curso da política externa dos Estados Unidos está longe desses apelos pacíficos. Isso ressalta de forma concreta, por exemplo, dos comentários feitos ao discurso do presidente, apenas dois dias após, por uma personalidade autorizada como é o secretário de Estado, Dulles.

Não podemos deixar de concordar com o antigo ministro do governo trabalhista inglês Strachey, que caracterizou o discurso de Dulles como o desejo de transformar o discurso de Eisenhower "em um ato de guerra".

Numa certa medida, Dulles esclareceu por que Eisenhower silenciou a respeito da China, o que surpreendeu todo o mundo. Na realidade, o governo dos Estados Unidos está preocupado com o futuro da chamada China "nacionalista", isto é, os homens de Chang Kai Shek expulsos pelo povo chinês para fora das fronteiras do País ao fim de uma luta vitoriosa. Quanto à China realmente nacional, com seu governo democrático popular, o único legal, Dulles considera, inclusive um mérito do governo dos Estados Unidos haver organizado o bloqueio político e econômico da República Popular da China.

O humor belicoso de Dulles é conhecido há muito tempo. É possível que o seu discurso seja uma interpretação um tanto livre do discurso do presidente. Mas não se pode deixar de ter em conta o fato de que Dulles está à frente do Departamento de Estado e que suas palavras concordam, quer queira quer não, com o ponto de vista oficial do governo, que Eisenhower exprimiu.

Eis por que não podemos silenciar sobre a afirmação de Dulles segundo a qual o apelo dos dirigentes soviéticos para uma regulamentação pacífica dos problemas em litígio foi lançado sob a pressão do que se chama a política "de firmeza" dos Estados Unidos. O mundo inteiro sabe que os dirigentes soviéticos não baseiam seus atos em considerações relativas à "firmeza" ou à "doçura" da política de tal ou qual país em relação à U.R.S.S., mas nos interesses fundamentais do povo soviético, nos interesses da paz e da segurança internacional.

Se bem que a atitude belicosa tão do agrado de Dulles possa talvez iludir alguém, é entretanto pouco provável que ela atinja o seu objetivo, em particular no domínio da diplomacia. Ligando a eventualidade das proposições de paz da parte dos Estados Unidos à criação daquilo que se chama a "Comunidade européia de defesa" aos planos de organização das "Forças armadas unificadas incluindo as forças francesas e alemães", isto é, a continuação da corrida aos armamentos, Dulles revelou, talvez contra os seus desejos, o sentido real da política dos Estados Unidos. Mas se o sentido. verdadeiro do discurso de Eisenhower é justamente como surge no discurso mais prolixo pronunciado por Dulles após o discurso do presidente, na mesma sala e perante o mesmo auditório, não pode dar resultados positivos do ponto de vista dos interesses do reforçamento da paz.

Em ligação com estas declarações dos representantes oficiais dos Estados Unidos, é difícil fazer-se um julgamento do que seja atualmente, na realidade, a posição dos Estados Unidos na política externa. Terão eles a intenção de se orientar no sentido do enfraquecimento da tensão internacional e de resolver as questões em litígio na base do respeito aos direitos dos outros povos, ou terão eles a intenção de pros-eguir a política anterior da corrida aos armamentos?

Segundo os dirigentes soviéticos, as propostas orientadas realmente no sentido da paz podem servir de base para o melhoramento das relações internacionais. Isto não significa todavia, que os dirigente soviéticos estejam prontos a considerar como tais novas variantes de velhos processos.

Quem Quer a Paz e Quem Prepara a Guerra?

Em seu discurso, o presidente Eisenhower considerou o balanço do período de após guerra a partir do momento em que "na primavera da vitória, os soldados dos aliados ocidentais encontraram os soldados russos no centro da Europa".

Falando desse balanço, Eisenhower frisa que após o fim da guerra os diferentes países do mundo se separaram para seguir rumos distintos. A esse propósito, em contradição completa com os fatos, Eisenhower apresenta as coisas como se os países do bloco anglo-americano tivessem por objetivo reforçar a paz e a segurança internacional, enquanto que a União Soviética e os Estados amigos da União Soviética não desejariam seguir esse caminho.

Pode-se mesmo compreender, segundo essas palavras, que o restabelecimento da economia soviética destruída pela guerra e o reforçamento da potência econômica da U.R.S.S. no período de após-guerra começam a constituir "um novo perigo de agressão".

Para chegar a estas afirmações a respeito da U.R.S.S., é necessário, pelo menos, haver perdido o senso de objetividade e não ter em conta fatos geralmente conhecidos que testemunham com a maior clareza, não somente os objetivos pacíficos de nosso país, mas também o fato de que a União Soviética era e continua a ser o principal sustentáculo e o fator essencial para a manutenção e o reforçamento da paz universal.

Estas declarações foram feitas pelo presidente com a intenção evidente de apresentar a política do bloco anglo-americano sob um aspecto pacífico, por pouco que seja. Contudo, os números e os fatos citados por ele próprio a respeito das despesas militares elevadas ao extremo nos Estados Unidos, e que aumentam de ano a ano, indicam inteiramente o contrário.

Esses fatos demonstram que há uma militarização sem precedentes de toda a economia americana, que o povo carrega o peso insuportável das despesas de guerra e que a corrida aos armamentos nos Estados Unidos criou no país uma atmosfera de medo e de tensão extrema. Esta política dos Estados Unidos, que contribui para aumentar a histeria de guerra arrasta igualmente para o mesmo caminho um certo grupo de países.

Eisenhower falou das enormes despesas do governo americano com canhões e bombas-foguetes, com bombardeiros e caças, com "destroyers" e outros engenhos de guerra, sem esquecer de louvar a esse propósito o pacto agressivo do Atlàntico-Norte. Ora, todos sabem que a política inspirada pelo pacto do Atlântico-Norte significa colossais despesas de armamentos renovadas incessantemente. É fácil imaginai que enorme gasto de recursos cobrados dos contribuintes americanos, representam a construção e a conservação de bases militares situadas a milhares de quilômetros dos Estados Unidos da América e particularmente nos territórios que se pretendem utilizar com o objetivo de agressão contra a U.R.S.S.

O presidente citou cifras mostrando o que custa a construção de um contra-torpedeiro, de um caça, de um bombardeiro, etc. e quanto se poderá economizar de alqueires de trigo e de toneladas de algodão ou então construir escolas e hospitais, renunciando-se à produção desses engenhos de guerra. Citou, a esse respeito, um bom número de cifras instrutivas. Mas o que o presidente disse absolutamente não basta. Assim, se o presidente dos Estados Unidos houvesse dito o que custa ao povo americano a acumulação de estoques de bombas atômicas, assim como a construção de centenas de bases militares longe das fronteiras dos Estados Unidos — pois isso nada tem em comum com quaisquer interesses do povo dos Estados Unidos — teríamos então um quadro muito mais próximo da realidade e muito mais instrutivo. Mas nota-se claramente que não é "cômodo" ou "vantajoso" falar aberta e claramente dessas questões. Todavia, aí não encontramos de maneira alguma o sentido real desse gênero de fatos. O que aí se exprime é a orientação de uma política exterior que persegue os objetivos irrealizáveis de hegemonia mundial, o que provoca uma resistência crescente por parte de vastas camadas de numerosos países.

Quanto ao nosso país, sabe-se que a União Soviética, preocupando-se sem desfalecimentos com a restauração e o desenvolvimento de sua economia nacional de após-guerra, não enveredou pelo caminho da corrida aos armamentos. Não só a União Soviética não tomou esse caminho como ainda apresentou diversas vêzes propostas concretas, convidando as grandes potências, juntamente com os outros Estados, a tomar medidas decisivas para a redução dos armamentos, redução imediata das forças armadas e das despesas militares e, ao mesmo tempo, conclusão de um acordo para interdição da arma atômica, instituindo-se simultaneamente um controle internacional eficaz da aplicação de todas essas medidas, a fim de excluir a possibilidade de uma violação dessas decisões por qualquer Estado.

Eisenhower aborda em seu discurso a questão da redução dos armamentos. Consagrou-lhe cinco pontos. O lado soviético, evidentemente, nada tem a objetar às propostas expostas nesses pontos. Entretanto, todas essas propostas têm um caráter muito geral, o que está longe de poder facilitar o progresso do urgente problema da redução dos armamentos.

Parece, segundo Eisenhower, que o governo dos Estados Unidos teria sido sempre partidário de uma redução dos armamentos, enquanto que a União Soviética se teria colocado em posições opostas e teria criado obstáculos a essa redução.

Vê-se nisso a tentativa de fazer cair sobre a União Soviética a responsabilidade da corrida aos armamentos seguida nos anos de após-guerra pelos países do bloco anglo-americano. Contudo, essas tentativas não têm nenhum fundamento e não exprimem senão o desejo fazer recair suas próprias faltas sobre outros.

Vejamos, é na União Soviética que se cantam louvores à guerra da Coréia e à corrida aos armamentos como um "business" vantajoso, como o melhor meio de assegurar a boa marcha dos negócios e o pleno emprego da população? É na União Soviética que existe o que se chama "mêdo da paz" e onde as cotações da Bolsa caem quando se anuncia um enfraquecimento da tensão internacional? Tudo isso se passa não na União Soviética mas nos Estados Unidos da América. Por que trazer à baila a União Soviética que não tem necessidade da corrida aos armamentos, que sempre se manifestou e continua se manifestando por uma paz sólida e duradoura e que não tem mêdo da paz?

Eisenhower tem evidentemente razão quando diz que depois da vitória sobre a Alemanha hitlerista os caminhos da U.R.S.S. e dos Estados Unidos divergiram. Mas em seu discurso de 16 de abril, esse fato é interpretado de maneira inexata, pode-se mesmo dizer, deformada.

Se nos colocarmos sobre o terreno sólido dos fatos, toda a imprecisão nesse caso desaparecerá completamente. Não se pode, com efeito, ocultar o fato de que os países do bloco anglo-americano que haviam sido aliados da U.R.S.S. no curso da última guerra mundial, mudaram a orientação de sua. política imediatamente após o fim da guerra. Sob numerosos aspectos voltaram ao antigo caminho de antes da guerra, quando sua atitude em relação à União Soviética não podia de forma alguma ser qualificada de amigável e sua política era, geralmente, orientada num sentido oposto.

Não temos a intenção de nos envolver numa discussão com o presidente, a respeito de sua afirmação bastante estranha, quanto a um pretenso fim de uma certa era da política soviética. Mas não podemos registrar sem espanto sua conclusão segundo a qual o governo da U.R.S.S. deve renunciar à continuação de sua política exterior, cuja justeza é demonstrada por todo o curso dos acontecimentos internacionais.

Se se fosse ligar o início ou o fim de uma era ao aparecimento de novas personalidades à frente de tal ou qual Estado, nós teríamos razão de falar do fim de uma era na política dos Estados Unidos devida à subida de Eisenhower ao poder. Mas, não se sabe por que, o novo presidente dos Estados Unidos faz, ele mesmo, a defesa, sem qualquer restrição, de toda a política de seu predecessor que sob diversos aspectos, não sem razão, em numerosas ocasiões, sobretudo durante a campanha eleitoral, teve oportunidade de criticar.

Como Regular as Questões Internacionais em Litígio

O presidente declarou em seu discurso que estaria pronto "a saudar toda demonstração autêntica de intenções pacíficas". Ao mesmo tempo, ele pergunta: que pretende fazer a União Soviética?

Sabe-se que a União Soviética declarou-se sempre pronta a discutir e a decidir por via amigável as questões internacionais amadurecidas, sob a condição de que as soluções propostas, sejam quais forem seus autores, por muito pouco aceitáveis que sejam, não contrariem os interesses fundamentais do povo soviético e os dos outros povos pacíficos.

O presidente dos Estados Unidos, não se sabe por que, julggou por bem em seu discurso ligar essas proposições de paz a toda uma série de condições prévias apresentadas à União Soviética, se bem que em seu discurso, essas pretensões não comportem obrigações correspondentes para os Estados Unidos.

Essa forma de colocar a questão já provocou uma legítima reação nos meios internacionais mais diversos. E não podia deixar de causar surpresa às pessoas capazes de fazer um julgamento realista, tanto sobre os problemas internacionais amadurecidos como sobre a correlação real das forças e dos fatores que caracterizam a situação internacional. O jornal inglês "Times" salientou com muita razão que «nenhum país — seja a União Soviética, os Estados Unidos ou a Inglaterra — desejará discutir medidas de paz em condições inapeláveis".

Sabe-se que os dirigentes soviéticos não ligam seu apelo para uma regulamentação pacífica dos problemas internacionais a nenhuma exigência prévia dirigida aos Estados Unidos ou a outros países aderentes ou não ao bloco anglo-americano. Isto significa que a parte soviética não apresenta nenhuma condição? Não. Apesar disso, os dirigentes soviéticos saudarão toda demarche do governo do Estados Unidos ou do governo de outro país se visar à regulamentação amigável das questões em litígio. Isto mostra que o lado soviético está pronto a uma discussão séria, concreta, desses problemas, tanto pela via das conversações diretas, nos casos onde for necessário, como no âmbito da ONU

Foi dito no discurso do presidente que, para a solução das questões internacionais em litígio, "os Estados Unidos estão prontos a assumir uma parte equitativa". Nada veio confirmar essa declaração feita no discurso de Eisenhower, em 16 de abril. Entretanto, esta declaração precisa ser confirmada.

No que concerne à U.R.S.S., não há razão alguma para duvidar de que esteja pronta a assumir a parte que lhe cabe na solução das questões internacionais em litígio. Isto a União Soviética demonstrou mais de uma vez nas questões internacionais importantes.

Esta é a situação internacional, tal como se apresenta em nossos dias.

A política seguida pela União Soviética não pode estar em contradição com os interesses dos outros Estados desejosos de paz. Ela corresponde às aspirações de todos os Estados que estão prontos a contribuir para o desenvolvimento da cooperação internacional, independentemente de tal ou qual sistema social. Esta política da U.R.S.S. é, ao mesmo tempo, a expressão dos mais profundos anseios de nosso povo de fortalecer a paz universal.


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Inclusão 07/03/2011