Todos são responsáveis

Neno Vasco

14 de agosto de 1915


Primeira Edição: A Lanterna (de S. Paulo), N.º 282, 14 de agosto de 1915.

Fonte: https://ultimabarricada.wordpress.com/todos-sao-responsaveis/

Transcrição e HTML: Fernando Araújo.


Quais são as causas e os causadores da atual chacina internacional?

Para quem trabalha pela supressão das fontes primeiras de todas as lutas inter-humanas, a questão essencial é clara. As causas fundamentais da guerra são o Capitalismo e o Estado: o Capitalismo, promovendo antagonismos vitais, criando grupos de interesses bastante fortes para arrastar o país a sacrificar-se por eles; o Estado, isto é, a violência organizada, servindo aqueles interesses, mantendo dentro das fronteiras as massas na sujeição e representando falsamente um povo inteiro, sem exclusão dos oprimidos e explorados.

Revelar e salientar essas causas é a função especial dos revolucionários sociais, que não são demais para ela. E nesse sentido, fixar o grau das responsabilidades secundárias, avolumar as diferenças, é encobrir as verdadeiras causas e absolver os verdadeiros réus.

E será fácil, aliás, estabelecer essas responsabilidades derivadas, de ordem política, militar e diplomática?

Quem escuta só as alegações de um dos grupos beligerantes, baseadas em factos reconhecidos por adversários, e encara os acontecimentos do seu ponto de vista é naturalmente levado a dar-lhe razão e a aceitar a necessidade de todos os seus atos, mesmos os de aparência agressiva. Cada país parece fazer uma guerra de defesa e disso está efetivamente persuadida a grande massa de cada um deles, incluindo os contraditórios socialistas-patriotas.

Cada um grupo de aliados acusa o inimigo de ter preparado e provocado a carnificina. Inútil insistir nas acusações feitas aos austro-alemães amplamente conhecidas no Brasil e em Portugal. Mas as que pesam sobre os outros não são menores.

Num estudo cuidadoso, o escritor inglês Morel, secretário da Union of Democratic Control, mostrou que, nos dez anos anteriores à guerra, a Rússia e a França gastaram cerca de 160 milhões de libras esterlinas mais do que a Alemanha e a Áustria em preparativos militares. Na marinha de guerra, ultimamente, vinha à frente das despesas a Inglaterra, depois a Rússia, depois a França, em quarto lugar a Alemanha. E que aqueles armamentos não eram para mera defesa de nações pacíficas, mostram-no claramente as aventuras coloniais, provocadas pelas oligarquias político-financeiras e militares de vários grupos de potências e por causa das quais esteve a cada passo iminente a conflagração europeia. A de Marrocos foi a mais perigosa.

Mas passemos aos pretextos ou causas imediatas da atual conflagração. A Áustria e a Alemanha acusam a Rússia de ter tornado inevitável e a guerra pelos seus manejos panslavistas nos Balcãs e na Galícia; pela sua pressa em decretar a mobilização, primeiro parcial, depois geral, quando já a Áustria se mostrava disposta a entrar em acordo; pela sua recusa de desmobilizar, alegando dificuldades técnicas, quando lho pediu a Alemanha; pelas importantes medidas militares tomadas nos últimos tempos. A França é acusada de não fazer pressão em S. Petersburgo (hoje Petrogrado) para refrear os ardores bélicos da Rússia, tomando os apelos de Berlim como manejos para desfazer a aliança franco-russa. Quanto à Inglaterra, culpam-na de, tendo podido evitar o conflito com uma simples ameaça de neutralidade, haver pelo contrário encorajado a Rússia e a França com a prévia garantia da sua cooperação.

O mais seguro é não ter razão nenhum dos partidos separadamente e terem-na ambos em conjunto. Saber quem, ante o público, iniciou as hostilidades é no fundo uma questão mínima. Quando vemos dois grupos, igualmente armados e animados de propósitos guerreiros, avançarem um para o outro, que nos importa saber de qual deles partiu a primeira bordoada?

Teoricamente, ainda os estudiosos poderão determinar as várias doses de responsabilidade; mas na prática, especialmente no período agudo da crise, a grande massa acreditará piamente no que lhe impingirem o governo e a grande imprensa, e nem os mais precavidos terão meio de se informar. Na Alemanha fez-se crer ao povo, no começo, que fora invadido o solo da pátria e violada a neutralidade belga pelos franceses.

Se em vez da Alemanha tivesse sido a Rússia a primeira a declarar oficialmente a guerra e se a França tivesse depois, como a Itália, tomado igualmente a iniciativa da declaração, para impedir a vitória do imperialismo germânico e da hegemonia alemã, julgais vós que não teriam produzido o mesmo efeito os lindos fogos de vistas da defesa da pátria, da democracia europeia e da independência dos povos? A Inglaterra, que tomou a iniciativa de declarar a guerra à Alemanha, teria procedido da mesma forma, como o reconheceram os seus estadistas e a sua imprensa, se a Bélgica não houvesse sido invadida: nem por isso haviam de faltar, para entusiasmo das gentes, os nobres pretextos a invocar.

Quem verdadeiramente começou, ninguém o sabe, não o pode saber sobretudo o povo. A iniciativa da declaração ou da invasão é tomada como uma questão puramente técnica, como diz um socialista norte-americano. E nós não a podemos tampouco ter em conta, e muito menos basear sobre ela, previamente, uma ação prática: contrariamente, ao que fizeram quase todos os sociais democratas dos diversos países, os revolucionários devem esforçar para que a ação operária anti-militarista e antiguerreira não se funde nessa distinção de responsabilidades, impraticável e estranha aos interesses do proletariado, como classe que quer emancipar-se.

Se a social-democracia austro-alemã estivesse animada de verdadeiro espírito socialista, revolucionário e internacionalista e decidida a opor-se a uma guerra, sem distinções superficiais ou sofísticas, teria certamente aproveitado a circunstância de ter partido dos impérios centrais a declaração oficial, o rompimento das hostilidades, pois que ela lhe facilitaria a ação revolucionária. Mas para isso era justamente necessário ter posto de parte o conceito burguês de Pátria-Estado, não ter admitido as guerras de «defesa?, sempre fáceis de arranjar na hora trágica, não haver educado os trabalhadores nessas ideias antiproletárias e conservadoras.

Só a social-democracia germânica o devia ter feito, como tática, para dentro de seu próprio país frisar bem as responsabilidades do seu próprio governo, fazendo sobressair a sua vontade de guerra e concitando contra ele as cóleras e revoltas do povo. Mas não o devem fazer os de fora, para calar ou obscurecer as causas primaciais das guerras, para desculpar ou favorecer os seus governos.

Não o devem fazer, porque, atribuindo ao estrangeiro a culpa da chacina, dão força ao seu inimigo interno, justificam no seu país o militarismo e os armamentos e proporcionam aos governos dos países «inimigos» uma boa arma contra os seus camaradas de além-fronteiras.

Os governos e patriotas, para obter a unanimidade do seu povo e combater o internacionalismo, apregoam o exemplo dos revolucionários que no exterior foram arrastados na onda guerreira; ao passo que os antiguerristas, fazendo silêncio sobre as nocivas palinódias, invocam a atitude dos que lá fora se mantiveram fiéis à Internacional do trabalho.


Inclusão: 24/06/2021