A Defesa Acusa
De Babeuf a Dmítrov

Marcel Willard


O PROCESSO DE LEIPZIG
A Mais Rude Vitoria


capa

É possível imaginar-se bem a tensão de energia que foi necessário realizar, depois conservar, para adquirir e permitir nesse autodomínio, nessa vitória de cada instante sobre si mesmo, a qual iria assegurar a Dmitrov sua autoridade, sua dominação, sua vitória sobre o inimigo?

A partir do dia em que foi preso, implicado nessa ofensiva de provocação, que ilusão pode ter alimentado esse velho lutador sobre sua sorte?

Membro da Internacional Comunista, “agente do estrangeiro”, chefe responsável do exército inimigo, esse refém de escol representa precisamente o que é mister abater: por cima de sua cabeça faz-se o jogo da “missão civilizadora” do regime e jogo forte.

Como escaparia à morte? Talvez não ousassem manter contra ele essa acusação de incêndio; mas seria condenado pelo menos por alta traição.

— “Antes de receber a ata de acusação, disse-me ele, não acreditei que se mantivesse contra os camaradas búlgaros e contra mim próprio a acusação concernente ao incêndio do Reichstag. Antes pensava que seriamos acusados de outros crimes e nos manteriam na prisão durante muitos anos”.

Que poderia saber? A formação de culpa era levada a efeito precisamente de maneira a que ele nada pudesse saber, a que não se pudesse defender contra os que o acusavam.

— “Exigiria várias vezes que se me dissesse que acusações concretas se levantavam contra mini. Isso nunca me foi dito”.

As acareações eram escamoteadas.

— “Pessoas que chegavam, atravessavam o corredor e não diziam palavra. Não se tratava, pois, de acareações reais. Não fui acareado nem com Van der Lubbe, nem com Torgler. A primeira vez que vi Van der Lubbe, foi na sala de audiência (anteriormente, só superficialmente eu o notara no Reichstag, perante o juiz). Quanto a Torgler, foi em Leipzig, no próprio Tribunal, que o vi pela primeira vez. Estava persuadido de que seria absolvido da acusação de incêndio, mas que não seria liberto, e que, sob um pretexto qualquer, acabariam por exterminar-me...

Em todo o caso, seu destino é claro e enfrenta-o diretamente, friamente. Está em incomunicabilidade absoluta, isolado do mundo exterior. Nenhum defensor, nenhuma ajuda jurídica: ignora o direito e o processo alemães. Todos os advogados estrangeiros, cujo concurso sua família solicitou, viram, pura e simplesmente, recusar-se-lhe autorização para defendê-lo. O único advogado alemão no qual acreditava poder confiar vê-se forçado a resignar seu mandato.

Não sabe o que se passa em torno: nada de jornais estrangeiros, nem mesmo também de jornais alemães. Nada de livros. Nem um pfennig para comprar um manual ou um dicionário, para melhorar o passadio infame da prisão. E trinta e cinco anos de vida militante desgastaram seu organismo, alteraram sua saúde.

Mãos algemadas noite e dia:

— “É algemado que tenho que ler, escrever, sentar-me e dormir...”(1)

Calunias imundas às quais não lhe é lícito responder. A morte de sua mulher.

— “Foi a perda maior, o golpe mais duro que já recebi em toda a vida...”(2)

Qualquer outro, que não fosse um Dmitrov, um Thaelmann, um Rakosi, conheceria horas de profundo desencoraja- mento. Dmitrov, porém, não se deixa nem reduzir nem deprimir. Nem por um instante se confessa vencido; nem por um instante dúvida de sua missão, do êxito de sua causa.

Sabe domar em si “todo instinto de conservação”, reprimir todo reflexo egoísta. Sabe fazer sacrifício de sua liberdade, de sua saúde, de sua vida, abstração de sua pessoa. Trata-se, porventura, de um exemplo de heroísmo pessoal de que Dimitrov se sinta envaidecido? De modo algum.

Mal o herói estava em liberdade — longe, porém, de estar refeito de seus males e de sua fadiga, depois de um ano de masmorra, de sofrimento e de combate —e uma de suas primeiras palavras foi para dizer:

— “Não ter medo da morte, é claro, não é heroísmo pessoal: no fundo, é peculiaridade do comunista, do operário revolucionário, do bolchevique”.(3)

Como deve comportar-se um bolchevique? De que modo pode levar a luta até à vitória, se não a trava em primeiro lugar contra si mesmo?

Dmitrov é um grande revolucionário, um bolchevique. E, portanto, um homem, um homem que sente e sofre, tanto, senão mais do que os outros: tem, pois, tanto, senão mais matéria humana a comprimir, a dominar. Nada é mais instrutivo, mais edificante do que as cartas endereçadas por Dmitrov à sua mãe bem amada, à sua irmã. Não se defende do fato de set um filho, um irmão, um marido mutilado.

Mas esse homem que sangra é, antes de tudo, um homem que crê e que quer. Mas esse homem que quer, é, em primeiro lugar, um homem que tem sua missão, é, em primeiro lugar, o combatente de primeira linha, o chefe responsável: fixa seu pensamento em sua responsabilidade, em seu papel, no objetivo que lhe está marcado, na linha que traçou para si mesmo. Esse objetivo, essa linha, não a perde de vista.

— “Quando se quer realizar uma tal linha, disse-me ele, não se deve temer pela pele”.

É claro! E não creio trair um segredo de Dmitrov supondo que, de todos os combates que travou consigo mesmo, antes de pôr em cheque o inimigo exterior, o mais duro foi o que soube vencer contra sua própria cólera. Esse combate é o de que a leitura das notas da prisão permitem surpreender algumas fases.

No decorrer de todo o tempo de sua detenção, Dmitrov manteve um Diário no qual anotava os acontecimentos cotidianos. Esse Diário era útil para sua documentação, para sua defesa, mas tinha também em mira auxiliar o prisioneiro a conservar seu equilíbrio.

Em determinados dias, com Afeito, sua calma cuidadosamente conquistada era submetida a dura prova e fazia-se mister para seu excesso de compressão, cujos efeitos o silêncio, a solidão, a imobilidade (sem falar no mal físico) agravavam, uma válvula, um volante regulador.

Foi assim que, a 1.° de maio, Dmitrov, ouvindo subir da rua o rumor do cortejo nazi, que ia, forçosamente, parodiar, macular a festa do trabalho, sente necessidade de expandir o excesso de sua dor, de sua cólera: confia ao Diário a amargura desta antítese, Moscou-Berlim:

— “Quinto domingo aqui!”

“Quanto tempo ainda?”

“1.° de Maio (segunda feira): jornada do “Trabalho nacional”

“Moscou-Berlim, dois antípodas da história.”

“E estou encarcerado em Moabit, encadeado!”

“Bastante penoso e triste!...”

Mas não tarda que a vontade domine e Dmitrov repita, como de costume, a apóstrofe de Danton marchando para o cadafalso: “Pas de faiblesse!".(4)

Três dias depois, Dmitrov redige, endereçada ao juiz, a famosa carta de agradecimento que atrás comentamos, essa obra prima de ironia altiva, em que ainda vibra o eco de sua irritação domada.(5)

Para vencer-se e disciplinar-se, Dmitrov trabalha. Adiante veremos como prepara sua defesa, transcreve, anota (ainda aqui com uma cólera que se traduz em ironia) a ata de acusação, estuda o direito e o processo criminal, analisa a estratégia adversa, elabora seus planos de contraofensiva.

Esses trabalhos indispensáveis, porém, não bastam para sua necessidade de atividade. Empreende outros, de longo folego.

Utiliza, particularmente, na biblioteca da prisão, os livros necessários a um estudo aprofundado da história da Alemanha. Estuda francês, inglês.

Como Shakespeare escapara à censura, encontra um Hamlet na biblioteca da prisão. Que sorte para Dmitrov! Pede-o. Lê-o no texto. Medita-o. Comenta-o. Depara com uma grandeza conforme à sua, um universo na medida do seu pensamento.

Imagine-se o encontro de Shakespeare com Dmitrov. Imagine-se Dmitrov, a potência feita homem, contemplando Hamlet, como Hamlet contemplava o cranio exumado pelo coveiro.

Não é mais a sorte de um homem ou a sorte de um país que está em jogo: é o destino das classes, o destino da espécie humana.

O velho mundo é o seu próprio coveiro e a cabeça de morto, de modo que a cruz retorcida serve de emblema para sua feroz agonia.

Mas, para Dmitrov, “ser” é querer, é agir. Contemplar é encarar.

O ensinamento de Hamlet, esse sonhador condenado, é, pelo menos, a lucidez, a coragem de pensar até o fim, a franqueza para consigo mesmo.

Assim, não é, de modo algum, paradoxal que o bolchevique Dmitrov tenha escolhido nesse drama imortal três versos celebres de que fez sua divisa:

Antes de tudo, sê sincero para contigo mesmo.
Tão infalivelmente como a noite e o dia,
Não poderás enganar a ninguém.(6)

Depois de Shakespeare, veremos que chegará a vez de Galileu: o herói reconhece os seus. E os seus ajudaram-no a vencer sua cólera.

Dmitrov, todavia, não sonha senão com um olho e, ainda assim, para aguçar sua visão. Defende-se, isto é, sem perder polegada de terreno, tateia o adversário, estuda suas armas, seus pontos fracos, prepara-se para a ofensiva.


Notas de rodapé:

(1) Idem, p. 29. (retornar ao texto)

(2) Idem, p. 34 e documento n. 6. (retornar ao texto)

(3) V. Cartas, notas e documentos, p. 172, documento n. 51, extrato da entrevista concedida aos correspondentes da imprensa comunista no estrangeiro (fim de abril de 1934), por Dmitrov.” (retornar ao texto)

(4) Idem, fac-símile, n. 6. (retornar ao texto)

(5) Idem, p. 29, documento n. 5. (retornar ao texto)

(6) Idem, fac-símile n. 3. (retornar ao texto)

Inclusão: 05/06/2020