O Problema da Contradição na Lógica

Evald Vasilievich Ilienkov

1979


Fonte: Fragmento de um texto de Ilienkov sobre a contradição dialética. Extraído do livro Contradição Dialética (Moscou: Politizdat, 1979, pp. 122-143). Também foi publicado no livro Filosofia e Cultura (Moscou, 1991). Disponível em inglês (fragmento) e em russo (texto integral) no Lendo Ilienkov (Читая Ильенкова) [http://caute.ru/ilyenkov/].
Tradução do inglês: Marcelo José de Souza e Silva(1)
HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: Licença Creative Commons licenciado sob uma Licença Creative Commons.

Iniciamos dizendo que o com o termo “lógica” queremos dizer a ciência do pensamento, a ciência das formas e padrões de desenvolvimento de conceitos, ao invés de qualquer outra coisa.

Dizemos isso pela simples razão de que o termo “lógica” (e até “a única moderna” e “a única científica” lógica) muitas vezes aparece em títulos de livros e artigos que tratam de um assunto completamente diferente – a análise da “linguagem da ciência” e regras de funcionamento da língua ao longo da resolução de alguns problemas especiais.

Assim, estamos falando da contradição no pensamento, da contradição no processo de desenvolvimento de conceitos – a contradição como a categoria mais importante da verdade – desenvolvendo – e a ciência que pensa isso – a lógica.

Assim, deixamos de lado a questão altamente técnica das formas de expressão das contradições na "linguagem da ciência", na terminologia científica, bem como – na admissibilidade ou inadmissibilidade das contradições do "cálculo proposicional", nas correntes de cálculos matemáticos e todos os outros problemas especiais relacionados – problemas que merecem todo o respeito e o estudo mais cuidadoso.

A lógica que discutimos não está, de modo algum, preocupada com formas específicas de expressão do pensamento na linguagem em geral, e menos ainda com uma “linguagem da ciência” artificial, mas com as formas do próprio pensamento, entendidas como um “processo histórico-científico” (Karl Marx), que, de forma alguma, é realizada somente na linguagem. Obviamente as formas de pensamento são expressas (e realizadas) na linguagem, nas formas da linguagem, mas a principal diferença entre este erro e os outros que seriam pior, mas também são especialmente imperdoáveis para especialistas em lógica, é negligenciado. É impossível colocar um sinal de igualdade entre formas de pensamento e formas de expressão do pensamento, a não ser que coloquemos ambos os pés no chão do velho preconceito filosófico de acordo com o qual a linguagem em geral (no sentido mais amplo) é a única “forma externa” na qual o pensamento é realizado, “manifestado”, “tornado explícito”, e pelo qual o pensamento é também investigado. Neste caso, realmente, formas e normas da “linguagem” seriam as únicas acessíveis à observação e investigação das “formas de pensamento”, suas normas lógicas. Entretanto, este preconceito, como dado e bem conhecido, está repleto de tristes consequências para a ciência do pensamento, em particular, uma ameaça da completa degeneração da lógica como uma ciência investigando formas e leis gerais e necessárias do pensamento, em “regras” puramente subjetivas, não tendo e não sendo capaz de ter qualquer base objetiva e justificação exceto de que eles são estabelecidos por um acordo amigável (“convencionalmente”); “lógica” em tal interpretação é, inevitavelmente, transformada em algo parecido com aquela convenção que foi previamente violada por Panikovskii. Identificando as formas do pensamento com formas de linguagem, por meios do sinal [de igualdade] cuja lógica foi elaborada pelos Estóicos e escolásticos Medievais, teve, finalmente, sua justificação histórica, que desapareceu no esquecimento...

[...]

Se formas lógicas são encontradas não somente em atos de discurso do mundo circundante, mas também em atos de real mudança na prática humana, então a prática prova ser o critério de “justificação” de figuras lógicas direcionando o discurso humano, a auto-consciência verbalmente formalizada do homem. Formas lógicas (esquemas, figuras) são as formas em cuja estrutura a atividade humana em geral é desempenhada, não importa o objeto particular que ela possa estar direcionada, seja em palavras, coisas, ou eventos, situações históricas. E se encontramos alguma figura somente na forma verbal da passagem do pensamento, e não a encontramos em questões reais dos homens (como seu esquema abstrato), então isso significa que não estamos confrontados com qualquer tipo de forma lógica, mas somente com formas de discurso. A prática também permanece o critério para a lógica, o fator determinante, e estamos preocupados com a forma lógica ou com nada.

Naturalmente, o entendimento da lógica como a ciência do pensamento, como a ciência da atividade que é realizada não somente em palavras, não somente no discurso e registros escritos desse discurso, mas também (e acima de tudo!) em trabalhos, em atos de mudança do mundo externo, em experimentos com coisas plenamente reais, no processo de criação de objetos do trabalho e na mudança das relações entre pessoas, a questão começa a parecer essencialmente diferente da visão daqueles que se alinham com a velha lógica formal pura. Eles estão, em primeiro lugar, preocupados não sobretudo com o pensamento, mas com o modo de conexão do “sujeito e predicado”, com a constituição das “definições” verbais das coisas, com “conjunções de proposições”, que cancelam mutuamente uma a outra, e com situações similares de um linguista, ao invés do caráter lógico.

A partir do ponto de vista [da ciência do pensamento, ao invés de sua expressão na linguagem] é precisamente a contradição, e não a ausência de contradição, que acaba por ser a forma lógica real, em cuja estrutura reside o pensamento real, realizando a si mesmo no aspecto do desenvolvimento da ciência, tecnologia e “moralidade”.

Somente por essa razão Hegel estava também certo em fazer sua afirmação paradoxal de que “contradição é o critério da verdade, ausência de contradição é o critério do erro”(2). Por isso ele também estava certo em revogar o princípio notório da “exclusão da contradição” da condição de lei do pensamento, da condição de uma “norma da verdade” absoluta e indisputável.

[...]

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Notas de rodapé:

(1) Possui graduação em farmácia pela UFPR e é mestre em educação pela UFPR. Participa dos Grupos de Pesquisa: Núcleo de Pesquisa Educação e Marxismo (NUPE-Marx/UFPR), na linha Trabalho, Tecnologia e Educação; e Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva (NESC/UFPR), na linha Estudos Marxistas em Saúde. Contato: marcelojss @ gmail.com (retornar ao texto)

(2) HEGEL, G.W.F. Raboty pasnykh let [Trabalhos de Muitos Anos], t. 1, Moscou, 1970, p. 265. (retornar ao texto)

Inclusão 01/12/2013