Discurso na Reunião de Alunos da Oitava, Nona e Décima Classes das Escolas Intermediárias do Distrito Lênin de Moscou

M. I. Kalinin

17 de Abril de 1941


capa

Primeira Edição: Revista “Smena" ("A Nova Geração”), n.° 6, 1941.
Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, 1954. Traduzido da edição em espanhol de "Ediciones em Lenguas Extranjeras” de Moscou 1949. Pág: 112-129.
Nota da Edição Original: Neste livro foram compilados discursos e artigos escolhidos de Mikhail Ivánovitch Kalínin dedicados à educação comunista, que abarcam um período de quase vinte anos. Alguns dos discursos são reproduzidos com pequenas reduções.
Transcrição e HTML:
Fernando A. S. Araújo.
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Camaradas: Apesar de não serem tão raros meus encontros com a juventude, não me é fácil compenetrar-me de vosso estado de ânimo nem de vossos sentimentos. E isto se compreende, pois passaram uns cinquenta anos desde a época em que eu tinha a vossa idade. Muitas das coisas vividas em minha juventude fugiram-me da memória durante esses anos e o que recordo sem dúvida vos parecerá algo muito, mas muito velho. Se vos perguntassem que ideia tendes da vida da juventude naqueles tempos, certamente vos veríeis em dificuldades para responder: passaram muitos anos desde então.

Não obstante, acho que a vida da juventude de há 40 ou 50 anos passados também encerra certo interesse para vós. Embora eu não pretenda conhecer a fundo essa juventude com todas as suas virtudes e seus defeitos, quisera traçar-vos, mesmo que ligeiramente, um quadro de como vivia, quais eram suas preocupações, que tipos a constituíam e quais eram seus sentimentos. Além disso, referir-me-ei principalmente à juventude operária, aquela com quem mais tive oportunidade de tratar.

É bem verdade que também tive vínculos mais ou menos estreitos com a juventude camponesa, mas que se pode dizer da vida da juventude camponesa daqueles tempos? Essa vida não oferece nenhum interesse nem tem valor instrutivo algum. Em sua grande maioria, os moços e as moças do campo viviam esmagados pelo trabalho e pelas privações de suas casas. É claro que tampouco a vida da juventude operária era muito doce; apesar disso tinha certas vantagens, embora só pelo fato de que seu horizonte era incomparavelmente mais amplo: tinha a possibilidade de ver e conhecer mais coisas. Ao contrário, o horizonte da juventude camponesa limitava-se aos interesses da aldeia e ela pouco sabia do que se passava fora desses limites. Mal um jovem atingia os 13 ou 15 anos e já era jungido ao trabalho. E ao alcançar os 18 ou 19 anos seu caminho estava definitivamente traçado: contraía matrimônio, separava-se dos pais e bem ou mal ia organizando seu próprio ninho.

Conheci pouco a juventude estudantil, apesar de ter tratado com ela, pois ter tido contato não significa conhecer. Minha atitude para com ela era como para com algo de estranho. Além disso, devemos ter em conta que a juventude estudantil constituía para mim uma classe diferente. Entretanto, a luta dos estudantes não passava desapercebida da massa operária. Além do agrado com que se via essa luta, ia crescendo e se fortalecendo a simpatia para com a juventude estudantil.

Assim, pois, ao falar da juventude de um remoto passado referir-me-ei sobretudo à juventude operária.

Como era a juventude operária daquela época? Que tipos a integravam? Que lhe interessava, quais eram seus sonhos, que ideias se agitavam em suas cabeças?

Os tipos que se via entre a juventude operária daquela época eram os mais diversos, provavelmente tão diversos como os que se veem entre vós.

O primeiro tipo era constituído pelos que aspiravam, por todos os meios e artimanhas, a sair do meio operário, a ganhar mais, vestir melhor, adquirir um verniz exterior de “homens finos”, sobretudo na roupa, estabelecer relações com os funcionários da fábrica, casar com suas filhas, para aproveitar a primeira oportunidade de galgar um dos postos da escala administrativa. É claro que tais tipos não abundavam no seio da massa juvenil e careciam de importância política.

Outro tipo era constituído pelos laboriosos, que, ou bem aprendiam o ofício, ou já haviam concluído a aprendizagem e ganhavam seu salário. Todos os seus interesses se limitavam a. ganhar dinheiro, garantir para si um conforto doméstico e um bem-estar pessoal. A produção e o bem-estar pessoal abrangiam toda a esfera de seus interesses, da qual não saíam. Os homens desse tipo eram muito mais numerosos que os do primeiro, mas também eles formavam uma minoria insignificante.

Às vezes podia-se encontrar entre a juventude operária espiões e aduladores. Mas eram muito poucos, literalmente casos isolados. esses elementos tendiam a melhorar sua situação com uma atitude servil e dedicando-se a fazer denúncias. Mantinham contato com os capatazes, com a polícia e o pessoal de direção das fábricas. Os operários não suportavam esses elementos, que sempre estavam cercados por um ambiente de desprezo geral; eram bastante maltratados e com frequência eram até surrados.

Mas o que caracterizava a esmagadora maioria dos jovens operários era sua oposição à ordem social e política então existente. Desse tipo de pessoas era precisamente que saíam na época os verdadeiros combatentes revolucionários. A grande massa da juventude operária constituiu sempre uma base sólida na qual podia apoiar-se nosso Partido. Era uma espécie de destacamento combativo dos operários que, durante as greves e protestos, desempenhava o papel mais ativo sob a direção dos membros do Partido.

Não podemos dizer, entretanto, que a oposição dos jovens operários fosse plenamente consciente desde o princípio. Muitas vezes essa oposição transbordava de forma espontânea e se manifestava em surras dos capatazes maus — esses serviçais dos patrões — de policiais, etc.

Com o passar do tempo, sob a influência da propaganda socialista, iam surgindo entre a juventude operária círculos clandestinos, dirigidos por intelectuais marxistas, aos quais acorriam homens em quem começava a despertar a consciência social.

Quanto mais tempo passava, mais meditavam sobre a situação da classe operária e sobre muitas questões da vida social. Essas pessoas liam com avidez a literatura marxista, aprofundavam-se na teoria do socialismo científico, dedicavam-se seriamente a aumentar seus conhecimentos, e não só se desenvolviam politicamente, como também elevavam seu nível cultural. Nos círculos, tinham lugar calorosas discussões entre os camaradas, tanto em torno dos temas candentes da vida política, como dos livros lidos. É assim que se ia formando a consciência de classe, a consciência socialista entre os representantes mais avançados da juventude operária.

E devo dizer-vos que os participantes dos círculos marxistas ilegais eram os que gozavam de mais prestígio, não só entre a juventude, mas também entre os operários de idade mais avançada. Apesar de realizarem seu trabalho de modo conspirativo, uma parte considerável dos operários estava bem inteirada disso e os ajudava com prudência nos primeiros passos de sua atividade revolucionária.

Fora disso, pouco nos diferenciávamos exteriormente dos outros operários. Da mesma forma que outros jovens operários, íamos às casas de chá e aos bares e até, pela noite, ao regressar do trabalho, nos metíamos às vezes nos pomares alheios; é claro que o fazíamos por travessura, para fazer alarde de valor e não porque nos fizessem falta as maçãs. Recordo, como se fosse agora, que em um dos pomares próximos à fábrica de Putílov havia um guarda com a espingarda carregada de sal. Como não íamos meter-nos nesse pomar, se isso representava o perigo de receber um tiro de sal! (Risos).

Assistíamos aos espetáculos noturnos, tínhamos encontros com as moças e passeávamos. E para passear no parque público às vezes saltávamos o gradil. (Risos). E o fazíamos, não porque não tivéssemos os 10 kopeques que custava a entrada. Não. Tínhamos dinheiro, pois ganhávamos o nosso salário e podíamos pagar os 10 kopeques. Mas saltar o gradil representava certo perigo, pois podiam apanhar-nos e tirar-nos “triunfalmente” do parque. Como íamos deixar de saltar o gradil (Risos). Assim, pois, saltávamos os gradis e passeávamos com as moças E passeávamos provavelmente como vós passeais. Naturalmente, não sei como é que vós passeais, mas acredito que estas coisas ocorrem hoje da mesma forma que há 40 ou 50 anos. Parece que neste aspecto não houve grandes modificações. (Risos).

Portanto, exteriormente, nossa vida era a mais comum. Se alguém se dedicasse a observar-nos não notaria nada de particular.

Mas, apesar de tudo, nos distinguíamos dos demais jovens operários. Em que consistia essa diferença? Em que para nós os pequenos interesses da vida diária iam perdendo importância e eram substituídos pelos interesses gerais dos operários. Os estudos nos círculos ilegais e a literatura revolucionária ampliavam nosso horizonte político e enchiam nossa vida de certo conteúdo ideológico. Até então tínhamos considerado como abusos isolados as arbitrariedades mais revoltantes que se cometiam na, fábrica, mas agora já os interpretávamos como todo um sistema de opressão da classe operária em geral, e não só por parte dos chefes da fábrica e dos patrões, mas também por parte da autocracia.

Aparentemente nada tinha mudado. Continuávamos passeando com as moças, comparecíamos aos encontros, dançávamos nos bailes e, naturalmente, tínhamos nossos amores. (Risos). Mas pensávamos já em algo mais do que no “bem-estar americano” das novelas. Nossas ideias se concentravam no trabalho social e inclusive quando assistíamos a uma festa pensávamos na forma de aproveitá-la para nossos fins revolucionários.

E assim, pouco a pouco, sem dar-nos conta, fomos entrando em uma vida cheia de conteúdo ideológico. E uma vida com conteúdo ideológico é a maior, a mais interessante das vidas! Era nisso precisamente que nos diferenciávamos do resto da juventude operária, com a qual sempre estávamos em estreito contato e na qual nos apoiávamos constantemente para nosso trabalho revolucionário.

É claro que as possibilidades que tínhamos de viver uma vida cheia de conteúdo ideológico eram muito mais limitadas do que as que tem agora a juventude soviética e sobretudo vós, alunos das últimas classes dos centros de ensino secundário. E isso se compreende perfeitamente.

Em primeiro lugar, naquela época não estudávamos nos liceus; a instrução secundária era inacessível para nós. Há mais: muito poucos eram os que tinham a sorte de poder terminar a escola pública. Por conseguinte, neste aspecto estais muito acima da juventude operária daquela época e só por este fato tendes mais possibilidades de viver uma vida, cheia de conteúdo ideológico.

Em segundo lugar, naqueles tempos os operários com ideias e com consciência de classe eram objeto de perseguições: despediam-nos das fábricas, eram detidos, desterrados, etc. Isto quer dizer que só podíamos pôr em prática nossas ideias de maneira ilegal. Por isso, se naquela época uma pessoa queria viver uma vida de conteúdo ideológico, desenvolver-se politicamente, trabalhar em proveito da classe operária e de seu povo e avançar pelo caminho do progresso, não lhe restava mais do que esses estreito e espinhoso caminho pelo qual, como é natural, só muito poucos podiam marchar. Pelo contrário, neste sentido abrem-se para vós campos ilimitados. Todas as condições necessárias estão ao vosso dispor. Nada mais precisais do que lançar-vos ao trabalho!

Mas se vos ocorresse perguntar-me se naqueles anos eu não me arrependia de ter escolhido para minha vida precisamente aquele caminho, eu teria que dizer-vos o seguinte: o homem que aspirasse a viver uma vida grande e não uma vida estreita e mesquinha, cujo único fim fosse o de assegurar para si mesmo um bem-estar exclusivamente pessoal, de tipo puramente pequeno-burguês; o homem que quisesse viver uma vida efetivamente digna e interessante, esses homem não podia seguir outro caminho! Parece que vos falo somente de mim. Mas na realidade não é assim, pois eu não era mais do que um entre muitos, e por isso tudo o que vos disse se refere a centenas de pessoas do mesmo desenvolvimento intelectual e com o mesmo conceito da vida. Unicamente tive a sorte de poder vir aqui, diante de vós, e falar-vos de coração a coração, ao passo que a maioria de meus companheiros provavelmente já morreu há muito tempo.

Assim, pois, uma vida cheia de conteúdo ideológico e de interesses sociais, uma vida que tenda a esses fins é a melhor e a mais interessante de quantas vidas possamos imaginar. Mas, efetivamente, na realidade, o modelo de uma vida como essa nos oferece a do camarada Stálin. (Aplausos prolongados).

Mas vós podereis dizer-me: “Sim, a vida do camarada Stálin é, de fato, um modelo de vida nobre e de profundo conteúdo ideológico. Mas nós somos homens comuns e vulgares, ao passo que nos falas de um grande homem, de nosso chefe”. Com nossos chefes Lênin e Stálin devemos aprender a viver e a trabalhar, pois eles não só possuem a capacidade de compreender e exprimir com acerto e melhor do que ninguém as exigências atuais do desenvolvimento social, mas também a de satisfazer melhor que ninguém e com igual acerto a essas exigências.

Viver uma vida grande e de conteúdo ideológico é viver os interesses sociais da classe mais avançada e progressista da época; e na época atual, é viver os interesses do povo soviético, da Pátria socialista. Se viveis para servir a esses interesses, se vossos pensamentos tendem a engrandecer ainda mais vosso povo, a elevar ainda mais o potencial econômico e militar de vossa Pátria, se dedicais todas as vossas fôrças à luta pelo triunfo total do comunismo e esta grande ideia domina vossos pensamentos, não duvido de que de fato viveis uma grande vida.

Camaradas, os sonhos e as fantasias de todo gênero são algo próprio da juventude de todas as épocas e gerações. Longe de constituir um vício, são uma virtude muito meritória. Ninguém que atue e pense normalmente pode prescindir da fantasia. Mas na juventude tal tendência está muito mais desenvolvida que na idade madura. Em nosso tempo também nós tínhamos uma fantasia rica e variada. Cada um de nós fantasiava de acordo com suas ideias e seu grau de desenvolvimento. Mas, está claro, os limites do voo de nossa fantasia, como se disséssemos, seu “teto”, não podem comparar-se ao “teto”, aos limites do voo de vossa fantasia. E apesar disso, como vistes, muitíssimos jovens operários daquela época acariciavam grandes ilusões sobre uma vida melhor e mais racional. Creio que neste sentido tínhamos muito de comum convosco.

Eu também fantasiava bastante, diga-se de passagem. Assim, por exemplo, quando tinha 15 anos, sonhava ser marinheiro. Naquela época, ainda não trabalhava na fábrica. Com o fim de preparar-me para a dura vida de marinheiro passei três meses dormindo no chão. Queria converter-me em um homem resistente. Que marinheiro é esses que dorme numa cama! — dizia eu naquela época. (Risos).

Creio que também a vós ocorrem fantasias desse tipo, pois sois alunos de nona e décima classe e essa é a idade em que a gente se sente dominado pela fantasia e pela ânsia de algo grande. E não pode ser de outro modo, pois que espécie de jovens soviéticos serieis se não sonhásseis com uma vida grande, se cada um de vós não pensasse em derrubar montanhas ou em levantar o mundo com a alavanca de Arquimedes? (Risos).

Mas, como já disse, para vós é mais fácil — do que era para nós — empreender a luta por uma vida grande. Se me perguntassem quais são as medidas práticas a seguir para empreender esses caminho, eu diria: por ora, visto que ainda estais na escola, não se exige muito. Para começar, para lançar os alicerces, digamos assim, deveis dominar três matérias de vosso programa de estudos, se é que quereis converter-vos em edificadores de uma grande vida. Somente três matérias! Vedes como sou modesto. (Risos).

Antes de tudo, deveis conhecer bem o russo. Julgo que o conhecimento do russo é um fator de extraordinária importância no desenvolvimento geral do homem. Pois não existe nenhuma ciência entre as que tereis de estudar no futuro — sobretudo se ingressardes em alguma faculdade de humanidades — nem nenhuma esfera de atividade social em que não se requeira um bom conhecimento do russo. E este conhecimento nos é necessário inclusive na vida cotidiana para poder expressar corretamente e com exatidão as ideias, os sentimentos e as nossas mais íntimas emoções. Pois, se um homem quer fazer chegar tudo isto aos demais, tem que exprimi-lo mediante orações bem construídas do ponto de vista da sintaxe e da morfologia.

Creio que muitas vezes ouvireis dizer por vossos camaradas: “Compreendo a matéria e a sei bem, mas não posso expô-la de maneira alguma”. (Risos). E por que não pode expô-la? Pois é porque não domina sua língua materna. Imaginai um jovem que se decida a escrever uma carta à bem-amada. Suponhamos que isso aconteceu há 50 anos. Eis o que lhe escreveria ele: “Amada minha, amo-te com toda a minha alma. (Risos). Meu carinho é tão grande que não posso expressá-lo. Faltam-me as palavras”. (Risos). É claro que ao ler esta carta uma jovem ingênua exclamaria: “Que bonito!” (Risos). Mas, e se não se trate de uma jovem ingênua e simples, mas de uma moça muito culta? Estou certo de que essa moça diria: “Pobrezinho, como tens pouco miolo”. (Risos. Aplausos).

O estudo da língua materna tem uma grande importância. As maiores aquisições do pensamento humano, os conhecimentos mais profundos e os sentimentos mais ardentes permanecerão ignorados dos homens se não forem expressados com palavras claras e precisas. O idioma é o meio de expressão da ideia. E a ideia só adquire o caráter de ideia quando se exprime com palavras, quando se exterioriza com a ajuda da linguagem, quando como diriam os filósofos — se mediatiza e se objetiva para os demais. Por isso digo eu que o conhecimento do idioma materno é o fundamental para vosso futuro trabalho.

A segunda matéria, que também considero como absolutamente indispensável para vós, é a matemática.

Por que destaco desse modo a matemática? Por que considero que essa ciência tem tanta importância precisamente nas condições atuais e precisamente para vós, para a juventude escolar soviética?

Em primeiro lugar, a matemática disciplina o intelecto e nos habitua a pensar com lógica. Não é em vão que se costuma dizer que a matemática é uma ginástica para o intelecto- Não duvido de que vossas cabeças estejam cheias de ideias a ponto de rebentar (risos), mas é preciso pôr essas ideias em ordem, discipliná-las, canalizá-las — se é que podemos dizer assim para um trabalho proveitoso. E a matemática vos ajudará a levar a cabo essa empresa. Entretanto, estes argumentos são mais aplicáveis aos sábios que a vós e não creio que contribuam muito para inclinar-vos ao estudo da matemática.

Em segundo lugar — e talvez o compreendais melhor — o campo da aplicação prática da matemática é enorme. Qualquer que seja a ciência que estudeis ou o centro de ensino superior em que ides ingressar, qualquer que seja o campo de vossa atividade, vos é imprescindível o conhecimento da matemática se é que desejais deixar nesses lugares algum vestígio de vossa passagem por eles. E quem de vós não sonha agora em chegar a ser marinheiro, aviador, artilheiro, operário qualificado dos diversos ramos de nossa indústria, operário da construção, metalúrgico, ajustador, torneiro, etc. perito agrônomo, criador de gado, horticultor, etc., operário de estradas e obras, maquinista, comerciário, etc.? Mas todas essas profissões exigem um bom conhecimento da matemática. Por isso, se quereis participar na grande vida deveis encher a cabeça de matemática, enquanto tendes a possibilidade de fazê-lo. A matemática vos prestará mais tarde uma enorme ajuda em vosso trabalho.

Um exemplo: um dos melhores oculistas de Moscou dizia-me que o oculista que conhece mal a física é um mau oculista. Não lhe perguntei a que parte da física se referia, pois pelo visto aludia à ótica. E a ótica consiste quase toda ela em fórmulas matemáticas. Não é assim? É isso pouco mais ou menos. (Risos). Como vedes, os que vão estudar medicina também necessitarão da matemática.

A terceira matéria que considero de excepcional importância para vós é... mas temo que estranheis muito o que vou dizer e talvez não estejais completamente de acordo comigo. Entretanto, tenho que dizê-lo. Se não conseguir convencer-vos de todo pelo menos tentarei induzir-vos a compreender a importância dessa matéria. Talvez vossas ideias se orientem nesse sentido e então considerarei que consegui meu objetivo. Qual é, pois, essa matéria? Refiro-me à educação física. (Risos. Aplausos). Veja que alguns se alegraram e com toda a certeza porque não citei outras matérias que exigem um grande esforço intelectual.

Por que coloco a educação física no mesmo nível do russo e da matemática? Por que considero-a uma das matérias fundamentais do ensino e da educação?

Em primeiro lugar, porque desejo que todos vós sejais cidadãos soviéticos sãos. Onde vamos parar, se de nossas escolas saírem jovens com os nervos alterados ou com estômagos estragados (risos), que cada ano necessitem ir tratar-se nos sanatórios? Jovens assim dificilmente poderão encontrar a felicidade na vida, pois que felicidade pode haver sem uma boa saúde? Devemos preparar substitutos sãos para nossa geração, substitutos constituídos por homens sãos e mulheres sãs.

Em segundo lugar, refiro-me à educação física porque quero que nossa juventude seja uma juventude ágil e resistente. É claro que nem todas as pessoas são sadias, ágeis e resistentes de nascença. Mas também há pessoas que desde o nascimento possuem, como se costuma dizer, uma saúde de touro. E continuam conservando a saúde até nas condições mais desfavoráveis da vida. Existe até a expressão: forte como um touro. No entanto, tais pessoas não são muito numerosas. As pessoas comuns e do tipo corrente desenvolvem e fortalecem a saúde no transcurso da vida. Com mais forte razão podemos dizer isto no que se refere à agilidade e à resistência: tanto uma como a outra são qualidades que se adquirem.

A vida de Suvórov constitui um exemplo de como e até que ponto o homem pode aumentar sua resistência com o auxílio do exercício. Cito este exemplo porque certamente todos assistiram ao filme sobre Suvórov. Como recordareis, Suvórov era um menino tão débil que seus pais nem sequer pensavam em destiná-lo à carreira das armas. Mas ele soube curtir-se de tal modo que, afinal, se converteu num dos homens mais resistentes de sua época e alcançou, se não me falha a memória, os 70 anos. É ou não é verdade? Vós é que tendes a obrigação de conhecer História e não eu. (Risos).

O que nós queremos é precisamente que os homens soviéticos e antes de tudo vós, os jovens que estudais — sejam tão ágeis e resistentes como foi Suvórov. E o menor progresso nesse sentido deve ser considerado como um grande êxito do Estado soviético. Recomendo que leais “Combates na Finlândia”. É uma obra muito longa, em dois volumes. Quando me aconselhei com um dos meus conhecidos sobre se devia recomendar-vos essa leitura, ele me disse que não o fizesse pois é demasiado volumosa e de qualquer forma não a leríeis até ao fim. Levai em conta que se trata do conselho de um professor e que, portanto, deve conhecer-vos um pouco. Em lugar dessa obra ele me propôs que vos recomendasse outras dedicadas aos combatentes na Finlândia, por serem de menor volume. Mas, apesar de tudo, decidi recomendar-vos precisamente essa obra em dois volumes. É tão interessante e instrutiva que tenho plena certeza de que, uma vez começada, a lereis até o fim.

Qual é o interesse desse livro? Não achareis nele um resumo geral da guerra, mas através de toda a obra, como um “leitmotiv”, se destaca a ideia de que a guerra moderna requer excelente conhecimento da arte militar, um domínio perfeito do material bélico moderno, uma extraordinária tensão das fôrças físicas, exige um trabalho colossal, resistência e mais resistência, uma excepcional agilidade, iniciativa e a capacidade de orientar-se nas mais complicadas situações do combate. Hoje em dia, não se pode combater sem essas qualidades. E vós deveis preparar-vos intensamente para cumprir o mais importante e sagrado de vossos deveres, o de patriotas soviéticos. E para isso, em primeiro lugar, tendes que curtir-vos, tendes que ser resistentes, sãos e ágeis.

Mas a educação física vos é necessária também para a vida prática. Pois, como pode ser feliz um homem que padece de úlcera no estômago? (Risos). Em compensação, um homem são, em quem tudo funcione normalmente — que não tenha falta de apetite, não sofra de insônia, etc. — suportará melhor todas as adversidades da vida. Assim, pois, para serdes pessoas sãs, para poder gozar mais a vida, deveis praticar os exercícios físicos.

Tenho a impressão de que em nossas escolas, por assim dizer, intelectualizam demasiado o pessoal. E não no sentido intelectual, mas no sentido de que se mima de mais os meninos sem que se os habitue a apreciar o trabalho físico. Não posso precisar de quem é a culpa, mas o fato é esses. Pelo visto, aqui se fazem sentir em certa medida as sobrevivências da antiga atitude com o trabalho físico. E talvez a culpa principal nesse caso seja da família; mas a escola não se opõe como deveria a esta influência, não incute nos meninos na medida necessária uma atitude comunista para com o trabalho físico. Por isso muitos meninos entregam-se ao trabalho físico de má vontade, considerando-o como algo de vergonhoso e humilhante. A meu juízo isso constitui um profundo erro. Nós honramos qualquer tipo de trabalho. Não existem para nós trabalhos de categoria inferior ou superior. Para nós é igualmente uma questão de honra, de glória, de valor e heroísmo o trabalho do pedreiro, como o do sábio, do porteiro, do engenheiro, do carpinteiro, do artista, da tratadora de porcos, da atriz, do tratorista, do agrônomo, do empregado no comércio, do médico, etc.

Todo jovem soviético deve apreciar o trabalho físico e não deve recusar os trabalhos mais simples. Os que se habituarem ao trabalho físico conhecerão melhor a vida; se vós mesmos souberdes fazer pelos menos as coisas mais indispensáveis — lavar e remendar a roupa, preparar a comida, manter a casa limpa, etc. — se souberdes pelo menos algum ofício, podeis estar certos de que nunca vos vereis perdidos.

Em certa ocasião tive a oportunidade de ler as cartas pedagógicas do filósofo inglês John Locke, que viveu há mais de 250 anos. Dirigindo-se às classes dominantes da Inglaterra, Locke lhes disse: não habitueis vossos filhos a dormir em leitos macios, pois quando se viaja não é possível carregar uma cama macia, e na guerra, com mais forte razão, não haverá ocasião de pensar nisso; se um jovem gentleman se acostumar a dormir em cama dura, não haverá necessidade de habituá-lo a dormir em leito macio, pois a isso se acostumará rapidamente. Além disso, John Locke recomenda aos pais que eduquem seus filhos de forma que estes aprendam obrigatoriamente vários ofícios, e um deles a fundo. Isso sempre lhes servirá e até pode ser de utilidade aos homens de grande erudição para quando queiram repousar de um intenso trabalho intelectual. E com mais forte razão, no caso de o destino preparar-lhes uma armadilha.

Como vedes, na época em que o poderio da Inglaterra estava em ascensão, os ideólogos das classes exploradoras lhes aconselhavam que educassem seus filhos de modo que soubessem apreciar o trabalho físico, que não evitassem os trabalhos simples e que se preparassem para todas as circunstâncias da vida. E tudo isso se fazia com o fim de consolidar ainda miais o domínio dos exploradores.

Mas se os filhos dos capitalistas e latifundiários ingleses davam atenção a estes conselhos de estimar o trabalho físico, não desdenhavam os trabalhos simples e tratavam de curtir-se para que lhes fosse mais fácil suportar qualquer prova na vida, com maior motivo a juventude soviética deve compreender tudo isto. Onde e como podeis participar no trabalho físico? Habituai-vos antes de tudo a praticá-lo em casa. Depois deveis desenvolver por todos os meios vossa resistência e agilidade.

Com frequência costumamos perguntar: como há de ser o futuro homem comunista? Eu desejo que o homem soviético seja um homem são, vigoroso, resistente e intransigente com os inimigos de nossa Pátria, que saiba combater com perfeição em defesa de seu povo e pelo triunfo definitivo do comunismo. E não posso admitir a ideia de que nossa juventude, em seu conjunto, não tenha às vezes vontade de brigar. isso não seria natural. Está ou não está certo? (Vozes: “está certo, está certo”). É claro que há diferentes espécies de pessoas, mas eu me refiro à juventude em seu conjunto. Por conseguinte, deveis educar-vos de tal maneira que sejais pessoas vigorosas, ágeis, resistentes e capazes de suportar qualquer prova e vencer qualquer dificuldade.

E agora, julgai vós mesmos; para que podem servir uns tipos como esses de que fala a “Pravda” numa nota publicada sob o título de “Jovens poltrões”? O correspondente do jornal relata sua conversação com Vítor N., jovem de 18 anos do kolkhozOGPU”. Vítor, filho de um kolkhoziano, terminou há dois anos a sétima classe. Agora está em casa sem fazer nada, ou como diz ele, “acumulando forças”. À minha pergunta por que não trabalhava no kolkhoz o jovem torceu o nariz e disse:

"Não terminei a sétima classe para meter-me a trabalhar num kolkhoz. Isto é para Andriúcha, o coxo; eu encontrarei um trabalho mais limpo, posso colocar-me em algum escritório!..."

Quando li essa nota cheguei à conclusão de que Vítor N., além de outras coisas, é um analfabeto, pois que se depois de terminar a escola passou dois anos sem fazer nada, tudo parece indicar que também na escola estudou de qualquer maneira, que se arrastou com dificuldade de classe em classe e por conseguinte mal deve saber ler e escrever. E em vista disso devemos supor que não serve para trabalhar num escritório. Acaso não precisamos agora de pessoas cultas em nossos kolkhozes? Acaso se pode agora prescindir dos conhecimentos científicos na agricultura? Está claro que não podemos estar de acordo com uma “filosofia” dessas. É uma filosofia prejudicial, contra a qual temos de lutar resolutamente. Devemo-nos empenhar para que de nossas escolas não saia gente desse tipo. O povo soviético não pode tolerar os poltrões. Pois, que história é essa? Fizemos a Revolução para acabar com os preguiçosos e vivedores e aqui topamos com a aparição de novos preguiçosos e vivedores. Não, isto é intolerável e a escola tem no fato certa responsabilidade.

Camaradas, quando eu vos falava do russo, da matemática e da educação física, não era minha intenção rebaixar a importância de outras disciplinas do ensino escolar. Portanto, isto não significa que podeis abandonar as demais matérias. Detive-me nessas três disciplinas porque considero que são a base que vos facilitará a assimilação das demais e vos abrirá as portas da grande vida. Estou certo de que se vos aplicardes nessas três matérias fundamentais, tereis garantido um êxito completo em todas as outras matérias do programa escolar, pois é muito estreita a relação que existe entre umas e outras.

Camaradas, se considerarmos o sentido fundamental de quanto eu queria dizer-vos, veremos que não representa algo de novo. Minha intenção não era mais do que recordar e em parte ilustrar uma conhecida indicação do camarada Stálin. Em certa ocasião, dirigindo-se à juventude, o camarada Stálin disse:

“Para construir é preciso saber, é preciso dominar a ciência. E para saber é preciso estudar, estudar de um modo tenaz e paciente.”

Talvez a ilustração que escolhi para esta indicação do camarada Stálin não seja muito feliz e por isso é possível que pessoas mais entendidas em questões pedagógicas ponham em discussão a oportunidade de tal ilustração.

Para concluir, permiti-me que vos diga que nos diferentes períodos da história apresentam-se diferentes tarefas de caráter progressista, pelas quais lutam as melhores fôrças do povo. Assim, por exemplo, entre os anos 40 e 60 do século passado a tarefa progressista fundamental foi a de emancipar os camponeses da servidão feudal. E sabemos que todos os homens honrados e progressistas da época lutavam direta ou indiretamente por conseguir esses objetivo.

Nos fins do século passado e princípio do século atual, uma nova tarefa progressista se apresentou na ordem do dia: derrubar o tzarismo e o poder do capital, levar a cabo a revolução proletária e transformar a sociedade à base dos princípios socialistas.

Na atualidade, a tarefa mais progressista é a consolidação do socialismo e a edificação do comunismo. O caráter progressista desse objetivo é evidente não só para os homens soviéticos, mas também para os trabalhadores de todo o mundo. Para conseguir esses objetivo, é preciso, antes de tudo, fortalecer por todos os meios a potência econômica e militar do País dos Soviets. Por isso eu quisera que nossa juventude se compenetrasse desse grandioso objetivo e o convertesse em meta de sua existência, pois somente assim é que vossa vida se encherá de um profundo conteúdo ideológico.

O marxismo-leninismo é a arma que nos serve para a luta pelo comunismo e a realização de todos os ideais comunistas. Essa doutrina e seu método constituem um poderoso recurso , tanto no trabalho prático como na atividade científica. Os que aspirarem a uma vida grande e luminosa devem conhecer a fundo o marxismo-leninismo. E uma vida como essa não pode deixar de atrair nossa juventude.

O camarada Stálin dizia:

“A juventude é nosso porvir, nossa esperança, camaradas. A juventude é que há de substituir-nos a nós, os velhos. É ela que há de levar nossa bandeira até o triunfo final... É certo que os jovens não possuem os conhecimentos necessários. Mas os conhecimentos se adquirem. Hoje não os têm, mas amanhã os terão. Por isso a tarefa se baseia em aprender, aprender constantemente o leninismo.”

Camaradas, agora vos encontrais no período de vosso vir a ser. Não sei se compreendereis esta expressão demasiado filosófica. Expressar-me-ei com outras palavras: estais no período de vosso desenvolvimento, em que deixais de ser jovens, nos quais predominam a fantasia, a fogosidade e o valor temerário, e vos converteis em homens maduros. Mas ainda não sois homens maduros e ainda não fizestes a escolha definitiva da senda que ides trilhar na vida. Não fazeis mais do que sondar o caminho. Há 50 anos, era mais fácil para nós tomar uma determinação, pois não tínhamos diante de nós mais do que uma estreita senda. E se naquela época alguém tropeçava, infalivelmente rodava para o pântano da vida mesquinha. Em compensação, infinitos caminhos práticos se abrem diante de vós. esses caminhos são os que escolheis agora. Com o tempo sereis marinheiros, ferroviários, artilheiros, tanquistas, aviadores, engenheiros, ajustadores, torneiros, operários da construção, homens de ciência, artistas, médicos; trabalhadores dos diferentes ramos do trabalho físico e do trabalho intelectual.

Pois bem, eu quisera que no período de vosso vir a ser, assim como nós, há 50 anos, vos sentísseis dominados pelo afã de entregar-vos a um|a atividade social consciente, que convertêsseis em objetivo de vossa vida a tarefa de servir ao grande povo soviético e coroar a obra de Lênin e Stálin. Se conseguirdes que esses afã se arraigue em vós e que tudo o mais se subordine a ele, não duvido, camaradas, de que tereis assegurada a felicidade e a alegria de viver. (Atroadores aplausos. Todos se põem de pé.)

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Inclusão 05/11/2012