À Memória de Herzen

V. I. Lénine

08 de Maio de 1912

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Primeira Edição:Sotsial - Demokrat»  n.° 26, 8 de Maio (25 de Abril) de 1912.
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Edições "Avante!", 1977.
Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t. 21, pp. 255-262..
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, julho 2006.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Edições "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1977.

capa

Passaram-se cem anos desde o dia do nascimento de Herzen. Toda a Rússia liberal o comemora, contornando cuidadosamente as questões sérias do socialismo, ocultando minuciosamente o que diferenciava o revolucionário Herzen de um liberal. Também a imprensa da direita recorda Herzen assegurando falsamente que Herzen no fim da vida renegou a revolução. E nos discursos liberais e populistas sobre Herzen pronunciados no estrangeiro reina a frase e só a frase.

O partido operário deve recordar Herzen não para lhe cantar louvores de modo filisteu, mas para esclarecer as suas próprias tarefas, para esclarecer o verdadeiro lugar histórico do escritor, que desempenhou um grande papel na preparação da revolução russa.

Herzen pertencia à geração de revolucionários saídos da nobreza, dos latifundiários, da primeira metade do século passado. A nobreza deu à Rússia os Biron e Araktchéiv, um sem-número de «oficiais bêbedos, brigões, jogadores de cartas, heróis de feira, donos de cães de caça, zaragateiros, carrascos, donos de serralhos», bem como os melífluos Manílov. «E entre eles, escrevia Herzen, desenvolveram-se os homens do 14 de Dezembro[N289], uma falange de heróis criados, como Rómulo e Remo, com o leite de uma fera selvagem... São uma espécie de heróis lendários, forjados de puro aço da cabeça aos pés, paladinos guerreiros que conscientemente foram ao encontro de uma morte certa, a fim de despertar a jovem geração para a nova vida e purificar as crianças, nascidas no meio da crueldade e do servilismo.»[N290]

Herzen era uma destas crianças. A insurreição dos dezembristas despertou-o e «purificou-o». Na Rússia da servidão dos anos 40 do século XIX, soube elevar-se a tal altura que se colocou ao nível dos maiores pensadores do seu tempo. Assimilou a dialéctica de Hegel. Compreendeu que ela é a «álgebra da revolução». Foi mais longe que Hegel, até ao materialismo, seguindo Feuerbach. A primeira das Cartas sobre o Estudo da Natureza — O Empirismo e o Idealismo — escrita em 1844, mostra-nos um pensador que mesmo agora está muito acima de um sem-número de naturalistas-empíricos contemporâneos e de uma infinidade de filósofos actuais, idealistas e semi-idealistas. Herzen chegou muito perto do materialismo dialéctico e parou diante do — materialismo histórico.

Foi esta «paragem» que provocou a falência espiritual de Herzen após derrota da revolução de 1848. Herzen já tinha saído da Rússia e observou esta revolução de um modo directo. Era então democrata, revolucionário, socialista. Mas o seu «socialismo» pertencia ao número das incontáveis formas e variedades do socialismo burguês e pequeno-burguês da época de 1848, que foram definitivamente mortas pelas jornadas de Junho. No fundo isto de forma alguma era socialismo, mas sim uma frase duma bela alma, um bondoso sonho, com que revestia o seu espírito revolucionário de então a democracia burguesa, bem como o proletariado que ainda não se libertara da sua influência.

A falência espiritual de Herzen, o seu profundo cepticismo e pessimismo após 1848, foi a falência das ilusões burguesas no socialismo. O drama espiritual de Herzen foi fruto e reflexo da época histórico-universal em que o espírito revolucionário da democracia burguesa morria (na Europa), e o espírito revolucionário do proletariado socialista ainda não tinha amadurecido. Não compreenderam nem podiam compreender isto os cavaleiros da verborreia liberal russa, que escondem agora o seu espírito contra-revolucionário com frases floridas sobre o cepticismo de Herzen. Nestes cavaleiros que traíram a revolução russa de 1905, que se esqueceram até de meditar no grande título de revolucionário, o cepticismo é uma forma de passagem da democracia ao liberalismo — a esse liberalismo servil, vulgar, sujo e bestial, que fuzilou os operários em 48, restaurou tronos destruídos, aplaudiu Napoleão III, e que Herzen, não sabendo compreender a sua natureza de classe, amaldiçoou.

Em Herzen o cepticismo foi uma forma de passagem das ilusões da democracia burguesa «acima das classes» para a dura, inexorável e invencível luta de classe do proletariado. Prova: as Cartas a Um Velho Camarada, a Bakúnine, escritas por Herzen um ano antes da sua morte, em 1869. Herzen rompe com o anarquista Bakúnine. É verdade que Herzen vê ainda nesta ruptura apenas uma divergência na táctica, e não o abismo entre a concepção do mundo do proletário certo da vitória da sua classe e a do pequeno-burguês que se desespera de se salvar. É verdade que Herzen repete uma vez mais, também aqui, as velhas frases democrático--burguesas de que o socialismo deveria apresentar-se com «uma pregação dirigida igualmente ao trabalhador e ao patrão, ao agricultor e ao pequeno-burguês». Mas contudo, ao romper com Bakúnine, Herzen não voltou os olhos para o liberalismo, mas para a Internacional, para essa internacional que era dirigida por Marx - para essa Internacional que começou a «reunir regimentos» do proletariado, a unificar o «mundo operário», «que abandona o mundo dos que gozam sem trabalhar»[N291]!

* * *

Não tendo compreendido a essência democrático-burguesa de todo o movimento de 1848 e de todas as formas do socialismo anterior a Marx, Herzen menos ainda podia compreender a natureza burguesa da revoluçao russa. Herzen é o fundador do socialismo «russo», do «populisrno». Herzen via o «socialismo» na libertação dos camponeses dando-lhes terra na propriedade comunal da terra e na idéia camponesa do «direito à terra». Desenvolveu vezes sem conta os seus pensamentos predilectos sobre este tema.

Na realidade, nesta doutrina de Herzen, bem como em todo o populismo russo — até ao desbotado populismo dos «socialistas-revolucionários» actuais -, não há nem um grão de socialismo. É a mesma frase duma bela alma, o mesmo bondoso sonho, que reveste o espírito revolucionário da democracia camponesa burguesa na Rússia, tal como as diversas formas de «socialismo 48» no Ocidente. Quanto mais terra tivessem recebido os camponeses em 1861[N292] e quanto mais barato a tivessem recebido, tanto mais fortemente teria sido minado o poder dos latifundiários feudais, tanto mais rápido, livre e amplo teria sido o desenvolvimento do capitalismo na Rússia. A ideia do «direito à terra» e da «partilha igualitária da terra» não é mais do que a formulação dos anseios revolucionários à igualdade por parte dos camponeses, que lutam pelo completo derrubamento do poder dos latifundiários, pela completa liquidação da propriedade latifundiária da terra.

A revolução de 1905 comprovou isto plenamente: por um lado, o proletariado actuou com plena independência à cabeça da luta revolucionária, tendo criado o partido operário social-democrata; por outro lado, os camponeses revolucionários («trudoviques» e «União Camponesa»[N293]), lutando por todas as formas de liquidação da propriedade latifundiária da terra, mesmo pela «abolição da propriedade privada da terra», lutaram exactamente como patrões, como pequenos empresários.

No momento actual a controvérsia sobre o «carácter socialista» do direito à terra, etc, serve apenas para obscurecer e encobrir uma questão histórica efectivamente importante e séria: a da diferença dos interesses da burguesia liberal e do campesinato revolucionário na revolução burguesa russa; dito de outra maneira, a da tendência liberal e democrática, «conciliadora» (monárquica) e republicana nesta revolução. Foi precisamente esta questão que colocou a Kólokol[N294] de Herzen, se olharmos para o essencial da questão e não para as frases — se estudarmos a luta de classes como base das «teorias» e doutrinas e não o contrário.

Herzen criou a imprensa russa livre no estrangeiro — nisto reside o seu grande mérito. A Poliárnaia Zvezdá[N295] retomou a tradição dos dezembristas. A Kólokol (1857-1867) preconizou apaixonadamente a libertação dos camponeses. Foi rompido o silêncio servil.

Mas Herzen pertencia ao meio dos latifundiários, dos senhores. Deixara a Rússia em 1847, não vira o povo revolucionário e não podia crer nele. Daí os seus apelos liberais para «o alto». Daí as suas incontáveis cartas adocicadas na Kólokol a Alexandre II, o Enforcador, que não se podem ler hoje sem repugnância. Tchernichévski, Dobroliúbov, Serno-Solovióvitch, que representavam a nova geração de revolucionários raznotchintsi[N296] tinham mil vezes razão quando recriminavam Herzen por estes desvios da democracia para o liberalismo. No entanto, exige a justiça que se diga que, apesar de todas as hesitações de Herzen entre a democracia e o liberalismo, era o democrata que nele predominava.

Quando um dos tipos mais repugnantes da vilania liberal, Kavéline, que antes se extasiava com a Kólokol precisamente pelas suas tendências liberais, se levantou contra a constituição, atacou a agitação revolucionária se levantou contra a «violência» e os apelos a ela, começou a pregar a paciência, Herzen rompeu com este sábio liberal. Herzen lançou-se contra o «panfleto pobre, absurdo e nocivo», escrito «para orientação secreta para um governo liberalizante», contra as «sentenças político-sentimentais» kavelinistas, que apresentam «o povo russo como uma besta e o governo como um modelo de sabedoria». A Kólokol publicou o artigo Oração Fúnebre, no qual fustigava «os professores, que teciam a podre teia das suas ideiazinhas arrogantes e minúsculas, os ex-professores, até certa altura ingénuos e depois enfurecidos ao verem que a juventude sadia não pode simpatizar com o seu pensamento escrofuloso». Kavéline logo se reconheceu neste retrato.

Quando Tchernichévski foi preso o infame liberal Kavéline escreveu:

«As detenções não me parecem revoltantes... o partido revolucionário considera que todos os meios são bons para derrubar o governo, e este defende-se com os seus próprios meios.»

Mas Herzen respondeu certeiramente a este democrata-constitucionalista ao dizer sobre o julgamento de Tchernichévski:

«E há homens desprezíveis, homens-erva, homens-lesma que dizem que não se deve insultar essa corja de bandidos e de canalhas que nos governa.»

Quando o liberal Turguénev escreveu uma carta particular a Alexandre II assegurando os seus sentimentos de fiel súbdito e ofereceu duas moedas de ouro para os soldados feridos quando do esmagamento da insurreição polaca, a Kólokol escreveu sobre «a Madalena de cabelos brancos (de sexo masculino), que escreveu a Sua Majestade queixando-se de não conseguir conciliar o sono atormentada pela ideia de que Sua Majestade ignorava o seu arrependimento». E Turguénev logo se reconheceu.

Quando todo o bando dos liberais russos se afastou de Herzen por ele ter defendido a Polónia, quando toda a «sociedade culta» virou as costas à Kólokol, Herzen não se perturbou. Continuou a defender a liberdade da Polónia e a fustigar os opressores, os verdugos e enforcadores de Alexandre II. Herzen salvou a honra da democracia russa. «Nós salvámos a honra do nome russo — escreveu ele a Turguénev — e por isso fomos vítimas da maioria escravista.»

Quando chegou a notícia de que um camponês servo matara um latifundiário por atentar contra a honra da noiva, Herzen acrescentou na Kólokol: «E fez muitíssimo bem!» Quando se comunicou que iam ser nomeados chefes militares para a «libertação» «tranquila», Herzen escreveu: «O primeiro coronel inteligente que com o seu destacamento se juntar aos camponeses em vez de os massacrar, sentar-se-á no trono dos Románov.» Quando o coronel Reitern se suicidou em Varsóvia (1860) para não ser auxiliar dos verdugos, Herzen escreveu: «Se há que fuzilar então fuzilem-se os generais que dão ordem para disparar contra pessoas desarmadas.» Quando em Bezdna mataram 50 camponeses e executaram o seu chefe, Antón Petrov (12 de Abril de 1861), Herzen escreveu na Kólokol:

«Ah, se as minhas palavras pudessem chegar a ti, trabalhador e mártir da terra russa!... como te ensinaria a desprezar os teus pastores espirituais, colocados sobre ti pelo sínodo de Petersburgo e pelo tsar alemão... Tu odeias o latifundiário, odeias o escrivão, teme-los — e tens toda a razão; mas acreditas ainda no tsar e no prelado... não acredites neles. O tsar está com eles, e eles estão com o tsar. É ele que tu vês agora, tu, pai do jovem assassinado em Bezdna, tu, filho do pai assassinado em Penza... Os teus pastores são ignorantes como tu, pobres como tu ... Assim era o Antóni que sofreu por ti em Kazán (não o bispo Antóni, mas o Antón de Bezdna) ... Os corpos dos teus santos não farão os quarenta e oito milagres, a oração que lhes dirigires não fará passar a dor de dentes; mas a sua memória viva pode realizar um milagre — a tua libertação.»

Por aqui se vê como é infame e vil a calúnia contra Herzen por parte dos nossos liberais entrincheirados na servil imprensa «legal» enaltecendo os pontos fracos de Herzen e silenciando os fortes. Não foi culpa de Herzen mas infelicidade sua ele não ter podido ver o povo revolucionário na própria Rússia nos anos 40. Quando o viu nos anos 60 — ele colocou-se sem medo ao lado da democracia revolucionária contra o liberalismo. Lutou pela vitória do povo sobre o tsarismo, e não por um arranjo da burguesia liberal com o tsar dos latifundiários. Ele ergueu a bandeira da revolução.

* * *

Ao homenagear Herzen vemos claramente três gerações, três classes, que actuaram na revolução russa. De início os nobres e os latifundiários, os dezembristas e Herzen. É estreito o círculo destes revolucionários. Estão terrivelmente longe do povo. Mas a sua obra não foi em vão. Os dezembristas despertaram Herzen. Herzen desenvolveu a agitação revolucionária.

Ela foi retomada, alargada, reforçada e temperada pelos revolucionários raznotchintsi, a começar por Tchernichévski e terminando pelos heróis de «A Vontade do Povo». Tornou-se mais largo o círculo de lutadores e mais estreitos os seus laços com o povo. «Jovens pilotos da futura tempestade» — assim lhes chamou Herzen. Mas aquilo ainda não era a própria tempestade.

A tempestade é o movimento das próprias massas. O proletariado, a única classe revolucionária até o fim, ergueu-se à frente delas e pela primeira vez levantou milhões de camponeses para a luta revolucionária aberta. A primeira arremetida da tempestade foi em 1905. A seguinte começa a crescer diante dos nossos olhos.

Ao homenagear Herzen o proletariado aprende com o seu exemplo o grande significado da teoria revolucionária; aprende a compreender que a abnegada fidelidade à revolução e a propaganda revolucionária dirigida ao povo não são em vão, mesmo quando decénios inteiros separam a sementeira da colheita; aprende a determinar o papel das diferentes classes na revolução russa e internacional. Enriquecido com estas lições, o proletariado abrirá caminho para a aliança livre com os operários socialistas de todos os países, esmagará o réptil, a monarquia tsarista, contra a qual Herzen foi o primeiro a erguer a grande bandeira da luta dirigindo às massas a palavra russa livre.

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Notas de fim de Tomo:

[N289] Dezembristas: revolucionários nobres que lutavam contra o regime de servidão e a autocracia, que levaram a cabo a insurreição armada de 14 de Dezembro de 1825. (retornar ao texto)

[N290] V. I. Lénine cita a obra de A. I. Herzen Fins e Começos. (retornar ao texto)

[N291] V. I. Lénine cita as cartas A Um Velho Camarada (cartas quarta e segunda). (retornar ao texto)

[N292] Trata-se da abolição da servidão na Rússia em 1861. (retornar ao texto)

[N293] União Camponesa (União Camponesa de Toda a Rússia): organização democrática revolucionária que surgiu em 1905. A União Camponesa exigia liberdades políticas e a convocação imediata da Assembleia Constituinte, seguia a táctica do boicote da I Duma de Estado. O programa agrário da União compreendia a exigência da revogação da propriedade privada da terra, a entrega sem resgate aos camponeses das terras dos conventos, da Igreja, da família imperial, da coroa e do Estado. A União Camponesa, encontrando-se sob a influência dos socialistas-revolucionários e dos liberais, manifestava ambiguidade, hesitação e vacilações pequeno-burguesas. (retornar ao texto)

[N294] Kólokol (Sino); revista política que saía sob a divisa «Vivos voco» (Invoco os vivos). Era editada por A. I. Herzen e N. P. Ogariov na Tipografia Russa Livre, fundada por Herzen em Londres, de 1 de Julho de 1857 a Abril de 1865, e em Genebra, de Maio de 1865 a Julho de 1867; aparecia mensalmente, e durante certo tempo duas vezes por mês. Saíram 245 números. Em 1868 a revista saiu em francês (conseguiu-se editar 15 números). Editaram-se suplementos em russo de alguns números. A Kólokol tinha tiragens até 2500 exemplares e distribuía-se amplamente por toda a Rússia.

A Kólokol estava à frente da imprensa revolucionária não censurada, que precedeu o aparecimento da imprensa operária na Rússia, e desempenhou um papel importante no desenvolvimento do movimento democrático e revolucionário geral, na luta contra a autocracia e o regime de servidão. (retornar ao texto)

[N295] Poliárnaia Zvezdá (Estrela Polar): colectânea político-literária; editou-se em 1855-1862 em Londres, na Tipografia Russa Livre, fundada por Herzen; o último livro da colectânea foi editado em Genebra em 1868. Ao todo, saíram 8 livros. A Poliárnaia Zvezdá desempenhou um papel importante no desenvolvimento da literatura avançada e do pensamento social russo. (retornar ao texto)

[N296] Raznotchíntsi («pessoas de diferentes classes e camadas»): pessoas cultas de origem não nobre; provinham de classes diferentes: comerciantes, clero, pequena burguesia e camponeses. (retornar ao texto)

Inclusão 04/07/2006