Estagnação e Progresso do Marxismo

Rosa Luxemburgo

1903


Escrito: em 1903.
Fonte: Stagnation and Progress of Marxism. Karl Marx: Man, Thinker and Revolutionist, edited by D. Ryazanov. International Publishers, New York, 1927. Republished: New International, Vol. VI No. 7 (Whole No. 47), August 1940. pp. 143–144.
Traduzido do Inglês por: Juliana Danielle Gasparin Gasparin
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Fernando A. S. Araújo.
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Em seu artigo superficial, mas interessante à época, chamado Die soziale Bewegung in Frankreich und Belgien (O Movimento Socialista na França e na Bélgica), Karl Grün observa, apropriadamente, que as teorias de Fourier e de Saint-Simon tiveram efeitos bem diferentes sobre os seus respectivos seguidores. Saint-Simon foi o ancestral espiritual de toda uma geração de pesquisadores e escritores brilhantes em vários campos da atividade intelectual; mas os seguidores de Fourier eram, com poucas exceções, pessoas que repetiam cegamente as palavras de seu mestre e eram incapazes de fazer qualquer avanço em seus ensinamentos. A explicação de Grün acerca desta diferença é que Fourier concebia o mundo como um sistema acabado, elaborado em todos os seus detalhes; enquanto Saint-Simon simplesmente lançava aos seus discípulos um conjunto solto de grandes pensamentos. Embora me pareça que Grün presta muito pouca atenção à diferença interna, essencial entre as teorias destas duas autoridades clássicas no domínio do socialismo utópico, penso que no geral sua observação é sensata. Sem dúvidas, um sistema de ideias que é apenas esboçado em linhas gerais revela-se muito mais estimulante do que uma estrutura acabada e simétrica que não deixa nada a ser acrescentado e não oferece espaço para o esforço independente de uma mente ativa.

Isso justifica a estagnação da doutrina marxista que tem sido evidente por muitos anos? A verdade é que – com exceção de uma ou duas contribuições independentes que marcam um avanço teórico – desde a publicação do último volume d'O Capital e dos últimos escritos de Engels, não tem aparecido nada além de algumas excelentes popularizações e exposições da teoria marxista. A substância desta teoria permanece exatamente onde os dois fundadores do socialismo científico a deixaram.

Será por que o sistema marxista impôs de forma rígida demais uma estrutura às atividades independentes da mente? É inegável que Marx teve uma influência um tanto restritiva no livre desenvolvimento da teoria no caso de muitos de seus pupilos. Tanto Marx como Engels achavam necessário negar a responsabilidade pelos discursos de muitos que escolheram se denominar marxistas! O esforço escrupuloso para se manter "dentro dos limites do marxismo" pode, às vezes, ter sido tão desastroso à integridade do processo de pensamento como acontece com o outro extremo – o completo repúdio à perspectiva marxista e a determinação de manifestar "independência de pensamento" a todo custo.

Ainda assim, é somente quando se trata de questões econômicas que podemos falar de um conjunto de doutrinas quase completamente elaborado transmitido a nós por Marx. O mais valioso de todos os seus ensinamentos, a concepção materialista-dialética da história, se apresenta para nós como nada além de um método de investigação, como alguns pensamentos condutores inspirados, que nos oferecem relances para todo o mundo novo, que nos revela infinitas perspectivas de atividade independente, que leva nosso espírito a voos audaciosos para regiões inexploradas.

Apesar disso, mesmo neste domínio, com poucas exceções, o legado marxista continua superficial. A esplêndida arma nova enferruja sem uso; e a teoria do materialismo histórico permanece sem elaboração e incompleta tanto quanto era quando foi primeiramente formulada por seus criadores.

Não pode ser dito, então, que a rigidez e a plenitude do edifício marxista são as explicações para a falha dos sucessores de Marx em continuar com a construção.

Frequentemente, dizem que falta ao nosso movimento pessoas de talento que possam ser capazes de uma elaboração para além das teorias de Marx. Esta falta é, de fato, uma situação de tempos; mas a própria falta requer uma explicação e não pode ser deixada de lado para responder à questão primária. Nós precisamos lembrar que cada época forma seu próprio material humano; que se em algum período houver uma necessidade verdadeira por expoentes teóricos, o período irá criar as forças requeridas para a satisfação desta necessidade.

Mas há uma necessidade verdadeira, uma demanda efetiva de um desenvolvimento para além da teoria marxista?

Em um artigo sobre a controvérsia entre as escolas marxista e jevonsiana na Inglaterra, Bernard Shaw, o talentoso expoente do semi-socialismo fabiano, caçoa de Hyndman por ter dito que o primeiro volume d’O Capital lhe deu um entendimento completo de Marx e que não haviam lacunas na teoria marxista – embora Friedrich Engels, no prefácio do segundo volume d’O Capital, subsequentemente declarou que o primeiro volume com sua teoria do valor deixou um problema econômico fundamental sem resolução, cuja solução não seria fornecida até que o terceiro volume fosse publicado. Shaw certamente teve sucesso em fazer a posição de Hyndman parecer uma ninharia ridícula, embora Hyndman possa encontrar consolo no fato de que praticamente todo o mundo socialista estava no mesmo barco!

O terceiro volume d'O Capital, com sua solução do problema da taxa de lucro (o problema básico da economia marxista), não foi publicado até 1894. Mas na Alemanha, como em todos os outros países, a agitação continuou com a ajuda do material inacabado contido no primeiro volume; a doutrina marxista foi popularizada e encontrou aceitação na base somente deste primeiro volume; o sucesso da teoria marxista incompleta foi fenomenal; e ninguém percebeu que havia qualquer lacuna no ensinamento.

Além disso, quando o terceiro volume finalmente viu a luz, embora no início tenha atraído alguma atenção nos círculos restritos de especialistas e despertado certa quantidade de comentários – por parte do movimento socialista como um todo, o novo volume não causou praticamente nenhuma impressão nas regiões mais vastas, onde as ideias expostas no livro original se tornaram dominantes. A conclusão teórica do volume 3 não evocou até aqui nenhuma tentativa de popularização, nem obteve larga difusão. Ao contrário, mesmo entre os social-democratas, às vezes nós ouvimos, hoje em dia, ecos repetidos de “decepção” com o terceiro volume d'O Capital, o que é tão frequentemente expressado por economistas burgueses – e assim os social-democratas somente mostram como tinham aceitado inteiramente a exposição “incompleta” da teoria do valor apresentada no primeiro volume.

Como podemos explicar um fenômeno tão notável?

Shaw, que (para citar sua própria expressão) gosta de “rir entre os dentes” dos outros, pode ter boas razões aqui, para caçoar de todo o movimento socialista, na medida em que é baseado em Marx! Mas se fosse fazer isto, ele estaria "rindo entre os dentes" de uma manifestação muito séria de nossa vida social. O estranho destino do segundo e terceiro volumes d’O Capital é uma prova conclusiva do destino geral da pesquisa teórica em nosso movimento.

Do ponto de vista científico, o terceiro volume d’O Capital deve, sem dúvida, ser considerado fundamentalmente como a conclusão da crítica de Marx ao capitalismo. Sem este terceiro volume nós não podemos compreender nem a lei realmente dominante da taxa de lucro; ou a divisão da mais-valia em lucro, juro e renda; ou o funcionamento da lei do valor no campo da competição. Mas, e este é o ponto principal, todos estes problemas, apesar de serem importantes na perspectiva da teoria pura, comparativamente não têm importância na perspectiva prática da luta de classes. Com relação à luta de classes, o problema teórico fundamental é a origem da mais-valia, isto é, a explicação científica da exploração; juntamente com a elucidação das tendências para a socialização do processo de produção, isto é, a explicação científica da base objetiva da revolução socialista.

Estes dois problemas são resolvidos no primeiro volume d’O Capital, que deduz a “expropriação dos expropriadores” como o resultado inevitável e final da produção de mais-valia e da concentração progressiva de capital. Assim, com relação à teoria, a necessidade essencial do movimento dos trabalhadores está satisfeita. Os trabalhadores, estando ativamente envolvidos na luta de classes, não têm nenhum interesse direto na questão de como a mais-valia é distribuída entre os respectivos grupos de exploradores; ou na questão de como, no curso desta distribuição, a competição causa rearranjos na produção.

Esse é o motivo pelo qual, para os socialistas em geral, o terceiro volume d’O Capital permanece um livro não lido.

Mas, em nosso movimento, o que se aplica às doutrinas econômicas de Marx, se aplica à pesquisa teórica em geral. É pura ilusão supor que a classe trabalhadora, na sua luta ascendente, possa por vontade própria se tornar imensamente criativa no domínio teórico. É verdade que, como Engels disse, a classe trabalhadora por si só tem atualmente preservado uma compreensão e um interesse pela teoria. A vontade dos trabalhadores pelo conhecimento é uma das manifestações culturais mais dignas de nota dos nossos dias. Moralmente, também, a luta da classe trabalhadora denota a renovação cultural da sociedade. Mas a participação ativa dos trabalhadores na marcha da ciência está sujeita ao preenchimento de condições sociais muito definidas.

Em cada sociedade de classe, a cultura intelectual (ciência e arte) é criada pela classe dominante; e o objetivo desta cultura é em parte garantir a satisfação direta das necessidades do processo social, e em parte satisfazer as necessidades mentais dos membros da classe dominante.

Na história das lutas de classes anteriores, as classes emergentes (como o Terceiro Estado, nos dias atuais) podiam antecipar o domínio político estabelecendo uma dominação intelectual, visto que, enquanto ainda eram classes subjugadas, poderiam fundar uma nova ciência e uma nova arte contra a cultura obsoleta do período decadente.

O proletariado está em uma posição muito diferente. Como uma classe de não proprietários, não pode, no curso de sua luta ascendente, criar espontaneamente uma cultura mental própria enquanto permanecer na estrutura da sociedade burguesa. Nesta sociedade, e enquanto suas bases econômicas persistirem, não pode haver nenhuma outra cultura além da cultura burguesa. Embora certos docentes “socialistas” possam aclamar o uso de gravatas, o uso de cartões de visita, e a utilização de bicicletas por proletários como exemplos notáveis da participação no progresso cultural, a classe trabalhadora enquanto tal permanece excluída da cultura contemporânea. Apesar de os trabalhadores criarem com suas próprias mãos todo o substrato social desta cultura, seu aproveitamento dela só é admitido até onde tal admissão é requisito para um desempenho satisfatório de suas funções no processo econômico e social da sociedade capitalista.

A classe trabalhadora não estará em posição de criar uma ciência e arte próprias até que seja completamente emancipada de sua posição de classe atual.

O máximo que ela pode fazer hoje é proteger a cultura burguesa do vandalismo da reação burguesa e criar as condições sociais requisitadas para um desenvolvimento cultural livre. Mesmo assim, os trabalhadores, na forma existente de sociedade, só podem avançar até o ponto em que podem criar para si próprios as armas intelectuais necessárias em sua luta pela libertação.

Mas esta reserva impõe à classe trabalhadora (ou seja, aos líderes intelectuais dos trabalhadores) limites muito estreitos no campo de atividades intelectuais. O domínio de sua energia criativa é confinado a um departamento específico da ciência, a saber, a ciência social. Pois, dado que "graças à conexão peculiar da ideia do Quarto Estado com nossa época histórica”, o esclarecimento a respeito das leis do desenvolvimento social se tornou essencial aos trabalhadores na luta de classes, esta conexão produziu bons frutos na ciência social e o monumento da cultura proletária dos nossos dias é – a doutrina marxista.

Mas a criação de Marx, que como uma conquista científica é gigantesca, transcende as meras demandas da luta da classe proletária para cujos propósitos foi criada. Tanto em sua análise detalhada e abrangente da economia capitalista como em seu método de pesquisa histórica com seu campo de aplicação incomensurável, Marx oferece muito mais do que era diretamente essencial para a conduta prática da luta de classes.

Somente na proporção em que nosso movimento progride e demanda a solução de novos problemas práticos é que mergulhamos mais uma vez na riqueza do pensamento de Marx, a fim de extrair e utilizar fragmentos novos de sua doutrina. Mas desde que nosso movimento, como todas as campanhas da vida prática, tende a continuar trabalhando em velhas rotinas de pensamento e a se prender a princípios mesmo depois que eles deixaram de ser válidos, a utilização teórica do sistema marxista prossegue muito lentamente.

Se, então, hoje nós detectarmos uma estagnação em nosso movimento com relação a estas questões teóricas, não é porque a teoria marxista pela qual somos nutridos é incapaz de ser desenvolvida ou se tornou desatualizada. Pelo contrário, é porque nós ainda não aprendemos como fazer uso adequado das armas mentais mais importantes que tiramos do arsenal marxista por conta de nossa necessidade urgente por elas nos estágios primários de nossa luta. Não é verdade que, quanto à luta prática, Marx está desatualizado, que nós desbancamos Marx. Pelo contrário, Marx, em sua criação científica, nos ultrapassou enquanto um partido de combatentes práticos. Não é verdade que Marx já não é suficiente para nossas necessidades. Pelo contrário, nossas necessidades é que ainda não são adequadas para a utilização das ideias de Marx.

Assim é que as condições sociais da existência proletária na sociedade contemporânea, condições primeiramente elucidadas pela teoria marxista, se vingam pelo destino que impõem na própria teoria marxista. Embora essa teoria seja um instrumento incomparável da cultura intelectual, permanece não utilizada porque, enquanto é inaplicável à cultura da classe burguesa, ela transcende enormemente as necessidades da classe trabalhadora na questão das armas para a luta diária. Até que a classe trabalhadora seja libertada de suas atuais condições de existência, o método marxista de pesquisa não será socializado em conjunção com os outros meios de produção, para que possa então ser inteiramente utilizado para o benefício de toda a humanidade e para que possa ser desenvolvido até todas as medidas de sua capacidade funcional.

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Inclusão 06/03/2014
Última alteração 14/04/2014