O Movimento Estudantil Revolucionário

Ernest Mandel

21 de Setembro de 1968

Transcrição autorizada
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Fonte: Mandel, Ernest. Os estudantes, os intelectuais e a luta de classes. Lisboa: Edições Antídoto, 1979. pp 19-39.
Transcrição: Daniel Monteiro
HTML:  Fernando A. S. Araújo
Direitos de Reprodução: © Edições Antídoto. Gentilmente cedidos pela Associação Política Socialista Revolucionária.


Introdução

Em Setembro e Outubro de 1968, Ernest Mandel efectuou diversas conferências em trinta e três colégios e universidades nos Estados Unidos e no Canadá, de Harvard a Berkley e de Montréal a Vancouver.

A sua exposição na Assembleia Intenacional dos Movimentos Revolucionários Estudantis, sob a égide dos Estudantes para uma Sociedade Democrática (SDS), da Universidade de Columbia, foi considerada como o acontecimento maior da Assembleia e um dos pontos quentes da sua digressão. Esta reunião realizou-se na noite de sábado, 21 de Setembro, no auditório da Faculdade de Educação da Universidade de Nova lorque. Mais de 600 pessoas estiveram presentes e o debate prolongou-se durante várias horas. Reproduzimos a seguir o discurso principal dessa noite e os extractos essenciais das intervenções de Emest Mandel ao longo da discussão.

1. Teoria e prática

Rudi Dutschke, o dirigente dos estudantes berlinenses, e muitas outras personalidades estudantis representativas, avançaram como ideia central da sua actividade o conceito da unidade da teoria e da prática, da teoria revolucionária e da prática revolucionária. Não se trata de uma escolha arbitrária. A unidade da teoria e da prática pode ser considerada como a mais importante das lições da experiência histórica extraídas das revoluções que tiveram lugar na Europa, na América ou noutros países do Mundo. A tradição histórica que engloba esta ideia parte de Babeuf e, através de Hegel, chega a Marx. Esta conquista ideológica implica que o grande movimento de libertação da Humanidade deve ser guiado por um esforço consciente para reconstruir a sociedade, para ultrapassar uma situação na qual o homem está dominado pelas forças cegas da economia de mercado e começa a tomar nas mãos o seu próprio destino. Este acto consciente de emancipação não pode ser conduzido com eficácia, e muito menos até ao fim, sem que o homem tome consciência do ambiente social em que vive, das forças sociais com que deve enfrentar-se e das condições económicas e sociais gerais desse movimento para a libertação. Tal como a unidade da teoria e da prática é hoje um guia fundamental para qualquer movimento de emancipação, o marxismo ensina também que a revolução, a revolução consciente, não pode ser um êxito sem que o homem compreenda a natureza da sociedade em que vive e sem que compreenda as forças motoras que são subjacentes ao desenvolvimento económico e social dessa sociedade. Noutras palavras: sem que compreeenda as forças que comandam a evolução social, o homem não poderá transformar essa evolução por uma revolução. Eis a concepção principal que a teoria marxista introduz no actual movimento revolucionário estudantil na Europa.

Tentaremos demonstrar que estas duas ideias — a unidade da teoria e da prática e uma compreensão marxista das contradições objectivas da sociedade — que existiam muito antes que o movimento estudantil na Europa se tivesse revelado, foram reencontradas e reintegradas na luta prática pelo movimento estudantil europeu como um resultado das suas próprias experiências.

O movimento estudantil começa por todo o lado — e não é diferente nos Estados Unidos — como uma revolta contra as condições imediatas de que os estudantes fazem a experiência nas suas instituições académicas específicas, nas faculdades e escolas secundárias. Este aspecto é evidente no Ocidente, onde vivemos, embora a situação seja totalmente diversa nos países subdesenvolvidos. Ali, muitas outras forças e circunstâncias apelam a que a juventude estudantil ou não-estudantil se subleve. Mas, no decorrer dos dois últimos decénios, o tipo de juventude que frequenta a Universidade no Ocidente não tinha encontrado, na globalidade, nem no seu local de estudo, nem nas condições familiares, nem na própria cidade, razões iminentes de revolta social.

Existem, evidentemente, excepções. A comunidade negra dos Estados Unidos é uma delas; os trabalhadores imigrados mal pagos da Europa Ocidental são outra excepção. No entanto, na maioria dos países ocidentais, os estudantes que vêm desse meio proletário mais pobre são sempre uma ínfima minoria. A larga maioria dos estudantes vêm quer de meios pequeno-burgueses ou da média burguesia, quer das camadas trabalhadoras mais favorecidas. Quando chegam à Universidade, não estão em regra preparados, devido à vida que levaram até então, para compreender claramente ou plenamente as razões da revolta social. Tomam pela primeira vez consciência disso no quadro da Universidade. Não faço referência às excepcionais pequenas minorias de elementos politicamente conscientes, mas à grande massa de estudantes que se encontram confrontados com um certo número de condições que os conduzem para o caminho da revolta.

Em poucas palavras, tais condições abrangem a organização, a estrutura e o programa dos cursos inadequados da Universidade, bem como toda uma série de factos materiais, sociais e políticos de uma experiência no quadro da universidade burguesa, que se tornam insuportáveis para uma fracção cada vez maior de estudantes. É interessante observar que certos teóricos e pedagogos burgueses, que desejem compreender as razões da revolta estudantil, tiveram que reintroduzir na sua análise do meio estudantil certas noções que há muito tempo tinham eliminado da sua análise geral da sociedade.

Há poucos dias, quando me encontrava em Toronto, um dos principais pedagogos canadianos deu um curso sobre as causas da revolta estudantil. As suas razões, afirmou ele,

«são essencialmente materiais. Não porque as suas condições de vida sejam insuficientes; não por serem maltratados como eram os operários do século XIX. Mas, socialmente, criámos uma espécie de proletariado das universidades, que não tem nenhum direito de participar na elaboração dos seus programas, nenhum direito para, pelo menos, co-determinar a sua própria existência durante os quatro, cinco ou seis anos que passa pela Universidade».

Embora não possa aceitar esta definição não marxista do proletariado, penso mesmo assim que este pedagogo burguês revelou parcialmente uma das raízes da revolta estudantil generalizada. A estrutura das universidades burguesas não é mais que um reflexo da estrutura hierárquica geral da sociedade burguesa. Ambas se tornam insuportáveis para os estudantes, mesmo com o seu actual nível elementar de consciência social. Isso levar-nos-ia mais longe do que a sondagem das raízes psicológicas e morais mais profundas dessa tomada de consciência. Mas em certos países da Europa Ocidental, e certamente também nos Estados Unidos, a sociedade burguesa, tal como funcionou durante a última geração, provocou nos derradeiros anos uma decomposição muito avançada da família burguesa clássica. Enquanto jovens, os estudantes contestatários foram educados através da experiência prática a pôr em questão toda a autoridade, começando pela autoridade dos próprios pais. Isso é extremamente notório num país como a Alemanha de hoje.

Se conheceis um pouco da vida quotidiana alemã ou se estudais os seus reflexos na literatura alemã, sabeis que, até à Segunda Guerra Mundial, a autoridade paternal neste país era a que menos se punha em questão em todo o Mundo. A obediência dos filhos aos seus pais estava profundamente enraizada no tecido da sociedade. Mas a actual juventude alemã atravessou uma série de experiências amargas, antes de tudo como filhos de uma geração de pais alemães que, em elevado número, aceitaram o nazismo, depois adoptaram a guerra fria e, finalmente, viveram com todo o conforto na crença de que o pretenso «capitalismo popular» (designado por «economia social de mercado»), não seria abalado por nenhuma recessão, por nenhuma crise nem problemas sociais. As falências ideológicas e morais sucessivas dessas duas ou três gerações de pais deram origem hoje, no seio da juventude, a um profundo sentimento de desprezo pela autoridade dos seus pais e prepararam-nos para não aceitar, sem repto ou sem sérias reservas qualquer forma de autoridade quando chegam à Universidade.

Encontram-se então confrontados em primeiro lugar, com a autoridade dos professores e das instituições universitárias que, pelo menos no domínio das ciências sociais, estão incontestavelmente longe de toda a realidade. As lições que recebem não permitem nenhuma análise científica objectiva do que se passa no mundo ou nos diferentes países ocidentais. Este desafio lançado à autoridade académica enquanto instituição torna-se rapidamente num desafio ao conteúdo do ensino.

Além disso, na Europa, muito mais sem dúvida do que nos Estados Unidos, possuímos condições materiais muito pouco satisfatórias nas universidades. Elas encontram-se superpovoadas. Milhares de estudantes são obrigados a ouvir os seus professores através de sistemas de escuta. Não podem falar com o professor ou ter com ele quaisquer contactos, trocas normais de opiniões ou diálogos. As condições de alojamento e de alimentação são também más. Factores suplementares alimentam a energia da revolta estudantil. No entanto, devo insistir no facto de que tua principal razão da revolta persistiria mesmo se tais condições materiais fossem melhoradas. A estrutura autoritária da Universidade e o conteúdo inadequado do ensino recebido, pelo menos no domínio das ciências sociais, são muito mais causas do descontentamento do que o são as condições materiais.

Eis porque as tentativas de reformas universitárias que foram feitas pelas alas liberais dos diferentes establishments da sociedade neo-capitalista(1) ocidental muito provavelmente fracassarão. Tais reformas não atingirão os seus objectivos porque não atacam as verdadeiras origens da revolta estudantil. Não só não tentam suprimir as causas da alienação dos estudantes, mas, se forem aplicadas, antes as acentuarão.

Qual é o objectivo da reforma universitária tal como é proposta pelos reformadores liberais do mundo ocidental? É uma tentativa para arrumar a organização da Universidade a fim de que esta satisfaça as necessidades da economia e da sociedade neo-capitalista. Esses senhores dizem:

«Claro, não é nada bom ter um proletariado académico»; não é nada bom ter muita gente que deixe a Universidade sem poder encontrar emprego. Isto é para muitos a razão da tensão e da explosão social. Mas como resolver o problema? Fá-lo-emos reorganizando a Universidade e distribuindo o número de lugares acessíveis segundo as necessidades da economia neo-capitalista. Num país que tem necessidade de 100 mil engenheiros, asseguraremos 100 mil engenheiros em vez de dispormos de 50 mil sociólogos ou 20 mil filósofos, que não podem encontrar emprego compatível. Isto desembaraçar-nos-à das principais causas da revolta estudantil».

Eis uma tentativa para subordinar a função da Universidade, muito mais que no passado, às necessidades imediatas da economia e da sociedade neo-capitalista. Ela produzirá um grau ainda mais elevado de alienação estudantil. Se tais reformas são aplicadas, os estudantes nunca encontrarão uma estrutura e um ensino universitário que correspondam aos seus desejos. Não poderão escolher uma carreira, um domínio do saber, as disciplinas que gostam e correspondem às suas aspirações, às necessidades da sua própria realização em função das suas próprias personalidades. Serão obrigados a aceitar os cursos, disciplinas e domínios do saber que correspondem aos interesses dos poderes da sociedade capitalista e não às suas necessidades enquanto seres humanos. Assim, um nível mais elevado de alienação será imposto através de uma reforma da Universidade.

Não digo que se deva ser indiferente ao problema de qualquer reforma universitária. É necessário formular certas reivindicações transitórias para os problemas universitários, tal como os marxistas tentaram formular reivindicações transitórias para outros movimentos sociais em qualquer sector. Por exemplo, não vejo porque é que a reivindicação do «poder estudantil» não poderia ser avançada no quadro da Universidade. Tal reivindicação não se pode aplicar a toda a sociedade, pois significaria que uma pequena minoria se arrogaria o direito de reinar sobre a imensa maioria da sociedade. Mas, na Universidade, a reivindicação do «poder estudantil», ou não importa qual a outra reivindicação no sentido da auto-gestão pela massa dos estudantes, tem um valor evidente.

Sobre esta questão, serei contudo prudente, porque existem muitos problemas que tornam uma universidade diferente de uma fábrica ou de uma comunidade produtiva. É falso dizer-se, como fazem certos teóricos do SDS norte-americano, que os estudantes são já trabalhadores. A maioria dos estudantes são futuros produtores ou produtores em tempo parcial. Podem, quando muito, ser comparados com os aprendizes de uma fábrica, dado que a sua função é idêntica do ponto de vista do trabalho intelectual à dos aprendizes do ponto de vista do trabalho manual. Mas eles têm um papel social e um lugar transitório específico na sociedade. Devemos, pois, ser prudentes quanto à maneira como se formulam reivindicações transitórias a seu respeito.

No entanto, não é necessário levar aqui esta argumentação mais longe. Aceitemos de momento a ideia de «poder estudantil» como uma palavra de ordem transitória aceitável no quadro da universidade burguesa. Mas é perfeitamente claro que a concretização de uma tal reivindicação, que em si mesma não é impossível por um certo espaço de tempo, aquando das grandes explosões de contestação universitária, não alteraria as raízes da alienação dos estudantes porque elas não crescem da Universidade em si, mas da sociedade no seu conjunto. E não pudeis mudar um pequeno sector da sociedade burguesa - no caso presente o sector da Universidade burguesa —, e pensar que os problemas sociais podem ser resolvidos neste pequeno segmento enquanto o problema da mudança global da sociedade não tiver sido resolvido. Enquanto existir o capitalismo, o trabalho será alienado, o trabalho manual sê-lo-à, e também inevitavelmente o trabalho intelectual. Os estudantes permanecerão, pois, alienados, quaisquer que sejam as mudanças que a acção directa possa produzir no quadro da Universidade.

Também neste caso não é uma observação teórica que nos cai do céu. É uma lição da experiência prática. O movimento estudantil europeu, pelo menos a sua ala revolucionária, atravessou muitas experiências em praticamente todos os países da Europa Ocidental. Esquematicamente, o movimento estudantil começou por enfrentar problemas respeitantes à Universidade e muito depressa ultrapassou os limites da Universidade. Desenvolveu-se colocando uma série de questões sociais e políticas gerais que não estavam directamente ligadas ao que se passava na Universidade. O que se passou em Columbia, em que a questão da opressão da comunidade negra foi posta pelos «estudantes rebeldes», assemelha-se ao que ocorreu no movimento estudantil europeu, pelo menos entre os elementos mais avançados que se mostravam muito sensíveis aos problemas dos sectores mais explorados do sistema capitalista mundial.

Empreenderam acções de solidariedade com as lutas revolucionárias de emancipação dos povos dos países subdesenvolvidos; com Cuba, Vietname e outras partes oprimidas do Terceiro Mundo. A identificação das fracções mais conscientes do movimento estudantil francês com a revolução argelina, com a luta de emancipação dos argelinos contra o imperialismo francês, representou um enorme papel. Foi este, sem dúvida, o primeiro quadro em que uma verdadeira diferenciação política teve lugar sobre a esquerda do movimento estudantil. Os próprios estudantes representaram mais tarde o papel de vanguarda na luta pela defesa da revolução vietnamita contra a guerra de agressão do imperialismo americano.

Na Alemanha, esta simpatia pelos povos coloniais teve um ponto de partida bastante excepcional. A grande revolta estudantil surgiu aquando de uma acção de solidariedade com os trabalhadores, camponeses e estudantes de um outro país do pretenso Terceiro Mundo, o Irão, durante a visita do xá do Irão a Berlim.  A vanguarda estudantil não se identifica simplesmente com as lutas específicas da Argélia, de Cuba, do Vietname: ela mostra simpatia pela emancipação revolucionária do chamado Terceiro Mundo em geral. O desenvolvimento partiu daí mesmo. Em França, na Alemanha, em Itália — e o mesmo processo desenvolve-se neste momento na Grã-Bretanha - não era possível iniciar uma acção revolucionária de solidariedade com os povos do Terceiro Mundo sem uma análise teórica da natureza do imperialismo, do colonialismo, das forças motoras responsáveis, por um lado da exploração do Terceiro Mundo pelo imperialismo e, por outro lado, do movimento de libertação das massas revolucionárias desses países contra o imperialismo.

Através de um desvio pela análise do colonialismo e do imperialismo, as forças mais conscientes e organizadas do movimento estudantil europeu foram levadas ao ponto de partida do marxismo, isto é, à análise da sociedade capitalista e do sistema capitalista internacional em que vivemos. Se não compreendermos estes sistema, não poderemos compreender as razões das guerras coloniais ou dos movimentos de libertação coloniais. Não poderemos igualmente compreender porque nos devemos solidarizar com essas forças a uma escala mundial.

No caso da Alemanha esse processo levou menos de seis meses para se desenrolar. O movimento estudantil começou por colocar em questão a estrutura autoritária da Universidade, prosseguiu pondo em causa o imperialismo e a miséria no Terceiro Mundo, e em seguida, ao solidarizar-se com os movimentos de libertação, foi posto perante a necessidade de reanalizar o neo-capitalismo a uma escala mundial no próprio país em que os estudantes se mostravam activos. Tiveram de regressar ao ponto de partida da análise marxista da sociedade em que vivemos para compreender as suas razões objectivas mais profundas da miséria social e da revolta social.

2. A unidade da teoria e da prática

No processo de conquista e de reconstituição da unidade da teoria e da prática, tão depressa a teoria está em avanço sobre a acção como a acção precede a teoria. No entanto, a cada momento, as necessidades de uma luta obrigam os seus autores a restabelecer a unidade a um nível constantemente mais elevado.

Para compreender esse processo dinâmico, devemos reconhecer que opor a acção imediata ao estudo a longo prazo constitui um método falso. Fiquei admirado, durante a «Socialists schoolars conference» e durante diversas outras conferências, nos Estados Unidos, ao longo das duas últimas semanas, pela forma sistemática como essa divisão foi defendida num sentido ou no outro. Era como um diálogo de surdos em que uma parte da audiência dizia: «Apenas é necessário empreender a acção, a acção imediata, o resto é inútil», enquanto a outra parte afirmava: «Não! Antes de agir é preciso saber o que fazer, portanto não actuem ainda. Assentem-se, estudem, escrevam livros!» (Palmas).

A resposta evidente adquirida na experiência histórica, não apenas do período marxista, mas mesmo do período pré-marxista do movimento revolucionário, é que não se pode fazer umas coisa sem a outra (Palmas). A prática sem a teoria não será eficaz, nem emancipadora em profundidade, porque, como já antes afirmei, não se pode emancipar a humanidade inconscientemente. Por outro lado, a teoria sem a prática não será autenticamente científica, porque não existe outro meio de pôr a teoria à prova a não ser pela prática.

Qualquer forma de teoria que não seja posta à prova através da prática não se revela uma teoria adequada, mostra-se insuficiente do ponto de vista da emancipação da Humanidade (Palmas). E através de um esforço constante para conseguir as duas ao mesmo tempo, simultaneamente, e sem divisão do trabalho, que a unidade da teoria e da prática pode ser restabelecida a um nível progressivamente mais elevado a fim de que todo o movimento revolucionário, quaisquer que sejam as suas origens e objectivos socialmente progressistas, possa verdadeiramente alcançar os seus fins. Neste mesmo sentido de uma divisão do trabalho, uma outra ideia foi expressa que me espantou por ser extremamente estranha num corpo de socialistas. Essa divisão prevalecente entre a teoria e a prática, que em si já é má, recebe uma nova dimensão no movimento socialista quando se afirma: uma categoria é a dos activistas, as pessoas simples que fazem o trabalho ingrato. Uma  outra categoria é a da elite que deve pensar. Se essa elite se mistura com os piquetes de greve, não terá tempo para pensar ou escrever livros e, nesse caso, um elemento precioso da luta pela emancipação será perdido.

Devo dizer que qualquer noção que procurasse reintroduzir no seio do movimento revolucionário a divisão elementar do trabalho entre trabalho intelectual e trabalho manual, entre a ralé que faz o trabalho ingrato e a elite que pensa, é profundamente não-socialista. Ela vai contra um dos objectivos principais do movimento socialista que é precisamente o de alcançar o desaparecimento da divisão entre trabalho manual e intelectual (Palmas), não apenas no seio das organizações mas, mais importante ainda, à escala de toda a sociedade. Os socialistas revolucionários de há cinquenta ou cem anos não poderiam compreender tão claramente isso como nós, hoje, quando as possibilidades objectlvas de atingir tal fim existem. Entrámos já num processo objectivo de tecnologia e de educação que trabalha nesse sentido.

Uma das principais lições que deve ser tirada da degenerescência da Revolução Russa é que, se essa divisão entre trabalho manual e intelectual é mantida não importa em que sociedade de transição entre o capitalismo e o socialismo, enquanto instituição permanente, ela só pode desenvolver a burocracia, novas desigualdades e novas formas de opressão humana, que são incompatíveis com uma comunidade socialista (Palmas). Por conseguinte, devemos começar por eliminar, nos limites do possível, qualquer ideia de uma tal divisão de trabalho no próprio movimento revolucionário. Devemos sustentar, regra geral, que não existem bons teóricos se não forem capazes de participar na actividade prática, e que não existem bons activistas se se mostrarem incapazes de assimilar e desenvolver a teoria (Palmas).

O movimento estudantil europeu tentou chegar a isso num certo grau e com alguns sucessos na Alemanha Federal, em França e em Itália. Apareceu um tipo de dirigente estudantil que é um agitador e que pode mesmo, se isso for necessário, construir uma barricada e aí combater, mas que ao mesmo tempo é capaz de escrever um artigo teórico, e até um livro, e de discutir com os sociólogos, professores de ciências políticas e economistas mais em voga e derrotá-los no seu próprio terreno (Palmas). Isto tornou-nos confiantes não só no futuro do movimento estudantil, mas também para o tempo em que esses estudantes deixarão de o ser para desempenharem outras funções na sociedade.

3. A necessidade de uma organização revolucionária

Gostaria de discutir aqui um ou outro aspecto da unidade da teoria e da prática que esteve em debate nos movimentos estudantis europeus e norte-americanos. Estou pessoalmente convencido de que sem uma verdadeira organização revolucionária — e por isso entendo não uma formação conjuntural, mas uma organização séria e permanente — uma tal unidade da teoria e da prática não poderá ser adquirida de forma duradoura.

Apresentarei para isso duas razões. Uma reside no próprio estatuto do estudante. O estatuto do estudante, contrariamente ao do trabalhador é, pela sua própria natureza, de curta duração. Ele permanece na Universidade por quatro, cinco ou seis anos e ninguém pode vaticinar o que lhe acontecerá após a ter abandonado. Aqui, gostaria de responder de seguida a um dos argumentos mais demagógicos que foram utilizados pelos dirigentes dos  partidos comunistas europeus contra os «estudantes rebeldes». Disseram eles com desprezo:

«Quem são estes estudantes? Hoje, eles revoltam-se. Amanhã, serão os nossos patrões que ar nos hão-de explorar. Não tomemos então a sério o que eles fazem».

Este é um argumento ridículo, porque não toma em consideração a subversão do papel dos diplomados da Universidade na sociedade actual. Se se tivessem referenciado às estatísticas, teriam aprendido que apenas uma pequena minoria dos estudantes formados hoje em dia se tornam patrões ou agentes directos dos patrões, como gestores das fileiras superiores. Era talvez o que acontecia, sim, quando não havia mais de 10, 15 ou 20 mil diplomados por ano. Mas quando existe um milhão, ou quatro ou cinco milhões de estudantes, é impossível à maioria dentre eles tornarem-se capitalistas ou gestores de empresas, porque não existem assim tantos lugares disponíveis desse tipo.

O grão de verdade existente nesse argumento demagógico é que, abandonando o ambiente académico, o estudante diplomado pode ver modificar-se o seu nível de consciência social e de actividade política. Quando abandona a Universidade, esta atmosfera não o volta a envolver, e ele está mais vulnerável às pressões da ideologia e dos interesses burgueses ou pequeno-burgueses. Existe um grande perigo de ele se integrar no seu novo meio social, qualquer que este seja. Resultará daí um processo de retorno às posições de intelectual reformista ou liberal de esquerda, que já não arrastam consigo actividades revolucionárias.

É instrutivo estudar deste ponto de vista a história do SDS alemão, de momento o mais velho dos movimentos revolucionários estudantis na Europa. Desde que foi expulsa da social-democracia alemã, há nove anos atrás, toda uma geração de militantes SDS deixou a Universidade. Decorridos vários anos, na ausência de uma organização revolucionária, a esmagadora maioria desses militantes, qualquer que tenha sido o seu desejo individual de serem socialistas convictos e devotados, deixaram de ser politicamente activos de um ponto de vista revolucionário. Assim, para preservar no tempo a continuidade da actividade revolucionária, é preciso uma organização mais ampla que uma organização revolucionária puramente estudantil, uma organização na qual estudantes e não-estudantes possam trabalhar em conjunto.

Existem ainda uma razão mais importante pela qual uma tal organização-partido é necessária. Porque sem ela, nenhuma unidade de acção permanente com a classe operária industrial, no sentido mais amplo do termo, pode ser adquirida. Enquanto marxista,  continua convencido de que, sem a acção da classe operária, e impossível derrubar a sociedade burguesa e construir uma sociedade socialista (Palmas).

Ainda aqui, de uma forma notável, nós vemos como a experiência dos movimentos estudantis, primeiro na Alemanha, e depois em França e em Itália, chegaram na prática a esta conclusão teórica. Os mesmos tipos de discussões que têm agora lugar nos Estados Unidos sobre a importância ou não da classe operária industrial para a acção revolucionária foram travadas há um ano, ou mesmo há seis meses, em países como a Alemanha e a Itália.

O problema foi resolvido na prática, não apenas no decorrer dos acontecimentos revolucionários de Maio-Junho de 1968 em França, mas também pela acção comum dos estudantes de Turim com os trabalhadores da FIAT na Itália. Foi também clarificado pelas tentativas conscientes do SDS alemão para arrastar fracções da classe operária pela sua agitação fora da Universidade contra a sociedade de edições Springer e na sua campanha de prevenção contra a aplicação das leis de emergência para reduzir as liberdades democráticas.

Tais experiências ensinaram ao movimento estudantil da Europa Ocidental que é absolutamente indispensável que encontre um ponto de ligação com a classe operária industrial. Esta questão tem diferentes aspectos em diferentes níveis. Tem um aspecto programático que não poderei agora abordar. Coloca-se a questão: como é que os estudantes podem aproximar-se da classe operária industrial, não como querendo dar-lhe lições, porque nesse caso os trabalhadores mandá-los-iam sempre passear, mesmo que tenham uma zona de interesse de objectivos sociais comuns.

É uma questão que acima de tudo respeita ao problema da organização do partido. De contrário, toda uma série de experiências autodestruidoras para chegar a uma tal colaboração a um elementar nível de acção imediata entre um reduzido número de estudantes e um reduzido número de trabalhadores desfiar-se-á ao fim de três a seis meses, sem ter conduzido a nada. Mesmo se se recomeça a partir do zero, logo que o balanço for feito ao fim na de um, dois ou três anos, pouco restará dessa ligação.

A função de uma organização revolucionária permanente é a de facilitar uma integração recíproca das lutas estudantis e das da classe operária pelas suas vanguardas de uma forma contínua. Não existe apenas continuidade no tempo, mas também, por assim dizer, continuidade no espaço, interacção entre diferentes grupos sociais que têm a mesma razão de ser socialistas revolucionários.

Devemos interrogar-nos se uma tal interacção é objectivamente possível. É mais fácil responder que sim depois das experiências da França, Itália e outros países da Europa Ocidental e de defender essa linha para a Europa Ocidental do que para os Estados Unidos. Por razões históricas que não posso agora abordar, existe uma situação particular nos Estados Unidos em que a maioria da classe operária branca não está ainda receptiva às ideias socialistas de acção revolucionária. É um facto incontestável. Evidentemente, isto pode alterar-se rapidamente. Alguns diziam que se passava a mesma coisa em relação a França algumas semanas apenas antes do 1º de Maio de 1968. No entanto, mesmo nos Estados Unidos, existe uma importante minoria da classe operária industrial, os trabalhadores negros, a propósito dos quais ninguém pode dizer, após a experiência destes últimos dois anos, que são inacessíveis às ideias socialistas ou incapazes de empreender a acção revolucionária. Aqui, pelo menos, existe uma possibilidade imediata de unidade entre a teoria e a prática com uma parte da classe operária.

Além disso, é essencial analisar as tendências sociais e económicas que, a longo prazo, sacudirão a apatia e o conservantismo políticos predominantes da classe operária branca. O exemplo da Alemanha, em circunstâncias similares, mostra que isso pode acontecer. Há alguns anos, a classe operária alemã surgia tão mergulhada na mesma estabilidade, no mesmo conservadorismo, tão inquebrantavelmente integrada na sociedade capitalista como a classe operária norte-americana aparece hoje para muitas pessoas. Mas isto já começou a mudar. Este caso ilustra como uma ínfima mudança na relação de forças, uma pequena lr deficiência da economia, um ataque dos patrões sobre a estrutura e os direitos sindicais tradicionais, podem criar tensões sociais que podem modificar muita coisa neste domínio.

De qualquer modo, não é minha tarefa informar dos problemas da vossa própria luta de classes como não é vossa tarefa a de irem prégar aos operários. Prefiro indicar um dos principais canais através do qual a consciência socialista e a actividade revolucionária pode transmitir-se entre estudantes e trabalhadores, como o demonstraram não só a Europa Ocidental mas também o Japão. Esta correia de transmissão específica é a juventude operária. Consequência das mudanças tecnológicas dos últimos anos sobre a estrutura da classe operária, o sistema educativo burguês revela-se inadequado para preparar os jovens trabalhadores, ou uma parte dos jovens operários, para desempenhar o novo papel exigido por essa mudança tecnológica, quando se trata de uma necessidade dos próprios capitalistas. Os Estados Unidos constituem um exemplo extremamente flagrante disso mesmo, com a falência total do ensino para os jovens trabalhadores negros que têm uma taxa de desemprego tão elevada to como a média da população norte-americana global durante a grande depressão. Este facto explica em grande parte o que se passa no seio da juventude negra neste país.

E isso é apenas uma das manifestações de uma tendência mais geral que nos impõe uma atenção para tudo o que se passa no seio da juventude. Não existe outro sinal mais evidente da decrepitude e da decomposição de um sistema social do que o facto de ele ter de condenar e rejeitar totalmente a sua juventude. O poder francês, durante os acontecimentos de Maio, não se de recusou apenas a fazer distinções entre jovens estudantes, jovens empregados e jovens operários, mas considerou a juventude em si mesma como uma inimiga.

Um exemplo concreto é o incidente de Flins, durante a greve geral. Depois de um jovem estudante liceal ter sido abatido pela polícia, houve um tumulto tempestuoso. Então, sistematicamente, a polícia dissimulou-se na multidão e apartou os manifestantes, consultando os cartões de identidade. Todo aquele que tivesse menos de trinta anos era preso, porque considerado potencialmente insurreccional, disposto a lutar contra a polícia (palmas).

Se examinarem de perto a literatura contemporánea, a indústria cinematográfica e outras formas de reflexos da realidade social na superestrutura cultural no decurso dos últimos cinco ou dez anos, verificareis que, sob a desonestíssima cobertura de denúncia da delinquência juvenil, a burguesia traçou realmente um quadro desse tipo de juventude que o seu sistema produz bem como o espírito rebelde dessa juventude. Isto não se limita de modo nenhum aos estudantes ou às minorias como a juventude negra dos Estados Unidos. Isso aplica-se também aos jovens operários.

É imperioso estudar tudo o que se passa com os jovens trabalhadores em luta. Ganhar esses jovens operários para a consciência socialista, para as ideias da revolução socialista, será provavelmente decisivo para o destino da maioria dos países ocidentais nos dez ou quinze próximos anos. Se conseguirmos fazer dos melhores desse jovens, revolucionários sociais, como creio que foi feito em larga medida na Europa Ocidental, podemos ter confiança no futuro do nosso movimento. Se falharmos esse propósito, e uma grande parte dessa juventude deslizar para a extrema direita, teremos perdido uma luta decisiva e encontrar-nos-emos na mesma grave situação a que o movimento socialista e revolucionário europeu teve de fazer face nos anos trinta.

A unidade da teoria e da prática significa também que toda uma série de ideias-chave do velho movimento socialista e da tradição revolucionária estão em vias de ser hoje redescobertas. Eu sei que uma parte do movimento estudantil nos Estados Unidos gostaria de criar qualquer coisa inteiramente nova. Aprovo sinceramente qualquer proposta e intenção de fazer as coisas melhor, porque o balanço do que as gerações anteriores conseguiram fazer do ponto de vista da construção de uma sociedade socialista não é muito convincente. Mas aqui, sim, é imperioso fazer uma advertência. Em noventa e nove por cento das vezes, quando pensais que estais a criar ou a descobrir qualquer coisa de novo, o que estais na realidade a fazer é a voltar a um passado que está ainda mais distante do que o passado do marxismo.

Quase todas as "novas ideias" que foram avançadas no movimento estudantil na Europa no decorrer dos últimos dois ou três anos, e que começam a ser correntes nos Estados Unidos, são muito, muito velhas. E isto por uma razão muito simples, que está enraizada na história das ideias. As diversas possibilidades de evolução social e as principais tendências de crítica social que Ihes correspondem foram desenvolvidas nas suas grandes linhas pelos grandes pensadores dos séculos XVIII e XIX. Quer isto vos agrade ou não, a verdade é que continua a ser válido tanto para as ciências sociais como para as ciências naturais, em que uma série de leis elementares foram estabelecidas no passado. Se pretendeis desenvolver tendências novas, deveis baseá-las nos alicerces que foram fundados pelos melhores pensadores e lutadores das gerações precedentes. Esta procura desesperada de qualquer coisa inteiramente nova não é mais do que um aspecto episódico da fase inicial da radicalização estudantil. Desde que o movimento se alarga e mobiliza largas massas, então, paradoxalmente, dá-se o inverso, como os sociólogos franceses sublinharam com grande espanto a propósito dos acontecimentos de Maio. Nessa altura, as largas massas estudantis revolucionárias fizeram tudo para redescobrir a sua tradição e as suas raízes históricas. Os estudantes devem ter consciência de que são mais fortes se puderem dizer: nós lutamos no prolongamento de um combate pela liberdade que começou há cento e cinquenta anos, ou mesmo há dois mil anos, quando os primeiros escravos se sublevaram. Isso é muito mais convincente do que dizer: nós fazemos qualquer coisa inteiramente nova, que está separada da história e isolada de todo o passado, como se esse passado nada tivesse a ensinar-nos nem a dar-nos (palmas).

Esta procura conduzirá os «estudantes rebeldes» aos conceitos históricos fundamentais do socialismo e do marxismo. Temos visto como os movimentos estudantis francês, alemão, italiano e agora britânico chegaram às ideias de revolução socialista e de democracia operária. Para qualquer pessoa da minha escola de pensamento, foi uma enorme alegria ver com que elevado rigor o movimento revolucionário francês protegia o direito de cada tendência à liberdade de expressão, retomando as melhores tradições do socialismo. A vossa própria assembleia retoma a velha tradição socialista e marxista de internacionalismo quando dizeis que a revolta estudantil é mundial e que o movimento estudantil é internacional.

E é um internacionalismo do mesmo tipo, com as mesmas raízes e com os mesmos objectivos que o internacionalismo do socialismo, como o da classe operária! Os problemas internacionais imperativos a que estudantes fazem frente são problemas de solidariedade com os nossos camaradas no México, na Argentina, no Brasil, que estão à cabeça de lutas extraordinárias, conduzindo a revolução latino-americana para um estádio novo e mais elevado, após as derrotas que lhe foram impostas por uma má direccão, pela reaccão interna e pela repressão imperialista no decurso dos últimos anos. Acima de tudo devemos saudar a coragem e a audácia dos estudantes mexicanos (palmas). Em poucos dias, mudaram fundamentalmente a situação política do seu país e arrancaram a máscara de falsa democracia que o governo mexicano tinha colocado para receber alguns milhões de visitantes durante os Jogos Olímpicos. Agora, qualquer pessoa que assista a esses jogos saberá que entra num país em que os dirigentes sindicais dos caminhos de ferro foram mantidos na prisão durante longos anos após terem cumprido a sua pena, onde inúmeros presos políticos de esquerda foram encarcerados durante anos sem processo, onde dirigentes estudantis e um milhar de militantes estudantes se encontram na prisão sem qualquer fundamento jurídico. Os seus protestos heróicos terão enormes consequências sobre o futuro da política mexicana e da luta de classes no México (palmas).

É preciso dizer também algumas palavras acerca dos estudantes perseguidos nos países semicoloniais, de que nunca ninguém fala, tais como os dirigentes estudantis congolenses que estão na prisão desde há um ano por terem organizado uma pequena manifestação contra a guerra do Vietnam quando o vice-presidente Humphrey esteve entre eles. Não devemos esquecer os dirigentes dos estudantes tunisinos que foram condenados a doze anos de cadeia pelas mesmas razões. Apenas por terem conduzido uma manifestação: doze anos de prisão! Devemos alertar a opinião pública para que tais crimes de repressão não sejam esquecidos.

Devemos também pensar nos nossos camaradas da Iugoslávia e da Checoslováquia (palmas) que travaram este ano grandes lutas. Eles mostraram que a sua luta para introduzir e consolidar a democracia socialista nos países da Europa de Leste é uma luta paralela à nossa contra o capitalismo e o imperialismo no Ocidente. Não consentiremos que quer a reacção estalinista quer a reacção imperialista deformem a natureza dessa luta como pró-imperialista ou pró-burguesa, o que ela não é de forma nenhuma (palmas).

Finalmente, não devemos esquecer, como alguns poderiam fazê-lo, porque isso não figura na «primeira página» dos jornais, a luta contra a intervenção dos Estados Unidos no Vietnam, que continua a ser a luta principal no mundo de hoje. Não é por estarem abertas as negociações em Paris que deixámos de ter alguma coisa que fazer para ajudar a luta dos nossos camaradas vietnamitas. Assim, pois, apelo-vos para que participem na acção mundial que foi empreendida pelo movimento estudantil japonês, o Zengakuren, pela Federação Britânica dos Estudantes Revolucionários com a campanha de «Solidariedade pelo Vietnam», nesses países, e o Comité de Mobilização Estudantil, aqui. É a semana de solidariedade com a revolução vietnamita de 21 a 27 de Outubro. Nessa semana, centenas de milhares de estudantes, jovens trabalhadores e jovens revolucionários, descerão a rua ao mesmo tempo numa acção mundial comum pelo objectivo concreto que os próprios camaradas vietnamitas nos dizem ser o mais importante para eles! Mostrar ao mundo inteiro que nos Estados Unidos centenas de milhares de pessoas são a favor da retirada imediata das tropas americanas do Vietnam. Eis o que será uma grande conquista! (Palmas).

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Notas de rodapé:

(1) O termo neo-capitalista é aqui utilizado no sentido da «terceira idade do capitalismo». ou seja, significando simplesmente uma etapa do capitalismo dos monopólios (do imperialismo) e não uma qualquer «ultrapassagem» das contradições internas do modo de produção capitalista. (retornar ao texto)

Inclusão 08/07/2011
Última atualização 14/04/2014