A Necessidade de uma Organização Internacional Revolucionária

Ernest Mandel e John Ross


Fonte: Perspectiva Internacional — maio-junho/1982.
Transcrição: Daniel Monteiro
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A construção de organizações revolucionárias em escala nacional e a batalha por uma internacional revolucionária são tarefas complementares e conjuntas

1. A internacionalização das forcas produtivas

Deste seu nascimento, o capitalismo orientou-se para o mercado mundial. A especialização do comércio internacional, a exportação de produtos manufaturados pelos primeiros países capitalistas industrializados, a importação de bens provenientes dos países "subdesenvolvidos", a conquista de mercados nestes países, acompanharam cada passo dado pelo modo capitalista de produção. O imperialismo levou esta tendência a um nível mais elevado. Pela sua própria natureza expansiva, o capitalismo criou um sistema mundial. Qualquer sistema social superior que o substituir deverá, necessariamente, ter a esse respeito um caráter ainda mais internacional que o sistema imperialista. Não somente do ponto de vista político, mas também do ponto de vista diretamente econômico, qualquer teoria do "socialismo em um só país" é ao mesmo tempo reacionária e utópica.

Entretanto, a ascensão mundial do capitalismo caracterizou-se pelo desenvolvimento desigual e combinado. A indústria de massa dos centros capitalistas desenvolvidos destruiu a produção pré-capitalista dos países que eles dominam (indústria a domicílio, indústria camponesa, primeiras formas de manufatura) sem, no entanto, criar um desenvolvimento massivo da indústria moderna nestes países.

Na época imperialista, a exportação de capitais, a aparição, a nível internacional, de enormes grupos de capital financeiro que controlam o mercado financeiro de quase todas as regiões do mundo, o controle político e militar, direto ou indireto, dos países subdesenvolvidos pelas potências imperialistas, impedem estes países, mesmo com alguns decênios de atraso, de seguir o modelo geral de industrialização, de desenvolvimento econômico e de modernização estabelecido pelos países que primeiramente se industrializaram. Seu desenvolvimento orgânico é desviado sob o peso da dominação imperialista. O progresso da indústria moderna coincide com a manutenção, e mesmo a consolidação, de formas de produção e de exploração pré-capitalistas: usura e condições de semi-servidão; elevadas rendas fundiárias, prestações de serviços semi-feudais, peso preponderante dos proprietários fundiários, comerciantes e banqueiros estrangeiros dominando a política comercial, etc. Mesmo onde, após a II Guerra Mundial, uma industrialização capitalista mais intensa teve lugar, ela foi realizada às custas de desproporções e desequilíbrios enormes, que acentuam a desigualdade e a desagregação sociais.

Decorre desse processo que a economia capitalista internacional tornou-se uma unidade estruturada em favor dos centros imperialistas. Hiper-especializadas na extração e exportação de matérias-primas, tendo uma indústria cada vez mais orientada para o mercado de exportação, as economias dominadas pelo imperialismo estão à mercê de subidas e quedas bruscas dos preços das matérias-primas no mercado mundial. Mesmo as economias que atingem um desenvolvimento industrial relativamente importante permanecem submetidos à situação que prevalece, nos centros imperialistas (endividamento enorme, dependência tecnológica, etc), enquanto as economias neo-coloniais mais fracas sofrem golpes que condenam as massas de camponeses pobres e trabalhadores a viverem no limite da miséria, senão na verdadeira fome. As desigualdades sociais e os desequilíbrios crescentes têm por conseqüência a instabilidade política e crises freqüentes. É esse o processo que se desenrolou ao longo de todo o período que começou com a crise do sistema imperialista e que continuou nos últimos anos no Irã, na Nicarágua, Brasil. Coréia do Sul, El Salvador, Zimbabwee em vários outros países.

No capitalismo da "terceira idade" (um sub-período da época imperialista que começa com o fim da II Guerra Mundial), a emergência de sociedades multinacionais reflete ainda mais claramente xtma fase mais elevada da internacionalização das forças produtivas. Esta internacionalização não se manifesta apenas através do comércio mundial e do movimento mundial de capitais, enquanto as unidades produtivas permanecem essecialmente nacionais. Ela se manifesta, agora, pela organização cada vez mais internacional da própria produção industrial. As sociedades multinacionais organizam uma divisão internacional do trabalho em seu próprio seio. Elas fabricam peças sobressalentes em um continente e possuem as linhas de montagem em um outro. Elas transferem de um país para outro, senão de um continente para outro, a fabricação de tal ou qual tipo de seus produtos. Não há melhor prova do fato de que, não-somente a propriedade privada capitalista, como também o Estado-Nação, foram ultrapassados pelo nível de desenvolvimento atingido pelas forças produtivas. Muitos ramos industriais atingiram hoje um tal nível tecnológico que mesmo uma única máquina não pode ser utilizada com lucros se ela não trabalha para um mercado que englobe vários países ao mesmo tempo.

Aliás, todos os problemas econômicos chaves enfrentados hoje pela humanidade — o problema de vencer a fome e o subdesenvolvimento do Terceiro Mundo, o problema de assegurar e manter o pleno emprego, o problema de subordinar o desenvolvimento "espontâneo" da ciência e da tecnologia às necessidades da humanidade, o problema da resolução da crise ecológica — não podem ser resolvidos senão à escala internacional.

A idéia de uma "soberania nacional" ilimitada, idéia que é progressista enquanto é utilizada contra os restos do feudalismo ou as usurpações do imperialismo (isto é, a opressão e a exploração), torna-se reacionária não-somente nos Estados imperialistas, mas também quando aplicada à construção de um mundo socialista unificado, de uma federação mundial de repúblicas socialistas. Isso explica também porque todas as tentativas feitas pelas burocracias dos Estados operários deformados e degenerados para construir "o socialismo em um só país" são reacionárias e utópicas. Nenhuma repartição racional dos recursos mundiais em favor de uma rápida superação do subdesenvolvimento, da eliminação da fome e da miséria, da eliminação das desigualdades entre nações "ricas" e "pobres", não é possível se cada país quiser "marchar só", cada um construindo sua própria siderurgia, sua própria indústria automobilística, sua própria indústria eletrônica, independentemente dos custos e virando as costas às grandes vantagens da divisão internacional do trabalho. Isto será ainda mais verdadeiro no caso de revoluções nos países industrializados avançados.

Certamente, a divisão internacional dó trabalho que funcionou sob o capitalismo, que a burocracia privilegiada usurpadora do poder na URSS aplicou, isto é, uma divisão do trabalho fundada na desigualdade, aumentou terrivelmente as suspeitas e prevenções a respeito da solidariedade internacional em muitos povos (na Europa Oriental, assim como na Ásia e outros lugares). Mas isso não é uma razão para que os marxistas revolucionários fechem os olhos diante da evidência: o socialismo mundial só é possível no mais alto nível de organização e de planificação internacionais da vida econômica e política. Isto não é possível sem que numerosas restrições á "soberania nacional", com base em uma estrita igualdade entre as nações, sejam livremente aceitas pela massa dos trabalhadores que serão senhores de seus destinos em uma Federação socialista mundial. Esta livre aceitação é impossível sem um alto nível de educação internacionalista de organização.

2. A luta de classe é internacional

Por sua própria natureza, isto é, pelos seus vínculos com a propriedade privada e a concorrência, a exploração e a desigualdade, a classe capitalista e seu séquito (a parte da pequena burguesia que partilha de sua ideologia) são organicamente incapazes de encontrar uma solução mundial aos problemas da humanidade. O enorme fosso entre a internacionalização objetiva das forças produtivas, de um lado, e a sobrevivência do Estado-Nação burguês, de outro, foi tapado em parte por todas as espécies de instituições e mecanismos internacionais. Mas, se observarmos mais de perto a maneira como essas instituições e mecanismos funcionam, sempre se descobrirá que é em favor de certos grupos de capitalistas (geralmente os mais fortes) e às custas de outros, em favor do capital em geral c às custas dos explorados e oprimidos de todo o mundo.

O capitalismo só pode se desenvolver impulsionando simultaneamente o desenvolvimento do trabalho assalariado. A acumulação do capital tem sua fonte na mais-valia, que só pode ser produzida por trabalho assalariado vivo. Desde seu nascimento, uma luta de classe contínua entre o Capital e o Trabalho acompanhou o capitalismo.

Esta luta de classe não cresce continuamente e não atinge a todo momento uma expressão consciente. Ela conhece altos e baixos, sobretudo em suas formas mais agudas (greve de massa em larga escala, ações políticas de massas em grande escala; situações pré-revolucionárias; lutas revolucionárias pelo poder). Mas mesmo quando ela recua temporariamente, por parte da classe operária, ela é continuada cotidianamente, ao nível da fábrica, pela classe capitalista. Cada nova máquina introduzida em uma empresa, cada tentativa de racionalizar a organização da produção, é uma tentativa do capital para extorquir do trabalho assalariado mais sobre-trabalho, mais mais-valia. Toda demissão de um trabalhador de uma empresa é uma tentativa de enfraquecera classe operária.

Periodicamente, os trabalhadores respondem a esses ataques contínuos conduzidos pela classe capitalista, a essa luta de classe cotidiana de seu inimigo de classe, através de reações massivas e não mais individuais, fragmentárias e limitadas. Suas reações massivas vão da greve de massa à forma mais elevada da luta de classe proletária: a luta pela derrubada da propriedade e o poder de Estado da burguesia, a luta pela' vitória da revolução socialista.

Quanto mais elevado o nível da internacionalização do capital e das forças produtivas, mais a luta de classe torna-se internacional. Tomemos um exemplo bastante elementar: já na segunda metade do século XIX, os patrões tentaram esmagar as greves transferindo encomendas para países estrangeiros ou importando mão-de-obra estrangeira. Uma reação nacionalista da parte dos grevistas, pretendendo apresentar os "estrangeiros" como inimigos, joga em favor dos patrões e rapidamente se mostra ineficaz, mesmo para ganhar greves. A longo prazo, isto só pode ajudar ainda mais a classe capitalista, que tenta dividir de maneira permanente a classe operária, que tenta introduzir ao seio da classe operaria a concorrência e a luta entre trabalhadores de diferentes nacionalidades, que é do interesse do Capital, mas é contrário aos interesses do Trabalho.

A experiência rapidamente ensinou aos trabalhadores que a melhor resposta a essas manobras dos capitalistas era estender as greves e a organização sindical ao nível internacional. Esta foi uma das principais razões que permitiram a Marx e Engels organizar a primeira Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) em 1864. Contrariamente à classe capitalista, a classe operária não tem nenhuma ligação orgânica com a concorrência, que é ligada à existência da propriedade privada. Seus interesses fundamentais, determinados pela própria maneira como ela trabalha na empresa e pela maneira como ela se defende contra o inimigo de classe, são fundados na cooperação e solidariedade.

O capital, operando cada vez mais em escala internacional, internacionalizando cada vez mais a luta de classe, obriga a classe operaria a responder, estendendo a cooperação e a solidariedade a nível internacional, para não ser batida de antemão em um jogo desigual, em que as cartas estão marcadas.

É verdade que a consciência de classe proletária desenvolve-se bastante atrasada diante das necessidades objetivas da luta de classe. Agora e sempre, a burguesia e as burocracias operárias que a servem, conseguiram utilizar o nacionalismo, o chauvinismo, o racismo, as diferenças étnicas e religiosas, para dividir os trabalhadores, jogando-os uns contra os outros, em lugar de uni-los contra o inimigo comum de classe. Mas cada vez que isto aconteceu, cada vez que a classe operaria não consegue compreender suas tarefas internacionalistas, a experiência mostrou que somente os capitalistas lucraram e que os trabalhadores foram justamente as grandes vítimas.

Assim, no inicio da I Guerra Mundial, a maioria dos trabalhadores europeus primeiro baixaram a cabeça ante a enorme pressão da propaganda chauvinista burguesa, transmitida às suas fileiras pelos dirigentes de seus partidos de massa e sindicatos que haviam capitulado diante da burguesia imperialista. Essa foi a causa do desmoronamento da II Internacional. Em 1914, esses trabalhadores aceitaram a guerra como sendo guerra de "defesa nacional", embora ela fosse, na realidade, uma guerra de pilhagem imperialista. Mas, rapidamente eles pagaram um preço altíssimo por esse recuo, milhares de trabalhados foram mortos por seus próprios irmãos de classe de outros países. Dezenas de milhões viram baixar rapidamente seu nível de vida como o preço de sua aceitação da colaboração de classe com os patrões, e do compromisso em não fazer greve em nome da "união" sagrada. Então, tornou-se possível aos intemacionalistas, que não passavam de uma pequena minoria no início da guerra, convencerem setores cada vez mais amplos da classe operária de que o internacionalismo prático não era nem uma utopia nem um "ideal" abstrato, aplicável somente por uma pequena vanguarda, mas sim uma necessidade real que correspondia ao interesse comum imediato e material dos trabalhadores de todos os países.

Do mesmo modo, no inicio das guerras contra-revolucionárias de reconquista colonial, como a guerra conduzida pelo imperialismo francês contra a revolução argelina a partir de novembro de 1954, a massa dos trabalhadores foi influenciada por preconceitos chauvinistas e racistas, sobretudo porque não foram vigorosamente combatidos, desde o começo, pelas direções das organizações de massa reformistas da classe operária. Eles se furtaram ao dever de solidariedade com o combate pela liberação travado pelos oprimidos por sua própria burguesia imperialista. Também ai pagaram um preço elevado por este abandono de um princípio fundamental da luta de classe: milhares de mortos, e no caso da França, uma ameaça crescente contra suas próprias liberdades democráticas, conduzindo, em 1958, à queda da IV República e ao estabelecimento de um Estado muito bonapartista sob o general De Gaulle. Esta experiência ajudou as pequenas minorias intemacionalistas a convencerem setores da classe operária da necessidade de se bater contra as sórdidas guerras coloniais e de se opor aos esforços de guerra por todos os meios necessários.

A necessidade de se levar a luta de classe ao nível internacional também se manifestou claramente em lutas mais recentes. Hoje, quando as empresas multinacionais organizam a produção em escala mundial, quando a política é, antes de tudo, uma política mundial, as tentativas de se resolver no plano estritamente nacional mesmo as questões canden-tes da defesa dos interesses econômicos imediatos da classe operária tornam-se cada vez mais difíceis.

Enquanto nestes últimos dois anos a crise da siderurgia se estendia a toda a Europa Ocidental, levando ao desemprego mais de 100.000 trabalhadores da siderurgia em 12 países, os trabalhadores da siderurgia da Alemanha Ocidental foram abandonados pelos sindicatos dos outros países no momento da primeira greve exemplar pela semana de 35 horas,e embora, se esta greve tivesse sido ganha internacionalmente, teria permitido salvar, ao menos de imediato, todos aqueles empregos. Da mesma forma, a potência da greve dos siderúrgicos britânicos foi enfraquecida, apesar da determinação exemplar, porque nenhuma tentativa séria de solidariedade internacional foi organizada. Não se estabeleceu seriamente nenhum bloqueio do transporte de aço proveniente das laminadoras européias, através de caminhões, estradas de ferro e portos do continente. Mesmo um número limitado de sindicalistas resolutos, coordenando suas ações em todos os países europeus, poderiam atingir um sucesso parcial e poderiam exercer uma pressão suficientemente grande para que. ao final, em suas estruturas sindicais, a solidariedade prevalecesse.

Esses exemplos mostram como a realidade internacional da luta de classe se impõe de fato nos processos sociais objetivos. Isto indica os deveres e as possibilidades da classe operária e dos revolucionários.

As raízes objetivas da necessidade do internacionalismo proletário são muito simples. A luta de classe implica que cada derrota de uma classe é uma vitória para a outra. Isso é verdade não só nacional como também internacionalmente.

A burguesia compreende este fato muito bem. Seus círculos dirigentes têm uma consciência internacional extremamente desenvolvida. Suas organizações contra-revolucionárias (OTAN, CEE. Tratados de "defesa", tipo AS E AN) e suas operações, (Vietnã, golpe de Estado na Bolívia, intervenções no golfo pérsico e em El Salvador) têm uma dimensão plenamente internacional. Quaisquer que sejam os desacordos particulares que existem entre seus diferentes setores, eles cooperam integralmente com as mais decisões contra-revolucionárias.

Em oposição, o proletariado está gravemente freiado por suas direções stalinista e social-democrata. Ele sofre grandemente cada vez que falha em suas obrigações internacionais.

A incapacidade do movimento operário na Grã-Bretanha em responder as necessidades de solidariedade a Irlanda criou, diretamente, não-somente a divisão do país, como também um enclave ultra-recionário no seio do Estado britânico. A incapacidade das direções do movimento operário nos países imperialistas de se solidarizarem plenamente com a luta contra a burocracia stalinista na Europa Oriental deixou a porta aberta às correntes mais direitistas em seus próprios países para vestirem o manto de "defensores da democracia".

Pelo contrário, cada vez que aplicou uma verdadeira política de solidariedade internacional, mesmo se por motivos confusos a princípio, o movimento operário obteve ganhos importantes.

Assim, a crescente recusa dos trabalhadores e jovens de Portugal em prosseguir as guerras coloniais na África, a penetração desta recusa no exército, levaram à derrubada da ditadura fascista de Salazar-Caetano, em 1974.

Um outro exemplo convincente, justamente porque ele se iniciou sobre um ponto de partida limitado, no seio do mais possante Estado imperialista do mundo, foi o caso do movimento contra a guerra do Vietnã. Em meados dos anos 60, a escalada da ofensiva militar americana no Vietnã não foi imediatamente seguida, nos EUA, por uma oposição de massa ativa. Mas o número crescente de mortos causados pela guerra suas conseqüências para a economia americana, a visão hedionda da agressão imperialista que a guerra revelou à juventude, engendrou uma oposição crescente, tanto através de protestos ativos como através da recusa passiva em aceitar os sacrifícios que esta guerra exigia. Os intemacionalistas, que no início não representavam senão uma pequena minoria eram os únicos capazes de realizar pequenas ações de protesto, chegaram a influenciar ações de centenas de milhares de pessoas e se encontravam mergulhados no coração da maré do sentimento popular. O resultado desta luta, baseada e estimulada pelo incrível heroísmo da luta do povo vietnamista, impôs a mais dura derrota que a classe dirigente americana sofrerá em toda a sua história. O internacionalismo na ação não é então, nem um "gadget", nem uma "preocupação exótica", nem uma "utopia". Em cada país, ele afeta diretamente as relações de força entre as classes, e portanto as possibilidades de vitória da classe operária. Esta é a implacável lógica objetiva da luta de classe.

A necessidade de uma organização internacional da vanguarda da classe operária não está fundada apenas sobre as realidades econômicas do mundo contemporâneo. Ela se funda igualmente sobre a realidade global da luta de classe. "A emancipação do proletariado não pode ser senão um ato internacional"'(Carta de Engels a Paul Lafargue, 26.6.1893).

3. As bases políticas do internacionalismo proletário

Pelo menos a partir do século XX (parcialmente já no século XIX), o agravamento das contradições internas do capitalismo tem conduzido periodicamente a violentas explosões. A época imperialista toma-se a época das guerras, revoluções e contra-revoluções adquirem cada vez mais a forma de revoluções e contra-revoluções internacionais.

De fato, nenhuma revolução importante ocorreu no século XX sem ter sido impulsionada por desenvolvimentos internacionais e sem se estender a outros países. A revolução russa estendeu-se rapidamente à Finlândia, Polônia, Alemanha, Áustria, Hungria e, parcialmente, à Itália. Em 1936, a revolução espanhola começava a se estender à França. A revolução chinesa de 1946-1949 estendeu-se à Coréia, Indochina, Indonésia, Malásia. A revolução indo-chinesa, estendeu-se à Argélia. A revolução argelina estendeu-se a Angola, Moçambique. Guiné-Bissau e de lá. a Portugal. A revolução cubana espalhou-se pela América Latina. Diante de nossos olhos, a revolução nicaragüense se estende hoje para El Salvador e a outros países da América Central.

Da mesma fora, como já vimos, a contra-revolução se organiza em escala internacional. Ela não se contenta em financiar e armar a classe dirigente de qualquer país ameaçado pela revolução, seja para permanecer no poder, seja para, após a derrubada, retomar o poder. Ela organiza a chantagem comercial e financeira e o bloqueio econômico de cada revolução, uma após outra. Ela organiza grupos internacionais de mercenários para desestabilizar e ajudar a derrubar os regimes revolucionários. E quando tudo isto não é suficiente — e que as relações de forças no seio dos países imperialistas o permitem — ela organiza intervenções militares abertas em apoio da contra-revolução na guerra civil (como ela o fez na Finlândia em 1918, na Rússia em 1918-1920, na Polônia em 1920, na Espanha em 1936, na China em 1946-49) ou mesmo empreende uma intervenção militar massiva e generalizada contra a revolução, como foi o caso na China nos anos 30, na Coréia em 1950-53, na Indochina (primeiro a França, em seguida o imperialismo americano) durante 30 anos, na Argélia em 1954-62, etc.

A internacionalização das revoluções e das contra-revoluções constitui a base política da necessidade de uma Internacional revolucionária. O sucesso de uma revolução nacional não depende apenas de elementos nacionais. Uma direção revolucionária deve levar em conta a situação nacional, bem como a internacional. Em nossa época, as tarefas de uma Internacional não podem ser reduzidas simplesmente à oposição, pela organização da solidariedade internacional, aos fura-greves. Suas tarefas são de uma amplitude política cada vez maior. Ela deve reunir as condições para que ao sublevar-se para conquistar sua liberação nacional e social a classe operária e os povos oprimidos não tenham que fazer face, de uma maneira completamente dispersa, senão isolada, às alianças imperialistas mundiais e à sua violência concentradas. Neste caso, sua vitória tornar-se-á mais difícil, o preço da vitória mais elevado, e poderá até transformar-se em derrota.

"A crise da humanidade é a crise de sua direção revolucionária". A direção proletária necessária é aquela que ajudará as massas a ultrapasar o fosso entre o seu nível de consciência e a realidade objetiva, uma direção que fará face às suas tarefas intemacionalistas, que reeducará o movimento operário no espírito do internacionalismo. O único internacionalismo que é decisivo é aquele que se verifica na prática. Finalmente, isto só é possível pela construção de uma real Internacional que funcione como tal.

É precisamente em relação com às necessidades objetivas da luta de classe, para pôr suas "conclusões organizacionais" de acordo com suas análises políticas, que a atividade dos revolucionários em toda a história política do movimento operário está ligada à luta para a criação de uma real Internacional revolucionária. A idéia de que bastam os partidos nacionais, ou que é preciso primeiro construir fortes organizações revolucionárias nacionais antes de poder começar a construir uma real Internacional revolucionária, é totalmente falsa. Ela não responde à necessidade de garantir um mínimo de coerência organizacional e programática. irrealizável entre organizações nacionais construídas separadamente umas das outras. Ela não responde à questão de saber como uma educação internacionalista sistemática é possível sem a experiência prática cotidiana de uma atividade internacional comum. E sobretudo, ela não responde à questão de saber como uma análise adequada de uma situação internacional extremamente complexa e das suas evoluções é possível sem o teste de uma prática comum em uma grande parte do mundo, mediatizada por organizações e camaradas que são membros de um mesmo partido mundial.

4. O combate histórico por uma Internacional Revolucionária

A maior acumulação de experiência internacional, possível através de uma organização internacional, através da organização formal de uma Internacional, através da intervenção e da organização em escala internacional não se opõe, mas, ao contrário, contribui para a criação de fortes direções nacionais e de poderosos partidos nacionais.

Este fato é confirmado por toda a história do movimento revolucionário internacional. Decorre de sua própria natureza. Em certo sentido, a primeira "Internacional" na historia do marxismo foram Marx e Engels que, durante toda a vida, jamais construíram uma organização nacional em primeiro lugar, mas que sempre construíram simultaneamente, seja com as massas sejam com forças absolutamente minúsculas, uma Internacional e partidos nacionais (Liga Comunista, projeto de Internacional com o dirigente cartista Ernest Jones, I Internacional, projeto da Internacional com os blanquistas, II Internacional). Tornou-se um lugar comum, mas é preciso extrair disto todo o significado: desde suas origens, o marxismo não era um produto nacional e sim internacional. De acordo com uma fórmula famosa, ele é o produto da filosofia alemã, da política francesa e da economia política britânica. Desde o início, Marx e Engels formaram-se no mais amplo campo internacional — onde eles foram obrigados a procurar respostas em função das próprias necessidades da luta revolucionária na Alemanha.

A "obsessão" pelos desenvolvimentos internacionais, a recusa em construir simples organizações nacionais, o cuidado de sempre construir uma organização internacional, não levaram Marx e Engels a "perder o contato" com as realidades e as particularidades nacionais, como já se afirmou algumas vezes? Muito pelo contrário. Justamente porque eles foram internacionalistas tão completos em sua prática e em suas idéias é que eles puderam discernir mais claramente os elementos universalmente decisivos. Em relação às outras correntes na Alemanha, Marx e Engels tiveram, de longe, a melhor compreensão do processo revolucionário de 1848. Quaisquer que sejam os erros secundários que eles possam ter cometido, eles tiveram a melhor compreensão da situação concreta, da tática a aplicar e da intervenção a seguir na Alemanha. O ponto de partida internacional levou-os à linha nacional mais correta, enquanto as forças "localistas" cometeram erros após erros. Da mesma forma, Marx e Engels demonstraram "uma incapacidade em construir o partido" ou "uma incapacidade de captar os traços nacionais específicos em suas atividades posteriores"? De forma alguma. Foram os que melhor compreenderam como construir a I Internacional e suas seções, como captar o significado e a linha de desenvolvimento da Comuna de Paris, assim como os traços particulares da luta na Alemanha. Em sua agitação pela criação de um partido operário de massa na Inglaterra, sem pré-condições programáticas, Engels esteve 20 anos na frente dos que estavam pretensamente orientados com base nas "realidades nacionais", quanto à compreensão da linha de desenvolvimento histórico do movimento operário daquele país.

Trata-se, na realidade, de uma lei geral do desenvolvimento do movimento revolucionário internacional. As correntes mais corretas e as mais revolucionárias no terreno nacional são aquelas que não só tiveram uma experiência revolucionária avançada em seu próprio país, como também as que estavam melhor organizadas internacionalmente. Podemos ilustrar esta regra com vários exemplos da história do movimento operário.

A ala mais revolucionária e a mais internacionalista do SPD alemão era conduzida por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo. Mas Rosa Luxemburgo era uma dirigente que havia conseguido integrar totalmente as concepções e experiências internacionais. Nascida na Polônia dividida, ela teve a chance de ser militante em três partidos ao mesmo tempo: o polonês, o russo e o alemão. Além do seu trabalho no seio do Bureau e dos Congressos da II Internacional, ela atuou simultaneamente na construção da organização polonesa, dirigiu uma ala do partido alemão e participou pessoalmente da revolução russa de 1905 e das lutas internas do partido russo. Comparada a todos os pregadores das "paticularidades nacionais", sua corrente internacional era a mais realista e a mais revolucionária na própria Alemanha. Qual foi a conclusão que Rosa Luxemburgo tirou de toda esta experiência? Que ela foi excessivamente internacionalista? Pelo contrário: ela pensava que o movimento operário não havia sido organizado suficientemente no plano internacional. Assim escrevia ela, em seguida à catástrofe de agosto de 1914 e ao desmoronamento da II Internacional:

"O centro de gravidade da organização do proletariado enquanto classe é a Internacional". De maneira alguma ela não a limitava a uma simples "troca de idéias", ela a compreendia como uma real organização internacional.

Rosa Luxemburgo chegou exatamente às mesmas conclusões teóricas de Marx e Engels, a saber o movimento da classe operária jamais pode ser uma soma de movimentos nacionais, ele deve ser construído simultaneamente enquanto Internacional e enquanto partidos nacionais.

O segundo exemplo é dos bolcheviques. A necessidade de encontrar idéias e soluções revolucionárias, que decorria da crise social permanente na Rússia a partir dos últimos decênios XIX, combinada ao exílio forçado de dezenas de milhares de opositores do czarismo, deram ao partido russo um quadro de compreensão e uma experiência internacional inigualáveis por qualquer outro partido no mundo. Como disse Lênin, o partido russo estava a par da "última palavra" em matéria de idéias e de desenvolvimentos revolucionários internacionais. Isto não era uma idéia simplesmente abstrata. Era uma constatação realmente material. A política russa era fortemente determinada pela política mundial. As revoluções de 1905 e 1917 eclodiram em seguida a guerras. Os revolucionários russos, por causa do exílio, possuíam muitos contatos internacionais com militantes de quase todos os países. A tradução em russo da literatura revolucionária de todo tipo era superior à de quase todos os outros países. Os bolcheviques, manifestamente o partido mais capaz de compreender "as particularidades nacionais da Rússia", era também o partido mais internacional de toda a II Internacional.

Como Rosa Luxemburgo, os bolcheviques não tiraram de sua experiência a conclusão de que eles teriam sido "internacionais" demais. Esta conclusão, eles a deixaram para os reformistas da social-democracia que após a virada decisiva de 1914, jamais criaram uma organização internacional com o mínimo de coesão e de representatividade da II Internacional.Os bolcheviques, ao contrário, concluíram que eles tinham sido insuficientemente internacionais em particular, ao não criarem uma corrente internacional organizada. Este erro foi, sem dúvida, uma das razões pelas quais Lênin foi incapaz de compreender mais cedo a degenerescência do SPD. Eles o corrigiram após o terrível choque de 1914.

Desde o começo da guerra, os bolcheviques empreenderam a criação de uma nova organização revolucionária internacional, concretizada por suas atividades em Zimmerwald, em Kienthal e nos preparativos para a criação da Internacional Comunista. Naturalmente, a revolução russa deu-lhes a chance de criar rapidamente uma Internacional revolucionária numa verdadeira escala de massa. Mas sua decisão de criar uma nova organização internacional já era clara antes da eclosão da revolução de 1917.

Da mesma forma, Trotsky, após a catástrofe na Alemanha, em 1933, não se voltou para a construção de um ou de vários partidos nacionais, mas, desde o início, para a construção de uma nova Internacional. Ele seguia os passos já traçados e seguidos por Marx, Engels, Luxemburgo, Lênin e outros dirigentes do movimento revolucionário. Todos estes dirigentes revolucionários, e a vanguarda que eles representavam, chegaram à conclusão, não somente na teoria, como também na prática, que era necessário construir simultaneamente uma Internacional e partidos revolucionários nacionais.

Estas conclusões lhes foram impostas pela realidade objetiva do processo revolucionário internacional. Hoje, todo revolucionário que não constrói simultaneamente uma Internacional revolucionária e partidos nacionais não se baseia nas conclusões e na prática mais avançadas do movimento revolucionário internacional, mas, ao contrário, na lógica dos reformistas e dos centrístas.

Finalmente, mesmo se o sucesso não foi completo, a construção de uma Internacional revolucionária sempre deixou um saldo positivo. A 1ª Internacional difundiu o marxismo e um início de organização da classe operária em quase todos os países capitalistas avançados. Em toda uma série de países, os mais importantes do mundo, a II.ª Internacional estimulou o desenvolvimento de partidos operários de massa, pela primeira vez na história.

Apesar de sua degenerescência final, também é o caso da Internacional Comunista. Ela, assim como o processo que a criou, conduziu a avanços não somente programátícos mas também de grande importância prática para a revolução mundial e a classe operária.

Quando, em Brest-Litovsk, a Rússia Soviética foi obrigada a fazer a paz com o imperialismo alemão e austro-húngaro em condições desastrosas, sacrificando grandes extensões de território para manter o Estado operário e obter um mínimo de prazo de sobrevivência, os bolcheviques fizeram, ao mesmo tempo, tudo o que foi possível para ajudar os revolucionários alemães através da agitação, da propaganda, de apoio financeiro. O resultado a longo prazo que sua agitação revolucionária encontrou (particularmente a de Trotsky) entre os trabalhadores e os soldados alemães e austríacos, o resultado desta ajuda organizacional fornecida aos revolucionários, e, subsidiariamente, o resultado da educação revolucionária e da organização dos prisioneiros de guerra austríacos e húngaros na Rússia revolucionária, foram as rápidas eclosões das revoluções alemã, austríaca e húngara no início de novembro de 1918, apenas seis meses após a assinatura do tratado de Brest-Litovsk.

Quando, em 1920, o imperialismo britânico se prepara para intervir militarmente na guerra entre a Polônia e a Rússia, ameaçando destruir o regime soviético exangue após numerosos anos de guerra, de guerra civil e de declínio catastrófico da produção (sobretudo da produção alimentar), os apelos da Internacional Comunista ao movimento operário britânico para que ele se opusesse ativamente a estes preparativos de guerra foram coroados de sucesso. Um comitê de ação agrupando o Partido Trabalhista e os sindicatos convocou a preparação de uma greve geral nacional de duração ilimitada em caso de intervenção militar da Grã-Bretanha. Este apelo foi apoiado pela criação de comitês de ação locais para preparar a greve geral em mais de 400 cidades em todo o país. O imperialismo britânico bateu em retirada diante desta ameaça. Uma guerra entre a Grã-Bretanha e a Rússia Soviética foi evitada. A Rússia Soviética foi salva. Este foi o resultado prático da ação coordenada da classe operária européia.

No começo dos anos 20, a revolução chinesa entrou em uma nova etapa, com confrontações massivas entre intelectuais, trabalhadores, assim como na fração da burguesia chinesa, de um lado, e o imperialismo e seus títeres de outro. A Rússia Soviética enviou uma ajuda militar massiva à China, ajudou a organizar a resistência anti-imperíalista, e a estender a luta em grande escala. É verdade que o resultado do político errada de seguidismo em relação à burguesia do Kuomintang (KMT), levou, na primeira etapa, à derrota sangrenta da ciasse operária chinesa em abril de 1927. Ajudou Chiang-Kai-Chek a estabelecer sua ditadura reacionária e mantê-la durante dois decênios. Mas não se pode negar que esta ajuda soviética impediu, de uma maneira decisiva, que a China se tornasse uma simples colônia do imperialismo. Ao dar, nos anos 20, um forte impulso à criação do Partido Comunista Chinês (PCC) e à sua transformação em partido de massa, ela contribuiu indiretamente para a vitória da 3ª revolução chinesa em 1949, isto é, a derrubada final do capitalismo na China, quaisquer que tenham sido as intervenções contra-revolucionárias ulteriores da burocracia soviética contra a revolução chinesa.

Do ponto de vista econômico, social e político, os trabalhadores e os revolucionários têm que fazer face a uma realidade cada vez mais internacional. As tarefas que decorrem das necessidades objetivas da luta de classe, em particular no que concerne às revoluções, tendem a se situar cada vez mais a nível internacional. Hoje, é fundamental que o movimento operário reate com suas origens — as tradições do internacionalismo que estiveram na base da 1ª organização revolucionária, a de Marx e Engels, e da Internacional Comunista, em seu período revolucionário. A tarefa que elas se fixaram: coordenar, em escala mundial, a luta da classe operária para derrubar o capitalismo, coordenar, em escala mundial, o esforço para paralisar a contra-revolução internacional, é indispensável à luta de classe prática. A história demonstrou que a incapacidade de levar a bom termo essas tarefas conduziu o movimento operário a enormes recuos, a perdas consideráveis, senão a derrotas sangrentas.

5. A necessidade de uma nova direção revolucionária internacional

Já dissemos: a consciência das massas segue muito atrasada frente aos imperativos da realidade objetiva. Durante anos, elas foram deseducadas por suas direções reformistas que, em lugar de elevar sua consciência orientando-a para o internacionalismo, ensinaram-nas a defender seu "próprio" país e portanto seus "próprios" capitalistas, contra os trabalhadores e os oprimidos dos outros países do mundo.

Com a degenerescência da Internacional Comunista em simples instrumento dos giros e guinadas da política externa da burocracia soviética, a ausência de uma força dirigente e coordenadora das lutas revolucionárias internacionais se fez sentir cruelmente — justamente porque estas lutas não desapareceram Ao invés de ajudar a apoiar a revolução espanhola, o Comintern stalinizado a estrangulou, tornando por isto inevitável a conquista de toda a Europa por Hitler, assim como sua agressão à União Soviética em bases extremamente favoráveis. Em lugar de ajudar a apoiar os ascensos revolucionários dos trabalhadores da Grécia, Itália e França, em 1944/48, Stálin entregou-os ao imperialismo ocidental (somente na Iugoslávia uma tentativa semelhante foi derrotada pelos próprios comunistas iugoslavos). Em lugar de organizar, desde o início, um apoio à revolução indochinesa, Stálin, depois Kruschev e Brezhnev só lhe forneceram um apoio em conta-gotas, evitando que ela desmoronasse face à agressão imperialista, mas adiando por vários decênios uma vitória que poderia ter sido atingida muito mais cedo. As conseqüências materiais de três decênios de agressões e guerras jogaram um papel importante no encadeamento de tragédias que se seguiram à vitória da revolução indochinesa.

A necessidade de uma nova Internacional revolucionária portanto se fez sentir objetivamente a partir do momento em que o fimdo; Comintern, enquanto instrumento da revolução mundial, foi confirmado por acontecimentos internacionais decisivos, isto é, a partir da conquista do poder por Hitler em 1933. Desde então, ela constitui a base política do combate da IV Internacional.

a) Revolução Permanente ou "socialismo em um só país"

O fracasso da revolução russa em se estender vitoriosamente no período 1917-1923 aos países industrializados decisivos, deixou-a em um país relativamente atrasado. Em conseqüência, um processo de burocratização crescente do Estado soviético e do PC da União Soviética foi deflagrado. Ele conduziu a Internacional Comunista ao declínio e, em seguida, à sua destruição como instrumento da revolução mundial. Este processo, do qual o stalinismo é a expressão política e ideológica, reflete o fato de que uma nova camada privilegiada, a burocracia soviética — que não é uma nova classe dirigente — expropriou a classe operária soviética do exercício do poder político, concentrou em suas mãos o controle do sobreproduto social, e com isso, monopolizou o poder em todas as esferas da sociedade soviética. Ela usa este poder para defender seus próprios privilégios materiais, que são consideráveis em comparação com o nível de vida médio do trabalhador e do camponês russo.

A primeira revisão fundamental do marxismo, que exprimiu esta usurpação do poder pela burocracia soviética, foi a elaboração da teoria segundo a qual se podia concluir a construção de uma sociedade socialista na Rússia, no isolamento do resto do mundo. Trata-se da "teoria do socialismo em um só país". Esta teoria exprimiu o conservadorismo fundamental da burocracia soviética, seu abandono da revolução mundial em favor da manutenção do "status quo" internacional, isto é, em favor da coexistência pacífica com o imperialismo ou da divisão do mundo em esferas de influência entre a burocracia soviética e o capitalismo internacional.

Se os marxistas revolucionários jamais conclamaram a União Soviética ou o seu governo a "provocar" artificialmente revoluções em outros países ou a "estimulá-las" através de aventuras militares externas, nem a "esperar a revolução mundial" antes de começar a desenvolver a economia e a sociedade soviéticas em direção ao socialismo, eles compreendiam perfeitamente que a sorte da União Soviética (inclusive a evolução e as mudanças de sua estrutura interna) permanecia ligada ao resultado das lutas de classes em escala mundial. Da mesma maneira que a classe operaria internacional tem o dever de defender a União Soviética contra as tentativas do imperialismo de lá restaurar o capitalismo, a União Soviética tem o dever de ajudar e de fazer avançar a revolução mundial, em todos os casos onde lutas revolucionárias de massa e crises revolucionárias profundas, em um ou vários países, atestam possibilidades objetivas de obter novas vitórias revolucionárias. Este dever mútuo corresponde a um interesse comum. Cada derrota da revolução mundial enfraquece objetivamente a União Soviética, reforçando o imperialismo mundial. Da mesma forma, a restauração do capitalismo na União Soviética (e em outros Estados operários) reforçaria terrivelmente o imperialismo mundial, e com isso enfraqueceria objetivamente a revolução mundial, c proletariado mundial e todas as forças anti-imperialistas em todo o mundo.

A ruptura com esta posição clássica do internacionalismo proletário, tal como foi aplicada pela Internacional Comunista nos primeiros anos de sua existência, não era somente uma ruptura com os interesses da revolução mundial e do proletariado mundial. Ao mesmo tempo, ela impôs enormes sacrifícios evitáveis aos trabalhadores soviéticos na defesa de seu Estado. Suas conseqüências mais graves foram reveladas mais tarde, se bem que Trotsky e a Oposição de Esquerda soviética tivessem-nas previsto desde o início.

A "teoria do socialismo em um só país" implica na subordinação dos interesses dos trabalhadores do mundo inteiro aos pretensos interesses da "fortaleza socialista" ou do "campo socialista" (na realidade, aos interesses da burocracia soviética, inteiramente distintos dos do proletariado soviético e do Estado operário enquanto tal). Mas esta subordinação implica numa concepção, que Trotsky denominou 'função messiânica" atribuída a um país particular ou, ao menos, ao movimento operário ou ao proletariado deste pais. No entanto, nada limita tal "nacional-comunismo" messiânico a um só país (a União Soviética) e a este país somente. Ao contrário, uma vez que "a teoria do socialismo em um só país" foi plenamente assimilada por todos os dirigentes e quadros dos PCs educados sob o stalinismo, pode ser reproduzida à vontade em qualquer país onde o capitalismo tenha sido derrubado.

Assim, o PC chinês, após a abertura dc conflito sino-soviético, considerava que ele se tornara "o bastião da revolução mundial", ao contrário da União Soviética, onde o capitalismo teria sido restaurado. Assim, toda associação contra-revolucionária repugnante com forças reacionárias burguesas através do mundo contra a União Soviética (com o Xá do Irã, com as ditaduras militares do Paquistão, com o imperialismo americano, com Franz-Josef Strauss, com Sadat, com o carniceiro militar chileno Pinochet, com a ditadura militar tailandesa) é justificada em nome da defesa da "fortaleza socialista", identificada com o Estado chinês. O trágico resultado final as falsas doutrinas do "nacional-comunismo" são as guerras entre "países socialistas", de que as burocracias privilegiadas governantes são os únicos responsáveis e não o socialismo, ou o comunismo, ou a classe operária.

b) A necessidade de uma Internacional fundada no centralismo democrático

Os frutos amargos do "nacional-comunismo" também acentuaram o nacionalismo e as desconfianças nacionais entre as nações, mesmo após a derrubada do capitalismo. Eles criaram, por todo um período, uma desconfiança em relação a toda organização internacional em setores importantes do proletariado e dos movimentos de massa de todo o mundo. Esta desconfiança é o produto da experiência desastrosa com o stalinismo em todas as suas variantes e em todas as ramificações ideológicas, inclusive o maoismo, que identificou o internacionalismo proletário com a subordinação dos interesses dos trabalhadores e dos revolucionários de diferentes países às manobras do aparelho de Estado burocratizado de um só país. Numa reação exagerada contra o centralismo burocrático stalinista internacional (o dirigente stalinista do PC francês, Maurice Thorez, inventou muito bem a fórmula: "o internacionalismo proletário hoje é a solidariedade com a União Soviética") muitos revolucionários acabaram por jogar o bebê junto com a água do banho recusando toda forma de organização internacional que implique um real engajamento baseado no centralismo democrático internacional.

Esta reação, se bem que compreensível, é um enorme passo atrás, não somente em relação às necessidades objetivas, como também com relação ao que a teoria e a prática revolucionárias haviam estabelecido no curso dos primeiros decênios de nosso século. Apesar da sua atração superficial — e freqüentemente demagógica — esta reação deve ser vigorosamente combatida. Tal como os revolucionários não podem rejeitar a ditadura do proletariado, ou a própria idéia da luta de classe, simplesmente porque elas foram monstruosamente deformadas e manchadas pelo stalinismo, eles não podem rejeitar o internacionalismo proletário ou a necessidade de uma Internacional revolucionária em razão do cínico abuso que fizeram desses conceitos o bando e o sub-bando das burocracias. Confrontado com as formas cada vez mais internacionalizadas da revolução e da contra-revolução, às ações e à estratégia contra-revolucionária imperialistas cada vez mais centralizadas, toda separação das forças anti-imperialistas e proletárias em setores puramente "nacionais" ou "regionais", operando independentemente uns dos outros, sem organização internacional comum, só pode enfraquecer gravemente as forças da revolução, em benefício exclusivo do inimigo de classe. A centralização do papel contra-revolucionário do imperialismo exige uma coordenação internacional das atividades revolucionárias. Rejeitar a organização internacional não tem sentido, de um ponto de vista teórico e prático, exceto se pensarmos que o "socialismo em um só país" é realmente possível, como o pensam, de fato, não somente os stalinistas e os eurocomunistas, mas também os reformistas de esquerda e diferentes formações centristas.

6. A construção da IV Internacional, a única organização operária mundial que funciona como tal

Eis aí a razão pela qual os partidários da III Internacional, depois de Trotsky e seus camaradas, desde o primeiro dia em que se convenceram da necessidade de uma nova Internacional, aplicaram obstinadamente a ideia de que esta Internacional deveria imediatamente funcionar como uma verdadeira organização, baseada desde o começo numa disciplina comum livremente aceita, independentemente de sua força ou de sua fraqueza relativas.

Sabemos perfeitamente que a IV Internacional é ainda muito fraca, se bem que seja muito mais forte do que quando foi criada em 1938 ou ao final da II Guerra Mundial, quando de seu 11 Congresso mundial em 1948. Nós não somos senão o primeiro núcleo da futura Internacional Comunista de massa, que será o real estado-maior geral da revolução mundial, coordenando de fato todas as lutas revolucionárias importantes no mundo. Da mesma forma, nossas seções nacionais ainda não são partidos revolucionários de massa, dirigindo de fato as lutas cotidianas de camadas importantes dos trabalhadores de seus respectivos países.

Estes núcleos deverão passar por muitas fusões com forças revolucionárias emergentes, muitos reagrupamentos com tendências oposicionistas que rompam com os partidos social-democratas ou os PCs de massa nos períodos pré-revolucionários e revolucionários, antes que eles atinjam o status de partidos de massa revolucionários plenamente desenvolvidos, capazes de dirigir o proletariado e os camponeses pobres rumo à vitória da revolução socialista.

Mas esses núcleos levam à construção de futuros partidos revolucionários de massa e da futura Internacional revolucionária de massas um programa que resume as lições de 150 anos de lutas da classe proletária em todo o mundo, assim como um conjunto crucial de quadros educados, por este programa e experimentados em sua aplicação aos mais variados problemas táticos concretos da luta de classe, em todas as partes do mundo. Eles levam a esses futuros partidos e a essa futura Internacional revolucionária de massa uma capacidade de educação sem par em uma verdadeira prática internacionalista, aplicada todos os dias, todos os meses, todos os anos.

A experiência confirma mais uma vez que é absolutamente impossível atingir mesmo um nível elementar de coordenação e de ação internacionais como uma base puramente espontânea. Seria uma utopia total acreditar que o grau de internacionalismo na teoria e na ação que reclama a etapa presente da luta de classe e das lutas revolucionárias em escala mundial poderia ser atingido de uma maneira qualquer, sem uma preparação consciente e deliberada, neste sentido, de milhares e dezenas de milhares de quadros e militantes durante anos e anos antes que nasça a Internacional revolucionária de massas de amanhã.

Que a IV Internacional apesar de sua fraqueza, seja a única tendência do movimento operário internacional que funciona de fato como uma organização internacional em cerca de sessenta países, não é portanto, nada fortuito. É o produto de uma educação sistemática no internacionalismo prático integral, oposto ao conceito stalinista do "nacional-comunismo". Desde o próprio início do movimento trotskysta, na tradição da Internacional Comunista e de todos os internacionalistas da época da I Guerra Mundial, como Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecnt.

A IV Internacional não é nem um fetiche nem uma pura bandeira. Ela permite multiplicar a força de suas seções na luta cotidiana. Ela já é um pólo de atração para elementos revolucionários de todo o mundo. De fato, a existência hoje da IV Internacional no dobro do número de países em que ela existia quando Trotsky foi assassinado, ou ao fim da II Guerra Mundial, se explica ao mesmo tempo pelo fato de que, através de suas próprias experiências de luta, revolucionários de um número crescente de países chegaram a conclusões programáticas idênticas às do programa da IV Internacional, e pelo fato de que eles compreenderam, igualmente pela própria experiência, a necessidade de começar a criar sem demora uma organização internacional, além de sua organização nacional.

7. As relações entre a Internacional e as seções nacionais

Também é útil refutar um outro mito. Por vezes, afirma-se que a existência de uma organização internacional entrava a elaboração de uma tática correta por parte dos partidos nacionais. É o que defendem, principalmente, os centristas, os eurocomunistas e mesmo os stalinistas do tipo tradicional em relação ao passado da Internacional Comunista. No entanto, é simplesmente falso que a existência da Internacional Comunista tenha entravado a elaboração de táticas corretas por parte de seções nacionais.

Ao contrário, foi a experiência da Internacional Comunista que ajudou de maneira decisiva a correção da linha ultra-esquerdista desastrosa do PC alemão, ilustrada, ao mesmo tempo, pelo Spartakusbund e por toda a dinâmica do PC unificado em seu primeiro período (ação de março de 1921). Foi a Internacional Comunista que contribuiu para eliminar toda a confusão feita de uma mistura de oportunismo, de individualismo e da linha de direita que reinava no seio do PC francês logo no seu nascimento. Foi ainda a Internacional Comunista que contribuiu para a elaboração de uma tática do PC britânico qualitativamente superior a tudo o que existia anteriormente naquele país, sobre questões tão vitais como a atitude a tomar frente às eleições, a atitude em relação ao Partido Trabalhista, a questão da frente única operária, a linha a adotar no seio dos sindicatos, etc. Em seu livro "Os Dez Primeiros Anos do Comunismo Americano", James P. Cannon faz um balanço notável das numerosas ocasiões em que a Internacional Comunista ajudou, a corrigir a tática do jovem PC americano e lhe permitiu vencer as dificuldades de um modo que jamais poderia ser feito apoiando-se apenas nas experiências políticas puramente nacionais. Toda a experiência dos debates no curso dos III.º e IV.º Congressos da Internacional Comunista sobre a questão da Frente Única operária constituiu uma ajuda decisiva para as seções nacionais em matéria de elaboração e de aplicação de suas táticas nacionais.

Uma organização internacional, funcionando de maneira democrática e não burocrática, não impede, mas pelo contrário, encoraja a criação de direções nacionais adequadas e a elaboração de uma tática nacional correta. Os erros cometidos pela III.ª Internacional na época de Zinoviev e de Boukharin, após seu IV.º Congresso, e mais tarde os crimes cometidos na época de Stálin, não eram o produto da existência de uma organização internacional forte, mas sim o produto da burocratização do Estado Soviético, do PCUS e da própria Internacional Comunista, bem como a adoção de métodos organizacionais decorrentes desta burocratização: destituição arbitraria de direções nacionais; não realização de congressos das seções nacionais antes do Congresso da Internacional Comunista; táticas nacionais impostas de maneira burocrática às seções nacionais pelo centro internacional, sem o apoio da maioria dos quadros e membros destas seções; criação de uma camada de funcionários internacionais e nacionais servis através de subsídios financeiros internacionais maciços, senão pela corrupção pura e simples, etc.

A IV.ª Internacional tirou todas as conclusões destes erros e integrou-as em seus estatutos e na sua prática cotidiana. Cada organização revolucionária nacional deve aprender por sua própria experiência como desenvolver quadros e uma direção capazes de incorporar, na elaboração de uma tática correta, as especificidades nacionais de seu próprio país, de sua própria classe operária e de seu próprio movimento operário, ao lado das lições gerais tiradas da luta de classe internacional. A Internacional, enquanto tal, assim como outras seções, podem dar conselhos e insistir para que sejam colocados em prática. Ela não tem o direito de decidir o que quer que seja na questão. Por razões decorrentes da experiência histórica, e não como uma concessão a qualquer concepção "federalista" de organização internacional, os estatutos da IV.ª Internacional proíbem explicitamente aos órgãos internacionais de mudar a composição das direções nacionais ou de determinar a tática das seções nacionais.

Mas a IV.ª Internacional compreende ao mesmo tempo, que, como a burguesia se recusa a limitar sua ação a nível nacional, o proletariado não pode agir de outra forma. A extensão da luta de classe à escala internacional reclama uma organização e, onde for preciso, uma disciplina internacionais. Para tomar um exemplo corrente: a maneira precisa de levar a prática nossa solidariedade às revoluções nicaraguense e salvadorenha é uma questão de tática nacional. Mas a necessidade de uma campanha de solidariedade internacional às revoluções nicaraguenses e salvadorenha decorre das necessidades internacionais da luta de classe. Sobre estas questões-chaves de estratégia e de política internacionais, a Internacional tem o direito de tomar as decisões. As seções devem aceitar esta disciplina após debate democrático e voto majoritário. Decisões internacionais deste gênero ligam todas as organizações que realmente procuram responder às necessidades da luta de classe internacional e que desejam realmente construir um partido mundial.

A única solução alternativa a tal organização internacional com disciplina internacional comum sobre as questões internacionais (que implica, evidentemente, o direito das minorias, de procurar modificar as decisões internacionais através de uma nova votação, após um período de aplicação da velha decisão em que a experiência permitiria convencer a maioria que ela estava enganada), é precisamente o "nacional-comunismo". Sua essência final foi correta e dramaticamente resumida por Rosa Luxemburgo, após a falência da II Internacional, no momento da eclosão da 1ª Guerra Mundial, na fórmula amarga: "Proletários de todos os países, uni-vos em tempo de paz. e matai-vos mutuamente em tempo de guerra!".

A fim de clarificar as relações entre a Internacional e as seções nacionais é preciso ainda responder a uma outra objeção. Alguns afirmam que uma "revolução internacional" enquanto tal não existe. Eles se apoiam, a este propósito, em uma citação de Lênin fora do contexto original:

"Não há senão uma forma de internacionalismo real. E a de trabalhar com todo o coração pelo desenvolvimento da luta revolucionária em seu próprio pais, e de apoiar... esta luta, ela e somente ela... em cada país. sem exceção".

Isto quer dizer que Lênin era o advogado de revoluções nacionais, opostas à revolução mundial, porque é manifestamente impossível haver uma revolução "mundial" instantânea, em todos os países simultaneamente? Nada disso. Lênin exprime aqui, simplesmente, embora de maneira paradoxal, uma compreensão mais profunda das relações entre a revolução em escala nacional e a revolução mundial.

Se entendermos a revolução mundial como uma revolução simultânea em todos os países, ao mesmo tempo, como a derrubada, no mesmo momento, das classes dominantes de todos os países, trata-se, evidentemente de uma pura utopia que desemboca, na prática, na passividade, a espera do "Grande Dia". A IVª Internacional, que se chama Partido Mundial da Revolução Socialista, defende em relação a isso um ponto de vista inteiramente oposto. Ela não concebe a revolução proletária mundial como um ato simultâneo, mas como um processo aberto pela vitória da revolução russa de Outubro de 1917.

As relações entre a revolução em escala nacional e a revolução internacional são dialéticas. Elas refletem as contradições entre os limites nacionais do Estado burguês e o enorme desenvolvimento das forças produtivas, que ultrapassaram há muito tempo esses limites. Este crescimento das forças produtivas internacionalizou a luta de classe. Por esta razão, há uma interdependência orgânica, não somente de todas as economias "nacionais", como também de todas as lutas de classe revolucionárias. O imperialismo é uma cadeia, e como todas as cadeias, ela se rompe primeiro nos elos mais fracos.

Evidentemente, seria preferível que todos os elos se rompessem no mesmo momento. Mas, lamentavelmente, isto está no campo dos sonhos, e não corresponde ao desenvolvimento real, determinado por certas leis objetivas. Por outro lado, não há revolução que se desenvolva no terreno "puramente" nacional. A revolução eclode no nível nacional, mas ela se estende e tem uma influência imediata em escala internacional. Eis aí o que queremos dizer quando falamos de revolução internacional ou mundial, um processo permanente em que a ruptura do elo nacional não é simplesmente um objetivo em si, não é um ato final, mas um ato inicial.

Em outras palavras, da mesma forma que não há revolução estritamente nacional, nem uma economia puramente nacional, não há burguesia que limite sua ação ao domínio puramente nacional. Nós vivemos na época do imperialismo. A burguesia se organiza internacionalmente para defender seus interesses. A fim de assegurar uma vitória revolucionária em escala nacional, é insuficiente confinar-se neste quadro nacional. No Vietnã, os revolucionários não precisavam apenas derrubar a classe dominante nacional. Eles deviam também bater-se contra o imperialismo francês e americano, e antes, contra o imperialismo japonês. Isso confirma até que ponto é utópico querer restringir-se a uma política puramente "nacional", mesmo para começar o primeiro ato de uma revolução.

É pois necessário evitar toda interpretação mecânica das relações entre a revolução em escala nacional e a revolução internacional. Lênin polemiza, com justiça, contra a "profissões de fé puramente declamatórias em favor do internacionalismo", que em sua época, foram similares ao "internacionalismo" abstrato e de palavras que os eurocomunistas, os social-democratas de esquerda e os stalinistas praticam em nossa época. Mas deduzir deste gênero de citação que seria suficiente preparar a primeira etapa da revolução em nível nacional, isto é, concentrar os esforços exclusivamente neste nível, seria não compreender em absoluto que a especificidade nacional de cada revolução é somente relativa e parcial, e de modo algum absoluta. Como o disse claramente Rosa Luxemburgo:

"A luta de classe contra a classe dominante nos mites dos Estados burgueses, e a solidariedariedade internacional de todos os países, eis aqui as duas regras de ouro inerentes à classe operária em luta, e de importância histórica mundial pela sua emancipação ".

De fato, se quiséssemos avaliar o funcionamento da IV Internacional hoje, nós não diríamos que ela está preocupada demais com problemas e experiências de caráter internacional, ou que ela seja excessivamente centralizada. Nós diríamos, ao contrário, que ela ainda está marcada por uma experiência em comum insuficiente. As diferentes seções nacionais ainda não assimilaram suficientemente a experiência das outras seções e da Internacional em seu conjunto. Uma das tarefas mais importantes que a Internacional deve enfrentar hoje, e cuja solução ajudará na elaboração de táticas nacionais corretas, é precisamente a de assegurar, da maneira a mais ampla possível, a assimilação por todas as seções, da experiência comum de toda a Internacional. A discussão internacional, viagens ao estrangeiro de camaradas de diversas seções, o engajamento de um número maior de quadros de diferentes países no trabalho e nas discussões da Internacional, o reforço das publicações internacionais, e antes de tudo, a realização de tarefas internacionais comuns relacionadas com as lutas e os objetivos revolucionários vitais em escala mundial: eis aí do que precisam ao mesmo tempo a Internacional e suas seções nacionais.

Até aqui. tratamos da necessidade de uma Internacional do ponto de vista da homogeneidade programática e da necessidade de uma visão intemacionalista global da parte das direções nacionais, através da troca de experiências e de conclusões tiradas em comum a respeito das lutas internacionais — necessidade que tem suas raízes fincadas no caráter objetivamente mundial da luta de classe.

8. Campanhas e ações internacionais

A centralização internacional da experiência ajuda a reforçar a elaboração programática. Mas o programa não pode ser um simples comentário acadêmico da realidade mundial. Ele é a base de um esforço constante para mudar esta realidade. Neste sentido, ele só pode ser testado por uma prática em escala mundial. Seria uma caricatura de internacionalismo reduzi-lo a uma simples análise da situação mundial, abandonando a prática apenas às seções nacionais. Na realidade, há um outro aspecto do internacionalismo: é a dialética entre a construção da Internacional revolucionária e a criação de partidos revolucionários ao nível nacional. Novamente, não se trata de opor a construção de uma Internacional à construção de partidos revolucionários em escala nacional, mas, pelo contrário, de compreender que uma ajuda a outra. Isso pode ser demonstrado não somente ao nível da teoria, como por experiências revolucionárias concretas.

Ao final da I Guerra Mundial, era objetivamente inevitável que houvesse uma enorme fermentação e a aparição de correntes revolucionárias de diversos tipos, em quase todos os países. Mas não era nada inevitável que todas essas correntes se fundissem e amadurecessem a ponto de criar partidos revolucionários sérios. Isso não podia ser produzido "espontaneamente". Era preciso um esforço consciente para criar uma verdadeira Internacional revolucionária. Não foram as "condições alemãs", nem as "francesas", nem as "britânicas", nem as "italianas", nem as "americanas" ou as "chinesas", tomadas separadamente que permitiram a construção de PCs mais amplos e mais avançados, e em alguns casos-chave, de partidos revolucionários de massa. Era preciso a intervenção consciente, talvez um certo "voluntarismo" da Internacional Comunista, para criá-los (na realidade, não se tratava, evidentemente, de "voluntarismo" no sentido pejorativo do termo, mas simplesmente de compreender conscientemente as necessidades do processo objetivo). Isso implicava numa Internacional que não funcionasse apenas como um centro de discussões e de propaganda programática, mas também como uma verdadeira organização. A Internacional enviou quadros, publicações, conselhos e dinheiro para múltiplos países para contribuir para a criação de tais partidos. Já vimos que o emprego destes métodos, apesar dos erros cometidos às vezes não entravaram, mas ajudaram na construção de partidos revolucionários nacionais na época dos quatro primeiros congressos da Internacional Comunista. Repetimos: não foi uma organização internacional, mas sim a burocracia stalinista que destruiu, ao mesmo tempo, o PC e a IC. Mesmo após a tomada do poder por um ou vários partidos revolucionários, a existência de uma poderosa organização internacional independente desses partidos porque se apoia sobre o conjunto das forças revolucionárias de todo o mundo, constituirá um forte freio contra os perigos da deformação burocrática e da orientação insuficientemente intemacionalista por parte deste ou destes partidos.

Uma Internacional, isto é, o internacionalismo encarnado, não pode ser simplesmente uma idéia justa. Ela deve ser concreta, tomar a forma de uma organização que age internacionalmente. Uma Internacional forte representaria uma forca maior para a construção de partidos revolucionários nacionais. Podemos demonstrá-lo tanto através de considerações gerais como de exemplos práticos passados e presentes.

Tomemos questões internacionais candentes, como a guerra do Vietnã ontem, ou presentemente, a tendência à remilitarização acelerada por parte do imperialismo. Não podemos, evidentemente, considerá-las como questões puramente "nacionais" Elas exigem campanhas e ações internacionais, para que o proletariado possa se opor eficazmente a elas. Isto exige uma organização internacional.

Ou então, tomemos questões candentes da luta de classe imediata e a necessidade de influenciar e de ganhar correntes para a construção de uma Internacional revolucionária. Seria falso acreditar, por exemplo, que as revoluções nicaraguense ou salvadorenha sejam uma questão "reservada" aos camaradas norte e latino-americanos, ou que o ascenso operário na Polônia seja uma questão "reservada" aos camaradas europeus. Nem do ponto de vista das necessidades da solidariedade internacional, nem do ponto de vista de influenciar e ganhar correntes para que elas se organizem nestes países, como tampouco do ponto de vista de capitalizar as repercussões internacionais que esses acontecimentos provocam no seio do movimento operário mundial semelhante "divisão do trabalho" se justifica. O sucesso que obtenhamos no cumprimento de todas essas tarefas depende de maneira crucial do peso da IV Internacional em seu conjunto, e do peso que, enquanto organização internacional, ela já pode jogar para a realização destes objetivos.

A mesma constatação pode ser feita em relação às tarefas-chaves para a construção da IV Internacional, tal como o esforço para alargar sua implantação na classe operária industrial. As iniciativas neste sentido podem partir de países determinados. As formas, táticas e direções precisas devem ser decididas em escala nacional (como o precisam os estatutos da Internacional). Mas o giro e o esforço geral devem ser impulsionados por toda a Internacional enquanto organização. É o único meio de garantir que o processo avançará realmente e que sejam evitados erros custosos para as seções nacionais, como o de confundir traços locais com a tendência fundamental, ou de transpor mecanicamente formas particulares adotadas por outras seções em países em que as condições são diferentes, etc.

Toda uma série de exemplos poderia ser juntada a esta lista: o trabalho anti-nuclear, a campanha internacional pelo direito ao aborto, o trabalho de solidariedade à revolução iraniana, etc. Essas atividades organizadas pela Internacional de maneira correta não entravaram, mas favoreceram a construção de seções nacionais.

A Internacional deve determinar os desenvolvimentos chaves, os "elos fracos" na cadeia da reação internacional, do ponto de vista das necessidades objetivas da luta de classe e do ponto de vista da construção do partido (ela pode fazê-lo mais facilmente que as seções nacionais tomadas separadamente). Em última análise, trata-se de um reflexo dc processo de revolução permanente que se desenvolve de maneira desigual, com explosões violentas nos pontos mais fracos, com ramificações e tarefas de solidariedade internacionais, e com avanços na construção do partido que daí resultam. Isto coloca de novo a questão crucial da organização internacional, exprimindo-se através de campanhas e iniciativas internacionais reais. Mesmo no estágio atual de suas forças, em que ela está longe de contar com reais partidos revolucionários de massa em suas fileiras, a IV Internacional não pode, de modo nenhum, ser concebida como uma organização internacional que se limite a tarefas de elaboração política e programática, de propaganda e de educação internacionais. Compreendendo corretamente seu papel e suas possibilidades, e com um funcionamento correto, a IV Internacional já é capaz de organizar ações internacionais — ações que os partidos de massa existentes poderiam, evidentemente, organizar com muito mais eficácia, mas que eles se recusam a assumir, justamente porque eles deixaram de ser revolucionários há muito tempo. Alguns exemplos da história da IV Internacional fornecem a prova:

— Em fins dos anos 50, a pequena seção francesa da IV Internacional salvou a honrado movimento operário inteiro por ter sido a única organização em seu seio que exprimiu uma solidariedade e um apoio ativos à revolução argelina (diversos grupos de indivíduos externos ao movimento operário organizado agiram da mesma maneira). A IV Internacional que naquela época, era bem mais fraca que atualmente, conseguiu de fato construir a primeira fábrica de armas modernas leves para a revolução argelina, no momento em que ela estava praticamente sem nenhuma ajuda internacional material neste domínio.

— As forças da IV Internacional em todo o mundo, em meados e no fim dos anos 60, estavam ativamente engajadas — em não poucos países, a nível de direção — na organização e coordenação de ações de massa em solidariedade à revolução vietnamita. A esse propósito, é preciso, particularmente, destacar o papel desempenhado pelo Socialist Workers Party dos Estados Unidos, que a reacionária Lei Voorhis impede de ser membro da IV Internacional, mas que está em solidariedade política com ele. Desempenhando importante papel na organização de um forte movimento dc massa anti-bélico em seu pais, ele contribuiu amplamente para a vitória da revolução vietnamita, obrigando o imperialismo americano a retirar suas tropas do Vietnã.

— Em 1971, a IV Internacional foi a única organização a lançar um movimento de protesto mundial (inclusive através de sua seção local, no próprio Sri Lanka) contra o massacre da juventude revolucionária desta ilha pelo governo de Mme. Bandaranaike, apoiado por Washington, Moscou, Londres, Pequim, Nova Belhi, Islamabad, isto é, praticamente todos os Estados e poderes estabelecidos no mundo. A vida de Rohane Wijeweera, o jovem estudante J.V.P., foi praticamente salva como resultado desta campanha.

— Quando o dirigente camponês do Peru, nosso camarada Hugo Blanco, foi condenado à morte pelas autoridades de seu país, a IV Internacional organizou uma campanha mundial de defesa que lhe salvou a vida. Quando, mais tarde, ele foi exilado de seu país, pela ditadura militar, uma campanha similar foi organizada, novamente coroada de sucesso.

— Quando a ditadura franquista decadente condenou à morte seis militantes nacionalistas bascos no ignóbil processo de Burgos, em dezembro de 1970, a IV Internacional organizou poderosas ações e manifestações de massa através de toda a Europa para salvar-lhe a vida. Como resultado destas ações — e por aquelas conduzidas por outras forças — os condenados à morte não foram executados.

— Quando, após a derrubada da infame ditadura do Xá do Irá, as forças khomeinistas começaram, no verão de 1979, a reprimir a esquerda revolucionária e as minorias nacionais, a jovem organização trotskysta no Irã foi violentamente atacada porque ela teve a coragem de pronunciar publicamente sua solidariedade à nação kurda oprimida. Quatorze camaradas foram presos e condenados à morte. A IV Internacional conseguiu organizar a mais vasta campanha de solidariedade de sua história em favor destes camaradas, campanha que recebeu o apoio de muitas correntes e de organizações de massa do movimento operário europeu e do movimento sindical em outros países do mundo. Nossos camaradas iranianos não foram executados. Todos eles foram libertados posteriormente.

— A partir de 1979, a IV Internacional participou ativamente (e, em numerosos casos, tomou a iniciativa) por todo o mundo de campanhas de solidariedade às revoluções nicaraguense e salvadorenha. Estas campanhas ganharam amplitude, e trouxeram ganhos materiais para estas resoluções, em países tão diversos como o Canadá, França, Espanha, México. Colômbia, Estados Unidos, Suiça. Bélgica. Suécia e outros.

— A partir da ascensão operária no verão de 1980 na Polônia, as organizações de massa operárias social-democratas e "eurocomunis-tas" — para não falar das dirigidas pelos stalinistas inicialmente se recusaram a organizar a ajuda prática em favor dos sindicatos poloneses independentes Solidarnosc, ou foram muito reticentes em se engajar nesta via, apesar de todas as profissões de fé verbais em favor desses sindicatos. Em numerosos países, a IV Internacional foi capaz, sobretudo através de seus militantes e quadros operários e sindicais, de tomar as primeiras iniciativas para que delegações sindicais partissem para a Polônia, para estimular uma primeira ajuda material de origem operária para que fossem estabelecidas relações com o movimento operário independente renascente na Polônia, para que uma campanha se organizasse contra a ameaça de intervenção militar do Kremlin.

9. De uma organização de quadros a partidos e a uma Internacional de Massa

A última linha de resistência dos que se opõem à construção simultânea de uma Internacional revolucionária e de partidos revolucionários em escala nacional é, freqüentemente, a seguinte argumentação:

"Está certo que é preciso construir uma Internacional revolucionária. Não é suficiente haver partidos nacionais. Mas a Internacional não pode ser construída hoje. Seria prematuro agir desse modo. Seria eliminar a possibilidade de colaborar com outros revolucionários. É preciso esperar grandes acontecimentos, e a emergência de partidos revolucionários de massa em escala nacional, antes de poder criar uma nova Internacional revolucionária. É aliás, assim que surgiu a III Internacional".

Este argumento não é correto nem mesmo no que concerne aos fatos históricos. O Partido bolchevique se orientou para a construção da III Internacional antes da eclosão ou da vitória da revolução russa, desde a falência da II Internacional. Mas, mais grave ainda que este erro de analogia histórica é o fato que tal argumento está fundado na incompreensão de toda a dinâmica real através do qual verdadeiros partidos revolucionários e uma verdadeira Internacional revolucionária de massa podem surgir de fato. Em primeiro lugar, é preciso considerar que este argumento de "última instância" contra a construção de uma Internacional revolucionária antes que ela seja uma organização de massa é, na realidade, também um argumento contra a construção de organizações revolucionárias nacionais, antes que elas sejam partidos de massa. Hoje, na imensa maioria dos países, não é provável que partidos de massa revolucionários surjam imediatamente, ou em futuro muito próximo. O fato de que os adversários da construção simultânea de uma Internacional e de partidos revolucionários nacionais não apliquem, entretanto, seu argumento contra a construção imediata de uma organização revolucionária em seu próprio país demonstra a que ponto o fetichismo e o fardo das fronteiras nacionais — a tentação do "nacional-comunismo" — pesa ainda sobre eles, mesmo quando não se possa duvidar do sincero engajamento pela construção do partido revolucionário.

Na realidade, a lógica organizacional joga, com toda a certeza, no sentido oposto. Desde que se esteja de acordo com uma linha política fundamental, ela será tão melhor aplicada e terá tanto mais chances de ganhar novos aderentes se estiver melhor organizada, e se se agir de maneira coerente. É esse princípio de base que advoga em favor da organização separada dos revolucionários — tanto no plano nacional como no plano internacional. As ligações entre as diferentes seções nacionais, suas experiências comuns, o simples fato de poder se apoiar sobre muito mais lições tiradas da luta de classe viva, e sobre muitos mais cérebros capazes de tirar estas lições ao emprego de um método comum, pode e deve contribuir enormemente à elaboração e à aplicação eficaz desta linha política correta. Qualquer outra concepção substitui uma compreensão materialista da maneira como se elabora e se aplica uma linha política por uma visão idealista ingênua, partindo de "programas corretos acabados de uma vez por todas", fora do tempo e do espaço, de "líderes geniais", de "dirigentes inspirados", de "novos Lênins" e de outras frivolidades do mesmo gênero. Paradoxalmente, poder-se-ia mesmo afirmar que, justamente quando não existem ainda partidos nacionais de massa, é ainda mais importante construir simultaneamente organizações nacionais e uma Internacional revolucionárias. Porque as pressões que se exercem sobre as pequenas organizações no sentido de caírem vítimas de apreciações impressionistas, de visão curta, unilaterais, subjetivistas, etc, são colossais. Elas não podem ser neutralizadas até certo ponto senão pela integração dessas organizações em uma organização internacional. Isso não implica, evidentemente, que uma Internacional não seja mais necessária quando já existam partidos revolucionários de massa em escala nacional. Porque estes serão submetidos a outras formas de pressão, não menos perigosas. Mas tudo isso demonstra claramente até que ponto é falso todo argumento de que é preciso "esperar" antes de construir a Internacional.

E por esta razão que Trotsky estava tão resolvido a criar a IV Internacional antes que eclodisse a II Guerra Mundial — por entender que, ao final dela, as chances de construir organizações revolucionárias seriam bem mais importantes que em 1938. Ele tinha em conta o fato de que a amplitude dos acontecimentos e das pressões em escala nacional durante a guerra seriam incalculáveis. O resultado foi o que Trotsky havia previsto. As seções da IV Internacional sobreviveram à guerra e emergiram fortalecidas desta severa prova, mesmo que seu crescimento tenha sido mais lento do que Trotsky acreditara. As organizações revolucionárias "nacionais", como o PSOP francês, o SAP alemão, o POUM espanhol, o WP shachtmanista nos EUA, o RSAP holandês e muitos outros mais, foram dizimadas, dispersas e praticamente desapareceram no meio ou no fim da tormenta em consequência de confusão, de subjetivismos, de capitulações nacionais. Foi a preparação para esses grandes acontecimentos incluindo a tarefa de construir conscientemente uma organização internacional, que permitiu às organizações da IV Internacional, embora pequenas e muito isoladas no começo da guerra, vencer esta imensa prova e emergir reforçadas.

Uma experiência similar se produziu na Europa e nos EUA após o Maio de 68 na França e suas repercussões internacionais. Não foram apenas as forças da IV Internacional que saíram reforçadas desses acontecimentos e dos processos sociais subjacentes. Toda uma série de organizações que procuravam uma via revolucionária se desenvolveram na Europa e nos EUA, e, frequentemente, conheceram um crescimento mais rápido do que o das organizações marxistas-revolucionárias.

Mas a luta na Europa (sem falarmos dos EUA) é uma luta séria e de fôlego muito longo. As classes dominantes nos países imperialistas não serão derrubadas em uma ou duas grandes explosões, mas sobre a base de lutas severas e prolongadas, que exigirão muitas viradas e táticas políticas diferenciadas. As organizações que cresceram rapidamente após 68, mas que rejeitaram um programa revolucionário inteiramente coerente e uma Internacional revolucionária, na maior parte, atolaram-se em uma crise total. Na maioria dos casos, elas foram completamente fragmentadas ou foram formalmente dissolvidas (KPD na Alemanha, PT na Espanha. Lotta Continua na Itália, o MAS em Portugal, o SDS e o PL nos EUA, etc), quando se chocaram com os primeiros obstáculos sérios, antes de tudo. a contra-ofensiva burguesa na segunda metade dos anos 70.

As organizações da IV Internacional e o trotskysmo, pelo contrário, mesmo não podendo, naturalmente, escapar inteiramente aos efeitos da evolução da situação objetiva e sofrendo, consequentemente, alguns recuos, comparados aos rápidos ganhos realizados anteriormente, puderam, no essencial, conservar suas forças. Elas puderam preparar-se adequadamente para o novo ascenso das lutas, inclusive consolidando-se do ponto de vista organizacional, aumentando sua implantação na classe operária, apesar de certas perdas. Certamente, não é preciso afirmar que a diferença flagrante do resultado — crise de desintegração, senão desaparicão total, em um caso, manutenção das forças, em outro — seja devida exclusivamente à filiação internacional. Ela é devida igualmente à diferença programá-tica e política, se bem que não seja por acaso que os que puderam desenvolver a posição política mais correta para fazer face à nova situação foram, igualmente, os que compreenderam a necessidade de construir uma Internacional revolucionária. Entretanto, o fato "organizacional" de construir uma Internacional simultaneamente com a construção de organizações nacionais, assim como todas as conclusões políticas que daí decorrem, era um fator importante para assegurar uma estabilidade política mais coerente e fundamental às nossas organizações, por permitir-lhes orientarem-se baseados nos traços principais do processo e não se perderem nos aspectos puramente conjunturais, o que foi uma das causas essenciais pelas quais os trotskystas geralmente emergiram deste período de realinhamento em melhores condições que as outras organizações de extrema-esquerda. Este aspecto "organizacional" de construção consciente de um núcleo de partidos e de uma Internacional revolucionários, mesmo quando ele ainda representa uma força muito limitada — e mais precisamente, a compreensão do fato de que todas as questões políticas têm implicações organizacionais — constitui um dos aspectos fundamentais do leninismo. A concepção segundo a qual uma organização-adequada emergirá "espontaneamente" de grandes lutas, que uma nova direção emergirá "espontaneamente", que uma estratégia adequada pode ser elaborada "espontaneamente", ou que elas poderão desenvolver-se durante uma breve período de crise revolucionária, é totalmente idealista.

É verdade que as amplas massas não poderão atingir uma consciência de ciasse revolucionária, isto é, romper fundamentalmente com o reformismo, senão em condições de explosões de lutas de massas revolucionárias, que são por natureza limitadas no tempo. Mas a organização e a direção capazes de se fundirem com essas lutas, e que, assim fazendo, também se transformam a si mesmas, devem ser preparadas com muito tempo de antecedência. Este é um dos fundamentos da dialética das revoluções e Lênin foi o primeiro a compreendê-lo e a colocá-lo na pratica: a dialética entre a criação de uma organização, de quadros e a emergência de um partido de massa revolucionário. O Partido Bolchevique de massa de 1917, com uma política revolucionária correta, era precisamente o produto de anos de trabalho de preparação de uma organização de quadros que não era ainda um partido de massa, organização que devia ser criada antes das explosões revolucionárias de 1905 e 1917. A idéia de que é preciso "esperar" grandes acontecimentos antes de começar a construir o partido e a internacional revolucionários está em ruptura total com este aspecto fundamental do leninismo e é uma recaída no espontaneísmo que ele havia combatido tão ardentemente.

Isto se depreende claramente de um exame dos erros cometidos antes de 1917 pelos grandes revolucionários que foram Trotsky, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, erros que não diminuem em nada seus enormes méritos e sua clarividência programática que algumas vezes ultrapassou a de Lênin antes de 1905 ou 1917. Não foi um gesto declamatório da parte de Trotsky afirmar que, sobre essa questão decisiva, Lênin teve razão, contra todos os seus adversários no movimento operário, e que era desta questão que dependia, em definitivo, o futuro da revolução.

Antes de 1914 e mesmo antes de 1917, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht não foram confrontados, na Alemanha, com a perspectiva imediata de construir um partido revolucionário de massa. Foi preciso justamente a revolução de 1918, e as lutas explosivas que lhe seguiram, para que setores importantes do proletariado pudessem romper com o reformismo e o centrismo. Por nenhum ato "voluntarista". Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht teriam podido construir um partido revolucionário de massa antes de 1918. Mas o que era possível na Alemanha antes de 1914 era o reagrupamento em uma organização de quadros dos operários avançados, dos jovens e mulheres que já haviam rejeitado a orientação reformista da direção do SPD e dos sindicatos. Essa organização que já poderia contar com milhares de militantes educados e treinados, poderia fundir-se em partido revolucionário de massa sobre a base de uma direção sólida com dezenas de milhares de trabalhadores no inicio, e, em seguida, com centenas de milhares de trabalhadores que, entre novembro de 1918 e fins de 1920, estavam em vias de romper com o reformismo e o centrismo, e sem os quais toda possibilidade de uma vitória revolucionária na Alemanha teria, de qualquer modo, sido vazia de sentido.

A tragédia da revolução alemã é que, quando a guerra eclodiu, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht tinham apenas algumas centenas de militantes em tomo deles, e que não eram nem mesmo politicamente homogêneos. Quando eclodiu a revolução de 1918, eles estavam impossibilitados de influenciar o ascenso do movimento de massa em profundidade. Rosa Luxemburgo foi até mesmo derrotada no seio de sua própria organização em sua luta contra um rumo fatalmente ultra-esquerdista entre novembro de 1918 e janeiro de 1919. Antes de 1917, Trotsky cometeu o mesmo erro desastroso. Não somente ele não se reuniu aos bolcheviques, o que foi o maior erro de sua vida, como ele não construiu uma organização de quadros sólida para defender sua própria linha. Em conseqüência, ele entrou na revolução russa de 1917 com um programa excelente e correto, um pequeno número de quadros brilhantes e alguns milhares de simpatizantes — o grupo dos "inter-distritais" Mezhrayonzniki — isto é, com forças organizadas tão reduzidas que não tinham nenhuma chance de construir uni partido revolucionário de massa que pudesse influenciar de maneira decisiva o curso dos acontecimentos. O que é impossível é justamente passar do nada ou de algumas centenas de militantes a um partido revolucionário de massa no sentido real do termo, mesmo na mais revolucionária das situações. Lênin, pelo contrário, antes da revolução, e mesmo nos períodos de pior reação, continuou com obstinação a construir e conservar uma organização de quadros que, em função das dimensões organizacionais que ela acabou por atingir progressivamente, pôde fundir-se com largas correntes de massa e tornar-se um partido revolucionário de massa entre fevereiro e outubro de 1917. Evidentemente, era necessário uma orientação política correta para fazê-lo, obtida graças às Teses de Abril. Mas, mesmo com a melhor orientação política do mundo, a revolução de outubro não poderia triunfar se este partido de massa não existisse. E este partido de massa não poderia ser construído sem a formação e a consolidação paciente dos quadros bolcheviques durante os 15 anos precedentes. Contrariamente ao que pretende uma lenda que ainda persiste, os marxistas revolucionários cresceram, numericamente, de algumas dezenas antes do fim do século XIX a alguns milhares em 1905 e a aproximadamente 15 a 20.000 em fevereiro de 1917. É a partir desta base sólida que eles construíram um partido de massa de 240.000 membros em outubro de 1917. Portanto, é preciso evitar os erros espontaneístas de Rosa Luxemburgo e Trotsky no que se refere à construção de uma organização de quadros — seja no plano nacional, seja no internacional. A ausência de partidos revolucionários de massa não é, jamais, uma desculpa para não construir uma organização de quadros se há um programa comum e orientação política geral comum. Isto é verdade a nível nacional. Isto também se aplica a nível internacional. Tudo o mais é romper com a concepção leninista de organização, ou melhor é cair em ilusões espontaneístas grosseiras.

A IV Internacional hoje

É esta lição fundamental de prática política que a IV Internacional aplica hoje. Ela sabe que ainda não é uma Internacional revolucionária de massa e que esta surgirá de lutas de massa e de desenvolvimentos revolucionários de grande amplitude, que não se pode precipitar artificialmente. Mas ela sabe que é vital preparar tais partidos e tal Internacional desde agora. E isto só pode ser feito se construir-se desde agora organizações internacionais e uma organização internacional os mais fortes possíveis. As atividades e as campanhas da IV Internacional não refletem preocupações sectárias ou simples "gadgets", mas respondem às necessidades reais da luta de classe internacional. E por isto que elas ajudam o processo de construção simultâneo de organizações revolucionárias nacionais e de uma Internacional revolucionária. Os progressos realizados em escala nacional contribuem para a construção de outras seções e de toda a Internacional. Eis aqui alguns exemplos concretos que o demonstram:

— O importante papel da JCR (Juventude Comunista Revolucionária) na explosão do Maio de 68 na França, e a criação da LC (Liga Comunista) que se seguiu daí — com uma ajuda real da Internacional — representou um passo adiante importante para a construção do partido na França. Mas esse passo adiante ajudou enormemente a construção da IV Internacional em seu conjunto e a de numerosas organizações nacionais. Toda uma série de seções hoje — a seção espanhola, sueca, britânica, a seção das Antilhas, para tomar apenas os exemplos mais diretos — devem suas exigências, ou uma parte maior de -suas forças, ao fato de que elas resultam do sucesso obtido na França.

— A campanha para salvar a vida de Hugo Blanco era uma exigência de solidariedade internacional à luta das massas camponesas peruanas, independentemente de toda consideração sobre recrutamento ou construção do partido. Mas precisamente porque ela correspondia às necessidades objetivas da luta de classe, ela também permitiu um importante passo adiante na construção do partido. Hugo Blanco é hoje o líder mais conhecido entre as massas dentro toda a esquerda peruana, presidente da Confederação Nacional dos Camponeses e deputado à Assembléia Constituinte. Tudo isto foi adquirido graças ao apoio da Internacionai, e contribui ao mesmo tempo para a construção da seção peruana, para a construção de seções em outros países da América Latina, e para a construção da IV Internacional em seu conjunto.

— A campanha contra a guerra do Vietnã correspondia a considerações objetivas. Ela deveria ser levada mesmo se ela não tivesse conduzido ao recrutamento de um único militante. Mas era crucial, não-somente pelo resultado atingido pelo movimento anti-guerra nos EUA como pela construção de partidos em numerosos países e pela construção da IV Internacional, que houvesse nos EUA uma organização marxista revolucionária como o Socialist Workers Party, em solidariedade política com a IV Internacional, se bem que não filiada a ela. A existência desta organização e o papel que desempenhou no seio, do movimento anti-guerra contribuiu para a construção de seções como a da Austrália, Nova Zelândia, da Grã-Bretanha, e teve efeitos positivos para o conjunto da IV Internacional.

— A campanha da IV Internacional contra o processo de Burgos na Espanha, foi ditada por necessidades objetivas de solidariedade internacional. Mas seus resultados, refletindo precisamente este caráter correto da campanha, não apenas contribuiu para salvar a vida dos militantes como também para ganhar todo um setor dos revolucionários nacionalistas bascos para a seção espanhola da IV Internacional.

Tais atividades internacionais — e os ganhos organizacionais que resultam — não implicam, de forma alguma, em relações sectárias com outras correntes revolucionárias ou tendências em evolução para a esquerda no seio do movimento operário de massa. Ao contrário, elas ajudam a desenvolver relações fraternais com tais tendências. Revolucionários sérios não serão repelidos pelo aspecto "organizacional" de nossas atividades. Eles se posicionam em relação a nós em função de aproximações ou de desacordos políticos. As campanhas conduzidas pela IV Internacional em solidariedade à revolução argelina, vietnamita, nicaraguense, salvadorenha, com a luta em Granada ou com o ascenso impetuoso do proletariado polonês, não provocaram uma tensão em nossas relações com a FLN argelina, com os revolucionários nicaragüenses, salvadorenhos ou de Granada, com as forças que começam a agir pelo renascimento do marxismo revolucionário na Polônia, muito pelo contrario. Todas as pessoas que estão engajadas nestas lutas são pessoas muito práticas. Elas julgam as outras forças políticas em função do que elas fazem, e não do que elas dizem. A existência de uma organização internacional capaz de conduzir campanhas de solidariedade e outras atividades internacionais, é hoje um dos principais trunfos dos marxistas revolucionários, não-somente por seus resultados político-organizacionais, mas também com vistas a estabelecer contatos com outras correntes revolucionárias ou em evolução para a esquerda.

Em resumo, não é somente a teoria, ou a experiência de partidos de massa da Internacional Comunista, mas a prova concreta da luta de classe durante os últimos decênios que confirmam que a construção de organizações revolucionárias em escala nacional e a construção imediata de uma Internacional revolucionária não se opõem entre si, mas dependem uma da outra. São as duas tarefas organizacionais centrais e combinadas que todos os revolucionários, que compreendem a fundo a dinâmica da revolução permanente, devem resolver conjuntamente.

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Inclusão 19/11/2010
Última atualização 14/04/2014