A Propósito dos Métodos de Direcção

Mao Tsetung

1 de Junho de 1943


Primeira Edição: Decisão relativa aos métodos de direcção, redigida pelo camarada Mao Tsetung em nome do Comitê Central do Partido Comunista da China.
Tradução: A presente tradução está conforme à nova edição das Obras Escolhidas de Mao Tsetung, Tomo II (Edições do Povo, Pequim, Agosto de 1952). Nas notas introduziram-se alterações, para atender as necessidades de edição em línguas estrangeiras.
Fonte: Obras Escolhidas de Mao Tsetung, Pequim, 1975, Tomo III, pág: 175-184.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo

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1. Dois métodos há que nós, os comunistas, devemos adoptar era todo o nosso trabalho; um consiste em ligar o geral ao particular e o outro, em ligar a direcção às massas.

2. Em relação a qualquer tarefa, sem um apelo geral, é impossível mobilizar as grandes massas para a acção. Contudo, se os dirigentes se limitam a esse apelo, se em certas organizações não se ocupam, concreta e directamente, da execução minuciosa do trabalho para que fizeram o apelo — de maneira que, tendo aberto uma brecha num ponto dado, possam, graças à experiência adquirida, orientar o trabalho nos outros sectores que dirigem — não terão a possibilidade de verificar se o apelo é ou não justo, nem poderão enriquecer-lhe o conteúdo. Assim o apelo geral corre o risco de não produzir qualquer efeito. Por exemplo, em 1942, no movimento de rectificação, obtiveram-se vitórias por toda a parte onde se aplicou o método de ligar o apelo geral à direcção concreta, e em contrapartida, onde não se adoptou tal método, não se obteve qualquer resultado. No movimento de rectificação de 1943, todos os birôs e sub-birôs do Comitê Central e todos os comitês regionais e prefeitorais do Partido(1) devem, para adquirir experiência, proceder como segue: ao mesmo tempo que lançam um apelo geral (plano do movimento para todo o ano), escolhem nas suas próprias organizações ou nas organizações, escolas e forças-armadas dos arredores, duas ou três unidades (não muitas pois) que submeterão a estudo aprofundado, vendo em detalhe como se desenrola aí o movimento de rectificação e examinando de perto o caso de uns tantos membros representativos do pessoal (aí também não muitos), exame que deverá incidir sobre o respectivo passado político, características ideológicas, aplicação no estudo e qualidade dos seus trabalhos, e guiam pessoalmente os responsáveis dessas unidades na busca das soluções concretas para as questões práticas. Os responsáveis de cada organização, escola ou unidade do exército devem agir do mesmo modo, uma vez que cada uma delas também dispõe de certo número de unidades subordinadas. Trata-se ademais dum método que permite combinar a aprendizagem com a direcção. Nenhum dirigente poderá dar orientação geral às unidades que lhe estejam confiadas, se não adquirir experiência prática do trabalho no contacto com determinados indivíduos e problemas em algumas dessas unidades. Há que popularizar amplamente esse método, a fim de que, em todos os escalões, os quadros dirigentes saibam aplicá-lo.

3. A experiência da rectificação de 1942 demonstrou igualmente que, para garantir o êxito do movimento, torna-se necessário, no decorrer do mesmo, formar em cada unidade um núcleo de direcção composto dum pequeno número de elementos activos, reunidos à volta do principal responsável, e assegurar a ligação estreita desse núcleo dirigente com as grandes massas que participam no movimento. Por muito activo que seja o núcleo dirigente, a sua actividade reduzir-se-á a esforço infrutífero dum punhado de indivíduos se não for combinada com a actividade das grandes massas. Por outro lado, se apenas as grandes massas são activas, e não há um forte núcleo dirigente que organize adequadamente essa actividade, ela não poderá ser mantida por muito tempo, não poderá avançar na justa direcção nem atingir nível mais elevado. Onde quer que existam massas, estas compõem-se geralmente de três categorias de indivíduos: os que são relativamente activos, os intermédios e os que são relativamente atrasados. Assim, os dirigentes devem saber unir à voita da direcção o pequeno número de elementos activos e apoiar-se neles para elevar o nível dos elementos intermédios e conquistar os elementos atrasados. Um núcleo dirigente verdadeiramente unido e ligado às massas só pode formar-se progressivamente, no processo da luta das massas, não isolado dessa luta. Na maioria dos casos, o núcleo dirigente não pode nem deve permanecer imutável na sua composição ao longo do começo, meio e fim duma grande luta; há que promover continuamente os elementos activos que se distinguem no decurso da luta e substituí-los aos membros originais do núcleo dirigente que são comparativamente menos qualificados ou que degeneram. Uma das razões básicas por que, em muitos pontos e organismos, não se consegue fazer progredir o trabalho, é a ausência do tal núcleo dirigente, solidamente unido, ligado às massas e constantemente são. Uma escola de uma centena de pessoas jamais poderá ser bem dirigida se não dispuser dum núcleo dirigente de vários indivíduos, mesmo uma dezena ou mais, formado de acordo com as circunstâncias reais (não para fazer número) e composto pelos mais activos, íntegros e capazes dentre os professores, empregados e alunos. A indicação relativa à formação do núcleo dirigente, formulada por Estáline na nona das doze condições de bolchevização dos partidos comunistas(2), deve aplicar-se por toda a parte, sem excepções, nos organismos, escolas, unidades do exército, fábricas e aldeias, sejam grandes sejam pequenos. A escolha dos membros do núcleo dirigente deve ter por critério as quatro condições formuladas por Dimitrov ao falar da política de quadros: devoção máxima, ligação com as massas, capacidade de orientar-se por si próprio em todas as situações, espírito de disciplina(3). Tanto quando se realiza uma das tarefas centrais, — guerra, produção, educação (movimento de rectificação incluído) — como quando se realiza o controle do trabalho, a verificação dos quadros e outras tarefas, deve-se, ao mesmo tempo que se adopta o método de ligar o apelo geral à direcção concreta, adoptar o método de ligar o núcleo dirigente às grandes massas.

4. Em todo o trabalho prático do nosso Partido, toda a direcção correcta é necessàriamente “das massas para as massas”. Isso significa recolher as ideias das massas (ideias dispersas, não sistemáticas), concentrá-las (transformá-las por meio do estudo em ideias sintetizadas e sistematizadas), ir de novo às massas para propagá-las e explicá-las de maneira que as massas as tomem como suas, persistam nelas e as traduzam em acção; e ainda verificar a justeza dessas ideias no decorrer da própria acção das massas. Depois é preciso voltar a concentrar as ideias das massas e levá-las outra vez às massas, para que estas persistam nelas e as apliquem firmemente. Sucessivamente, repetindo-se infinitamente esse processo, as ideias vão-se tornando cada vez mais correctas, mais vivas e mais ricas. Tal é a teoria marxista do conhecimento.

5. O conceito de que importa estabelecer relações justas entre o núcleo dirigente e as grandes massas, seja numa organização seja no decorrer duma luta; o conceito de que uma direcção não pode formular ideias justas a não ser que recolha as ideias das massas, as concentre e as volte a transmitir às massas, a fim de que estas as apliquem com firmeza; o conceito de que, ao aplicar-se o pensamento da direcção, há que ligar o apelo geral a uma orientação particular; todos esses conceitos devem ser difundidos amplamente no actual movimento de rectificação, a fim de corrigir os pontos de vista errados que sobre isso existem entre os nossos quadros. Muitos camaradas não se empenham em unir à sua volta os elementos activos para formar o núcleo dirigente ou não são capazes de fazê-lo, nem se empenham em estabelecer laços apertados entre o núcleo dirigente e as grandes massas ou não são capazes de fazê-lo, sendo por isso que a sua direcção se torna burocrática e desligada das massas. Muitos camaradas não se empenham em fazer a síntese da experiência da luta das massas ou não são capazes de fazê-lo; julgando-se inteligentes, preferem expor múltiplas opiniões subjectivas, pelo que as suas ideias se revelam vazias e impraticáveis. Muitos camaradas contentam-se com lançar apelos gerais para cumprir as tarefas e não se empenham em passar imediatamente a um trabalho de direcção particular e concreto ou não são capazes de fazê-lo, de modo que os apelos ficam-lhes nos lábios, no papel ou na sala de reuniões, caindo o seu trabalho de direcção no burocratismo. No decurso do actual movimento de rectificação, devemos corrigir esses defeitos e aprender a empregar, tanto no estudo como no controle do trabalho e na verificação dos quadros, os métodos seguintes: ligar a direcção às massas e ligar o geral ao particular. Há que aplicar esses métodos em todo o trabalho que temos de fazer.

6. Recolher as ideias das massas, concentrá-las e levá-las de novo às massas a fim de que estas as apliquem firmemente, e chegar assim a elaborar ideias justas de direcção. Tal é o método fundamental de direcção. No processo de concentração das ideias e sua firme aplicação, há que combinar o apelo geral com uma orientação particular; isso faz parte integrante do método de direcção acima exposto. É necessário, a partir de numerosos casos de direcção concreta, formular ideias gerais (apelo geral), pô-las à prova em várias unidades distintas (não só importa fazê-lo pessoalmentê, importa também levar outros a fazê-lo), depois concentrar as novas experiências (fazer o respectivo balanço) e elaborar novas directivas que guiem geralmente as massas. Os camaradas devem proceder assim ao longo do movimento actual de rectificação e em qualquer outro trabalho. Uma boa direcção decorre da capacidade dos dirigentes para agir segundo esse método.

7. Sempre que um organismo dirigente superior e respectivos serviços confiam aos escalões inferiores uma tarefa (guerra revolucionária, produção, educação; movimento de rectificação, controle do trabalho ou verificação dos quadros; trabalho de propaganda, trabalho de organização ou eliminação dos elementos hostis; etc.), devem dirigir-se aos principais responsáveis do organismo inferior interessado para que estes assumam pessoalmente as suas responsabilidades; assim, atingir-se-á uma divisão do trabalho ao mesmo tempo que uma direcção unificada (centralização da autoridade). Os serviços dum organismo superior não devem dirigir-se apenas aos serviços correspondentes do escalão inferior (por exemplo, um departamento do escalão superior, encarregado da organização, propaganda ou eliminação dos elementos hostis, dirige-se ao departamento correspondente do escalão inferior), deixando na ignorância o principal responsável dc organismo inferior (por exemplo, o secretário, o presidente, o chefe dum departamento ou o director duma escola) ou deixando-o na impossibilidade de assumir as suas responsabilidades. É necessário que o principal responsável e as pessoas especificadamente responsáveis sejam todos informados da tarefa distribuída e tenham responsabilidades na respectiva execução. Esse método de centralização da autoridade, que associa a divisão do trabalho a uma direcção unificada, permite, através do principal responsável, mobilizar para uma tarefa dada um grande número de quadros, por vezes até todo o pessoal dum organismo; só assim poderá remediar-se a falta de quadros neste ou naquele serviço e fazer com que muitas pessoas se convertam em quadros activos no cumprimento da tarefa dada. É ainda uma maneira de ligar a direcção às massas. Consideremos, por exemplo, a verificação dos quadros. Se esse trabalho se faz isoladamente, se é confiado apenas ao restrito número de indivíduos dum departamento do organismo dirigente como o departamento de organização, não pode ser de certeza bem cumprido; mas se, para proceder a essa verificação, o responsável administrativo dum organismo ou escola mobiliza um grande número de indivíduos do seu organismo, ou de estudantes do seu estabelecimento, podendo até abranger todo o pessoal ou todos os estudantes, e se o dirigente do departamento de organização do escalão superior orienta correctamente esse trabalho e aplica o princípio que consiste em ligar a direcção às massas, a verificação é seguramente realizada de modo satisfatório.

8. Não podem existir, ao mesmo tempo, várias tarefas centrais numa só região; em cada período, só pode haver uma tarefa central, à qual se juntam outras tarefas de segunda ou de terceira ordem. Por conseqüência, tendo em conta a história e as circunstâncias da luta em cada região, o responsável geral dessa região deve atribuir a cada tarefa o lugar que lhe convém, e não agir sem plano, passando duma tarefa a outra tarefa, à medida que as directivas lhe vão chegando da direcção superior, pois isso daria lugar a outras tantas “tarefas centrais”, conduzindo à confusão e à desordem. Por seu lado, os órgãos superiores não devem atribuir, ao mesmo tempo, muitas tarefas aos organismos que lhes são subordinados, sem as classificarem segundo uma ordem de importância e urgência, e sem uma especificação de qual delas é a central, pois isso desorganiza o trabalho de tais organismos e impede que se obtenham os resultados previstos. Conforme as condições históricas e as circunstâncias existentes em cada região, os dirigentes devem considerar a situação no seu conjunto, determinar de maneira correcta o centro de gravidade e a ordem de execução do trabalho para um período determinado, e aplicar firmemente essa decisão, actuando de maneira que sejam garantidos os resultados previstos. Eis um dos métodos da arte de dirigir. E trata-se igualmente duma questão de método de direcção que é preciso resolver com atenção sempre que se aplicam os princípios de ligar a direcção às massas e ligar o geral ao particular.

9. Não referiremos aqui todos os detalhes do problema dos métodos de direcção, mas esperamos que, à luz dos princípios que acabam de ser expostos, os camaradas se entreguem, nas diferentes regiões, a uma séria reflexão e façam apelo à sua capacidade criadora. Quanto mais árdua é a luta, tanto mais importa que os comunistas liguem estreitamente o seu trabalho de direcção às exigências das grandes massas e combinem os seus apelos gerais a uma direcção concreta, a fim de acabar inteiramente com todos os métodos de direcção subjectivistas e burocráticos. Todos os camaradas dirigentes no Partido devem, a cada instante, opor métodos de direcção científicos, marxistas, aos métodos subjectivistas, burocráticos, e servir-se dos primeiros para eliminar os segundos. Os subjectivistas e os burocratas não compreendem os princípios que consistem em ligar a direcção às massas e o geral ao particular, o que entrava consideravelmente o desenvolvimento do trabalho do nosso Partido. Para combater os métodos de direcção subjectivistas e burocráticos devemos difundir ampla e profundamente os métodos científicos, marxistas, de direcção.

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Notas de rodapé:

(1) O comitê de prefeitura do Partido é um órgão de direcção de escalão inferior ao do comitê de província ou ao do comitê regional do Partido, mas superior ao do comitê de distrito. (Nota do tradutor). (retornar ao texto)

(2) Ver J. V. Estáline: “Sobre as Perspectivas do Partido Comunista Alemão e a Bolchevização”. (retornar ao texto)

(3) Ver J. Dimitrov: “Pela Unidade da Classe Operária contra o Fascismo”, discurso de encerramento no VII Congresso da Internacional Comunista, parte VII, “Sobre os Quadros”. (retornar ao texto)

Inclusão 19/08/2011
Última alteração 17/03/2013