Carta a Ludwig Kugelmann
(em Hannover)

Karl Marx

09 de Outubro de 1866

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Primeira Edição: Publicado pela primeira vez na revista Die Neue Zeit, Ed. 2, n.° 2, 1901-1902. Publicado segundo o manuscrito. Traduzido do alemão.
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!" - Edição dirigida por um colectivo composto por: José BARATA-MOURA, Eduardo CHITAS, Francisco MELO e Álvaro PINA, tomo II, pág: 453-454.
Tradução: José BARATA-MOURA e João Pedro GOMES.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.


capa

Londres, 9 de Outubro(1) de 1866

... Eu tinha grandes apreensões pelo primeiro Congresso em Genebra[N222]. No conjunto, porém, para além da minha expectativa, ele correu bem. O efeito em França, Inglaterra e América foi inesperado. Eu não podia e não queria lá ir, mas escrevi o programa dos delegados de Londres.(2) Limitei-o intencionalmente a pontos tais que permitissem aos operários imediato acordo e cooperação e dessem imediato alimento e ímpeto às necessidades da luta de classes e de organização dos operários em classe. Os senhores de Paris tinham as cabeças cheias das frases mais vazias de Proudhon. Tagarelam de ciência e não sabem nada. Eles desdenham de toda a acção revolucionária, i. e., que nasce da própria luta de classes, de todo o movimento social, concentrado, e, portanto, também executável por meios políticos (como, p. ex., o encurtamento legal do dia de trabalho); sob o pretexto da liberdade e do antigovernamentalismo ou individualismo antiautoridade — estes senhores, que desde há 16 anos suportaram e suportam tão tranquilamente o mais miserável despotismo! — pregam, de facto, a economia burguesa ordinária, só que proudhonianamente idealizada! Proudhon causou um mal enorme. A sua pseudocrítica e a sua pseudo-oposição aos utopistas (ele próprio é apenas um utopista pequeno-burguês [spiessbürgerlicher], enquanto nas utopias de um Fourier, de um Owen, etc, há o pressentimento e a expressão fantástica de um mundo novo), agarrou e corrompeu, primeiro, a «jeunesse brillante»(3), os estudantes, e, depois, os operários, em particular, os de Paris que, como operários do luxo, sem o saberem, estão «muito» ligados ao lixo velho. Ignorantes, vaidosos, arrogantes, maníacos da tagarelice, enfaticamente inchados, estiveram a ponto de estragar tudo, uma vez que se precipitaram para o congresso num número que não tem absolutamente nenhuma proporção com o número dos seus membros. No relatório, por baixo de mão, hei-de dar-lhes nas mãos.

O Congresso operário americano que [decorreu] ao mesmo tempo em Baltimore[N43] proporcionou-me grande alegria. Organização para a luta contra o capital foi aí a palavra de ordem e, de um modo digno de nota, a maioria das reivindicações elaboradas por mim para Genebra também fora elaboradas lá pelo instinto correcto dos operários.

Aqui, o movimento pela reforma — que o nosso conselho central (quorum magna pars fui)(4) fez nascer — tomou agora dimensões imensas e irresistíveis[N44]. Tenho-me mantido sempre nos bastidores e não me preocupo mais com a coisa, já que ela está a andar...

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Notas de rodapé:

(1) No manuscrito: Novembro. (retornar ao texto)

(2) Ver o presente tomo, pp. 79-88. Instruções para o Delegados do Conselho Geral Provisório . As Diferentes Questões (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(3) Em inglês no texto: evidente por si mesmo. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(4) Em latim no texto: em que tomei grande parte (Virgílio, Eneida, livro II). (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N43] A questão da instituição legal da jornada de trabalho de oito horas foi debatida no congresso dos operários americanos que se realizou em Baltimore de 20 a 25 de Agosto de 1866. O congresso debateu igualmente as seguintes questões: acção política dos operários, sociedades cooperativas, adesão de todos os operários às trade unions, greves, etc. (retornar ao texto)

[N44] Trata-se da ampla participação das trade unions inglesas no movimento democrático geral pela segunda reforma do direito eleitoral em 1865-1867. (A primeira foi aplicada em 1831-1832 e abriu o acesso ao parlamento aos representantes da grande burguesia industrial.)
Em 23 de Fevereiro de 1865, numa assembleia de partidários da reforma do direito eleitoral, por iniciativa e com a participação directa do Conselho Geral da Internacional, foi aprovada uma decisão sobre a fundação da Liga da Reforma, que se tornou o centro político para a direcção do movimento de massas dos operários pela segunda reforma. Por insistência de Marx, a Liga da Reforma apresentou a reivindicação do sufrágio universal para toda a população masculina adulta do país. Contudo, em consequência das vacilações dos radicais burgueses que faziam parte da direcção da Liga da Reforma, assustados com o movimento de massas dos operários, e também do espírito conciliador dos dirigentes oportunistas das trade unions, a Liga não foi capaz de aplicar a linha apontada pelo Conselho Geral; a burguesia britânica conseguiu cindir o movimento, e em 1867 foi aplicada uma reforma limitada, que concedeu o direito de voto apenas à pequena burguesia e às camadas superiores da classe operária, deixando a sua massa sem direitos políticos, tal como antes. (retornar ao texto)

[N222] O Congresso de Genebra da Internacional realizou-se de 3 a 8 de Setembro de 1866. A ele assistiram 60 delegados do Conselho Geral, das secções e de associações operárias da Inglaterra, França, Alemanha e Suíça. As Instruções para os Delegados do Conselho Geral Provisório. As Diferentes Questões, redigidas por Marx, foram aí apresentadas como relatório oficial do Conselho Geral. A maior parte dos seus pontos, apesar da oposição dos proudhonistas que participavam no Congresso, foram aprovados como resoluções do Congresso. Este aprovou igualmente os Estatutos e o Regulamento da Associação Internacional dos Trabalhadores. (retornar ao texto)

Inclusão 10/11/2010