O Congresso da Haia
Relato Feito na Imprensa do Discurso Pronunciado na Reunião de 8 de Setembro de 1872 em Amsterdão[N252]

Karl Marx

8 de Setembro de 1872

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Primeira Edição: nos jornais La Liberte, n.° 37, de 15 de Setembro de 1872, e Der Volksstaat, n.º 79, de 2 de Outubro de 1872.
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!"
Tradução: José BARATA-MOURA, Eduardo CHITAS e Álvaro PINA (Publicado segundo o texto do jornal. Traduzido do francês.)
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, Dezembro 2008.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.


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No século XVIII, disse o orador, os reis e os potentados tinham o costume de se reunir na Haia para discutir os interesses das suas dinastias.

Foi aqui que quisemos realizar a assembleia do trabalho, apesar dos receios que procuravam inspirar-nos. Foi no meio da população mais reaccionária que quisemos vir afirmar a existência, a extensão e a esperança no futuro da nossa grande associação.

Falou-se, ao ter-se conhecimento da nossa resolução, de emissários nossos enviados para preparar o terreno. Sim, não negamos ter emissários por toda a parte; mas, na maioria, são-nos desconhecidos. Os nossos emissários na Haia foram esses operários, cujo labor é tão penoso, como em Amesterdão são também operários, desses operários que trabalham dezasseis horas por dia. Eis os nossos emissários, não temos outros; e em todos os países em que nos apresentamos encontramo-los dispostos a acolher-nos com simpatia, porque depressa compreendem que é a melhoria da sua sorte que perseguimos.

O Congresso da Haia fez três coisas principais:

Proclamou a necessidade, para as classes operárias, de combater no terreno político como no terreno social a velha sociedade que se desmorona; e felicitamo-nos por ver entrar doravante nos nossos estatutos esta resolução da Conferência de Londres[N210]. Tinha-se formado no meio de nós um grupo que preconizava a abstenção dos operários em matéria política.

Quisemos dizer quanto considerávamos estes princípios perigosos e funestos para a nossa causa.

O operário deve tomar um dia a supremacia política para assentar a nova organização do trabalho; deve derrubar a velha política que sustenta as velhas instituições, sob pena de nunca ver, tal como os antigos cristãos, que a tinham desprezado e desdenhado, o seu reino deste mundo.

Mas de modo nenhum pretendemos que para chegar a esse objectivo os meios fossem idênticos.

Sabemos que há que ter na devida conta as instituições, os costumes e as tradições dos diferentes países; e não negamos que existem países como a América, a Inglaterra, e se conhecesse melhor as vossas instituições, acrescentaria a Holanda, onde os trabalhadores podem atingir o seu objectivo por meios pacíficos. Se isto é verdade, também devemos reconhecer que na maior parte dos países do continente a força é que deve ser a alavanca das nossas revoluções; é à força que se terá de fazer apelo por algum tempo a fim de estabelecer o reino do trabalho.

O Congresso da Haia conferiu ao Conselho Geral novos e mais fortes poderes. Com efeito, no momento em que os reis[N253] se reúnem em Berlim, em que dessa entrevista dos poderosos representantes da feudalidade e dos tempos passados devem sair contra nós novas e mais vivas medidas de repressão; no momento em que a perseguição se organiza, o Congresso da Haia julgou justamente sensato e necessário aumentar os poderes do seu Conselho Geral e centralizar, para a luta que se vai travar, uma acção que o isolamento tornaria impotente. E, aliás, a quem, a não ser aos nossos inimigos, poderia incomodar a autoridade do Conselho Geral? Acaso tem ele uma burocracia, uma polícia armada para se fazer obedecer? Não é a sua autoridade unicamente moral e aquilo que delibera não o submete às federações encarregadas da execução? Nestas condições, os reis, sem exército, sem polícia, sem magistratura, seriam fracos obstáculos à marcha da Revolução, no dia em que ficassem reduzidos a retirar o seu poder da influência e da autoridade morais.

Finalmente, o Congresso da Haia transferiu a sede do Conselho Geral para Nova Iorque. Muitos, até mesmo entre os nossos amigos, pareceram surpreendidos por semelhante decisão. Esquecem acaso que a América se torna o mundo dos trabalhadores por excelência; que todos os anos meio milhão de homens, de trabalhadores, emigram para esse outro continente e que é preciso que a Internacional ganhe vigorosas raízes nesse solo em que domina o operário?

E além disso, a decisão do Congresso dá ao Conselho Geral o direito de chamar a si os membros que julgar necessários e úteis para o bem da causa comum. Esperemos da sua sensatez que saberá escolher homens à altura da sua tarefa e que saberão manter firme na Europa a bandeira da nossa associação.

Cidadãos, pensemos nesse princípio fundamental da Internacional: a solidariedade. É estabelecendo em fortes bases, entre todos os trabalhadores de todos os países, esse princípio vivificante que atingiremos o grande objectivo que nos propomos. A revolução deve ser solidária, e encontramos um grande exemplo disso na Comuna de Paris, que caiu porque em todos os centros, em Berlim, em Madrid, etc, não surgiu de modo nenhum um grande movimento revolucionário correspondente a esse levantamento supremo do proletariado parisiense.

Por mim, continuarei a minha tarefa e trabalharei constantemen-te para estabelecer esta solidariedade fecunda para o futuro entre todos os trabalhadores. Não, de modo nenhum me retirarei da Internacional, e o resto da minha vida será consagrado, tal como os meus esforços passados, ao triunfo das ideias sociais, que um dia levarão, podeis estar certos disso, à dominação [avènement] universal do proletariado.

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Notas de fim de tomo:

[N210] A Conferência de Londres da I Internacional teve lugar entre 17 e 23 de Setembro de 1871. Foi convocada sob o clima de repressão brutal que se abateu sobre os membros da Internacional após a queda da Comuna de Paris, e o número de participantes foi bastante restrito: 22 delegados com voto deliberativo e 10 com voto consultivo. Os países que não puderam enviar delegados seus foram representados pelos secretários correspondentes do Conselho Geral. Marx representava a Alemanha, Engels a Itália.
A questão da acção política da classe operária foi o principal tema dos trabalhos da Conferência de Londres e foi analisada em todos os aspectos nos discursos de Marx e Engels. A Conferência aprovou a resolução «Sobre a Acção Política da Classe Operária», cuja parte principal foi, por decisão do Congresso da Haia, incluída nos Estatutos Gerais da Associação Internacional dos Trabalhadores. Várias resoluções da Conferência visavam os bakuninistas, que tentavam cindir a Internacional. (retornar ao texto)

[N251] O Congresso da Haia da Associação Internacional dos Trabalhadores realizou-se de 2 a 7 de Setembro de 1872. Nele participaram 65 delegados de 15 organizações nacionais. O trabalho do Congresso foi pessoalmente dirigido por Marx e Engels. O Congresso coroou o combate de muitos anos de Marx e Engels e dos seus companheiros de luta contra todos os tipos de sectarismo pequeno-burguês no movimento operário. Foi condenada a actividade cisionista dos anarquistas e os seus dirigentes (Bakúnine, Guillaume e outros) foram expulsos da Internacional. As decisões do Congresso da Haia lançaram as bases para a criação no futuro de partidos políticos da classe operária independentes nos diferentes países. (retornar ao texto)

[N252] Depois do fim dos trabalhos do Congresso da Haia (ver nota 251), Marx, juntamente com outros delegados, foi a Amesterdão a um encontro com a secção local da Internacional. Em 8 de Setembro pronunciou num comício um discurso sobre os resultados do Congresso da Haia. Defendendo incansavelmente a idéia da revolução proletária e da ditadura do proletariado, Marx deu no seu discurso um exemplo de uma abordagem criadora da solução da questão das formas de passagem dos diferentes países do capitalismo para o socialismo de acordo com às condições históricas concretas, a distribuição e a correlação das forças de classe. Avançou e fundamentou a tese de que, paralelamente à violência revolucionária — meio inevitável, naquelas condições, de estabelecimento e manutenção da ditadura do proletariado na maioria esmagadora dos países —, em alguns países (Inglaterra, Estados Unidos e talvez a Holanda), devido a determinadas condições históricas que neles existiam (ausência de um aparelho burocrático e militarista desenvolvido), o proletariado poderia alcançar a sua dominação sem recorrer à violência revolucionária. (retornar ao texto)

[N253] Trata-se do encontro de três imperadores — Guilherme I, Francisco José e Alexandre II — em Setembro de 1872 em Berlim; entre às questões discutidas contou-se a questão da luta conjunta contra o movimento revolucionário. (retornar ao texto)

Inclusão 31/01/2009