Para a Questão da Habitação

Friedrich Engels

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Prefácio à Segunda Edição, Revista, de 1887


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O escrito que se segue é a reimpressão de três artigos que escrevi para o Volksstaat[N55] de Leipzig em 1872. Nessa altura, precisamente, caía sobre a Alemanha a chuva de milhares de milhões franceses[N131]; foram pagas as dívidas do Estado, construídas fortalezas e aquartelamentos, renovadas as existências de armas e equipamentos militares; o capital disponível foi, de repente, enormemente aumentado, tanto como a massa de dinheiro em circulação e tudo isto precisamente num tempo em que a Alemanha aparecia na cena mundial não só como «império unificado» mas também como grande país de indústria. Os milhares de milhões deram um poderoso impulso à jovem grande indústria; foram sobretudo eles que levaram ao curto período de prosperidade, pleno de ilusões, após a guerra — e, logo a seguir, em 1873-1874, ao grande craque — através do qual a Alemanha provou ser um país de indústria à altura do mercado mundial.

O tempo em que um velho país de cultura realiza esta transição — ainda por cima acelerada por circunstâncias tão favoráveis — da manufactura e da pequena empresa para a grande indústria é também, sobretudo, o tempo da «falta de habitações». Por um lado, massas de operários rurais são de repente atraídas para as grandes cidades que se desenvolvem em centros industriais; por outro, o traçado destas cidades mais antigas já não corresponde às condições da nova grande indústria e do tráfego correspondente; ruas são alargadas, novas ruas abertas, e faz-se passar o caminho-de-ferro pelo meio delas. No mesmo momento em que os operários afluem em grande número, as habitações operárias são demolidas em massa. Daí a repentina falta de habitações dos operários e do pequeno comércio e pequenos ofícios dependentes de uma clientela operária. Nas cidades que surgiram desde o começo como centros de indústria esta falta de habitações é por assim dizer desconhecida. Foi o caso de Manchester, Leeds, Bradford, Barmen-Elberfeld. Pelo contrário, em Londres, Paris, Berlim, Viena, ela tomou uma forma aguda e, na maioria dos casos, continua a existir de maneira crónica.

Foi, portanto, precisamente esta aguda falta de habitações, este sintoma da revolução industrial que se completava na Alemanha, que nessa altura encheu a imprensa com dissertações sobre a «questão da habitação» e deu azo a todo o tipo de charlatanarias sociais. Uma série de artigos desses foi também parar ao Volksstaat. O autor anónimo que mais tarde se deu a conhecer como senhor Dr. em med[icina] A. Mülberger, de Württemberg, considerou a ocasião favorável para, com esta questão, explicar aos operários alemães os efeitos milagrosos do remédio social universal de Proudhon[N255]. Quando fiz saber à redacção o meu espanto pela aceitação daqueles singulares artigos, convidaram-me a responder-lhes, o que fiz. (V. Primeira Secção: «Como resolve Proudhon a questão da habitação».) A esta série de artigos liguei pouco depois uma segunda, em que era analisada a concepção filantrópico-burguesa da questão, com base num escrito do Dr. Emil Sax[N256]. (Segunda Secção: «Como resolve a burguesia a questão da habitação».) Após um longo intervalo, o senhor Dr. Mülberger honrou-me então com uma resposta aos meus artigos[N257], a qual me obrigou a uma réplica (Terceira Secção: «Suplemento sobre Proudhon e a questão da habitação»), com que então chegaram ao fim tanto a polémica como a minha ocupação especial com esta questão. É esta a génese dessas três séries de artigos, que se publicaram igualmente como separata em forma de brochura. Se agora se torna necessária uma nova impressão, tenho de novo a agradecê-lo, sem dúvida, à benévola solicitude do governo imperial alemão, que, com a proibição, promoveu muito as vendas, como sempre, e ao qual eu aqui exprimo o meu mais reconhecido agradecimento.

Para a nova impressão revi o texto, introduzi algumas notas e adições isoladas e corrigi um pequeno erro económico na primeira secção, uma vez que o meu adversário Dr. Mülberger infelizmente não o descobriu.

Com esta revisão dou-me bem conta dos enormes progressos feitos pelo movimento operário internacional nos últimos catorze anos. Naquela altura era ainda um facto que «os operários de línguas românicas não tinham desde há vinte anos outro alimento espiritual senão as obras de Proudhon»(1*) e, quando muito, a ulterior unilateralização do proudhonismo pelo pai do «anarquismo», Bakúnine, que via em Proudhon o «mestre de todos nós», notre maitre à nous tous. Embora os proudhonianos, em França, entre os operários não fossem senão uma pequena seita, eram contudo os únicos que tinham um programa determinadamente formulado e que, durante a Comuna, conseguiram tomar a direcção no campo económico. Na Bélgica, o proudhonismo dominava de forma incontestada entre os operários valões, e na Espanha e na Itália, salvo muito raras excepções, tudo aquilo que no movimento operário não era anarquista era decididamente proudhoniano. E hoje? Em França, Proudhon está completamente posto de parte entre os operários e já só tem seguidores entre os burgueses e pequeno-burgueses radicais, que, como proudhonianos, se chamam também «socialistas», mas que são combatidos da forma mais veemente pelos operários socialistas. Na Bélgica, os flamengos desalojaram os valões da direcção do movimento, derrubaram o proudhonismo e levantaram poderosamente o movimento. Na Espanha, como na Itália, a maré alta anarquista dos anos setenta refluiu, e arrastou consigo os restos do proudhonismo; se na Itália o novo partido está ainda em fase de clarificação e formação, na Espanha o pequeno núcleo que, como Nueva Federación Madrilena[N258], se manteve fiel ao Conselho Geral da Internacional desenvolveu-se num poderoso partido que — conforme se pode ver pela própria imprensa republicana — está a destruir a influência dos republicanos burgueses sobre os operários muito mais eficazmente do que o conseguiram os seus ruidosos predecessores anarquistas. Entre os operários românicos, para o lugar das esquecidas obras de Proudhon passaram O Capital, o Manifesto Comunista e uma série de outros escritos da escola de Marx e a reivindicação principal de Marx: a apropriação de todos os meios de produção em nome da sociedade pelo proletariado elevado à dominação política exclusiva é hoje também a reivindicação de toda a classe operária revolucionária nos países românicos.

Se, portanto, o proudhonismo foi também definitivamente desalojado entre os operários dos países românicos, se ele já só serve — correspondendo ao seu verdadeiro destino — aos radicais burgueses franceses, espanhóis, italianos e belgas como expressão dos seus desejos burgueses e pequeno-burgueses, porquê então voltar hoje mais uma vez a ele? Porquê combater de novo, com a reimpressão destes artigos, um adversário defunto?

Primeiro, porque estes artigos não se limitam a uma mera polémica contra Proudhon e o seu representante alemão. Em consequência da divisão de trabalho que existia entre Marx e eu, coube-me defender as nossas opiniões na imprensa periódica, ou seja, nomeadamente, na luta contra opiniões adversárias, para que Marx tivesse tempo de elaborar a sua grande obra principal. Fiquei, deste modo, na situação de expor a nossa maneira de ver, na maioria das vezes em forma polémica, em oposição a outras maneiras de ver. Também neste caso. As secções I e III contêm não só uma crítica da concepção de Proudhon da questão mas também a exposição da nossa própria concepção.

Porém, em segundo lugar, Proudhon desempenhou na história do movimento operário europeu um papel demasiado significativo para poder cair sem mais no esquecimento. Refutado teoricamente, posto de lado na prática, ele conserva, porém, o seu interesse histórico. Quem se ocupar com uma certa profundidade do socialismo moderno terá de conhecer também os «pontos de vista ultrapassados» do movimento. A Miséria da Filosofia, de Marx, surgiu vários anos antes de Proudhon apresentar as suas propostas práticas de reforma da sociedade; aí, Marx não podia senão descobrir no germe e criticar o banco de troca proudhoniano. Assim, neste aspecto, o seu escrito é completado pelo presente, infelizmente de forma assaz imperfeita. Marx teria feito tudo isto muito melhor e de forma mais convincente.

Mas, finalmente, o socialismo burguês e pequeno-burguês tem estado até agora fortemente representado na Alemanha. Por um lado, por socialistas de cátedra[N259] e filantropos de toda a espécie entre os quais o desejo de transformar os operários em proprietários da sua habitação continua a desempenhar um papel importante e contra os quais, portanto, o meu trabalho continua a ser oportuno. Por outro lado, porém, no próprio partido social-democrata, incluindo a fracção do Reichstag, encontra a sua representação um certo socialismo pequeno-burguês. E de uma forma tal que, de facto, se reconhecem como justas as visões fundamentais do socialismo moderno e a reivindicação da transformação de todos os meios de produção em propriedade social, mas se declara que a sua realização apenas é possível num tempo distante, praticamente imprevisível. Assim, no presente estar-se-ia limitado a meros remendos sociais e poder-se-ia mesmo simpatizar, conforme as circunstâncias, com as mais reaccionárias aspirações à chamada «elevação das classes trabalhadoras». A existência de uma tal orientação é completamente inevitável na Alemanha, o país da pequena burguesia [Spiessburgertum] par excellence(2*), e num tempo em que o desenvolvimento industrial arranca de forma violenta e maciça as raízes a esta pequena-burguesia há tanto tempo enraizada. Isso também não é, de forma nenhuma, perigoso para o movimento, dado o senso admiravelmente são dos nossos operários, que deu provas tão brilhantes precisamente nos últimos oito anos de luta contra a lei dos socialistas[N125] a polícia e os juízes. Mas é preciso ter bem claro que uma tal orientação existe. E se, conforme é necessário e mesmo desejável, esta orientação acabar por assumir mais tarde uma forma mais sólida e contornos mais determinados, ela terá então, para a formulação do seu programa, de remontar aos seus predecessores e, fazendo-o, dificilmente Proudhon será omitido.

O cerne da solução, tanto burguesa como pequeno-burguesa, da «questão da habitação» é a propriedade pelo operário da sua habitação. Este é, porém, um ponto que nos últimos vinte anos, com o desenvolvimento industrial da Alemanha, recebeu uma focagem muito particular. Em nenhum outro país existem tantos operários assalariados que sejam proprietários não só da sua habitação mas também ainda de uma horta ou campo, além ainda de numerosos outros que ocupam como arrendatários uma casa e horta ou campo com uma posse de facto bastante garantida. A indústria caseira rural, praticada em ligação com a horticultura ou a pequena exploração agrícola, constitui a ampla base da jovem grande indústria da Alemanha; no Oeste, os operários são predominantemente proprietários e, no Leste, predominantemente arrendatários da suas habitações. Encontramos esta ligação da indústria caseira com a horticultura e agricultura, e, portanto, com habitação garantida, não só em todos os lugares onde a tecelagem manual luta ainda contra o tear mecânico, como no Baixo Reno e na Vestefália, nos Montes Metalíferos saxónicos e na Silésia, mas também em todos os lugares onde a indústria caseira de qualquer tipo se tenha imposto como indústria rural, como, por exemplo, na floresta da Turíngia e no Rhön. Por ocasião das negociações sobre o monopólio do tabaco evidenciou-se até que ponto a própria manufactura de charutos já é praticada como trabalho caseiro rural; e, onde surge qualquer calamidade entre os pequenos camponeses, como há alguns anos no Eifel[N260], logo a imprensa burguesa grita pela introdução de uma indústria caseira adequada como único remédio. De facto, tanto a miséria crescente dos camponeses alemães das parcelas como a situação geral da indústria alemã pressionam no sentido de uma cada vez maior expansão da indústria caseira rural. Este é um fenómeno que é próprio da Alemanha. Só muito excepcionalmente encontramos algo de semelhante na França como, por exemplo, nas regiões da cultura da seda; na Inglaterra, onde não há pequenos camponeses, a indústria caseira rural assenta no trabalho das mulheres e filhos dos assalariados agrícolas à jorna; só na Irlanda vemos a indústria caseira da confecção de vestuário praticada, de modo semelhante ao da Alemanha, por verdadeiras famílias camponesas. Naturalmente, não falamos aqui da Rússia nem de outros países não representados no mercado industrial mundial.

Deste modo, existe hoje em vastas regiões da Alemanha uma situação industrial que, à primeira vista, se parece com a situação que predominava, em geral, antes da introdução da maquinaria. Porém, só à primeira vista. A indústria caseira rural de outrora, ligada à horticultura e agricultura, era, pelo menos nos países que avançavam industrialmente, a base de uma situação materialmente suportável e, por vezes, confortável da classe trabalhadora, mas também da sua nulidade espiritual e política. O produto feito à mão e os seus custos determinavam o preço de mercado e, dada a diminuta produtividade do trabalho, comparada com a de hoje, os mercados de escoamento cresciam em regra mais rapidamente que a oferta. Era o caso, por meados do século passado, da Inglaterra, e, em parte, da França, nomeadamente na indústria têxtil. Na Alemanha de então, que ainda mal se levantava de novo da devastação da Guerra dos Trinta Anos[N75] nas circunstâncias mais desfavoráveis, a situação era, no entanto, totalmente diversa; a única indústria caseira que aqui trabalhava para o mercado mundial, a tecelagem de linho, era de tal modo oprimida com impostos e encargos feudais que não elevava o camponês tecelão acima do muito baixo nível do restante campesinato. Mas, de qualquer modo, o operário industrial rural tinha então uma certa segurança de existência.

Com a introdução da maquinaria, tudo isto se modificou. O preço passou a ser determinado pelo produto feito à máquina e, com este preço, desceu o salário do operário industrial caseiro. Mas o operário tinha de aceitá-lo ou procurar outro trabalho, e isso não lhe era possível sem se tornar proletário, isto é, sem renunciar à sua casinha, hortazinha e campozinho — próprios ou arrendados. E só em casos muito raros ele o queria. E assim a horticultura e agricultura dos antigos tecelãos manuais rurais se tornaram na causa em virtude da qual a luta do tear manual contra o tear mecânico se prolongou tanto por toda a parte e na Alemanha ainda não terminou. Nesta luta revelou-se pela primeira vez, nomeadamente em Inglaterra, que a mesma circunstância que anteriormente fundamentara um relativo bem-estar dos operários — a posse pelo operário dos seus meios de produção — se tinha agora convertido para eles num obstáculo e num infortúnio. Na indústria, o tear mecânico eliminou o seu tear manual, no cultivo da terra, a grande agricultura eliminou a sua pequena exploração. Porém, enquanto em ambos os sectores da produção o trabalho associado de muitos e o emprego da maquinaria e da ciência se tornavam regra social, a sua casinha, hortazinha, campozinho, e o seu tear prendiam-no ao método ultrapassado da produção individual e do trabalho manual. A posse de casa e horta tinha agora muito menos valor do que a plena liberdade de movimentos. Nenhum operário fabril teria trocado a sua situação pela do tecelão manual rural, que, lenta mas seguramente, ia morrendo à fome. A Alemanha apareceu tardiamente no mercado mundial; a nossa grande indústria data dos anos quarenta, recebeu o seu primeiro impulso com a Revolução de 1848 e só conseguiu desenvolver-se completamente quando as revoluções de 1866 e 1870[N261] lhe haviam afastado do caminho pelo menos os piores obstáculos políticos. Mas encontrou o mercado mundial em grande parte ocupado. A Inglaterra fornecia os artigos de consumo maciço e a França os artigos de luxo de bom gosto. A Alemanha não podia vencer uns no preço e outros na qualidade. Assim, não lhe restou senão, no imediato, e de acordo com a via da produção alemã de até então, inserir-se no mercado mundial com artigos que eram demasiado insignificantes para os ingleses e de demasiado baixa qualidade para os franceses. A apreciada prática alemã da intrujice que consiste em enviar primeiro boas amostras e depois má mercadoria foi, de resto, pouco depois punida com dureza no mercado mundial e entrou consideravelmente em declínio; por outro lado, a concorrência da sobreprodução empurrou gradualmente até mesmo os sólidos ingleses para o plano inclinado da perda de qualidade, favorecendo assim os alemães, que neste campo são inexcedíveis. E deste modo lá conseguimos finalmente possuir uma grande indústria e desempenhar um papel no mercado mundial. Mas a nossa grande indústria trabalha quase exclusivamente para o mercado interno (excepto a indústria do ferro, que produz muito para além das necessidades internas) e o grosso da nossa exportação compõe-se de uma enorme quantidade de pequenos artigos que são eles próprios fabricados em grande parte pela indústria caseira rural e para os quais a grande indústria fornece, no máximo, os necessários produtos semiacabados.

E aqui se revela em todo o esplendor a «bênção» da posse de casa e campo próprios para o operário moderno. Em lado nenhum, quase nem mesmo na indústria caseira irlandesa, se pagam salários tão infamemente baixos como na indústria caseira alemã. Aquilo que a família produz na sua própria hortazinha ou campozinho é o que a concorrência permite ao capitalista descontar do preço da força de trabalho; os operários têm precisamente de aceitar qualquer salário estipulado [Akkordlohn], porque de contrário não recebem absolutamente nada e não podem viver apenas do produto do seu cultivo da terra; e porque, por outro lado, são precisamente esse cultivo e propriedade da terra que os amarram ao lugar, que os impedem de ir procurar outra ocupação. E é nisto que reside a razão que mantém a Alemanha capaz de concorrência no mercado mundial em toda uma série de pequenos artigos. Todo o lucro do capital é extraído de um desconto do salário normal e toda a mais-valia pode ser oferecida ao comprador. É este o segredo da espantosa barateza da maioria dos artigos de exportação alemães.

É esta circunstância, mais do que qualquer outra, que mantém os salários e o nível de vida dos operários na Alemanha abaixo dos países da Europa ocidental, mesmo em outros ramos da indústria. O peso morto destes preços do trabalho tradicionalmente mantidos muito abaixo do valor da força de trabalho faz também descer os salários dos operários das cidades e mesmo das grandes cidades abaixo do valor da força de trabalho, e isto tanto mais quanto é certo que também nas cidades a indústria caseira mal remunerada tomou o lugar do antigo artesanato e também aí fez descer o nível salarial geral. Vemos aqui claramente que o que numa etapa histórica anterior era a base de um relativo bem-estar dos operários — a ligação entre cultivo da terra e indústria, a propriedade de uma casa e horta e campo, a segurança da habitação, se torna hoje, com a dominação da grande indústria, não só na mais terrível cadeia para o operário mas também no maior infortúnio para toda a classe operária, na base de uma descida sem precedentes do salário abaixo do seu nível normal, e isto não só para regiões e ramos de negócio isolados mas também para todo o território nacional. Não admira que a grande e a pequena burguesia, que vivem e enriquecem à custa destes descontos anormais do salário, se entusiasmem pela indústria rural, por os operários possuírem casa, e que vejam na introdução de novas indústrias caseiras o único remédio santo para todas as calamidades rurais. Este é um dos lados da coisa; mas ela tem também o seu reverso. A indústria caseira tornou-se a ampla base do comércio de exportação alemão e, desse modo, de toda a grande indústria. Assim, ela estende-se por vastas regiões da Alemanha e continua a expandir-se diariamente. A ruína do pequeno camponês, inevitável a partir do momento em que o seu trabalho industrial caseiro para consumo próprio foi aniquilado pelo baixo preço do produto das confecções e das máquinas e em que o seu gado, e portanto a sua produção de estrume, foi aniquilada pela destruição do regime comarca, da marca comum[N262] e da obrigatoriedade de rotação das culturas — essa ruína arrasta forçosamente os pequenos camponeses caídos nas mãos do usurário para a moderna indústria caseira. Tal como na Irlanda com a renda do proprietário fundiário, na Alemanha os juros das hipotecas do usurário são pagos não com as colheitas da terra mas apenas com o salário do camponês industrial. Com a extensão da indústria caseira, porém, as regiões rurais são arrastadas, umas atrás das outras, para o movimento industrial do presente. É este revolucionamento operado pela indústria caseira nos distritos rurais que na Alemanha estende a revolução industrial por um território muito mais vasto do que na Inglaterra e na França. É o estádio relativamente baixo da nossa indústria que torna a sua ampla extensão tanto mais necessária. Isto explica que o movimento operário revolucionário tenha encontrado na Alemanha, em oposição à Inglaterra e à França, um alargamento tão poderoso na maior parte do país, em vez de se limitar exclusivamente a centros urbanos. E isto, por sua vez, explica o progresso calmo, seguro, imparável, do movimento. É evidente que na Alemanha um levantamento vitorioso na capital e nas outras grandes cidades só se tornará possível quando também a maioria das pequenas cidades e uma grande parte dos distritos rurais estiverem maduros para a mudança. Com um desenvolvimento mais ou menos normal, nunca estaremos na situação de obtermos vitórias operárias como as de Paris em 1848 e 1871[N263] nem também, precisamente por isso, na de sofrermos derrotas da capital revolucionária pela província reaccionária, como Paris sofreu em ambos os casos. Na França, o movimento partiu sempre da capital; na Alemanha, dos distritos da grande indústria, da manufactura e da indústria caseira; só mais tarde a capital foi conquistada. Por isso, talvez no futuro o papel da iniciativa continue reservado aos franceses; mas o combate decisivo só pode ser travado na Alemanha.

Mas esta indústria caseira e manufactura rurais, que, com a sua extensão, se tornaram o ramo decisivo da produção na Alemanha e que, desse modo, revolucionam cada vez mais o campesinato alemão não são elas próprias mais do que o estádio preliminar de um ulterior revolucionamento. Conforme já Marx demonstrou (Capital, I, 3.a ed., pp. 484-495(3*)), também para elas, num dado estádio do desenvolvimento, soa a hora da decadência, devido à maquinaria e à empresa fabril. E essa hora parece estar próxima. Mas o aniquilamento da indústria caseira e da manufactura rurais pela maquinaria e a empresa fabril significa na Alemanha aniquilamento da existência de milhões de produtores rurais, expropriação de quase metade do pequeno campesinato alemão, transformação não só da indústria caseira em empresa fabril mas também da exploração camponesa em grande agricultura capitalista e da pequena propriedade fundiária em grandes domínios [Herrengüter] — revolução industrial e agrícola em benefício do capital e da grande propriedade fundiária à custa dos camponeses. Se couber à Alemanha passar também por essa transformação ainda sob as antigas condições sociais, então essa transformação constituirá incondicionalmente o ponto de viragem. Se até então a classe operária não tiver tomado a iniciativa em nenhum outro país, será incondicionalmente a Alemanha a começarão ataque, e os filhos dos camponeses do «glorioso exército» ajudarão corajosamente.

E agora a utopia burguesa e pequeno-burguesa de pretender dar a cada operário a propriedade de uma casinha e, desse modo, amarrá-lo ao seu capitalista de forma semifeudal assume uma figura totalmente diversa. Como sua realização aparecem: a transformação de todos os pequenos proprietários de casa rurais em operários industriais caseiros; o aniquilamento do antigo isolamento e, portanto, da nulidade política dos pequenos camponeses, que são arrastados para o «turbilhão social»; o alargamento da revolução industrial à planície e, desse modo, a transformação da classe mais estável, mais conservadora da população num viveiro revolucionário; e, como conclusão de tudo isto, a expropriação dos camponeses industriais caseiros pela maquinaria, que os empurra com violência para a insurreição.

Podemos de bom grado deixar aos filantropos burgueses-socialistas o gozo privado do seu ideal tanto tempo quanto eles, na sua função pública como capitalistas, continuarem a realizá-lo nesta maneira invertida para benefício e proveito da revolução social.

London, 10 de Janeiro de 1887.

Friedrich Engels

Publicado no jornal Der Sozialdemokrat, n.os 3 e 4, de 15 e 22 de Janeiro de 1887, e no livro: F. Engels, Zur Wohnungsfrage, Hottingen-Zúrich, 1887. Publicado segundo o texto do livro. Traduzido do alemão.

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Notas de rodapé:

(1*) Ver o presente tomo, p. 351. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(2*) Em francês no texto: por excelência. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(3*) Ver K. Marx/F. Engels, Werke, Dietz Verlag, Berlin 1974, Bd. 23, S. 494-504. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N55] Der Volksstaat (O Estado Popular): órgão central do Partido Operário Social-Democrata alemão (eisenachianos), publicado em Leipzig de 2 de Outubro de 1869 a 29 de Setembro de 1876. A direcção geral do jornal era assegurada por W. Liebknecht; August Bebel administrava a editora. Marx e Engels colaboraram no jornal, auxiliando constantemente a sua redacção. Até 1869 o jornal publicou-se com o nome de Demokratisches Wochenblatt (Semanário Democrático). (Ver nota 95.) (retornar ao texto)

[N75] Guerra dos Trinta Anos (1618-1648): guerra europeia geral provocada pela luta entre protestantes e católicos. A Alemanha foi o principal teatro desta guerra e foi objecto da pilhagem e das pretensões territoriais dos participantes na guerra. (retornar ao texto)

[N95] Demokratisches Wochenblatt (Semanário Democrático): jornal operário alemão, editado de Janeiro de 1868 a Setembro de 1869 em Leipzig sob a direcção de W. Liebknecht. O jornal desempenhou um importante papel na criação do Partido Operário Social-Democrata alemão. No congresso de Eisenach, em 1869, foi declarado órgão central do Partido Operário Social-Democrata e mudou de nome para Volksstaat. Marx e Engels colaboraram no jornal. (retornar ao texto)

[N125] A lei de excepção contra os socialistas foi adoptada na Alemanha em 21 de Outubro de 1878. De acordo com a lei foram proibidas todas as organizações do Partido Social-Democrata, as organizações operárias de massas e a imprensa operária, a literatura socialista foi confiscada e os sociais-democratas foram perseguidos. Sob a pressão do movimento operário de massas a lei foi revogada a 1 de Outubro de 1890. (retornar ao texto)

[N131] Trata-se do tratado de paz preliminar entre a França e a Alemanha, subscrito em Versalhes em 26 de Fevereiro de 1871 por Thiers e J. Favre, por um lado, e por Bismarck, por outro lado. De acordo com as condições deste tratado, a França cedia à Alemanha a Alsácia e a Lorena Oriental e pagava uma indemnização de cinco mil milhões de francos. O tratado de paz definitivo foi assinado em Frankfurt am Main a 10 de Maio de 1871. (retornar ao texto)

[N255] Seis artigos de Mülberger sob o título «Die Wohnungsfrage» («A questão da habitação») foram publicados sem assinatura no jornal Volksstaat de 3, 7, 10, 14 e 21 de Fevereiro e 6 de Março de 1872; mais tarde estes artigos foram publicados em forma de brochura: Die Wohnungsfrage. Eine sociale Skizze, Separat-Abdruck aus dem Volksstaat, Leipzig, 1872 (A Questão da Habitação. Esboço Social, separata do Volksstaat, Leipzig, 1872). (retornar ao texto)

[N256] E. Sax, Die Wohnungszustände der arbeitenden Classen und ihre Reform, Wien 1869 (As Condições de Habitação das Classes Trabalhadoras e a Sua Reforma, Viena, 1869). (retornar ao texto)

[N257] A resposta de Mülberger aos artigos de Engels foi publicada no jornal Volksstaat de 26 de Outubro de 1872 com o título «Zur Wohnungsfrage (Antwort an Friedrich Engels von A. Mülberger)» [«Para a questão da habitação (resposta de A. Mülberger a Friedrich Engels)»]. (retornar ao texto)

[N258] A Nova Federação Madrilena foi formada em Julho de 1872 por membros da Internacional e por membros da redacção do jornal La Emancipación que tinham sido expulsos da Federação Madrilena pela maioria anarquista pelo facto de o jornal ter desmascarado a actividade em Espanha da secreta Aliança da Democracia Socialista. A Nova Federação Madrilena travou um combate decidido contra a propagação da influência anarquista em Espanha, fez propaganda das ideias do socialismo científico e lutou pela criação de um partido proletário independente em Espanha. Engels colaborou no seu órgão, o jornal La Emancipación. Alguns membros da Nova Federação Madrilena desempenharam um grande papel na criação em 1879 do Partido Operário Socialista de Espanha. (retornar ao texto)

[N259] Socialismo de cátedra: uma das tendências da ideologia burguesa nos anos 70-90 do século XIX, cujos representantes — sobretudo professores das universidades alemãs — defendiam das cátedras universitárias o reformismo burguês, fazendo-o passar por socialismo. Eles (A. Wagner, G. Schmoller, L. Brentano, W. Sombart e outros) afirmavam que o Estado é uma instituição supraclassista, capaz de conciliar as classes inimigas e de introduzir gradualmente o «socialismo», sem atingir os interesses dos capitalistas. O seu programa reduzia-se à organização de seguros para os operários contra a doença e os acidentes e à introdução de algumas medidas no domínio da legislação laborai. Os socialistas de cátedra consideravam que sindicatos bem organizados tornam desnecessários a luta política e o partido político da classe operária. O socialismo de cátedra foi uma das fontes ideológicas do revisionismo. (retornar ao texto)

[N260] Trata-se da fome de 1882, que atingiu de modo particularmente duro os camponeses da região de Eifel (Província Renana da Prússia). (retornar ao texto)

[N261] Por «revoluções» subentende-se a guerra austro-prussiana de 1866 e a guerra franco-prussiana de 1870-1871, que completaram a unificação da Alemanha «por cima» sob a supremacia da Prússia. (retornar ao texto)

[N262] Marca: comunidade alemã antiga. (retornar ao texto)

[N263] Trata-se da insurreição do proletariado parisiense de 23-26 de Junho de 1848 e da Comuna de Paris de 1871. (retornar ao texto)

Inclusão 05/02/2009
Alteração 14/03/2009