Carta ao Comitê Executivo da IV Internacional

Natalia Sedova-Trotski

9 de Maio de 1951


Fonte: "Carta de Natalia Sedova-Trotski al Comité Ejecutivo de la IV Internacional" documento 3.54 no volume: Documentación histórica del trotskismo español (1936-1948), Agustín Guillamón, Ediciones de la Torre, Madrid, 1996, pp. 417-418(1*)..
Tradução para o português da Galiza: José André Lôpez Gonçâlez. Março, 2008
HTML de: Fernando A. S. Araújo.
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Camaradas:

Sabem muito bem que não estou de acordo com vocês durante os últimos cinco ou seis anos, desde o final da guerra e até mesmo antes. A posição assumida por vocês sobre os importantes acontecimentos dos últimos tempos, me demonstra que, em vez de corrigirem os seus anteriores erros, persistem neles e os aprofundam. No caminho que assumiram, chegou-se ao ponto em que já não me é possível permanecer calada ou a me limitar a protestos privados. Agora devo exprimir as minhas opiniões publicamente.

O passo que me sinto forçada a dar, é-me difícil e doloroso, e só posso deplorar sinceramente por isso. Mas não há outro modo. Depois de muitas meditações e dúvidas sobre um problema que me afligiu profundamente, dei na conclusão de que não há outra maneira senão dizer-lhes francamente que as nossas discordâncias tornam impossível a minha permanência nas suas fileiras.

As razões para esta minha postura final são conhecidas pola maioria de vocês. Eu brevemente as repito unicamente para aqueles que não estão familiarizados com as mesmas, referindo apenas as nossas diferenças fundamentais e não as que estimo sobre questões de política quotidiana que estão relacionadas a elas ou que delas derivam.

Obcecados por velhas e ultrapassadas fórmulas, continuam considerando o estado estalinista como um Estado obreiro. Eu não posso e não acompanharei vocês nisto. Depois do começo da luita contra a burocracia estalinista usurpadora, L. D. Trotski repetia praticamente todos os anos, que o regime se deslocava para a direita, sob as condições de uma revolução mundial delongada e a conquista de todas as posições políticas pola burocracia na Rússia. Repetidas vezes sublinhou como a consolidação do estalinismo na Rússia conduzia a uma deterioração das posições econômicas, políticas e sociais da classe operária, e ao triunfo de uma aristocracia tirânica e privilegiada. Se esta tendência continuar, disse, a revolução esgotar-se-á e a restauração do capitalismo será atingida. Infelizmente, isso foi o que aconteceu, mesmo se em formas novas e inesperadas. Não há nenhum país no mundo onde as autênticas idéias e os autênticos defensores do socialismo sejam perseguidos tão barbaramente [como na Rússia]. Deveria ficar claro para todo o mundo que a revolução foi completamente arruinada polo estalinismo. Todavia, vocês continuam dizendo ainda que sob este regime inominável, a Rússia é um Estado operário ou com algo de socialismo. Acho isto como um ataque ao socialismo. O estalinismo e o Estado estalinista não tem parecido de nada com um Estado operário e com o socialismo. Eles são os mais perigosos inimigos do socialismo e da classe obreira.

Agora tomam de conta vocês que os Estados de Europa Oriental, sobre os quais o estalinismo instituiu o seu domínio durante e após a guerra, são igualmente Estados operários. Isto é equivalente a dizer que o estalinismo cumpriu um papel socialista revolucionário. Eu não posso e não quero segui-los nisto.

Após a guerra e antes mesmo do seu término, houve um movimento revolucionário das massas nestes países. Mas não foram estas massas que conquistaram o poder e não foram Estados operários que foram fundados polas suas luitas. Foi a contra-revolução estalinista que conquistou o poder, reduzindo estes países a uma condição de escravos do Kremlin, esganando as massas trabalhadoras, as suas luitas e as suas aspirações revolucionárias. Ao considerar que a burocracia estalinista estabeleceu Estados obreiros nesses países, atribuem-lhe um papel progressivo e até mesmo revolucionário. Ao propagarem esta monstruosa falsidade à vanguarda dos trabalhadores vocês negam à IV Internacional toda a razão básica para a sua existência, enquanto um partido mundial da revolução socialista. No passado, sempre estimamos o estalinismo como uma força contra-revolucionária no sentido pleno do termo. Vocês já não o consideram assim. Mas eu continuo apreciando-o como tal.

Em 1932 e 1933, para desculpar a capitulação desavergonhada ao hitlerismo, os estalinistas manifestaram que importaria pouco se os fascistas chegassem ao poder, porque o socialismo haveria vir depois e vira através do domínio do fascismo. Só desumanos brutos sem pingo de pensamento ou espírito socialistas poderiam arguir deste modo. Apesar de prosseguerem defendendo os objectivos revolucionários, vocês sustentam agora que a reacção estalinista despótica que triunfou na Europa Oriental é um dos caminhos polos quais o socialismo eventualmente virá. Esta visão marca uma fenda irremediável com as convicções mais profundas sempre assumidas polo nosso movimento, convicções que continuo a compartilhar.

É impossível harmonizar com vocês na questão do regime de Tito na Iugoslávia. Toda a simpatia e apoio de revolucionários, e até mesmo de todos os democratas, deveria voltar-se para o povo iugoslavo na sua resistência determinada diante dos esforços de Moscovo para reduzir o povo e o país à escravatura. Deveríamos tirar proveito de cada concessão que o regime iugoslavo vê-se agora obrigado a fazer ao povo. Mas toda a sua imprensa está consagrada agora a uma idealização indesculpável da burocracia titoísta, para a qual não existe nenhuma base nas tradições e princípios de nosso movimento.

Essa burocracia é só uma réplica, sob uma nova forma, da velha burocracia estalinista. Ela foi treinada nas idéias, políticas e na moral da GPU. O seu regime, em nenhum aspecto fundamental, não difere do regime de Estaline. É absurdo acreditar ou ensinar que a direcção revolucionária do povo iugoslavo irromperá desta burocracia ou de qualquer outra forma que não seja no curso da contenda contra a burocracia.

Trotski, em resposta a uma pergunta desleal dirigida a ele por Estaline em 1927 no Burô Político, expôs a sua visão da seguinte maneira: Pola pátria socialista, sim! Polo regime estalinista, não! Isso foi em 1927! Agora, vinte e três anos depois, Estaline não deixou nada da pátria socialista. Foi substituída pola escravização e degradação do povo pola autocracia estalinista. Este é o estado que vocês propõem defender na guerra, que já estão mantendo vocês na Coréia. O mais intolerável de tudo é a posição que têm perfilhado sobre a guerra. A terceira guerra mundial que ameaça a humanidade confronta o movimento revolucionário com os problemas mais difíceis, as situações mais complexas, as decisões mais sérias, onde a nossa posição só pode ser tomada após discussões feitas da maneira mais séria e livre possível. Mas diante de todos os acontecimentos dos últimos anos, continuam hipotecando todo o movimento na defesa do estado estalinista. Agora vocês estão apoiando até os exércitos do estalinismo na guerra que está sendo aturada polo povo coreano. Eu não posso e não quero segui-los nisto.

Sei muito bem com quanta freqüência repetem que estão a censurar o estalinismo e que o estão combatendo. Mas o facto é que a sua crítica e a sua luita perderam o seu valor e não podem trazer resultado nenhum, porque estão determinados à posição de defesa do estado estalinista e subordinados ela. Quem quer que defenda esse regime de bárbara opressão renúncia, independente das razões, os princípios do socialismo e do internacionalismo.

Na mensagem que me foi enviada pola recente convenção do SWP(2*), escreveu-se que as idéias de Trotski continuam sendo o seu roteiro. Devo dizer-lhes que li estas palavras com amargura. Como podem reparar polo que acima escrevi, não vejo as idéias dele na sua política. Sou confiante nessas idéias. Permaneço persuadida de que a única saída para a presente situação é a revolução socialista, a auto-emancipação do proletariado mundial.

México, DF 9 de maio de 1951


Notas:

(1*) Na fonte citada aparecem apenas trechos deste documento. Agradeço ao camarada Jaime Sinde Masa a procura e cessão de uma fotocópia do texto íntegro em espanhol. (retornar ao texto)

(2*) Socialist Workers Party. (retornar ao texto)

Inclusão 15/06/2008