A guerra

J. V. Stálin

16 de março de 1917


Primeira publicação:“Pravda” (“A Verdade”), n.° 10. 16 de março de 1917. Assinado: K. Stálin.
Fonte: J. V. Stálin, Obras. Editorial Vitória, Rio de Janeiro, 1953, págs. 14-18.
Tradução: Editorial Vitória, da edição italiana G. V. Stálin - "Opere Complete", vol. 3 - Edizione Rinascita, Roma, 1951.
HTML: Fernando Araújo.
Direitos de Reprodução: licenciado sob uma Licença Creative Commons.


capa

Há dias, o general Kornílov informou ao Soviet Supremo dos Deputados Operários e Soldados de Petrogrado que os alemães estão preparando uma ofensiva contra a Rússia.

Rodzianko e Gutchkov em tal circunstância lançaram uma proclamação ao exército e à população a fim de que se preparem para combater a fundo.

E a imprensa burguesa lançou um grito de alarma: “A liberdade está em perigo, viva a guerra!”. E além disso, uma parte da democracia revolucionária russa também se associou a esse grito de alarma...

A se dar ouvidos aos alarmistas, poder-se-ia pensar que na Rússia foram criadas condições que recordam as de 1792 na França, quando os monarcas reacionários da Europa Central e Oriental firmaram uma aliança contra a França republicana para ali restaurarem o velho regime.

E se a atual situação internacional da Rússia correspondesse efetivamente à situação da França de 1792, se nos encontrássemos em face de uma particular coalizão de monarcas contrarrevolucionários com o objetivo expresso de restaurar na Rússia o velho regime, não há dúvida de que a social-democracia, tal como o fizeram os revolucionários da França de então, se ergueria como um só homem em defesa da liberdade. Porque é óbvio que a liberdade conquistada com sangue deve ser defendida, de armas na mão, contra todos os golpes contrarrevolucionários, venham de onde vierem.

Mas será essa a situação real?

A guerra de 1792 foi uma guerra dinástica movida contra a França republicana pelos monarcas feudais absolutos, alarmados com o incêndio revolucionário irrompido na França. A guerra tinha o objetivo de apagar esse incêndio, de restaurar na França o velho regime, garantindo assim aos monarcas aterrorizados que o contágio revolucionário não se estenderia aos seus estados. Justamente por isso os revolucionários franceses se bateram tão heroicamente contra os exércitos monárquicos.

A guerra atual é completamente diversa. Esta é uma guerra imperialista e o seu objetivo fundamental é a conquista (anexação), por parte dos Estados capitalistas desenvolvidos, de territórios estrangeiros, sobretudo agrícolas. Estes últimos precisam de novos mercados de escoamento, de cômodas vias de comunicação com esses mercados, de matérias-primas, de riquezas minerais, e procuram assenhorear-se de todas essas coisas onde quer que se encontrem, independentemente da ordem interna do país que é conquistado.

Eis por que a guerra atual não leva e não pode levar de um modo geral, a uma inevitável intromissão nos negócios internos do país conquistado, no sentido de uma restauração nesse país do velho regime.

E exatamente por isso, dada a atual situação da Rússia, não há nenhuma razão para tocar os sinos de rebate e para que se grite aos quatro ventos: “A liberdade está em perigo, viva a guerra!”

A presente situação da Rússia recorda, antes, a França de 1914, a França do período inicial da guerra, quando a guerra entre a Alemanha e a França parecia inevitável.

Como agora na Rússia através da imprensa burguesa, então na França, no campo burguês, lançou-se o brado de alarma: “A república está em perigo, é preciso bater os alemães!”

E como então na França também muitos socialistas (Guesde, Sembat e outros) deixaram-se tomar desse alarmismo, assim hoje na Rússia não poucos socialistas seguiram as pegadas dos pregoeiros burgueses da “defesa revolucionária.”

O curso sucessivo dos acontecimentos na França demonstrou que se tratava de um falso alarma e que os clamores sobre a liberdade e a república escondiam a real avidez dos imperialistas franceses que aspiravam à conquista da Alsácia-Lorena e da Westfália.

Estamos profundamente convencidos de que o desenrolar dos acontecimentos na Rússia esclarecerá toda a falsidade dos desmedidos clamores sobre a “liberdade em perigo”: a fumaça “patriótica” dissipar-se-á e todos verão com seus próprios olhos as verdadeiras aspirações dos imperialistas russos aos... Dardanelos, à Pérsia...

A conduta dos Guesde, dos Sembat e dos outros foi merecidamente julgada, no lugar próprio, pelas claras resoluções dos congressos socialistas de Zimmerwald e de Kiental (1915-1916)(1) contra a guerra.

Os acontecimentos seguintes confirmaram quanto haviam sido justas e ricas de ensinamentos as posições de Zimmerwald e Kiental.

Seria doloroso que a democracia revolucionária russa, que soube derrubar o odiado regime tzarista, cedesse diante dos falsos alarmas da burguesia imperialista, repetindo os erros dos Guesde, dos Sembat...

Qual deve ser nossa atitude, como partido, em face da guerra atual?

Qual o caminho que pode conduzir praticamente à mais rápida cessação da guerra?

Antes de mais nada, é fora de dúvida que a pura e simples palavra de ordem “abaixo a guerra” é absolutamente inadequada como meio prático, pois ela, quando não sai dos limites da propaganda da ideia da paz em geral, não exerce nem pode exercer nenhuma influência

concreta sobre as tropas na frente, para obter a cessação da guerra.

Prossigamos. Não se pode deixar de saudar o apelo que o Soviet dos Deputados Operários e Soldados de Petrogrado lançou ontem aos povos do mundo todo para que obriguem seus próprios governos a cessar o massacre. Se o apelo chegar às amplas massas fará sem dúvida que centenas de milhares de operários retornem à esquecida palavra de ordem: “Proletários de todos os países, uni-vos!” Não obstante, não se pode deixar de observar que esse apelo não produz diretamente o efeito desejado. De fato, ainda que seja amplamente difundido entre os povos dos Estados beligerantes, dificilmente se pode supor que esses povos possam responder ao apelo se ainda não vêem claramente o caráter de banditismo da guerra atual e os seus fins de conquista. Sem falar do fato de que, na medida em que o apelo condiciona a “cessação do espantoso massacre” à prévia derrubada do “regime semiautocrático” na Alemanha, isso relega de fato a “cessação do espantoso massacre” a um tempo indeterminado e conduz assim à posição de “guerra até ao fim”, uma vez que não se sabe exatamente quando o povo alemão conseguirá derrubar o “regime semiautocrático” e se de um modo geral o conseguirá num futuro próximo...

Qual a saída?

A saída é a de exercer pressão sobre o governo provisório exigindo que manifeste seu consentimento na abertura imediata de negociações de paz.

Os operários, os soldados e os camponeses devem organizar comícios e demonstrações, devem pedir ao governo provisório que leve adiante, aberta e publicamente, tentativas no sentido de induzir todos os Estados beligerantes a iniciarem sem demora negociações de paz na base do reconhecimento do direito das nações à autodeterminação.

Só nesse caso a palavra de ordem “abaixo a guerra” não corre o risco de se transformar em pacifismo vazio e destituído de significado, só nesse caso essa palavra de ordem pode desembocar numa potente campanha política que desmascare os imperialistas e revele a verdadeira essência da guerra atual.

De fato, ainda que se admita que uma das partes se recuse a iniciar negociações de paz na base do princípio enunciado, essa mesma recusa, isto é, a demonstração expressa da vontade de não abandonar as veleidades agressivas, servirá objetivamente como meio de liquidar de maneira mais rápida o “espantoso massacre”, porque em tal caso os povos com os seus próprios olhos verão a natureza agressiva da guerra e as mãos tintas de sangue dos grupos imperialistas, a cujos interesses ávidos sacrificam as vidas dos seus próprios filhos.

Desmascarar os imperialistas, revelar às massas a verdadeira essência desta guerra, significa justamente declarar de fato guerra à guerra, tornar impossível a continuação da guerra atual.


Notas de fim de tomo:

(1) De 5 a 8 de setembro de 1915 realizou-se em Zimmerwald uma conferência da qual participaram socialistas de várias nacionalidades, que permaneceram fiéis ao internacionalismo. No manifesto da Conferência denunciou-se o caráter imperialista da guerra, desaprovou-se a conduta dos “socialistas” que haviam votado os créditos de guerra e faziam parte dos governos burgueses, foram convocados os operários da Europa no sentido de desenvolverem a luta contra a guerra, por uma paz sem anexações e sem indenizações. A segunda conferência dos internacionalistas realizou-se de 24 a 30 de abril de 1916 em Kiental. O manifesto e as resoluções ali aprovadas constituíram um ulterior passo adiante na evolução do movimento revolucionário internacional contra a guerra; todavia, nem a conferência de Kienthal nem a de Zimmerwald adotaram as palavras de ordem bolcheviques: transformação da guerra imperialista em guerra civil, derrota militar dos próprios governos imperialistas, organização da III Internacional. (retornar ao texto)

Inclusão: 18/02/2024