A Conferência do palácio Mariinski

J. V. Stálin

25 de abril de 1917


Primeira publicação:Pravda” (“A Verdade”), n.° 40. 25 de abril de 1917. Assinado: K. Stálin.
Fonte: J. V. Stálin, Obras. Editorial Vitória, Rio de Janeiro, 1953, págs. 50-53.
Tradução: Editorial Vitória, da edição italiana G. V. Stálin - "Opere Complete", vol. 3 - Edizione Rinascita, Roma, 1951.
HTML: Fernando Araújo.
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Na imprensa burguesa já apareceu um comunicado relativo à Conferência de que participaram o Comitê Executivo do Soviet dos Deputados Operários e Soldados e o governo provisório. De um modo geral, esse comunicado é... inexato; em alguns pontos deforma abertamente os fatos, induzindo em erro o leitor. Nem falemos sequer da maneira característica, própria da imprensa burguesa, pela qual são ilustrados os fatos. É necessário reconstruir por isso o quadro real da Conferência.

O objetivo da Conferência era esclarecer, em seguida à nota do ministro Miliukov,(1) que havia aguçado o conflito, as relações recíprocas entre governo provisório e Comitê Executivo.

A Conferência foi inaugurada pelo primeiro ministro Lvov. Seu discurso de abertura reduziu-se às seguintes teses. O país até há algum tempo tinha confiança no governo provisório e a situação era satisfatória. Mas agora a confiança começou a faltar e até apareceu uma oposição, que se fez sentir com particular intensidade nas duas últimas semanas, quando os círculos socialistas, que todos conhecem bem, abriram uma campanha de imprensa contra o governo provisório. É impossível ir para a frente assim. É necessário um apoio decidido por parte do Soviet dos Deputados Operários e Soldados, senão pediremos demissão.

Seguem-se os “informes” (sobre a situação militar e sobre a agrícola, sobre as comunicações, as finanças e os negócios estrangeiros) dos ministros, e as intervenções mais precisas são feitas por Gutchkov, Chingariov e Miliukov. Os discursos dos outros ministros não fazem mais que repetir as conclusões dos primeiros.

A essência do discurso do ministro Gutchkov é a justificação da conhecida tese imperialista a respeito da nossa revolução, segundo a qual a revolução deve ser considerada na Rússia como um meio para levar a “guerra até ao fim”. Eu estava convencido — disse Gutchkov — de que na Rússia a revolução era necessária para evitar a derrota. Desejava que a revolução constituísse um fator novo de vitória e esperava que o teria constituído. Defensismo na acepção ampla da palavra, defensismo não só para o presente, como também para o futuro, eis a nossa meta. Mas nas últimas semanas houve várias pioras... “A pátria está em perigo”... A causa principal é a “torrente de ideias pacifistas” pregadas pelos conhecidos círculos socialistas. O ministro faz uma transparente alusão à necessidade de se suprimir essa propaganda e restabelecer a disciplina e declara que é necessário para tal objetivo o auxílio do Comitê Executivo ...

O ministro Chingariov traça um quadro da crise alimentar na Rússia... A questão fundamental não é a nota e a política exterior, mas o pão: se não resolvermos a questão do pão, não poderemos resolver nenhuma outra questão. O aguçamento da crise dos abastecimentos é devida em boa parte às condições do tempo, que tornam impraticáveis as estradas, e a outros fenômenos transitórios. Mas para Chingariov a causa principal é o “fato desagradável” de que os camponeses “começaram a ocupar-se da questão da terra”, cultivam por iniciativa própria as terras dos latifundiários, impedem os prisioneiros de guerra de trabalhar nas propriedades dos latifundiários e em geral nutrem “ilusões” agrárias. Esse movimento de camponeses, prejudicial segundo Chingariov, “pega fogo” por causa da agitação que os “leninistas” promovem em prol do confisco da terra, por causa do “cego fanatismo partidário” destes últimos. “É preciso pôr termo à agitação prejudicial que parte do Palácio Kchesinski,(2) desse “ninho de víboras”... Das duas uma: ou se tem confiança no atual governo provisório, e neste caso é preciso pôr termo aos “excessos” dos camponeses; ou então que se recorra a qualquer outro poder.

Miliukov: A nota não representa minha opinião pessoal, mas a de todo o governo provisório. A questão da política exterior consiste em ver se estamos dispostos a cumprir com as nossas obrigações em relação aos aliados. Nós estamos ligados aos aliados... Em geral avaliam-nos como uma força, que pode servir ao menos para conseguir determinados fins. Basta mostrarmo-nos fracos e as relações piorarão... Portanto, rejeitar a anexação é um ato prenhe de perigos... Temos necessidade da vossa confiança, dai-no-la e então haverá entusiasmo no exército, então passaremos à ofensiva no interesse da unidade da frente, então faremos pressão sobre os alemães e os desviaremos dos franceses e dos ingleses. Isto exigem nossas obrigações para com os aliados. Vede — concluiu Miliukov — que nesta situação, uma vez que não desejamos que a confiança dos aliados em relação a nós diminua, a nota não podia ser diferente do que é.

Os longos discursos dos ministros reduziam-se assim a algumas concisas tomadas de posição: o país atravessa uma grave crise, a causa dessa crise é o movimento revolucionário, a saída da crise é reprimir a revolução e continuar a guerra.

Concluía-se daí, portanto, que para salvar o país era indispensável:

  1. — reprimir os soldados (Gutchkov),
  2. — reprimir os camponeses (Chingariov),
  3. — reprimir os operários revolucionários (todos os ministros) que desmascaram o governo provisório.

Ajudai-nos nesta difícil empresa, ajudai-nos a fazer a guerra ofensiva (Miliukov) e então tudo irá bem. Do contrário, pediremos demissão.

Assim falaram os ministros.

É extremamente característico que esses discursos arqui-imperialistas e contrarrevolucionários pronunciados pelos ministros não encontraram resistência por parte de Tsereteli, representante da maioria do Comitê Executivo. Amedrontado pela atitude dura assumida pelos ministros ao formularem a questão, perdendo a cabeça diante da perspectiva das demissões dos ministros, Tsereteli no seu discurso suplicou-lhes que fizessem a única concessão que ainda era possível, publicando um “esclarecimento”(3) da nota no espírito por ele desejado, nem que fosse para “uso interno”. “A democracia — disse ele — apoiará com todas as suas energias o governo provisório”, com a condição de que este faça uma concessão dessa natureza, que seria na realidade puramente verbal.

Desejo de dissimular o conflito existente entre governo provisório e Comitê Executivo, disposição às concessões só para salvar o acordo: essa é a ideia dominante nos discursos de Tsereteli.

Kámenev falou num espírito diametralmente oposto. Se o país está à beira da ruína, se atravessa uma crise econômica, de aprovisionamentos, etc., a saída dessa situação não é a continuação da guerra, que só pode aguçar a crise e destruir os frutos da revolução, mas a liquidação mais rápida possível da guerra. O governo provisório atual tem toda a aparência de não ser capaz de assumir a tarefa de liquidar a guerra, visto como tende à “guerra até ao fim”. Por isso, a saída é a passagem do poder para as mãos de uma outra classe, capaz de fazer o país sair do beco no qual foi metido...

Após o discurso de Kámenev, dos lugares dos ministros gritou-se: “Nesse caso tomai o poder.”


Notas de fim de tomo:

(1) Na nota enviada a 18 de abril de 1917 aos governos aliados, Miliukov, ministro dos negócios exteriores do governo provisório e chefe dos cadetes, assegurava que o governo provisório permanecia fiel aos tratados concluídos pelo governo tzarista e estava pronto a continuar a guerra imperialista. Essa nota suscitou vivíssima indignação entre os operários e os soldados de Petrogrado. (retornar ao texto)

(2) Durante a revolução de fevereiro o palácio da favorita do tzar, Kchesínskaia, foi ocupado pelos soldados revolucionários. Ali estabeleceram suas sedes o Comitê Central e o Comitê de Petrogrado dos bolcheviques, a organização militar junto ao C. C. do P.O.S.D.R. (b), o Círculo dos Soldados e outras organizações de operários e soldados. (retornar ao texto)

(3) Após a Conferência de 22 de Abril de 1917, realizada no Palácio Mariinski, o governo provisório publicou um esclarecimento” à nota de Miliukov, na qual explicava que pela palavra de ordem “vitória decisiva sobre o inimigo” entendia “o advento de uma paz estável baseada no direito de autodeterminação dos povos.” O Comitê Executivo do Soviet dos Deputados Operários e Soldados de Petrogrado considerou satisfatórias as retificações e os “esclarecimentos” do governo e “encerrado o incidente”. (retornar ao texto)

Inclusão: 18/02/2024