Os estrangeiros e o complô de Kornílov

J. V. Stálin

12 de setembro de 1917


Primeira publicação: "Rabótchi Put” (“O Caminho Operário”), n.° 8. 12 de setembro de 1917. Assinado: K.
Fonte: J. V. Stálin, Obras. Editorial Vitória, Rio de Janeiro, 1953, págs. 283-285.
Tradução: Editorial Vitória, da edição italiana G. V. Stálin - "Opere Complete", vol. 3 - Edizione Rinascita, Roma, 1951.
HTML: Fernando Araújo.
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Observa-se nos últimos tempos que, em seguida ao complô de Kornílov, os estrangeiros deixam em massa a Rússia. Os mercenários da imprensa burguesa tentam ligar esse fenômeno aos “boatos sobre a paz” ou então à “vitória do bolchevismo” em Petrogrado e em Moscou. Mas esse é um expediente mesquinho ao qual os reacionários recorreram com grande barulho para ocultar ao leitor a verdadeira causa desse êxodo. A verdadeira causa é a participação incondicionada de certos estrangeiros no complô de Kornílov, pelo que esses bravos senhores procuram agora prudentemente evitar o ajuste de contas.

É sabido que os tripulantes dos carros blindados que acompanhavam em Petrogrado a “divisão selvagem” eram estrangeiros.

É sabido que alguns representantes das embaixadas junto ao quartel-general não apenas tinham conhecimento do complô de Kornílov, como ajudavam Kornílov a prepará-lo.

É sabido que o aventureiro Áladin, correspondente do Times e agente da camarilha imperialista de Londres, que veio para a Conferência de Moscou diretamente da Inglaterra e depois “prosseguiu” para o quartel-general, foi a alma e elemento de prol na revolta de Kornílov.

Sabe-se que certo conhecido representante da mais conhecida embaixada na Rússia, desde o mês de junho estava decididamente implicado nas intrigas contrarrevolucionárias dos Kalédin e companhia e consolidava suas relações com estes mediante subsídios respeitáveis tirados das caixas de seus patrões.

É sabido que o Times e o Temps(1) não escondiam seu descontentamento com a derrota da revolta de Kornílov, injuriando e denegrindo os comitês revolucionários e os soviets.

É sabido que os comissários do governo provisório na frente foram obrigados a admoestar formalmente alguns estrangeiros que se comportavam na Rússia como europeus que se achassem na África Central.

É sabido que justamente por causa dessas “medidas” começou o êxodo em massa dos estrangeiros, pelo que as autoridades russas, desejando não deixar escapar de suas mãos “testemunhas” preciosas, foram obrigadas a tomar providências contra esse êxodo e Buchanan (o próprio Buchanan!), temendo evidentemente revelações, tomou por sua vez “providências” propondo aos membros da colônia britânica que partam da Rússia. Agora Buchanan “desmente categoricamente” esses “boatos”, segundo os quais o embaixador da Grã-Bretanha teria proposto a todos os membros da colônia britânica que partissem da Rússia (vide Riétch). Mas, em primeiro lugar, esse estranho “desmentido” não faz senão confirmar os “boatos”. Em segundo lugar, de que servem agora os falsos “desmentidos”, visto como alguns estrangeiros (não “todos”, mas alguns!) já partiram, fizeram-se ao largo?

E tudo isso, repetimos, é sabido e mais que sabido.

Gritam-no até as “mudas pedras”.

E se, após tudo isso, certos “círculos do governo” e particularmente a imprensa burguesa esforçam-se por abafar a questão, jogando a “culpa” nas costas dos bolcheviques, isso é sinal seguro de que esses “círculos” e essa imprensa compartilhavam inteiramente “em seu coração” dos planos contrarrevolucionários de “certos estrangeiros”.

Escutai o jornal Dién, órgão do “pensamento socialista”.

“Por ocasião do êxodo em massa da Rússia por parte dos estrangeiros, franceses e ingleses, nos círculos do governo provisório nota-se pesar: não é em absoluto surpreendente que, na situação instável em que nos encontramos atualmente, os estrangeiros prefiram evitar ter aborrecimentos. Diz-se, embora não sem fundamento, que, no caso em que triunfassem completamente os bolcheviques, os representantes das potências estrangeiras prefeririam abandonar a Rússia” (“Dién”, 10 de setembro).

Assim escreve o órgão dos filisteus apavorados com o fantasma do bolchevismo.

Assim “notam” “com pesar” até certos “círculos” do governo provisório que ninguém conhece.

Nenhuma dúvida é possível: os reacionários de todos os países unem-se para organizar um complô contra a revolução russa; os escrevinhadores dos jornais dos bancos procuram esconder esse “trabalho” fazendo barulho com afirmações mentirosas sobre o “perigo bolchevique”; mas os “círculos” do governo que ninguém conhece, executando a vontade dos imperialistas anglo-franceses, apontam farisaicamente os bolcheviques, enquanto cobrem canhestramente a fuga dos criminosos com falsas declarações sobre a “situação instável” da Rússia.

Eis a situação...


Notas de fim de tomo:

(1) Le Temps, jornal burguês, publicado em Paris de 1829 a 1942, com uma interrupção de 1842 a 1861. Colaboracionista durante a última guerra, foi suprimido e substituído por Le Monde. (retornar ao texto)

Inclusão: 18/02/2024