Forjam-se as cadeias

J. V. Stálin

24 de setembro de 1917


Primeira publicação: “Rabótchi Put” (“O Caminho Operário”); n.° 19. 24 de setembro de 1917. Editorial.
Fonte: J. V. Stálin, Obras. Editorial Vitória, Rio de Janeiro, 1953, págs. 301-304.
Tradução: Editorial Vitória, da edição italiana G. V. Stálin - "Opere Complete", vol. 3 - Edizione Rinascita, Roma, 1951.
HTML: Fernando Araújo.
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O mecanismo da conciliação pôs-se em movimento. O Palácio de Inverno, essa casa de encontros políticos, está cheia de hóspedes; não falta ninguém: os sequazes moscovitas de Kornílov e os sequazes petrogradenses de Sávinkov, o “ministro” kornilovista Nabókov e o herói do desarmamento Tsereteli, o inimigo jurado dos soviets Kíchkin e o famoso promotor de “lockoutsKonoválov, os representantes do partido dos desertores políticos (os cadetes!) e os bonzos da cooperação da raça dos Berkenheim, os representantes do partido das expedições punitivas (os social-revolucionários!) e os expoentes de direita dos zemstvos do gênero de Duchétchkin, os intermediários políticos do diretório e as “personalidades públicas”, constituídas de conhecidos ricaços: eis os respeitáveis hóspedes.

De um lado os cadetes e os industriais.

Do outro os defensistas e os cooperadores.

Lá os industriais por sustentáculo e os cadetes por exército.

Aqui os cooperadores por sustentáculo e os defensistas por exército, pois que após haverem os defensistas perdido os soviets, tiveram de voltar para as antigas posições, isto é, para junto dos cooperadores.

“Afastai de vós os bolcheviques” e então “a burguesia e a democracia terão uma frente comum”, diz Kíchkin aos defensistas.

Faremos tudo quanto pudermos, responde Avkséntiev, mas deixai-nos antes estabelecer “o ponto de vista do Estado”.

“A burguesia deve pôr em linha de conta o desenvolvimento do bolchevismo e preocupar-se, não tanto com a democracia, quanto com a criação de um governo de coalizão”, sugere Berkenheim a Avkséntiev.

Faremos tudo quanto pudermos, responde Avkséntiev.

Ouvistes: o governo de coalizão é necessário, ao que parece, para lutar contra o bolchevismo, isto é, contra os soviets, isto é, contra os operários e os soldados.

O Antiparlamento deve ser um “órgão consultivo” e o poder deve ser “independente” dele, diz Nabókov.

Farei tudo quanto puder, responde Tsereteli, uma vez que ele está de acordo com que “o governo provisório não tenha perante o Antiparlamento uma responsabilidade... formal” (Riétch).

O Antiparlamento não constituirá o poder mas, pelo contrário, o poder constituirá o Antiparlamento “determinando-lhe a composição, a competência e o regulamento”, diz a declaração dos cadetes.

De acordo, responde Tsereteli, “o poder deve sancionar essa instituição” (Nóvaia Jizn ) e definir “as formas da sua estrutura” (Riétch).

E o honesto intermediário do Palácio de Inverno, o senhor Kerenski, sentencia autoritariamente:

  1. — “A organização do poder e a sua composição cabem agora somente ao governo provisório.”
  2. — “Essa Conferência (Antiparlamento) não pode ter as funções e os direitos de um Parlamento.”
  3. — “O governo provisório não pode ser responsável perante essa Conferência” (“Riétch”).

Em uma palavra, Kerenski está “plenamente de acordo” com os cadetes, e os defensistas farão tudo quanto puderem: que mais quereis?

Não é por acaso que Prokopóvitch deixando o Palácio de Inverno declarou: “O acordo pode considerar-se obtido.”

Em verdade a Conferência ainda ontem havia-se pronunciado contra a coalizão com os cadetes, porém que importa isso a conciliadores encarniçados? Se estes ousaram falsear a vontade da democracia revolucionária convocando a Conferência em vez do Congresso dos Soviets, por que não podem falsear a vontade da própria Conferência? Somente o primeiro passo é difícil.

Em verdade a Conferência ainda ontem decidiu que o Antiparlamento “constituirá” o poder e que este último será “responsável” perante ele, porém que importa isso a conciliadores encarniçados? Contanto que viva a coalizão, e quanto às decisões da Conferência... que valor têm elas se minam a coalizão?

Pobre “Conferência Democrática”!

Pobres delegados ingênuos e crédulos!

Poderiam talvez esperar a traição formal de seus líderes?

Nosso Partido tinha razão ao afirmar que os social-revolucionários e os mencheviques pequeno-burgueses, que não tiram suas forças do movimento revolucionário das massas mas das combinações conciliatórias dos politiqueiros burgueses, são incapazes de conduzir uma política independente.

Nosso Partido tinha razão ao dizer que a política de conciliação leva à traição dos interesses da revolução.

Agora todos vêem que os bancarroteiros políticos do defensismo forjam com as próprias mãos as cadeias para os povos da Rússia, para gáudio dos inimigos da revolução.

Não é por acaso que os cadetes sentem-se satisfeitos e esfregam as mãos na previsão da vitória.

Não é por acaso que os senhores conciliadores vagueiam em atitude culpada “como cães escorraçados”.

Não é por acaso que as declarações de Kerenski contêm acentos de vitória.

Sim, eles triunfam.

Mas sua “vitória” não é duradoura e seu triunfo é efêmero, porque fazem as contas sem o hospedeiro, sem o povo.

De fato está próxima a hora em que os operários e os soldados enganados dirão finalmente sua palavra decisiva, mandando para os ares o castelo de cartas da “vitória” fictícia dos cadetes.

E então os senhores conciliadores deverão censurar a si próprios, se, juntamente com todos os farrapos da coalizão, voarem também pelos ares os seus cacarecos defensistas.


Inclusão: 18/02/2024