Sobre as Direitas e “Esquerdas” nas Repúblicas e Regiões Nacionais(1)

J. V. Stálin

10 de Junho de 1923


Primeira Edição: Discurso pronunciado a propósito do primeiro ponto da ordem do dia da Conferência: “O caso Sultan-Galíev”, em 10 de junho de 1923. A IV Conferência do C. C. do P. C. (b) da Rússia, com os militantes responsáveis das Repúblicas e regiões nacionais, reunida em Moscou. de 9 a 12 de junho de 1923. Notas taquigráficas, Moscou, 1923.
Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, 1946. Tradução de Brasil Gerson. Pág: 223-233.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: Licença Creative Commons licenciado sob uma Licença Creative Commons.

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Pedi a palavra para fazer algumas observações sobre os discursos dos camaradas que fizeram intervenções aqui. Em meu informe sobre o segundo ponto da ordem do dia, procurarei esclarecer o aspecto de princípio da questão surgida a propósito do caso Sultan-Galíev.

Antes de mais nada, sobre a própria Conferência. Alguém disse aqui (não me lembro quem, precisamente) que esta Conferência constitui um fato inédito. Isso não é certo. Semelhantes conferências não constituem nenhuma novidade para o nosso Partido. A atual Conferência é a quarta que se reúne durante a existência do Poder Soviético.

Até o começo de 1919, houve três conferências. As circunstâncias da época nos permitiam convocar conferências dessa ordem. Posteriormente, depois de 1919, nos anos de 1920-1921, quando estávamos totalmente absorvidos pela guerra civil, não tínhamos tempo para tais conferências. Somente agora, terminada a guerra civil, quando o nosso trabalho se tornou mais profundo no sentido da construção econômica, depois que o próprio trabalho do Partido se tornou mais concreto, particularmente nas regiões e Repúblicas nacionais, somente agora ganhamos novamente a possibilidade de convocar conferências desse tipo. Creio que o Comitê Central recorrerá, mais uma vez, a esse meio, para criar uma absoluta compreensão recíproca entre os que realizam a política na base e os que a elaboram. Creio que convém não apenas convocar conferências desse tipo para todas as Repúblicas e regiões, conferências de certo modo de tipo global, uma vez que nelas só se podem resolver problemas de caráter mais ou menos geral, mas também conferências de diferentes regiões e Repúblicas, para se poder tomar decisões mais concretas. Somente esse modo de focalizar a questão pode satisfazer tanto o Comitê Central como os militantes de base.

Ouvi certos camaradas perguntarem como eu advertia Sultan-Galíev e como tive a possibilidade de conhecer a sua primeira carta conspirativa, dirigida, ao que me parece, a Adigámov, o qual, não sei por que razão, se cala e não intervém, embora seja quem deveria manifestar-se antes e mais do que ninguém. Esses camaradas me reprovaram por ter defendido ao máximo Sultan-Galíev. Sim, realmente eu o defendi até a última possibilidade, e considerava e continuo considerando tal coisa como um dever meu. Mas eu o defendi até certo limite; quando esse limite foi ultrapassado por Sultan-Galíev, voltei-lhe as costas. A sua primeira carta conspirativa revela-nos que Sultan-Galíev rompe já com o Partido, uma vez que o tom da carta é quase contrarrevolucionário, uma vez que fala' dos membros do Comitê Central como só se costuma falar de inimigos. Encontrei-me com ele casualmente no Bureau Político, onde Sultan-Galíev havia ido para defender as reivindicações da República tártara relacionadas com o Comissariado do Povo da Agricultura. Já então o preveni, entregando-lhe uma nota em que qualificava a sua carta conspirativa como carta contra o Partido e em que o acusava de preparar uma organização de tipo Valídov, dizendo-lhe que, se não acabasse com o seu trabalho ilegal contra o Partido, acabaria mal e todo o meu apoio ser-lhe-ia retirado. Respondeu-me muito nervosamente que eu havia sido induzido a erro, que efetivamente tinha escrito a Adigámov, mas que não havia escrito tal coisa, mas outra, e que continuava sendo, como antes, um homem do Partido e dava sua palavra de honra de que assim continuaria. Entretanto, uma semana depois, envia a sua segunda carta conspirativa, incitando Adigámov a estabelecer contacto com os basmakos e seu líder Valídov e a queimar a carta. Houve, portanto, uma infâmia, um ludibrio que me obrigou a romper toda relação com Sultan-Galíev. Desde esse momento, Sultan-Galíev converteu-se, para mim, em uma pessoa situada à margem do Partido, à margem dos Sovietes, e considerei impossível falar com ele, apesar de ter tentado várias vezes vir ver-me para “conversar”. Esses são os fatos. Os camaradas de “esquerda” me haviam reprovado, já em 1919, porque eu apoiava Sultan-Galíev, porque o guardava para o Partido e me compadecia dele, na esperança de que ele deixasse de ser nacionalista e se tornasse marxista. Efetivamente, eu considerava como meu dever apoiá-lo até determinado momento. Existem tão poucos intelectuais, tão poucas pessoas que pensam e até pessoas cultas nas Repúblicas e regiões orientais, que se podem contar com os dedos das mãos; em tais condições, como não as tratar com atenção? Seria criminoso deixar de tomar todas as medidas necessárias para preservar as pessoas necessárias do Oriente do perigo da decomposição e conservá-las para o Partido. Mas tudo tem seus limites. E no caso presente, chegou-se ao limite no momento em que Sultan-Galíev se passou do campo dos comunistas para o campo dos basmakos. Desde esse momento, ele deixou de existir para o Partido. Essa é a razão pela qual o embaixador da Turquia se tornou mais aceitável para ele do que o Comitê Central do nosso Partido.

Ouvi a mesma reprovação da parte de Shamigúlov, o qual disse que, apesar de suas insistências para que acabasse de uma vez com Valídov, defendi Valídov, procurando conservá-lo para o Partido. Efetivamente, eu o defendi com a esperança de que ele poderia corrigir-se. Outras pessoas piores se corrigiram, e disso sabemos pela história dos partidos políticos. Achei que Shamigúlov resolvia o problema de maneira demasiado simplista. Não segui o seu conselho. É certo que a profecia de Shamigúlov se viu confirmada no fim de um ano: Valídov não se corrigiu e se passou para os basmakos. Mas, apesar de tudo, o Partido saiu ganhando por haver adiado por um ano a saída de Valídov do Partido. Se tivéssemos acabado com Valídov em 1918, estou certo de que pessoas como Murtazin, Adigámov, Zhálikov e outras não teriam permanecido então em nossas fileiras (Uma voz: "Zhálikov teria ficado”). Possivelmente Zhálikov não se teria ido, mas todo um grupo de camaradas que trabalham conosco teria ido com Valídov. Isso é o que obtivemos graças à nossa tolerância e à nossa previdência.

Ouvi Riskulov e devo dizer que o seu discurso não foi de todo sincero, foi um discurso semi-diplomático (Uma voz: “Muito bem”), e, em geral, seu discurso produziu-me uma desagradável impressão. Esperava dele clareza e sinceridade maiores. Por muito que Riskulov fale, é evidente que possui em sua casa duas cartas conspirativas de Sultan-Galíev, que não mostrou a ninguém. É evidente que estava ligado ideologicamente a Sultan-Galíev. O que Riskulov coloca fora do caso Sultan-Galíev em sua parte criminal, afirmando que não estava ligado a Sultan-Galíev no terreno que conduz ao basmakismo, é uma futilidade. Na Conferência, não se trata disso. Trata-se aqui do vínculo de pensamento e ideológico com o sultan-galievismo. Mas que tal vínculo entre Riskulov e Sultan-Galíev existia, é evidente, camaradas, e o próprio Riskulov não o pode negar. Mas não chegou, talvez, o momento de ele libertar-se afinal aqui, nesta tribuna, do sultan-galievismo, de modo decidido e sem reservas? Nesse sentido, o discurso de Riskulov foi um discurso semi-diplomático e não satisfatório.

Enbáiev também pronunciou um discurso diplomático e insincero. Não é acaso um fato que Enbáiev e um grupo de militantes tártaros, que considero como excelentes militantes práticos, apesar de sua falta de firmeza ideológica, se dirigiram ao Comitê Central, após a prisão de Sultan-Galíev, exigindo sua libertação imediata, respondendo inteiramente por ele e insinuando que os documentos tomados a Sultan-Galíev não eram autênticos? Porventura isso não é verdade? Mas que se descobriu ao fazer-se a investigação? Descobriu-se que todos os documentos eram autênticos. A sua autenticidade foi reconhecida pelo próprio Sultan-Galíev, que, aliás, contou sobre os seus pecados mais do que disse nos documentos, reconhecendo cabalmente até o fim a sua culpa, e, ao reconhecê-la, fez ato de contrição. Não é, pois, evidente que, após tudo isso, Enbáiev tinha de reconhecer os seus erros de maneira resoluta e irrevogável e afastar-se de Sultan-Galíev? Entretanto, Enbáiev não o fez. Encontrou oportunidade para esquivar-se das “esquerdas", mas não quis afastar-se do sultan-galievismo de modo resoluto e no estilo comunista, não quis distanciar-se do abismo em que Sultan-Galíev havia caído, supondo, pelo que se viu, que a diplomacia o salvaria.

O discurso de Firdevs foi diplomacia pura do princípio até o fim. Qual dos dois dirigia ideologicamente o outro: Sultan-Galíev a Firdevs ou Firdevs a Sultan-Galíev? E uma pergunta que deixo suspensa. Entretanto, acredito que antes foi Firdevs quem dirigiu ideologicamente Sultan-Galíev do que o inverso. Não encontro nada especialmente inadmissível nos exercícios teóricos de Sultan-Galíev. Se Sultan-Galíev se tivesse limitado a sustentar a ideologia do pan-turquismo ou do pan-islamismo, isso não seria mais do que um mal pela metade; eu diria até que essa ideologia, apesar da proibição que foi feita na resolução referente ao problema nacional, adotada pelo X Congresso do Partido, poderia ser considerada como uma ideologia tolerável e que nos poderíamos limitar à sua crítica no seio do Partido. Mas quando os exercícios ideológicos acabam em um trabalho tendente a estabelecer contacto com os líderes basmakos, com Valídov e outros, resulta de todo impossível justificar aqui a atividade dos basmakos como uma ideologia inocente, que é o que tenta fazer Firdevs. Não enganareis ninguém com tal justificativa da atividade de Sultan-Galíev. Deste modo, pode-se encontrar uma justificação até para o imperialismo e para o czarismo, uma vez que também eles têm sua ideologia, às vezes bastante inocente na aparência. Não é possível raciocinar desse modo. Aqui não vos encontrais diante de um tribunal, mas diante de uma conferência de militantes responsáveis que de vós exigem franqueza e sinceridade, mas não diplomacia.

A meu ver, Khodzhánov falou bem; Ikrámov não falou mal. Mas tenho de indicar um ponto de seus discursos, um ponto que induz a reflexão. Os dois disseram que entre o Turquestão atual e o Turquestão czarista não existe nenhuma diferença, que não mudou mais do que no rótulo, que o Turquestão continua sendo o mesmo que antes, o mesmo que era sob o czarismo. Camaradas, se isso não é um erro, se se trata de um discurso meditado, se isso foi dito com plena consciência, cumpre afirmar que, nesse caso, os basmakos têm razão e nós não a temos. Se o Turquestão é, na realidade, uma colônia, como o era sob o czarismo, então os basmakos têm razão, então não devemos processar Sultan-Galíev, mas ele é que deve julgar-nos como pessoas que toleram a existência de uma colônia dentro das fronteiras do Poder Soviético. Se isso é certo, não compreendo porque vós mesmos não haveis aderido ao basmakismo. Evidentemente, Khodzhánov e Ikrámov não meditaram essa passagem de seus discursos, pois não podem desconhecer que o atual Turquestão soviético difere radicalmente do Turquestão czarista. Quis assinalar esse trecho obscuro de seus discursos, para que procurem meditá-lo e corrigir o erro.

Aceito, de minha parte, as acusações formuladas por Ikrámov, referentes à atividade do Comitê Central, quando diz que nem sempre temos sido atenciosos e nem sempre temos conseguido colocar a tempo os problemas práticos impostos pela situação das Repúblicas e regiões orientais. Naturalmente o Comitê Central se encontra sobrecarregado de trabalho e não está em condições de atender a tudo. Mas seria ridículo supor que o Comitê Central pode fazer tudo no devido tempo. Evidentemente existem no Turquestão poucas escolas. Os idiomas locais ainda não se tornaram de uso comum nas instituições do Estado; as instituições não foram convertidas em instituições nacionais. A cultura, em geral, tem um nível baixo. Tudo isso é certo. Mas porventura podemos esperar seriamente que, no prazo de dois ou três anos, o Comitê Central ou o Partido em conjunto possam desenvolver a cultura do Turquestão? Todos gritamos e nos queixamos de que a cultura russa, a cultura do povo russo, mais culto do que os outros povos da União das Repúblicas, tem nível baixo. Lênin repete-o constantemente, dizendo que não temos cultura, que não há possibilidade de elevar substancialmente a cultura russa nem em dois, nem em três, nem sequer em dez anos. E se não é possível elevar a cultura russa nem em dois, nem em três. nem sequer em dez anos, como é possível exigir a elevação acelerada do nível cultural das regiões não russas, atrasadas e quase analfabetas? Não é pois evidente que nove décimos da “culpa” recaem, nesse caso, sobre as condições, sobre o atraso, e que, como se costuma dizer, nada se pode fazer contra isso?

A respeito das “esquerdas” e direitas.

Existem “esquerdas” e direitas nas organizações comunistas das regiões e Repúblicas? Evidentemente existem. Isso é inegável.

Em que consistem os pecados das direitas? Consistem em que as direitas não representam nem podem representar um antídoto, um baluarte seguro contra as correntes nacionalistas que se desenvolvem e se acentuam em conexão com a NEP. O fato de que o sultan-galievismo tenha podido surgir e tenha criado um círculo de partidários nas Repúblicas orientais, principalmente na Basquíria e na Tartária, é um testemunho incontestável de que os elementos de direita, que constituem nessas Repúblicas maioria predominante, não formam um baluarte suficientemente seguro contra o nacionalismo. Convém ter em mente que as nossas organizações comunistas da periferia, das Repúblicas e das regiões, só se podem desenvolver, fortalecer-se e converter-se em verdadeiros quadros marxistas internacionalistas caso consigam superar o nacionalismo. O nacionalismo constitui o principal obstáculo ideológico que se eleva no caminho da formação de quadros marxistas, na formação de uma vanguarda marxista nas regiões e nas Repúblicas. A história do nosso Partido nos ensina que, em sua parte russa, o Partido bolchevique cresceu e se fortaleceu lutando contra o menchevismo, uma vez que o menchevismo constitui ideologia burguesa, uma vez que o menchevismo é o portador da ideologia burguesa no seio do nosso Partido, e sem a superação do menchevismo o nosso Partido não teria podido fortalecer-se. Lênin o disse em seus escritos, repetidas vezes. Somente à medida que ia superando o menchevismo em suas formas orgânicas e ideológicas, o bolchevismo ia crescendo e se fortalecendo, como um autêntico partido dirigente. O mesmo cabe dizer do nacionalismo em relação às nossas organizações comunistas das regiões da periferia e das Repúblicas. O nacionalismo desempenha, com referência a essas organizações, o mesmo papel desempenhado no passado pelo menchevismo, em relação ao Partido bolchevique. Somente encobertas sob o nacionalismo podem infiltrar-se em nossas organizações da periferia toda espécie de influências burguesas, inclusive as mencheviques. As nossas organizações das Repúblicas só se podem converter em quadros marxistas no caso de que saibam resistir à corrente nacionalista, que abre caminho rumo ao nosso Partido na periferia, e o faz porque a burguesia renasce, porque se desenvolve a NEP, porque se desenvolve o nacionalismo, porque existem sobrevivências do chovinismo grande-russo que também impulsionam o nacionalismo local, porque existe a influência dos Estados estrangeiros que apoiam por todos os meios o nacionalismo. A luta contra esse inimigo nas Repúblicas e nas regiões constitui a etapa pela qual devem passar as nossas organizações comunistas das Repúblicas nacionais, se é que desejam fortalecer-se como organizações autenticamente marxistas. Não existe outro caminho. E, nessa luta, as direitas são débeis. E o são porque se encontram contagiadas de cepticismo no que diz respeito ao Partido e porque se submetem facilmente à influência do nacionalismo. Esse é o pecado da ala direita das organizações comunistas das Repúblicas e das regiões.

Mas não são menores, senão maiores, os pecados das “esquerdas” na periferia. Se as organizações comunistas da periferia não podem fortalecer-se e desenvolver-se para se converterem em quadros autenticamente marxistas sem superar o nacionalismo, esses quadros, por sua vez, só se poderão converter em organizações de massas, só poderão agrupar a maioria das massas trabalhadoras, se aprenderem a ser suficientemente flexíveis para atrair às nossas instituições do Estado, mediante concessões, todos os elementos nacionais, por pouco leais que sejam; se aprenderem a manobrar entre a luta decidida contra o nacionalismo no seio do Partido e a luta não menos decidida para atrair ao trabalho soviético os elementos mais ou menos leais da população local, os intelectuais, etc. As "esquerdas” da periferia encontram-se livres, em maior ou menor grau, da atitude céptica para com o Partido e da tendência para se deixar influenciar pelo nacionalismo. Mas os pecados das "esquerdas’ consistem em que não sabem ser flexíveis em relação aos elementos democrático-burgueses ou simplesmente leais ao povo; não sabem e não querem manobrar para atrair esses elementos; deformam a linha do Partido encaminhada para a conquista da maioria da população trabalhadora do país. Mas, ao mesmo tempo, é necessário criar e desenvolver, acima de tudo, essa flexibilidade e essa capacidade de manobrar entre a luta contra o nacionalismo e a atração para as fileiras das nossas instituições do Estado dos elementos leais, por pouco que o sejam. E essa flexibilidade só se pode criar e desenvolver no caso de tomarmos em consideração toda a complexidade e todas as particularidades específicas que deparamos em nossas regiões e Repúblicas; no caso de nos não dedicarmos a uma simples transplantação dos modelos que se estão criando nas regiões centrais e não podem ser transplantados mecanicamente para a periferia; no caso de não desprezarmos os elementos da população com inclinações nacionalistas, os elementos pequeno-burgueses com inclinações nacionalistas; no caso de aprendermos a atrair esses elementos para o trabalho geral do Estado. O pecado das “esquerdas” consiste em não compreenderem a importância primordial dessas complexas tarefas do Partido.

Se as direitas constituem a ameaça de, com a sua tendência para se deixar influenciar pelo nacionalismo, poderem obstar ao crescimento dos nossos quadros comunistas na periferia, as “esquerdas” constituem, por sua vez, a ameaça para o Partido de, com a sua tendência para se deixar levar para um “comunismo” simplista e precipitado, poderem afastar o nosso Partido dos camponeses e de extensas camadas da população local.

Desses perigos qual é o mais sério? Se os camaradas que se desviam para a “esquerda” pensam continuar praticando, na periferia, a sua política de dissociação artificial da população, e essa política não só foi praticada na Tchetchênia e na região de Iakútia, não só no Turquestão . . . (Ibraguímov: "É a tática da diferenciação”) — agora, o camarada Ibraguímov imaginou a substituição da tática da dissociação pela tática da diferenciação, mas isso nada modifica —, se, como ia dizendo, pensam continuar praticando a política de dissociação por cima; se pensam que é possível transplantar os modelos russos para uma situação especificamente nacional, sem levar em consideração o gênero de vida e as condições concretas; se supõem que, ao lutarem contra o nacionalismo, é necessário lançar à margem, ao mesmo tempo, todo o nacional; em uma palavra, se os comunistas de “esquerda” da periferia pensam continuar incorrigíveis, devo dizer que, dos dois perigos, o perigo de “esquerda” pode tornar-se o perigo mais sério.

Isso é tudo o que eu queria dizer sobre o problema das “esquerdas” e direitas. Adiantei-me um pouco, mas foi porque toda a Conferência se adiantou, antecipando a discussão do segundo ponto.

É necessário fustigar as direitas para obrigá-las, para ensiná-las a lutar contra o nacionalismo, visando a forjar verdadeiros quadros comunistas com elementos locais. Mas é necessário fustigar igualmente as “esquerdas”, para ensiná-las a ser flexíveis, para ensiná-las a manobrar acertadamente, visando a conquistar grandes massas da população. É preciso realizar tudo isso, porque a verdade se encontra “no meio”, entre as direitas e as “esquerdas”, como, com acerto, assinalou Khodzhánov.

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Notas de rodapé:

(1) A IV Conferência do C. C. com os militantes responsáveis das Repúblicas e regiões nacionais foi convocada em Moscou, por iniciativa de Stálin, e reuniu-se de 9 a 12 de junho de 1923. O ponto principal da ordem do dia da Conferência foi o informe de Stálin sobre as medidas práticas para a concretização das resoluções do XII Congresso sobre o problema nacional. Os representantes de vinte organizações do Partido das Repúblicas e regiões nacionais intervieram com informes sobre a situação nas mesmas. A Conferência estudou igualmente o caso de Sultan-Galíev, militante tártaro, membro do Comitê do Comissariado do Povo para as Nacionalidades, que aproveitou o seu posto responsável para criar uma organização ilegal com o objetivo de contrariar as medidas do Partido no tocante ao problema nacional e para estabelecer contacto com fôrças evidentemente contrarrevolucionárias, particularmente com o movimento dos basmakos de Bucara e do Turquestão. Além dos membros e suplentes do C. C., participaram da Conferência 58 representantes das Repúblicas e regiões nacionais. (retornar ao texto)

Inclusão 19/04/2014