A Revolução de 1905
(prefácio à edição russa)

Leon Trotsky

12 de janeiro de 1922


Primeira Edição: 1907 como parte de "Our Revolution"; 1909 em Alemão; 1922, primeira edição integral, revisada, na Rússia.
Fonte: A revolução de 1905. Global Editora, transcrito do sítio da Revista Marxismo Revolucionário Atual.
Tradução de: ........
Transcrição e HTML de: Fernando A. S. Araújo, janeiro 2006.
Direitos de Reprodução: Marxists Internet Archive (marxists.org), 2006. A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


Os acontecimentos de 1905 constituíram um vigoroso prólogo do drama revolucionário de 1917. Durante alguns anos, enquanto triunfava a reação, o ano de 1905 nos parecia como um todo: a revolução russa. Atualmente perdeu esse caráter independente, sem deixar de manter integralmente seu próprio significado histórico. A revolução de 1905 surgiu diretamente da guerra russo-japonesa, assim como a revolução de 1917 foi a conseqüência direta do grande massacre imperialista. Dessa maneira, tanto nas origens quanto no desenvolvimento, o prólogo continha em seu bojo todos os elementos do drama histórico de que hoje somos testemunhas e atores. No entanto, esses elementos apareciam no prólogo de forma sintética, não totalmente desenvolvidos. Todas as forças comprometidas na luta de 1905 estão agora melhor iluminadas pela luz dos acontecimentos de 1917. O Outubro Vermelho, como costumávamos chamá-lo então, no espaço de doze anos transformou-se em outro Outubro, incomparavelmente mais poderoso e vitorioso.

Nossa grande vantagem de 1905 foi o fato de que, ainda durante essa fase do prólogo revolucionário, nós, os marxistas, já contávamos com o método científico de compreensão dos processos históricos. Isso nos permitiu entender aquelas relações que o processo material da história só revelava como uma série de indícios. As caóticas greves que em 1903 estouraram no sul da Rússia nos tinham fornecido o material necessário para entender que uma greve geral do proletariado, e sua posterior transformação numa insurreição armada, se tornariam o método fundamental da revolução russa. Os acontecimentos de 9 de janeiro, viva confirmação desse prognóstico, exigiram que a questão do poder revolucionário fosse considerada de maneira concreta. A partir desse momento, a questão da natureza da revolução russa e da sua dinâmica interna de classe se tornou um tema candente entre os social-democratas russos da época.

Foi precisamente durante o intervalo transcorrido entre 9 de janeiro e a greve de outubro de 1905 que esses pontos de vista – posteriormente conhecidos como teoria da "revolução permanente "– amadureceram na mente do autor. Esta expressão um tanto presunçosa, revolução permanente, pretende indicar que a revolução russa, embora diretamente relacionada com propósitos burgueses, não podia deter-se em tais objetivos: a revolução não resolveria suas tarefas burguesas imediatas sem o acesso do proletariado ao poder. E o proletariado, uma vez que tivesse o poder em suas mãos, não poderia permanecer confinado dentro do modelo burguês da revolução. Pelo contrário, precisamente como objetivo de garantir sua vitória, a vanguarda proletária – nos primeiros estágios de seu governo – teria que fazer incursões extremamente profundas não apenas nas relações da propriedade feudal, como também nas de propriedade burguesa. Ao fazer isso não apenas entraria em conflito com todos aqueles grupos burgueses que a tinham apoiado durante as primeiras etapas da luta revolucionária, mas também com as grandes massas do campesinato, cuja colaboração teria levado o proletariado ao poder.

As contradições entre um governo dos trabalhadores e uma esmagadora maioria e camponeses num país atrasado só poderiam ser resolvidas em escala internacional, nos limites de uma revolução proletária mundial. Uma vez superadas as estreitas fronteiras democrático-burguesas da revolução russa – em virtude da necessidade histórica – o proletariado vitorioso também se veria obrigado a superar suas finalidades nacionais, de maneira tal que teria que lutar conscientemente para que a revolução russa se transformasse no prólogo de uma revolução mundial.

Apesar dos doze anos transcorridos, essa análise foi completamente confirmada. A revolução russa não poderia culminar num regime democrático-burguês: tinha que entregar o poder à classe trabalhadora. Em 1905, a classe operária era ainda demasiado fraca para tomar o poder, mas os acontecimentos posteriores a obrigaram a ganhar força e maturidade, não no contexto de uma república democrática-burguesa, mas no movimento tzarista de junho. O proletariado chegou ao poder em 1917 com a ajuda da experiência adquirida pela geração de 1905. Por isso, os jovens trabalhadores de hoje devem ter acesso àquela experiência e estudar, em conseqüência a história de 1905.

Como apêndice à primeira parte deste livro, decidi incluir dois artigos: um deles, referente ao livro de Tcherewanin, foi publicado na revista de Kautsky, Neue Zeit, em 1908; o outro, dedicado ao desenvolvimento da teoria da revolução permanente e a uma polêmica com os representantes da opinião que dominava então a esse respeito dentro da social-democracia russa, foi publicado (creio que em 1909), numa revista do partido polonês, cujos inspiradores eram Rosa Luxemburgo e Leo Jogiches. Parece-me que esses artigos facilitarão os leitores a se orientaram quanto ao debate entre os social-democratas russos durante o período imediatamente posterior à primeira revolução, como também lançarão nova luz sobre certos problemas extremamente importantes do presente. A tomada do poder em outubro de 1917 não foi, de forma alguma, uma improvisação, como se sentiu inclinado a acreditar o cidadão comum; a nacionalização de fábricas e empresas pela vitoriosa classe operária não foi, de forma alguma, um "erro "do governo dos trabalhadores que, segundo se diz, não conseguiu escutar oportunamente a voz de advertência dos mencheviques. Esses assuntos foram discutidos e tiveram solução de princípio durante um período de quinze anos.

O debate sobre o caráter da revolução russa tinha ultrapassado – inclusive durante aquele período – os limites da social-democracia russa e atraído a atenção dos principais dirigentes do socialismo mundial. A concepção menchevique da revolução burguesa foi exposta mais conscientemente, isto é, com menor sorte e maior candura no livro de Tcherewanin. Quando apareceu, os oportunistas alemães o acolheram com júbilo. Por sugestão de Kautsky escrevi uma resenha do livro de Tcherewanin na Neue Zeit. Naquela ocasião, o próprio Kautsky estava plenamente identificado com meus pontos de vista. Como Mehring (já morto), adotou o ponto de vista da revolução permanente. Agora, Kautsky pretende juntar-se, com efeito retroativo, aos critérios dos mencheviques. Tenta justificar sua posição atual, atenuando a que tinha então. Mas essa falsificação, que satisfaz às necessidades de uma consciência teórica pouco clara, encontra obstáculos em documentos impressos. O que Kautsky escreveu no primeiro período – realmente o mais valioso – de sua atividade científica e literária (sua resposta ao socialista polonês Ljusnia, seus estudos sobre os operários russos e americanos, sua resposta ao questionário de Plekhanov referente ao caráter da revolução russa, etc.) foi e continua sendo uma impiedosa rejeição do menchevismo e uma total justificativa teórica das táticas políticas adotadas em seguida pelos bolcheviques, a quem os obstinados e renegados, liderados por Kautsky, acusam de aventureiros, demagogos e de bakuninistas.

Como terceiro apêndice incluo o artigo "A luta pelo poder", publicado em 1915 no jornal russo Nashe Slovo , editado em Paris, que apresenta a idéia de que aquelas relações políticas que foram claramente delineadas na primeira revolução devem encontrar seu apogeu e complemento na segunda.

Faltou a este livro clareza na questão da democracia formal, como faltou a todo o movimento que descreve. Isso não é de admirar: dez anos depois, em 1917, nosso partido ainda não tinha totalmente clara sua posição sobre essa questão. Mas tal ambigüidade, ou falta de total acordo, não tem nada a ver com questões de princípios. Em 1917 estávamos infinitamente afastados da mística da democracia; não considerávamos o progresso da revolução como a colocação em marcha de certas normas democráticas absolutas, mas como uma guerra de classes que, por necessidades temporárias, devia usar as palavras de ordem e as instituições da democracia. Naquela ocasião, lançávamos com determinação a palavra de ordem da tomada do poder pela classe trabalhadora e deduzíamos a inevitabilidade dessa tomada do poder, não a partir das oportunidades estatísticas de eleições "democráticas "mas da correlação de forças entre as classes.

Inclusive em 1905, os trabalhadores de São Petersburgo chamavam seu soviete de governo proletário. O nome se tornou comum e foi totalmente coerente com o programa de luta para a tomada do poder pela classe operária. Ao mesmo tampo, opusemos ao tzarismo um programa amplo de democracia política (sufrágio universal, república, milícia, etc.). Certamente não poderíamos ter agido de outra maneira. A democracia política é uma fase essencial na evolução das massas trabalhadoras, com esta importante ressalva: em alguns casos as massas trabalhadoras podem permanecer nessa fase durante várias décadas, enquanto, em outros, a situação revolucionária pode permitir que as massas se libertem dos preconceitos da democracia política ainda antes de suas instituições terem nascido.

O regime de governo dos socialistas-revolucionários e dos mencheviques (março-outubro de 1917) comprometeu totalmente a democracia ainda antes que esta tivesse tempo de ser colocada em algum molde burguês-republicano. Embora naquele momento inscrevêssemos em nosso estandarte a palavra de ordem "todo poder aos sovietes", ainda apoiávamos formalmente as palavras de ordem da democracia, posto que éramos incapazes de dar às massa (ou a nós mesmos) uma resposta definitiva a respeito do que ocorreria se a engrenagem das rodas da democracia formal fracassasse na tentativa de se ajustar com a do sistema soviético. Quando escrevi este livro e também muito depois, durante o período do governo Kerenski, a tarefa essencial consistia, para nós, na tomada real do poder pela classe operária. O aspecto formal e legal desse processo ocupava o segundo o terceiro plano e não nos demos ao trabalho de desentranhar as contradições formais num momento em que devíamos encarar a luta para superar obstáculos materiais.

A dissolução da Assembléia Constituinte foi a conquista revolucionária de um objetivo que também poderia ter sido alcançado mediante o adiamento ou a preparação das eleições conforme as necessidades da revolução. Mas foi precisamente essa atitude peremptória quanto aos aspectos legais dos meios de luta que tornou inelutavelmente agudo o problema do poder revolucionário; por sua vez, a dissolução da Assembléia Constituinte pelas forças armadas do proletariado exigia uma total reconsideração das relações entre a democracia e a ditadura. Em última análise, isso representou um benefício tanto teórico quanto prático para a Internacional dos Trabalhadores.

A história desse livro, muito sinteticamente, é a seguinte: foi escrito em Viena, em 1908-1909, para uma edição alemã que apareceu em Dresden. A edição alemã incluía alguns capítulos de meu livro russo Nossa revolução (1907), consideravelmente modificados e adaptados para o leitor estrangeiro. A maior parte do livro foi escrita especialmente para a edição alemã. Agora, vi-me obrigado a reconstruir o texto, em parte baseado em fragmentos do manuscrito russo que ainda existe, e em parte por meio de uma nova tradução do alemão. Nessa última tarefa, recebi importante ajuda do camarada Ruhmer, que realizou seu trabalho com extremo cuidado e consciência. Revisei todo o texto e espero que o leitor não se veja assaltado por inumeráveis equívocos, deslizes, erros tipográficos e de todo tipo, que são hoje em dia uma característica de nossas publicações.

L. Trotsky

Moscou, 12 de janeiro de 1922.

 


Notas:

[1N] Nashe Slovo começou a ser publicado em 29 de janeiro de 1915. Era um modesto jornal de duas páginas, raramente quatro, cheio de espaços em branco que indicavam os cortes da censura, e ainda assim fervilhando de notícias e comentários. Não obstante, Nashe Slovo tinha um círculo notável de colaboradores, que viriam a destacar-se, quase todos, nos anais da revolução. Fonte: Deutscher, Isaac Trotski – O Profeta Armado,  pág. 275, Editora Civilização Brasileira, 2005.

 

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