Mais uma vez sobre Brandler e Thalheimer(1)

Leão Trotski

12 de Junho de 1929


Escrito: 12 de Junho de 1929.
Primeira Edição: The Militant, 1º de Outubro de 1929.
Fonte da Presente Tradução: C.E.I.P. León Trotsky.
Tradução para o português da Galiza: José André Lôpez Gonçâlez, Setembro de 2008
HTML: Fernando A. S. Araújo, Setembro de 2008 .
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Estimado camarada:

Muito obrigado pola sua detalhada carta de 3 de Junho. Tem em abundância informações valiosas que espero utilizar no futuro. Aqui somente quero aludir ao problema da nossa postura com a Oposição de Direita alemã.

1. Você reconhece que Brandler e Thalheimer não compreenderam a situação revolucionária da Alemanha em 1923, a situação revolucionária da China em 1925-1927, a situação revolucionária da Grã-Bretanha em 1926 e, por último, o caráter termidoriano da luita contra o "trotskismo" (1923 - 1927). Ao aceitar tudo isto você reconhece que Brandler e Thalheimer não são revolucionários, porque os revolucionários se definem e revelam pola sua atitude frente a problemas fundamentais da revolução mundial. O que podemos ter em comum nós, os bolcheviques, com esses não revolucionários ou, pior ainda, com pessoas que combateram as nossas resoluções e palavras de ordem revolucionárias nos momentos mais críticos dos últimos seis ou sete anos?

2. Apesar de tudo, molesta-lhe que qualifiquemos Brandler e Thalheimer de liquidadores e mencheviques. Esta qualificação, no seu sentido literal, é claro, é errônea. Mas a tendência que os opõem a nós é indubitavelmente liquidacionista e menchevique. O Arbeiter Zeitung(2) de Viena faz-me exactamente as mesmas críticas que Thalheimer. Este e o Arbeiter Zeitung unem-se com Estaline contra mim e com Rikov e Bukharine contra Estaline. Mas o Arbeiter Zeitung de Viena não o faz abertamente, enquanto que Brandler e Thalheimer dedicam-se a um miserável jogo de esconde. Nestes casos prefiro o Arbeiter Zeitung, que é um inimigo declarado.

3. Sua carta contém argumentos demolidores contra a direita. Contudo, você considera necessário acrecentar que a situação "no Partido Comunista Alemão melhoraria se se aplicasse a política chamada direitista em lugar da que se aplica atualmente".

Mas, depois de tudo, já vimos a política brandlerista na direção do partido. Provocou a maior das catástrofes nos fins de 1923. Esta catástrofe constitui a base de todas as violentas reviravoltas subseqüentes do comunismo alemão, para a direita e para a esquerda. Esta catástrofe assentou as bases de toda a etapa posterior, de estabilização do capitalismo europeu. Como se pode passar por alto o facto de que Brandler, como político, está do outro lado da barricada?

4. Você sabe que não cheguei repentinamente a esta conclusão devastadora. Tinha esperanças de que Brandler aprendesse. No outono de 1923 adquiriu consciência de sua própria incapacidade. Disse-me várias vezes que lhe faltava talento para orientar-se numa situação revolucionária. Sem embargo, depois que deixou passar a situação revolucionária se tornou muito arrogante. Começou a acusar-me de "pessimista". Aguardava 1924 com "o maior otimismo". Então compreendi que este homem era incapaz de diferenciar a frente e o reverso da revolução.

Se se tratava de um assunto de idiossincrasia pessoal, não seria tão grave. Mas agora tudo isto tornou-se num sistema, e sobre este sistema se está construindo uma fração. O que podemos ter em comum com esta fração?

5. Não assumo, de maneira alguma, a defesa da linha de Maslow e os outros. Em 1923 o radicalismo verbal de Maslow derivava da mesma passividade que originava os erros de Brandler. Maslow, que não compreendia o abc do problema, tratou de pôr em ridículo a minha proposta de fixar data para a insurreição. No Quinto Congresso seguia acreditando que a revolução estava a ganhar impulso. Em outras palavras, nos problemas mais importantes teve a mesma posição que Brandler, sazoada com um pouco de condimento ultra-esquerdista. Mas Maslow tratou de aprender, até que caiu no pântano da capitulação. Outros ex-ultra-esquerdistas sim aprenderam algumas cousas. Não assumo a menor responsabilidade pola linha do Volkswille no seu conjunto, que contém muitos restos do passado, quer dizer, é uma combinação de tendências oportunistas e ultra-esquerdistas. Não obstante, estes camaradas aprenderam bastante e muitos deles demonstraram que são capazes de aprender mais. Brandler e Thalheimer, ao contrário, deram um colossal passo para trás ao elevar a sua cegueira revolucionária ao nível dum programa.

6. Você considera meritória a sua luita pola democracia partidária. Não vejo onde está o mérito. Brandler e Thalheimer jamais elevaram as suas vozes para protestar contra o esmagamento da Oposição de Esquerda. Não somente toleraram o regime estalinista, também o apoiaram. Uniram-se ao coro termidoriano de perseguição ao "trotskismo". Quando começaram a sentirem-se obrigados a luitar pola democracia no partido? Quando o aparato começou a esmagá-los e quando se convenceram de que para chegar ao poder não bastava servir aos estalinistas. Pode-se considerar meritória a atitude dos oportunistas que começaram a berrar quando os centristas, temerosos das críticas da esquerda, começam a persegui-los? Ninguém gosta que o apaleiem; não há mérito algum nisso.

Os métodos que emprega o centrismo para combater a direita são repugnantes, e em última instância ajudam-na. Mas isto não significa que, se houvesse um regime democrático no Partido Comunista, teriam a obrigação de outorgar o direito de afiliação à tendência oportunista de Brandler.

É ilícito enfocar a democracia partidária como um conceito em si. Falamos da democracia partidária sobre bases revolucionárias específicas que excluem o brandlerismo.

7. Segundo você, o segundo mérito dos brandleristas reside na sua luita polas reivindicações transicionais, o seu intento de vincular-se com as massas, etcétera. Mas, acaso buscamos estabelecer vínculos com as massas polos vínculos em si, ou por objetivos revolucionários (isto é, internacionalistas)? Se nos guiássemos unicamente polos vínculos com as massas, deveríamos voltar os olhos para a Segunda internacional e a de Amsterdã(3). Com este critério, a social-democracia alemã é muito mais importante que Brandler e Thalheimer.

Desde logo, pode-se dizer que tudo isto é um exagero: sabemos que Brandler e Thalheimer não são a social-democracia. É claro: ainda não são a social-democracia, não a atual. Mas há que observar os factos na sua dinâmica. Tampouco a social-democracia alemã se iniciou com Hermann Mueller. Por outro lado, Brandler quer ganhar as massas; ainda não as ganhou. Você mesmo observa com indignação que os brandleristas voltam as costas ao proletariado internacional. Não lhes preocupa a Revolução Russa, nem a revolução chinesa, nem o resto da humanidade. Querem realizar a sua política na Alemanha, assim como Estaline quer construir o socialismo na Rússia. Viver e deixar viver. Contudo, já vimos aonde conduz no passado esta política: a 4 de agosto de 1914(4). Permita-me lembrar-lhe mais uma vez que as frações oportunistas jovens, sobretudo as de oposição, não são "melhores” que os velhos partidos social-chauvinistas, assim como um jovem leitão não é “melhor” que um porco velho.

8. Mas aqueles que acreditam que Brandler é realmente capaz de conduzir as massas "no terreno da realidade" (quer dizer, do reformismo nacional), cometem um grave erro. Não: neste terreno, Brandler tem um adversário imbatível. Na medida em que o operário comum deve eleger entre Brandler e Wels, optará por Wels, e a sua maneira terá razão: não existe a menor razão para reiniciar desde o começo um facto já consumado.

9. Você aparentemente aprova a crítica de Brandler e Thalheimer à política de Thaelmann no Primeiro de Maio. Acrescenta ao passar que está seguro de que eu não aprovo dita política. Não sei se leu a minha carta ao Sexto Congresso Mundial E agora? [Reproduzida em A Terceira Internacional depois de Lenine]. Nesta carta há um capítulo especial dedicado às perspectivas de radicalização da classe obreira alemã, com uma advertência direta e categórica contra a pueril superestimação thaelmannista do nível alcançado por tal radicalização e contra o perigo de cair no aventureirismo ultra-esquerdista, latente na mesma. Referir-me-ei a este tema com maior detalhe num folhetim que espero publicar no mês que vem. Mas ao criticar o aventureirismo burocrático, delinearei uma demarcação ainda mais talhante entre a minha crítica e a de Brandler. Os oportunistas sempre aparecem em atitude triunfal ao criticar o aventureirismo revolucionário. Mas também lhe aplainam o caminho: Brandler aplainou o caminho a Maslow assim como Maslow aplainou o caminho a Thaelmann, que combina todos os erros de Brandler e Maslow e lhes agrega suas próprias torpezas, produto da estupidez burocrática e a ignorância jactanciosa.

10. Você assinala a vários grupos da Oposição de Esquerda e os chama de "sectários". Teríamos que nos pôr de acordo sobre o conteúdo desta palavra. Existem entre nós indivíduos que se satisfazem em permanecer em suas casas e criticar de lá os erros do partido oficial, sem impor-se tarefas mais amplas, sem assumir obrigações revolucionárias práticas, que fazem da oposição revolucionária um título honorífico, algo semelhante à Ordem da Legião de Honra. Há também tendências sectárias que se expressam buscando a quinta pata de cada gato com que cruzam.

É necessário combatê-las, e estou pessoalmente disposto a fazê-lo, sem deixar-me atemorizar, chegado o caso, por velhas amizades, vínculos pessoais, etcétera.

Sem embargo, não há que se fazer ilusões. Mais uma vez - não é a primeira nem será a última - os marxistas revolucionários vêem-se reduzidos à situação duma sociedade internacional de propaganda. Esta situação, pola sua própria natureza, entranha certos elementos de sectarismo que somente podem ser superadas gradualmente. Você parece assustado porque a sua organização tem poucos militantes. É claro, é desagradável; é melhor ter organizações com milhões de militantes. Mas, onde devemos nós encontrar, a vanguarda da vanguarda, organizações de milhões de militantes, quando apenas ontem a revolução sofreu derrotas catastróficas nos países mais importantes, derrotas provocadas por uma direção menchevique que se esconde atrás duma falsa máscara bolchevique? Onde?

Atravessamos agora um período de reação colossal, que sobrevém depois dos anos revolucionários (1917-1923). Num plano histórico novo e mais elevado, nós, os marxistas revolucionários, voltamos a ser uma minoria pequena e perseguida, quase como no princípio da guerra imperialista. Toda a história - a partir, digamos, da Primeira internacional(5) - demonstram que essas regressões são inevitáveis. A vantagem que temos sobre os nossos antecessores é que hoje a situação é mais madura e nós mesmos somos mais "maduros", posto que nos apoiamos em Marx, Lenine e muitos mais. Somente podemos capitalizar a nossa vantagem se somos capazes de exercitar uma grande intransigência ideológica, mais implacável ainda que a realizada por Lenine ao estourar a guerra. Os impressionistas sem caráter, como Radek, afastar-se-ão de nós. Falarão do nosso "sectarismo". Não devemos temer as palavras. Já vivemos situações similares em duas ocasiões: durante a reação de 1907-1912 na Rússia, e em toda Europa durante os anos de guerra. Haverá novas capitulações individuais, deserções, traições declaradas. O qual é inerente ao caráter da etapa.

O que resta nas nossas fileiras será mais digno de confiança. A maior honra - a que pode aspirar hoje um revolucionário autêntico é seguir sendo um "sectário" do marxismo revolucionário para os filisteus, os lamuriantes e os pensadores superficiais. Permita-me repetir: hoje voltamos a ser somente uma sociedade internacional de propaganda. Não vejo nisto o menor motivo para cair no pessimismo, apesar de que temos por detrás de nós a grande montanha da Revolução de Outubro. Ou mais precisamente, justamente por termos por detrás de nós esta grande montanha histórica. Não me cabe a menor dúvida de que a base do desenvolvimento do novo capítulo da revolução proletária será o nosso grupo "sectário".

11. Para terminar, duas palavras sobre o conjunto do grupo de Brandler. Você concorda comigo de que Brandler e Thalheimer são incorrigíveis. Eu estou disposto a concordar com você de que a fração é superior aos seus líderes. Muitos operários foram parar nesta fração, desesperados com a política do partido oficial, e recordando ao mesmo tempo a lamentável direção dos ultra-esquerdistas a partir de 1923. Tudo isto é certo. Um setor destes operários, o mesmo que um setor dos operários ultra-esquerdistas, passar-se-á à social-democracia. Outro se achegará de nós, se não somos indulgentes com a direita. A nossa tarefa consiste em explicar que a fração brandlerista não é mais que uma nova porta de entrada à social-democracia.

12. Necessitamos dum programa de ordens transicionais? Sim. Devemos aplicar uma tática correta nos sindicatos? Indubitavelmente. Mas somente se pode discutir estes problemas com quem tenha resolvido clara e firmemente com que fim necessitamos de tudo isto. Assim como não discuto as diversas correntes do materialismo com um homem que se persigna ao passar por uma igreja, não vou elaborar ordens e táticas com Brandler, quem, por uma questão de princípios, confunde a frente com o reverso da revolução. Primeiro temos que nos atrincheirar nos nossos princípios, depois buscar um ponto de partida correto, e somente então avançar segundo os lineamentos táticos. Estamos agora numa época de autoclarificação principista e implacável diferenciação a respeito dos oportunistas e confusionistas. Este é o único caminho que conduz à revolução.

Com saudações cálidas e intransigentes

L. Trotski


Notas:

(1) Mais uma vez sobre Brandler e Thalheimer. The Militant, 1º de Outubro de 1929; utiliza-se aqui uma tradução revisada, publicada em Fourth Internacional, Agosto de 1946. Em Biulleten Opozitsi, Nº 1-2, publicou-se este artigo com data errada. Esta carta era continuação das observações de Trotski sobre os brandleristas, iniciadasem Agrupamentos na Oposição Comunista. (retornar ao texto)

(2) O Arbeiter Zeitung (Jornal dos Trabalhadores) de Viena: periódico central da social-democracia austríaca. (retornar ao texto)

(3) A Internacional de Amsterdã (também chamada internacional "amarela"): a Federação Sindical Internacional, principal Organização sindical existente então, ligada aos reformistas e controlada por eles. Entre as duas guerras mundiais o seu rival mais importante foi a Internacional Sindical Vermelha ou Profintern, dirigida pola Comintern. (retornar ao texto)

(4) O 4 de Agosto de 1914: dia em que os deputados social-democratas ao Reichstag alemão votaram a favor do orçamento de guerra para financiar a Primeira Guerra Mundial, apesar da posição antimilitarista sustentada até esse momento polo seu partido; no mesmo dia, os partidos socialistas da França e Bélgica publicaram os seus manifestos declarando o apoio, na guerra, a seus respectivos governos. (retornar ao texto)

(5) A Primeira Internacional (ou Associação Internacional dos Trabalhadores): organizada em 1864, entre os seus fundadores estava Karl Marx. Os seus dirigentes dissolveram-na em 1876 porque opinavam que não podia seguir cumprindo a sua missão revolucionária. (retornar ao texto)

 

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