Voltemos mais uma vez à figura deste homem que está sempre entre o que foi feito e o que está por fazer. Aliás, sua fala mais habitual, quando se conversa com ele sobre o trabalho, é: “O que existe não é nada comparado ao que deve ser”.
“Ele é o alvo de nossos inimigos, e eles têm razão”, diz Vilhelm Knorin. “Ele é o nome do nosso Partido”, diz Andrei Bubnov. “É o melhor da velha coorte de ferro”, diz Dmitry Manuilsky. “Os velhos bolcheviques, nós os respeitamos”, diz Anastas Mikoyan, “não porque são velhos, mas porque não envelhecem”.
Sua história é uma série de êxitos sobre uma série de dificuldades monstruosas. Não há um único ano de sua trajetória, desde 1917, em que o que ele fez não tivesse consagrado um outro homem. É um homem de ferro. Seu nome o descreve: Stálin — aço. Ele é inflexível e flexível como o aço. Seu poder é seu formidável bom senso, a amplitude de seus conhecimentos, sua surpreendente organização interior, sua paixão pela clareza, seu inexorável espírito de continuidade, a rapidez, a segurança e a intensidade de sua decisão, sua perpétua obsessão em escolher os homens necessários.
Os mortos só sobrevivem na terra. Lênin está em toda parte onde estão os revolucionários. Mas pode-se dizer: é em Stálin, mais do que em qualquer outro lugar, que se encontram o pensamento e a palavra de Lênin. Ele é o Lênin do nosso tempo.
Sob muitos aspectos, como vimos, ele se assemelha ao extraordinário Vladimir Ilyich: a mesma ciência da teoria, o mesmo senso da prática, a mesma firmeza. Em que diferem? Eis duas opiniões de operários soviéticos: “Lênin: o Diretor; Stálin: o Mestre”. E ainda: “Lênin é um homem maior, mas Stálin é mais forte”.
Não levemos, contudo, muito longe esses paralelos que, através de suas vagas indicações, poderiam nos levar ao artificial no que toca a essas personalidades de dimensões excepcionais, das quais uma formou a outra.
Digamos, se quiserem, que Lênin, sobretudo devido às circunstâncias, foi mais agitador. No vasto sistema diretor, mais avançado, mais evoluído, Stálin deve agir mais por intermédio do Partido, por intermédio da organização, pode-se dizer. Stálin não é, hoje, o homem das grandes manifestações insurretas tempestuosas. De resto, essa força tumultuosa da eloquência, que é todo o mérito dos déspotas arrivistas — e o único também, muitas vezes, dos apóstolos que triunfam —, ele nunca a utilizou: constatação a ser meditada pelos historiadores que hão de medi-lo.
É por outras vias que ele se colocou e se mantém em contato com o povo operário, camponês e intelectual da URSS, e com os revolucionários do mundo, que trazem a pátria no coração — ou seja, muito mais de duzentos milhões de pessoas.
Vislumbramos alguns dos segredos de sua grandeza. Entre os recursos do seu gênio, qual é o principal? Bela Kun diz, numa bela fórmula: “Ele sabe não ir depressa demais. Ele sabe pesar o momento”. E Bela Kun pensa ser essa a qualidade específica de Stálin, aquela que lhe pertence propriamente, além das outras: esperar, contemporizar, resistir às tentações precipitadas, ter uma paciência terrível. Não é esse poder que faz com que, de todos os Revolucionários da história, tenha sido Stálin quem mais enriqueceu a Revolução na prática, e quem cometeu menos erros?
Ele pondera e reflete muito antes de propor certas medidas (“muito” não quer dizer “por muito tempo”). É extremamente circunspecto e não concede facilmente sua confiança. Dizia a um de seus colaboradores próximos, que desconfiava de um terceiro: “A desconfiança saudável é uma boa base de trabalho coletivo”. Ele é prudente como um leão.
Este homem límpido e luminoso é, como bem vimos, um homem simples. Só é difícil encontrá-lo porque ele está sempre trabalhando. Quando se vai vê-lo, numa sala do Kremlin, encontram-se, ao todo, três ou quatro pessoas ao pé de uma escada e nos vestíbulos. Essa simplicidade orgânica não tem nada a ver com a simplicidade “de fachada” de tal monarca escandinavo que se digna a sair a pé pelas ruas, ou de um Hitler fazendo seus propagandistas alardearem que ele não fuma e não bebe vinho. Stálin vai se deitar regularmente às 4 horas da manhã. Ele não tem 32 secretários, como Lloyd George; tem apenas um, o camarada Alexander Poskrebyshev. Não assina o que outros escrevem. Fornecem-lhe o material, e ele faz tudo. Tudo lhe passa pelas mãos. E isso não impede que ele responda ou mande responder a todas as cartas que recebe. Quando o encontramos, ele é cordial, familiar. Sua “franca cordialidade”, diz Serafima Gopner, “sua bondade”, “sua delicadeza”, diz Varvara Dzhaparidze, que lutou ao lado dele na Geórgia. “Sua alegria”, diz Mamia Orakhelashvili. Ele ri como uma criança.
Na cerimônia que encerrou o jubileu de Gorky, no Grande Teatro de Moscou, durante os intervalos, algumas das personalidades oficiais reuniram-se nos salões situados atrás de um camarote outrora imperial ou grão-ducal. E lá, faziam uma algazarra infernal. Riam todos às gargalhadas. Estavam lá Stálin, Sergo Ordzhonikidze, Alexei Rykov, Andrei Bubnov, Vyacheslav Molotov, Kliment Voroshilov, Lazar Kaganovich, Osip Piatnitsky. Contavam anedotas da guerra civil, evocavam lembranças engraçadas: “Você se lembra de quando caiu do cavalo?...” “Sim, aquele bicho maldito, não sei o que lhe deu...”.
E era um riso homérico, uma potência de alegria, um trovão de juventude que fazia vibrar os painéis czaristas dos pequenos salões — breve e fresco relaxamento dos grandes rebocadores da reconstrução.
Lênin também ria com todas as suas forças.
Nunca encontrei, — diz Máxim Gorky, — um homem cujo riso fosse tão contagioso quanto Vladimir Ilyich. Era até estranho ver que um realista tão austero, um homem que via tão bem e sentia tão profundamente a iminência das grandes tragédias sociais, um homem inabalável em seu ódio pelo mundo capitalista, pudesse rir assim, até às lágrimas, até perder o fôlego. — E Gorky conclui: — É preciso ter uma grande, uma sólida saúde moral para rir assim.
Se Stálin algum dia tomar conhecimento da monumental estupidez que o Almanaque Vermot de 1935 publica: “Stálin gasta 250 milhões por ano para suas necessidades pessoais”, eu consigo ouvi-lo rir daqui!
Aquele que ri como uma criança gosta de crianças. Ele tem três: o mais velho, Yakov, e dois pequenos, Vasily, que tem catorze anos, e Svetlana, de oito anos. Sua esposa, Nadezhda Alliluyeva, morreu no ano passado: sua forma terrena não é mais do que um belo rosto nobremente plebeu e um belo braço de mármore branco, emergindo de uma grande estela no cemitério de Novodevichy. Ele praticamente adotou Artyom Sergeyev, cujo pai morreu num acidente em 1921. Ocupou-se paternalmente das duas filhas de Prokofy Dzhaparidze, fuzilado pelos ingleses em Baku. E de quantos outros! Vejo ainda o encantamento de Arnold Kaplan e de Boris Goldstein, dois pequenos prodígios do piano e do violino, dizendo-me como Stálin os recebeu após o triunfo deles no Conservatório. E, inclusive, deu a cada um 3 mil rublos dizendo: “Agora que você é capitalista, vai me cumprimentar na rua?”.
Em torno do riso de Lênin e de Stálin, e, se assim se pode dizer, na mesma linhagem de fenômenos, está a ironia. Eles fazem dela uso abundante, a torto e a direito. Muito voluntariamente, Stálin dá à expressão de seu pensamento uma forma divertida ou caricatural. Demyan Bedny nos conta uma bela história:
Às vésperas das jornadas de julho de 1917, estávamos nós dois, Stálin e eu, na redação do Pravda. O telefone toca. Os marinheiros de Kronstadt perguntam a Stálin: “Devemos ir à manifestação com ou sem fuzis?”
“O que ele vai responder por telefone?” — Perguntava-me eu, muito atento.
— Os fuzis? Ué, isso é com vocês, camaradas! Nós, jornalistas, vamos levar nossos lápis...
Naturalmente, — diz Bedny, — todos os marinheiros foram à manifestação carregando seus “lápis”.
Ele sabe, de resto, quando baixar o tom. Quando Emil Ludwig exclama, a propósito de uma resposta: “O senhor não suspeita o quanto tem razão!”, ele responde gentilmente: “Quem sabe, talvez eu suspeite um pouco”. Por outro lado, quando o mesmo escritor lhe faz esta pergunta: “O senhor acredita que podem compará-lo a Pedro, o Grande?”, ele responde sem ironia: “As comparações históricas são sempre arriscadas. Essa é absurda”. Ele não aproveita todas as ocasiões que lhe dão para rir alto.
O que sempre sobressai é: não tentar brilhar, não se vangloriar.
Stálin escreveu livros importantes e em grande número. Vários deles têm valor clássico na literatura marxista. Mas se lhe perguntam o que ele é, responde: “Não sou mais do que um discípulo de Lênin, e toda a minha ambição é ser um discípulo fiel”. É curioso notar o quanto, nas exposições do trabalho realizado sob sua direção, Stálin credita sistematicamente a Lênin o mérito de todos os progressos obtidos, embora ele próprio tenha nisso uma grande parcela e, de resto, não se possa realizar o leninismo sem ser, também, um inventor. Aqui, a palavra “discípulo” eleva — mas esses homens só se servem dela para rebaixar seu papel particular e integrar-se ao conjunto. Não é subserviência, é simplesmente fraternidade.
Pensa-se na bela frase lapidar de Sêneca, o Filósofo: “deo non pareo sed assentior” — “Não obedeço a Deus, penso como ele”. Se ainda levarmos tempo para compreender essa gente, não será por causa de sua complexidade, mas por causa de sua simplicidade. Vê-se muito claramente que é outra coisa, que não a vaidade pessoal e o conteúdo que se deposita no próprio nome, que empurra este homem para a frente, que o mantém de pé na brecha. É a fé neste grande país onde os cientistas começam a ressuscitar realmente os mortos e salvam os vivos com o sangue dos cadáveres, onde se curam os criminosos, onde as religiões nebulosas e tóxicas são expulsas para o espaço pelo vento do largo; a fé sobe da própria terra, como as florestas e as colheitas. É a fé na justiça imanente da lógica. É a fé neste saber, que Lênin expressou tão profundamente quando respondeu a quem lhe falava do covarde atentado de que acabara de ser vítima e que abreviou seus dias: “O que querem vocês! Cada um age conforme sabe!”. É a fé na ordem socialista e na multidão que a encarna, no trabalho, naquilo que Stetsky chama de crescimento tempestuoso das forças produtivas:
O trabalho, — diz Stálin, — é uma questão de dignidade, de heroísmo e de glória. É a certeza no Código do Trabalho, a lei comunista, e seu paroxismo de honestidade.
[...] Cremos no nosso Partido, — dizia Lênin. — Vemos nele o espírito, a honra e a confiança da nossa época.
[...] Não é dado a todos ser membro de tal Partido, — diz Stálin. — Não é dado a todos resistir às adversidades e tempestades.
Se Stálin tem certeza nas massas, a recíproca é verdadeira. É um verdadeiro culto que a Rússia Nova tem por Stálin, mas um culto feito de confiança, e que brota inteiramente de baixo. O homem cuja silhueta, nos cartazes vermelhos, destaca-se, encastrada nas de Karl Marx e de Vladimir Lênin, é aquele que se interessa por tudo e por todos, que fez o que existe e que fará o que será. Ele salvou. Ele salvará.
Sabemos bem que, segundo as próprias palavras de Stálin, “os tempos em que os grandes homens eram os principais criadores da história acabaram”. Mas, se é preciso negar o papel exclusivo exercido sobre os acontecimentos pelo “herói”, tal como o coloca Carlyle, não se deve contestar seu papel relativo. Também aqui é preciso pensar que o que é semelhante se obedece. O grande homem é aquele que, prevendo o curso das coisas, o antecipa em vez de segui-lo e, preventivamente, age contra algo, ou age a favor. O herói não inventa a terra desconhecida, mas a descobre. Ele sabe suscitar os vastos movimentos de massas — e, no entanto, eles são espontâneos —, de tal modo o conhece as causas. A dialética, bem aplicada, extrai de um homem o que ele contém — de um acontecimento também. Em todas as grandes circunstâncias, é preciso um grande homem, como uma máquina centralizadora. Lênin e Stálin não criaram a história — mas a racionalizaram. Eles aproximaram o futuro.
Fomos feitos para fazer o espírito humano produzir, aqui na terra, o maior progresso possível, pois, em última análise, é disso que, acima de tudo, somos os depositários: o espírito. A lealdade de nossa passagem sobre a terra consiste em evitar empreender o impossível, mas ir tão longe quanto as forças permitirem na realização prática. Não se deve fazer os homens acreditarem que serão impedidos de morrer. É preciso querer fazê-los viver plena e dignamente. Não se deve lançar corpo e alma sobre os males incuráveis, que são da natureza humana, mas sobre os males curáveis, que são de ordem social. Só nos elevaremos acima da terra por meios terrestres.
Quando se atravessa a Praça Vermelha à noite — esse imenso palco onde o presente de uma nação que fala ao mundo se mistura ao passado pré-1917, quase arcaico — dá a impressão de que aquele que repousa no mausoléu é o único que permanece desperto. Ele vela, silenciosamente, por tudo o que se estende ao redor: cidades, vilas, fábricas, campos intermináveis. É o guia autêntico — aquele de quem os operários diziam, com humor sincero, que era ao mesmo tempo mestre e camarada; o irmão mais velho, paternal, que realmente se inclinava sobre todos. Mesmo que tu não o tenhas conhecido, ele te conhecia, e já cuidava de você. Quem quer que seja, precisa desse benfeitor. Quem quer que seja, parte essencial do seu destino está nas mãos desse outro homem que também vigia e trabalha: o homem de cabeça de sábio, rosto de trabalhador e uniforme de um simples soldado.
JANEIRO DE 1935