Eis onde estamos, sob os sóis que se levantam — nesta época em que, como diz Lazar Kaganovich, são oceanos que correm sob as pontes.
Todos os Estados, exceto um, caminham para a ruína através do fascismo, e todos caminham para a guerra. A situação é trágica. Mas ela não é complexa. Ela é simples.
No século 19, por precisão e esclarecimento das situações políticas anteriores, a humanidade atuante dividiu-se em duas partes: os conservadores e os revolucionários. Aqueles que querem manter a forma capitalista da sociedade, e aqueles que querem mudá-la num sentido igualitário. A luta começou, um pouco por toda parte, com tendências a se generalizar, entre essas duas forças massivas.
Concretamente, foi, de um lado, a classe operária parcialmente organizada em exército internacional (político e sindical), e todos os seus simpatizantes; do outro lado, a burguesia reinante — herdeira universal da Revolução Francesa —, suas forças de Estado, seus advogados e defensores de toda espécie, e também todos os contrarrevolucionários de todos os graus.
Pois parecia haver posições intermediárias. Na realidade, não havia. Entre os dois partidos essenciais, todos os outros partidos políticos encenavam comédias inconsistentes e evanescentes. De tal estado de coisas emergia esta evidência: Não há terceiro mundo. Não há terceira via. Não há meios-termos. Tudo o que não é revolucionário é conservador — até os reformistas são absorvidos gradualmente pelo bloco da conservação social — até os neutros e os indiferentes pesam ali com seu peso morto — as próprias meias-revoluções ali recaem e ali morrem por inteiro. Enquanto não se tem tudo, não se tem nada.
Consequentemente, o prestigioso liberalismo burguês que tem tantos adeptos, como todos os “justos meios”, e que proclama: “Nem reação nem revolução”, e canta todas as variantes dessa fórmula —, repousa sobre uma interpretação grosseiramente errônea da realidade. A exigência dos fatos diz peremptoriamente, em nossa época: ou reação ou revolução. São as duas únicas alternativas. Pela força da lógica e pela força das coisas, as formações intermediárias oscilam e caem ou à direita, ou à esquerda (quase sempre à direita). Não há meio de escapar a essa matemática da realidade (de resto, toda a nossa história contemporânea a confirma).
Que se repita para cravar o prego: Se não é revolucionário, o não-conservador, diga ou faça o que quiser, é conservador. O justo meio é uma reação que cobre o rosto. Restam sempre os dois blocos: o capitalismo, que sustenta por meios artificiais (propagandas mentirosas e o emprego abusivo da força que possui apenas em razão de sua situação adquirida), o duplo inchaço anárquico do indivíduo e da nação, e que permanece o caldo de cultura normal da injustiça, da espoliação, da corrupção e da guerra —, e o socialismo, que retira de circulação o enriquecimento privado, faz tudo retornar às mãos da comunidade dos produtores: os trabalhadores manuais e intelectuais, e diz que a nação não é o último, mas o penúltimo degrau da unificação dos habitantes do mundo.
Hoje, é ainda a mesma divisão universal, com os mesmos caracteres fundamentais, mas com uma apresentação diferente. Houve fatos novos — e que fatos! Um reforço geral do movimento operário e da consciência revolucionária. Várias revoluções na sequência da guerra — uma guerra cujas dezenas de milhões de vítimas e centenas de bilhões em devastações não se podem cifrar, e que não tinha causas confessáveis. O sucesso de uma dessas revoluções; a constituição de um Estado marxista em um vasto país. Findo, no primeiro quartel do século 20, o tempo em que o ventre capitalista tinha o Equador por cinto. Ao mesmo tempo, a maquinaria socialista mundial, a Internacional, reforjada de novo.
Depois, logo em seguida, houve a crise econômica mundial. “Crise temporária, como as outras”, diziam os pontífices aturdidos, “a sétima ou a oitava”. Não, crise orgânica do capitalismo, crise de decadência, de velhice e de bolor, todos os meios gastos, todas as saídas repletas (produzir, produzir; vender, vender. Mas todos os clientes são vendedores também, nas beiras das fronteiras. Sua mercadoria recai sobre o país produtor, e o impede de respirar). O comércio morre de um aborto. Resultado muito normal do próprio princípio. Não é a superprodução que se deve incriminar, pois o mundo em sua totalidade não tem o bastante com toda a produção atual, é a desordem na repartição da produção em razão dos nacionalismos econômicos. É muito normal também que, sob todas as grandes empresas, pulule a vigarice.
Então, já não se pode mais citar como modelo de gestão o método que semeia a miséria, cultiva a bancarrota e põe os ladrões no pináculo, o regime onde o trabalho rende a fome (sem contar a guerra, de novo visível em todos os pontos cardeais). Por outro lado, não se pode mais citar como modelo das alegrias da escravidão o operário americano, o operário dourado: eis um dos grandes argumentos domesticadores de multidões que voa pelos ares.
O capitalismo, para continuar a ser capitalismo, deve, portanto, esconder o jogo. Fê-lo com um pérfido pudor. Como dizia muito expressivamente Stálin há pouco tempo, o capitalismo não pode sair da crise de “cabeça erguida”, “ele só pode sair de quatro”.
Diante dos progressos do socialismo e dos progressos de sua própria podridão, a burguesia recompôs-se muito depressa. Aperfeiçoou (ela tem os meios materiais para tal) seu programa de dominação conservadora, e hoje surge bastante camuflada. O sistema capitalista fica nos bastidores. Já não é ele quem se apresenta em primeiro plano.
Esse revestimento, que chamamos de fascismo — e que, sem ser uma fase fatal do poder burguês, aparece, de fato, em toda parte e se torna o uniforme novo do capitalismo —, tem por objetivo essencial dividir o adversário e, notadamente, isolar a classe operária, e o socialismo no mesmo golpe, ganhando para si as massas laboriosas não-operárias. Tal tática foi objeto de uma longa preparação, de uma propaganda contínua, intensiva, muito calculada, desde a guerra, ao fim da qual as classes dirigentes estavam desamparadas e perdiam o pé.
O descontentamento, nascido de todas as desilusões e de todas as durezas da existência do pós-guerra, o capitalismo o excitou e o explorou através de uma certa demagogia democrática e de alguns empréstimos desonestos à terminologia socialista (furtos de balcão). Ele extraiu uma resultante de todas as amarguras, de todas as decepções, de todas as cóleras. Canalizou e desviou tudo isso contra alguns alvos fáceis.
Um desses alvos (além do socialismo) é o regime parlamentar, que é preciso varrer para varrer os pretextos das liberdades (as próprias liberdades já se foram). Assim, carrega-se o regime parlamentar (que, aliás, se presta bastante a isso!) de todos os pecados de Israel. É uma maneira malandra de isentar o próprio regime burguês.
E depois, todos os outros bodes expiatórios que se queira. Mais forte que os outros, a reação reinante gritou contra os escândalos, as fraudes, as concussões quase oficiais, que coroam seus próprios métodos, e debateu-se para incriminar pelos malfeitos do capitalismo, não todos os capitalistas, mas apenas aqueles que acabaram, afinal, por cansar a imensa complacência da justiça de classe.
Jogando assim com as palavras (por exemplo, com a palavra elástica “regime”), a reação “novo estilo” fabricou um certo anticapitalismo de excelente alcance demagógico. É a única maneira de conservar o capitalismo: suprimam o Parlamento para instaurar um governo ditatorial e persigam os canalhas que se deixaram apanhar — o capitalismo torna-se inatacável.
Essa ação de defesa do capitalismo, com seu rudimento de programa superficial e negativo, emana de todos os tipos de organizações que pouco diferem senão por seus títulos, e forma um bloco contra o movimento operário.
Joga-se contra o operário: as classes camponesas, as classes médias; jogam-se os funcionários contra os trabalhadores manuais, e contra os funcionários, joga-se todo mundo. Ofuscam-se os contribuintes, os ex-combatentes que não veem claro, os jovenzinhos. A ideia diretriz é organizar os não-organizados, a população flutuante (numa organização nova da qual se seguram os fios), e afogar o operário aí dentro.
O socialismo — o sarnento, o leproso, o autor de todo o mal, misturado em confusão com o regime parlamentar —, batem nele com força, dando dele uma imagem desnaturada. Horrorizam as pessoas fazendo-as acreditar que o socialismo trama a sua perdição.
Dizem: “Os socialistas governaram: na Inglaterra, na Alemanha. Vejam o que eles fizeram”.
Negligenciam acrescentar que os personagens em questão eram talvez socialistas de nome, mas que jamais aplicaram o socialismo. Todavia, é preciso reconhecer que esse sofisma ganha muita força em razão da real decepção que tais líderes social-democratas, por suas ações, durante a guerra e após a guerra, trouxeram aos operários. Essas negociatas, ou desleais ou pueris, e essas traições efetivas, desacreditaram bastante o socialismo e o enfraqueceram notavelmente em certos meios operários não maduros para a enérgica intransigência do comunismo.
Por outro lado, exibe-se com honra o Sr. MacDonald, socialista convertido à virtude capitalista, “como se exibe um bêbado curado nas sociedades de temperança”, diz o Sr. Snowden (que só acha o que criticar nisso por razões de ciúme e animosidade pessoal). Quanto às realizações da URSS, escondem-nas, roubam-nas dos povos.
Os neorreaionários visam sobretudo (naturalmente) a organização operária sindical. Sabemos o que pensam disso Mussolini e aqueles que sopram a Hitler o que ele deve dizer. E não faz muito tempo, o Sr. André Tardieu dizia explicitamente: “Para superar a crise mundial, basta um controle efetivo do Estado sobre os sindicatos operários”. Totalmente de acordo com esse princípio, está o sistema do Estado corporativista que brilha na Itália, na Alemanha, e na França nos bastidores.
É um regime de férula e de militarismo chato — que entusiasma o Sr. Krupp: faz de cada operário um soldado do patronato — uma ferramenta ou um fuzil com patas.
Mas a grande arma do fascismo contra o socialismo é o nacionalismo.
A unidade e a grandeza nacionais, profetiza ele, só podem se cumprir se esmagarmos o internacionalismo, que é o principal elemento de desordem, de miséria e de perdição. Portanto, abaixo os estrangeiros, os metecos, os judeus — e sobretudo os socialistas, e sobretudo os comunistas.
O nacionalismo é o princípio dinâmico do fascismo. É o alcoolismo chauvinista que faz marchar esse reagrupamento oportunista do capitalismo. É o fermento.
Um poderoso fermento, com efeito — o mais simplista, o mais terrível, o mais feroz. Esse vírus põe fogo nas entranhas de centenas de milhões de pessoas. O mito do interesse ou da honra nacional torna enraivecido o mais apagado e o mais neutro dos cidadãos — a fortiori, a juventude vazia e barulhenta. Eis aí o mais estúpido dos maus instintos, pois, contagioso de vizinho a vizinho, prepara tolamente todas as calamidades.
“Nós, apenas nós!” Fórmula sumária que economiza as longas reflexões e as visões de longo alcance. Preciosa fórmula-chave, que se adapta ao mesmo tempo aos interesses vitais da gente de dinheiro, da gente de sabre e da gente de igreja, e à estupidez dos outros.
A conservação social apresenta-se, portanto — para a luta final — sob a forma de um suposto reerguimento moral e nacional, calcando aos pés o socialismo e a liberdade, sob a forma de um poder forte, que se impõe e se coloca militarmente acima da crítica. É a polícia capitalista esticada em partido.
Tal é a mistura que o fascismo enfiou e está enfiando no crânio dos contribuintes — e que pretende resolver a crise e o marasmo com a ajuda dos mesmos meios que os provocaram. Os fascismos diferem entre si na superfície; no fundo, é o mesmo.
Por mais que constitua uma espécie de farsa democrática, de caricatura do socialismo, por mais que profira bem alto as palavras de revolução, de economia dirigida — e de antifascismo — e se sente sobre os princípios proletários para se altear —, essa suposta doutrina de renovação popular que se instalou na Itália, na Alemanha, na Hungria, na Polônia, na Península Balcânica, em Portugal, na Áustria, que generalizou contra os homens livres e contra os libertadores os mais formidáveis abatedouros humanos e as mais pavorosas torturas —, e que recruta, na hora em que estamos, adeptos entre as juventudes, a pequena-burguesia e os fiéis das igrejas da França e dos outros países ainda não pisoteados por ela — não é mais democrática do que é nova. É o antigo capitalismo empanachado, estanhado e militarizado, são as mesmas enormes contradições fundamentais através de uma doutrina tão vaga que as boas pessoas podem acreditar — no começo — que as empurram para a frente, enquanto as puxam para trás.
Ele não traz nada. O fascismo não é e jamais será senão um verniz sobre uma velharia nefasta, e os fascistas só fazem esforço de imaginação e de originalidade para encontrar a coloração de suas camisas, e para persuadir as multidões de que se pode alimentar de fumaça. É sempre esta sociedade onde só se prospera na medida em que se arruína, onde só se vive na medida em que se mata, esta sociedade que vai aos novos continentes para arrombar as fronteiras frágeis e para fazer os indígenas pagarem pelo ar que respiram, esta sociedade abjeta, onde não se pode ser honesto sem ser um tolo, onde as eleições falseiam a vontade popular, a sociedade da exploração do homem pelo homem, do assassinato do homem pelo homem, e de todos os grandes vencimentos sociais indefinidamente adiados por falaciosas aparências de soluções, esta sociedade onde os bailes mascaram os vulcões.
É proibido a um tal sistema deter a crise; ao contrário, pois quanto mais o nacionalismo caminha para o seu desenvolvimento, mais caminha para a sua destruição.
Ele não traz nada — senão a condenação à morte. A “ordem” proclamada pela burguesia é, através da desordem atual, a ordem de cemitério.
O que pode sair disso? A guerra. E seriam, de novo, os focinhos das máscaras de gás, os trens de soldados, carros fúnebres de vivos, as multidões que correm para se fazer matar indiretamente, os campos metalizados, as aldeias petrificadas, e as populações asfixiadas, engaioladas nos subsolos.
Mas a guerra é, também, a revolução social semeada a esmo nos sulcos das trincheiras e nos lares das cidades.
Enquanto isso, a chance que tem esse programa fantasma de se implantar por toda parte, de miragem grosseira e de abismo, é — além de seu chamariz democrático — que ele tem a seu favor a força bruta, a força de Estado. É que todos os governos da Europa e da América são fascistas ou pré-fascistas.
O capitalismo, arrastado na despencada das estatísticas, na fuga das cifras, desmoronado economicamente, é ainda forte politicamente. Esses falidos estão armados até os dentes. Eles já não se mantêm de pé, mas têm nas mãos metralhadoras, tanques, bombas, exércitos, têm policiais corpulentos que se poderia expor nas Exposições Agrícolas. Têm os tribunais (as prisões), os jornais, as escolas, a diplomacia e as alianças agressivas. Têm as leis, fabricam a legalidade como moeda. Fazem inflação de legalidade. Têm tudo o que é preciso para limpar os países de seus homens livres, para espoliar os fracos, para explorar falsamente a civilização, para insuflar em uma parte da pequena-burguesia a confiança nacional até a epilepsia, até a morte, para desperdiçar o trabalho, e manter ainda um pouco a era de decadência e de destruição.
Portanto, há seis Partes do mundo: as cinco velhas, e a nova. Por toda parte, fora do continente soviético, os governos são os inimigos dos povos.
Todos os povos, encurralados nos países, prisioneiros nos campos de concentração traçados pelas fronteiras, valem o mesmo, e valem o povo soviético. São todos grandes, todos respeitáveis. A massa viva é sagrada. O ódio que se tem pelos governantes capitalistas, que, de longe, são loucos, e, de perto, malfeitores, faz parte desse respeito pelos povos: o grande povo alemão, o grande povo italiano, o grande povo inglês — e todos os outros (digamos melhor: o único povo do mundo inteiro).
Os governos que, por toda parte, abusam do poder que não possuiriam mais se tudo fosse sinceramente posto em questão, praticam no interior ora procedimentos de torturadores, ora procedimentos de curandeiros e de hipnotizadores, para persuadir os pobres de que eles vão sarar.
E eles praticam um com o outro uma casuística e uma barganha de complexidade burlesca — pois não se pode fazer a céu aberto uma política onde o crescimento de um depende ultrajosamente da diminuição dos outros.
E isso resulta, através de múltiplas conferências preparatórias e acordos preliminares, no reforço dos armamentos. E carta branca aos mercadores de canhões, que têm o requinte de vender também sua mercadoria ao inimigo eventual. De resto, lembremo-nos, a título de estimável precedente, que durante a Guerra, no front búlgaro, os soldados franceses eram despedaçados pelo canhão de 75mm francês. Durante a guerra do Rife, soldados franceses eram abatidos por fuzis franceses. O Sr. Schneider, de Creusot, controla e explora a fábrica tcheca de armamentos, a Skoda, que fornece armamentos à Alemanha e empurra Hitler para a guerra.
Ultimamente, no Congresso Radical, Jean Sennac declarou, sem desmentido, que Schneider havia vendido 400 tanques à Alemanha, e que tal fábrica francesa do Sudoeste lhe vende produtos que entram na fabricação de explosivos. Em outros pontos, essas encomendas bilaterais seguem seu curso, e não faz muito tempo, a China e o Japão iam juntos fazer uma diligência junto a um de seus fornecedores comuns para incitá-lo a reduzir os preços de seus utensílios de morte. A realidade se amplifica até a caricatura.
Do Báltico ao Mediterrâneo, os países estão acorrentados, na vitória da ruína capitalista.
Isso começou pela Itália. Degola dos operários e dos revolucionários, terror abjeto, sevícias e suplícios piores que os da Inquisição e cujos detalhes violentam a imaginação; domesticação geral, pelas pistolas e pelos tanques, e a morte lenta nas prisões que suam doença.
Mussolini, alto-falante da reação mundial, exibiu-se no palco social — como puro socialista — no momento em que os capitalistas estrangeiros ainda rolavam sobre o ouro e em que só se tinha que trair para ter os meios de se içar ao topo. Hoje, o assassino de Matteotti e de milhares de seus irmãos beneficia-se, pela série de suas apostasias e de seus crimes, de uma pesada conspiração do silêncio, que é a característica e a vergonha de nossa época, e inoculou sua glória na Itália.
O chefe dos Camisas Negras, o aristocrata dos selvagens dos italianos, não fez senão rebocar a fachada da Itália, mas, de resto, nada realizou ali de positivo, a não ser diminuir o número de italianos. A ruína não cessou de se propagar nesse país que é hoje, economicamente, o Estado mais miserável da Europa depois da Alemanha. (O fascismo, “regenerador do mundo”!). Na Itália, onde o professor dá suas aulas de uniforme, onde os operários, mesmo não desempregados, não têm com o que alimentar a ninhada — organizam-se canonizações para tentar fazer o comércio andar. Estende-se ali um silêncio de mordaça, e ali reina a ordem turística.
Não faz muito tempo que o pomposo “Faz-tudo” da política externa, a qual pratica como jogador e como chantagista (ao mesmo tempo revisionista e antirrevisionista — qualquer coisa para se pôr em destaque e fazer pagar caro seu papel de árbitro) — declarava que a Itália está no fundo do abismo, “que ela não pode cair mais baixo”. “O médico, a parteira, o professor, o engenheiro, isso é luxo. Se reclamarmos isso por toda parte, a coisa vai estragar”, declarou a Besta engalanada que, outrora, atirara tantas promessas mirabolantes e tantos blefes na cara de seus compatriotas.
A Alemanha da Cruz Gamada (duas forcas entrelaçadas). A classe operária resiste ali heroicamente, mas tem todo o seu destino a refazer. Hitler — com sua mecha, sua cara de cafajeste, seu pequeno bigode vertical que lhe cai do nariz, e seus caprichos de moralista bêbado, foi empoleirado no poder por dois velhos cômicos: Hindenburg e Clemenceau (a absurda maldade do Tratado de Versalhes é a única tese que rima com alguma coisa na argumentação desse apache).
Hitler reina, através de massacres de operários, de paradas militares e de orquestras de rádio, de montagens de processos, de assassinatos de chanceler, e dos sentimentais desentendimentos de sua guarda pessoal (noite de 30 de junho, escândalo político-passional).
Ele não é, também ele, senão o alto-falante e o agente do capitalismo, por mais despojador de judeus que seja. Agora que se fez sagrar supra-imperador, sua política consiste em renegar o programa nacional-socialista que o alçou ao trono. Para não desagradar à poderosa Reichswehr, elimina desse programa tudo o que, em consequência de um trocadilho (a palavra socialista), pudera ali iludir e parecer democrático a uma Alemanha recaída na infância. E retificará de novo, se necessário, qualquer mal-entendido, a golpes de ataques noturnos.
Ele queimou os livros, ele queimou o Reichstag, e ele tenta pôr fogo na Europa.
Ele pode conseguir. A máquina do alto da qual Hitler perora tem certas engrenagens terríveis. Todas as forças, todas as riquezas de um grande país semiatordoado, mas ainda poderosamente viável, a enciclopédica administração alemã, a tenaz confiança disciplinar que subsiste ainda numa parte dessa compacta população — tudo isso é posto febrilmente a serviço do rearmamento. Trata-se de poder chegar a algum resultado concreto e estrepitoso antes do colapso econômico. O operário alemão, que trabalha, recebe menos hoje do que recebia o desempregado há alguns anos. (A miséria é boa conselheira). O Partido Comunista vê crescer sua influência moral sobre o escândalo da Alemanha. O único recurso de Hitler, que não tem nenhum programa construtivo, é a guerra. Assim que se sentir suficientemente armado e munido de alianças, ele tirará a máscara. Jamais país algum foi arrastado tão claramente para a aventura.
Na Áustria, o governo não quer saber do banditismo estrangeiro, mas apenas do seu próprio. Os operários devem ser mortos, oficialmente, pelo exército e pela polícia nacionais, oficiosamente, pelas Heimwehren — não de outra forma. O chanceler Dollfuss, que massacrava os trabalhadores enquanto os abençoava, o pequeno chanceler cristão, o gambá do zoológico europeu foi assassinado, mas não deixa de ser um assassino. Nos Bálcãs, terror branco há uns quinze anos, como na Itália. A Bulgária, e sua caverna oficial, suas carnificinas em massa, sua floresta de forcas — tantos milhares de pessoas enforcadas, esquartejadas, queimadas vivas, cortadas em pedaços, mutiladas: as unhas e os pelos arrancados, as vísceras esmagadas, os ferros em brasa no ventre de homens e mulheres — e muitos outros procedimentos similares cujo emprego se espalhou em quase todos os países da Europa, e cuja incrível enumeração é como um grito de maldição contra a nossa era. As torturas, a grande imprensa finge ignorá-las. As execuções, grandes festas. Na Hungria, nos enforcamentos de revolucionários, desmaiavam de prazer as grandes damas, irmãs das burguesas parisienses que, com suas sombrinhas, furavam os olhos dos Comunardos prisioneiros que eram levados. Em Sófia, filmou-se, em meio a 50 mil pessoas, a execução de Friedmann, condenado, sem provas, pelo atentado da Catedral.
No topo de um regime totalmente igual, Carol, o rei gigolô da Romênia, e o finado Alexandre da Sérvia, o carrasco e matador-chefe dos sérvios e dos povos dados a granel à Sérvia pela Entente, e que era rei porque malandros tinham penetrado uma noite, escalando, num quarto de vestir e haviam esfaqueado um homem e uma mulher. A Sérvia já tinha sido a fornecedora do pretexto da guerra em 1914: Sarajevo. Ela tentou recomeçar buscando briga com a Hungria ou, melhor, com o governo de Horthy, regente dos torturadores sádicos e protetor dos falsificadores de moedas de Budapeste, o qual dava refúgio aos terroristas da Ustaše pagos pelos nazistas —, argumentando para isso com o luto brusco que a supressão do rei Alexandre impõe à parte da população iugoslava que não tinha sido assassinada por esse bom rei. Mas o caso não se apresentou de forma oportuna e o pretexto foi descartado. Mais acima, no mapa, é Piłsudski, espécie de Rei Ubu que a visão de um operário enlouquece (ele manda fuzilar os simples grevistas e os simples manifestantes do 1º de Maio), e que traiu tão deliberadamente a França quando esta, empobrecida, cessou de sustentar a Polônia oficial. E em outros lugares, é Masaryk, o sábio Presidente, que tem tanto amor pela democracia e pelos decretos-leis quanto ódio pela classe operária. E é a Suíça que se distingue hoje não apenas porque a Paz ali veraneia, sendo a sede da Liga das Nações, onde não se fala senão de paz, como nas Igrejas não se fala senão de amor —, mas também porque a Suíça tornou-se tão ferozmente inóspita quanto a Inglaterra. De resto, durante a guerra, a Suíça havia começado seu papel de mediador servindo de intermediário entre os beligerantes para o tráfico de mercadorias de guerra.
Na França, o Sr. Doumergue desapareceu de circulação e ninguém, fora ele mesmo, o lamenta. Não que ele fosse mal-intencionado: ciumento dos louros do velho espadachim Hindenburg e tendo, um pouco como ele, “a espinha dorsal em forma de degrau”. O Sr. Doumergue, flanqueado pelo aventureiro Tardieu, tinha a mania dos Plenos Poderes, e espalhava pelo rádio apelos adocicados de “a bolsa ou a vida”, e discursos diabéticos para roubar os franceses antes de estrangulá-los. Ele perseguia firmemente o engordamento do orçamento da guerra e do orçamento da polícia, e a Reforma do Estado, tramada outrora pelo Sr. Tardieu, e parente já parecida dos regimes fascistas desencadeados nos vizinhos.
Mas ele queria ir depressa demais. No limiar da dissolução das Câmaras, ele teve de passar a vez. Seu sucessor continua o programa do falso grande homem nacional, com mais tato. Igualmente enquadrado por Tardieu e Herriot, tornados inseparáveis, ele mantém os decretos-leis. Se ele faz cintilar menos nitidamente a reforma do Estado, coloca mais em evidência em seu prospecto a expressão: economia nacional. O que pode uma palavra nessa ocorrência? Vota-se contra a crise soluções que durarão o tempo que se levará para perceber que elas não servem para nada. Não se combate a crise, foge-se diante dela. E, não mais que todos os governos que se sucederam, este traz a luz ao caso Stavisky, rico demais em complicações. No interior, ele quer trabalhar “em silêncio”. Ele reclama: a Confiança (deixem-se levar), a trégua política (respeitem a política do governo), a probidade pública (abafaremos os escândalos), a união sagrada (porta afora com todos os estrangeiros!). Na política externa, retomada do imbróglio das aproximações, das barganhas e dos apartes.
O Império Francês, as colônias? Faz-se com grande pompa uma vasta Conferência imperial francesa para tirar um rendimento honesto dessas nações vencidas e punidas. Esse rendimento é nulo. No entanto, há muito tempo o indígena expropriado é condenado ao labor exaustivo, ao labor mortal, em toda a África. Ele é a besta de carga, a besta militar, a besta de impostos. No Gabão, cuja população negra derrete a olhos vistos, o negro é obrigado a vender sua mulher para pagar o imposto. Na África Equatorial e Ocidental Francesa, o não pagamento do tributo exigido pela civilização espoliadora acarreta o massacre e a demolição das aldeias. No Marrocos, as mulheres são reféns para os impostos. Na Indochina, constroem-se ferrovias para uso dos colonos, em condições tais que se pôde dizer que cada dormente da via representa um cadáver de indígena. E se um patriota levanta a cabeça, abate-se esse bandido em nome da Pátria.
Outros países, ainda não oficialmente fascistas, esforçam-se para sê-lo de cima para baixo.
Na Espanha, o regime monarquista foi varrido há quatro anos por um sobressalto de cólera do povo espanhol, para dar lugar, infelizmente, a uma equipe de republicanos que têm, em relação a tudo o que é um pouquinho vermelho, uma mentalidade de touros. Começaram por tratar as greves a tiros, por dizimar os operários e os camponeses que lhes haviam dado o poder. Hoje, afoga-se em sangue, com ferocidade, a revolução suscitada pela fascistização desavergonhada do governo Lerroux. Gil Robles e sua Ação Popular, católica e fascista, é hoje o herdeiro da revolução de 1931 e o sucessor do cartilaginoso Afonso XIII. A revolução de 1934, que foi tão alto e tão fundo nas Astúrias, foi detida — vítima da fraqueza dos socialistas e da deserção dos anarquistas —, mas não extinta. Ela não está sequer desarmada. O solo da Espanha treme sob o peso das multidões.
A Inglaterra oficial é o imperialismo por excelência, é a política de egoísmo e de devoração do Império Burguês tradicional. A Grã-Bretanha será a última fortaleza mundial da Reação. O terror e o ódio à emancipação dos trabalhadores e à liberdade dos homens transparecem através da hipocrisia sábia e da prudência eclesiástica dos propósitos dos dirigentes ingleses — desse terrível areópago de grandes déspotas de negócios que achatou e laminou num piscar de olhos o chefe do Partido Trabalhista quando este se atreveu a figurar ali. Eles transparecem através do suposto liberalismo dos Lloyd George e outras figuras do mesmo gênero.
A imperial desonestidade da Diplomacia britânica, suserana do Serviço Secreto, difere, por seu imperturbável espírito de continuidade, da política de cabeçadas de um Mussolini preocupado acima de tudo em dar brilho ao seu prestígio pessoal e em pôr em destaque sua rubrica de grande parasita da Itália, nos anais contemporâneos.
Sir Oswald Mosley reúne Camisas Negras, mas não parece que o fascismo vá se instalar tão cedo sob essa forma na Inglaterra: primeiro porque a massa reage firme, e depois porque o imperialismo reinante não precisa dele por enquanto.
Nas Índias, onde o governo britânico semeia a civilização do alto dos aviões de bombardeio (são, ao menos, os jornais ingleses que o afirmam) e manda abrir, a golpes de metralhadoras e de bastões ferrados, clareiras e riachos nas imensas multidões todas brancas, desarmadas e passivas, a frenagem gandhiana igualou-se a uma carnificina. Gandhi, sonhador servil e inimigo do progresso, traiu 350 milhões de criaturas. Aquele que poderia ter sido a salvação da Índia, nada fez. Preservemo-nos dos messias que querem se passar por faróis.
Ainda noutras partes? O Japão, nas mãos de sua casta militar, tornou-se uma monstruosidade com a deformação guerreira de toda a sua economia. Ele incha e se trabalha para se tornar o maior exército, a maior frota do mundo. É o principal comprador de munições e de máquinas de guerra no mercado mundial. Desses pobres soldados fanatizados, deve-se esperar o pior — quando o partido militar se julgar pronto.
Essa quadrilha militar que reina sobre o Império japonês sofre com o Acordo de Washington, que lhe deu como coeficiente de armamento naval: 3, enquanto a Inglaterra e os Estados Unidos obtiveram cada um: 5. Ele quer a paridade e denuncia o acordo. Mas ele quer, além disso, o Império Oriental, isto é, pretende tornar-se o senhor ilimitado do Pacífico. Ele persegue esse sonho, verbalmente, proclamando-se investido da “missão sagrada da manutenção da paz no Oriente” (ele, o massacrador da China), e, na prática, garantindo para si as boas disposições da Inglaterra contra a União Soviética (o que já está feito) e também contra os Estados Unidos, que serão para ele o inimigo declarado enquanto não houver no Globo dois Oceanos Pacíficos.
Nos Estados Unidos, o Sr. Roosevelt reúne pessoas graves ao redor de uma mesa, como se faz no espiritismo, para que se revelem os meios de resolver a quadratura do círculo do equilíbrio econômico em regime capitalista. E ele emprega ilusões de ótica e truques fascistas para fingir que consegue. Ele não pode deixar de usar esses meios, e esses meios não podem dar resultado: Como conceber a harmonização, no interesse de todos, de uma economia nacional, uma vez que esta continua submetida ao arbítrio e às ditaduras fragmentadas dos grandes interesses privados? Uma sociedade, tal como uma casa, deve ser construída pela base e não pelo telhado. A tentativa do Sr. Roosevelt, que só pode ser aparente e momentânea, significa: começar o edifício socioeconômico pelo telhado. É abstração e literatura. É pior: puerilidade ou trapaça; é, finalmente, basear tudo no capitalismo.
Stálin explicou-o muito claramente, numa conversa recente, a H. G. Wells, para o qual o sistema do Sr. Roosevelt aparece como o suprassumo e a colocação em prática mirífica do “socialismo anglo-saxão” (?).
Stálin aprecia “a vontade e a coragem” que o Sr. Roosevelt emprega para “reduzir ao mínimo a derrocada do capitalismo”, mas faz notar que ele não desenraíza a anarquia fundamental do capitalismo. Aliás, ele não o pode, pois o Estado americano está, na realidade, nas mãos da propriedade privada, e o Sr. Roosevelt está desarmado. Se ele prejudicasse efetivamente os interesses do capitalismo, seria derrubado. Nada pode sair dessas meias-medidas, que só fazem surgir fogos de artifício de publicidade espalhafatosa e pelas quais o capitalismo não macaqueia os métodos socialistas senão apenas o necessário para continuar a reinar contra eles.
Mas há outra coisa. Há as forças sadias. Há as multidões de pálpebras que se abrem sob o esforço da luz.
Que essa moralização pública se apresse! Honra à sinceridade, mas tocamos, no entanto, o momento em que a ignorância se torna vergonhosa.
Pela primeira vez, uma parte notável da humanidade transformou-se radicalmente.
Todo o mundo põe-se a olhar para o lado da URSS, a olhar sua diferença em relação à coleção de países ao mesmo tempo aperfeiçoados e atrasados. O dever é compreender todas essas coisas ao mesmo tempo.
Se, no curso do nosso apanhado de um mundo onde há tantos sofrimentos fabricados a bel-prazer pelos parasitas, nos deixamos arrastar para a cólera e para a invectiva, nossa desculpa são os golpes repetidos da evidência, e a necessidade de lançar o grito de alarme. Mas paremos um momento para refletir tranquilamente, como convém ao animal pensante, e façamos uma espécie de Aposta de Pascal:
O que vai acontecer? Fascismo ou socialismo? O que deve acontecer?
Fascismo, reação nacionalista generalizada? O que significa isso, já que cada nacionalismo só visa ao seu próprio desenvolvimento contra tudo e contra todos, e que há cerca de oitenta deles que eriçam a terra, e que o progresso dos engenhos tende a igualar para todos os meios de destruição... Que uniões, aí dentro, senão uniões de ódio e uniões mortíferas de lucro? O extermínio do gênero humano jamais se desenhou tão cientificamente quanto nessas perspectivas.
E do outro lado? A fórmula soviética generalizada é realizável? Sim, e ela é vantajosa para todos, e é a única vantajosa, e é a única possível. De qualquer maneira que se tome a questão, não se consegue colocar uma única das desgraças públicas que nos assolam, ou que se anunciam sobre nossas cabeças, numa sociedade soviética onde todos velam por cada um, que apoia todos os homens uns nos outros, que embeleza e neutraliza as fronteiras.
De resto, contra a grande e velha corrente da reação, colorida de propagandas republicanas, e onde se debatem os proprietários das coisas e dos homens, os mercantis, os especuladores, os vigaristas e os cáftens —, não resiste apenas a massa constituída do Estado dos trabalhadores, mas também, em cada país, uma metade desse país, rebelde e roendo o freio. Sobre toda a Terra acentua-se vigorosamente um “Segundo Poder”, latente, de equidade e de reerguimento. Não pode haver Estados duráveis senão ajustados num arranjo internacional; não pode haver arranjo internacional senão socialista. Essas forças transformadoras crescem. A luta social toma atualmente em nossos países a forma ampla e temível da “frente única”. Isto é, a união para uma ação mais ou menos contínua (e que tende a se tornar permanente), de todos os trabalhadores de todos os partidos de “esquerda”, e também dos inorganizados e sem partido, e também das camadas camponesas e da pequena e média burguesia (estas três últimas formando a maioria da população de todos os países do mundo).
Nós entramos, com abalos em grandes círculos que se alargam, como o Movimento de Luta contra a Guerra e o Fascismo saído do Congresso de Amsterdã de 1932 e do Congresso de Paris (sala Pleyel) de 1933, e que é a alma e o órgão específico da frente única em escala internacional, o instrumento geral de coordenação —, em movimentos de massa de caráter leal e logicamente revolucionário. Trata-se de impedir a guerra e de fazer recuar o fascismo e a fascistização — todas consequências do capitalismo — pela pressão geral dos explorados e dos oprimidos, e por meio da luta contra o próprio capitalismo. E isso em toda parte, ao lado e ao largo da batalha direta que travam os partidos políticos. Esses partidos estabelecem, de resto, entre si frentes únicas, como acabam de fazer, para começar, os socialistas e os comunistas da França, da Áustria, da Itália. Assim se cria uma agitação e uma mobilização de multidões que ameaçam a velha “ordem” imbecil e feroz.
Esse movimento levanta os povos vivos contra o peso morto dos governos, o peso mortal dos aproveitadores.
Não há outros meios, para os infelizes, para os ameaçados, para os condenados, senão os meios revolucionários, já que foi o despotismo burguês que começou, preventivamente, pela contrarrevolução. Os contrarrevolucionários têm a seu favor o fato de terem as armas e os serviços públicos, e de poderem mentir pelo rádio. Os revolucionários têm a seu favor o fato de “terem razão”. É a luta final, como ruge o hino das multidões.
Como um de nossos objetivos, nessas transbordantes ofensivas-defensivas, não seria a salvaguarda da União Soviética?
Todos os cérebros e todos os corações humanos são confeccionados sob o mesmo molde. O que lhes dizemos é muito simples: É preciso que os homens renunciem a viver juntos, ou que recomecem a história num outro sentido, e que se guiem pelo exemplo imenso, pelo clarão de incêndio e de aurora.
O povo russo, o primeiro povo que se ocupou em salvar os povos, a URSS, a única experiência socialista, trazem uma prova real, uma prova edificada; o socialismo é factível aqui na terra.
Os resultados do socialismo estão lá, ei-los. Que os saltimbancos e as raposas de tribuna não tentem nos fazer acreditar que eles estão em algum outro lugar. Lá é o país onde, sob a mão de dois homens de alta estatura, foram unidos “o gênio prático americano e o ímpeto revolucionário”, o país de inteligência e de dever — com sua necessidade de verdade, seu entusiasmo e sua primavera. Ele faz uma mancha no mapa-múndi não apenas porque é novo, mas porque é limpo.
A administração socialista soviética é a única que criou prosperidade, e que criou virtudes cívicas — que nada têm a ver com o sinistro código de honra de bandidos à la Mussolini ou Stavisky que brilham lado a lado em todas as capitais. A Revolução de Outubro realmente trouxe uma purificação da moralidade e do espírito público, enquanto nenhuma reforma religiosa ou política o havia feito até agora — nem o Cristianismo, nem o Protestantismo, nem os Direitos do Homem e do Cidadão.
No bloco universal que se orienta para o futuro, os eventos mostram cada vez mais que todos os interesses dos trabalhadores — operários, camponeses, classes médias, intelectuais — são iguais, que todos os trabalhadores devem se agrupar em torno da classe operária. Isso não quer dizer que a classe operária seja de essência superior e goze de um privilégio, isso quer dizer: boa ordem, por causa de sua organização, de sua iluminação social, de sua aquisição, da personificação lógica e histórica que ela é do anticapitalismo, e dos pesados meios de luta de que dispõem aqueles que têm a produção em suas mãos. O proletariado operário é, concretamente, o exército ativo. E numa guerra, o papel do exército ativo não é o de comandar o exército de reserva, mas de colaborar com ele, no lugar mais difícil.
Os eventos mostram também — e não se deve cansar de soletrar em voz alta essas certezas: Que é preciso, praticamente, entrar no internacionalismo para sair do caos, pois doravante a história, quer queiramos ou não, nos fala internacionalmente. Que não se pode fazer nada, mesmo entre as fronteiras, a não ser agindo por cima das fronteiras. E, finalmente, que é preciso rejeitar o reformismo, e a combinação com o conglomerado opulento que se agarra ao poder. A fórmula do reformismo não corresponde mais a nada. Ele realmente apresentou sua falência, depois de ter feito do socialismo um meio equívoco onde a classe operária marcou passo.
Existem dois mundos: o do socialismo, e o do capitalismo. Entre os dois, há apenas a miragem monstruosa de um terceiro mundo democrático em palavras, feudal de fato.
Que se unam sobre esta verdade.
Que a juventude não se deixe levar pelo pseudorrejuvenescimento de que o fascismo se enfeita, nem por todas as suas fosforescências de mofo.
A mais bela, e a mais importante resposta às exigências dos tempos, deve justamente vir da juventude. Ela não é feita para trazer sua força motriz a tradições aviltantes, nem para tentar desesperadamente fazer o mundo girar da esquerda para a direita. Ela é feita para fazer o novo segundo a natureza e segundo a ciência. O jovem é o pai do homem.
Que os antigos combatentes, os sobreviventes, as testemunhas sangrentas e estropiadas da Grande Guerra, aqueles que se feriram uns aos outros sem razão em 3 mil quilômetros de trincheiras, e fizeram, de suas gerações, a mais espantosa das hecatombes — não aceitem montar guarda em torno dos governos de recomeço, e de ser os policiais da guerra futura.
E que a metade feminina da humanidade compreenda também que só há ordem e paz no fim dessas poucas e elevadas evidências.