A última etapa contemporânea da Revolução Russa. O período do Plano Quinquenal de 1928.
O povo único em sua espécie, o povo terrivelmente novo, a nação estrangeira entre as nações, enfrentava agora as forças da natureza. Tinha-se chegado à eletrificação, vislumbrada entre derrotas e tempestades, e trabalhava-se em torno dela.
O Plano que abrangia os anos de 1928 a 1933 — e que, no fim de 1932, ao cabo de quatro anos, foi substituído por um novo Plano Quinquenal, porque então já se considerava concluído — implantava-se simultaneamente nas cidades e no campo: fortalecimento da indústria — salto amplo para a frente — e conquista da socialização rural. Duas grandes questões vivas que se agarram profundamente pelo ventre — e pela poderosa carcaça da maquinaria. Essa Rússia, que até então estava na retaguarda da indústria internacional, era preciso transportá-la para a vanguarda, socializando-a por inteiro.
Revejam-se os objetivos fundamentais, que se estendem até onde a vista alcança — tais como foram definidos por Stálin: “Trata-se de metamorfosear a Rússia atrasada em um país tecnicamente modernizado — para não depender dos países capitalistas, para que o poder soviético seja sólido e o socialismo possa vencer, para possibilitar a eliminação do Kulak e a transformação da pequena exploração agrícola privada em agricultura coletivizada, para ter uma defesa militar suficiente”. E, também, se tratava, nessa edificação dentro de um único país, de prescindir do capital estrangeiro.
Apesar dos resultados muito notáveis alcançados pelo único país em questão — que lutava, ao mesmo tempo veementemente e metodicamente, havia dez anos — a opinião mundial não desarmara, não lhe perdoara ter rompido com “a ordem”, e a grande imprensa informativa capitalista (que é uma imprensa da desinformação) continuava pontualmente sua tática desonesta: negar os resultados com um simples risco de pena, como se nega um compromisso — ou, nos casos em que seria estúpido demais negá-los, atribuí-los ao abandono dos princípios socialistas. Quando foi iniciado o último plano quinquenal, e até o seu cumprimento, a mesma ironia azeda torceu a boca dos jornalistas oficiais. Eis alguns trechos colecionados pelo próprio Stálin:
— “Plano, isso? Francamente!” — “Ora, vamos! Não passa de uma especulação!”, zombava o New York Times (novembro de 1932).
— “Fracasso completo!” — sentenciava o Daily Telegraph;
— “Fracasso vergonhoso!” — voltava a cravar o New York Times;
— “Impasse total!” — dizia a Gazeta Polska, da Polônia;
— “A catástrofe é evidente” — decretava a revista italiana Politica;
— “O sistema inteiro está ruindo” — reconhecia, mesmo com relutância, o Financial Times;
— O Current History (americano) não é menos categórico sobre o Plano Quinquenal: “Fracassou nos resultados, fracassou nos fundamentos.”
“Na URSS os planos quinquenais só existem no papel. Eles nunca dão certo”, escreve um russo — um ex-comunista expulso do partido por indecência. O mesmo indivíduo nos ensina ainda, num livro escrito em 1931, que: “A prisão é o único lugar, na URSS, onde não se morre de fome”, e, também: “Todo cidadão soviético tem sapatos furados e o olhar apagado”. “Eu pouco me importo com a revolução mundial”, teria contado Stálin, em 1927, a Mr. Campbell, grande fazendeiro americano que, ao menos, tem a audácia de afirmar isso em outro livro. Já que estamos nisso, acrescentemos, por favor: “Assam-se crianças nos espetos dos hotéis de Moscou”, como igualmente afirmam, até hoje, muitos bons cristãos espalhados por aí.
Ora, o Plano Quinquenal de 1928, sustentado por cifras gigantescas, terminou por atingir, em quatro anos, uma realização geral de 93%. No que diz respeito à indústria pesada, a execução em quatro anos alcança 108%. A produção nacional triplicou entre 1928 e 1934. A produção do período pré-guerra estava, no fim de 1933, quadruplicada.
Entre 1928 e 1932, o número total de operários na União Soviética saltou de 9,5 milhões para 13,8 milhões. Só na grande indústria, houve um acréscimo de 1,8 milhão de trabalhadores; na agricultura, 1,1 milhão; no setor comercial, mais 450 mil. O desemprego — flagelo estrutural do capitalismo — foi abolido como fenômeno social: tornou-se, ali, uma lembrança remota, coisa do passado.
A participação da indústria na produção total da economia — em comparação com a produção agrícola — cresceu de forma expressiva: era de 42% em 1913 (ainda sob o czarismo), subiu para 48% em 1928, e alcançou 70% em 1932. O setor industrial tornava-se, assim, o eixo central da vida econômica soviética.
Mais impressionante ainda: ao final do primeiro plano quinquenal, 99,93% de toda a produção industrial estava nas mãos do Estado socialista — ou seja, praticamente toda a indústria havia sido libertada do controle privado e reorganizada segundo os interesses da coletividade.
A renda nacional cresceu 85% ao longo desses quatro anos, ultrapassando os 45 bilhões de rublos ao final do Plano. No ano seguinte, esse número já alcançava os 49 bilhões — com menos de 0,5% da economia ainda sob controle de elementos capitalistas ou estrangeiros.
Os salários também acompanharam esse salto histórico: o fundo salarial total destinado a operários e empregados passou de 8 bilhões para 30 bilhões de rublos — quase quatro vezes mais.
E no campo da cultura e da educação, o avanço foi igualmente revolucionário: o número de cidadãos alfabetizados, que ao final de 1930 já era expressivo, chegou a 90% da população soviética ao final de 1933 — um feito inédito num país que, duas décadas antes, era esmagadoramente analfabeto sob a autocracia czarista.
Queiram, por um instante, comparar esses números — que testemunham um avanço único nos anais do gênero humano — com as honestas profecias mencionadas acima — falência, impasse, catástrofe, desmoronamento — que foram proclamadas justamente quando o Plano já estava praticamente realizado à vista de todos.
Novos ramos de indústria foram postos em marcha: desde as máquinas-ferramenta, os automóveis, os tratores, os produtos químicos, motores, aviões, máquinas agrícolas, poderosas turbinas e geradores, os aços finos, as ligas ferrosas, até a borracha sintética e a fibra artificial. Há dois anos viajei de Londres a Leningrado num grande navio onde tudo, absolutamente tudo, na maquinaria e no interior, era de construção soviética (inclusive os pianos, o dos passageiros e o da tripulação). Em Moscou, vi um avião gigantesco (por dentro daquele monumento, tinha-se a impressão de uma galeria de fábrica), no qual não havia um único componente que não fosse proveniente da URSS e ali manufaturado — exceto os pneus do trem de pouso.
Milhares de antigas fábricas foram reconstruídas. Milhares de novas empresas se aglomeram em agrupamentos multiformes e multicoloridos ao redor de empresas gigantescas, várias das quais se erguem, por sua enormidade, à frente de toda a civilização industrial contemporânea: Usina Hidrelétrica do Dnieper, Magnitogorsk, Chelyabinsk, Bobriki, Uralmashzavod, Krammashstroy. Expedições científicas sistemáticas permitem localizar todas as riquezas do subsolo. Enormes centros novos surgiram aqui e ali: Ucrânia, Cáucaso do Norte, Transcaucásia, Ásia Central, Cazaquistão, Buriates-Mongólia, Tartaristão, Bascortostão, Ural, Sibéria Oriental e Ocidental, Extremo Oriente.
Em apenas quatro anos — relata a revista The Nation — surgiram do solo cerca de cinquenta novas cidades, com populações entre 50 mil e 260 mil habitantes: centros industriais planejados, harmônicos, especializados.
Às margens do rio Dnieper, uma gigantesca cidade se ergueu em concreto e aço, nascida ao lado de uma das maiores hidrelétricas do planeta — a lendária Usina Hidrelétrica do Dnieper. Ainda que, com o tempo, venha a ocupar apenas a quinta ou sexta posição mundial em potência instalada — com seus 750 mil HP, superada pela Beauharnois, no Canadá, e pela Hoover Dam, nos Estados Unidos, que alcançará 1 milhão — a URSS prepara contraofensivas colossais: a Hidrelétrica de Shaman, na Sibéria, deverá gerar 2 milhões de HP; e a de Bratsk Ostrog alcançará 2,6 milhões. Os titãs da mitologia, reza a lenda, tentaram empilhar o Pélion sobre o Ossa — os soviéticos, ao contrário, constroem montanhas de energia com concreto armado.
No vale carbonífero de Kuznetsk, floresceram subitamente seis cidades novas, totalizando 600 mil habitantes. No extremo norte, em torno de um depósito de fosfato, uma cidade emergiu quase da noite para o dia, já abrigando 80 mil almas.
Até mesmo Pierre Dominique — que, embora contaminado por noções racistas ao tentar reduzir o socialismo a uma questão “de raças”, ao menos, quando se limita a observar os fatos, enxerga algo da grandiosidade do surto industrial soviético na Ásia. Ele escreve:
Para além dos Urais, três imensos cinturões industriais tomam forma — e, comparados a eles, os nossos círculos industriais do Norte da França, da Lorena ou da bacia do Loire parecem miniaturas. Cada círculo soviético é maior do que a França inteira.
O primeiro é o Círculo dos Urais, com Magnitogorsk, Sverdlovsk, Chelyabinsk; o segundo, o Círculo de Kuznetsk, com Novossibirsk, ambos já em plena operação; e o terceiro, o Angarastroy, ainda em fase inicial.
Ali, em torno de cidades novas que brotaram das estepes em apenas três anos — sendo que duas delas já ultrapassam os 300 mil habitantes — uma nova civilização se ergue. Está em curso um povoamento intensivo, a formação de novas nações operárias; do nada, constrói-se uma Ásia vermelha. O segundo prato da balança soviética começa a se encher — e com ele, o mundo começa a pesar de outro modo.
O que não se deve cessar de constatar e dizer é a vastidão da racionalização dessa exploração industrial, que se exerce sobre um país duas vezes maior que os Estados Unidos, ou que a Europa, ou que a China, e cuja população aumenta, a cada três anos, em dez milhões de pessoas — a população da Europa cresce cerca de duas vezes e meia mais devagar.
Nessa mobilização formidável de esforços, não há um único gesto que não tenha sido calculado em função do conjunto. Todos os detalhes da execução, todas as engrenagens do mecanismo se encaixam umas nas outras. Uma direção única e centralizada nunca perde de vista a totalidade da nação. Ela distribui e ajusta.
É preciso acrescentar que esse método de interesse geral imperativo — que deve, por força, produzir o rendimento máximo — é impossível nos países onde reina a anarquia capitalista, com a deformação dos objetivos pela pressão dos lucros particulares e o desordenado capricho das iniciativas privadas?
Outrora se cultivava arroz aqui. Era uma má ideia: o relatório dos especialistas constatou que o algodão daria um melhor rendimento. Logo, o arroz será cultivado em outro lugar e, aqui, vastos campos de algodão. Para utilizar o algodão, é preciso construir uma fiação, várias fiações. É preciso adaptar a força motriz, criá-la no local se necessário, e ligar nosso novo centro à rede de vias de comunicação: daí, estação hidrelétrica, trilhos, estações, estradas, canal. Além disso: escola de aprendizagem e técnica para operários e engenheiros, diversos centros de trabalho e cultura, estabelecimentos e organizações de instrução para crianças e adultos, museus, laboratórios, hospitais, esporte, rádio, cinema, teatro. É assim que se constitui a molécula soviética complexa e gigantesca: o Combinat, e a cidade sintética — a cidade instantânea e ilimitada que se aglomera, sob o efeito de uma lei química, em torno de seus centros mecânicos. É assim que as cidades se erguem com inteligência, no lugar exato exigido pela combinação das necessidades locais e das necessidades nacionais. É assim que as bases econômicas se unem para formar uma só. Outras perspectivas se abrem, com seus marcos colossais.
Lançamos as bases do Combinat Ural-Kuznetsk — declarou Stálin no 17º Congresso do Partido, em janeiro de 1934 — ligando o carvão da bacia de Kuznetsk ao minério de ferro dos Urais. A nova base econômica dos Urais, que até pouco tempo era apenas um sonho, tornou-se agora uma realidade concreta. — E Stálin prossegue: — Estabelecemos também os fundamentos de uma nova e poderosa indústria petrolífera nas encostas ocidentais e meridionais da cadeia dos Urais — abrangendo as regiões de Uralsk, da Bascortostão e do Cazaquistão.
E a indústria leve e de consumo? Aquela que fora deliberadamente empurrada para o segundo plano pela indústria macro megalítica, o que faz a dona de casa gemer e o citadino resmungar: “Cacete! Preciso esperar meia hora para comprar manteiga; é preciso esperar três dias para conseguir um sobretudo!”. Ela voltou ao seu lugar, e as reclamações se acalmam por toda parte. Em quatro anos, a produção da indústria leve aumentou 187%. As lojas ampliam regularmente seu número. Os restaurantes alimentam hoje 20 milhões de pessoas. O volume de negócios do comércio varejista e da alimentação, que em 1928 era de doze bilhões e meio de rublos, atingiu, em 1932, 40 bilhões de rublos. Aliás, caminhe por Moscou: verá boutiques perfeitamente abastecidas ao longo das ruas, e o mesmo sortimento de mercadorias de toda espécie que se encontra nas grandes capitais. Uma situação nova, um grande progresso visível, mesmo em relação ao que se via no ano passado.
E, agora, o financiamento de tudo isso? O problema coloca-se aqui de forma absolutamente singular.
Com efeito — explica Stálin, — nos países capitalistas, os fundos investidos nos grandes trabalhos são obtidos ou por empréstimos no estrangeiro, ou pela espoliação, isto é, indenizações de guerra, confiscos coloniais, exploração abusiva da mão de obra.
A URSS não utiliza esses meios: não recorre ao empréstimo porque não pode, e não recorre à espoliação porque deixa seu usufruto aos verdadeiros “países civilizados”. Portanto, é de seus próprios recursos que deve extrair os capitais a serem investidos.
O Estado soviético dispunha de recursos próprios, não por meio da tributação direta, mas porque controlava integralmente os monopólios estratégicos da economia nacional. Sua principal fonte de receita era a taxa sobre o volume de vendas das organizações estatais — como o comércio interno, os transportes, os correios e outros serviços públicos essenciais.
É importante observar que, mesmo a URSS tendo sentido reflexos da crise econômica mundial — com algumas exportações, como a de petróleo, crescendo em volume, mas reduzindo em valor nos últimos anos — sua base financeira manteve-se sólida, pois estava assentada na planificação interna, e não na especulação do mercado externo.
Além disso, o Estado obtinha receitas significativas a partir dos lucros das organizações coletivas e sociais, e também de contribuições voluntárias da própria população. Essas contribuições vinham majoritariamente sob formas não compulsórias: subscrição de empréstimos estatais, cotas-partes beneficiárias em empreendimentos socializados, depósitos em cadernetas de poupança popular, entre outros instrumentos de participação consciente no financiamento da construção socialista.
Assim, dos 8 bilhões e 900 milhões de rublos que a população entregava anualmente ao Estado, apenas 3 bilhões e 300 milhões correspondiam a obrigações formais — como impostos ou seguros sociais. O restante era fruto da adesão voluntária e do compromisso político dos cidadãos com o progresso coletivo.
Hryhoriy Hrynko, Comissário do Povo para as Finanças da URSS, informa que o financiamento do Plano Quinquenal, em quatro anos, totalizou 116 bilhões de rublos, em vez dos 86 bilhões previstos. E Hrynko acrescenta:
Desmentimos, de alto a baixo, as noções burguesas segundo as quais o país dos Sovietes não poderia, com seus próprios recursos e sem o apoio de empréstimos estrangeiros, executar o prodigioso programa de edificação socialista.
A principal razão que nos permitiu tal acumulação de capitais está no fato primordial de que, entre nós, o desperdício da renda nacional, tal como se pratica nos países capitalistas, não existe. Liquidamos as classes parasitárias que, em todos os países capitalistas, consomem improdutivamente uma parte enorme da renda nacional. Não fazemos política imperialista. Não temos anarquia na produção social. Todos os nossos recursos são destinados quase exclusivamente ao financiamento da edificação econômica e cultural.
Palavras grandiosas, cuja majestade e profundidade não se pode exagerar, e que, pronunciadas em 1934 por um ministro das finanças em exercício, iluminam de forma fulgurante a transformação total do mecanismo coletivo. Essas palavras, que possuem todo o volume e toda a riqueza dos fatos positivos que apenas exprimem, devem ser retomadas e meditadas por todos os homens: Não temos fugas, não temos desvios. Não podemos ter fraude. O parasitismo infeccioso dos intermediários, a especulação e os escândalos que necrosam o esqueleto dos grandes países, nós não os conhecemos. Praticamos uma política sensata, honesta, e todo o mecanismo funciona pleno e redondo para o proveito de todos e de cada um.
Tragamos algumas comparações com o estrangeiro, para fixar as ideias.
Em 1933, após uma breve e tímida recuperação econômica, os Estados Unidos e a França haviam superado, ainda que ligeiramente, seus níveis de produção anteriores à Primeira Guerra Mundial: os EUA operavam a 110,2% de sua produção pré-guerra, enquanto a França alcançava 107,6%. A Inglaterra, mesmo após a retomada, não passava de 85,2%, e a Alemanha recuava ainda mais, estagnada em 75,4%.
A União Soviética, por sua vez, registrava um índice assombroso: 391%.
Tentemos visualizar, com o auxílio de alguns números de cume — verdadeiros picos estatísticos — o que esse dado significa em termos absolutos. Quais são, afinal, os nomes próprios dessa cordilheira que hoje se ergue nos gráficos da produção mundial?
Em 1929, auge da produção industrial nos países capitalistas, a URSS ocupava o quinto lugar no ranking global. À frente estavam: Estados Unidos, com 139 bilhões de rublos-ouro em produção industrial; Inglaterra e Alemanha, empatadas com cerca de 39 bilhões cada; França, com 29 bilhões.
Desde então, o mundo capitalista despencou: sua produção caiu, em média, 36%. A União Soviética, ao contrário, disparou. Com 33 bilhões de rublos-ouro de produção, conquistou o segundo lugar no cenário mundial — atrás apenas dos Estados Unidos.
No setor de máquinas agrícolas e locomotivas, a liderança mundial pertencia agora à URSS. Só na produção de máquinas para o campo, seu volume anual alcançava 420 milhões de rublos-ouro — ultrapassando os 325 milhões dos Estados Unidos.
A URSS ocupa o segundo lugar no mundo na produção de máquinas em geral e, também, na produção de petróleo, ferro e aço; o terceiro lugar na produção de energia elétrica (depois dos Estados Unidos e do Canadá). Terceiro lugar também na indústria de calçados — que cito como exemplo porque se deleitaram amplamente em falar dos “sapatos furados e dos sapatos fictícios desses pobres russos”; dominam-na ainda, nesse setor, os Estados Unidos e a Tchecoslováquia, de onde o falecido Batta soube cobrir de solas novas o solo da Europa.
Se pudéssemos imaginar uma rua colossal — uma avenida titânica da produção, formada pela justaposição das maiores fábricas da Terra, lado a lado, como colossos de aço alinhados no horizonte — veríamos despontar, nesse panorama quase mitológico, o perfil de algumas das mais extraordinárias realizações da indústria soviética. À frente, Magnitogorsk, centro siderúrgico monumental ainda em processo de finalização, mas que, quando concluído, rivalizará em escala com Gary, nos Estados Unidos — até então o maior complexo metalúrgico do mundo; logo adiante, ergue-se Chelyabinsk, especializada na produção de tratores pesados, e a Fábrica de Automóveis Stalin de Moscou. No coração do Donbass, está Krammashstroy, com seu poderoso parque de fabricação de máquinas pesadas. Em Moscou, destaca-se a Fábrica Kaganovich de Rolamentos, uma das maiores e mais especializadas do planeta no setor; na cidade de Lugansk, a fábrica de locomotivas não apenas lidera o setor ferroviário soviético: é a mais poderosa da Europa inteira. E como se isso não bastasse, uma sucessão impressionante de outras usinas — fábricas que constroem outras fábricas, máquinas que produzem máquinas, oficinas que moldam o metal — ocupa hoje o segundo ou o terceiro lugar no ranking mundial, dependendo do setor.
Outras comparações com o estrangeiro: O desemprego foi abolido na União Soviética durante o período do primeiro Plano Quinquenal. Enquanto o socialismo planificado eliminava a ociosidade forçada do trabalho humano, os países capitalistas afundavam no pântano do desemprego estrutural. Na Inglaterra, o número de desempregados saltou de 1,29 milhão para 2,8 milhões. Na Alemanha, subiu de 1,376 milhão para 5,5 milhões; na França, o desemprego não parava de crescer, mesmo com uma breve e ilusória pausa no final de 1933.
Já eram 1,6 milhão de desempregados totais, aos quais se somavam 2,9 milhões de parcialmente desempregados, subutilizados ou submetidos a condições precárias. (Esse dado foi obtido a partir do cruzamento entre o número total de operários da indústria e as taxas de desocupação estimadas por inspetores do trabalho e engenheiros de minas.)
Nos Estados Unidos, segundo o Alexander Hamilton Institute, o número de pessoas completamente sem trabalho, em março de 1933, alcançava os 17 milhões — quase um em cada três trabalhadores da força de trabalho nacional. Um exército invisível de desesperados, marchando sem pão, sem teto e sem futuro.
Na Itália fascista, sob Mussolini, havia 1,3 milhão de desempregados. Na Espanha, em setembro de 1934, o número era de 650 mil — um aumento de 28 mil em relação a janeiro do mesmo ano.
Dizem-nos que, em vários desses países, o desemprego diminuiu. Observemos que, mesmo onde se fala em diminuição do desemprego, fala-se também da diminuição do total de salários. Mas observemos sobretudo que não há no mundo blefe e ilusionismo mais descarados do que aqueles tramados em torno das cifras oficiais do desemprego em todos os países capitalistas. Não é possível zombar mais deliberadamente do público do que fazem as autoridades competentes, jogando com palavras e números para esconder a situação real. Nenhum país capitalista confessa seus desempregados. “Esquecem-se” categorias inteiras de trabalhadores, empresas com menos de certo contingente de pessoal são “negligenciadas”, regiões inteiras são eliminadas. Depois da operação pela qual se corta pela metade o tempo de trabalho de um operário para dar essa meia jornada a um desempregado, apaga-se o desempregado da lista — embora nada tenha mudado, pois duas metades continuam sendo um. Sem falar dos trabalhos públicos a crédito, que cavaram o abismo do futuro, nem das operações “no papel”, que mudam as palavras sem mudar as coisas.
E sem falar do enorme inchaço da indústria de guerra (em toda parte, sobretudo na Alemanha e no Japão). Assim é que o desemprego se apaga aos olhos das multidões fascinadas (fascizadas). Muito menos se socorre um número minimamente digno de desempregados nos reinos do capitalismo. Os outros vivem por acaso.
Há três anos, — constatava Stálin em 1933, — havia um milhão e meio de desempregados na URSS. Hoje, na URSS, o número de operários aumentou em quatro milhões e meio.
E os salários? Durante os quatro anos em que a União Soviética avançava a passos largos rumo ao socialismo, os salários despencavam nos países capitalistas, arrastando milhões à miséria.
Nos Estados Unidos, os salários caíram 35%; na Alemanha, a queda foi ainda mais brutal: 50%; na Inglaterra, o mesmo colapso: 50% de perda salarial; na Itália fascista, entre 1929 e 1931, os salários perderam entre 24% e 45% de seu poder de compra, dependendo do setor — um verdadeiro saque à renda da classe trabalhadora.
Na URSS, no mesmo período, os salários aumentaram em 67%. A remuneração média do operário industrial subiu de 991 rublos em 1930 para 1.519 rublos em 1933 — uma elevação real, que se refletia em melhor alimentação, habitação, acesso à cultura e dignidade no trabalho.
E quanto à produtividade, ao rendimento do trabalho? Nos EUA, mesmo em seu período de “prosperidade” anterior à crise, o aumento médio do rendimento foi de 25% (Segundo Stuart Chase); na Inglaterra, durante seu melhor ciclo econômico (1924–1929), o avanço foi de apenas 11%; na Alemanha, entre 1913 e 1931, o crescimento da produtividade atingiu 27%, de acordo com Jürgen Kuczynski.
Na URSS, no exato período em que os países capitalistas afundavam em desemprego, fome e arrocho salarial, a produtividade do trabalho cresceu 40% — resultado direto da organização consciente da economia planificada, da mobilização da juventude, do estímulo moral e material à superação das metas de produção.
Deixemos de lado, por ora, a imensa ajuda estatal dedicada aos cientistas e institutos de pesquisa — cuja prosperidade multiforme por si só exigiria um capítulo à parte. Voltemos os olhos, ainda que brevemente, para outro campo decisivo da edificação socialista: a instrução pública.
A população da União Soviética crescia, àquela altura, mais de 3 milhões de pessoas por ano — e o sistema educacional avançava no mesmo ritmo: 3 milhões de novos alunos a cada ano. Sem nos perdermos nos detalhes desse setor — que é, em muitos aspectos, o mais avançado de toda a vida soviética — basta dizer que 60 milhões de alunos, de todos os níveis, estavam matriculados nas instituições de ensino da URSS, todas financiadas integralmente pelo Estado. Em outras palavras: um em cada três habitantes da União Soviética era estudante.
O ensino havia sido lançado ao voo: por toda parte, via-se sua presença viva. Cada fábrica era também uma escola, cada quartel um centro de formação, cada fábrica uma fábrica de homens.
Os números falam com clareza: no Tartaristão, o número de escolas passou de 35 em 1913 para 1.730 em 1933; entre os Circassianos (região do Cáucaso Ocidental), a taxa de analfabetismo era de 94% em 1914; em 1933, era 0% — a erradicação completa; no Daguestão, o número de escolas em 1931 era 26 vezes maior que em 1914; no Cazaquistão, o aumento foi ainda mais extraordinário: 38 vezes mais escolas no mesmo período.
Além disso, a URSS era um arquipélago linguístico transformado em jardim da diversidade cultural: 70 línguas diferentes eram ativamente ensinadas nas escolas soviéticas. Vinte línguas que jamais haviam tido forma escrita foram dotadas de alfabetos, gramáticas e literatura, incorporadas ao patrimônio da humanidade. O orçamento nacional da educação crescia junto com esse esforço titânico. Para o período, o aumento foi de 20% em relação ao ano anterior.
Comparemos agora com as potências capitalistas, em franca decadência cultural: na Inglaterra, o orçamento da educação sofreu um corte brutal de 11,7 milhões de libras esterlinas; na Alemanha, os gastos com instrução pública caíram ano após ano: de 690 milhões de marcos em 1930, para 590 milhões em 1931, e 570 milhões em 1932. Desde 1926, o total de cortes já somava 1 bilhão de marcos; na América do Norte, as escolas se esvaziam. Na Suíça e nos Estados Unidos começam a surgir fileiras de crianças abandonadas; os jornais. A tiragem diária dos diários soviéticos era, em 1929, de 12 milhões e meio; em 1933, era de 36 milhões e meio.
E no setor da arte? Ao lado da imensa busca de fórmulas novas e diretas de teatro e de encenação, ao lado das revolucionárias criações do cinema soviético, falaríamos longamente aqui da literatura soviética, já que também nesse terreno se fez um belo avanço construtivo — e já que, aliás, Stálin sempre se ocupou intensamente do desenvolvimento das letras e das artes. O papel social dos escritores, que Stálin define como “os engenheiros das almas”, levanta um problema que não diz respeito apenas à homogeneidade da sociedade socialista, mas que toca, de modo decisivo, o próprio progresso da arte, introduzindo hoje elementos novos na representação da vida contemporânea. São as vastas perspectivas — visuais, ideológicas, dramáticas — do coletivo, e, também, o sentido de um dever humano que é o reflexo, em cada ser ativo, do progresso humano. A cultura literária soviética consiste em enriquecer e desenvolver o homem dentro do escritor, como muito justamente discerniu André Malraux.
Atualmente — e quando nem mesmo se pode dizer que a literatura soviética tenha saído completamente de sua fase de ensaios e tentativas — acumulam-se nela obras importantes, que, pela profundidade com que penetram a vida nacional, por suas projeções sobre a obra de todos, por sua solidariedade espiritual, esboçam uma grande nova fase na história literária. Tentaremos citar os nomes mais destacados e representativos de tendências diversas? Aqui estão, com Máxim Gorky: Alexander Serafimovich, Fyodor Gladkov, Konstantin Fedin, Nikolai Tikhonov, Vsevolod Ivanov, Fyodor Panfyorov, Boris Pilnyak, Ilya Ehrenburg, Alexander Fadeyev, Mikhail Sholokhov, Vera Inber, Sergei Tretyakov — sem falar dos escritores soviéticos não russos, e sem mencionar também a plêiade eminente de críticos e jornalistas, tais como Karl Radek, Nikolai Bukhárin e o sábio e brilhante Anatoly Lunacharsky, morreu em 1933.
Muitos escritores das velhas formações ocidentais não se dão conta da grandiosa e tumultuosa concorrência que lhes prepara, para algum dia, em toda a linha, esse poderoso conjunto ainda mal conhecido, que permanece, em partes, ainda rústico ou ainda superficial (do lado dos escritores burgueses que aderiram), mas que, num estilo menos refinado que o de nossa literatura, traz muito mais substância e muito mais pensamento.
Foi preciso, em diversas ocasiões, organizar essa força latente, esse potencial que a literatura representa numa comunidade de trabalhadores. O Partido Comunista ampliou singularmente, sob o impulso de Stálin, o movimento dos escritores, primeiro freando o sectarismo político nas organizações literárias, e depois suprimindo radicalmente esse sectarismo — que havia provocado uma perigosa esterilidade na produção nacional — pelo famoso decreto de 23 de abril de 1932.
Esse decreto fundou a União dos Escritores Soviéticos da URSS, substituindo todas as outras organizações existentes, sobre as bases de uma ampla frente única de homens de letras, desde os revolucionários reconhecidos até os “companheiros de viagem”. “É preciso liquidar o sectarismo na literatura, — diz Stálin, — e até mesmo os ressentimentos que ele gerou outrora”. Os membros da União dos Escritores Soviéticos comprometem-se a orientar-se pelo “Realismo Socialista” e a defender a URSS.
A esse programa — o Congresso Nacional dos Escritores, em agosto de 1934, em Moscou, que para muitos de nós foi uma revelação das riquezas das literaturas soviéticas nacionais, deu uma solene consagração. Todos os escritores soviéticos aderem a ele com imenso entusiasmo.
A grande ideia é conferir ao escritor uma missão de desbravador (ao mesmo tempo ampliando seu repertório), na larga via reta e clara, na evidência científica e moral do socialismo — mas sem um vínculo paralisante da atividade literária à propaganda política. Essa fecunda utilização do sentido social na criação do espírito implica a abolição definitiva da arte pela arte e da arte individualista e egoísta, com seu enclausuramento e seu pessimismo. Seria preciso que, na Europa e na América, organizássemos igualmente a impulsão dispersa que se produz no mesmo sentido.
Em nossos velhos países, que têm ainda o cinismo ou a insanidade de se elogiar a si mesmos por sua “missão espiritual”, tudo o que toca ao espírito é, na realidade, desprezado e sacrificado. Constata-se o rebaixamento da ciência e da cultura ao serviço da guerra e da conservação social. Os escritores, os artistas, os sábios, todos os intelectuais, são empobrecidos pelo Poder, que se preocupa em despejar todos os fundos públicos no abismo dos armamentos. Os estudantes já não têm quase futuro, e o pouco que lhes resta é desprovido de dignidade. Seus diplomas não são, em todos os sentidos, senão trapos de papel. São capturados e domesticados — enquanto inventores, enquanto educadores — para a preparação material e ideológica da guerra, e para a exploração do proletariado. Devem, queira ou não, tornar-se, com seus cérebros, fornecedores da guerra (parentes pobres dos outros), ou agentes de polícia da reação.
Lancemos agora o olhar sobre outros indicadores fundamentais da vida social: a mortalidade, os gastos militares, o armamento, a circulação mercantil e o colapso capitalista mundial.
Na velha Rússia czarista, as taxas de mortalidade eram altíssimas — superavam os 30 óbitos por mil habitantes. Com a consolidação do poder soviético e a reorganização das condições sanitárias e sociais, a taxa caiu de 27 para 17 por mil em apenas quatro anos. Embora ainda superior à de países como a Inglaterra, os Países Baixos (14–15 por mil) e a Nova Zelândia (menos de 10 por mil), a URSS já apresentava índices inferiores aos da Espanha e Hungria (26), Romênia e Áustria (25), Itália (22), Alemanha e França (20).
No campo da defesa nacional, o contraste é ainda mais gritante. Em 1934, os gastos militares soviéticos representavam apenas 4,5% do orçamento nacional. Comparemos: no Japão, esse número saltava para 60%; na França, 40%; e na Itália fascista, 33%. A URSS mantinha um Exército Vermelho com 562 mil homens, dimensionado para a defesa do território mais extenso do mundo. O Japão contava com 500 mil soldados. A Alemanha de Hitler, oficialmente limitada a 300 mil, já dispunha, segundo estimativas conservadoras, de 600 mil militares prontos para combate — isso num país 50 vezes menor que a União Soviética.
O avanço soviético não se restringia à escala: o armamento e a tecnologia militar progrediram de forma impressionante. Em janeiro de 1934, o marechal Kliment Voroshilov anunciou que, em 1929, havia 2,6 cavalos-vapor de equipamento por soldado; em 1934, esse número havia subido para 7,74 — um salto técnico baseado no poder da indústria planificada.
Enquanto a produção soviética mobilizava-se com disciplina e estratégia, o comércio varejista crescia 175%. No mesmo período, em 48 países capitalistas, o comércio internacional despencava para 42% do nível de 1929. Os salários dos trabalhadores mergulhavam: Na Alemanha, de 43 para 26 bilhões de marcos; nos Estados Unidos, de 53 para 28 bilhões de dólares; na Inglaterra, de 381 para 324 milhões de libras esterlinas. E, desde que esses números foram anotados, a situação apenas se deteriorou.
Entre 1930 e 1932, cinco mil bancos faliram nos Estados Unidos, somando um rombo de 3,5 bilhões de dólares — mesmo após um subsídio de emergência de 850 milhões de dólares.
E enquanto milhões mergulhavam na fome, no desemprego e na desesperança, uma elite parasitária banhava-se em ouro. A estrela de cinema Greta Garbo, em Hollywood, embolsava 15 milhões de francos por ano. Estava tão saturada de riqueza que, recentemente, recusou 160 mil francos para dizer apenas uma palavra no rádio: “Alô”.
Em 1932, na Alemanha, o Estado — ou seja, o povo trabalhador, via arrecadação forçada de impostos — teve de desembolsar 1 bilhão de marcos apenas para “salvar” cinco bancos falidos. Na mesma época, na França, o resgate às veneráveis instituições financeiras quebradas foi ainda mais obsceno: 3 bilhões de francos, despejados nos cofres de bancos privados pela mão generosa do erário público.
Se lançarmos um olhar mesmo superficial sobre a imprensa burguesa da época — nada revolucionária, pelo contrário, bastante conformista — encontramos retratos grotescos da ordem capitalista em decomposição: Num mesmo jornal lia-se, lado a lado, a existência de 300 mil desempregados, 150 mil intelectuais na miséria, e um número estarrecedor: 120 mil falências somente em Paris e na região do Sena, no ano de 1930. Ao final de 1934, esse número só havia crescido: 375 mil desempregados na região parisiense.
Nos Estados Unidos, o déficit orçamentário em 1930 era de 900 milhões de dólares. No ano seguinte, ele triplicou, saltando para 2,8 bilhões de dólares. Na França, o rombo fiscal dobrou, de 2,8 para 5,6 bilhões de francos, e no orçamento seguinte já atingia 9 bilhões. A dívida pública francesa alcançava a marca de 64 bilhões de francos-ouro, sem contar os débitos municipais. O déficit do Tesouro, segundo Joseph Caillaux, presidente da Comissão de Finanças do Senado, era de 12 bilhões de francos, sem incluir as ferrovias, que também operavam no vermelho.
Na Itália, o déficit somava 4 bilhões de liras.
E o que oferecem, em troca, as potências capitalistas? Nos Estados Unidos, um andaime estatal improvisado, erguido sobre medidas de emergência tão draconianas quanto inúteis, sustentado por uma elite tecnocrática que brilha em inteligência, mas afunda em impotência. Na França, o que impera é a “Nova Moral Econômica” — ou seja, a normalização do calote como política de Estado. Não pagar a dívida aos Estados Unidos tornou-se motivo de orgulho nacional entre os mesmos que, pouco antes, vituperavam os alemães por não pagarem reparações de guerra que já haviam sido quitadas várias vezes.
O Tio Sam, ludibriado, protesta — e a burguesia francesa ri com graça de sua própria esperteza. Enquanto isso, o povo é esmagado: impostos sobem de forma feroz; salários, pensões e auxílios de desemprego são cortados; os orçamentos para ciência, educação, saúde e cultura são esvaziados; pequenos poupadores são arruinados por “conversões” da dívida pública que mais parecem confisco legalizado. E ainda há quem diga que esse sistema tem futuro.
Como última linha de defesa, os países capitalistas lançam mão de tarifas alfandegárias protecionistas em série — barreiras sobre barreiras, como trincheiras em uma guerra comercial permanente. É a corrida aos armamentos aduaneiros, uma forma irracional de “solucionar” a crise de superprodução, que nada resolve e apenas impossibilita qualquer forma de cooperação internacional real — algo estruturalmente impossível sob o capitalismo.
Um exemplo particularmente revelador — e, ao mesmo tempo, absurdo e odioso — da irracionalidade dos direitos alfandegários no regime capitalista, e da verdadeira pilhagem institucionalizada que se exerce nas fronteiras às custas da população trabalhadora, pode ser visto no caso do café na França.
O café não é um produto de luxo. É, para as massas, um item de primeira necessidade — parte do cardápio da alimentação cotidiana do povo. Além disso, não há aqui qualquer justificativa de “proteção à agricultura nacional”: as colônias francesas produzem apenas uma fração irrisória daquilo que o Império consome em café. Trata-se, pura e simplesmente, de uma forma de espoliação estatal do consumidor. Em números: O preço de compra do café no mercado internacional é de 320 francos por 100 quilos — ou 360 francos com a bonificação de compra; sobre cada quintal incide: 321 francos de tarifa alfandegária; 180 francos de taxa de consumo; 100 francos de taxa de licença; E ainda uma série de taxas e sobretaxas adicionais, que somam o total a cerca de 630 francos por 100 quilos. Ou seja, o Estado cobra em impostos o dobro do que custa o próprio produto. Essas dilapidações regulares, verdadeiros assaltos a céu aberto mascarados de normalidade fiscal, revelam a voracidade de um Estado desnorteado, que, para se manter de pé, precisa sangrar diariamente a classe trabalhadora sob todas as formas imagináveis — O consumidor é o contribuinte, e o contribuinte é tratado como gado fiscal: explorado pelo imposto direto, pelo imposto indireto e, mais insidiosamente, pelo imposto disfarçado. A engrenagem funciona assim: Cria-se trabalho artificial para uma massa de desempregados que o próprio sistema condenou à ociosidade forçada; distribui-se ração de vinho aos soldados nos quartéis, sob o pretexto de beneficiar os camponeses — quando, na verdade, o lucro vai para os intermediários e especuladores do setor; reduz-se o preço do transporte de vinho, não para ajudar os pequenos produtores, mas para engordar os lucros dos grandes comerciantes do vinho.
Enquanto isso acontece, enquanto o consumidor francês é pilhado com impostos que duplicam o preço real do café, enquanto a fome cresce e a miséria se alastra nas nações capitalistas — o Brasil, maior produtor mundial, queima sacas de café aos milhões. Um jornal econômico anunciava recentemente o seguinte: “Ao fim da campanha em curso, o Brasil terá retirado do mercado 32 milhões de sacas, para elevar os preços”. Trinta e dois milhões de sacas! Isso representa, sozinho, uma vez e meia todo o consumo mundial anual de café.
Eis a realidade de dois mundos: lá, na União Soviética, molda-se a sociedade de acordo com as necessidades de todos; aqui, no capitalismo, moldam-se as necessidades de todos segundo os interesses da sociedade dominante — isto é, a lógica da propriedade privada e da especulação parasitária.
Por razões que até uma criança entenderia: aqui, desordem e queda.
Lá, ordem e ascensão. Considerando tudo, desde que o homem é homem, jamais se realizou no mundo um progresso de conjunto semelhante. Como diz Stálin:
Viu-se ampliar a prática dos ritmos impetuosos. — E ele diz também: — Cada período do desenvolvimento nacional tem sua epopeia. Hoje, na Rússia, é a epopeia da construção.
Nunca se viu tampouco um trabalho tão colossalmene racionalizado. O Plano 1928–1932 é o testemunho mais vasto que já se deu até aqui da inteligência e da vontade humana.
Será que não há pontos fracos? Ah, sim, há pontos fracos. Mas todos estão sob vigilância. Os transportes ainda não estão à altura. A URSS possui apenas 83 mil quilômetros de vias férreas, enquanto a França, quarenta vezes menor, tem 40 mil quilômetros. Embora o tráfego ferroviário tenha passado, nos últimos três anos, de 113 bilhões de km para 172 bilhões, e o dos canais e rios de 45 para 60 bilhões de km — aí existe um atraso que não pode subsistir sem prejuízo.
Por outro lado, os especialistas soviéticos constatam que os custos de produção não diminuíram o suficiente. Na verdade, não diminuíram absolutamente nada, no conjunto, durante os quatro anos do Plano. O enquadramento desses custos deve, portanto, figurar em primeiro lugar no próximo programa. E tantas outras insuficiências sobre as quais é preciso lançar-se com fúria!
E qual é, hoje, a atitude da grande burguesia, e de sua criada para todos os serviços — a grande imprensa — diante do balanço da experiência soviética?
O falecido Raymond Poincaré deu sua opinião num jornal argentino, La Nación. Para explicar a crise capitalista — que é uma crise de superprodução oriunda de países que vivem juntos às facadas sob o regime da guerra tarifária, — Raymond Poincaré acusa a “tentativa criminosa” da URSS de equilibrar sua economia. É a URSS a responsável pelo colapso de todas as outras economias nos cinco sextos do globo, pois:
Na URSS, tudo se passa segundo a execução de um Plano Quinquenal, que deve permitir ao dumping estender-se rapidamente aos produtos manufaturados. Sob a proteção desse sistema, a URSS pretende introduzir nos outros povos, com o agravamento de sua crise econômica, discórdias e dissensões que os tornem incapazes de organizar sua defesa.
Quando se pensa que essa apreciação realmente imbecil foi proferida por um homem que ocupou papel importante na política, ficamos perplexos. Havia muito mais tempo do que se supunha que Poincaré havia recaído na infância.
Ao lado dos inimigos, há os “amigos” de uma espécie especial.
Há jornalistas como Sr. Mallet, autor de uma recente reportagem onde a mais perfeita difamação se esconde sob flores de lisonja e sob uma pretensão um tanto grossa e desajeitada de imparcialidade. Sr. Mallet, além de apresentar números falsos, não cita um único resultado, um único progresso, sem tentar demoli-lo em seguida com um alfinete envenenado ou com a constatação de que tudo aquilo é — enfim! — o bom e velho capitalismo salvador.
Há também os grandes políticos estrondosos como Édouard Herriot, representante do capitalismo ocidental, fornecedor oficial de etiquetas “radicais” a governos reacionários — Édouard Herriot, que se esbofeteia e se esforça o quanto pode para tentar rebaixar o socialismo soviético às dimensões de seu próprio programa eleitoral, que ele ressuscita para a ocasião.
Sei bem o que vão me dizer: “Se você dissesse tanto mal da Rússia quanto diz bem, nós acreditaríamos em você. Sr. Herriot, por exemplo, em seu último livro, faz um relato equilibrado, objetivo, com luzes e sombras, enquanto você faz um panegírico, por partidarismo”. Ora, é a própria realidade que faz o panegírico. Nós não inventamos um único argumento.
É parcial aquele que, servo de uma concepção híbrida e medíocre de republicanismo, não vê as dimensões e as profundidades da originalidade criadora posta em ação lá. Esse não situa o fato soviético em suas verdadeiras molduras de tempo e espaço, em seu quadro mundial e histórico, em suas repercussões sobre a humanidade. Esse não diz a verdade.
E o fato é este. O Estado mais miserável da Europa (apesar de suas grandezas desertas), ignorante, acorrentado, derrotado, faminto, sangrando e arruinado, tornou-se em dezessete anos o maior país industrial da Europa, o segundo do mundo — e o mais civilizado de todos, em todos os aspectos. Um progresso semelhante, que jamais se apresentou, realizou-se — o que também jamais ocorrera — pelos únicos meios desse país, contra o qual todos os outros foram inimigos. E isso se realizou pela força de uma ideia, que está na direção oposta à ideia dominante de todas as outras sociedades nacionais — a ideia fraterna e científica de justiça.
Dizer apenas que um fato desses, uma conquista dessa envergadura para o espírito humano, é “interessante”, e “que não deve ser condenado em princípio”, é não o compreender — ou é enganar as pessoas. Colocar as poucas sombras desse quadro extraordinário no mesmo nível que suas luzes; comparar essas instituições às nossas — é, francamente, zombar do mundo.
Deixemos de lado, por um momento, a procissão grotesca dos figurantes orquestrais como o Sr. Édouard Herriot; dos Minus Habens (menos inteligentes) como Sr. Raymond Poincaré; dos amáveis jesuítas à moda do Sr. Mallet, cuja piedade é medida pela astúcia da mentira; os ébrios intelectuais como o Sr. Maurice Parijanine, cuja pena escorrega entre os volumosos goles de álcool, dos canalhas e imbecis como o Sr. Boris Bazhanov. O que está diante de nós agora são os grandes jornais. Esses, sim, se veem obrigados a engolir a seco, sob o peso insuportável dos fatos.
O jornal Le Temps, na edição de 27 de janeiro de 1932, admitia com certa perplexidade: “A União Soviética venceu o primeiro assalto industrializando-se sem aportes de capital estrangeiro.” Apenas alguns meses depois, em abril do mesmo ano, o mesmo periódico reconhecia, com uma sinceridade forçada pela evidência dos fatos: “O comunismo terá transposto, de um salto, a etapa construtiva que, em regime capitalista, exige avanços lentos. Praticamente, os bolcheviques venceram a partida contra nós”.
O assombro diante da façanha soviética se espalhava pelos porta-vozes da burguesia internacional. O The Round Table afirmava: “As realizações do Plano Quinquenal constituem um fenômeno surpreendente”. O Financial Times e o austríaco Neue Freie Presse viam no plano uma potência colossal: “O Plano Quinquenal é um novo gigante”.
O Sr. John Gibson Jarvie, presidente do United Dominion Bank, não escondia o contraste humilhante para o mundo capitalista: “A Rússia avança enquanto nós recuamos. Ultrapassaram as metas do Plano Quinquenal. Espírito e ideal: a juventude e os operários da Rússia têm algo que nos falta: esperança”.
Nos Estados Unidos, o semanário The Nation reconhecia o feito: “Os quatro anos do Plano Quinquenal apresentam realizações verdadeiramente notáveis. A União Soviética dedicou-se, com uma atividade intensa própria dos tempos de guerra, à edificação das bases de uma vida nova”.
Por fim, o jornal britânico Forward conclui com notável franqueza: “As realizações inglesas durante a guerra não passam de bagatelas ao lado disso. Os americanos reconhecem que nem mesmo o período mais febril de construção no Oeste oferecia algo comparável. Energia sem precedentes no mundo inteiro. Desafio fulgurante ao hostil mundo capitalista”.
O Camponês
Os avanços no campo são ainda mais significativos. Ali, a batalha foi ainda mais dura — e maior foi a vitória. Foi necessário romper, pela raiz, tradições milenares, muito mais resistentes, entranhadas em séculos de vida camponesa.
A questão agrária está definitivamente resolvida? Não. Mas lançamos um alicerce gigantesco. Conquistamos o essencial: uma vitória concreta. Agora, é preciso levá-la até o fim, fazer com que seu sentido se enraíze profundamente na consciência dos que vivem e trabalham da terra. Vamos contemplar mais uma vez a vastidão sem fim dos campos soviéticos.
A luta pelo campesinato é fio vermelho que atravessa toda a nossa revolução, de 1905 a 1917 — diz Stálin.
Conquistar da maioria camponesa a simpatia pela revolução — ou, ao menos, sua neutralidade — não foi tarefa difícil. Sob o antigo regime, a imensa massa dos camponeses vivia em condições miseráveis. Diante da escolha entre a revolução e o czarismo, o campesinato não hesitou.
Mas, uma vez consolidado o poder soviético no centro do país, a construção do socialismo — tornada possível por uma série de fatores políticos e econômicos — deparou-se com um obstáculo sério: o peso enorme que a agricultura ainda exercia na economia nacional como um todo.
“Não há dúvida de que, num país camponês como a Rússia, a construção socialista é uma tarefa extremamente difícil” — afirmou Lenin com toda clareza logo no início. Ele também observou que, em essência, a pequena propriedade camponesa tem mais afinidade com o capitalismo do que com o socialismo.
Como, então, integrar o campo ao projeto de edificação socialista?
No caso da grande propriedade fundiária, a solução foi imediata: o inimigo comum — o latifundiário — foi expropriado. Restava, porém, a pequena propriedade, milhões de lotes individuais. E o mujique, como todo camponês do mundo, deseja com todas as forças possuir sua própria terra.
Durante o período da NEP, foi necessário agir, até certo ponto, como bons nadadores sobrevivendo a um naufrágio — com prudência e firmeza. Foi nesse contexto que Lenin declarou:
A tarefa da NEP — a principal, a decisiva, aquela à qual todas as outras devem se subordinar — é estabelecer a ligação orgânica entre essa nova economia que começamos a construir (muito mal, de maneira ainda desajeitada, mas começamos) e a economia camponesa, da qual vivem milhões e milhões de camponeses.
Era preciso encontrar essa ligação vital nos interesses mútuos, nas vantagens materiais do camponês. A questão não era de palavras bonitas, mas de vantagens reais — ou da ausência delas.
O camponês será levado ao socialismo não por algum sentimento místico, mas por seus interesses — e unicamente por seus interesses.
Convencê-lo de que o socialismo lhe é vantajoso — essa era a tarefa. Mas como fazê-lo? A resposta, nós a conhecemos: por meio da cultura elevada.
Uma cultura avançada exige o uso coletivo da terra e o trabalho associado — e essa forma de vida é mais vantajosa do que qualquer outra. Ela incorpora, portanto, os interesses mais imediatos de cada um ao sistema socialista. O camponês russo — e ele é muito mais realista do que místico, nele o senso do concreto fala mais alto — pode ser convencido com números: é preciso apenas que ele compreenda que a parte que lhe cabe na colheita coletiva é maior — e muito mais segura — do que o rendimento incerto de uma propriedade individual fragmentada — o mujique acredita no talismã dos números.
Os camponeses pobres, e sobretudo (porque o camponês mais pobre tende a ser mais conciliador simplesmente por não ter nada a perder) os camponeses de médio porte, os chamados Seredniaks, teriam de tomar uma decisão.
No 15º Congresso do Partido, Stálin colocou diretamente a questão do Seredniak. Ele destacou o fato de que, no período da Revolução de Outubro, “o camponês médio começou a se aproximar de nós quando se convenceu de que a burguesia fora derrubada ‘para valer’, que o poder soviético se consolidava, que o Kulak estava sendo vencido. A vitória da Revolução se anunciava: o Exército Vermelho começava a triunfar nas frentes da guerra civil”.
Com o Seredniak, era necessário selar uma aliança sólida — uma aliança que “não fizesse a menor concessão a seus preconceitos”, mas que o levasse a compreender e aceitar a virada “rumo à socialização de toda a economia soviética, e da agricultura em particular”, e à eliminação completa do parasita — os Kulaks.
Pois a conquista das massas não se faz pela força, mas unicamente pela persuasão e o convencimento.
Trata-se, em essência, da extensão natural e necessária, no plano da produção, do mesmo sistema de cooperação que já havia estabelecido sólidas bases no domínio do consumo e da comercialização, preparando o terreno para uma nova etapa da construção socialista. Assim como as vastas extensões de terras improdutivas foram transformadas em sovkhozes — fazendas estatais de caráter nitidamente socialista, que funcionavam como unidades-modelo de vanguarda —, as pequenas propriedades privadas camponesas deveriam, por sua vez, ser incorporadas ao movimento de coletivização mediante a constituição dos kolkhozes, ou cooperativas agrícolas de produção coletiva.
Ao final dos quatro primeiros anos do Plano Quinquenal, paralelamente à ampliação das áreas destinadas ao cultivo de trigo — que cresceram em 21 milhões de hectares em todo o território da URSS —, já haviam sido organizados 224 mil kolkhozes e 5 mil sovkhozes. No encerramento de 1934, esse número já havia alcançado a marca de 240 mil kolkhozes.
A coletivização agrícola avançava a passos largos: 65% das explorações agrícolas soviéticas haviam sido integradas à esfera kolkhoziana, abarcando cerca de 70% — ou, mais precisamente, três quartos — de todas as terras camponesas. O avanço da socialização dos meios de produção no campo se expressa claramente na progressão percentual da adesão camponesa ao modelo coletivo: 4% em 1929; 23% em 1930; 52% em 1931; 61% em 1932; e 65% em 1933 — o que significava a incorporação de mais de dois milhões de economias camponesas ao sistema coletivo. Era uma verdadeira maré revolucionária a conquistar, por ondas sucessivas, as vastas planícies do interior soviético. Kolkhozes e sovkhozes juntos passaram a deter 85% de todos os campos de cereais da União Soviética.
As dimensões dessas unidades produtivas impressionam: nos Estados Unidos, propriedades agrícolas com mais de 400 hectares representavam apenas 1% do total; enquanto isso, na URSS, a extensão média dos kolkhozes era de 434 hectares, e a dos sovkhozes alcançava 2 mil hectares.
Os benefícios materiais da coletivização, processo fundamental da instauração do socialismo no campo, não tardaram a se evidenciar. Um exemplo eloquente disso pode ser encontrado na Ucrânia: reconhece-se hoje que foi justamente a força coletiva das novas estruturas comunitárias que possibilitou enfrentar os graves riscos trazidos pela seca e, mesmo sob condições climáticas desfavoráveis, assegurar à URSS uma colheita em 1934 superior à de 1933.
O Estado também proveu apoio material direto e concreto aos camponeses, estruturando as bases técnicas da nova agricultura socialista. Foram organizadas nada menos que 2.860 Estações de Máquinas e Tratores (EMTs), cujo custo totalizou 2 bilhões de rublos — centros mecanizados que operavam como braços armados da produção coletiva. Além disso, os kolkhozes foram beneficiados com créditos públicos no valor de 1,6 bilhão de rublos. Mas que se entenda: esses créditos não eram doações condescendentes de um Estado separado da classe trabalhadora — como os subsídios burgueses que irrigam com dinheiro público as empresas privadas sob o pretexto de “fomento” —, mas sim transferências internas de uma forma de coletividade para outra: do todo social para o todo social. Trata-se, portanto, de um processo consciente de redistribuição socialista, orientado pela lógica do desenvolvimento comum, e não de mecanismos espoliativos como os famosos créditos ministeriais franceses às companhias ferroviárias e marítimas, que terminavam frequentemente nos bolsos dos acionistas e intermediários parasitários.
A assistência estatal não parou aí. Somaram-se a esse esforço empréstimos em sementes e cereais alimentares que atingiram a cifra impressionante de 42 milhões de quintais, bem como alívios fiscais e seguros subsidiados aos camponeses pobres, no valor de 370 milhões de rublos. Era o poder soviético agindo como tutor consciente da transição econômica, apoiando a classe camponesa na superação do atraso herdado da velha Rússia czarista.
A reciprocidade desse apoio se expressa nitidamente nos números da produção e entrega de grãos ao Estado. No biênio de 1929–1930, os camponeses “individuais” — ainda dominantes na estrutura agrária — entregaram 780 milhões de pouds (equivalentes a 12,5 milhões de toneladas) de cereais, enquanto os kolkhozes contribuíram com 120 milhões. No entanto, em 1933, esse panorama se inverteu completamente: os kolkhozes entregaram 1 bilhão de pouds, enquanto os camponeses individuais, já em minoria, forneceram apenas 130 milhões. Era a nova agricultura coletiva provando sua superioridade em produtividade, organização e capacidade de abastecimento.
Ainda que brevemente, é necessário registrar um dos aspectos mais extraordinários desse processo: a imensa infraestrutura científica e organizacional que se ergueu paralelamente à coletivização. Institutos agronômicos, laboratórios, escolas de pesquisa, expedições e excursões científicas sistematizaram o saber agrícola com rigor inédito, impulsionando classificações botânicas, seleções genéticas, experimentações sobre fertilizantes e técnicas de cultivo — uma verdadeira revolução técnico-científica no campo, cujos frutos se manifestavam em estatísticas de uma eloquência comovente.
Ao final de 1934, os resultados dessa política foram tão robustos que o governo soviético pôde simplesmente anular a dívida dos kolkhozes junto ao Estado — o que representava uma soma de 435 milhões de rublos — além de conceder prêmios e incentivos adicionais às cooperativas que haviam cumprido exemplarmente suas metas de produção. A Rádio Central de Moscou lançou a pergunta: “Que outro governo no planeta poderia se permitir tal luxo?”
Mas a política soviética não parava nos números. Ela mirava a transformação integral da vida. Em dezembro de 1931, por proposta de Stálin, o Comitê Central do Partido decidiu abolir os cartões de racionamento de pão e farinha. Esses cartões, instituídos em 1929 como medida de emergência, refletiam uma época em que 86% do trigo ainda era produzido por camponeses individuais e em que a rede comercial privada contava com 215 mil estabelecimentos. Esse sistema, embora administrativamente custoso, garantiu o fornecimento de alimentos essenciais a preços mínimos para os operários e funcionários urbanos. Agora, com o avanço avassalador da indústria socialista e a supremacia dos kolkhozes e sovkhozes — responsáveis por 92% da produção de trigo —, com mais de 283 mil lojas estatais funcionando em todo o território, e com um crescimento inaudito da capacidade produtiva do Estado, tornava-se possível dar mais um passo na transição para o comunismo: garantir a venda livre e generalizada de pão e farinha, como destacou Molotov, celebrando essa medida como uma nova vitória da política soviética.
Vamos tentar comparar a situação do campesinato na URSS com a dos nossos países? Acabamos de ouvir um debate na Câmara francesa sobre a questão do trigo. O Presidente do Conselho confirmou da tribuna um fato que, por mais colossal que fosse, não revelou nada que todos já não soubessem: entre o camponês produtor e o consumidor de pão se interpõem intermediários que extorquem um e outro e realizam no país um lucro de dez milhões por dia. Além disso, o camponês francês vende seu bezerro a 2 francos e 50 o quilo; o mesmo bezerro, no mesmo vilarejo, é vendido a 10 francos o quilo e, na cidade, a 20 francos. O viticultor vende seu vinho superior a 1 franco e 50 o litro no burgo; o comerciante lhe revende, se ele tiver sede, por 4 francos; se vai à cidade, encontra-o por 15 francos; no restaurante elegante, por 20 francos. Como resolver isso? Com medidas provisórias. Não há maneira de fazê-lo de forma durável em regime capitalista, onde o arbítrio e a fraude individual são irreprimíveis, onde manipulam a seu favor tanto o sistema de taxação quanto o da liberdade de mercado, e zombam do que está impresso no Diário Oficial. Entre nós, nada pode sair dos edifícios com a inscrição “Liberdade — Igualdade — Fraternidade” além de leis que fingem preocupar-se com os pequenos produtores.
Se quisermos agora alguns dados comparativos sobre o rendimento, saberemos que a produção de algodão soviética passou, em três anos, da trigésima para a décima quinta parte da produção mundial, e que o cultivo da beterraba, que em 1929 representava um terço do cultivo de todos os outros países reunidos, ultrapassou em 1932 essa produção mundial em mais de metade.
Existem duas formas fundamentais de fazendas coletivas (kolkhozes): a Comuna e o Artel. Na Comuna, tudo é compartilhado — a terra, os instrumentos, os frutos do trabalho e até a vida cotidiana. Os kolkhozianos vivem coletivamente, entregando-se por inteiro ao esforço comum. No Artel, ao contrário, cada trabalhador conserva para si sua casa, seu quintal, e, se necessário, até mesmo uma vaca. Permanece, assim, proprietário privado de um pequeno espaço pessoal, situado à margem da grande exploração coletiva que compartilha com os demais.
É essa forma — o Artel — que Stálin recomenda com firmeza e clareza. “Concessão! NEP! Traição ao socialismo!” — ouve-se gritar, ou sente-se a ânsia de gritar. Mas, um momento. O socialismo, ao contrário do que espalham aqueles que não querem compreendê-lo entre os que ainda não o conhecem, não foi criado para atormentar o povo com ordens implacáveis, perseguindo cada um com o dedo em riste, como um cobrador inflexível. Não. O socialismo nasceu, justamente, para livrar o ser humano da opressão. Seu propósito não é arrancar arbitrariamente o que traz satisfação pessoal, nem impor sacrifícios desmedidos em troca da igualdade política, da justiça social ou da segurança de uma vida digna.
As limitações impostas à propriedade privada não são um fim em si mesmas — são meios necessários para alcançar uma forma de vida coletiva muito mais ampla, mais rica, mais humana. Por isso mesmo, não se trata de impô-las de maneira cega e mecânica, mas de reduzi-las ao mínimo indispensável. É preciso socializar os meios de produção — pois bem, que se socializem. E depois?
Depois o espírito coletivo, já em transformação pelas próprias exigências da realidade, continuará a se modificar. As resistências herdadas, que ainda persistem, desaparecerão. As questões de hoje serão vistas sob nova luz, uma luz que já não parte do passado, mas da experiência viva da nova sociedade.
Naturalmente, preferir-se-ão as formas mais plenas e autênticas do coletivismo. A Comuna — essa forma mais elevada de organização social — acabará por superar o Artel. Mas, até lá, será o interesse profundo das massas — esse sentimento instintivo, forjado na prática — que orientará a escolha.
Enquanto isso, pratica-se o Artel, que de modo algum contradiz a verdadeira ideia de igualdade. Ele apenas rompe com aquela noção estreita, abstrata e antimarxista de igualitarismo, que confunde uniformidade com justiça.
É necessário — mais que necessário — considerar o “bem-estar de todo kolkhoziano”. Esta expressão, aliás, tornou-se palavra de ordem viva. “Você quer a sua vaca, camarada? — pergunta Stálin, — Você terá a sua vaca”. E ele esclarece: a palavra de ordem — prosperidade para os trabalhadores do campo — não tem hoje o mesmo sentido ambíguo e perigoso que teria tido nos primeiros dias da NEP. Naquela época, tal consigna poderia servir de engrenagem para a restauração capitalista, desviando o curso da construção socialista. Hoje, ao contrário, no seio de uma economia socializada e em processo de consolidação, ela é um estímulo justo, leal, profundamente necessário. Aliás, todo o edifício do socialismo tende, com rigor e intencionalidade, à meta superior: garantir o máximo de bem-estar com o mínimo de esforço — uma aspiração realista, humana, historicamente situada.
O essencial da tarefa agrícola está cumprido, neste momento. Mas essa conquista não se realizou por si só — exigiu luta, persistência, vigilância constante. Houve resistência — resistência verdadeira, tenaz — sustentada pela oposição encarniçada dos Kulaks, cuja fúria expressava o desespero de uma classe em extinção. Além disso, como era inevitável em um empreendimento dessa magnitude, enfrentaram-se tropeços e dificuldades na fase de aprendizagem. Em certo momento, correu-se o risco de perder o rumo. A velocidade ultrapassava as forças.
Foi então que Stálin publicou o célebre artigo “A Vertigem do Sucesso” — um marco, uma virada. Ele freou a precipitação. Chamou o Partido à razão. Era preciso corrigir os desvios, recalibrar o curso. E a resposta foi uma gigantesca mobilização nacional: comunistas e técnicos foram lançados em massa ao campo, sob a convicção de que, para retomar qualquer tarefa monumental, é preciso refazer seus fundamentos, revisar cada direção, reforçar cada ponto de partida. Cada estação de tratores se converteu numa cidadela ideológica, destinada a penetrar nas profundezas do espírito camponês, a iluminar consciências. Assim, 23 mil comunistas de destaque, 110 mil técnicos, e junto a eles 1 milhão e 900 mil motoristas e mecânicos, desceram ao campo — e por ora, triunfaram.
Mas as críticas persistem. A maioria das fazendas coletivas ainda não dá lucro. E há quem, mesmo entre comunistas, proponha abertamente liquidar essa “experiência onerosa”. Mais uma vez, nosso dirigente demonstra sua visão histórica e sua firmeza estratégica. Com severa lucidez, ele se opõe a essa miopia destrutiva. E lança, como um trovão, sua resposta:
Eles não dão lucro? Ora, é como nas fábricas industriais de 1920: darão. E muitas já estão dando. Mas as fazendas coletivas são mais do que unidades econômicas: são a base de todo o edifício, o fundamento do novo sistema. Não se pode medir seu rendimento a partir da lógica mercantil, a partir da sua realização imediata. O rendimento econômico deve ser compreendido desde a perspectiva da economia nacional como um todo, e ao longo de vários anos de atividade. Só esse ponto de vista é verdadeiramente leninista, verdadeiramente marxista.
E é por isso mesmo que esse é o ponto de vista stalinista.
Há momentos em que os comunistas se acomodam sobre os louros do passado. Superestimam as fazendas coletivas, transformam-nos em uma espécie de “ícone intocável”. E, se num dado momento Stálin combateu com firmeza os defensores da liquidação das fazendas coletivas, agora ele chama a atenção, com igual energia, para o outro extremo da questão:
Eles chegaram à conclusão de que, uma vez estabelecidas as fazendas coletivas como forma socialista de unidade econômica — então, tudo já estaria resolvido.
Mas — sublinha Stálin (revelando nesse detalhe o núcleo vivo da autocrítica marxista) — as fazendas coletivas, assim como os sovietes, são apenas formas organizativas; é verdade que são formas socialistas, mas ainda assim, formas. Tudo depende do conteúdo que elas abrigam. Em 1917, os sovietes estavam sob controle dos mencheviques e dos social-revolucionários. O próprio chefe da contrarrevolução russa, Pavel Milyukov, defendia a palavra de ordem: “Sovietes sem comunistas!”.
Também as fazendas coletivas, enquanto formas organizativas, podem ser temporariamente apropriadas por elementos contrarrevolucionários, que agora ensaiam um novo grito de guerra: “Kolkhozes sem comunistas!”.
Nós continuamos — diz Stálin — a aplicar a velha tática simplista de combate ao kulak, mesmo quando essa tática já caducou faz tempo. A luta de classes no campo assumiu novas formas. Se certas fazendas coletivas não conseguem se desenvolver adequadamente, se há fracassos nas entregas obrigatórias de grãos, a culpa não é dos camponeses, mas dos comunistas! Muitas fazendas coletivas são dirigidas por verdadeiros incompetentes e ignorantes, — “tipos de chapéu e crachá”, como ironiza Stálin, — indivíduos que têm o cartão do Partido no bolso, mas são, ainda, incompetentes e ignorantes.
Stálin não alivia nem os “senhorões” de gabinete, que esperam que tudo se resolva por si só, nem os “honestos tagarelas”, aqueles que são mestres em afogar qualquer tarefa viva numa enxurrada de discursos vazios. Ele compartilha um diálogo que teve com um “camarada muito respeitável”, um dirigente local. Escutemos a cena:
Stálin: Então, camarada, como andam os preparativos para semeadura?
Dirigente: Ah, camarada Stálin, mobilizamos as massas!
Stálin: E...?
Dirigente: Colocamos a questão nos seus devidos termos. Com toda a ênfase.
Stálin: Certo. E depois disso?
Dirigente: Estamos num ponto de inflexão. Há uma virada a caminho, camarada. Uma virada iminente.
Stálin: Aham. E concretamente?
Dirigente: Detectamos sinais claros de avanço. Há movimento. Um dinamismo em gestação.
Stálin: Mas e a semeadura, afinal?
Dirigente: A semeadura, camarada... bem... por enquanto... não saiu do papel.
Ainda assim, os resultados efetivos se acumulam por cima das pequenas pedras de tropeço e, apesar de tudo, o rosto do campo já não é o mesmo. Se ele não muda tão depressa quanto desejariam nosso entusiasmo e nossa sede de futuro, ele muda. Aliás, a fisionomia da aldeia também mudou. É Stálin quem fala:
O velho vilarejo começa a desaparecer. Aquele vilarejo de silhueta conhecida: a igreja erguida ao centro como um farol do obscurantismo; as belas casas do chefe de polícia, do pope e do kulak perfiladas em primeiro plano; e, ao fundo, as isbás pobres, meio desabadas, como feridas abertas na paisagem. Tudo isso começa a sumir, a se dissolver no tempo. Em seu lugar, ergue-se o novo vilarejo soviético: com seus edifícios públicos e cooperativos, seus centros culturais, seu rádio, seu cinema, suas escolas, bibliotecas, creches. Os tratores avançam onde antes só passavam carroças. Surgem as colheitadeiras, as debulhadoras, os automóveis. A técnica penetra o campo, o transforma, o eleva. Desapareceram as velhas figuras da dominação: o kulak, o agiota que sugava o sangue dos camponeses, o comerciante que especulava com a fome, o chefe de polícia — o “paizinho” armado que impunha o medo. Essas figuras foram apagadas pela história. Hoje, os novos “notáveis” da aldeia são outros: são os trabalhadores das fazendas coletivas e estatais, os educadores, os agitadores culturais dos clubes, os operadores das máquinas, os condutores dos tratores e debulhadoras, os dirigentes das brigadas de choque nos campos e estábulos — os melhores entre os brigadistas, heróis anônimos da revolução no campo. É o povo trabalhador que agora ocupa o primeiro plano. São eles os rostos da nova era.
Desaparecem, relegados às telas de pintura ou aos palcos de ópera, aqueles cenários coloridos e faiscantes de igreja que deslumbravam o pobre rebanho humano, aquelas ruas e praças imundas como galinheiros — e aqueles caminhos difíceis, por onde passavam de tempos em tempos carroças puxadas por cavalos com crinas em acento circunflexo.
Desaparecem, os personagens corpulentos e esmagadores, enclausurados ali dentro como dentro de uma caixa: a barine descendo, em longos intervalos, de um trenó, vestida orgulhosamente à antiga, cercada de galgos brancos luminosos com perfis aerodinâmicos; o camponês implacavelmente gordo, e os uniformes — criados em libré dourada, lá em cima, carcereiros lá embaixo — e os homens de batina, cujos rostos devotos eram contornados por palha imunda.
Desaparecem. Agora, o cenário é mecânico e espaçoso, e aqueles que por ali passam e comandam são homens de blusa, de rosto franco e decidido, feliz e orgulhoso.
O Sr. Victor Boret, em seu livro “Le Paradis Infernal”, estima que a situação da agricultura soviética é crítica e ameaçadora por causa da extensão relativamente pequena das terras cultivadas cerca de 140 milhões de hectares para 168 milhões de habitantes. A essa visão se alinha — naturalmente — o Sr. Herriot. Mas que a agricultura soviética tenha hoje um rendimento ainda insuficiente, tanto quantitativa quanto qualitativamente — tanto melhor! Isso lhe dá uma imensa margem de prosperidade futura (não lhe falta espaço nem progresso. O contrário é que seria grave.
Começa-se até a entrever, em certas fazendas coletivas mais aperfeiçoadas, como o de Kabarda, formas geométricas que certamente se aproximam das da cidade camponesa futura: uma grande praça semicircular, tangente à estrada, e ao redor, como prolongamentos dos raios desse semicírculo, ruas que dividem o território em setores especializados: aqui os galpões e silos, ali os tratores e automóveis, mais adiante as escolas e os serviços técnicos etc. Em uma palavra, a racionalização arquitetônica da “cidade-vilarejo”. Um plano que lembra metade de uma vasta rosácea, esfumada nas bordas.
Enquanto o campo soviético — não sem lutas e tensões — avança em seu aperfeiçoamento e se consolida como projeto racional de superação das contradições seculares do atraso agrário, nossos olhos se voltam para outro vasto continente, brutalmente submetido à lógica decadente do capital: os Estados Unidos da América. Ali, a brutalidade da crise se expressa de forma nua e crua. As áreas de cultivo de trigo foram reduzidas em um décimo. O valor total da produção agrícola despencou de 11 bilhões de dólares, em 1929, para 5 bilhões em 1932. Em apenas dois anos, o valor das propriedades rurais — terras e maquinário — declinou em 14 bilhões. Quase metade dos agricultores, 42%, hipotecaram seus bens; e se o número de despejos “limitou-se” a 258 mil em 1932, isso se deve unicamente à resistência armada dos camponeses insurgentes.
E o que propõe a NRA — essa manifestação mais elaborada da inteligência capitalista? Nada além do suicídio programado da produção, a institucionalização do malthusianismo econômico: redução forçada de 8% da área cultivada, prêmios em dinheiro para quem abandona suas terras, recompensas àqueles que enterram entre 25% e 50% de suas colheitas de algodão. Um furacão devasta plantações? O capital celebra: trata-se de uma “vitória nacional”! A abundância, sob o domínio do capital, converte-se em maldição. A imprensa francesa chega a noticiar que uma boa colheita representa uma “ameaça” aos viticultores da região de Champagne. Eis a lógica da economia burguesa: para reanimar o mercado, que venham as enchentes, as geadas, o granizo, a praga da filoxera — quanto pior, melhor!
Já denunciamos as destruições sistemáticas do café brasileiro, queimado aos montes para sustentar artificialmente os preços. Medidas como essas — que ao mesmo tempo exalam o fedor do crime e o delírio da insanidade — exigem que nos detenhamos nelas com um certo calafrio de horror. E mais: deixaram de ser exceções para se converterem em método. Não são aberrações, mas manifestações regulares e necessárias do modo de produção capitalista em sua fase de decomposição.
A França segue o mesmo roteiro macabro: proíbe-se o cultivo de determinadas castas de uvas, por serem “demasiado produtivas”; veda-se o uso de tecnologias mais eficientes nas obras públicas — em alguns contratos, é expressamente proibido o emprego da pá mecânica, para manter artificialmente o “nível de emprego”. No próprio Le Capital, o Sr. Caillaux chega a propor, como “solução” à crise, a interrupção da renovação de maquinário — o combate ao progresso como política de Estado.
Assim caminha a razão burguesa: para preservar os lucros, condena-se o trabalho ao atraso, a ciência à esterilidade e a humanidade a uma penúria artificial. Em nome da civilização, retrocede-se à tecnologia da Idade Média.
Assiste-se hoje a um espetáculo de proporções globais, um ritual de destruição sistemática que se repete, grotesco e sinistro, em cada canto do planeta e em cada setor do trabalho humano. É uma farsa macabra erigida em método de governo: ceifa-se o trigo ainda verde nas planícies de Seine-et-Oise e em tantos outros campos da Europa; nos Pireneus Orientais, como também em incontáveis outros vales férteis, frutas inteiras são lançadas aos depósitos de lixo; na Lombardia, e por toda a Itália rural, camponeses incendeiam seus casulos de seda, aniquilando com as próprias mãos o fruto de seu labor.
Por toda parte, sacrifícios agrícolas: grãos semeados para alimentar o povo são deliberadamente mortos e enterrados. Hectares de beterrabas são destruídos, rebanhos de suínos e vacas abatidos em massa, não para alimentar bocas famintas, mas para que os preços se sustentem em mercados apodrecidos. Rios inteiros de leite são despejados nas águas americanas (e não só americanas) enquanto crianças desnutridas agonizam. Cargas inteiras de peixe são lançadas ao mar. Milhares de automóveis novíssimos, completos, saídos das linhas de produção da General Motors, são esmagados por máquinas monstruosas.
Tudo isso não se dá por acidente, mas por cálculo — cálculo frio, racional, econômico. Trata-se de catástrofes deliberadas, execuções industriais meticulosamente organizadas. E tudo isso se passa num mundo onde esses bens — alimento, vestuário, transporte — fazem falta desesperadora. Onde milhões perecem de fome. Onde na China e na Índia, centenas de milhões mastigam raízes, cascas de árvores e capim para sobreviver. Onde os desempregados se acumulam como sobras humanas nos mesmos países onde se enterram os frutos do trabalho humano, como se fossem lixo.
Essa é a última palavra do capitalismo em sua fase senil: ele assassina a natureza e assassina as próprias coisas que produz! É o sistema que sufoca a vida sob o peso de sua própria irracionalidade. Não há acusação mais devastadora contra uma ordem social do que essa mutilação generalizada da riqueza, essa negação ativa da abundância, esse grito silencioso de um mundo virado do avesso — onde o progresso conduz à barbárie e a técnica ao desespero.
Qual espaço haveria, pois, para tais absurdos em um país como a União Soviética? Onde o excedente não se transforma em lixo, mas em reserva para suprir as necessidades do povo; onde o planejamento elimina o desperdício e subordina a produção às necessidades humanas, não à especulação do mercado. Stálin ironizou:
Se alguém falasse em aplicar semelhantes métodos entre nós, tratar-se-ia imediatamente de interná-lo num asilo de alienados.
Se voltamos à URSS e, do lado das coisas, passamos ao lado dos homens — lá onde os fatos muitas vezes encontram sua fonte e sempre a sua direção — constataremos que o avanço visível de tais realizações foi possível graças a um impulso absolutamente específico. Houve sobrelucro, sobrerrendimento, proveniente do entusiasmo despertado pela “ideia”. A emulação socialista foi o formidável “imponderável” que tanto pesou sobre o êxito.
Os trabalhadores soviéticos são, em sua essência humana, como todos os demais homens e mulheres do mundo. Mas sua condição social, sua consciência e sua prática os transformaram radicalmente. Como já se disse, não possuem mais “as mesmas cabeças, nem as mesmas mãos” que os trabalhadores dos países capitalistas, pois vivem em um regime onde o trabalho já não é uma atividade alienada, mas uma construção coletiva voltada para o bem comum. No capitalismo, o trabalhador se vê forçado a combater seus patrões a cada jornada, a cada salário negado, a cada produto de seu labor que lhe é expropriado. Já na União Soviética, o trabalhador não se submete à ordem de uma classe dominante — ele trabalha para si, para sua família, para seu povo. Por isso, suas mãos são firmes e suas cabeças eretas: porque sabem que seu suor fertiliza a terra de uma nova sociedade.
Foi essa transformação visível, concreta, viva — o orgulho e a alegria irradiando dos rostos operários — que mais comoveu Máxim Gorky ao retornar à União Soviética em 1928, após longa ausência. “Vejam o que os trabalhadores socialistas conquistaram!” — essa exclamação, pronunciada com entusiasmo genuíno e frequência espontânea entre os que constroem o novo, revela não apenas um sentimento, mas uma consciência histórica. Os feitos se acumulam, erguem-se uns sobre os outros, expandem-se com velocidade prodigiosa — cinematográfica, sim, mas organizada, consciente, planificada — por sobre a vastidão da antiga Rússia camponesa, convertida em laboratório da revolução. Enquanto o mundo capitalista mergulha na estagnação, os sovietes fazem da vida um movimento.
Essa alegria é uma conquista, é produto do trabalho e do vínculo entre o indivíduo e o todo social. Orgulho e júbilo não são aqui sentimentos vazios: são a expressão moral do reconhecimento de que o esforço humano, quando libertado do jugo do capital, floresce. Uma nova dimensão da alegria de viver surgiu entre esses homens e mulheres. E como no passado — apesar da fome, da guerra civil, das privações titânicas — essa alegria não foi destruída, hoje ela triunfa novamente. E continuará triunfando, porque é a alegria da certeza: a certeza de que a humanidade encontrou um novo caminho. Como tão belamente disse Vilhelm Knorin, essa alegria é um sinal de certeza no socialismo.
Os extraordinários feitos de força, os esforços realmente sobre-humanos realizados em grande e pequeno, em massa e em detalhe, nesse colossal canteiro soviético, fornecem matéria para toda uma série de poemas épicos. Aliás, a literatura soviética contemporânea se transforma no ciclo das canções de gestação desta era de trabalho heroico dos homens renascidos pela segunda vez na liberdade. Ímpeto furioso, que dura meses e anos, corridas e tilintar de números — e enormidades terrestres que se empilham em velocidade sob as nuvens. As qualificações, as competências, se forjam num piscar de olhos nessa atmosfera. O Sr. Cooper, conselheiro técnico americano que participou do Usina Hidrelétrica do Dnieper, dizia-me, na inauguração da barragem titânica, que todos os recordes — e até todas as previsões — tinham sido superados pelos operários, nas circunstâncias mais inesperadas e difíceis, e que jamais se vira semelhante abate de trabalho. Além disso, 20 mil operários qualificados saíram, totalmente formados, dessa única obra e, em todo a frente de trabalho da guerra de quatro anos, 800 mil.
Essas coisas são muito lógicas. Tudo pelos trabalhadores e pelas trabalhadoras. É a fórmula algébrica das multidões-motrizes.
A emulação é latente. Ela está em toda parte, em todas as cabeças dos trabalhadores manuais e dos intelectuais. Cada um pensa no progresso possível, e assim se descobrem as linhas retas para chegar até ele. Cada um se empenha em encontrar algo melhor. Tornam-se inventores permanentes sob pressão. Kliment Voroshilov, Comissário do Povo para a Guerra, informava, há alguns meses, que recebera, no decorrer de um ano, 162 mil propostas vindas de simples soldados, contendo sugestões, ideias, invenções relativas à organização e à técnica, e acrescentava Voroshilov: “a maior parte dessas iniciativas era interessante e digna de exame e consideração”.
O organizador supremo desse imenso impulso de cem milhões de corações em marcha é o Partido Comunista — partido integral, partido sem mancha, cujos militantes são, ao mesmo tempo, servos e dirigentes, construtores e guias, homens e mulheres fundidos na chama viva da consciência revolucionária. O comunismo engendrou no mundo uma verdadeira multiplicação de apóstolos, cuja escala escapa à imaginação — e essa legião não cessou de crescer. Na Rússia soviética e nos quatro cantos do planeta, muitos desses apóstolos se converteram em mártires, tombados pela repressão capitalista — mas o sangue dos mártires apenas fecundou o terreno da história, e novos combatentes brotaram. Onde quer que se respire a liberdade em germe, ali já esteve a bandeira comunista. Por toda a Terra, os comunistas estenderam com generosidade inaudita o vermelho do seu sangue — até onde a vista não alcança, estendem-se seus corpos tombados, seus grandes cadáveres, envoltos na púrpura da bandeira que não traíram. São um milhão e meio de vidas arrancadas — vidas conscientes, organizadas, combativas.
Dá-se conta, diante dessa cifra e do que ela representa, de que o martirológio milenar do povo judeu — usado como símbolo do sofrimento humano — está sendo, em extensão e intensidade, ultrapassado pelo calvário histórico dos comunistas. De 1925 a 1933, somente nesse intervalo, mais de seis milhões de mortos, feridos, presos, perseguidos e torturados foram registrados, segundo dados de Elena Stasova, eminente dirigente do Socorro Vermelho Internacional. Não são todos comunistas, é certo — mas sabe-se bem que, na imensa maioria, são justamente os comunistas que encarnam o alvo principal do terror da burguesia. São eles que desafiam o sistema em sua raiz. São eles que carregam a bandeira da superação histórica da exploração.
Quem poderá contar — com o devido horror, com a justa indignação — o que se passa nos porões das prisões capitalistas ao redor do mundo? Quem poderá relatar, com fidelidade dolorosa, as milhares de cenas infernais que se repetem sob o comando dos agentes da ordem burguesa — verdadeira maquinaria sádica de tortura humana? De norte a sul, de leste a oeste, vemos os tentáculos do terror capitalista: Itália, Alemanha, Finlândia, Polônia, Hungria, Bulgária, Iugoslávia, Romênia, Portugal, Espanha, Venezuela, Cuba, China, Indochina, África — não há continente poupado, não há povo que não tenha sentido o açoite do capital em fúria.
Basta observar qualquer burguesia no exercício do poder para compreender: vivemos na era do sangue. Mas no meio desse caos, no meio dessa noite que parece total, ouvimos a beleza luminosa da voz acusadora de Georgi Dimitrov, que se ergue como raio sobre o Tribunal de Leipzig. E do mesmo lado, como tocha viva, como símbolo e promessa, vemos o camarada Ernst Thaelmann — firme como aço, crucificado pela besta nazista, mas irredutível como expressão do homem novo.
Quanto à URSS, se queremos saber o quanto um homem pode gastar de si mesmo por uma ideia, é preciso percorrer os anais do Partido, onde alguns exemplos conhecidos representam milhares de exemplos que não se conheceram e nunca se conhecerão. Qualquer que seja seu ofício, o comunista soviético se duplica em soldado — e depois se triplica em professor — e quando é preciso um herói, ele está lá para isso.
E, no entanto, esses homens que, para si mesmos, se contentam com uma vida modesta, muitas vezes austera, não são de modo algum sectários do igualitarismo, como alguns poderiam imaginar. Entre nós, o homem comum — cuja cabeça ainda não sabe digerir bem as ideias e cujo crânio está cheio de uma estranha salada de índices de doutrinas sociais e políticas — tem três grandes queixas contra o comunista, que fazem dele um espantalho: o acusa de ser antipatriota; de querer despojar cada um de seus bens; e de querer transformar a sociedade numa imensa caserna disciplinada e igualitária, nivelando as cabeças como calçamentos.
Ora, os internacionalistas comunistas são, ao contrário, defensores do florescimento nacional — desde que ele não avance à bala e não caia nas mãos dos homens de negócios. Sua teoria geral de supressão da propriedade só atinge um número ínfimo de parasitas e acumuladores sociais, e traz um enorme benefício a todos os demais habitantes da Terra. Todos os males públicos provêm, sem contestação possível, do desvario moral e material causado pela guerra geral do enriquecimento.
Quanto ao nivelamento, eles são seus inimigos declarados assim que ele ultrapassa aquela grande lei de justiça e equidade — base real do socialismo — que consiste em dar a todo ser humano o mesmo direito político, exatamente o mesmo, isto é, apagar uma desigualdade fictícia e iníqua na soleira de todos os destinos. Seria fácil demonstrar que o socialismo é, entre todos os regimes, aquele que mais e melhor cultiva a individualidade. Assim como:
O socialismo não nega, — afirma Stálin, — mas sim concilia os interesses individuais com os interesses coletivos. O socialismo não pode rejeitar os interesses individuais. Proporcionar ao indivíduo a máxima possibilidade de satisfazer suas necessidades pessoais só pode ser tarefa de uma sociedade socialista. Somente o socialismo cria uma base sólida para a real proteção dos interesses da individualidade — também não pode tolerar a hipertrofia patológica de alguns poucos monopólios individuais.
Neste último ponto, persistem confusões oriundas de um zelo demasiadamente moralista — quase espiritual — por parte de certos socialistas bem-intencionados, mas mal armados teoricamente. Stálin, ao abordar com rigor a questão do estatuto das campanhas de produção, adverte contra os exageros voluntaristas dos 200%, e conclama à disciplina, denunciando os que ainda balbuciam platitudes sobre o suposto “princípio do nivelamento” — uma ideia importada da literatura pequeno-burguesa e burguesa, que busca falsificar o marxismo. Stálin afirma que não devemos reincidir nesse erro: “os marxistas não podem ser responsabilizados pela estupidez e pela ignorância dos escritores burgueses”. Alerta Stálin:
O marxismo entende por igualdade não o nivelamento das necessidades pessoais e das condições de existência, mas a supressão das classes, isto é, a libertação igual para todos os trabalhadores após o derrubamento e a expropriação dos capitalistas. O dever igual para todos de trabalhar segundo suas capacidades, e o direito igual para todos os trabalhadores de serem remunerados conforme o trabalho (sociedade socialista); o dever igual para todos de trabalhar segundo suas capacidades, e o direito igual para todos os trabalhadores de serem remunerados conforme a necessidade (sociedade comunista). O marxismo parte do fato de que as necessidades e os gostos humanos não são, e não podem ser, iguais em qualidade ou quantidade — nem no socialismo, nem no comunismo. O marxismo nunca reconheceu, e não reconhece, nenhuma outra forma de igualdade.
Stálin recorda que, no “Manifesto do Partido Comunista” (1848), Marx e Engels ridicularizavam o socialismo utópico primitivo, qualificando-o de reacionário por sua propaganda de “ascetismo universal e nivelamento grosseiro”. Além disso, o fenômeno soviético mostra com abundância que, por mais que se tenha dito, o socialismo significa cultura intensiva das faculdades e dos recursos particulares de cada um.
O exército escolhido para a emulação proclamada pelo Partido é a juventude. Ela constitui, em bloco, a tropa de choque do socialismo. Espalhando-se pelas campanhas, esses jovens desfizeram os espectros do passado e dissiparam concepções atrasadas e preconceitos religiosos e sociais. São adolescentes, rapazes e moças de rostos frescos e corpos flexíveis, formados por um ensino livre de tradições intoxicantes. Como falanges de tratores, eles revolucionaram o espírito camponês por vastas extensões.
Em toda parte, o fermento luminoso da juventude atuou. Ela oferece um espetáculo inesquecível quando ocupa a Praça Vermelha com seus quadriláteros elásticos, ou quando transborda o estádio Dynamo e seus 45 mil lugares.
Embora, em tese, a juventude possa ser incompleta e marcada por uma ignorância inocente, ela nada é se não se integrar ao grande mecanismo social. Mas, ao tomar consciência, supera-se em linha reta — torna-se a velhice do futuro. E deve ser respeitada integralmente: por sua força expansiva, por seu direito de propriedade sobre o amanhã e por sua sabedoria utilitária.
Quer dizer — repetimos — que não existam pontos insuficientes no quadro? Sem dúvida, existem. Seria possível enumerá-los todos, desde que se enumerassem também todas as conquistas — pois a probidade exige sempre a justa proporção entre o bem e o mal, algo que jamais se faz quando se trata da URSS, já que tantas críticas são lançadas sem a contrapartida necessária.
A perspectiva de um bom dirigente é distinta da do crítico imparcial: cabe a ele focar nos defeitos e nas lacunas. No desenvolvimento da economia rural, por exemplo, o setor pecuário é uma assombração constante — sua estagnação é tal que seus números atuais pouco superam os de 1913, com a notável exceção dos suínos.
Esta é apenas uma frente de batalha. A atenção do dirigente deve ser dedicada também aos transportes, à siderurgia, ao carvão, à indústria leve, aos custos de produção, e àquele problema perene: a burocracia.
A burocracia (ou melhor, o burocratismo) é um fenômeno de crescimento descontrolado da inerente inércia humana; se manifesta numa veneração desregulada pela tradição. No âmbito da gestão e da organização, a burocracia, como fórmula teórica, busca uma existência independente, alheia aos seus objetivos fundamentais, ao seu propósito. No limite, a burocracia é um tumor que, ao crescer, desenvolve olhos e ouvidos próprios.
Eis quais são hoje as fontes de nossas dificuldades: o burocratismo e a administração papeleira dos serviços; os palavrórios sobre a “direção em geral” (em vez de uma direção viva e concreta); a ausência de responsabilidade pessoal; a despersonalização no trabalho; o nivelamento no sistema de salários; a ausência de verificação sistemática da execução; o medo da autocrítica.
Para combater essas dificuldades, o meio — que Stálin destaca com grande relevo, numa definição lapidar — é “elevar o nível da direção até o nível político”. Isto é: ter sempre na cabeça o sentido pleno do que se faz e o lugar que cada detalhe ocupa no conjunto.
Sigamos em frente sem olhar para os lados. Perdão — é preciso, sim, olhar para a direita e para a esquerda. É preciso vigiar a tendência direitista, que nos agarra por trás para puxar-nos de volta, e a tendência esquerdista, que nos empurra para um avanço desordenado. Os traidores esquerdistas, explica Osip Piatnitsky, são ainda mais nocivos: conseguem dissimular-se melhor. E Stálin previne contra esses perigos com tanta energia que chega a um veredito crucial: combater apenas um dos desvios já é, em si, uma concessão ao outro.
Não nos deixemos embalar em excesso pelos nossos sucessos. Tal euforia seria uma distração perigosa às vésperas do futuro, um risco capaz de comprometer nosso bem mais precioso e poderoso: a nossa linha. Esta linha justa pertence aos revolucionários — foram eles que a forjaram e são eles que a mantêm.
Pois ter uma linha justa e aplicá-la é uma raridade na vida dos partidos governantes. Olhem para os países vizinhos: quantos no poder possuem uma linha clara e a executam? A verdade é que hoje não existem tais partidos no mundo. Todos eles vagueiam sem rumo, erram no caos da crise e não vislumbram uma saída para o pântano. Apenas o nosso Partido sabe para onde avança e conduz sua obra, de forma vitoriosa, adiante.
Os que escutam e compreendem esse alto juízo — que eventos extraordinários permitiram que um estadista pronunciasse em nossos dias — devem concluir que, para respeitar e preservar intacta essa grande linha, é preciso permanecer continuamente em estado de vigilância e combatividade. Proibido parar, e proibido errar.
O que o Amanhã nos Reserva?
A URSS, viva e tumultuosa, é preciso vê-la, se quisermos vê-la de verdade, na perspectiva — ou melhor, na sombra — de seus futuros planos. Todas as descrições desse quadro torrencial envelhecem diante de nossos olhos: seria preciso crivá-las de posfácios!
Na atmosfera solene do 18º Congresso do Partido Comunista Bolchevique, realizado em janeiro de 1934 — o “Congresso dos Vencedores” — dominado pelo monumental informe de Stálin sobre o Primeiro Plano Quinquenal de 1928-1932, Stálin também abriu a porta ilimitada do futuro. O Primeiro Plano Quinquenal morreu. Viva o Segundo Plano Quinquenal de 1932-1937!
“A fase de reconstrução econômica está virtualmente concluída”, — disse Vyacheslav Molotov, Presidente do Conselho dos Comissários do Povo, um dos mais importantes dirigentes da URSS. Agora, entra-se no período de desenvolvimento, tanto em quantidade quanto em qualidade, da produção de bens de consumo, rumo à melhoria das condições de vida de todos. Com base na prodigiosa descentralização iniciada no universo soviético, a grande indústria se tornará duas vezes maior e mais pesada. A produção de meios de produção alcançará 43 bilhões e 400 milhões de rublos, o que corresponde a 209% do Plano anterior.
As indústrias de máquinas-ferramentas, carvão e petróleo terão sua produção dobrada. Já os setores de tratores, locomotivas, ferro-gusa, aço, cobre e produtos químicos triplicarão seus níveis atuais. A indústria madeireira também dará um salto expressivo, com crescimento de 76%, quase dobrando sua capacidade. A produção de vagões será multiplicada por cinco, enquanto a de automóveis crescerá oito vezes. A geração de energia elétrica alcançará os 38 bilhões de quilowatts/hora — um aumento monumental de 283%.
A nova ofensiva industrial do quinquênio — com investimentos estimados em 54,3 bilhões de rublos, o que representa um salto de 269% — não se limitará ao setor pesado: marca, também, a arrancada definitiva da indústria leve, da produção alimentar, dos bens de consumo e das cooperativas industriais.
Nesta nova etapa, será dado foco especial à elevação da qualidade dos produtos, à modernização técnica e à renovação integral do parque industrial. Será implementada a motorização sistemática dos setores que ainda impõem trabalho físico extenuante, ao lado de um avanço vigoroso na eletrificação das áreas rurais, das ferrovias e do transporte de energia em geral.
A produtividade do trabalho, que já havia atingido 41% em 1933, deverá alcançar 63% até 1937. Os custos de produção, que já haviam sido reduzidos em 4,7% entre 1933 e 1934, deverão cair ainda mais: uma redução acumulada de 26%.
No campo, está previsto — e decidido com firmeza — um aumento de 105% na produção agrícola, atingindo o valor de 26 bilhões de rublos. O número de estações de tratores saltará de 2.446 em 1932 para 6 mil. A mecanização das tarefas agrícolas crescerá 60%, alcançando uma potência total de 8,2 milhões de cavalos-vapor em tratores.
A malha ferroviária quase dobrará seu volume de tráfego. O transporte fluvial e marítimo será multiplicado por três. Já o transporte rodoviário crescerá de forma absolutamente inédita: dezesseis vezes mais intenso do que nos níveis atuais. No setor ferroviário, os números falam por si: 5 mil quilômetros serão eletrificados; 10 mil quilômetros receberão uma segunda linha; 20 mil quilômetros serão reconstruídos; e outros 11 mil quilômetros de novas ferrovias serão construídos do zero.
Grandes obras de engenharia hidráulica serão concluídas: os canais Mar Branco-Báltico, Moscou-Volga e Volga-Don, completando o sistema de integração hídrica nacional. Em 1937, a rede rodoviária nacional totalizará 210 mil quilômetros. A malha de aviação civil será expandida para 85 mil quilômetros, quase triplicando a rede existente em 1932 (32 mil quilômetros).
Os investimentos industriais somarão 69,5 bilhões de rublos. Para o setor agrícola, estão previstos 15,2 bilhões. Nos transportes, 26,3 bilhões. As novas instalações a serem construídas — ou completamente modernizadas — representam juntas um volume de recursos da ordem de 132 bilhões de rublos. Trata-se da cifra mais alta já registrada em qualquer orçamento ou plano econômico da história do país até então.
Não ouso sequer listar todas as grandes obras previstas neste capítulo do Plano — não por falta de importância, mas porque seu alcance é de tal magnitude que não cabe numa simples enumeração.
Ao lado das fábricas, ergue-se a construção de moradias que somam 64 milhões de metros quadrados de área habitável. Em 1937, os salários reais dos operários serão duas vezes e meia maiores que os de 1932. A liquidação completa do analfabetismo — tão completa quanto fora a do desemprego no Plano anterior — estará consumada: todos os cidadãos soviéticos saberão ler e escrever. O total de alunos nas escolas e institutos alcançará 197 por mil habitantes, em vez dos atuais 147 por mil. Os fundos de seguros sociais serão duplicados. “É um Plano fantasioso”, dirão. Pois bem — lembra Vyacheslav Molotov, com sua sobriedade habitual — quantas vezes não se disse exatamente o mesmo do Plano cujas grandes bases sustentam agora nosso presente? A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se tornarão, assim, o mais poderoso de todos os países do mundo nos principais ramos da economia.
Acrescentemos que os resultados alcançados no fim de 1934 já mostram que o Plano Quinquenal em curso atingirá seus objetivos colossais. A renda nacional cresceu 7 bilhões de rublos em um ano e, em dezembro, chegava a 55 bilhões. A produção de energia elétrica aumentou um terço em relação a 1933, alcançando 20 bilhões e meio de quilowatts. Em 1934, a produção de ferro-gusa foi 50% maior do que em 1933. A vitória é de grande porte. Stálin a constata com um certo tom de grandeza. Depois acrescenta: Não fiquem orgulhosos demais, camaradas — lembrem-se de que a produção de aço não cresceu na mesma proporção. Ela é apenas 40% superior à do ano passado.
Ao grande sonho — vigoroso e árduo — de ressurreição que a URSS realiza em larga escala sob a direção do Partido Comunista, ele próprio dirigido pelo camarada Stálin, mistura-se, contudo, o pesadelo da guerra. Conhece-se a tragicomédia da história do “pacifismo oficial” no período pós-guerra. O caráter ambíguo da pomposa Liga das Nações, sua quase lendária incapacidade de assegurar a paz, era a menor das críticas feitas a esse instituto de cerimônias pacíficas surgido do Tratado de Versalhes para consolidar seus resultados — lembrando que no que diz respeito ao recorte territorial, não à cláusula solene determinando que o desarmamento dos países vencidos deveria ser o sinal de um desarmamento geral, — e no qual a Alemanha se recusou a desempenhar para sempre o papel de bandido derrotado pelos outros bandidos, enquanto o Japão se recusou a continuar sendo ao mesmo tempo desonesto e mentiroso sob o feixe convergente da luz pública.
A agressão contra a URSS — imenso mercado potencial e vulcão iluminado do socialismo — faz, evidentemente, parte dos cálculos do capitalismo acuado; e os dirigentes soviéticos são sérios demais para cometer o erro de acreditar na sinceridade das teatrais proclamações pacifistas dos grandes tenores subvencionados pelos países imperialistas. No entanto, consideram que, ao lado desses artistas perigosos, há também um papel de censor a ser cumprido. Sabe-se o quão pouco brilhantes foram as primeiras relações da URSS com a Liga das Nações e o choque provocado, na Conferência do Desarmamento, pela proposta — aliás bastante lógica — apresentada por Maxim Litvinov em favor do desarmamento integral e, na falta dele, do desarmamento parcial.
A URSS, porém, persistiu em sua política inabalável de paz. A diplomacia soviética — conduzida magistralmente, antes por Georgy Chicherin, hoje por Litvinov, e sempre por Stálin — ofereceu ao mundo o espetáculo de um pacifismo realista, constante e obstinado. Definição do agressor; retomada da Conferência do Desarmamento, comprometida e falida, transformando-a numa Conferência Permanente da Paz; recusa em explorar a revisão dos nefastos tratados de Versalhes apenas para favorecer novos belicistas tão perigosos quanto os beneficiários atuais daqueles tratados; pactos de não-agressão oferecidos em série — muitos deles obtidos; laços diplomáticos sólidos com os Estados Unidos e a França. Essa política lúcida e positiva de paz foi reconhecida por todos aqueles que não estavam decididos a negá-la por princípio.
Somos um fator de paz no mundo, — disse Stálin no 17º Congresso. E acrescentou, com uma precisão quase terrível: — Ao nosso redor se agrupam — e não podem deixar de se agrupar — todos os Estados que, por esta ou aquela razão, não desejam fazer a guerra durante um período mais ou menos longo.
Por fim, a pedido de trinta e dois Estados, a URSS foi admitida na Liga das Nações. É certamente uma garantia de paz, pois significa uma mudança na orientação da Liga das Nações imperialista sob a influência da colaboração soviética, imposta pelas circunstâncias. Mas está longe de ser uma garantia completa. Muito longe disso. O perigo de guerra permanece.
Ele se materializa nitidamente na atitude do Japão. Está claro que o Japão deseja invadir uma imensa parte da Ásia — e, antes de tudo, a China (da qual já arrancou a Manchúria e o Jehol), quebrando sua espinha dorsal soviética — para então atacar a URSS. Declara isso abertamente e multiplica as provocações. Transformou a Manchúria num vasto campo entrincheirado, coberto de depósitos, bases aéreas e vias estratégicas. No plano da política externa, Japão e Alemanha se entendem e se aproximam de modo violento e grosseiro.
Diante daquilo que o popular soldado-ministro Kliment Voroshilov chama de “franqueza cínica” do Japão, a atitude da União Soviética foi de uma coragem enérgica e nobre, feita de concessões levadas até seu limite extremo. Mas, no fim das concessões, há uma estaca onde se lê:
Não queremos um palmo da terra dos outros, mas não cederemos um centímetro da nossa.
Se a guerra estourar, a URSS irá se defender — a si mesma e a tudo o que representa como patrimônio humano. A guerra se generalizará e, de imperialista, se tornará, em muitos lugares, uma guerra civil revolucionária. Não se trata tanto de uma decisão política de partido, mas de uma fatalidade histórica. Onde a guerra passar, passarão a revolução. O que ocorreu na última guerra mostra claramente como as coisas se darão — em escala maior e mais intensa — na próxima. Mesmo quando se deseja destruir o progresso, acaba-se empurrando a história na direção dele.
Convém notar que uma constatação terrível e reveladora emergiu das grandes manobras aéreas realizadas recentemente na Inglaterra e na França: a impossibilidade de qualquer defesa eficaz contra um ataque de bombardeiros. Um dos nossos mais respeitados técnicos militares, o tenente-coronel Vauthier, considerando (em um livro prefaciado pelo marechal Lyautey) “que Paris pode ser aniquilada nas primeiras horas da guerra”, recomenda demolir completamente a cidade e reconstruí-la em outro lugar, sob carapaças aperfeiçoadas: “E não se trata de um humorista, como se poderia supor”, observa Paul Faure. Além disso, publicamente, Lord Londonderry, ministro inglês da Aeronáutica, e Pierre Cot, ex-ministro francês da Aeronáutica, declararam:
Está comprovado que nenhuma força humana, no estágio atual da ciência, é capaz de impedir o despejo das toneladas de explosivos capazes de destruir Londres e Paris — até cem toneladas bastariam, segundo Paul Langevin; — ora, nas manobras navais inglesas, quatrocentas toneladas “teriam sido lançadas” sobre Londres.
A única resposta, para o país decapitado de sua capital, seria enviar por sua vez uma esquadra para desintegrar e asfixiar a capital inimiga. O que vale para as cidades vale também para os centros militares.
Há apenas uma exceção — disse Pierre Cot — é a Rússia, cujo território é tão vasto que a maior parte dele está a salvo desse tipo de ataque.
A URSS, cuja imensidão derrotou outrora Napoleão no auge de sua força, possui assim uma situação privilegiada — o Japão, ao contrário, é extremamente vulnerável. Por isso, a luta da URSS pela paz não se dá unicamente por seu próprio interesse.
Seja qual for a amplitude do futuro, caso a guerra se declare, uma das grandes razões da confiança do povo soviético será: Stálin. Voroshilov, Comissário da Defesa, é prodigiosamente amado, mas o Chefe — o Chefe é, e será, Stálin. Ele reunirá em suas mãos a direção política e a direção militar — ou, melhor dizendo, continuará a reuni-las no turbilhão dos acontecimentos — e isso é considerado por todos, na URSS, como “uma garantia de vitória”.