Stálin — Um mundo novo visto através de um homem

Henri Barbusse


A Guerra Parasitária


Em 1927, ofensiva maciça, em toda a linha, da Oposição contra a direção do Partido Russo e da Internacional Comunista. Tendo já se manifestado e se exteriorizado diversas vezes, em várias circunstâncias, jamais deixando de permanecer latente e fermentando, a oposição se desencadeou então de modo metódico e violento, num verdadeiro plano de guerra. O fogo concentrou-se sobre Stálin, e foi Stálin quem encarnou, com energia extrema, a defesa da linha do Partido.

A oposição, o que é, exatamente? Já se falou dela mil e uma vezes em nosso meio. E ainda se fala bastante. À primeira vista, fora dos iniciados, mal se compreende esse fenômeno russo ou importado da Rússia. Descobre-se que revolucionários importantes, militantes de primeira linha, de repente passam a tratar seu partido como inimigo — e são tratados como inimigos. Os vemos, de um instante a outro, sair das fileiras e se debater como demônios sob chuva de maldições. São eliminados, excluídos, amaldiçoados — por desacordos que parecem simples divergências de nuance. Fica-se tentado a concluir: “São duramente sectários, uns e outros, nesse país do Novo!”

Nada disso. Quando se chega mais perto, vê-se que aquilo que parecia complicado se simplifica — mas que aquilo que parecia superficial não o é de forma alguma. Não se trata, nem de longe, de questões de nuance, mas de diferenças profundas que colocam verdadeiramente em questão o futuro.

Como assim?

Primeiro, notemos que o Partido Comunista, tal como Lênin o concebeu em sua alta sagacidade, é um partido de intransigência e de inflexibilidade no que diz respeito aos princípios. A fantasia não tem lugar ali. Em outros partidos, dirigentes de falso nariz e dupla face podem viver e circular em paz, sem que ninguém pense em exigir uma intervenção cirúrgica contra eles. Mas o Partido Comunista não admite um quadro que seja minimamente heterogêneo. Não admite que fórmulas vagas circulem em seu interior, nem que se juntem coisas ou ideias com aproximações frouxas. Ele sempre aprofunda, sempre toma tudo a sério.

Notemos, em segundo lugar, que o Partido Comunista da União Soviética é uma força de Estado, no sentido de que é a vanguarda do proletariado que dirige um Estado Socialista, e que realiza uma obra de carne e sangue. E, enfim, que trabalha no terreno do novo, sendo um exemplo que não tem exemplo. Por essa tripla razão, o choque de tendências é ali mais importante do que em qualquer outro lugar — mas também o é a necessidade de unidade. O Partido possui um terrível dinamismo de homogeneidade; é violentamente retificador, quase ortopédico. Se refletirmos nas condições em que ele atua e na imensa, múltipla e original tarefa que tem diante de si, reconheceremos que não poderia ser diferente.

Eis agora como evolui o fenômeno da oposição: cada problema a resolver, cada medida a tomar, comporta — grosseiramente falando — duas soluções contrárias, evoca dois caminhos bifurcados, uma síntese e uma antítese, um sim ou um não: cada decisão suscita o “por” e o “contra”. Diz-se “sim” quando parece haver mais “por” do que “contra”, mas o “contra” permanece. Permanece, em parte, nos fatos, pois nenhuma medida é totalmente bem fundada ou mal fundada de forma integral e absoluta. Permanece no espírito daqueles que faziam parte da minoria contrária à decisão tomada — ou daqueles que hesitavam. E produz-se então uma espécie de curiosa, mas fatal deformação: um aumento dos argumentos contrários, dos inconvenientes, um aumento desmedido. Em outras palavras, a tendência fundamental do homem, ou do militante, reaparece, desenvolve-se, retoma força, recupera vida e virulência.

Nesse processo, o fator do interesse puramente individual desempenha um papel muito menos considerável do que se poderia imaginar entre nós. A animosidade pessoal, se pode ser consequência, nunca foi, em nenhuma circunstância, causa de oposição. E apenas no caso de Trotsky se pode levar em conta um elemento estritamente pessoal: o sentimento que Trotsky tem — e leva muito longe — de seu próprio valor. Seu caráter inteiramente rígido, sua intolerância a qualquer crítica (“Ele nunca perdoa uma picada à sua ambição”, dizia Lênin), e seu desapontamento por não ocupar o primeiro lugar, sem associado, pesam algo em sua hostilidade. A ideologia é o arsenal em que essa hostilidade se equipa, naturalmente, de armas aperfeiçoadas. Quem quer encontrar razões para o combate sempre as encontra. Na época da Renascença viu-se bem como Príncipes e países abraçaram o Protestantismo não por convicção, mas para dar um pretexto confessável, e um ideal público, às suas ambições pessoais, econômicas e políticas. No entanto — mesmo no caso de Trotsky — a oposição é, acima de tudo, questão de tendências profundas. Ela não recai sobre fatos tomados em si mesmos. Sempre se exerce no sentido de formas gerais de pensamento, de hábitos de espírito, de temperamento da inteligência, por assim dizer.

Podemos, além disso, constatar que certas tendências individuais de espírito e de caráter orientam para determinadas tendências políticas. Estreitamento mental, combatividade míope, podem traduzir-se aqui em sectarismo e esquerdismo — enquanto timidez intelectual e moral pode levar ao oportunismo pequeno-burguês, à queda no reformismo, no menchevismo.

É isso que dá à oposição sua grande importância, seu alcance temível: trata-se de divergências profundas na interpretação da doutrina comunista. Uma divergência na interpretação prática da doutrina — isto é, do marxismo —, uma fixação diferente da “originalidade do momento presente”, pode ter consequências incalculáveis, pode dar outro sentido a toda a política. Um erro quanto a um fato isolado corrige-se como um erro de cálculo. Mas um erro de tendência é uma deformação geral, partindo da base, ampliando-se matematicamente, arrastando consigo uma multiplicidade de modificações de detalhe e podendo levar a uma mudança de face na história nacional — sem falar em cataclismos. É uma modificação da “linha” do grande motor do partido.

A oposição é, em sua origem, uma doença de tendências.

Mas é uma doença de tendências de um tipo particular, a mais grave de todas, cujo principal sintoma é a indisciplina: a separação concreta, o desligamento em relação ao bloco dirigente. A tendência contrária à da maioria deixa de ser objeto de discussão e passa a ser objetivo de guerra.

É nisso que a oposição difere totalmente do exercício da autocrítica. A autocrítica tem por objetivo a retificação comum das tendências umas pelas outras. Nada mais natural do que a existência de tendências diversas; nada melhor que a discussão sem reservas e sem ambiguidades desses pontos. A autocrítica abre e fecha esse máximo de liberdade de opinião que é privilégio do partido bolchevique.

Mas a oposição não segue o caminho da autocrítica. Seu traço essencial — e funesto — é formar um grupo à parte, não aceitar a solução comum, não se absorver na decisão da maioria — sendo o voto majoritário a única forma democrática, e mesmo a única forma sensata, de encerrar um desacordo até a homologação suprema dos fatos. Aqui, permanece um resíduo após o voto. A oposição se apega a ele. Concretiza-se ao seu redor como um núcleo irredutível. Em vez de aplicar a decisão, combate-a mais ou menos abertamente. A “opinião oposta” se endurece, se esclerosa, e o organismo é atacado por uma formação parasitária interna. Assim, a oposição realiza aquilo que se chama uma obra de fração, prelúdio da obra de cisão. A autocrítica permanece sempre aberta; a oposição se fecha. A autocrítica permanece dentro da unidade.

Com a oposição, aparece o número dois. A “liberdade de opinião”, criada patologicamente por esse método, gera, dentro do Partido, um agrupamento que imita um partido e constitui um complô permanente. Quando esse bloco adversário se julga suficientemente forte (e, exteriormente ao Partido, dispõe, como todas as oposições, do apoio variado dos inimigos da política de Estado), ele parte para a guerra e tenta tomar o poder, para transformar sua heterodoxia em ortodoxia. Lênin havia combatido de maneira contundente, no 10º Congresso do Partido, o germe do particularismo — essa tendência perniciosa que mina a unidade partidária desde suas raízes. Em resposta a esse desvio, fez aprovar uma resolução clara e decisiva:

Toda organização do Partido deve zelar com rigor para que a crítica — instrumento indispensável da correção — não se converta em monopólio de indivíduos isolados ou de círculos fechados em torno de uma plataforma própria. A crítica dos erros, a análise da linha geral, o exame rigoroso das experiências acumuladas, a aplicação das resoluções congressuais e a retificação das falhas devem ser tarefas coletivas, acessíveis e impulsionadas por todos os membros do Partido, sem exceção. Só assim se preserva o espírito revolucionário, a vigilância proletária e a superioridade moral do Partido Comunista diante de todas as formas de burocratismo.

Sobre quais questões recai a oposição? Pelo que acaba de ser dito, e dado que se trata da persistência indevida, no mecanismo do Partido, de tendências gerais contrárias à linha da maioria e de sua cristalização — é fácil compreender que a oposição se manifestou em todos os grandes problemas da direção da URSS e da Internacional Comunista. Ela se esforçou por mostrar todos esses problemas sob um ângulo diferente daquele em que a maioria dirigente os havia considerado e tratado.

Percebe-se, para quem lança um olhar rápido sobre os fatos marcantes do movimento revolucionário russo desde o fim do século 19, que as duas tendências fundamentais — a reformista e a revolucionária — que haviam provocado a cisão entre mencheviques e bolcheviques, continuaram subsistindo, em certo grau, no seio do próprio Partido Bolchevique que tomara o poder. Alguns dirigentes — Kamenev, Zinoviev e, com algumas nuances, Trotsky — foram, como vimos em importantes conjunturas, hostis aos métodos revolucionários. Desejaram impedir a Revolução de Outubro e, uma vez consumada, evitar a ditadura do proletariado. Na prática, imaginavam um regime democrático constitucional, de preferência a um regime socialista. Não confiavam na força e na duração de um Estado realmente socialista dentro de um mundo capitalista; não acreditavam que seria possível conquistar os camponeses médios para essa causa. Além disso, criticavam a indústria estatal, que viam como uma empresa de tipo capitalista. Eram partidários da liberdade de frações e agrupamentos dentro do Partido, ou seja, da heterogeneidade partidária. Esses pontos — nos quais Zinoviev, Kamenev e Trotsky se aliaram em diversas ocasiões — constituem as características principais da mais importante das “oposições”. Era a revivescência do fermento menchevique.

A oposição dirigia-se, em vida de Lênin, contra os pontos de vista de Lênin, já que era Lênin quem dirigia efetivamente o Partido, que ele “forjara com as próprias mãos durante vinte e cinco anos”, e que era sua criação. Mas, após a morte de Lênin, ela tomou, por assim dizer, o pretexto de Stálin para intensificar sua ofensiva e atacar as mesmas teses com os mesmos argumentos — ao mesmo tempo em que afirmava defender a integridade do leninismo.

Stálin também se colocou sob o signo do leninismo, para defender com tenacidade, na campanha que se seguiu, a unidade do Partido ameaçada pela rebelião da minoria. Preservar a unidade do Partido tornou-se sua grande tarefa, exatamente como havia sido para Lênin, como havia sido para Lênin e Stálin juntos, que — como vimos — jamais divergiram nem sobre a doutrina, nem sobre a tática.

Ao juramento de Stálin, relatado anteriormente, sobre a honra do Partido, havia um segundo parágrafo, um segundo versículo: “Ao nos deixar, o camarada Lênin nos recomendou conservar a unidade do nosso Partido como a pupila dos nossos olhos. Nós te juramos, camarada Lênin, cumprir com honra essa vontade!”

A ruptura no Partido, a cisão — uma vez que o grande mestre já não estava ali — tornava-se possível, e teria sido uma calamidade incalculável.

A situação estava duplamente alterada: ao lado dele, Stálin já não encontrava Lênin — mas encontrava Trotsky. Trotsky estava livre, pela própria ausência de Lênin.

Toda a oposição gravita em torno da personalidade de Trotsky. Se ele não a personifica inteiramente, pode-se dizer que a simboliza inteira. Foi graças a ele que ela se tornou um grande perigo — por causa da autoridade que lhe conferia o papel desempenhado na história da revolução e nos primeiros tempos do Estado soviético.

Hoje, Trotsky, exilado da Rússia em consequência da guerra aberta que moveu ao regime, sofre certas vexações das polícias capitalistas e o sarcasmo da grande imprensa por causa de seu antigo título de Comissário do Povo. O que se persegue em Trotsky — e o que nele se vinga, sob nossos céus europeus — é a parte que lhe atribuem na Revolução de Outubro. A burguesia internacional, que não entra em detalhes, concede-se o prazer e a glória de humilhar um bolchevique. Mas, ao lado dessa perseguição que ele já não merece há muito, encontra o apoio e a cumplicidade de toda uma coleção de adversários do regime soviético e, sem falar de sua atividade política atual, não se pode deixar de constatar os golpes de punhal desferidos, por ele e pelos seus, contra a URSS e contra a Internacional Comunista. Foi realmente uma tentativa de assassinato, e uma obra de demolição.

É preciso repetir que o fator pessoal influenciou, sem dúvida, a atitude de Trotsky? Muito cedo, mesmo durante a vida de Lênin, sua incompatibilidade com qualquer outro dirigente se tornou evidente. “É muito difícil trabalhar com esse camarada”, resmungava Zinoviev — que, no entanto, mais de uma vez passou para o lado dele. Trotsky era, decididamente, trotskista demais.

Até que ponto foi o despotismo do caráter de Trotsky e sua mágoa por ser suplantado, relegado ao nível dos outros em vez de brilhar sozinho, seu “bonapartismo”, que o incitaram a romper com o Partido, a confeccionar um leninismo de guerra inteiramente próprio e a trilhar o caminho do combate, tendo como objetivo — mais ou menos implicitamente expresso — a formação de um novo partido, talvez mesmo de uma 4ª Internacional? É muito difícil especificar. No entanto, não se pode deixar de constatar que Trotsky fez oposição intensa ao Partido em 1921 e, novamente, em 1923, e que, no intervalo, no ano de 1922, como relator do 4º Congresso, ele defendeu, de modo muito claro, todos os pontos de vista da maioria sobre a espinhosa questão da NEP. Nada disso impediu que a oposição trotskista, brandindo a teoria da revolução permanente, se esforçasse desde o dia seguinte ao Congresso para mostrar que a revolução estava estagnada, que a NEP era uma degeneração capitalista, um Termidor. Essas atitudes contraditórias, que se sucedem a tão curta distância, parecem demonstrar a intervenção de um fator artificial, exclusivamente pessoal.

Seja qual for o conjunto de estímulos que o tenham aguçado, a grande razão da cisão de Trotsky reside principalmente em sua concepção política. Se a causa ocasional é o amor-próprio, a causa fundamental é ideológica. Ela se encontra numa divergência essencial de tendências em relação ao estatuto bolchevique de Lênin. Denuncia outro temperamento político, outro tipo de avaliação e de métodos. E foi em consequência do desenvolvimento intenso e amargo dessas divergências fundamentais — e de sua exploração — que se viu Trotsky assumir pouco a pouco o contracampo de toda a política bolchevique oficial.

Menchevique no início, Trotsky permaneceu sempre menchevique. Tornou-se antibolchevique talvez por ser trotskista, mas, com certeza, porque era um velho menchevique. Digamos, se se quiser: foi o trotskista que despertou nele o velho menchevique.

Fizeram-se, com o tempo, e isso virou tradição, retratos comparados — à maneira de La Bruyère — de Lênin e Trotsky: Lênin, monolítico, refletido, sóbrio nas palavras; Trotsky, brilhante e ágil. Jacques Sadoui inaugurou com grande virtuosidade a série dessas confrontações estilizadas entre o homem genial e o homem inteligente. O significado geral desse contraste pitoresco pode ser considerado bastante justo, embora seja arriscado levar longe demais tal exercício literário (as exigências do paralelismo previamente traçado às vezes fazem o jogo descarrilar). Mas, sobretudo, as duas personagens não estão na mesma escala, e, em qualquer circunstância, não se pode razoavelmente colocar nenhuma personalidade em paralelo com a figura gigantesca de Lênin.

Mas as próprias qualidades de Trotsky têm pesadas contrapartidas que facilmente se transformam em defeitos. Seu senso crítico hipertrofiado, mas sem amplitude (o de Lênin era enciclopédico, como o de Stálin), detém-no no detalhe, impede-o de considerar o conjunto e o conduz ao pessimismo.

Além disso, ele tem imaginação demais. Uma incontinência de imaginação. E essa imaginação, atropelando-se a si mesma, perde o chão, não distingue o possível do impossível (o que, aliás, não é função da imaginação). Lênin dizia que Trotsky era perfeitamente capaz de montar nove soluções justas e uma décima catastrófica. Os homens que trabalharam com Trotsky contam que, todas as manhãs, ao acordar, enquanto abriam um olho e se espreguiçavam, murmuravam: “O que será que Trotsky vai inventar hoje?”

Ele vê alternativas demais; todo tipo de escrúpulos o assalta; a tese e a antítese o perseguem ao mesmo tempo. “Trotsky é o homem-voador”, dizia Lênin. Então ele hesita, oscila. Não se decide. Falta-lhe a segurança bolchevique. Ele tem medo. É, instintivamente, contra aquilo que se faz.

Além disso, gosta demais de falar. Embriaga-se com o som da própria voz. “Mesmo a sós, mesmo confidencialmente, ele declama”, diz um de seus antigos companheiros. Em suma, essa personalidade tem as qualidades de um advogado, de um polemista, de um crítico artístico, de um jornalista — mas não as de um estadista que deve se comprometer por caminhos novos. Falta-lhe o sentido exclusivo e imperioso da realidade e da vida. Falta-lhe a grande brutalidade simplificadora do criador de atos. Não possui a forte convicção marxista. Ele tem medo — sempre teve medo. Foi por timidez que permaneceu menchevique. E é também por timidez que se torna enfurecido, e que é tomado, às vezes, por acessos delirantes de esquerdismo. Não se pode compreender Trotsky se não se souber soletrar sua fraqueza através de suas crises de violência.

Numa visão de conjunto, Dmitry Manuilsky nos oferece uma perspectiva ainda mais ampla: “A sucessão quase ininterrupta das oposições foi a expressão do deslize dos grupos mais fracos do Partido para fora das posições bolcheviques”. Toda oposição confessa um recuo, um desânimo, um começo de paralisia e de sonolência.

No exterior, foi o mesmo: “Na fase atual, relativamente estável, do capitalismo, os seguidores começaram a vacilar e a abandonar as fileiras da Internacional Comunista”. Carregar sempre alto esse estandarte — e marchar — é duro. Depois de certo tempo, os pés se cansam, os dedos se afrouxam — quando não se é feito para isso.

São necessários meios de ação poderosos e elementares para avançar pela grande estrada da história. É preciso saber pisotear a casuística. Diante dos argumentos quintessenciados dos eleatas, que contestavam a realidade do movimento, Diógenes, brusco e silencioso, provava o movimento caminhando. As multidões provam a inanidade desta ou daquela objeção caminhando por cima delas. O acontecimento, com suas cem mil cabeças, passa por cima, historicamente: ele é o rude mago do bom senso (o “bom senso”, segundo Descartes, ou seja, a parcela de razão que há em cada cabeça). No vaivém das discussões, é preciso concordar com ele. É por causa da baixeza, da mesquinharia atarefada e da impotência do menchevismo; é por causa daquilo que Stálin chamou de “o caráter dissoluto dos mencheviques em matéria de organização”, que Trotsky foi derrotado. Trotsky teria sido vencedor se estivesse com a razão. Da mesma forma, os bolcheviques — que, no início da Era Nova, enfrentaram os mencheviques dentro do Partido Social-Democrata e fizeram a cisão — teriam sido derrotados se estivessem errados.

A oposição voltou-se, portanto, naturalmente, antes de tudo, para o problema mais importante da Revolução Russa: a possibilidade da construção do socialismo em um só país.

Sobre esse problema, Lênin havia tomado posição antes mesmo da revolução. Ele escrevera então:

A desigualdade do desenvolvimento econômico e político é uma lei absoluta do capitalismo. Daí decorre que é possível a vitória do socialismo primeiramente em poucos países ou mesmo num só país capitalista tomado por separado. O proletariado vitorioso deste país, depois de expropriar os capitalistas e de organizar a produção socialista no seu país, se ergueria contra o resto do mundo capitalista, atraindo para o seu lado as classes oprimidas dos outros países, levantando neles a insurreição contra os capitalistas, empregando, em caso de necessidade, mesmo a força das armas contra as classes exploradoras e os seus Estados.

A vitória da Revolução de Outubro colocava os vencedores diante de duas tarefas: a socialização do mundo e a construção concreta do socialismo em algum lugar. Por qual começar — ou melhor, por qual lado iniciar essa dupla tarefa?

Lênin considerava que o mais importante era, evidentemente, construir a sociedade socialista onde fosse possível construí-la: na Rússia.

Trotsky via aí, para a revolução, um beco fatal. Essa avançada num ponto único diante do front capitalista lhe parecia destinada ao fracasso (tinha medo — e o menchevique ressurgia, ou melhor, despertava nele). Nessas condições — dizia — era necessário considerar a Revolução Russa como provisória.

Recorda-se que, no 6º Congresso do Partido, em agosto de 1917, Yevgeni Preobrazhensky havia tentado fazer aprovar a ideia de que a socialização da Rússia seria consequência do estabelecimento do socialismo em toda parte. E foi porque Stálin se levantou vigorosamente contra essa posição que não se votou a emenda de inspiração trotskista, que fazia depender da vitória prévia da revolução mundial a possibilidade de fundar uma sociedade socialista na Rússia czarista esvaziada.

Karl Radek, cuja opinião é tanto mais interessante nessa circunstância pelo fato de ele ter aderido — por um tempo — à ótica trotskista, disse a esse respeito:

Trotsky voltava ao ponto de vista da 2ª Internacional, que ele próprio formulara no 2º Congresso do POSDR, antes da cisão — a saber, que a “Ditadura do Proletariado” deve significar o poder de um proletariado organizado representando a maioria da nação.

Assim, portanto, se a revolução proletária não tiver metade dos votos mais um, nada feito: para Trotsky, não apenas a vitória do proletariado em um só país, mas até mesmo, nesse único país, a sua vitória sem apoio da maioria absoluta, reduzia-se a um “episódio histórico”. Trotsky aproximava-se, assim, claramente daquele “socialismo europeu civilizado” com que a 2ª Internacional se opunha ao leninismo. Os social-democratas não tinham nenhuma confiança na revolução. Os dirigentes social-democratas pensavam que a revolução socialista só era possível num país de capitalismo evoluído, não na Rússia, por falta de base operária. Não acreditavam ser possível, na Rússia, senão uma revolução burguesa, a qual teria sido, como todas as revoluções burguesas, apenas um cerimonial de transmissão de hegemonia — da autocracia para a burguesia (esta reforçada pelas bordas e, sobretudo, enfeitada pelo enxerto habilidoso de uma elite operária) — enquanto a classe operária e camponesa, como um todo, permaneceria igualmente esmagada por uns e por outros. Stálin já nos disse que essa opinião mal ajustada às capacidades revolucionárias reais da Rússia motivou a lamentável abstenção dos social-democratas na revolução de 1905.

Sabe-se que outros “oposicionistas”, como Zinoviev e Kamenev — as maiores figuras do Partido ao lado de Lênin, Trotsky e Stálin [e Sverdlov, morto em 1919] — acompanhavam Trotsky nesse raciocínio. “Ao presidir à construção do socialismo em um só país, cultivava-se um estado de espírito oportunista no Partido”, e “tudo isso conduzia à rendição das posições conquistadas pelo proletariado revolucionário”, e, enfim, ao adotar essa tese, “abandonavam-se as tarefas internacionais da Revolução”. E eram as grandes palavras e os grandes gestos — a guerra aos moinhos de vento entrando em cena.

A teoria geral de Trotsky (e de Rudolf Hilferding) consistia em afirmar que a economia socialista em construção vivia numa dependência absoluta em relação à economia mundial capitalista, de onde a conclusão de uma degenerescência capitalista fatal da economia soviética, cercada por um universo capitalista. Radek dizia também, naquele momento: “Não somos páreo diante do capitalismo mundial”. Esses e outros tinham medo. Vê-se o sopro de apreensão, o arrepio de pânico que reunia, em seu turbilhão, esse agrupamento de oposição.

Lênin e Stálin, por sua vez, encaravam a coisa de outro ponto de vista — e, incontestavelmente, a recolocavam no lugar certo: a construção em um único país é uma força da qual é preciso tirar proveito. “Dai-me um ponto de apoio e uma alavanca suficientemente grande, e eu moverei o mundo”, proclamara Arquimedes. Karl Radek — o Radek que retornava a si mesmo — dizia de modo muito expressivo: “A possibilidade da construção em um só país é o ponto de apoio da alavanca de Arquimedes no plano estratégico de Lênin”.

Lênin jamais perdeu de vista a organização mundial da sociedade socialista. Lênin nunca perdeu nada de vista. Era exatamente disso que se tratava, para ele, ao começar pela Rússia. Nos últimos artigos que escreveu antes de morrer, afirmava que a construção socialista na Rússia — que dispõe de todas as matérias-primas — era possível em virtude da lei do desenvolvimento desigual do capitalismo, apesar do atraso “cultural” do país e apesar do estado do campesinato.

Stálin, a quem Trotsky e Zinoviev censuravam amargamente sua “teoria do estreitamento nacional”, jamais deixou de proclamar que “o desenvolvimento e o apoio da Revolução nos outros países são uma tarefa essencial da Revolução vitoriosa”. Ele chega mesmo a reconhecer que, enquanto a URSS estiver isolada politicamente na Terra, não poderá ser considerada “uma realidade sólida”. Mas há uma nuance entre transitório e provisório. E ele se empenha em demonstrar o reforço efetivo que a construção em um país constitui para a generalização da revolução. Ele faz entrever as repercussões recíprocas, inevitáveis, terríveis como relâmpagos, da edificação soviética sobre a situação interna dos Estados e sobre o fortalecimento da Internacional Comunista à margem dos regimes estabelecidos.

“Não devemos ver — diz o autor “Em Torno dos Problemas do Leninismo” — não devemos ver, na vitória da revolução em um só país, um fato puramente nacional. Mas também não devemos pensar que a revolução russa seja uma coisa inerte, que só pode receber ajuda de fora”. Não é uma dessas alternativas que depende da outra: ambas dependem uma da outra.

Quanto às barreiras, às grandes muralhas que se invocam, ele recoloca o problema em pé e crava alguns marcos.

Dependência do capitalismo estrangeiro, vocês dizem? Vejamos isso… Stálin desobstrui o terreno: “O camarada Trotsky disse em seu discurso que, na realidade, nos encontramos constantemente sob o controle da economia mundial. Isso é correto? Não. Esse é o sonho dos tubarões do capitalismo, não é a realidade”. E Stálin demonstra que esse suposto controle não se exerce, do ponto de vista financeiro, nem sobre os bancos soviéticos nacionalizados, nem sobre a indústria, nem sobre o comércio exterior — igualmente nacionalizados. Esse controle tampouco se exerce do ponto de vista político. Ele não se exerce, portanto, em nenhum dos sentidos positivos que a palavra “controle” pode assumir. Esses indivíduos agitam um fantasma de controle. Por outro lado, “ampliar nossas relações com o mundo capitalista não significa colocar-nos sob sua dependência”.

Manuilsky (em 1926) ressalta o erro da “lei de hereditariedade” que Trotsky pretendia utilizar para seus próprios fins ao evocar a economia czarista. Esta, de fato, colocava a Rússia sob a dependência do capitalismo mundial, porque a economia capitalista russa fazia parte integrante da economia capitalista mundial. A situação é diferente para a Rússia revolucionária enquanto ela mantiver os princípios essenciais que a distinguem dos demais países.

Por fim, Stálin insiste com força, em forma de conclusão, na necessidade de convencer os trabalhadores dos países capitalistas de que a classe operária pode prescindir da burguesia para erguer a nova sociedade.

Sem dúvida, a sucessão dos acontecimentos nos trouxe hoje certezas que então não passavam de sonhos, e possuímos uma experiência que permite decidir. Ainda assim, essa discussão nos parece bastante estranha, mesmo em seu próprio tempo, pois que outro recurso poderia ter tido a Revolução Russa — evidentemente incapaz de impor imediatamente a revolução proletária nos outros países do globo — senão construir o melhor possível o socialismo no único território conquistado? De outro modo, fazer o quê? Deixar em frangalhos esse terreno tomado, para se entregar à conquista futura do restante? Extravagância da falsa esperteza reformista. E, além disso, como negar o poder de irradiação e de atração de uma realização socialista solidamente estabelecida em algum ponto do mundo! Refletindo um pouco que seja sobre essa questão ampla e patética, não se é levado a pensar que é precisamente porque a revolução em países evoluídos e exaustivamente explorados pelo capitalismo encontraria dificuldades especiais, decorrentes do controle estrangeiro, que a existência de um Estado socialista constitui um trunfo imenso para ajudar e generalizar a vitória proletária. Mas era preciso acreditar possível a formação desse reservatório revolucionário continental — e ter visão suficiente para discerni-lo antecipadamente e encontrar o futuro.

Nesse embate que colocou de forma tão forte os comunistas soviéticos uns contra os outros, dois homens de bom senso e de realismo parecem mover-se entre sombras. Lênin e Stálin têm diante de si uma nuvem de adversários inconsistentes, aos quais a falta de confiança, a falta de coragem e, como diz um deles que se converteu — a incredulidade — fizeram perder o rumo, a ponto de os acusarem seriamente de pôr a carroça antes dos bois.

Stálin e Trotsky se erguem aqui realmente como contrários absolutos um ao outro. São dois tipos de homens colocados, cada um, numa extremidade da galeria contemporânea. Stálin apoia-se com todo o seu peso na razão, no senso prático. Ele está armado de um método impecável e inflexível. Ele sabe. Ele compreende integralmente o leninismo, o papel dirigente da classe operária, o papel dirigente do Partido. Não procura se destacar, não se perturba com o desejo de originalidade. Apenas se esforça por fazer tudo o que pode ser feito. Não é o homem da eloquência; é o homem da situação. Quando fala, não busca outras combinações que não sejam entre a simplicidade e a clareza. Como Lênin, bate sempre nos mesmos pregos. Multiplica a interrogação (porque ela sonda o auditório) e insiste amplamente nas mesmas palavras, como um grande pregador antigo. E é infalível em colocar diante dos seus olhos os pontos fortes e os pontos fracos. Não há também quem lhe supere na capacidade de detectar a complacência reformista, o contrabando oportunista. “Seja qual for o véu com que o oportunismo cobre seu miserável corpo, ele o desmascara”, diz Radek. (Você, que se diz ortodoxo, não passas de um direitista disfarçado de esquerdista!)

Essa famosa questão da construção do socialismo em um só país mostra muito bem — digamos de novo — as posições ocupadas pelos protagonistas soviéticos na série de duelos ideológico-políticos que marcaram a primeira fase de edificação da URSS. Ela explica também como se pôde dizer que a ofensiva-defensiva de Stálin, que ousou enfrentar Trotsky — considerado, sobretudo depois da morte de Lênin, como um tabu — “purificou e rejuvenesceu o Partido ao livrá-lo dos restos da crosta da 2ª Internacional”. A luta contra o trotskismo é a luta contra o espírito pequeno-burguês, confuso, minucioso e covarde — e, para dizer claramente, contrarrevolucionário — dentro do Partido.

Pouco depois, surge à direita outro núcleo de oposição. A maioria dirigente fica entre dois fogos na questão camponesa. A oposição trotskista (à esquerda) não compreendendo o papel do campesinato na revolução; a oposição de Nikolai Bukhárin (à direita) perdendo de vista o papel do proletariado diante das massas camponesas — uns assombrados pelo espectro do camponês rico e pelos horrores da NEP; os outros, pelo espectro da ruptura provocada por qualquer reorientação, e, com medo do fogo, jogando água fria na luta de classes. Nem despenquem à direita nem à esquerda: façam uma avaliação justa das coisas e das pessoas! No que diz respeito aos pequenos camponeses, dizer: “Eles serão devorados pelo Kulak” é subestimá-los. Mas dizer: “Eles vão devorar o Kulak” é superestimá-los. Sabedoria, pé no chão…

Não apenas Kamenev e Zinoviev, inicialmente hostis a Trotsky, unem-se a ele, como também vemos Zinoviev juntar-se a Bukhárin para tratar a questão camponesa como a principal do leninismo. “Calem-se!”, grita a maioria: se vocês falam assim, estão russificando o leninismo, tirando-lhe seu valor internacional. “E vocês se lançam, — anuncia Manuilsky, — no caminho traçado por Otto Bauer.” (O nacionalismo austro-marxista chamado de autonomia cultural nacional)

Stálin, incansável, começa pelo começo, coloca cada princípio em seu devido lugar, limpa o terreno: “A questão fundamental do leninismo, seu ponto de partida, não é a questão camponesa, mas as condições de conquistar e manter o poder. A questão do campesinato como aliado do proletariado em sua luta pelo poder é uma questão derivada”.

Depois ele se volta para a direita. Foi Stálin quem tomou a iniciativa de colocar na ordem do dia do 6º Congresso da Comintern não apenas a luta contra as tendências direitistas (que queriam frear a recuperação da situação resultante da NEP), mas também contra as tendências conciliadoras diante delas. Como os fatos se desenrolaram? Marquemos esquematicamente as fases dessa luta.

As primeiras manifestações de divergência de Trotsky colocaram o Partido numa situação difícil (“O Partido está com febre”, dizia Lênin), na época de Brest-Litovsk e dos sindicatos. As vacilações no Partido e os ataques contra Lênin facilitaram o levante de Kronstadt.

Após a morte de Lênin, Trotsky dirigiu inicialmente suas críticas ao Partido com certa reserva; depois passou a golpear mais abertamente e com mais força, por ocasião das discussões provocadas pelos livros “O Novo Curso” e “Lições de Outubro”, nos quais apresentava de forma tendenciosa o papel do Partido e o seu próprio papel. A famosa plataforma dos 46 (1923) colocava a questão do “país caminhando para a ruína”.

As atas das reuniões do Partido mostram que ele agiu com prudência e paciência em relação a Trotsky. Em 1923, durante a doença de Lênin, Trotsky ainda era o relator do Birô Político, órgão executivo supremo. O Partido tentava convencer Trotsky o quanto fosse possível, enquanto ele se esforçava abertamente por explorar em seu benefício os descontentamentos que surgiam aqui e ali, costurando um bloco com esses descontentes e tentando desempenhar nele um papel dirigente. Já esse agrupamento difuso e hostil ao Partido se recusava a criticar o trotskismo e adotava a linha divergente de Trotsky.

Quando, após a morte de Lênin, Stálin retomou a luta, começou a tratar o velho adversário de Lênin não com o método repressivo, mas com o “método pedagógico” (Yemelyan Yaroslavsky). Essas tentativas de persuasão não resultaram em nada, e a questão emergiu: Trotsky pode permanecer à frente do Partido — ou mesmo dentro do Partido? A questão tornou-se urgente quando Trotsky assumiu a chamada “Tese Clemenceau”: em caso de guerra, é preciso trocar o governo. Essa teoria, aplicada à URSS e à organização fortemente unificada e harmônica da máquina dirigente, constituía um verdadeiro apelo à cisão e à guerra civil.

Em dezembro de 1925, quando o Partido bolchevique realizava seu 14º Congresso, Zinoviev e Kamenev se apresentaram ali à frente de uma oposição montada de ponta a ponta — composta majoritariamente de delegados de Leningrado — e armada com as teses mencionadas acima (impossibilidade de construir o socialismo em um só país; subestimação do campesinato médio; assimilação do setor socialista de produção ao capitalismo de Estado; liberdade total para frações internas). Essa oposição recebeu o nome, pouco justificado, de “Nova Oposição”. Seu porta-voz, Zinoviev, exigiu que, paralelamente ao Informe do Comitê Central (com Stálin como relator), fosse apresentado um co-informe de sua autoria. Essa exigência foi atendida — e ali se abriu a declaração oficial de guerra. Stálin contra-atacou com energia essa ofensiva cujos defeitos, a seu ver, derivavam todos de um “defeito fundamental”: a falta de certeza no triunfo do socialismo.

Ora, em 1926–1927, houve um fenômeno de generalização da oposição, uma espécie de truste de suas teses, uma tentativa séria de ação coordenada — uma ação suprema, em grande estilo.

Os “oposicionistas”, em torno de Trotsky, redigiram um caderno de queixas, uma “Plataforma”. Tudo ali era classificado, organizado, formando um programa completo, um corpo doutrinário destinado a demonstrar que a direção do Partido havia se afastado totalmente do leninismo e estava em rota falsa em todos os pontos. Ao mesmo tempo, esses antigos adversários — tornados agora neo-inimigos — mantinham no exterior uma campanha de difamação contra a União Soviética e contra o Partido em sua forma atual.

Diante dessa chuva de ataques e desse acúmulo intensificado de acusações, o Comitê Central decidiu que o Birô Político publicaria, um mês antes do Congresso do Partido Comunista (Bolchevique) de dezembro de 1927, suas teses — e que a oposição poderia apresentar quantas contra-teses quisesse, que seriam reproduzidas na imprensa do Partido e enviadas às organizações. Dessa forma, decidiu o Comitê Central, a discussão ficaria aberta durante um mês sobre todos esses pontos.

Mas, já em 3 de setembro de 1927, a oposição lançou sua “Plataforma” de 120 páginas, cuja publicação imediata e envio aos comitês locais e organizações ela exigia. O Partido recusou-se a aceitar essa violação da decisão previamente tomada — e a estender a discussão a quatro meses — julgando que isso seria “um luxo” inadmissível para os construtores que estavam no meio de um trabalho árduo.

É preciso conhecer esse documento em profundidade (a Plataforma) se quisermos entender todos os meandros da oposição. Todos aqueles fragmentos de críticas e acusações costurados juntos formam como um revestimento, uma pele para a oposição; esse denso requisito, que abrange todos os capítulos essenciais da doutrina, da vida e da ação do Partido e do governo, ergue um código que reformaria de alto a baixo o leninismo em vigor, em nome de outro leninismo. Essa enciclopédia agressiva é impossível de reproduzir aqui — mesmo resumida. Ela tem faces demais, ângulos demais.

De resto, não é mais necessário examinar com lupa cada parágrafo desse “leninismo” paralelo, agora que a questão da oposição na URSS perdeu quase toda sua importância vital. Muitos dos problemas levantados pela oposição foram resolvidos pelos fatos. Uma resposta histórica, categórica, foi dada. O curso dos acontecimentos — o avanço significativo da construção socialista — corta hoje com abundância os argumentos da oposição e retira a razão de ser da maioria deles.

Além disso — o que encerra qualquer pretensão “jurídica” da crítica — quase todos os oposicionistas de destaque, convencidos pela direção tomada pelos acontecimentos, fizeram sua autocrítica e se retrataram (retratação honrosa para seu discernimento e seu caráter).

Não esqueçamos, entretanto, que, sendo a oposição uma crise de tendências profundas, ela permanece — sem falar na atividade constante de Trotsky e de outras ações clandestinas — sempre latente e perigosa, embora já não tenha, hoje, nenhuma possibilidade de se impor. Além disso, mesmo sem esperança, o ódio continua existindo e busca golpear. Acabamos de ver que a organização terrorista “Centro de Leningrado”, que encarregou Leonid Nikolaev de assassinar Serguei Kirov, era formada pelos “restos apodrecidos” da antiga oposição Zinoviev–Kamenev–Trotsky, aliados a marginais czaristas e a financiadores estrangeiros — tendo como um de seus objetivos eliminar pessoalmente, pelo assassinato, os dirigentes atuais da URSS, como vingança pela derrota da oposição e como forma de provocar convulsões nacionais e internacionais.

Dito isso, a leitura atenta do volumoso bloco de acusações que constitui a Plataforma histórica da oposição de 1927 sugere as considerações seguintes, que é útil registrar como documentação para avaliar uma dissensão tão grave — e, enfim, concluir este capítulo.

Ressaltemos mais uma vez que os fatos apresentados aparecem ali como exemplos citados pela oposição do uso de métodos errados ou do mau uso de métodos corretos. São os métodos, as tendências, as ideias diretivas que estão em causa (a expressão corrente “desvio” aparece a cada linha em todas as teses, de um lado ou de outro). Trata-se, portanto, fundamentalmente, de divergências mais ou menos acentuadas — à direita ou à esquerda — sobre os princípios e sobre a tática do leninismo.

Em primeiro lugar, muitos dos dados precisos (estatísticos) nos quais a oposição se apoia para formular suas acusações de desvio e suas previsões de catástrofe são indiscutivelmente inexatos — seja porque os números apresentados são falsos, seja porque estão distorcidos pelo fato de que todos os elementos do problema não foram considerados.

Por exemplo: o suposto aumento do atraso da indústria e dos transportes em relação à demanda (uma acusação pesadíssima); o atraso do aumento dos salários em relação ao rendimento do trabalho; a redução da jornada de trabalho; a diminuição das horas extras; o aumento da diferença entre o salário das mulheres e o dos homens; a queda do salário dos adolescentes; o aumento do desemprego industrial; o valor da assistência aos sem-trabalho; etc.

Em segundo lugar, muitas acusações são formuladas sem qualquer prova — e, ao mesmo tempo, contradizem decisões anteriores do Partido e os resultados já obtidos. Por exemplo: a alegação de que se escondiam os avanços dos Kulaks; de que o Partido buscava apoio entre os Kulaks; a supressão da democracia interna no Partido; o abandono da ideia de industrialização (à sombra da NEP); a tentativa de opor cooperação e eletrificação (também a propósito da NEP).

Em terceiro lugar, um grande número de propostas da oposição é, de forma evidente, perigoso, desajeitado e capaz de trazer resultados desastrosos. Essa categoria de propostas “positivas” não avalia corretamente a realidade: tem um caráter de blefe e de demagogia — seja porque tais propostas são ruins em si mesmas, seja porque são inoportunas ou prematuras. Por exemplo (além das críticas fáceis aos inconvenientes da NEP — explorando uma situação momentânea imposta pelas necessidades imediatas, exigindo que ela fosse abolida de imediato): o apoio dado às tendências nacionalistas de direita, que poderiam destruir a unidade da Federação Soviética; a proposta de aumento dos preços no atacado (o 15º Congresso mostrou as consequências potencialmente desastrosas dessa medida, adotada pela oposição sem considerar o conjunto do mecanismo social, apenas para conquistar a simpatia e o apoio dos camponeses); as restrições à produção (fechamento de fábricas, super-racionalização); medidas também demagógicas de isenção em massa dos camponeses pobres; a retirada de capitais estatais da cooperação (o que significaria fortalecer o capital privado); uma sobretaxa sobre os ricos equivalente à confiscação, à eliminação brusca do capital privado, à liquidação da NEP — quando esse tratamento ainda não estava de todo concluído; requisições adicionais de trigo (que provocariam, inevitavelmente, o colapso de toda a incipiente política de crédito da URSS).

Todas essas medidas são muito sedutoras de apresentar para quem quer posar de herói diante do público, mas apenas resolvem no papel, e de modo irresponsável, problemas que, na prática, só podem ser resolvidos gradualmente e não sem um certo tempo.

É claro que é fácil brandir evidências como o perigo representado pelos Kulaks, o desemprego crescente, a insuficiência das moradias operárias ou a degeneração gordurosa da burocracia. Também é fácil dizer, em quase todos os casos: “Isso deveria andar mais rápido”. Mas a questão é saber se é possível ir mais rápido, se a lentidão — relativa, não absoluta — do avanço é responsabilidade da direção do Partido e, de toda forma, se isso justifica um abalo radical de sua política.

O Partido é, por exemplo, culpado por não conseguir obter os bilhões necessários para reformar completamente todo o parque habitacional dos trabalhadores? E nesse grande drama central da industrialização do campo — que se sabe necessária, mas que é retardada tanto involuntariamente quanto voluntariamente —, não é uma estranha técnica tentar sufocar a cooperação de consumo, que existe e é palpável, em nome de uma eletrificação ainda apenas virtual? Pode-se notar que essa antinomia “cooperação contra grande indústria” se apresenta mais ou menos sob as mesmas formas e simetrias que a antinomia “socialismo num só país contrarrevolução mundial”. Saber se devemos abandonar o objetivo semi-realizado para perseguir aquele — maior — que ainda não é realizável. A alternativa que se impõe é: ou fazer algo concreto, ou começar pelo fim.

De qualquer modo, é notório que muitas das medidas salvadoras propostas febrilmente pela oposição são exatamente as mesmas que o Partido já preconiza e aplica. Nessas ocasiões, a oposição “descobre a América”. Ela faz o papel clássico da mosca do coche — ou, melhor, da mosca tsé-tsé.

“Invistam 500 milhões de rublos na indústria!”, ordena a oposição. No entanto, a curva de investimentos industriais — continuamente ascendente — já indicava para 1927, quando essa ordem foi lançada, 460 milhões de rublos. Algumas propostas da oposição — por exemplo, sobre uma melhor distribuição dos produtos agrícolas, a ajuda aos camponeses pobres e aos pequenos produtores, ou o estatuto dos trabalhadores adolescentes — são simples cópias de resoluções já tomadas e colocadas em vigor.

A preocupação com a “democracia”, ou seja, o trabalho coletivo de todos, a participação das massas no trabalho, o respeito às minorias no plano político — foi, acima de tudo, uma preocupação de Lênin e de Stálin. De fato, nenhum governo é obrigado a prestar contas e a se submeter ao controle de um Partido integrado às massas no mesmo grau que o governo soviético. A cronologia da vida pública da URSS é pontilhada de algarismos romanos e arábicos numerando os Congressos da Internacional, os Congressos do Partido, os Congressos dos Sovietes, as conferências e as “Plenárias”. O leigo se perde nessa plantação de números, embora todos sejam minuciosamente calculados. Assim que surge um tema de discussão — automaticamente ele é trazido ao ar livre, e ali explode.

A burocracia? Sim, sem dúvida, quase sempre estamos com a razão ao criticá-la. Ela tem uma tendência deplorável à obesidade estéril, ou então, se é magra, à mumificação. É preciso disputar-lhe o espaço com firmeza e saber medir a justa parcela desse organismo indispensável. Mas, ao mesmo tempo, a administração acaba servindo de bode expiatório cômodo — e muitas vezes é atacada com teatral veemência, de olhos fechados, apenas porque alguém quer, por esta ou aquela razão, acertar um golpe no governo. Mais de vinte anos antes disso, em 1903, Lênin respondia aos mencheviques e a Trotsky:

É claro que os gritos sobre burocracia não passam de uma forma de expressar seu descontentamento pessoal com a composição dos órgãos centrais. Você é burocrata porque foi nomeado pelo Congresso, não de acordo com minha vontade, mas apesar dela; você age de maneira brutalmente mecânica, porque se refere à maioria do Congresso do Partido e ignora meu desejo de ser cooptado; você é um autocrata porque não quer entregar o poder ao velho grupo de camaradas que defende ainda mais intensamente sua tradição quanto mais desagradável lhe foi a censura do Congresso — Assim falava Lênin, que era um terrível psicólogo, com seus cem olhos penetrantes.

A Plenária do Comitê Central e da Comissão de Controle, reunido em 1927 antes do 15º Congresso, fez uma tentativa derradeira junto a Trotsky e Zinoviev. Pediu a Trotsky que renunciasse às suas teorias sobre a mudança de governo, às suas calúnias sobre o caráter “termidoriano” do poder central, e que aceitasse defender, sem condições, a linha do Partido. Trotsky e Zinoviev recusaram a possibilidade que ali se abria para restabelecer definitivamente a paz interna do Partido. Foram, por isso, excluídos do Comitê Central, repreendidos e advertidos de que seriam expulsos do Partido caso continuassem.

Trotsky e Zinoviev (este último particularmente influente em Leningrado, onde fora Presidente do Conselho dos Sovietes) continuaram a guerra. Tentaram inflamar a Juventude Comunista contra o Partido. Multiplicaram reuniões clandestinas, gráficas tipográficas clandestinas, panfletos; ocuparam locais à força e chegaram a fazer manifestações de rua, como no dia 7 de novembro de 1927. No 15º Congresso havia inclusive uma exposição consagrada a essa intensa conspiração política contra o poder central. Dela emergia a prova de que Trotsky e seus partidários tinham decidido criar um partido, com um Comitê Central, comitês regionais e comitês municipais, um aparato técnico, contribuições financeiras e até uma imprensa própria. E isso também no plano internacional, com o objetivo de substituir a 3º Internacional. Nas reuniões trotskistas, impediam à força que membros ortodoxos do Comitê Central entrassem — como no caso de Yaroslavsky e vários outros, literalmente “barrados” fisicamente em um comício em Moscou.

O 15º Congresso tentou resolver essa situação lamentável e perigosa, exortou Trotsky a dissolver suas organizações e, mais uma vez, a renunciar a métodos de luta que ultrapassavam não apenas os direitos de um militante bolchevique, mas até mesmo “a lealdade soviética”; e, por fim, ordenou que cessasse, de uma vez por todas, sua hostilidade sistemática aos pontos de vista da maioria. Mas as contra-propostas trotskistas, assinadas por 121 pessoas, longe de representarem arrependimento, intensificavam os ataques e as fraturas. Trotsky e os seus foram expulsos do Partido. A decisão, porém, deixava uma porta aberta: a possibilidade de sua reintegração individual no Partido, caso renunciassem a suas ideias e ajustassem sua conduta. Estamos muito longe da caricatura trotskista mostrando o camarada Yaroslavsky, presidente da Comissão de Controle, como um cão de ataque feroz segurado na coleira por Stálin.

Poder-se-ia perguntar: a oposição não foi, em certo sentido, útil, ao chamar a atenção da direção para pontos fracos? Ao alertar sobre certos perigos?

Não. Primeiro, porque, em princípio, a autocrítica era um meio infinitamente mais eficaz que o duelo mortal para manter a direção em alerta. Depois, é evidente que a curva das realizações regulares e graduais do Estado soviético não mostra qualquer marca da intervenção da oposição. Ela não teve nenhum “esquecimento” a corrigir; ao contrário, lançou obstáculos que foi preciso contornar — e essa é uma das razões pelas quais a grande ascensão da URSS começa justamente quando a oposição foi reduzida à impotência. Os dirigentes atuais da URSS merecem todo o reconhecimento por, desde a Revolução de Outubro, não terem modificado em nada suas posições e pontos de vista — e por tudo o que foi feito desde Lênin ter sido feito segundo Lênin, e não segundo exageros ou falsificações do leninismo.

Busco, um pouco ao acaso, nos tempos longínquos — antes da revolução, e até no século passado: Vano Fyodorovich Sturua relata uma visita clandestina feita a Tiflis, aos operários das grandes oficinas, por Stálin em 1898 — não é de hoje, como se vê: “Soso destacou-se por sua decisão e firmeza”, e atacava com veemência a “moleza”, a “hesitação”, o “espírito lamentavelmente conciliador” que notava em muitos camaradas; e o mesmo Soso (então com 19 anos) já percebia o cheiro de deserção em certo número de intelectuais, “dos quais boa parte passou, de fato, depois do 2º Congresso, para o campo menchevique”.

Assim aparecia Stálin naquela época; assim ele apareceu, trinta anos mais tarde, diante da equipe oposicionista. Era o mesmo homem: o homem exatamente da mesma tendência — o homem do realismo, da confiança e do passo adiante; em oposição aos homens do vago, do pessimismo e do pisoteio no mesmo lugar.

A oposição fez tudo o que pôde para desencorajar a revolução; lançou pelo mundo — com todas as suas forças, ao menos — a dúvida, o espectro da ruína, da desolação, da perdição, um escurecimento de fim de tarde.

Sacudam nossa oposição, — diz Stálin, — livrem-na da sua fraseologia revolucionária, e vocês verão que, no fundo, o que existe dentro dela é medo, a capitulação! [...] O trotskismo se esforça por injetar a falta de firmeza nas forças da nossa Revolução.

O trotskismo, que transbordou um pouco pelo mundo, atacando a rede da Internacional Comunista, tentou, dentro de seus limites, derrubar a obra de Outubro. Em torno de Trotsky, toda uma mistura de indivíduos vindos de todos os lados — excluídos, renegados, descontentes, anarquistas — conduz uma luta de difamação sistemática e de sabotagem, uma luta exclusivamente antibolchevique e antissoviética, perfeitamente negativa, que assume todas as formas da traição. Esses desertores se empenham em ser os coveiros da Revolução Russa.

Considerar Trotsky como um contrarrevolucionário é justificado — ainda que isso não signifique, evidentemente, que Trotsky compartilhe todas as ideias dos reacionários burgueses com os quais hoje faz coro contra a URSS.

Stálin havia dito tempos atrás: “A oposição acabará se jogando nos braços dos Brancos”. Alguns achavam que essa previsão exagerava os fatos e era fruto do calor da luta. Os sangrentos acontecimentos de dezembro de 1934 lhe dão razão — teremos nós apenas essa prova?

Se a oposição tivesse vencido, o Partido estaria dividido ao meio, e a Revolução, profundamente doente. Sergo Ordzhonikidze pôde escrever:

O triunfo do trotskismo e da direita teria levado a construção soviética à ruína. A vitória de Stálin sobre Trotsky e os direitistas é como um novo êxito da Revolução de Outubro.

Stálin não se contentou em resolver o problema da oposição no centro do comunismo e aí cortar os nós-górdios desse bizantinismo político. Ele ajudou outros Partidos Comunistas a superar as hesitações direitistas, a livrar-se das seduções mortais do oportunismo e do reformismo: o Partido Polonês após maio de 1926; os Partidos inglês e francês, que em 1927–1928 “precisavam colocar sua tática eleitoral sobre os trilhos de uma política realmente revolucionária”. Mais ou menos na mesma época, a ofensiva oportunista invadiu o Partido alemão. Mas o comunismo alemão abandonou os brandleristas; assim como a Tchecoslováquia abandonou os haístas; os Estados Unidos, os lovestonianos e pepperistas. Em 1923, o Partido búlgaro havia eliminado, graças a ele, as más tendências que o faziam oscilar da esquerda à direita — da demagogia ao oportunismo. “O proletariado precisa de um objetivo claro (programa) e de uma linha firme (tática)”, dizia Stálin — que fazia aquilo que dizia.

É interessante, como prova da precisão previsora a que pode chegar um espírito amplo e lúcido, lembrar que em 1920, apesar do impressionante número de militantes do Partido Social-Democrata da Alemanha (o mais importante depois do Partido russo), e apesar de sua unidade aparente, Stálin exprimia um julgamento cheio de dúvidas e reservas sobre essa mesma unidade — que ele considerava “mais aparente que real”. Aqueles que acompanharam as tragédias históricas contemporâneas percebem o quanto essas palavras eram importantes e sábias, e como, doze anos depois, os acontecimentos atestaram sua veracidade de forma terrível.

Desde esses dias, Stálin velou mais ciosamente que nunca pela integridade do leninismo, que havia salvado das manipulações num momento em que a grande experiência libertadora — que nunca deixara de avançar regularmente — ainda estava muito aquém de si mesma; num período em que os revolucionários e o proletariado soviético davam, rápida e lentamente ao mesmo tempo, vida ao monumental organismo novo, por um dom de si comparável a uma transfusão de sangue.