Assim foi que, em virtude de uma combinação original das condições históricas, o primeiro país a entrar no caminho do socialismo foi a Rússia, país economicamente e culturalmente atrasado, apesar de sua poderosa “elite revolucionária”. Saltar, de um só impulso, por cima das repúblicas de papelão — e, mais ainda, sobre todo o mostruário de fórmulas capitalistas em funcionamento nas monarquias democráticas e nas democracias monárquicas — era algo ideologicamente grandioso. Mas, e na terra?
Uma vez conquistado o poder, era preciso usá-lo — e isso, sem sequer tempo para respirar. A imensa máquina do Estado, transferida das mãos de um fantoche maligno e desproporcionalmente inchado — e, após breve intervalo em que oscilou nas mornas trevas do Governo Provisório — passou para as mãos dos radicais mais consequentes, calculistas inflamados, e deveria continuar a girar, a qualquer custo, sobre o mais vasto território do planeta, entre o destino que já não era mais e aquele que ainda não era.
Das três tarefas titânicas a serem vencidas — a guerra externa, a guerra civil e a organização interna da economia e da sociedade — não se pode dizer que a primeira, a guerra externa, estivesse resolvida, mesmo depois de Brest-Litovski, mesmo após o Armistício. Pois, se o grosso dos antigos inimigos havia abandonado publicamente o campo de batalha, a guerra civil que sucedeu à Revolução durante dois anos continuava fortemente entremeada de intervenções estrangeiras.
E o que fazer? Tudo. Viver, dia após dia — e, pedra por pedra, construir. Tudo ao mesmo tempo: organizar a revolução; repelir as avalanches contrarrevolucionárias em todas as fronteiras e todos os horizontes; transformar o antigo império russo — um país agrário e ignorante (80% de camponeses, 70% de analfabetos), arruinado, saqueado, ensanguentado — numa grande nação politicamente socialista (única de seu tipo entre todas as outras) e economicamente avançada (tanto quanto, ou mais do que, os demais países).
Voltemos, mais uma vez, àqueles dias — dias de desfecho e de recomeço. Qual era o balanço, qual o inventário? O que restava da Rússia em novembro de 1917, a partir da hora em que, no Instituto Smolny, anunciaram a Lênin que a bandeira vermelha fora hasteada — e que essa bandeira havia se tornado, doravante, um dos centros do mundo?
A guerra imperialista de 1914 custara à Rússia 40 bilhões de rublos-ouro, além do massacre de um terço da classe operária; a produção industrial e os transportes haviam sido reduzidos a um quinto ou um sexto dos índices de 1913. A guerra civil, que dilacerou o Império por quase toda a sua extensão, provocaria perdas estimadas em 50 bilhões de rublos-ouro. As fábricas estavam em pedaços — e uma vasta parcela das obras públicas também. Nos campos, revolvidos pelo fogo, metade das terras jazia inculta. A administração, o ensino, todos os corpos do Estado haviam sido desagregados pelo cataclismo e pelo ódio ao inimigo interno. O Exército Vermelho estava sem fuzis, sem botas, sem pão. O novo Estado — que ainda enfrentaria o bloqueio e o boicote — era, naquele momento, vítima de agressões armadas por parte das grandes potências.
Aproximemo-nos, de muito perto, dessa guerra de invasão de espécie especial — pérfida e mascarada —, conduzida gloriosamente pelos senhores Clemenceau, Poincaré, Lloyd George — os algozes oficiais das revoluções populares, decapitadores, esmagadores e encarceradores de povos — velhos tigres, velhas raposas, velhas feras —, que comandaram, com êxito, a destruição de todas as insurreições de libertação que brotaram da guerra de 1914. Aproximemo-nos daquilo que “o honorável Sr. Churchill”, como Stálin recentemente recordava, definiu como “a invasão dos 14 Estados”.
O exército do aventureiro branco Alexander Kolchak, campeão do czarismo, recebeu do governo francês 1.700 metralhadoras, 30 tanques, dezenas de canhões. Na ofensiva de Kolchak participaram milhares de soldados anglo-americanos, 70 mil soldados japoneses e cerca de 60 mil soldados tchecoslovacos.
O exército de Denikin — 60 mil homens — foi totalmente equipado com armamentos e munições fornecidos pela Inglaterra. Recebeu 200 mil fuzis, 2 mil canhões, 30 tanques. Várias centenas de oficiais britânicos atuaram como conselheiros ou instrutores no exército de Denikin. O desembarque das forças aliadas em Vladivostok compreendia duas divisões japonesas, dois batalhões britânicos, seis mil americanos, três mil franceses e italianos. A Inglaterra gastou, na guerra civil contra a Rússia, 140 milhões de libras esterlinas — e, despesa menos pesada para os que manipulam o globo terrestre, 50 mil soldados.
A necessidade universal de desacreditar o Estado socialista, a exigência moral de cobrir de lama esse desafio vivo lançado ao imperialismo, gerou um surto quase sobrenatural de calúnias e difamações. Não entraremos aqui nesse terreno lendário e burlesco. Essa viagem seria longa demais para caber num só livro.
Notemos, porém, como mais graves que tais tolices — das quais, no entanto, sempre sobra algum eco nos ouvidos de nossos contemporâneos —, a existência de agências e oficinas perfeitamente montadas e equipadas, sobretudo na Europa Central, cujo objetivo era fabricar falsificações soviéticas sensacionalistas, destinadas a colocar o novo Estado em posição delicada diante das autoridades e da opinião pública das grandes potências.
Esse fato é conhecido — e foi, inclusive, solenemente confirmado na tribuna da Câmara dos Comuns por uma figura ilustre (que, aliás, não podia fazer outra coisa). O Falso “Zinoviev” teve um impacto profundo nas relações anglo-soviéticas. A falsificação utilizada por Aleksandar Tsankov — o carrasco da Bulgária — permitiu-lhe brandir o espantalho do “perigo vermelho” e, mesmo derrotado, arrancar aos vencedores mais um exército para massacrar o próprio povo.
É compreensível que o colossal “precedente” da virada total da Rússia czarista tenha alarmado os reacionários — em especial os da espécie dita democrática, que nessa ocasião, de fato, deixaram cair a máscara. Mas causa espanto ver tantos liberais franceses sinceros tratarem a Rússia revolucionária como a Inglaterra tratara a França da Revolução de 1789. Causa espanto ver tantos intelectuais eminentes permanecerem regiamente incompreensivos diante de um fenômeno dessa magnitude e dessa profundidade. É o que se chama, por aqui, de “ideias progressistas”...
E, em meio a todo esse ódio, essa derrota e essa maldição, causavam um estranho efeito, por aqui, as vozes que, como a de um obscuro jornalista chamado Bullitt, diziam coisas como esta:
Chegará o dia em que todos os homens de nossa época serão julgados pela medida em que compreenderam e defenderam o esforço magnífico da Rússia vermelha.
Um dia? Mas, enquanto esse dia não vem...
Não por um momento passageiro, mas durante dois anos inteiros, a partir de 1918, vocês se lembram, camaradas — dizia recentemente Stálin —, os operários de Petrogrado passaram semanas a fio sem receber um único pedaço de pão. Os dias em que conseguiam cinquenta gramas de pão preto, misturado pela metade com bagaço de oleaginosas, eram considerados dias felizes.
Eis, pois, a situação à qual — cercados como estávamos pela zoologia capitalista — era preciso responder de cima a baixo, de ponta a ponta. Fazer tudo? Era pior do que isso: era preciso refazer tudo. Era em dobro.
Parecia sensato, à primeira vista — já que o poder estava em mãos, mas ainda se tinha os brancos europeus sobre os ombros —, improvisar algum alívio imediato para o pavoroso colapso econômico por meio de certas concessões provisórias. Diante de uma economia tão enferma, não se podia acaso considerar alguma combinação de transição, permitindo a reativação gradual mediante certa utilização do velho mecanismo — do aparelho burguês que ali jazia? Atender ao mais urgente, assegurar unicamente o sobressalto militar de defesa — e a sobrevivência — antes de lançar-se à obra política e à reconstrução econômica. Parecia natural.
Sim, parecia sensato do ponto de vista econômico — mas era politicamente suicida. Homúnculos de negócios, apressados, talvez agissem assim. Mas não os comunistas que haviam assumido a tarefa de criação de um novo mundo. Sim, havia nisso uma aparência de bom senso. Mas a sabedoria revolucionária ia além desse bom senso.
Ela via mais longe. Percebia que, naquele momento, agir assim era colocar o dedo na engrenagem da máquina que gira para trás. E decidiu que era preciso — mesmo diante daquela situação terrível — começar por golpear, de uma vez por todas, o passado político e social, e desmantelar totalmente, para sempre, o velho aparelho. Em vez de tentar agarrar-se a qualquer fragmento dele, a nova sociedade devia romper todo e qualquer vínculo com o que havia sido.
Em outras palavras, quase aniquilados, era necessário aniquilar ainda mais. Decisão genial na sua ousadia — e que dava à marcha dos acontecimentos uma continuidade dramática e racional.
A burguesia simplesmente não conseguia conceber que seu tempo tivesse acabado. A soberania capitalista perfurada num ponto — e, com isso, ameaçando por inteiro o velho continente — era algo que não lhe entrava na cabeça. E, no fundo, salvo entre os militantes, quase ninguém acreditava de fato na Revolução. Às proclamações daquele governo tão diferente de todos os outros, que se destacava de modo tão violento diante dos czarismos do passado e dos czarismos (ou sucedâneos liberais) que o cercavam, opunham-se o ceticismo e a inércia.
Até mesmo os jornaleiros — constatava-se retrospectivamente no 4º Congresso (1922) — recusavam-se a levar a sério as medidas revolucionárias mais importantes do governo operário. [...] Cada fábrica, cada banco, cada escritório, cada loja, cada gabinete de advogado, era uma fortaleza voltada contra nós.
A esse momento, colocava-se uma vez mais, com toda a sua acuidade, o pungente problema da salvação da Revolução. A Revolução precisava mostrar seu rosto — e mostrar sua força. A derrota da burguesia russa ainda não estava concluída. Restava ainda um trecho de vitória a conquistar.
Então, apesar de tudo, empurrar essa Revolução, enfim, até o fim. Abater integralmente a burguesia, romper todas as pontes (desfazer é fazer, mas em outro sentido); confiscar, expropriar completamente: tomar o comércio, a indústria, tudo.
Era, deliberadamente, complicar e agravar de modo singular a situação já desesperadora, correr o risco quase certo de multiplicar, em alguns pontos, a crise aguda de miséria, exigir do povo um esforço que parecia ultrapassar as possibilidades humanas — e, particularmente, desagradar o camponês. E ainda assim, onde uma política estreita e medíocre teria corrido a escolher o compromisso que, afinal, preservaria o regime burguês, os homens de Outubro destruíram tudo. A uma destruição incomensurável acrescentaram uma destruição suplementar — definitiva. Para se defender, para se aprofundar, a Revolução mergulhava mais fundo, de livre e espontânea vontade, no próprio abismo.
Havia clarões de inquietação nas fileiras revolucionárias, e mesmo algumas hesitações no topo. Um exemplo: o antigo grande industrial Urquhart propôs readquirir, pagando, a concessão das fábricas dos Urais das quais fora expropriado. Kamenev e Zinoviev, tomados de súbito pânico, eram favoráveis à concessão. Stálin era contrário. Lênin também — mas hesitava. Bela Kun, que trabalhava nos Urais, foi convocado para informar ao Comitê Central o estado de espírito dos operários e funcionários locais. Estes eram hostis à concessão — que, para Urquhart, não passava de um modo de recolocar o pé no estribo e que significaria mais sujeição do que proveito para a República.
Quando enfim se realizou a reunião decisiva, Zinoviev e Kamenev esforçaram-se por arrancar de Stálin uma declaração contrária à concessão — uma declaração que, como admitiriam posteriormente, pretendiam usar a seu favor. Mas Stálin recusou-se a falar antes que os representantes dos Urais expusessem sua opinião. Esta, apresentada por Bela Kun, determinou o rejeito da proposta. A isca prestigiosa foi repelida.
Afastado com violência o aparelho burguês, instituiu-se o “Comunismo de Guerra”: um expediente de emergência que utilizava apenas parte dos elementos econômicos apropriados pelo Estado — um aparelho centralizado, grosseiro, destinado a extrair da indústria desorganizada pela guerra, pela revolução e pela sabotagem, o mínimo de produtos necessários para que as cidades e o Exército Vermelho não morressem de fome.
No tocante ao trigo, foi preciso recorrer à retirada forçada do excedente das explorações camponesas. Um sistema de racionamento de Estado — um verdadeiro regime de fortaleza sitiada.
Assim, após o último choque sísmico, os resíduos do poder burguês foram de fato eliminados, lançados para o passado, ao mesmo tempo em que o grosso dos Brancos e dos invasores estrangeiros eram empurrados para além das fronteiras. A Revolução e a Paz permaneceram sós sobre as ruínas históricas e econômicas.
Mas a vida pública agonizava; o comércio e a indústria haviam caído ainda mais. E a natureza entrou em cena: uma das mais terríveis fomes da era moderna — provocada por uma seca excepcional — se abateu sobre as regiões mais férteis da Rússia. Em todo o restante do país, o camponês — que, de bom grado ou a contragosto, sustentara o abastecimento da gigantesca batalha de dois anos — agora estava assustado, desconfiado, muitas vezes hostil. Em certos pontos, insurgiu-se (1921).
Quanto ao imenso reforço esperado, vigiado diariamente no horizonte — a revolução mundial —, ela, decididamente, não vinha! O que fazia o proletariado internacional? Movia-se um tanto, é verdade, mas sem resultado. Ou então era derrotado, como o proletariado húngaro, esmagado — e, diga-se, reconduzido à regra secular pelas baionetas aliadas. Ou como aquele em que mais se confiava: o proletariado alemão, metralhado — também, diga-se — pelo Sr. Clemenceau.
Era preciso prescindir de todos. E os homens de 1919 — os soldados do 2º ano — tiveram de tomar consciência de que o Estado Soviético teria que construir sua economia com os próprios meios.
E, para isso, impunha-se, no imediato — quando o Comunismo de Guerra já se tornava inoperante, — conceber uma nova orientação, uma transição econômica. Enquanto isso, a luta política no Ocidente e no restante do mundo assumiria também formas transitórias: reivindicações imediatas, frente única parcial.
Foi nessas condições que o Estado Soviético julgou poder realizar, com tranquilidade, aquilo que, dois anos antes, se recusara terminantemente a fazer: passar dos métodos do comunismo de guerra aos do mercado — e criar a Nova Política Econômica (NEP).
Não se compreendeu bem a NEP em nossas latitudes — e mesmo se cometeu grosseiros enganos a seu respeito (como o Sr. Herriot, por exemplo). Imaginou-se, em geral, que se tratava de um recuo precipitado dos bolcheviques, porque estes teriam se lançado, de maneira impensada, à socialização da economia — e que esta se teria revelado inviável.
De modo algum. Como se disse acima, os bolcheviques haviam considerado que era próprio de grandes organizadores concluir até o fim uma revolução que estava apenas quase concluída. Sabiam, sim, que, ao agir desse modo, aumentariam o caos e os entraves econômicos. Mas foi apenas depois de varrida a situação política até que restasse a tábula rasa, que lhes pareceu possível admitir certa iniciativa de oportunidade econômica.
A diferença entre os revolucionários e os reformistas, — dizia então alguém que nem sempre havia falado assim (Trotsky), — é que os revolucionários só admitem o reformismo depois da tomada do poder pelo proletariado.
A fórmula do poder soviético nascente era clara: “farei concessões, se necessário, mas quando eu for o senhor — não antes”.
E assim se fez: no tocante aos camponeses e ao trigo, substituiu-se o confisco do excedente da colheita — sistema explosivo por excelência — por um imposto em espécie, permitindo-se a venda livre dos excedentes. A circulação monetária foi restabelecida. Medidas foram tomadas para estabilizar o rublo. As empresas estatais passaram a operar sob regime comercial. Os salários passaram a ser proporcionais à qualificação e ao rendimento.
E como o Estado detinha um número maior de empresas do que podia administrar diretamente (pois as havia tomado todas), arrendou por tempo determinado certo número delas a empresários privados.
Após a aplicação dessa política — que, como se vê, envolvia não poucas concessões por parte dos bolcheviques —, em 1922, a situação se “recompunha” assim, em suas linhas gerais:
- Os caminhos de ferro, propriedade estatal (63 mil quilômetros de trilhos, 800 mil empregados), já forneciam um terço do tráfego anterior à guerra.
- No campo, 95% das terras aráveis, nominalmente pertencentes ao Estado, estavam “em uso econômico” (o que, apesar das reservas quanto à duração e às servidões legais, significa quase uma posse de fato) por camponeses que pagavam o imposto em espécie: 300 milhões de puds de centeio, sobre uma colheita que alcançava, naquele momento, três quartos do volume anterior à guerra.
- Quanto às empresas industriais, pertenciam todas ao Estado; mas o Estado explorava diretamente apenas 4 mil (com, é verdade, um milhão de operários), enquanto arrendava outras 4 mil — menores, empregando cerca de 80 mil operários.
- O capital privado formava-se e se desenvolvia no comércio interno, representando 30% do total da circulação comercial interna.
- O comércio exterior, que permanecia monopólio estatal, atingia, comparado aos números de antes da guerra, um quarto do volume nas importações e um vigésimo nas exportações.
O mercado estava recriado. Mas a posição do Estado Operário, do ponto de vista político, era perigosa — atraída para a direita. Em paralelo ao “processo socialista”, surgira um novo “processo capitalista” (sobretudo no campo) — e era preciso agora defendê-lo com firmeza. Na luta que então se delineava: “A burguesia tinha a seu favor o saber prático e os vínculos com o capital estrangeiro” (Informe ao 4º Congresso, 1922).
Tratava-se do início de um duelo de consequências sociais e morais incalculáveis. Para ambos os lados, o objetivo central era, dentro daquela Rússia ainda agrária, conquistar o mercado camponês.
Os camponeses — cuja ala pobre e explorada havia ajudado a revolução — agora desconfiavam dos revolucionários que lhes deram a terra, mas lhes haviam tomado o trigo. O camponês russo, realista, mas de visão curta, já manifestava sinais de resistência violenta.
Do ponto de vista da reconciliação com o campo, a NEP, com suas poucas portas abertas à iniciativa e ao lucro privados, com seus regulamentos que já não tinham o ar brutal das requisições — das quais o campesinato fora sempre o primeiro a sofrer —, representava um passo decisivo.
Os bolcheviques — que são os homens menos cegos diante do futuro — sabiam perfeitamente que todo o destino do Estado socialista dependia do acordo entre a economia produtiva do campo e a da cidade. Afinal, a própria Revolução só havia triunfado porque o campesinato, em sua maioria, a aceitara — por vezes, até a secundara —, ou ao menos não lhe fizera oposição.
E embora proclamassem isso de maneira clara, apontando inclusive os marcos iniciais desse futuro grande acordo, os novos dirigentes deixavam, por ora, de lado a indústria pesada, a eletrificação e tudo mais que envolvesse a construção consciente da economia e das grandes obras nacionais.
O objetivo era consolidar a Revolução mediante uma fase de rampas inclinadas, permitindo algumas reformas indispensáveis e preparando o terreno. Penetrava-se, tanto quanto possível, o campo por meio das cooperativas. E, ao mesmo tempo, declarava-se em alto e bom som que se estava num caminho que conduzia do capitalismo ao socialismo, ainda que incomparavelmente mais próximos do ponto de partida do que do ponto de chegada. E proclamava-se solenemente, em Moscou:
O Estado só concede concessões industriais e celebra convenções comerciais na medida em que tais atos não possam, de forma alguma, minar os fundamentos de sua economia.
Lembram-se, senhores e senhoras, das risadas e até gargalhadas que essas declarações provocaram nos “meios bem-pensantes”? Aqueles que, por aqui, insistiam em dizer: “Confiem nos bolcheviques”, acabavam se encontrando numa posição bem ingrata.
He-he… Lá vêm eles, os ferozes revolucionários! — murmurava a “sabedoria” das nações. — Está claro: esboçam o primeiro passo do recuo, o retorno aos bons e velhos métodos capitalistas. É o começo do fim daquela loucura chamada socialismo.
Quando Georgy Chicherin encontrou-se, na Itália, em 1921, com o representante da França, Sr. Colrat, este interrompeu bruscamente o Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros, que começava a argumentar, dizendo-lhe que os bolcheviques não tinham o direito de falar de economia política, dado o estado de desorganização da economia em seu país.
Não tenho a honra de conhecer o Sr. Colrat, mas digo, com todas as letras: ele é um imbecil.
Seja como for, seu julgamento sumário só teria o menor valor — ou mesmo o menor sentido — caso os bolcheviques tivessem tido a oportunidade de aplicar livremente seus métodos econômicos no território de que se haviam tornado herdeiros. O que, evidentemente, não era o caso. Mas o Sr. Colrat não foi o único a dizer tolices — e trataremos de esgotar essa lista de disparates às custas dos senhores que os proferiram pomposamente, na época em que ainda tinham o riso do público a seu favor.
“O Estado não permitirá que se minem os fundamentos de sua economia”. Compreende-se, aliás, que nossos republicanos conservadores do Ocidente, nossos políticos camaleônicos, possam achar inacreditável que homens públicos cumpram, à risca, seus compromissos — e sigam sua linha, reta e firmemente. Que espécie de novidade é essa? Isso faz parte da originalidade desses curiosos personagens orientais. E talvez seja uma moda que eles ainda acabem impondo à política mundial.
De todo modo, quando eles proclamaram com veemência: “Não nos deixaremos enganar” — esses homens estavam certos. E eram ainda mais honestos por anunciarem, antecipadamente, sua intenção.
— “Lá vêm eles?” — perguntava o Ministro burguês. Não, Sr. Ministro. Não, Sr. Barão — eles não vinham coisa nenhuma.
E muito em breve, os rostos capitalistas se alongaram — até a caricatura. Pouquíssimos anos depois, todos podiam constatar que os bolcheviques, em todas as frentes, realizavam seus objetivos: retomavam as empresas, reduziam gradualmente a participação do capital privado, e saíam plenamente vitoriosos da fase de trabalho econômico encabeçada pela NEP.
As “transigências” entre capitalismo e socialismo, entre empresa privada e empresa coletiva — o infame “casamento da carpa com o coelho” — mostraram-se mesmo passageiras.
O deslumbramento do capitalismo mundial diante da NEP devia-se, de fato, ao reflexo de um fogo de palha. E o “nepista” já não passava de um personagem antiquado, digno apenas de figurar no teatro — como tipo pitoresco de um período historicamente encerrado.
Eis o que é astúcia — e o que ela verdadeiramente significa. A grandeza de Lênin, e, também, do homem que mais intimamente trabalhava a seu lado nesse meio caótico e oscilante, consistia em terem compreendido o sentido de uma esperteza realista.
Se alguém lhe perguntar: “A astúcia é boa ou má?”, não responda. Você não pode responder assim, em abstrato.
A astúcia — entenda-se aqui o termo em seu sentido geral, e não no significado pejorativo que às vezes lhe atribuem — pode ser boa, pode ser má. Pode preparar a vitória, pode preparar a derrota. Extrair dela o que tiver de útil é um dever; negligenciá-la é uma falha.
Em certas circunstâncias, o sectarismo não passa de medo da responsabilidade. É por vezes muito cômodo ser inflexivelmente “cem por cento” e se refugiar na torre de marfim da “pureza”, quando tudo vacila ao redor e arde o campo em derredor. Em outras ocasiões, é preciso manter-se irredutível — tiranicamente. É necessário saber ser honesto, e a boa vontade, sozinha, não basta para cumprir um dever que alcance uma determinada envergadura.
Em 1921, os que mereciam verdadeiramente ser chamados de “oportunistas” — no mau sentido da palavra — não eram aqueles que aprovavam a NEP, mas aqueles que se lhe opunham. Pois esses últimos sacrificavam o futuro ao presente. Enquanto o verdadeiro conteúdo retificado do conceito de oportunismo é: sacrificar o presente ao futuro. A astúcia oportuna de Lênin e de Stálin — como o de todo grande estrategista — consistia em dar um passo atrás para, em seguida, avançar dois.
Já para os atrapalhados, os temerosos, ou ainda para os comunistas vacilantes — que, consciente ou inconscientemente, buscavam nesse movimento um subterfúgio — era o contrário: dois passos atrás para um adiante.
Mais uma vez, é o marxismo que nos ensina: uma palavra é apenas uma palavra — ou seja, nada em si mesma. As fórmulas só têm valor em função do uso que delas se faz. Pode haver mundos de diferença entre dois fenômenos que, gramaticalmente, se exprimem de modo idêntico.
O marxismo é um relativismo absoluto. E, em última instância, ele é uma questão de marxistas — nem sequer uma “questão de Karl Marx”, pois Marx é um grande homem não por seu nome, mas por ser o mais consequente dos marxistas.
Seja como for, o mesmo homem que, de 1903 a 1912, fez de tudo — com uma obstinação imperiosa que ultrapassava muitos de seus companheiros — para dividir em dois um partido revolucionário já perseguido e dizimado pelo czarismo — agiu assim precisamente porque aquele partido, debilitado como estava, necessitava de toda sua força concentrada. E foi esse mesmo homem que, quando o partido saiu vitorioso, aceitou transigir em vários pontos com os métodos burgueses. Se você vê aí uma contradição, está enganado. Pois Lênin — esse ditador dos fatos — tinha razão numa situação tanto quanto na outra. A isso ele chamava de: “a curva da linha reta”. Uma bela e poderosa fórmula, que não significa “arabescos”, nem “ziguezagues”, nem “piruetas”, mas que faz lembrar a retidão do círculo das latitudes, ou a curvatura do espaço, segundo Einstein.
Chegara, o quanto antes, o momento de avançar para a grande via definitiva: reintegrar a economia ao socialismo, por meio das etapas necessárias — e, a partir daí, desenvolvê-la de maneira sistemática.
Em 1922, no 11º Congresso do Partido — um ano após a introdução da NEP — Lênin declarava que “a retirada havia terminado, e que era hora de pensar no reagrupamento das forças” — e acrescentava que: “a chave da situação estava na escolha dos quadros”.
Após o 11º Congresso, Stálin foi eleito Secretário-Geral do Comitê Central do Partido Comunista (Bolchevique). E imediatamente pôs-se a organizar — ou melhor, reorganizar — o Partido, visando a preparação da economia socialista nacional. A situação seguia tempestuosa. As grandes potências não haviam deposto as armas — ao menos, não com a mão esquerda.
As tentativas de obter algo delas haviam fracassado — com exceção dos Países Escandinavos e da Alemanha. Com esta, havia sido assinado o Tratado de Rapallo, que instaurava uma certa solidariedade (na miséria). A Conferência de Gênova, com os demais grandes países, terminou em fracasso. O pretexto oficial para o fracasso foi a repudiação das dívidas czaristas pelos bolcheviques.
As potências europeias reconstruíam, à sua maneira, suas economias do pós-guerra, com o auxílio de 90 bilhões de francos emprestados pelos Estados Unidos (sem contar os empréstimos de guerra anteriores). E essas mesmas potências, mais tarde, se negariam brilhantemente a reembolsar os Estados Unidos — depois de operarem uma “sensacional distinção” entre o dinheiro que lhes era devido e o dinheiro que elas próprias deviam. Decidiram “esquecer” oficialmente este último — e transformar os recibos dessas dívidas em simples papel velho.
Sem ter, para isso, as razões morais alegadas pelo poder soviético para repudiar as dívidas czaristas — razões essas que, convém repetir, haviam sido proclamadas solenemente por personalidades políticas russas das mais moderadas, antes da guerra, em relação aos empréstimos contraídos por um governo despótico para fins de interesse próprio e de opressão de seu povo. Há, é forçoso reconhecer, uma diferença essencial entre um governo revolucionário que se recusa a se tornar cúmplice das dilapidações de um tzar inimigo de seu povo — e governos burgueses que renegam suas próprias assinaturas, após extorquirem, em larga medida, indenizações do vencido. Enquanto a maioria dos cidadãos soviéticos comia apenas painço ao redor da hipertrofia de alguns nepistas, e via-se emagrecer os dirigentes subalimentados, pôs-se mãos à obra para fabricar o futuro.
Um trabalho racional. Um trabalho conduzido segundo a visão do conjunto. Era preciso, antes de tudo, traçar as diretrizes principais. A teoria e a prática marxistas tinham aí uma margem astronômica de aplicação. Ambas avançavam de mãos dadas, pois só a teoria pode ensinar à prática como fazer e onde começar. A teoria oferece a trajetória que liga o ponto de partida ao ponto de chegada. Se for correta, ela projeta uma antena no futuro.
Stálin repete, com Lênin, que a teoria é a grande alavanca dos acontecimentos. Todos os que viram Stálin no trabalho reconhecem que essa é sua qualidade mais marcante: saber compreender a situação tanto no todo quanto nos detalhes, colocar em primeiro plano o que há de mais substancial, focalizar toda sua atenção no que é mais importante naquele instante.
Pode-se observar que, ao falarem das realizações de Stálin, os que conhecem bem sua ação — como Valerian Kuibyshev, que dirigiu o Plano Estatal — não dizem apenas: “Ele fez isso ou aquilo”. Dizem: “Ele fez isso a tempo”.
O primeiro grande problema vivo a dominar: o campesinato. Esse era — e ainda é — o problema que paira sobre toda a República Soviética.
Não se deve esquecer, e sim repetir, que as duas características fundamentais da Rússia de então eram: ser agrária e ser atrasada. O imenso território marcado por Petrogrado, Odessa, Tíflis, Vladivostok, Arkhangelsk — permanecia até então um país feudal, desordenado e confuso, erguido ao redor dos cenários do Kremlin, dos diamantes da coroa, dos iconóstases, e das trilhas luminosas dos Grão-Duques e dos boiardos que iam festejar no estrangeiro.
Na véspera da Revolução, metade das terras pertencia a dezoito mil nobres; a outra metade, a vinte e cinco milhões de camponeses. A incoerência dessa situação se espalhava por toda parte. A indústria, muito atrasada, tinha apenas alguns centros (relativamente grandes), sustentados, quase pela metade (43%), por capital estrangeiro.
Ora, é pela indústria que um Estado moderno pode se desenvolver. É pela indústria que um vasto território se converte num grande país.
Mesmo do ponto de vista do campesinato? Sim — mesmo para o progresso econômico e político do camponês, a industrialização era o único caminho: é por meio da indústria que se poderá realizar a transformação socialista do campo. Por isso, “o centro de gravidade da economia deve se deslocar em direção à indústria”. (Stálin)
Dizer isso é mais fácil do que fazê-lo, diante de oceanos inteiros de campos nus, de estepes e de florestas. Mas é preciso começar pela audácia diante da folha em branco.
Nosso país deve ser transformado de um país agrário em um país industrial, capaz de produzir por si mesmo tudo aquilo de que necessita. Eis o ponto capital, a base da nossa linha geral.
Assim fala Stálin, Comissário do Povo para a Inspeção dos Trabalhadores e Camponeses. Mas sua ideia — que é exatamente a mesma que a de Lênin — é que não basta dizer que se deve seguir o caminho da indústria. É preciso escolher certas indústrias dentre todas:
Industrialização não significa o desenvolvimento geral de toda e qualquer indústria. O “centro” da economia, sua “base”, o único meio de fazer a indústria como um todo avançar, — proclama Stálin, — é o desenvolvimento da indústria pesada — metais, combustíveis, transportes —, ou seja: o desenvolvimento da produção dos meios de produção.
E isso significava, na prática, desenvolver algo que, naquele momento, equivalia praticamente a zero — por conta do atraso herdado dos séculos anteriores, do dilúvio das últimas guerras e revoluções, e também pelo desarranjo arquitetônico provocado na economia pela introdução da NEP — que, ainda assim, era necessário manter por um certo tempo. Mas Lênin já havia especificado, peremptoriamente:
Se não encontrarmos os meios para implantar e desenvolver entre nós a indústria, nosso país estará perdido — enquanto país civilizado, e mais ainda como país socialista.
E Stálin dizia coisas análogas a respeito da indústria pesada.
Aqui, é preciso abrir um parêntese para preenchê-lo com considerações similares às que já evocamos. Trata-se, mais uma vez, com essa história de indústria pesada, de uma combinação de longo prazo, que à primeira vista não parecia se impor de forma alguma.
Outra alternativa se mostrava, inclusive, muito mais razoável: começar — com mais modéstia — pela reconstrução e expansão da indústria leve: a do têxtil, a da alimentação, a dos bens de consumo, que permitiria abastecer a população, satisfazer necessidades públicas imediatas, calar as reclamações mais gritantes.
Aliás, o homem médio — esse enorme cidadão amorfo, o colossal boneco de neve — prefere sempre dar a impressão de que começa pelo começo.
Mais uma vez, impunha-se o velho conflito (cuja resolução é recente): entre a lógica rasteira e a lógica gigante, entre os que têm a visão longa, com seus incômodos fardos de futuro, e os que têm a visão curta — e nenhuma bagagem.
“Comecem pelo menor para chegar ao maior” — diziam alguns. Assim, limitar-se-ia o sacrifício público, encurtar-se-ia o tempo das privações, apaziguar-se-iam as queixas, facilitar-se-ia a paz interna — em vez de lançar-se de cabeça no sistema do monumento na aldeia, ou de mirar recordes mundiais quando nem o essencial se tem em quantidade suficiente.
“Mas seu ponto de vista está errado, camarada” — E é a lógica e a paciência do futuro que respondem, pela boca de Stálin, e explicam: Sim, seria possível distribuir alguma satisfação imediata às populações urbanas e rurais, se se começasse pela indústria leve. E depois? Apenas a indústria pesada pode servir de base para a renovação industrial de um país. Somente o desenvolvimento da indústria pesada tornará possível a coletivização do campo, isto é, as grandes realizações sociais.
A aliança entre operários e camponeses é necessária, — afirma Stálin, — mas reeducar o campesinato, destruir sua psicologia individualista, transformá-lo sob um espírito coletivista e, assim, preparar o caminho para uma sociedade socialista — isso só se pode fazer sobre a base de uma nova técnica, de um trabalho coletivo, de uma produção em grande escala. Ou resolveremos essa tarefa — e então viveremos definitivamente. Ou dela nos afastaremos — e o retorno ao capitalismo poderá tornar-se inevitável.
E há, também, a questão da defesa nacional, que exige a indústria pesada. A defesa nacional é sagrada. Certos grandes termos foram banalizados pelas cozinhas ideológicas do capitalismo. Mas isso não é motivo para que não se lhes dê, pela primeira vez, seu verdadeiro sentido. Detestável em outras partes — onde significa cobiça e banditismo, o “eu antes de você”; onde significa ruína e suicídio; onde é a primeira etapa do ataque às nações —, a defesa nacional é mais respeitável que a vida, quando significa: passo do progresso, elevação para além da escravidão, desconfiança brutal e lúcida diante dos países de rapina, que não fazem senão buscar um pretexto — ou inventar um — para destruir o socialismo vivo.
E já multiplicaram tantas vezes, concreta e efetivamente, suas tentativas nesse sentido, que é preciso ser de má-fé para negar-lhes a intenção. Este dever de defesa social elimina qualquer confiança criminosa nas grandes potências, e expressa a vontade de que a aurora da Revolução Russa seja, de fato, uma aurora verdadeira. No dia em que Stálin, resumindo amplamente os acontecimentos, declarou que a primeira base do Estado soviético era a aliança entre operário e camponês, a segunda, a união entre as nacionalidades, ele acrescentou que a terceira era o Exército Vermelho. Portanto, a indústria pesada é o “primeiro elo”, para usar uma terminologia cara aos homens que, lá, transformam o abstrato em concreto.
Mas não bastava empreender a indústria pesada. Era preciso multiplicar a tarefa, decidindo fazê-lo rapidamente. Um atraso excessivo distorceria o sentido dessa conquista e traria os piores perigos. Demorar-se demais na esterilidade provisória dos imensos canteiros era deixar à derrota o tempo de chegar. Logo, era preciso ritmo acelerado. E imediatamente, aqui, surgia um outro obstáculo implacável: faltavam técnicos — e a técnica é feita, ao mesmo tempo, de máquinas e de homens.
Também nesse problema da formação de quadros técnicos, recorreu-se a meios extraordinários — desconcertantes à primeira vista. Havia duas alternativas, explicou mais tarde Stálin (há pouco tempo — ouvi isso pelo rádio, enquanto corrigia as provas deste livro).
Duas alternativas: uma consistia em formar, antes de tudo, técnicos — uma tarefa de uns dez anos — e, só depois, construir as máquinas. A outra era começar logo, ao mesmo tempo, a construir as máquinas e a forjar os quadros. Escolhemos essa segunda via. Disso resultaram, às vezes, imperfeições e danos. Mas ganhamos aquilo que era mais precioso: o tempo. E, impulsionados pela necessidade, formamos os técnicos que nos faltavam. No balanço geral, ganhamos infinitamente mais do que perdemos.
Grande novo êxito da tenacidade sábia e sagaz dos bolcheviques.
“Vencemos — e é justo”, conclui o Stálin de 1935. Mas, à época, essa pressa — somando-se à ruptura com os métodos graduais antigos — não agradava a todos, nem mesmo nas esferas dirigentes. Havia os que torciam o nariz. Stálin foi buscá-los nos seus cantos e os sacudiu:
Esses filisteus de pantufas, roupões e gorros de dormir, que abordam os problemas da edificação socialista unicamente sob o ponto de vista do conforto de sua existência.
E assim, sobre as ruínas do presente, as brumas do futuro se povoadavam de silhuetas industriais gigantescas.
Lá adiante, para além do plano rasteiro onde ainda emergem os escombros, as nuvens e as luzes tomavam formas de torres de trabalho, de altos-fornos, de diques, de arcos de pontes que desenhavam arco-íris negros.
Nas estepes e nos desertos férteis do campo, apareciam, coladas aqui e ali como em montagem fotográfica, fábricas, combinados industriais — cidades blindadas.
Ao redor dos oásis científicas e da harmonia socialista do formigueiro humano, as planícies cultivadas eram seccionadas em xadrezes, losangos, desenhavam idas e vindas convergentes de tratores, num raio de quilômetros.
E o tecido se estendia por todo o mapa: trilhos e estradas. As implantações industriais começavam a se escalonar desde o fim da guerra civil, em grandes etapas pensadas e calculadas: 1921, 1925, 1927.
Impulsionam-se ativamente as cooperativas de consumo, sobretudo no campo. Cooperativas sempre existiram na Rússia — o que importa agora é intensificar metodicamente sua criação e expansão.
“A cooperação é a grande estrada que conduz ao socialismo” — Lênin. É evidente que ela coletiviza a imaginação, estabelece uma atmosfera de comunidade e introduz hábitos socialistas na aritmética prática da vida.
Além disso, as cooperativas de consumo permitem empurrar aos poucos para fora o comércio privado, esvaziando até a inanição os intermediários privados e assumindo elas próprias o papel de intermediárias entre os “trustes” estatais e os consumidores. Mais tarde, tratar-se-á de organizar em larga escala as cooperativas de produção. Ao mesmo tempo, o poder decretou uma série inteira de medidas de racionalização, economia, combate ao desperdício, aumento da produtividade, fortalecimento da disciplina e da assiduidade no trabalho.
Mas nada tomou corpo e começou verdadeiramente a viver senão ao redor da eletrificação. A eletrificação foi a raiz concreta que ligou toda aquela enorme indústria ideal à terra.
Lênin já havia percebido o papel da corrente elétrica no mundo do futuro que o rodeava — num momento em que ninguém podia enxergar isso, enquanto a NEP seguia seu curso morno e as esperanças capitalistas ainda dançavam sobre as feridas abertas do povo assassinado.
A ideia que brotara do solo foi batizada de GOELRO — um nome montado com as iniciais de várias palavras: Estado, Eletricidade, Rússia.
Li o seu “Plano de Eletrificação da Rússia”, — escreveu Stálin a Lênin em março de 1921, — e devo dizer: trata-se de um esboço magistral de planejamento econômico — não um amontoado de intenções dispersas, mas um verdadeiro plano orgânico, um Plano Nacional no mais pleno e rigoroso sentido da palavra. É, até agora, a única tentativa autenticamente marxista, em nosso tempo, de erguer, sobre as bases de um país economicamente atrasado, uma superestrutura fundada numa realidade técnico-industrial concreta — a única possível nas condições materiais atuais.
O que são, diante disso, as dezenas de pretensos “planos de conjunto” que nossa imprensa insiste em publicar? Vergonhosos balbucios infantis, nada mais. Lembra-se das propostas de Trotsky no ano passado? Suas teses sobre a “renascença econômica da Rússia”, a partir do uso extensivo da mão de obra não qualificada, alçada a “exército do trabalho”, sobre as ruínas da velha indústria czarista? Quanta miséria teórica, que “primitivismo” desesperador quando confrontado com a envergadura estratégica do plano GOELRO! Trotsky, nesse campo, parece mais um artesão medieval que se fantasia de protagonista ibseniano.
Minha opinião? Primeira: basta de perder tempo com discussões estéreis e devaneios pseudo-teóricos sobre planejamento. Segunda: é preciso iniciar imediatamente a execução prática da eletrificação. Terceira: devemos subordinar a esse salto qualitativo ao menos um terço de todas as nossas energias — materiais, humanas e políticas — pois os dois terços restantes serão consumidos, naturalmente, pelas urgências cotidianas. Quarta: a Comissão de Planejamento deve ser fortalecida com quadros realmente práticos, pois, embora os técnicos do GOELRO sejam dotados de competência científica, há em seus textos um certo tom de impotência acadêmica que precisa ser superado pela experiência viva da organização e da ação. Quinta e última: o Pravda (A Verdade), a Izvestia (Notícias) e, em especial, a Ekonomicheskaya Zhizn (A Vida Econômica) devem fazer da popularização do plano de eletrificação uma prioridade — não se trata apenas de anunciar o plano, mas de desdobrá-lo, de explicá-lo com rigor, de traduzi-lo aos trabalhadores com todos os detalhes concretos. Que se compreenda: há apenas um verdadeiro plano econômico de conjunto — o plano de eletrificação. Tudo o mais não passa de palavrório oco e danoso.
A eletricidade tornava-se o pivô central da reconstrução continental futura. Tudo haveria de divergir a partir desse pilar. As fontes hidrelétricas, quase feéricas, já anunciavam as formas grandiosas do grande progresso coletivo.
“O comunismo, — dizia Lênin, — são os sovietes mais a eletrificação de toda a Rússia”. Reunião poderosíssima de ideias e de coisas — que conecta e entrelaça entidades que, à primeira vista, não parecem ter nenhuma relação entre si. Podia-se vagar durante muito tempo pelo socialismo ou pela eletricidade sem jamais topar com isso. À primeira vista, parece uma daquelas misturas que os professores primários condenam nas escolas: juntar maçãs e laranjas. Mas, na verdade, trata-se de injetar a espinha dorsal da matéria dentro da ideia. Parece uma fórmula algébrica. Parece também aquela grande objurgatória do Gênesis: “Haja luz”. Esse plano de taumaturgo, que fazia brotar de todos os cantos milhares de cavalos-vapor — esse projeto de eletrificação —, pareceu cômico e pretensioso ao Ocidente.
Herbert George Wells, o eminente escritor inglês — especializado em visões de futuro —, tornou-se porta-voz dos espíritos “autorizados”, cujo senso de ridículo ficara chocado com a tal pretensão soviética. Quando Lênin lhe disse, em 1921: “Vamos eletrificar a Rússia da Europa e a Rússia da Ásia”, Wells achou aquilo engraçado. Não pela ideia em si — pois, se a Inglaterra tivesse formulado tal plano, ele o acharia natural, já que a Inglaterra tinha os meios. Mas num país ignorante, coberto de ruínas, partindo de um “pequeno homem do Kremlin”, aquilo lhe soava barroco. E mais ainda: o profeta bolchevique falava, com aquela pobre cabecinha deslumbrada, de cem mil tratores na Rússia do futuro, quando os tratores soviéticos podiam ser contados nos dedos de uma mão.
Wells, o técnico literário dos tempos vindouros, na única vez em que sua visão foi posta à prova, enxergou o futuro de modo absolutamente torto. Quem dera pudesse apagar de sua obra aquela página pela qual os estudantes da URSS, hoje, são tão severos com ele!
No 8º Congresso dos Sovietes e no 4º Congresso da Internacional Comunista, o Plano de Eletrificação e a Comissão de Eletrificação expandem-se e sistematizam-se no Plano Estatal da Economia, e na Comissão de Planejamento Estatal. Essa comissão só passou a operar ativamente quando a URSS, após o período de restauração e ajustes das instalações existentes, lançou-se na construção de novas estruturas de grande porte.
Foi então que surgiu a série dos Planos Quinquenais, os quais, por sua vez, são fatias de planos mais amplos. Esse processo gigantesco de “planificação”, que lança sua rede sobre países inteiros e períodos longos, é um produto soviético. Mas a ideia contaminou o mundo inteiro. Se na URSS ela avançou de forma concreta, em outros lugares ela se limitou ao abstrato e ao verbal. A União Soviética nunca pôde tomar nada emprestado dos grandes países — mas estes, sim, fizeram certos empréstimos importantes à URSS, entre eles este: o da economia planejada. Dela extraíram até mesmo a noção de “economia dirigida”, temperada com algumas pretensões internacionais.
“Economia dirigida”: homenagem balbuciante do capitalismo ao socialismo! Sim: economia dirigida. Não há outro caminho para o gênero humano sair do abismo. E esta, efetivamente, é a panaceia universal. Mas, quem diz “direção”, diz: unificação — e quem diz “capitalismo”, diz: anarquia — tanto do ponto de vista nacional quanto internacional. Se a palavra “dirigida” não tiver um conteúdo nacional pleno e um conteúdo internacional real, então ela não quer dizer absolutamente nada. Não valerá coisa alguma — nem dentro de um país, nem entre os países.
A economia dirigida é como a paz: jamais viverá se for, desde o início, esquartejada.
A ideia de Plano Econômico é uma ideia exclusivamente soviética — e não tanto por razão de prioridade, mas por razão orgânica. Nos países capitalistas, as iniciativas e prerrogativas privadas, a multiplicidade e o conflito dos interesses envolvidos na atividade econômica tornam impossível qualquer plano de conjunto. A prova está aí: basta observar os malabarismos e truques contábeis empregados todos os anos, na véspera do prazo final — e até mesmo depois — para dar aos orçamentos uma mera aparência de equilíbrio.
Não é o caso no Estado socialista, que realiza uma construção lógica, de interesse público matematicamente puro, e no qual a coletividade dirigente é, ao mesmo tempo: legisladora, executora, proprietária e usuária.
Ainda assim, quando o Plano Quinquenal soviético apareceu — com seu luxo de detalhes e precisão —, as caras ocidentais voltaram a sorrir com desdém.
De quê? Ora, de gente cujas estatísticas econômicas mal conseguiam andar para trás, que fechava a fila da produção mundial com números decrépitos — e que agora vinha apresentar cifras mirabolantes… lançadas no futuro?
Esses homens faziam brilhar diante de nós metros e mais metros de obras nem sequer iniciadas. Quando lhes perguntavam:
“Como vai tal ou tal indústria aí no país de vocês?” — eles respondiam: “Aqui está o que ela será daqui a cinco anos” — e mergulhavam em perspectivas grandiloquentes e distantes. E nós, claro — nós, os ocidentais sofisticados —, não podíamos evitar o pensamento: “Essas estatísticas nas nuvens lembram demais aquelas promessas gloriosas que nossos políticos gostam de distribuir a torto e a direito aos cidadãos em geral, e aos eleitores em particular”. Não podíamos esquecer, também, o quanto seria original, em nossos países, levar a sério os compromissos de um ministro ou de um governo.
Era preciso fazer um bom esforço, sob os nossos céus, para pregar a credibilidade dos números moscovitas. “É preciso ser sectário para acreditar nisso!” — diziam alguns. Outros afirmavam: “Os números do Plano Quinquenal são pura ficção, são altos demais. Um deslocamento de recursos dessa envergadura só é possível em tempos de guerra, sob a ameaça dos canhões”.
Eu escrevi em 1928 — falo eu, Henri Barbusse — que “no Plano Quinquenal em curso, não se trata de especulações estatísticas lançadas por burocratas ou literatos, mas de diretrizes concretas, que os números do Comitê Estatal de Planejamento (GOSPLAN) devem ser vistos menos como indicações e mais como conquistas já obtidas. — E concluí — Quando os bolcheviques nos dizem que, em 1931, a indústria soviética terá crescido 8%, que 7 bilhões de rublos terão sido investidos na recuperação econômica, que as usinas hidrelétricas terão alcançado 3 milhões e meio de quilowatts de potência instalada etc., devemos entender que essas coisas já existem virtualmente.”
Pois bem: se os números citados não foram exatamente realizados na data prevista, é porque todos eles foram superados. Hoje, a verificação está feita quanto ao “valor real” das cifras dos Planos, pois os anos passaram e essas cifras migraram das névoas do futuro para o registro fotográfico do presente. Se alguns indicadores não foram alcançados, sua proporção é tão insignificante que é como se não houvesse falhas. Em muitos aspectos, os objetivos foram ultrapassados. Os planos econômicos soviéticos tornaram-se realidade: 109% de cumprimento em 1922–1923, 105% entre 1923 e 1925, nos principais capítulos — só para mencionar os primeiros.
Ninguém deveria se espantar com isso. De fato, é nos planos materialistas que se encontra a mais alta dose de inteligência. E, dadas as formas racionais do socialismo e seu contato direto e descomplicado com a realidade em todos os níveis, é perfeitamente lógico que as previsões do plano se concretizem com exatidão, por mais difícil que seja o trajeto. “Seria mágica, se não fosse socialismo”, diz Stálin.
Mas se as teorias socialistas se convertem em grandes realizações, isso não é apenas pela inteligência humana, é também graças ao coração humano. É preciso mais que lógica para construir uma obra lógica em tal escala. A vontade? A vontade, sozinha, ainda não basta. É preciso entusiasmo. Por meio da ideologia socialista e da ação direta do Partido — que age como guia magistral junto às massas, e que também empurra a roda —, é necessário obter a colaboração da multidão trabalhadora: quantidade e qualidade. Sem a colaboração voluntária, consciente, apaixonada da classe operária, nada é possível.
Portanto: “despertar nela as forças criadoras sufocadas pelo capitalismo”, “armar o operário com entusiasmo pelo trabalho”. Qualificação técnica, sim, mas também qualificação moral. É essa união de duas forças, que no fundo são a mesma, que torna possível o sobretrabalho criador.
Entusiasmo pelo trabalho? Os economistas capitalistas acham isso dinheiro de brinquedo. Dizem, com seu ar pontifical: “Nada se obterá do operário sem o estímulo do lucro”. Boa e velha receita — aquela que o capitalismo sempre usou, quando podia (e que hoje já lhe escapa das mãos). A fórmula “Enriqueçam-se!” ainda funciona maravilhosamente entre as massas capitalistas — funciona tão bem, que até mesmo as arruína com perfeição.
No regime socialista, o operário é de uma outra natureza cívica. No capitalismo, ele é um condenado: trabalha a contragosto, porque não trabalha para si mesmo. Nem é difícil perceber que, na verdade, ele trabalha contra si mesmo. Por isso, é necessário estimulá-lo com apelos especiais: a moedinha a mais, o patriotismo barato, a moral cristã e todo o trovão divino. Já o outro sabe trabalhar com fúria — pela glória — porque a glória é sua força e sua elevação. É nos planos materialistas que se encontra o mais alto ideal.
Mas não eram só os capitalistas que dogmatizavam. Havia também, murmurando em certos estratos do Partido, algumas críticas. “Esses apelos à emulação socialista, — diziam esses camaradas, — servem bem para agitação e propaganda, mas confiar nisso para o trabalho prático, em escala ampla, é exagero. O camarada Stálin está indo longe demais”. Mas Stálin garantia com unhas e dentes o valor concreto da emulação para a causa, sua contribuição econômica real. Quando ficou evidente, anos depois, que o entusiasmo dos operários era de fato um acréscimo decisivo e volumoso no avanço do trabalho, ele registrou a vitória com as seguintes palavras: “Este ano, realizamos uma virada decisiva”.
Foi até mesmo graças ao entusiasmo que se conseguiu resolver a questão da técnica — uma questão dura e severa, como vimos. Era preciso formar técnicos, e, entre aqueles que eram ou poderiam ser técnicos, havia um terrível percentual de traidores (tanto estrangeiros quanto nacionais). “A ralé nos venceu em campo aberto pelo número. Nós a venceremos pela ciência”, profetizava Pyotr Palchinsky, o grande sabotador. Formaram-se, às pressas, técnicos soviéticos que, dobrando o passo, logo alcançaram a altura exigida — e em número suficiente.
Essa emulação, que é como uma racionalização ardente e espontânea de cada um por si mesmo, em busca do rendimento máximo — e que, dizia Lênin, longe de ser abafada pelo socialismo, é por ele multiplicada —, Stálin a define nos seguintes termos: “O princípio da emulação socialista é a ajuda fraterna dos camaradas mais avançados aos que ficaram para trás, em benefício do progresso comum”.
Isso significa que, nesse despertar de motivações essencialmente morais, não pode haver exageros ou equívocos? Pelo contrário — Stálin mesmo foi quem mais firmemente apontou os perigos de certas medidas absolutas, absolutas demais, tomadas de forma beata e pueril para aquele momento, como a equiparação matemática de salários ou o nivelamento rígido — medidas marcadas por um certo traço grosseiro e demagógico, que mais atrapalhavam do que ajudavam o ainda jovem desenvolvimento da personalidade e da individualidade socialista, tanto individual quanto coletiva. Ainda haveria tempo de falar desses esboços caricatos do socialismo.
Mas pode-se dizer que a força impulsionadora das elites, o ímpeto das boas vontades — em massa, em brigadas, em verdadeiras legiões — foi um elemento tanto excepcional quanto permanente na obra de construção.
Outro impulso, outra engrenagem essencial: a autocrítica. Stálin foi um dos seus maiores promotores e defensores tenazes — em todas as ocasiões, mas sobretudo durante uma Conferência do Partido em 1931: “A válvula de escape da autocrítica” — O militante e o Partido, em suas células e em seu todo, têm o dever de exercer esse direito, essa arma que é a crítica de si próprio. Devem trazer à luz os erros, as falhas; ser implacáveis diante das insuficiências e fraquezas. Tornam-se cúmplices se não o fazem. É necessário que cada um seja ao mesmo tempo trabalhador e vigilante — que seja seu próprio assistente. Que cada um cresça à altura total de sua responsabilidade. Só no socialismo adquire pleno sentido aquela máxima, falsamente proclamada pelos reformistas a propósito da interpretação dos livros sagrados: “Que cada um seja seu próprio Papa!”
E então veio o dia — um dia que caiu como um raio — em que Lênin já não estava mais ali. Morreu em 21 de janeiro de 1924, aos cinquenta e quatro anos. Aquilo pareceu inacreditável a todos os que viviam ao seu redor. (A morte sempre nos obriga a crer no inacreditável.) Era inconcebível que pudessem ser abandonados por aquele que encarnava toda a Revolução Russa — aquele que a carregara em seu pensamento, a preparara, a realizara e a salvara. Lênin: um dos maiores conquistadores da história — e, de longe, o mais puro; o homem que, até hoje, mais fez pelos homens.
Quando o Partido se viu órfão de Lênin, quando se perguntava: “O que faremos sem nosso guia genial?”, a voz tranquila de Stálin se ergueu para dizer que venceríamos as dificuldades. — Disse Lazar Kaganovich.
Alguns dias depois da partida de Lênin — que causou um afluxo de adesões operárias ao Partido, como se esses operários, nota Karl Radek, “tentassem compensar, com a chegada de mil cérebros, o cérebro genial que deixara de criar” —, Stálin, numa grande cerimônia, dirigiu-se à imagem querida do mestre ausente, em nome do Partido, com um adeus que tomou a forma de juramento:
Lênin, ao partir, nos deixou o dever de manter alto e puro o nobre título de membro do Partido Comunista. Juramos, camarada Lênin, cumprir com honra a tua vontade!
Desde os primeiros passos do poder soviético, Stálin caminhava lado a lado com Lênin. E continuou a caminhar ao seu lado, mesmo depois que ele já não estava mais ali.
Isso se deu, sobretudo, porque Lênin já há muito havia se duplicado dentro do Partido. Ele próprio o forjara — de modo sólido, amplo, detalhado —, com todos os seus pontos de apoio poderosos, seu impulso irresistível, e o transformara numa máquina de produção de direção. Dizer que Lênin era insubstituível era um erro — apesar da dimensão quase sobrenatural de sua figura — justamente por causa da própria forma do Partido. Quando Lênin já não estava mais, a função fez emergir o homem. Isso é, exatamente, o contrário da transmissão dinástica e hereditária do poder — que dilacerou a história durante dois milênios.
Foi então que se manifestou e se consolidou a ascensão de Stálin, e o crescimento considerável de sua autoridade, que já era considerável. Sua figura assumia, cada vez mais, a estatura de um chefe. Mas que ninguém se engane sobre o sentido dessa autoridade crescente exercida por Stálin, e que não se ceda levianamente às conhecidas variações sobre o tema do “poder pessoal” e da “ditadura”.
Não pode haver ditadura pessoal na Internacional Comunista, nem na URSS. Não pode haver — porque o comunismo e o regime se desenvolvem nos marcos de uma doutrina extremamente precisa, da qual os maiores são apenas servos. E o que caracteriza a ditadura, o poder pessoal, é impor sua própria lei, seu próprio capricho — contra a lei.
Pode haver interpretações diversas do marxismo, sobretudo na resposta aos acontecimentos. E, sob esse ponto de vista, uma interpretação particular, até mesmo uma tendência, pode predominar num dado momento na direção do Estado ou da Internacional. Essa interpretação, essa tendência — são boas?
A resposta vem sozinha: os rumos se revelam corretos ou falhos pelo contato com as exigências da lógica e pela marcha dos fatos. Por isso, é uma ilusão grosseira imaginar que uma autoridade ou soberania individual possa se impor nesses grandes organismos por meios artificiais, como golpes de força ou intrigas. O déspota que, quando alguém o incomoda, faz sinal ao carrasco, como os Califas das mil e uma noites, ou aos assassinos, como faz Mussolini.
Por meio de maquinações, mentiras, corrupção, operações policiais ou crimes, ou mesmo enviando capangas para os corredores, soldados para as salas de deliberação, matando os inimigos na cama, à noite (e dois de uma vez) — com esses métodos, é possível tornar-se rei, imperador, Duce ou Chanceler. Mas não é possível, com esses meios, tornar-se Secretário-Geral do Partido Comunista.
Um homem como Stálin foi duramente combatido — e respondeu com igual dureza. Na verdade, foi ele quem mais vezes tomou a ofensiva. Sim, mas toda essa luta intensa, com seus sobressaltos, foi um combate claro, travado às vistas de todos, com todos os seus episódios discutidos e rediscutidos em praça pública. Um grande julgamento diante do povo — não uma conspiração de bastidores.
Na verdade, no organismo socialista, cada um ocupa normalmente o seu lugar, conforme o que entrega de firme, de verdadeiro. É uma seleção que se impõe pela própria força das coisas. Alguém lidera na medida em que compreende e realiza o marxismo em sua força irresistível. “É simplesmente, — diz Harald Krumin, — por sua superioridade como teórico e por sua superioridade como prático, que Stálin se tornou nosso dirigente”. Ele é o chefe pela mesma razão pela qual triunfa: porque está com a razão.
É verdade que ainda só há um único país onde as coisas podem se passar assim — mas julgá-las de outra forma é não entender nada do regime soviético. Certa vez, eu disse a Stálin: “Você sabe que na França o consideram um tirano que só faz o que quer — e, ainda por cima, um tirano sanguinário?” Ele se jogou para trás na cadeira, tomado por sua grande e generosa risada de operário aplicado.
Esse dirigente, que dispõe — nos planos que sobrepõe a todo o Estado — do destino de múltiplas populações, é o mesmo que se considera “obrigado a prestar contas” ao primeiro camarada que cruzar seu caminho, e se declara, a todo instante, pronto a fazê-lo.
Apenas a altitude excepcional de Trotsky — cuja atuação pública fora significativa — levou à necessidade de se colocar a questão da “direção” no 14º Congresso. Trotsky tinha tendência a se colocar acima do Comitê Central. À sua personalidade transbordante, Stálin opôs a coletividade da norma. Declarou:
Não se pode dirigir o Partido sem um colegiado. Renunciar a isso seria absurdo. Após o desaparecimento de Ilyich, é uma estupidez sequer cogitar disso. Trabalho coletivo, direção colegiada, unidade do Partido, unidade dentro dos organismos do Comitê Central, com a condição de que a minoria se subordine à maioria — é disso que precisamos hoje.
Não faz muito tempo, Stálin disse a um visitante estrangeiro — um desses tantos turistas intelectuais da URSS, em especial os interessados nas grandes personalidades soviéticas —, curioso em examinar de perto essa questão do poder pessoal no Estado Operário e Camponês (lançando um olhar enviesado na direção de Stálin):
Não, não se deve decidir individualmente. As decisões individuais são sempre, ou quase sempre, unilaterais. Em todo colegiado, em toda coletividade, há pessoas cujas opiniões devem ser consideradas. Em todo colegiado, também há quem possa expressar opiniões equivocadas. A experiência de três revoluções nos ensina que, de cem decisões individuais não submetidas à verificação e correção coletiva, noventa são parciais.
Em nosso organismo dirigente — o Comitê Central do nosso Partido —, que coordena todas as organizações soviéticas e comunistas, há cerca de 70 membros. É entre esses 70 camaradas que se encontram nossos melhores técnicos, nossos melhores especialistas, os mais experientes em todas as áreas de atividade. É nesse areópago que se concentra a sabedoria do nosso Partido. Cada um tem a possibilidade de corrigir a opinião ou proposta de outro. Cada um pode trazer à mesa sua própria experiência. Se fosse de outro modo — se as decisões fossem tomadas individualmente —, cometeríamos erros sérios em nosso trabalho. Mas, como cada um tem a possibilidade de corrigir os erros dos demais, e todos consideram essas correções, nossas decisões são tão corretas quanto possível.
E é preciso alargar ainda mais essa concepção do trabalho coletivo para compreendê-la em sua verdadeira profundidade: não devemos esquecer a energia e a constância com as quais Stálin exige a participação ativa não só dos representantes das massas, mas das massas propriamente ditas, na história soviética em movimento.
Ele denuncia, com veemência, a falta de confiança na capacidade criadora das massas — falta essa que muitos justificam com o argumento de que elas ainda não estariam suficientemente preparadas. Mas Stálin rebate: que sejam instruídas — e elas mesmas se guiarão, e guiarão os demais. Nada de aristocracia dos dirigentes em relação às massas, pois são elas as verdadeiras chamadas a destruir o velho mundo e a construir o novo. Não se trata de agir como babás ou tutores de multidões: pois, no fim das contas, são menos os nossos livros que instruem as massas, do que as massas que nos ensinam. É somente com a colaboração consciente das massas que se poderá governar corretamente.
Estar ao leme e olhar sem ver até que uma tragédia aconteça — isso não é dirigir. Os bolcheviques não compreendem assim a função de dirigir. Para dirigir, é preciso prever. Isolado, mesmo com alguns camaradas dirigentes, não se vê tudo. Só se enxerga o todo quando, ao mesmo tempo, centenas de milhares, milhões de operários percebem as fraquezas, descobrem os erros, se atiram à tarefa comum — É como limpar, sem cessar, a engrenagem, fazendo passar por ela um rio — como o Hércules dos sonhos gregos.
E, diante das massas, a persuasão e o convencimento, não a violência. Quando Zinoviev defendeu, em 1925, a teoria da ditadura do Partido, Stálin se insurgiu contra “essa estreiteza”, afirmando que deve haver harmonia entre o Partido e as massas, e que a confiança mútua jamais deve ser destruída por direitos abstratos e ilimitados que o Partido poderia arrogar a si. Antes de tudo, porque o Partido pode se enganar — e, depois, porque as massas podem apenas demorar a perceber que ele tem razão.
Stálin não é nem de longe o homem que se imagina que ele seja na “outra parte” da humanidade, do outro lado da grande barricada mundial, que é a única verdadeira fronteira no meio do emaranhado de fronteiras oficiais. É verdade que essa outra metade é feita de uma multidão de cegos de nascença guiados por cegos voluntários.
Em 1925, no 14º Congresso do Partido, Stálin lança a palavra de ordem da industrialização. Durante quatro anos, a planificação e a eletrificação vinham alargando sua maré teórica e prática, por camadas sucessivas. Agora, tratava-se de aplicar-se racionalmente à meta de “alcançar e ultrapassar os países capitalistas mais avançados, no mais breve prazo histórico possível”.
Além disso, Stálin não aceita a concepção de uma estabilização internacional. Considera essa ideia rígida demais, como se fosse uma sepultura para a revolução. O panorama real, segundo ele, é aquele que mostra dois campos em movimento, dois mundos vivos e antagônicos: o capitalismo anglo-saxão de um lado, e o socialismo soviético do outro. Num momento em que o poder capitalista parecia em plena prosperidade e não dava sinal algum de declínio, Stálin o previu — e anunciou, já em 1928, a crise geral que se aproximava.
No 15º Congresso do Partido, em 1927, a nova fase de edificação colocou em jogo, principalmente, o problema da coletivização da agricultura. Saltar do pobre cavalo do mujique para o cavalo de aço — essa imagem de cartaz popular que Lênin usava para tornar sua ideia mais vívida — representava, na verdade, uma das maiores tarefas estratégicas da história social moderna: coletivizar o campo com o auxílio da máquina, e ao mesmo tempo transformar a mentalidade do camponês pela força da razão.
Naquele contexto, a posição do Kulak — o camponês rico —, fortalecido pela NEP, era o último e mais perigoso reduto da reação capitalista no campo. Era ele o último trunfo da burguesia derrotada.
O cineasta Eisenstein traduziu esse salto histórico em imagens cinematográficas no filme “A Linha Geral”, retratando a transição do cavalo de carne ao cavalo-vapor. O camponês isolado luta em seu pequeno lote, perdido na imensa colcha de retalhos rural. Nessa ilha solitária, ele é quase um náufrago: à mercê da geada, da seca, da chuva de granizo que destrói os grãos, ou de doenças que matam seu único cavalo ou sua vaca insubstituível. O homem e a mulher se atrelam ao arado com as próprias costas. Recomeçam, ano após ano, seu desesperado jogo com o acaso.
Sentem ódio e inveja do operário. Invejam-se e odeiam-se entre vizinhos, pois, como diz Stálin, “o camponês só alcançava algum bem-estar prejudicando o vizinho”. Constroem suas casas encostadas às dos outros, para evitar que o vizinho as queime. E são presas fáceis do Kulak, que os arrasa com sua força e os explora com seus empréstimos usurários. Escravos da terra, condenados à vida, espalhados pelos campos, só lhes resta repetir de estômago vazio: “Sou proprietário!”. E o Estado nada pode por eles, porque são muitos, demais.
Mas, e se se unissem? Se fossem cem, mil, para cultivar juntos um domínio cem ou mil vezes maior que seus pedaços de terra somados? Aí sim, viriam as grandes máquinas, que fazem em instantes o que antes levava dias. Uma organização robusta e segura, que nem a geada, nem a seca, nem a peste podem destruir. Frente a ela, o Kulak é obrigado a baixar as garras. E então, o Estado soviético aparece, não só para estender a mão aos pobres, mas para empurrar os ricos, os especuladores, os usurários, para fora da cena.
Alinham-se os sacos de grãos — os grandes e os pequenos — e cada um sai ganhando, inclusive individualmente, mais do que ganhava sozinho.
Na linguagem da dialética, essa visão ganha forma clara no grande palco aberto do mundo. Stálin diz ao 15º Congresso:
Lançar as tarefas práticas diárias da nossa edificação no campo através da transformação gradual da economia camponesa dispersa numa economia coletiva, social e mecanizada, baseada numa agricultura intensiva — sendo esse desenvolvimento um meio essencial para acelerar o ritmo da economia agrícola e extirpar os elementos capitalistas das aldeias.
1927 é um marco: nesse ano, a economia da URSS alcançou o nível da economia czarista de antes da guerra. Os números de 1927 estão, em quase todos os pontos, ligeiramente acima — e em pouquíssimos, ligeiramente abaixo — dos de 1913.
Esse é um fato capital. A prova estava dada, não só da viabilidade de uma economia socialista, mas também da possibilidade de sua realização em um único país.
Na produção agrícola total, o nível anterior à guerra foi superado em um bilhão de rublos, ou 8%. Na indústria, o crescimento foi de 2 bilhões de rublos, ou 23%. As ferrovias — que em 1913 somavam 58.500 quilômetros no território da atual URSS — chegaram, em 1927, a 77.200 quilômetros. Quanto aos salários, o aumento médio real para os trabalhadores, em relação a 1913, foi de 16,9% (considerando o poder de compra).
O desenvolvimento “cultural” assumira proporções impressionantes. Citemos apenas alguns dados: já em 1925, havia 2,23 milhões de alunos a mais nas escolas primárias soviéticas do que nas escolas russas de 1913. O número de estudantes nas escolas profissionais havia dobrado. O investimento por pessoa na educação havia duplicado, e o número de institutos científicos era dez vezes maior. A renda nacional era de 22,5 bilhões de rublos. Em termos de energia mecânica, a URSS vinha logo depois dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha e França.
Quanto à socialização propriamente dita: Na indústria, 77% da produção era do setor coletivo, 14% privada (o restante, cooperativas); na agricultura, o setor socialista representava 2,7%, contra 97,3% do setor privado; no comércio, 81,9% estavam sob controle socialista, e 18,1% nas mãos privadas.
Tais eram os primeiros passos, com o imenso peso morto da agricultura sobre os ombros — resultados de uma sabedoria surpreendente e obstinada.