Stálin — Um mundo novo visto através de um homem

Henri Barbusse


A Constelação das Nacionalidades


Ora, desde os “Dias de Outubro”, Stálin foi nomeado Comissário do Povo para as Nacionalidades — função que desempenharia até 1923. O problema das nacionalidades, ou: a Homogeneidade na Heterogeneidade.

Há cerca de dez anos, em circunstâncias solenes, Stálin declarou que, se a primeira base da República dos Sovietes é a aliança entre operários e camponeses, a segunda base da República é a aliança entre as diversas nacionalidades: russos, ucranianos, bashkires, bielorrussos, georgianos, azerbaijanos, armênios, daguestaneses, tártaros, quirguizes, uzbeques, tadjiques, turcomenos.

Após a demolição dos dois antigos regimes russos — o czarista e o burguês, o primeiro com três séculos, o segundo com seis meses de existência — Stálin passou a ser reconhecido por todos, e principalmente pelos que estavam na linha de frente — Lênin e o Comitê Central — como um dos teóricos e construtores mais qualificados na questão das nacionalidades. E ainda hoje é considerado aquele que, dentro da União, mais profundamente compreende essa questão.

Trata-se de uma questão capital, uma questão estrutural do novo Estado — e, de forma mais ampla, do esqueleto geográfico do socialismo. Ela se projeta sobre os contornos da Rússia e, por extensão, sobre todo o mapa-múndi riscado de fronteiras e dividido em pontos.

Costuma-se dizer, entre nós, no Ocidente: “os russos”, quando nos referimos, de modo geral e impreciso, aos cidadãos do vasto Estado que se estende da Polônia ao Alasca, atravessando, por cerca de oito mil quilômetros, as faixas mais amplas do hemisfério norte. No entanto, essa designação — que ainda hoje persiste — não passa de uma fórmula abreviada, simplificadora, quase simbólica, de nos referirmos à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A rigor, a Rússia é apenas uma das repúblicas que integram a URSS. Não se trata, portanto, de uma simples província, mas sim de uma nação autônoma, dotada de sua própria identidade histórica, geográfica e política.

Ao lado da Rússia, coexistem — nos mais de dois bilhões de hectares que compõem o território soviético — diversas outras repúblicas, cerca de uma dúzia de grandes nações, além de uma centena de povos menores e agrupamentos étnicos diversos, todos organizados sob a forma federativa da União, após um passado de dominação e incorporação forçada ao antigo Império Russo. Esses povos, antes submetidos de maneira arbitrária ao domínio centralizado dos czares, cuja sede era o Kremlin, passaram por um processo radical de reorganização nacional sob o novo regime socialista. A Rússia, é verdade, continua sendo a república mais extensa e politicamente relevante da Federação — e é de uma cidade russa, Moscou, que parte a coordenação administrativa de um território que ocupa cerca de metade do hemisfério terrestre. Mas, se é necessário haver um centro para administrar, isso não apaga as particularidades de cada povo: o georgiano continua sendo georgiano, o ucraniano segue sendo ucraniano — eles não são “russos” em essência, nem mais russos do que eu ou você.

Sob o regime czarista, essas nações, conquistadas pela força das armas, eram mantidas, também pela força, sob a ficção de uma única “nação” — nação esta que, na prática, equivalia à dominação russa, brutalmente imposta. A russificação foi o método político-ideológico central da autocracia imperial: um processo de desnacionalização sistemática, de apagamento identitário, de imposição violenta da língua, da cultura e da mentalidade russas. As fronteiras culturais e linguísticas foram pisoteadas pelas botas do exército, enquanto as línguas nacionais eram silenciadas por decreto e violência. Como vimos ao mencionar o caso da Geórgia, o objetivo da máquina estatal — centralizada entre São Petersburgo e Moscou — era submeter os povos colonizados a uma metamorfose forçada, despojando-os de suas raízes históricas e culturais. Dali emanavam as diretrizes e os códigos destinados a corroer as especificidades étnicas até a última gota de sangue — leis elaboradas para apagar, e não reconhecer, a diversidade nacional.

Hoje, no entanto, essa realidade foi radicalmente transformada. Os povos anteriormente oprimidos encontram-se sob um regime qualitativamente distinto, fundado nos princípios do socialismo científico. E é justamente desses princípios — que, ao mesmo tempo em que edificam o Estado dos trabalhadores e camponeses, oferecem uma resposta avançada à questão nacional, tratando-a como uma dimensão essencial da luta civilizatória da humanidade — é desses princípios que Stálin se tornou o mais lúcido, consequente e legítimo intérprete. Entre os múltiplos domínios que compõem sua obra teórica e prática, a questão nacional ocupa um lugar de destaque. Não por acaso, os principais especialistas soviéticos no tema reconhecem que se formaram politicamente lendo os artigos de Stálin, publicados nos anos anteriores à guerra na revista Prosveshcheniye (Iluminação).

Aliás, a oposição instintiva ao russo, a fobia quanto à ditadura da Rússia (mesmo no plano socialista), marcou, como já vimos, a primeira fase da história da propaganda revolucionária no seio daquele continente heterogêneo que fora o Império Russo. Desde os primórdios do Partido, viu-se correntes nacionais e nacionalistas gerarem antagonismos entre os operários, e uma desconfiança generalizada se infiltrar contra o proletariado russo.

Já em 1905, os operários poloneses e lituanos — então súditos do império russo — tinham seus próprios partidos social-democratas, independentes do POSDR. Muitos operários judeus agiam da mesma forma, através do Bund Operário Judaico.

Foi apenas no 4º Congresso do POSDR, o de Estocolmo, em 1906, que se concretizou a adesão ao partido russo dos partidos lituano, polonês e do Bund. No entanto, a dureza das repressões imperiais que se seguiram à revolução de 1905 provocou, como era de se esperar, uma retomada das antigas tendências ao separatismo nacional e ao “pequeno nacionalismo”, por assim dizer, sendo que a difusão generalizada dessa resistência étnica teve, como resultado mecânico, o afastamento, mais uma vez, dos diversos proletariados nacionais em relação ao proletariado russo.

Os princípios fundamentais do programa e da tática do Partido sobre a questão nacional, formulados em 1913 através dos artigos de Lênin e Stálin, foram apresentados, sob a forma de uma Resolução, numa Conferência do Partido em agosto daquele mesmo ano. Eis os pontos centrais:

— Direito das nações à autodeterminação, até a separação da Rússia czarista.
— Para aquelas que desejassem participar de uma Federação, de uma união de governos nacionais: autonomia territorial; supressão da língua única oficial (o russo); direito às línguas locais (incluindo as das minorias); abolição de todas as formas do jugo nacional (russo).

Dessa forma, Lênin e Stálin, ao construírem esta fórmula marxista da questão nacional — tão deliberadamente e tão terrivelmente coerente consigo mesma, pois previa inclusive a desagregação territorial do velho império —, inseriam, sem escapatória possível e com clareza radical, a questão nacional no seio da questão revolucionária. Abriam amplamente — até o limite — as possibilidades de preservação da unidade de cada agrupamento étnico dentro do conjunto chamado Rússia (sendo a autonomia étnica não apenas um fator moral digno de respeito, mas um fator de vitalidade e criação), sem jamais perder de vista a unidade do todo, unidade esta que representa um interesse prático de ordem superior.

Aliás, essa unidade de conjunto era concretamente reforçada pela unidade da malha socialista — tanto política quanto sindical — única e homogênea.

A tese leninista e stalinista — que entrelaça intimamente a teoria com a prática, soldando organicamente a ideia à ação (pois o marxismo, enquanto ciência aplicada, exige inventores lançados contra a realidade que os empurra incessantemente rumo ao porvir) — opunha-se de maneira clara à tese austro-marxista conhecida sob o nome de “autonomia nacional cultural”, que encontrava defensores dentro da social-democracia. Os “oportunistas” austríacos preconizavam, em essência, blocos nacionais íntegros, aos quais o socialismo deveria conformar-se. O resultado era um separatismo socialista: no esquema desses geômetras idealistas, era o socialismo que se nacionalizava, quando o correto seria o nacionalismo ser socializado. Fragmentava-se o socialismo em fatias distintas por toda a superfície do Império de Nicolau II. Tal pretenso aperfeiçoamento era desastrado, e Lênin e Stálin insurgiram-se firmemente contra ele. Tratava-se de ultrapassar perigosamente o ponto de equilíbrio, comprometendo a justa dosagem entre a autonomia desejável e a unidade necessária, ao ponto de admitir, até mesmo no domínio específico — e novo — do socialismo, o recorte nacional e o respeito absoluto às fronteiras. Isso contrariava o poderoso senso estrutural do marxismo.

Nesse ínterim, veio o primeiro golpe de vassoura de fevereiro e o desmonte do trono. Coube a Stálin, em abril de 1917, apresentar o informe sobre a questão nacional na Conferência do Partido Bolchevique. “Não bastava proclamar a igualdade formal dos povos. Isso não teria mais efeito prático do que teve a proclamação da Igualdade feita pela Revolução Francesa.” (Dmitry Manuilsky). Era preciso ir mais longe, mais fundo. Stálin propôs a adoção da concepção defendida já sob o czarismo. Essa teoria foi aceita — não sem atritos: surgiram fortes objeções por parte de Georgy Pyatakov e de vários congressistas à cláusula que instituía o direito à independência das nações, incluindo o direito à separação — cláusula cujas possíveis consequências os amedrontavam.

Pavel Milyukov, em um estudo jurídico sobre a União Soviética, afirmava que a possibilidade de qualquer Estado-membro se retirar da União lhe retiraria a personalidade jurídica, impedindo-o, portanto, “de assumir qualquer compromisso internacional”. Isso não se confirmou. O que se confirmou, pelo contrário, foi a enorme força moral que essa ausência de coerção conferiu ao Partido Comunista perante os povos aderentes à URSS.

É preciso observar e destacar até que ponto a adoção dessa tese sobre as nacionalidades — de fato audaciosa em sua magnanimidade e honestidade socialistas — serviu aos interesses da luta revolucionária. Ela permitiu que o Partido Bolchevique aparecesse, aos olhos das massas operárias e camponesas, tal como ele realmente era: o único partido que combatia de maneira consequente a opressão nacional czarista, cuja herança Kerensky, ladeado pelos mencheviques, havia assumido.

Esse dogma da libertação étnica — esse rompimento das cadeias — somando-se à libertação social, aos lemas de paz, terra, e controle operário da produção, e unindo organicamente as aspirações nacionais ao socialismo, fez com que a preparação para a Revolução de Outubro avançasse de forma decisiva. A atitude dos bolcheviques frente à questão nacional lhes granjeou a simpatia de todos, sem provocar cisões nacionalistas, como alguns poderiam temer. E, mais uma vez, triunfou plenamente a sabedoria de visão ampla, em toda a sua ousadia. “Se Alexander Kolchak e Anton Denikin foram derrotados — escreveu Stálin — foi porque tivemos a simpatia das nações oprimidas.”

Do outro lado de outubro, após o segundo golpe de vassoura no Leste Europeu e a eliminação daquele czarismo mascarado de democracia que era o Governo Provisório, Stálin tornou-se, naturalmente, o dirigente legítimo da política do Partido no que se refere à questão nacional.

A “Declaração dos Direitos dos Povos da Rússia” foi um dos primeiros atos legislativos do governo soviético. Redigida e escrita por Stálin, ela estabelecia:

— A igualdade e a soberania de todos os povos da Rússia;
— O direito à autodeterminação, inclusive até a separação e formação de um Estado independente;
— A abolição de todos os monopólios e privilégios nacionais (russos) e religiosos (ortodoxos);
— O livre desenvolvimento das minorias nacionais e dos grupos etnográficos existentes no território do antigo império russo.

Isso significava, para as nações que aceitassem a federação: uma união geral, exclusivamente administrativa, e o máximo de florescimento nacional. Os países constituíam entre si uma sociedade de independência mútua.

Outro documento capital, publicado em 1917 e assinado por Lênin e Stálin, dirigia-se a todos os trabalhadores muçulmanos incluídos nas fronteiras do ex-império euroasiático dos czares. Tratava-se da parte mais atrasada e mais oprimida da população chamada “russa”. O governo soviético anunciava que uma de suas primeiras tarefas seria a de elevar essas populações — espalhadas aos milhões no Turquestão, na Sibéria, no Cáucaso, no Volga — ao mesmo nível das demais.

Paremos por um instante diante desse regulamento majestoso, tão humano e tão moral, para o mais intrincado e trágico dos problemas contemporâneos — com a ideia de que ele pode se aplicar tanto às regiões dentro de um país, quanto aos países dentro de um continente ou do mundo. Trágico, sim, pois a questão das relações entre as nações — a questão da paz e da guerra — foi o círculo vicioso sangrento de toda a história moderna. O sentimento nacional e a paz são, por princípio estrito, antagônicos. Quem diz “nação”, diz: expansão, apetite, devoração. Não há um só exemplo em que a devoração entre nações não tenha se concretizado na exata medida das possibilidades materiais. Além disso, a política de lucro individual e de conservação da ordem social capitalista agrava — e cultiva sistematicamente — essa catástrofe latente.

O resultado desastroso das centralizações históricas é o seguinte: um bloco (com fronteiras mais que discutíveis), composto por um punhado de exploradores e por massas de explorados, dirigido contra as massas dos países vizinhos — enquanto o bom senso clama por outra forma de agrupamento humano: o agrupamento por afinidades de classe e de interesses. É inegável que, em escala mundial, o capitalismo destruidor está hoje incrustado sobre a geometria das fronteiras nacionais, e que o principal obstáculo à libertação por meio de um acordo geral reside no culto nacionalista, o qual impregna a humanidade fragmento por fragmento, preenchendo cada peça do quebra-cabeça terrestre com ambições exclusivistas e explosivas.

Por isso, a propaganda essencial do capitalismo — e com uma urgência e força ainda mais intensas nas horas em que vivemos, nesta conjuntura de luta social, em que as crises econômicas e uma certa penetração das ideias têm provocado inquietação nas gerações atuais — consiste em cultivar e exasperar até o paroxismo o nacionalismo das massas, o isolamento agressivo das “pátrias”, o compartimentalismo feroz da mappa mundi. Pois é desse estado mental doentio, desse estado de coisas desequilibrado, que depende a própria sobrevivência do capitalismo.

E eis que os homens de Outubro — aqueles que realizaram sua revolução justamente no seio de uma justaposição extremamente variada de povos e de etnias [povos ainda mais díspares do que os que formaram os Estados Unidos da América, e entre os quais existiam contrastes infinitamente mais profundos do que entre um russo, um francês ou um alemão] —, eis que esses homens apresentam, pela primeira vez na história, uma solução racional e consequente para esse antagonismo secular, espalhado por todo o mundo: a fórmula lógica que concilia duas exigências aparentemente inconciliáveis — a afirmação da identidade de um povo e a solidariedade prática entre os povos —, instaurando o patriotismo não como negação, mas como parte integrante do socialismo.

O segredo dessa fórmula grandiosa está em saber distinguir e ordenar com exatidão essas duas aspirações fundamentais: a liberdade individual e a união recíproca. Está em conceder a cada uma delas, com clareza e sem confusão, seu campo próprio de expressão e seus meios específicos de florescimento — de modo que ambas possam se desenvolver lado a lado, em paralelo, e não uma às custas da outra.

A originalidade étnica, a personalidade moral e intelectual coletiva, a cultura nacional, a alma profunda de cada povo — tudo aquilo que se expressa nas tradições, no folclore, na criação artística e espiritual, mas também nos afetos familiares e no orgulho de pertencimento — tudo aquilo que pulsa na língua materna, essa máquina viva e maleável que alimenta o espírito e o coração dos povos — tudo isso não só é preservado, mas é cultivado, aprofundado, enriquecido. E isso não apenas no plano nacional, mas também — e aqui se vai ao mais concreto — no plano regional. À primeira vista, parece até um “exagero”, tal é o grau de respeito dedicado às minorias étnicas: não é, afinal, no século 20 que se criam alfabetos — sim, alfabetos inteiros — pelas mãos dos sábios de Moscou, para registrar e preservar as tradições espirituais milenares de pequenas minorias esquecidas nos confins do território, permitindo-lhes despertar, renascer, desenvolver-se ao seu próprio ritmo? “É demais, é delírio”, dirá a pequena sabedoria, cega e estreita. Mas a grande sabedoria — aquela que vê longe, que prevê e constrói — não partilha dessa opinião.

Quanto às tradições religiosas nacionais — que, em sua maioria, sequer têm origem local, sendo antes importações vindas de fora (pois Deus, tal como o czar ou o funcionário russo, sempre vinha de outro lugar) —, elas são simplesmente deixadas onde estão. Submetem-se ao mesmo regime moral e jurídico que se aplica a qualquer erro no seio de uma sociedade que avança, que se instrui, que se ilumina.

Essas individualidades coletivas, assim libertas e soberanas em tudo aquilo que é íntimo, profundo, nacional — se unem por certos vínculos. E quais são eles?

São vínculos administrativos, práticos, materiais — que asseguram a todo o conjunto uma vitalidade e uma força da qual cada parte se beneficia diretamente. Uma mesma direção suprema para o Exército, para as finanças, para as relações exteriores. O uso comum das riquezas e dos recursos naturais da URSS. Essa associação proporciona a cada povo, de forma concreta e imediata, ganhos reais. Porque essa estrutura permite realizações conjuntas: planos econômicos coordenados, grandes obras de interesse geral, direções racionais de produção, maior amplitude e justiça na distribuição dos frutos do trabalho — multiplicação da prosperidade de todos e de cada um, na medida exata da expansão da atividade coletiva. E, ainda mais: uma grande força militar, da qual cada Estado da União Soviética — inclusive os menores — participa diretamente.

Em outras palavras: as nações são independentes naquilo em que têm um interesse moral em sê-lo, e unidas naquilo em que têm um interesse material em sê-lo. Substituem, assim, os antigos laços brutais — e ao mesmo tempo frágeis — da opressão czarista por vínculos concretos, duradouros, enraizados na vida real. Vínculos que já não se impõem pela força, como faziam os autocratas de outrora que, com pompa e hipocrisia, se diziam “reunificadores das terras russas”.

Entre o moscovita e o tártaro, entre esses dois estrangeiros, há diferenças reais; liberta-se, cultiva-se e aperfeiçoam-se essas diferenças. Faz-se delas uma lei nacional. Mas entre esses dois homens há também semelhanças: necessidades comuns, direitos idênticos e iguais à vida, à paz — e até direitos comuns de propriedade. Faz-se disso uma lei geral.

Eis sob qual ângulo os construtores soviéticos do futuro observam o mapa dos países incrustados em suas fronteiras étnicas — sejam elas concretas ou ideais. Primeiro: todo o mínimo indispensável de laços comuns para garantir a segurança e a prosperidade da vida coletiva; em seguida: todo o máximo possível de florescimento nacional.

Diante de um mundo em que a paz entre as nações tornou-se uma fórmula literal e tragicamente absurda — pois cada uma das cerca de setenta e cinco nações contemporâneas não persegue outro fim senão o de viver às custas das demais (sejam suficientemente cínicas para admiti-lo, ou suficientemente hipócritas para encobrir tal impulso) —, diante disso, a fórmula soviética, nutrida pelo novo ideal de solidariedade social, eleva e ressignifica o antigo ideal patriótico, desarmando-o, reinserindo-o em seu verdadeiro lugar, e, com isso, satisfaz plenamente todas as aspirações. E isso sem contar o entusiasmo vibrante que ela desperta tanto no continente assim reorganizado quanto — por irradiação inevitável — no mundo todo.

O que se poderia objetar a essa concepção, mesmo que, por um instante, abandonemos o foco continental e a contemplemos de uma altura máxima — tão alta quanto nos seja possível subir mantendo ainda o olhar atento sobre a Terra e sobre o nosso tempo? (Pois além disso, o que resta é apenas o ideal achatado e exangue dos ícones, das lanternas mágicas, das páginas mortas dos grimórios). A rigor, nada profundo, nada sólido pode ser objetado. A única resistência possível vem — entre os grandes países — dos megalômanos sinistros, que vociferam: “É a minha raça que deve dominar aqui embaixo, todas as outras.” Esses, cujo nacionalismo assume a forma infecciosa do expansionismo. Ou então — entre os pequenos países — dos fanáticos enclausurados em sua própria embriaguez verbal, que fazem da palavra “autonomia” um fetiche sagrado, preferindo, acima de tudo, até mesmo acima do progresso, um isolamento absoluto, suicidamente incompatível com as exigências materiais da solidariedade universal — um isolamento que os condena a definhar lentamente, cada vez mais distantes da dignidade, até escorregarem, inevitavelmente, para a goela devoradora de algum grande monstro imperialista.

Pois, para os países frágeis ou atrasados — que, por sua maioria, compunham o antigo império russo —, esse sistema representa uma alternativa infinitamente mais vantajosa, mais inteligente, mais viva, sob qualquer ponto de vista, do que o modelo de independência absoluta: como repúblicas federadas, as nações cooperam numa obra comum e mantêm entre si uma paz científica; como nações estrangeiras, praticariam entre si não a cooperação, mas a concorrência — e a concorrência, pela própria lógica interna da economia e da política, degenera em antagonismo, em hostilidade. Com tudo o que isso acarreta: fardos, sujeições, ameaças — e, mais cedo ou mais tarde, capitulações humilhantes. As nações soviéticas são, ao mesmo tempo, pequenas e grandes. Se abandonassem a União, seriam apenas pequenas — e disso não adviria qualquer compensação.

Tudo isso não é — não é mais — simples teoria abstrata, como chegou a parecer em certo momento. A história recente do país dos Sovietes oferece a ilustração viva e brilhante dessa grande distinção coletiva entre o temporal e o espiritual, entre o que é nacional e o que é comum, com exemplos de uma evidência fulgurante: tantos países antes atrasados que, dentro da União, atravessaram em ritmo vertiginoso as etapas do progresso material, do bem-estar social — e, simultaneamente, do desenvolvimento nacional — graças à imensa força do centro, que é o conjunto. Tantas etnias que, durante séculos, foram inimigas juradas — herdeiras de antagonismos históricos — e que agora vivem em paz absoluta, lado a lado. Ter conseguido fazer com que “as fronteiras entre os Estados não tenham mais que uma importância administrativa” (como declarou Dmitry Manuilsky no 5º Congresso da Comintern) é ter, de fato, proclamado a verdadeira lei da paz.

Para quem conheceu, de perto ou de memória, as lutas intestinas do passado, é um assombro — um assombro luminoso — constatar, aqui e ali, esse convívio fraterno, lógico, palpável. Não se pode deixar de saudar tais fenômenos com emoção sincera, com um respeito profundo, se é que ainda se deseja manter um mínimo de honestidade intelectual, um real senso de objetividade.

Mas, voltando ao ponto de partida deste extraordinário panorama em transformação, é preciso reconhecer que a aplicação da nova política das nacionalidades teve um valor imenso para a pacificação do vasto território libertado dos czares do knut e dos czares da finança. Essa política tornou possível a “liquidação”, como se diz por lá, dos governos contrarrevolucionários que haviam se instalado — na Ucrânia, no Turquestão, na Transcaucásia. E é necessário repetir aqui com clareza: foi unicamente a intervenção dos exércitos alemães que permitiu à contrarrevolução reorganizar-se nas fronteiras e precipitar a queda do poder soviético na Ucrânia, na Bielorrússia, na Finlândia e nos Países Bálticos. (Apenas a Ucrânia e a Bielorrússia foram reconquistadas e reintegradas ao novo poder proletário.)

Essa mesma política — justa, profunda, consciente — no trato com os povos, com as raças, com as minorias nacionais, foi decisiva para desferir os golpes de misericórdia que acabaram com Alexander Kolchak e Anton Denikin. E, depois que o novo Estado varreu os brancos do mapa, ela permitiu mobilizar blocos inteiros da população em torno de novas repúblicas.

Ela respondia de modo tão evidente, tão direto aos interesses das coletividades, que, na medida em que se conseguia apresentá-la, explicá-la, fazer-se entender, os povos naturalmente se voltavam para os Sovietes. E, ao mesmo tempo, quanto mais os dirigentes revolucionários conheciam essas populações, falavam-lhes sua língua — no sentido literal e no sentido simbólico —, maior era o papel desempenhado pela competência, pela sensibilidade e pela firmeza do homem que se dirigia a elas. Nesse ponto, o valor individual de quem as interpelava tornava-se decisivo.

Em 1922, nasce a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas — a URSS. O nome de Stálin está indissociavelmente ligado a essa data monumental da história da humanidade. A Constituição da URSS é, em sua essência, a projeção e a institucionalização daquele grande corpo jurídico revolucionário, forjado pela minoria comunista no tempo do czarismo. Essa Constituição pode ser resumida da seguinte forma: ela estabelece — ou melhor, ela propõe — “uma união estreita, econômica e militar, acompanhada de uma das formas mais amplas de independência; uma liberdade plena de desenvolvimento para todas as culturas nacionais; a destruição sistemática de todas as sobrevivências da desigualdade nacional; e uma poderosa ajuda, organizada, dos povos mais fortes aos povos mais frágeis” (Nikolai Popov).

Lancemos agora três rápidos olhares: um para o sul, outro para o leste, e o terceiro para o oeste.

Na Transcaucásia — a mesma região onde Stálin começou, discretamente, a incendiar os corações das multidões; essa terra dos “irmãos inimigos”, onde, por séculos, todos os elementos da população se enfrentavam em ódio mútuo —, a política soviética das nacionalidades realizou aquilo que só se pode chamar de milagre político: o desaparecimento completo, não apenas dos conflitos étnicos, mas até mesmo do próprio ódio racial, que fermentava ali há séculos.

E isso, é claro, apesar dos mencheviques, dos dachnaks e dos mussavatistas — pseudo-socialistas que, por um breve e lamentável instante, tomaram o poder nos três países transcaucasianos e o utilizaram para reacender todas as guerras internas, espalhar a ruína e, como último ato de traição, chamar o estrangeiro em seu auxílio.

Hoje, na atual Geórgia, na Armênia, no Azerbaijão, lê-se com nitidez um axioma simples e incontestável: para um pequeno país, não existe fórmula mais segura de liberdade que a fórmula soviética.

Uma imagem divertida, de proporções quase lendárias, nasceu da mente de um camponês abecásio, cuja alma simples e honesta fora iluminada pela luz do socialismo: “Se um elefante, ao ver crianças brincando numa planície, deita-se sobre elas para protegê-las da tempestade, acaba sufocando-as, mesmo querendo salvá-las do temporal. Pois bem, o punhado de abecásios que somos está, de fato, protegido da tormenta pelo elefante soviético — porque Stálin segura suas patas.”

A Ucrânia. A questão ucraniana era, e continua sendo, de importância capital. A Ucrânia — por tanto tempo violentada pelo despotismo czarista, que nela inoculava à força a russificação como se fosse um vírus — tornou-se, após outubro, palco de um turbilhão de guerras civis: os operários e camponeses ucranianos enfrentando a Rada; os trabalhadores do Donbass lutando contra as tropas de Alexey Kaledin; a ocupação alemã; a queda da Diretoria supostamente democrática, e do regime de Symon Petliura, que nem sequer se dava ao trabalho de esconder sua essência reacionária e antipopular; a intervenção da Entente com sua esquadra no Mar Negro; a invasão de Anton Denikin; a resistência contra os poloneses brancos; e, por fim, a luta contra Pyotr Wrangel. Na Ucrânia, a política adotada e a tática aplicada tiveram um impacto decisivo.

Stálin — que, como se sabe, foi enviado à região em 1918 — não se limitou às questões militares: ocupou-se também dos aspectos econômicos e políticos. Em março de 1920, representou o Comitê Central na 4ª Conferência do Partido na Ucrânia; e em 1923, após o 12º Congresso do Partido, participou da 4ª Conferência Nacional. Ali, Stálin sublinhou, com absoluta clareza, “a enorme importância de uma política nacional justa na Ucrânia — tanto do ponto de vista interno quanto internacional.”

E ainda hoje, os olhos cobiçosos continuam cravados sobre a Ucrânia: a Polônia — ontem aliada da França, depois da Alemanha fascista — e a própria Alemanha hitlerista, agora por conta própria, não escondem seus apetites. Espiam, tramam, aguardam a hora. Uma espécie de sabotagem clandestina, permanente, tenta minar a estabilidade dessa república, que aderiu com lealdade plena e consciente à União Soviética.

Do outro lado da paisagem mundial, oposto à barbárie europeia, na Ásia Central, a questão da sovietização implicava — e ainda implica — os destinos do Extremo Oriente e o confronto direto com a lógica imperialista e colonizadora do capitalismo mundial. A respeito do papel do socialismo — isto é, da Comintern e do poder soviético — na questão colonial, Stálin escreveu:

A Rússia czarista era o nó das contradições imperialistas. Estava situada entre Oriente e Ocidente, conectando duas formas de organização social: a dos países capitalistas desenvolvidos e a das colônias. Era o principal sustentáculo do imperialismo ocidental, o elo entre o capital financeiro do Ocidente e as colônias do Oriente. Por isso, a revolução na Rússia tornou-se o ponto de ligação entre as revoluções proletárias dos países capitalistas e as revoluções coloniais. A experiência do Partido Comunista da União Soviética, por isso mesmo, tem um valor universal.

No entanto, nos primeiros tempos do poder soviético, havia ainda uma concepção “asiática” particular da questão nacional. Essa visão se expressava em fortes tendências “colonizadoras”: uma forma de tutela centralizada sobre as regiões distantes, marcada pela predominância do elemento russo nos processos de sovietização. Eram militantes russos, operários russos, que se deslocavam até a Ásia, dirigiam tudo, regulavam tudo — provocando, como advertia o próprio Stálin, “o risco de o Partido se afastar das massas proletárias das repúblicas nacionais”.

Essa prática contradizia um dos princípios fundamentais do marxismo-leninismo — e especialmente caro a Stálin: a participação clara, direta e consciente de todos os povos na construção comum. Por isso, ele combateu com firmeza e constância essas tendências ao exclusivismo moscovita, ainda que disfarçadas de racionalidade socialista — métodos que, na prática, não se distinguiam das velhas formas de “protetorado”, ou das práticas coloniais aplicadas aos “nativos soviéticos”. Tratava-se, enfim, de um sistema teórica e politicamente equivocado, e, na prática, desastroso.

Stálin empenhou-se em integrar, de forma direta e orgânica, essas populações ao próprio processo de edificação socialista — entregando-lhes o comando de seu desenvolvimento e o protagonismo na definição de sua identidade nacional. Dessa forma, converteu um socialismo passivo em um socialismo ativo. Isso foi realizado por meio de grandes obras econômicas que beneficiaram vastas regiões periféricas, por tanto tempo mergulhadas no anonimato siberiano.

Foi com esse espírito que se procedeu à revisão do estatuto subordinado do Turquestão — região que, desde então, conheceu um notável impulso econômico — e que se realizou uma nova e consciente delimitação nacional na Ásia Central. Desse processo nasceram várias repúblicas: Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão, Cazaquistão.

Todo esse Oriente soviético — hoje ameaçado pelo imperialismo estrangeiro — o provocador japonês, modernizado à sua maneira reacionária, armado até os dentes, farejando adiante — e todos os seus cúmplices. Esse Oriente está agora solidamente defendido por um ideal socialista justo, positivo e fecundo, que conquistou o coração das massas.

E então chegamos à questão chinesa. Esse território colossal, cujo peso geopolítico é comparável ao de toda a Europa; essa multidão humana que detém, desde tempos imemoriais, o recorde absoluto da própria multidão — também passou por sua pseudorrevolução. A princípio, essa revolução limitou-se a serrar as pernas de um trono milenar; depois da morte de Sun Yat-Sen, a China foi entregue a uma quadrilha de personagens cujo duplo propósito era impedir a libertação nacional e pilhar fortunas colossais.

Vítima ontem, e ainda hoje, do banditismo imperialista, a China desventurada é também presa do banditismo interno. O Kuomintang — partido oficial no poder — e os generais que concentram os maiores efetivos militares, e que mantêm o Kuomintang sob controle, têm um inimigo número um: o comunista. Os japoneses, assim como os grandes Estados capitalistas do Ocidente, compartilham do mesmo ódio. Perseguem os comunistas com ferocidade — e também os liberais —, e o governo chinês enterra vivos os escritores que ousam pronunciar a palavra “justiça”.

No entanto, existe um grande Partido Comunista da China (PCCh) que, em oposição direta à colcha de retalhos governamental-militar que paralisa o país e se alia às grandes potências, busca libertar essa nação colossal de seu destino miserável. Esse partido já conquistou o poder em uma vasta região, que começou a transformar conforme os princípios do socialismo — e, com um exército de um milhão de combatentes, derrotou cinco grandes ofensivas lançadas contra ele por forças oficiais e estrangeiras.

Cerca de um quarto da China, com aproximadamente cem milhões de habitantes, é hoje Vermelho — e essa nova China não aspira a menos que reconquistar a velha China em sua totalidade.

Neste momento, desenrola-se a sexta campanha contra a China Vermelha, conduzida pessoalmente por Chiang Kai-Shek — o grande sabotador dourado da China —, ladeado pelo general alemão Hans Von Seeckt, à frente de um exército de 600 mil homens, apoiado por 150 aviões e 200 canhões.

Esse exército prossegue o cerco à China soviética — ou, mais precisamente, tenta cercá-la — por meio de uma rede de fortalezas que constrói conforme avança. Essa sexta ofensiva contra a China libertada já custou à China Branca — parasitária e reacionária — a soma de um bilhão de dólares chineses e a vida de cem mil soldados. Diz-se que os brancos tomaram Xunquim, capital da China Vermelha. Mas a tática do Exército Vermelho se adaptou, logicamente, a essa nova conjuntura: sua campanha se deslocou; abandonando algumas posições anteriores, ele empreende agora, em outras regiões, uma marcha triunfante, que compensa com novas vitórias os territórios temporariamente perdidos.

A situação lhe é tão favorável, neste momento, que parece certo que não apenas conseguirá desarticular a invasão branca, mas também chegará ao contato direto com as forças japonesas — e realizará seu objetivo supremo: a Guerra de Libertação Nacional Revolucionária do povo chinês contra o imperialismo japonês.

Todos os espíritos livres do mundo devem desejar ardentemente que essa meta seja alcançada — e que, com ela, termine o martírio de um continente inteiro. Hoje, para quem vê com lucidez, já não é possível ler a fórmula “A China para os chineses” senão como: “A China Soviética.”

Stálin dedicou-se, de forma particular, ao Partido Comunista da China e aos esforços heroicos dos Sovietes chineses. Em 1926, dirigiu pessoalmente um vigoroso reajuste na linha do PCCh, no âmbito da Comissão Chinesa da Comintern. Sua intervenção — que permanece memorável nas páginas da Internacional — combateu os erros e os desvios causados pela desconfiança em relação à revolução operária e camponesa, assim como a tendência, ainda presente à época, de conceber a revolução chinesa apenas como uma revolução democrático-burguesa. No entanto, “todas as medidas que Stálin preconizou foram mais tarde plenamente justificadas pelos acontecimentos.”

Essa política das nacionalidades — esse poderoso raio de luz que parte de seu centro e se projeta para muito além dele — não tem apenas um efeito terapêutico sobre os países coloniais ou semicoloniais (onde a libertação nacional é a primeira etapa da libertação social, e onde o socialismo realiza ambas ao mesmo tempo). Ela exerce — e continuará exercendo — uma influência direta ou subterrânea sobre uma série de Estados europeus compostos por minorias sacrificadas: nações heterogêneas, metrópoles fundidas a suas colônias, arranjos artificiais paridos pela guerra de 1914.

A Iugoslávia, por exemplo, que não é uma federação, mas um ajuntamento à força de Eslovênia, Croácia, Montenegro e parte da Macedônia, todos submetidos à ditadura sérvia; ou a Tchecoslováquia, extrato dissonante do mosaico austro-húngaro; ou a Polônia, onde apenas metade da população é, de fato, polonesa; ou ainda a Romênia, à qual os cirurgiões infantis e bárbaros de Versalhes costuraram às pressas a Transilvânia húngara, a Bessarábia russa e a Dobruja; ou, remontando ainda mais atrás, a Inglaterra e seu casamento forçado com a Irlanda (assunto ainda em processo de liquidação); e a aglomeração valono-flamenga chamada Bélgica.

Em todos esses países, o leninismo aplicado às questões étnicas atua como fermento — fermento de ordem e de revolução. Nas camadas fervilhantes dessas formações nacionais, multidões de olhos estão voltados para essas novas leis de sabedoria — leis de racionalização territorial, de justiça duradoura.

Nos países coloniais e semicoloniais, — diz o camarada Stálin, — entre as minorias oprimidas, o princípio soviético — com sua proposta de dupla emancipação — inevitavelmente transformará populações inteiras, hoje a serviço do capital, em reservas vivas e profundas do socialismo.

E não há dúvida: esse raio de luz brilha para todos os povos, sem exceção. Na metade oriental da Europa, na metade setentrional da Ásia, trata-se da aplicação, em escala nacional, de uma fórmula que é, por essência, internacional. E essa fórmula está aberta — aberta e pronta. A constelação soviética já não é uma exceção no céu político; ela é uma parte integrante da constelação mundial dos povos e das raças.

No dia em que a Europa estiver completamente sovietizada, haverá uma França, uma Alemanha, uma Itália, uma Polônia — todas elas se desenvolvendo segundo suas tradições intelectuais e morais, como hoje — ou até mais do que hoje. Mas entre elas só restarão fronteiras administrativas, para sempre inofensivas.

Eis, então, diante de nossos olhos — olhos que ainda não se habituaram a ver o novo agir em escala tão grandiosa —, a solução soviética para o que parecia ser o problema insolúvel das nacionalidades. Eis a solução — não apenas em teoria, mas em prática. Eis os fundamentos reais da edificação socialista “no espaço”.

Princípios simples e justos, científicos e nobres ao mesmo tempo, que conduzem a diversos ideais de uma só vez. Se o socialismo não existisse, seria preciso inventá-lo para dar conta da realidade viva. Seria necessário inventá-lo — sólido como os números em sua estrutura, e flexível como a carne em sua prática.

Vemo-lo aqui, em plena ação — organizando a humanidade contemporânea, cujo espetáculo cotidiano é o da inveja, do ódio e da discórdia — e conduzindo, com firmeza e visão, o tatear secular, disperso e atormentado das multidões lançadas sobre a terra, rumo à construção da sociedade superior.

No caos bárbaro da nossa época de transição — nesta espécie de novo Medievo que atravessamos — inscrevem-se, com nitidez crescente, os lemas dos precursores: daqueles homens que tiveram a glória revolucionária de descobrir o mundo tal como ele é.