Havia, portanto, em algum lugar da Rússia (e até mesmo, por vezes, indo e vindo pela Europa), um grande guia, um irmão gigante de todos os revolucionários — e nós já o entrevimos. Lênin teve de combater não apenas os poderes constituídos, mas também uma boa parcela dos homens de seu próprio partido. Ele exigia — e esta foi sua grande concepção e sua grande obra, que abarcavam tudo o mais — um partido revolucionário intransigente, puro, íntegro e homogêneo, impermeável a qualquer forma de conciliação. Afirmava que esse partido só cumpriria sua missão de transformar a face do mundo sob essa condição expressa — e que esta era a questão primordial. E foi nesse sentido que ele refez o socialismo dentro do próprio socialismo.
Já vimos que Stálin, alertado pelas mensagens dos camaradas enquanto se encontrava na prisão, aderiu integralmente à posição adotada por Lênin no 2º Congresso do Partido. Nessa assembleia, Vladimir Ilyich sublinhou de forma voluntária e enérgica a divergência tática entre mencheviques e bolcheviques, cavando deliberadamente um fosso entre as duas tendências — o que, vindo de um unificador como ele, constituía uma iniciativa de gravidade extrema. Havia razões igualmente sérias para tal gesto: a unidade entre tendências demasiado distintas só pode ser aparente, fictícia; ela só existe no papel. Trata-se de uma falsa unidade. Stálin concordou. Aliás, essa era a forma do seu temperamento e de sua mentalidade, e pode-se dizer que, antes mesmo de escolher, ele já havia escolhido. Jamais houve desacordo entre Lênin e Stálin.
Por outro lado, ambos enfrentaram adversários veementes dentro do Partido — e, desde o início, Trotsky, menchevique obstinado e palavroso, que considerava que a intransigência bolchevique condenava o partido à esterilidade. Trotsky acusava Lênin de ser um criador de frações e um divisor da classe operária.
Lênin, agitador e estadista de alcance universal — e quase sobre-humano na infalibilidade com que realizou, em todas as circunstâncias e de maneira absoluta, a síntese entre teoria e prática revolucionárias — jamais se afastou do marxismo. O leninismo é, exatamente, marxismo. Trata-se de um novo capítulo do marxismo. Não é um adendo: é uma adaptação, uma especialização do marxismo para uma situação concreta. Stálin escreveu: “O leninismo é o marxismo da época do imperialismo e das revoluções proletárias” — Uma definição “laconique et lapidaire” (lacônica e lapidar), escreveu em francês Dmitry Manuilsky, que dominava perfeitamente a língua. O leninismo é a resposta precisa do marxismo à sua época. Lênin jamais modificou coisa alguma do grande credo socialista fundamental, tal como foi exposto no “Manifesto do Partido Comunista” de 1848. Lênin e Marx são duas vastas personalidades concêntricas, que se moveram dentro dos quadros estabelecidos pela mais antiga. O gênio criador de Lênin atuou na transformação da doutrina socialista em revolução (e depois em ordem revolucionária).
Toda teoria realista é flexível, pois se ajusta à vida. Mas é flexível em sua extremidade, não em sua base; do lado das circunstâncias, não do lado dos princípios (que são, de fato, uma síntese ideal da realidade). A preservação rigorosa desses princípios, sua defesa contra a menor tentativa de modificação, será uma das tarefas mais imperiosas e incansáveis de Stálin.
Que se saiba, então, com clareza: o bolchevismo, apesar de seu intenso dinamismo progressista, não impõe sempre e em toda parte, de forma automática, a solução extrema. Existem circunstâncias em que o recurso a tais meios de exacerbação mecânica pode levar ao transbordamento dos próprios objetivos, comprometendo os resultados já conquistados e, em última instância, fazendo recuar a causa revolucionária em vez de fazê-la avançar.
Conclusão: nada de submissão a um esquerdismo perpétuo e pré-fixado. “Avançar”, não é isso. A doutrina, nas mãos dos realizadores, deve moldar-se à realidade em movimento, e a realização é, portanto, um ajuste contínuo, uma invenção incessante.
Para tornar sensível, por meio de um exemplo, essa flexibilidade orgânica de articulações — essa transmissão por junta cardã — entre a teoria marxista e a prática marxista, é bastante característico constatar que Lênin, obcecado pela ideia de que os camponeses deviam ser aliados dos operários na luta social, a fim de que uma revolução proletária pudesse enraizar-se num país agrícola como a Rússia, e depois de haver, em 1894, defendido diante dos camponeses os objetivos fundamentais do socialismo no plano agrário — a saber: a expropriação e nacionalização das grandes propriedades — não vai tão longe quando se dirige a eles, seis anos mais tarde, no início do século 20. Nesse intervalo, a ideia da Revolução havia amadurecido (ela eclodiria em 1905), e a questão camponesa — sobre a qual Lênin fizera um estudo magistral e aprofundado, enquanto os social-democratas a negligenciavam (erro grave, imperdoável, falha política aos olhos de Lênin) — tornava-se urgentemente premente no que dizia respeito à cooperação das 23 milhões de famílias rurais, ou ao menos sua neutralidade, no movimento revolucionário.
Lênin redigiu, em 1900, um novo programa agrário, no qual ressaltava apenas este fato: que a classe camponesa russa, historicamente muito atrasada — e mesmo dentro do quadro nacional — era vítima, mais do que de qualquer sistema capitalista, do sistema feudal que ainda grassava nas zonas rurais, apesar da farsa sinistra da abolição da servidão (e mesmo, em certa medida, por conta das medidas de ruína e sujeição resultantes do gesto demagógico de Alexandre II).
Assim, o programa camponês leninista de 1900 se limita a exigir a abolição dessas medidas feudais que ainda pesavam sobre o campesinato — uma situação que se agravara após a reação feudal de Alexandre III —, bem como a restituição de todas as somas extorquidas dos camponeses, obrigados a comprar as terras superavaliadas de maneira escandalosa.
Aqui, portanto, Lênin, impulsionado pelas exigências imediatas da luta política e organizativa, colocava em evidência os argumentos mais imediatos, capazes de tocar diretamente — e de forma ampla — a massa camponesa, a fim de obter o máximo de aproximação e de possibilidades de colaboração entre camponeses e operários no primeiro ato do drama revolucionário: a tomada do poder. Naqueles dias, ele não visava, no plano rural, senão esse primeiro ato — e não o último, isto é, a organização da nova sociedade —, que viria posteriormente.
Assim se move o marxismo. A questão é ver suficientemente à frente, prever e agir a tempo, sem perder de vista o conjunto das condições que se apresentam — ainda que, por vezes, pareçam se atropelar; trata-se, em suma, de possuir esse senso do essencial que permite dominar o real como se este fosse um homem — e isso é próprio de todos aqueles que criam o novo, sejam cientistas, artistas ou transformadores sociais.
Este exemplo de uma restrição ampla tocando nos mais importantes objetivos revolucionários, às vésperas de um levante que corria alto risco de transformar-se numa revolução burguesa, nos dá um vislumbre do gênio de iniciativa necessário para se ser, simplesmente, um “discípulo de Marx”, como Lênin — ou um “discípulo de Lênin”, como Stálin.
O encontro de Lênin com Stálin.
Tornei-me conhecido de Lênin em 1903. É verdade, não foi um contato pessoal; mantivemo-lo por correspondência. Mas deixou em mim uma impressão indelével — a qual jamais me abandonou em toda a minha militância no Partido. Eu estava exilado na Sibéria naquela época. Meu conhecimento da atividade revolucionária de Lênin, desde o final dos anos 1890 e, especialmente após 1901, com o surgimento do Iskra me havia convencido de que em Lênin tínhamos um homem de calibre extraordinário. Não o considerava apenas como um simples fundador do Partido, mas sim como seu verdadeiro e mais profundo artífice, pois somente ele compreendia a essência íntima e as necessidades urgentes de nossa organização revolucionária. Quando o comparava com os outros dirigentes de nosso Partido — Plekhánov, Martov, Axelrod e os demais — sempre me parecia que ele se erguia com cabeça e ombros acima de todos.
Comparado com eles, Lênin não era apenas um líder, mas um dirigente de alta estatura histórica, uma águia montanhesa, destemida na luta, que guiava com audácia o Partido por entre trilhas inexploradas do movimento revolucionário russo.
Essa impressão me impactou tão profundamente que senti necessidade de escrevê-la a um camarada próximo, então exilado político no estrangeiro, pedindo-lhe que me enviasse sua opinião. Algum tempo depois — já me encontrando no exílio siberiano, no final de 1903 — recebi uma carta entusiasmada de meu amigo e, anexa a ela, uma carta simples, porém profundamente expressiva, de Lênin, ao qual, aparentemente, meu camarada havia mostrado minha correspondência.
A carta de Lênin era relativamente breve, mas trazia uma crítica audaz e lúcida à prática do nosso Partido, bem como uma exposição clara e notavelmente concisa de todo o plano de ação do Partido para o futuro próximo.
Essa carta, que Stálin julgou necessário queimar, “por hábito de conspirador”, e cujo desaparecimento jamais se perdoou, essa pequena carta completou a iluminação do militante de vinte e quatro anos — tanto sobre o dever revolucionário quanto sobre o homem que o encarnava com maior nitidez, autoridade e irradiação. É a partir dessa data que Stálin constata que conhece verdadeiramente Lênin. Mas:
Encontrei-me pela primeira vez com Lênin em dezembro de 1905, na Conferência Bolchevique de Tammerfors (Finlândia). Eu aguardava o encontro com a águia das montanhas de nosso Partido, o grande homem, grande não só politicamente, mas, se permite, também fisicamente, pois em minha imaginação eu figurava Lênin como um gigante de postura imponente e majestosa. Qual não foi meu desapontamento, quando vi um homem perfeitamente comum, de estatura abaixo da mediana e que não se diferençava em nada, absolutamente em nada, dos demais mortais.
É geralmente aceito que um “grande homem” deva chegar tarde às reuniões, enquanto os assistentes esperam sua aparição com o coração batendo; que, quando o grande homem vai surgir, corra o sussurro de aviso: “Silêncio! Silêncio! Ele está vindo!” Parecia-me que esse cerimonial não era supérfluo, porque cria um ambiente de expectação, inspira respeito. Qual não foi meu desapontamento, quando soube que Lênin chegara à reunião antes dos delegados e que, afastado a um canto, mantinha, sem qualquer afetação, a mais banal das conversações com os mais simples dos delegados à Conferência. Não posso deixar de dizer-lhes que, na ocasião, aquilo me pareceu violar um tanto certas regras imprescindíveis.
Foi somente mais tarde que compreendi que esta simplicidade e esta modéstia, este desejo de passar despercebido ou pelo menos de não chamar a atenção, de não pôr em relevo sua alta posição, eram traços que constituíam um dos mais fortes méritos de Lênin como o novo líder das massas, das massas simples e comuns das “camadas inferiores” mais profundas da humanidade.
Foi assim que, no Norte, nos antípodas russos da Geórgia, o jovem revolucionário, cujo campo de ação já ultrapassava o Cáucaso, entrou em contato pela primeira vez com o homem que uma de suas discípulas, Lebedeva, definiu, retratou, em uma só frase: “Ele era simples, acessível a todos — e tão grande.”
Tudo isso acontecia às vésperas da revolução russa de 1905. Os fracassos da Guerra Russo-Japonesa precipitaram seu surgimento, de forma algo acidental. Foi a primeira Revolução — aquela que falhou, que foi esmagada, mas não foi inútil: o Prólogo, que, em meio a uma repressão atroz, deixou grandes lições.
Stálin explicou mais tarde que o desfecho da revolução de 1905 teria, sem dúvida, sido outro, se os mencheviques russos — que dispunham de uma organização sólida entre a classe operária, e que poderiam, naquela época, tomar tudo nas mãos — não tivessem entregado a condução daquela revolução à burguesia, em nome daquilo que Lênin e os bolcheviques definiram como a “receita” menchevique: uma teoria sumária segundo a qual, por ser a revolução russa de caráter burguês, cabia ao proletariado apenas o papel de “oposição de esquerda” na equação geral.
Todas essas reservas e casuísmos, apresentados quando era necessário lançar-se de corpo inteiro na aventura e descongelar a teoria com palavras de ordem capazes de incendiar os operários — tudo isso fez fracassar o grande levante de 1905 (ou, ao menos, foi uma das razões de seu fracasso) — embora os “marxistas legais” se esforçassem, literariamente, para tentar fazer a revolução burguesa ser realizada pelos operários.
Um poeta latino disse que quem começa uma coisa já fez metade dela. Pode-se afirmar, em contraponto — e com não menos verdade —, que quem faz uma coisa apenas pela metade, na realidade, não a faz. A sucessão das grandes insurreições populares ao longo dos tempos mostra que, enquanto o proletariado não assume tudo em suas mãos — e onde não assume tudo —, ele não assume nada.
Seguiu-se um terrível turbilhão de represálias. A perseguição espalhou-se por toda parte, alargando-se incessantemente. Basta indicar que, de 1905 a 1909, o número anual de presos políticos passou, na Rússia, de 85 mil para 200 mil. A repressão policial propriamente dita foi agravada pelas devastações sangrentas das Centúrias Negras, oriundas da União do Povo Russo (ultra-czaristas), compostas por um bando de fanáticos brancos, provocadores e criminosos.
Ao mesmo tempo em que se dava a repressão meticulosa e selvagem da revolução de 1905, instituía-se, sobre a Rússia reacionária — do alto, desde cima — uma paródia de democracia. Um simulacro de Constituição, uma aparência de Parlamento, um fantasma de liberalismo. A história contemporânea tem oferecido, de maneira recorrente, o espetáculo dessas enormes caricaturas públicas (e ainda o oferece).
O czar, inconsciente e apatetado, escravo da czarina (essa senhora que odiava a liberdade alheia e queria purificar completamente a santa Rússia), — joguete dos papas e dos feiticeiros, era feroz nos seus raros momentos de lucidez: “Que não se absolva ninguém” e “sobretudo, que não venham me pedir clemência!”, declarava, após 1905, o carcereiro, enforcador e fuzilador coroado dos russos — que foi, além disso, o responsável direto pela guerra contra o Japão, devido a um negócio industrial na Manchúria onde tinha interesses financeiros.
Ao redor e abaixo do czar, o Estado: ministros cujo principal objetivo era mergulhar os trabalhadores na ignorância mais abjeta, espancar o povo, estrangular as aspirações proletárias; manter o camponês numa situação mais miserável do que antes da abolição da servidão; proteger os atentados à dignidade cometidos por taumaturgos, conselheiros íntimos das grandes damas do Kremlin; permitir, sem incômodo, as prevaricações astronômicas dos funcionários de toda espécie, os crimes dos assassinos embriagados do czarismo, que formavam as Centúrias Negras, os encenadores de pogroms — uma indústria mais florescente que todas as demais.
Havia partidos constitucionais vagos e extremamente diluídos, cuja “democracia” programática os imunizava contra o socialismo, e que pareciam rosados apenas aos olhos dos brancos — como os octobristas e os constitucionalistas-democratas. Esperavam, com paciência e respeito, que uma revolução burguesa lhes entregasse os comandos do Estado. Registremos apenas, a propósito do Partido Constitucional Democrata — que não teve tempo de desempenhar qualquer papel, pois foi sumariamente esmagado entre a reação e a Revolução de Outubro —, que seus líderes, inimigos declarados dos bolcheviques, haviam declarado muito antes da guerra que, caso uma Constituição ao estilo ocidental substituísse o poder czarista, esse novo governo não reconheceria as dívidas contraídas pelo governo imperial a partir de 1905, “empréstimos contraídos pelo czar contra o seu povo”. Em 1906, enquanto o governo russo se encontrava em plena ação terrorista, seus cofres estavam vazios. Eles foram reabastecidos pela França. Esse gesto do ministro Rouvier (por sinal, um ladrão) permitiu que a repressão retomasse seus atentados de forma selvagem — os elementos russos mais moderados o confirmaram.
Após o levante e a frustração de 1905, a organização dos socialistas bolcheviques seguiu imperturbável. Somente eles não perderam a cabeça, porque não perderam a fé. “Tinham em conta o impulso futuro das massas.”
Em Estocolmo, em 1906, realiza-se o congresso em que Stálin — sob o nome de Ivanovitch — é delegado pelos elementos bolcheviques da organização de Tiflis. Nesse congresso, Lênin partiu para o combate contra os mencheviques. Estavam presentes toda uma brilhante falange: Plekhanov, Axelrod, Martov. Lênin desmontou, ponto por ponto, com sua clareza implacável, agressiva e avassaladora, toda a argumentação deles.
Lênin não era, de modo algum, aquilo que se costuma chamar de orador. Era um homem que falava. Salvo em certos momentos (especialmente nos dias de outubro), em que era preciso provocar surtos imediatos nas massas, em que se exigia, a todo custo, agitar-se diante da maré humana, Lênin falava quase sem gesticular. Nos congressos, chegou-se a apontar sua sobriedade e até sua “secura”. Não buscava senão persuadir aqueles que o escutavam, transmitir sua convicção de dentro para fora, pelo peso do conteúdo, não pela dança do recipiente. Pode-se dizer, portanto, que as atitudes oratórias que a imagem lhe atribui não são totalmente fiéis: ele nunca se agitou tanto quanto em suas estátuas.
A maneira simples e densa de discursar, que Lênin utilizava, era também a que Stálin adotara instintivamente — e da qual jamais se afastaria.
Ele também não pretendia fazer da tribuna um pedestal, nem aspirava a ser “um grande falastrão” — ao estilo de Mussolini ou Hitler —, tampouco imitava o grande teatro de advogados como Alexandrov, que sabia tão bem agir sobre a retina, o tímpano e a glândula lacrimal do ouvinte, ou os balidos contagiosos de Gandhi. Era, e permaneceu, ainda mais sóbrio em palavras do que Lênin. Serafima Gopner, que desempenhou um papel destacado na Revolução, relata quão impressionada ficou com o discurso que Stálin pronunciou em abril de 1917, sobre a atividade do Soviete de Petrogrado (do qual ele era o único membro bolchevique). Foi “um discurso pequeníssimo, mas onde estava tudo”; toda a situação estava ali exposta de forma integral — e era impossível retirar ou alterar uma só palavra. Do mesmo modo, Orakhelashvili observou que “num discurso de Stálin, não há uma gota de água”.
Mais ainda do que falar “entre os dentes”, com voz algo abafada, sem mímicas e apenas para expressar o que pensa, Stálin, como Lênin, comove, convence e transforma pela substância de seus discursos, que conservam, mesmo na leitura, toda sua amplitude e lógica arquitetônica. O discurso repleto de perspectivas e jorros de luz que Stálin proferiu, no final de 1933, sobre o balanço do Plano Quinquenal, é uma obra-prima literária.
Contudo, nesse Congresso de Estocolmo, os mencheviques obtiveram a maioria. A maior parte dos congressistas era menos ouvinte do que adversário deliberado. Os bolcheviques sofreram uma derrota. E então?
Pela primeira vez, vi Lênin no papel de derrotado. Mas ele não estava abatido. Pensava na vitória futura. Os bolcheviques estavam um tanto desolados. Lênin os sacudiu: “Nada de lamúrias, camaradas. Venceremos com certeza, pois temos razão”. O desprezo pelos intelectuais chorosos, a fé em nossas forças, a fé na vitória — era isso que Lênin nos insuflava naquele momento. Sentia-se que a derrota dos bolcheviques era apenas passageira, que eles triunfariam.
No ano seguinte, Stálin vai a Berlim, onde permanece algum tempo para conversar com Lênin. Em 1907, realiza-se também um novo Congresso, em Londres. Desta vez, os bolcheviques triunfaram. E então:
Pela primeira vez, vi Lênin no papel de vencedor. Mas ele não se parecia com esses chefes que se embriagam com a vitória. A vitória apenas o tornava mais vigilante e circunspecto. Dizia-nos, a nós, delegados reunidos ao seu redor: “Primeiro: não cantar vitória. Segundo: aniquilar o inimigo, pois ele está apenas vencido, não exterminado”. E zombava duramente dos delegados que afirmavam levianamente que “agora, está tudo resolvido com os mencheviques”.
Não se deve vangloriar enquanto não se chegou ao fim — e, quando se chega, a glória é inútil.
“Não se lamentar pela derrota”, “Não cantar vitória” — essas palavras poderosas, pronunciadas por Lênin, e amplamente retomadas por Stálin (que as utilizou em circunstâncias decisivas), aplicam-se ao vasto desenvolvimento do socialismo contemporâneo, à luta final por uma civilização inteiramente nova. Mas não evocam, acaso, a severa serenidade dos mais graves moralistas da Antiguidade, os cumes elevados — ainda que sem base material — do estoicismo grego e romano? E não possuem elas o timbre das sentenças que caíam dos lábios austeros e exigentes de um Epicteto ou de um Marco Aurélio?
No fim de 1907, assim que regressa do Congresso de Londres, Stálin instala-se em Baku. Passa a dirigir Bakinski Proletari (O Proletário de Baku) — ele já havia dirigido o jornal Dro (O Tempo) — em Tiflis, ao longo de 1907. Em dois meses, faz com que a maioria da organização social-democrata de Baku passe para as fileiras bolcheviques.
E ainda nesse mesmo ano ele trava, ao lado de Lênin, uma violenta campanha contra os otzovistas, ultraesquerdistas que defendiam a retirada dos deputados revolucionários da Duma. Um erro! diziam Lênin e Stálin: por mais podre que fosse, desde o início, aquela jovem instituição, os bons elementos deviam permanecer nela o máximo possível, a fim de garantir novos contatos e novas aberturas para a propaganda. (O que demonstra que a intransigência bolchevique sabia muito bem não ultrapassar os limites do bom senso prático — e que, em todos os casos, admitia o uso dos meios legais).
Stálin viaja novamente ao exterior para encontrar-se com Lênin. Depois, é preso mais uma vez pela Okhrana — e, mais uma vez, consegue fugir.
Em seguida, ele conduz — também ao lado de Lênin — uma campanha contra os partidários da “edificação da divindade”, cujo iniciador foi Alexander Bogdanov, e cujos ilustres defensores eram Anatoly Lunacharsky e Máxim Gorky. Estes desejavam transformar o socialismo numa espécie de religião, para torná-lo mais acessível às massas populares. Ora, isso não é sério nem sólido — essa base mística e artificial que se pretende dar a evidências que se impõem tão claramente por meio do bom senso e do interesse pessoal gritante!
E nos anos seguintes, é a mesma coisa. Penosamente, heroicamente, mas com segurança, a grande causa dos retificadores tenazes conquista novos adeptos, dentro do Partido. Em 1910, Stálin é preso.
De 1909 a 1911, a conjuntura foi dura para a revolução dispersa no império: um período de estagnação, de desânimo, quase de pânico. O Partido Social-Democrata Russo (POSDR), esfacelado pelos golpes incessantes da contrarrevolução, perdia a fé. Os intelectuais desertavam, e muitos operários também. Cada vez mais, cogitava-se — não apenas entre os mencheviques, mas até mesmo entre alguns bolcheviques — de meios diversos para tentar se reencaixar na legalidade. A tendência ao “liquidacionismo” da atividade clandestina chegava ao ponto de considerar a criação de um partido liberal legal, quase oficial. Medidas como essas levavam ao suicídio político: era “para viver, perder as razões de viver” — se nos é permitido evocar o faustoso idioma platônico.
Lênin resistiu a isso com império e veemência — e Stálin ao seu lado. Durante esse período epidêmico, tiveram que lutar contra todos. Mas, ao final, Lênin triunfou “porque tinha razão”.
Em 1911, pondo fim, por seus próprios meios, ao seu encarceramento, Stálin estabelece-se em São Petersburgo. É recapturado; exilado em Vologda, interrompe o exílio com nova fuga rumo à luta. Retorna a São Petersburgo e ali desenvolve uma intensa atividade, voltando-se continuamente, em plena clandestinidade ou semiclandestinidade, contra uns e outros: os mencheviques (em primeiro lugar, Trotsky) e os anarcossindicalistas.
A Conferência de Praga realiza-se no início de 1912, sem a presença de Stálin. Essa conferência marca uma data importante na história do movimento socialista: a cisão entre bolcheviques e mencheviques foi ali definitivamente sancionada, sob a influência de Lênin, que, a partir de então, formou, de maneira independente do Partido Social-Democrata, um Partido Bolchevique homogêneo. Ainda que ausente, Stálin foi nomeado membro do Comitê Central do novo partido.
Vê-se Stálin em toda parte. Inspeciona organizações do Partido em várias regiões da Rússia, dirige o jornal Zvezda (A Estrela), é um dos fundadores do Pravda (A Verdade). É novamente preso e enviado ao exílio — e, mais uma vez, retorna, à barba dos guardas e gendarmes. No outono, vai ao exterior para se encontrar com Lênin. É visto e ouvido na Conferência Bolchevique de Cracóvia (final de 1912).
É justamente nesse período que a diplomacia russa conspirava com a diplomacia francesa no terreno da política externa, trocando com ela aquelas notas oficiais que, publicadas mais tarde, colocariam — sob a luz crua da história — a maior parte da responsabilidade pela guerra mundial na aliança franco-russa (Constantinopla e os estreitos, Alsácia-Lorena — revanche e minério de ferro —, Isvolski, Poincaré). E foi esse canalha de Isvolski (que conhecia os homens tão bem quanto Jaurès) quem fazia mudar, de um dia para outro, a opinião de jornais e jornalistas — notadamente do Le Temps e de M. Tardieu — por meios de persuasão quase mágicos.
É também nessa época que surge um novo “ímpeto revolucionário”, que anunciava claramente, aos olhos de muitos, o vasto levante no qual o ignóbil regime czarista deveria ruir. A infame chacina do Lena, na Sibéria — em que tropas abriram fogo contra uma delegação de grevistas e contra a multidão, matando quinhentas pessoas (1912) — causou enorme comoção; um murmúrio precursor fez-se ouvir.
Os verdadeiros revolucionários, em seus postos de combate, tentavam um esforço supremo pela homogeneidade de um partido forte e autenticamente revolucionário, que trouxesse à humanidade os benefícios de uma transformação política e social profunda, em substituição a um menchevismo derrotista, que se autoamputava irreversivelmente. Tratava-se de manter a linha justa em meio a um entrelaçado de curvas e ziguezagues — entre os “liquidacionistas”, que queriam convencer o Partido a abrir mão dos métodos revolucionários e afundar-se na legalidade; os que, ultrapassando os limites pelo lado oposto, caíam em convulsões sempre que se mencionava a possibilidade de explorar algum aspecto da legalidade; e aqueles que, “cobertos com a toga dos conciliadores”, pregavam a união a qualquer custo e queriam fazer marchar juntas — contra todo o bom senso — tendências que se excluíam categoricamente entre si (essa era a posição de Trotsky).
Lênin e Stálin propunham-se a utilizar, simultaneamente e ao máximo, tanto todos os recursos da ilegalidade quanto todos os da legalidade. Rejeitavam uma unidade de fachada, um engodo com efeito retardado, mas lutavam pela verdadeira unidade — pela integridade combativa do Partido.
É demasiado fácil, hoje, ao sobrevoarmos a história passada como se fosse um mapa, afirmar que eles estavam certos. Mas, repita-se: era necessário um formidável gênio do realismo por parte daqueles que estavam imersos e arrastados pelos redemoinhos de uma época, para dominá-la como a posteridade o faria, enxergar todas as suas saídas e constatar o futuro. Aqui, a clarividência é criação.
Lênin atribui altíssimo valor aos escritos de Stálin. Eis como se exprime em 1911: “Os artigos de Koba merecem a maior atenção. É difícil imaginar uma refutação melhor das opiniões e esperanças dos pacificadores e conciliadores.” Lênin acrescenta: “Trotsky e seus semelhantes são piores do que todos os liquidacionistas que ao menos mostram abertamente o que pensam — mas os senhores Trotsky enganam os operários, ocultam o mal e tornam impossível sua identificação e cura. Todos aqueles que apoiam o grupo de Trotsky sustentam uma política de mentira e de engano para com os operários, uma política que consiste em camuflar o liquidacionismo”.
Há muito tempo — ou melhor, desde sempre — Stálin não tinha mais vida privada. Sem documentos, disfarçado, era forçado a mudar de domicílio todos os dias. Mas nada o detinha no trabalho de organização do Partido Bolchevique na clandestinidade. “Era preciso criar um Estado-Maior, formar um Comitê Central de direção, capaz de ser o organizador e o guia das massas no impulso revolucionário nascente” (C. Ghveitzer).
Outra grande preocupação de Stálin era a política socialista das nacionalidades — questão capital, da qual dependia, em larga medida, o destino da construção soviética. Ele conseguiu redigir, já em 1912, uma série de estudos decisivos sobre esse tema, reunidos mais tarde no volume “O Marxismo e a Questão Nacional” — do qual ainda se falará.
O jornal Pravda (A Verdade) é suprimido e fechado. Stálin e Molotov fazem-na reaparecer sob um pseudônimo audacioso: Za Právdu (Pela Verdade). Suprimem-na novamente; ela reaparece sob o título Put' Právdi (O Caminho da Verdade).
Depois disso, ele é novamente preso. Foi em julho de 1913 que trouxeram para a região siberiana de Turukhansk, o “terrível Vissarionovitch”, que já havia escapado dos vigilantes de Vologda, de Narym e de outros lugares, e que possuía o dom de escapar das mãos dos gendarmes. Dessa vez, foi cercado com rigor extremo. Levaram-no a 20 quilômetros do Círculo Polar Ártico, para uma aldeia chamada Kureika: ali, havia duas ou três casas — e mais ou menos o mesmo número de meses sem neve. “Ele teve que instalar-se como um Robinson Crusoé, — relata Choumiatski, — na tundra gelada”. Construiu seus próprios instrumentos de pesca e de caça, desde redes e armadilhas até arpões e machados para quebrar gelo. Passava o dia pescando e caçando, cortando lenha para aquecer-se, cozinhando sua comida. O dia inteiro e, no entanto, sobre a mesa rústica da isbá, sob o olhar inquisidor e idiota do guarda encarregado de vigiar a imobilidade do proscrito, acumulavam-se páginas e mais páginas manuscritas, tratando de todos os grandes problemas.
Permaneceu na Sibéria até 1917. No horizonte, delineavam-se, em sombra, a guerra mundial — e, em luz, a segunda Revolução Russa.
E assim se encerra a primeira etapa da trajetória que estamos acompanhando. Se consultarmos bons conhecedores, se perguntarmos, por exemplo, a um homem como Lazar Kaganovitch, como ele resumiria, numa única frase, essa fase da vida de Stálin, ele responderia — com um entusiasmo contido na voz:
É o típico velho bolchevique! — e acrescentaria — O traço mais marcante e mais característico de toda a atividade política de Stálin é que ele jamais se afastou de Lênin, nunca vacilou nem à direita, nem à esquerda.
Bela Kun — que, após ter dirigido e feito triunfar a revolução bolchevique húngara, teve que ceder diante das circunstâncias, representadas principalmente pela traição da social-democracia húngara e pelas forças armadas do imperialismo europeu —, Bela Kun, que trabalhou intimamente com Stálin antes e depois da morte de Lênin, exprime-se nos mesmos termos — assim como Piatnitski, Manuilsky, Knorine e Ordzhonikidze:
Durante aqueles anos de reação, quando a organização bolchevique na Rússia estava sendo criada e consolidada, Stálin era o fiel discípulo de Lênin, enquanto Trotsky travava uma luta furiosa contra Lênin e seu Partido.
Foi então que Trotsky “caluniava o Partido, chamava Lênin de homem das cisões, acusava os bolcheviques de recorrerem a métodos ilegais e perguntava, num tom ameaçador, com que direito seu jornal se chamava Pravda (A Verdade)”. (Yaroslavsky).
O massacre universal foi decidido pelos senhores da hora. E o povo russo marchou pelo império marítimo britânico, e o povo inglês pelo Comitê das Forjas, e o povo francês por Constantinopla — e todos marcharam pelos seus próprios inimigos.
O acontecimento de agosto de 1914 deu razão aos bolcheviques, no sentido de que a social-democracia internacional optou, em sua maioria, pela defesa nacional e pela união sagrada do proletariado com os capitalistas e imperialistas nacionais. Era a aliança entre vítimas e algozes para a salvação dos algozes (Liebknecht dizia: entre lobos e cordeiros!). Não se pode ser, ao mesmo tempo, internacionalista e nacionalista sem ser desonesto — e essa capitulação marcou o declínio moral da 2ª Internacional.
Lênin e Zinoviev estavam na Galícia quando a guerra estourou. Retiraram-se para a Suíça, onde voltaram a editar o Sotzial-Demokrat (O Social-Democrata), órgão do Partido Bolchevique Russo, e redigiram uma série de artigos, posteriormente reunidos sob o título “Contra a Corrente”. Essa minoria bolchevique, à deriva em uma jangada, açoitada pelo chauvinismo desenfreado da Europa, apontou, contraventos e marés, onde estavam a lógica justa e a verdadeira moralidade. Os que se erguem contra a corrente mundial são apenas um punhado de consciências — o que não é muito para toda a humanidade. Mas esses depositários de uma doutrina firme acabarão por desgastar e destruir o destino adverso, porque “têm razão”. A certa altura, a história intervirá — e então veremos o que ela dirá dos que quiseram aquilo, e dos que não quiseram.
Já em seu primeiro número, de 1º de novembro de 1914, o Sotzial-Demokrat ataca no mesmo fôlego Renaudel, Sudekum, Haase, Kautsky e Plekhanov. A importância capital da intransigência bolchevique é ali proclamada. Sectarismo? Excesso de fanatismo? Ao contrário: é o bom senso em sua forma grandiosa. É um fato que Plekhanov, Kautsky e Jules Guesde abandonaram a causa do proletariado e escorregaram para o campo burguês. O nacionalismo é a avenida por onde passam todas as traições sociais. É um fato que essa irreductibilidade imperiosa, sustentada por apóstolos-soldados com a própria vida, salvou a revolução russa. Tudo o demonstra. Sem eles, ela teria sido perdida — como foi a revolução alemã e a austríaca. E é um fato que a única forma de impedir a guerra neste mundo é reverter toda a sociedade — e somente assim. Não existe lei moral mais nobre do que aquela que impõe a obrigação de querer os meios quando se quer o fim.
Lênin, esse moralista supremo, ergue-se contra os moralistas da “ideia destrutiva de pátria” — quando esta ideia consiste em divinizar pura e simplesmente a geografia. Não é a mesma coisa quando a pátria se humaniza, por meio de todo um povo, através de um alto progresso. Ele diz também:
A 2ª Internacional está morta, vencida pelo oportunismo. Abaixo o oportunismo, e viva a 3ª Internacional, liberta não apenas dos desertores, mas também dos oportunistas!
Isso está escrito em 1º de novembro de 1914. Quatro anos e meio mais tarde, a 3ª Internacional sairia plenamente armada do cérebro de Lênin.
Enquanto, desde 1914, os bolcheviques lutam em Petrogrado contra a reação governamental, contra os mencheviques e outros inimigos, e enquanto os membros da fração bolchevique da Duma são deportados para a Sibéria, Lênin resiste na Europa. Em 1915, na Conferência de Zimmerwald, propõe um manifesto sobre o caráter imperialista da guerra e à bancarrota socialista de 1914. Em 1916, em Kienthal, ele reforça essa posição em meio à confusão da assembleia.
Nessas conjunturas memoráveis, muitos socialistas de pele fina trataram de conquistar uma virgindade burguesa. Outros tiveram o heroísmo de conservar a serenidade durante a avalanche, e de continuar alinhando seus atos às suas ideias. A diferença entre retidão moral e conhecimento positivo é mínima — ou nula. A palavra “consciência” expressa ambas. A consciência é, dentro de nós, a imagem de todos.
Em fevereiro de 1917, a revolução burguesa russa. Abdicação do czar. Governo do príncipe Alexander Kerensky.
Lênin retorna da Suíça pela Alemanha. A França havia-lhe negado a passagem por outra via. (É bem conhecida a história do “vagão blindado” e tudo o que se lhe acrescentou em termos de lendas mentirosas.) Ele chega a Petrogrado em 3 de abril de 1917. Pelo lado oposto do globo, Stálin também retorna. É nomeado membro do Comitê Central, após a Conferência Pan-Russa dos Bolcheviques, onde os dois antigos campos se redesenham e onde Stálin defende a linha de Lênin contra o oportunismo de Kamenev e outros. Forma-se o Birô Político do Comitê Central do Partido. Stálin é eleito.
A situação era grave para os homens da linha justa, para os verdadeiros e puros transformadores do futuro, precisamente porque a desagregação da máquina czarista havia dado uma retumbante satisfação teatral às aspirações revolucionárias.
A revolução pararia por ali? Elevada ao Kremlin pelas massas miseráveis e enfurecidas, a corja dos tímidos e covardes teria a possibilidade de traí-la? Havia o risco de que assim ocorresse — como de fato ocorrera, até então, sem exceção (salvo pela efêmera Comuna de Paris, em 1871), em todos os lugares onde, nos treze bilhões de hectares de terras emersas do globo, alguma vez se aventurara uma insurreição popular.
Muitos não desejavam empurrar os acontecimentos para além da queda do entulho histórico encimado por uma coroa fechada; queriam, no máximo, substituir a ditadura hereditária da progênie de “Pedro, o Grande”, por um governo burguês pretensamente democrático, que se revezaria entre dois ou três partidos igualmente “democráticos” no discurso, e antidemocráticos nos atos — um Presidente do Conselho no lugar de um imperador, uma poltrona no lugar de um trono. Nada mais que raspagem de brasão, maquiagem de bandeiras e selos postais e, nas primeiras páginas dos almanaques oficiais, a simples troca do pessoal encarregado de reprimir o povo. E a ditadura do proletariado, e, por consequência, a justiça social, afundando abruptamente nessa mistura republicana. Enquanto o sistema da guerra endêmica e da exploração do homem pelo homem permanecia intacto e santificado. Novo embuste, novo crime político diante dos povos. Stálin foi extremamente claro ao enunciar:
A tarefa essencial da revolução burguesa resume-se em tomar o poder e conformá-lo à economia burguesa existente, ao passo que a tarefa essencial da revolução proletária consiste, após a tomada do poder, em edificar uma nova economia socialista.
Em outras palavras: a revolução burguesa é conservadora. Meia revolução é uma contrarrevolução. E é por isso que a situação era, na realidade, tão dramática para aqueles homens que haviam preparado “a grande noite” com sua vida e seu sangue — e cujo dever se tornava, a partir de então, destruir a nocividade da revolução burguesa por meio de uma segunda revolução.
Lênin — “esse homem que as dificuldades transformavam num feixe de energias” (Stálin) — assumiu essa tarefa de alta razão e de elevada sabedoria organizadora. Elaborou o que se poderia chamar de dualismo do poder: um Estado socialista dentro do Estado. Ao lado do governo oficial, um outro governo, construído do zero, com seu núcleo no Soviete de Petrogrado, funcionando e enraizando-se, pronto para tornar-se o único. E as massas operárias começavam a preferir abertamente esse governo ao governo formal que lhe fazia vizinhança.
Stálin apoiou Lênin com firmeza. No 6º Congresso do Partido (clandestino), em agosto de 1917, Stálin apresentou o informe sobre a situação política. Opôs-se energicamente à proposta de acréscimo ao 9º ponto da resolução sobre a situação política — um adendo inspirado por Trotsky, apresentado por Yevgeni Preobrazhensky — que condicionava a edificação do socialismo ao desencadeamento da revolução proletária no Ocidente.
Essa questão do “estabelecimento do socialismo num só país” é uma das que provocaram os mais acerbos combates entre a oposição e a maioria do Partido — e isso até os últimos anos.
Stálin queria preservar plenamente a possibilidade de uma revolução proletária russa. “Por que não seria a Rússia a dar o exemplo?” Lênin e Stálin previam, de antemão, aquilo em que acreditavam. O adendo de Preobrazhensky, adido de Trotsky, não foi aprovado. Se tivesse sido, o mundo de hoje não seria o que é.
Na véspera de outubro — conta Kalinin — Stálin foi um dos poucos com os quais Lênin decidiu a insurreição, sem o conhecimento de Zinoviev e Kamenev, então membros do Comitê Central.
Zinoviev e Kamenev não eram partidários da insurreição.
Naquele momento — diz Stálin — proclamavam abertamente que, ao organizar a insurreição, estávamos nos lançando à perdição, que era preciso esperar pela Assembleia Constituinte, que as condições necessárias ao socialismo não estavam maduras — e não estariam tão cedo. Zinoviev e Kamenev aderiram à insurreição por medo do porrete: Lênin os conduzia pelo porrete. Foram obrigados a arrastar-se até a insurreição. Trotsky, esse, nela ingressou por vontade própria, mas fazia uma ressalva que, já então, o aproximava de Zinoviev e Kamenev. Afirmava que, se a revolução não se desencadeasse nem triunfasse na Europa Ocidental, a Rússia revolucionária não poderia resistir à Europa conservadora, e que duvidar dessa opinião trotskista era prova de estreiteza nacional. Porém, — acrescenta Stálin, à parte esses três, — Lênin e o Partido marchavam sem reservas.
Zinoviev e Kamenev empurraram sua hostilidade e indisciplina até o ponto de atacar publicamente, em um artigo de jornal, a decisão de insurreição — que, evidentemente, era secreta. Essa traição permitiu que Kerensky tomasse medidas de defesa armada. Lênin chamou Zinoviev e Kamenev de pelegos e falou em sua expulsão do Partido. Posteriormente, ambos deixaram o Comitê Central.
Nos dias de outubro, o Comitê Central nomeou Stálin membro do Colegiado dos Cinco (responsável pela direção política da revolução) e do Colégio dos 7 (responsável pela organização da revolução). A revolução proletária ocorreu em 25 de outubro (7 de novembro pelo calendário gregoriano).
Lênin deu o impulso decisivo à admirável tempestade histórica — e vê-se, em primeiro plano, sua grande mão nesse início. Ele escreve ao Comitê Central em 24 de outubro (6 de novembro), na véspera: os tempos estavam cumpridos, e era hora de agir: “Adiar a insurreição equivale, de fato, à morte. Tudo está por um fio. Tudo é uma questão de povo e das massas armadas. O poder não pode, em hipótese alguma, de forma alguma, ser deixado a Kerensky e sua quadrilha por mais que um dia. Isso precisa ser resolvido esta noite, ou esta madrugada”.
Era necessário possuir uma lucidez singularmente além do presente para desencadear a revolução proletária naquele exato momento. Era, de fato, arriscar uma intervenção direta, num contexto em que operários, camponeses e soldados, exaustos, clamavam por paz; era colocar tudo em jogo, enquanto o Estado-Maior e a burguesia preparavam uma ditadura militar, e Kerensky começava a lançar o Partido Bolchevique à ilegalidade. Era “um salto no desconhecido”. E, no entanto, não se tratava de um lance temerário, nem de um ato desesperado. Desconhecido? Não para aquele que, como Lênin, sabia saber — e via ali também, por entre o caos convulsivo do mundo, “que tinha razão”.
Quando, mais tarde, a humanidade liberta celebrar as etapas de sua própria libertação, será este o instante de suas crônicas que ela há de comemorar com mais reverência e entusiasmo: 25 de outubro de 1917 (7 de novembro), o momento da passagem brutal da revolução de comédias teatrais para a revolução real, viva. E ela prestará homenagem aos homens que fizeram isso.
A Revolução de Outubro triunfou. A partir da paz imediata (primeira condição prática, primeiro desmonte do caos), ela proclama: Todo o Poder aos Sovietes, isto é, a ditadura do proletariado, a soberania brotando da terra por toda parte, o direito dos humanos. Proclama a destruição completa do poder da burguesia — não para substituí-lo, pura e simplesmente e para sempre, pelo poder da classe até então oprimida e explorada, mas para reorganizar todo o conjunto societal através da única força capaz de realizar uma tão vasta reestruturação: a intervenção do proletariado. E, por fim, para edificar uma verdadeira sociedade do trabalho, uma sociedade integralmente cooperativa, sem classes, sem opressão nem exploração, uma coletividade indivisível, aberta, por sua própria lógica, à universalidade.
O Frente capitalista, que até então cercava completamente o planeta, foi rompido em um largo trecho equivalente a um sexto da superfície dos continentes.
O socialismo sem mácula, que resistira e mantivera sua pureza revolucionária, brilhou no Kremlin — e, de súbito, o outro socialismo — o dos meios-termos, dos ardis e das ilusões, aquele que pregava candidamente pequenos pacotes de progresso gradual que o poder burguês absorvia um a um e assimilava para se reforçar ainda mais contra as massas — foi relegado ao passado, junto com as velhas luas e as barbas antigas.
Ele evoca a realidade — e trata-se de uma caricatura terrível por ser verossímil — ao narrar este episódio relatado por John Reed em “Dez Dias que Abalaram o Mundo”: magnatas social-democratas da Duma, com suas longas barbas de padres e seu ar perplexo de alquimistas arrancados de seus laboratórios, descendo às ruas de Petrogrado para pôr ordem nos “excessos” da revolução — e sendo barrados por uma sentinela, lança a carteirada:
— Sou deputado da Duma, colega...
— E daí? A gente acabou com isso — responde o simples soldado, que bloqueava o caminho do pontífice democrático, agora destronado, como o fora o próprio czar.
Pobres pontífices que não haviam previsto sua queda — encontravam-se, de um dia para o outro, na situação de Rip Van Winkle ao regressar, após dormir cem anos. Mas não haviam sido eles que dormiram — foi a grande massa que despertou. Era uma fase inteiramente nova na história da ação humana. Nunca se vira coisa semelhante desde que o mundo é mundo. E então, iniciou-se a era das dificuldades formidáveis, dos obstáculos inomináveis. Mas, “Lênin era realmente um gênio das explosões revolucionárias”, nos diz Stálin — que acrescenta: “Nas curvas bruscas da história, ele intuía o movimento das classes e os caminhos essenciais da revolução como se os lesse na palma da mão”.
Era preciso edificar — mas, antes de tudo, manter-se de pé — contra os brancos, contra os mencheviques, cujas tendências doentias ainda se infiltravam no seio do Partido; contra aqueles que Stálin chamava de histéricos, isto é, os socialistas revolucionários e os anarquistas (Spiridovna ameaçando com seu revólver em plena reunião, enquanto Lênin, impassível, parecia quase rir). Os anarquistas, que só possuem uma palavra de ordem tão vazia quanto o nada: “Nem Deus, nem Mestre”, e que se obstinam loucamente em multiplicar 1 por 1 — e que um dia declarariam guerra à ordem alfabética.
E também contra as grandes potências e os espiões, contra a ruína, a fome, contra o esmagamento econômico e o achatamento financeiro.
Era necessário resolver o problema da guerra imperialista, resolver o das nacionalidades — muitas delas ainda estremecendo de ódio pelo jugo czarista, embriagadas diante da visão de suas prisões arrebentadas, alinhavam-se ao seu lado e ameaçavam fazer tudo desmoronar.
Assim, era preciso realizar a paz com a Alemanha e a Áustria. Houve, antes de tudo, um episódio tragicamente decisivo: ele também dava a imagem vertiginosa de um “salto no desconhecido”. Stálin desempenhou aí um papel. O Conselho dos Comissários do Povo, desejoso de iniciar negociações com os alemães para a conclusão de um armistício, e de suspender, por conseguinte, as operações militares, deu instruções nesse sentido ao general-em-chefe Dukhonine.
Lembro-me do dia em que Lênin, Krylenko (o futuro comandante-em-chefe) e eu fomos ao Estado-Maior de Petrogrado para falar por linha especial com Dukhonine. A hora era terrível, Dukhonine e o Alto-Comando recusaram categoricamente cumprir a ordem do Conselho dos Comissários do Povo. Os chefes do exército estavam completamente nas mãos do Alto-Comando. E os soldados? Ignorava-se o que pensava o exército, subordinado a organizações hostis ao poder soviético. Sabíamos que uma insurreição de cadetes se formava em Petrogrado. Além disso, Kerensky avançava, agressivo, rumo à capital. Lembro-me de que, após um momento de silêncio diante do telefone, o rosto de Lênin se iluminou com uma luz que não sei descrever. Visivelmente, já havia tomado uma decisão. “Vamos ao telégrafo sem fio, — disse Lênin — ele nos será útil: destituímos o general Dukhonine por ordem especial, nomeamos em seu lugar o camarada Krylenko como comandante-em-chefe, e nos dirigimos diretamente aos soldados, por cima da cabeça de seus chefes, com este apelo: prender os generais, cessar as operações militares, confraternizar com os soldados austro-alemães, e tomar em suas próprias mãos a causa da paz”.
E assim foi feito. Iniciaram-se as negociações de Brest-Litovsk para a paz entre a Rússia e a Alemanha. A burguesia dos países vitoriosos vociferou contra o Tratado que se seguiu — e o Dicionário Larousse, parcial, chauvinista e reacionário, como convém a um dicionário oficial e diplomático, o qualificou de “tratado vergonhoso”.
Eis aí um juízo que será necessário revisar profundamente. Quando se examina os fatos de perto, constata-se, ao contrário do que afirmam os funcionários do Larousse, que toda a vergonha, neste caso, recai sobre os países vencedores — em primeiro lugar, sobre a França e a Inglaterra. A paz separada entre a Rússia e a Alemanha traiu apenas os traidores de suas próprias proclamações e promessas públicas.
Jacques Sadoul, em suas importantes cartas a Albert Thomas, escritas em Moscou em 1918, durante as negociações, revelou perfeitamente os bastidores dessa imensa questão. A tese dos Aliados, amplamente divulgada durante a guerra, era a de concluir uma paz sem anexações e sem represálias, uma “paz democrática”. Com que virtuosa e ardorosa eloquência todas as bocas governamentais repetiam, ao longo dos quatro anos de carnificina, que, salvo a questão da Alsácia-Lorena (para a qual desde o início se reconhecia um caso de exceção), os objetivos de guerra dos Aliados não envolviam nem conquistas territoriais nem medidas de vingança! Quantas vezes nos ensurdeceram, tanto nas frentes como na retaguarda, com essas promessas solenes de uma “paz democrática” desprovida de interesses mesquinhos — tudo isso para nos incitar à guerra “até o fim”!
Ora, tudo isso não passava de demagogia e impostura: os Aliados tinham, sim, a firme intenção de repartir entre si um espólio monstruoso — como se viu meses depois. Existiam inclusive tratados escritos e assinados há muito tempo com esse objetivo — enquanto os grandes pontífices da chamada “civilização”, com a mão sobre o coração, juravam o contrário às multidões. A cisão que se produziu em Brest-Litovsk entre a Rússia e as potências vitoriosas está ligada a esse fato: convocadas pelos bolcheviques, em novembro de 1917, a proporem à Alemanha uma paz democrática e a declararem de forma honesta seus objetivos de guerra, essas potências recusaram — e por boas razões. A Rússia socialista não se prestou a esse perjúrio que, ao trair o anseio universal pela paz e ao prolongar o massacre, provocaria, como hoje podemos constatar, a fatalidade de novas guerras e o desenvolvimento do fascismo na Alemanha.
Apesar disso, as grandes nações ocidentais, encarnadas, infelizmente, em personagens como Lloyd George, Poincaré, Clemenceau e outros, adotaram frente à iniciativa pacifista da Rússia a atitude mais desonesta possível — uma postura que só veio a se suavizar, ao menos em aparência, quando passaram a ter interesse em negociar com o imenso mercado russo. O futuro paciente colocará em seu devido lugar os embustes cometidos por esses honoráveis pastores de povos.
Foi Trotsky, já então aderente ao bolchevismo e membro destacado do governo, quem conduziu in loco as negociações. Lênin as dirigia a partir do centro, não sem consultar Stálin. A uma solicitação telegráfica de instruções feita por Trotsky por linha direta, Lênin respondeu com o seguinte telegrama, datado de 15 de janeiro de 1918:
Resposta a Trotsky: Desejaria, antes de tudo, consultar-me com Stálin antes de responder à sua pergunta.
Pouco depois, no dia 18 de janeiro, Lênin envia outra mensagem por linha direta:
A Trotsky: Stálin acaba de chegar. Examinaremos juntos a situação e lhe enviaremos imediatamente uma resposta comum. Lênin.
Conhece-se muito pouco o papel decisivo que Stálin desempenhou à época do tratado de Brest. Toda uma fração de esquerda do Partido — justamente os que haviam sido os mais enérgicos na tomada do poder — opunha-se à assinatura do tratado. Trotsky também era contra, com sua fórmula “nem guerra, nem paz”, acreditando que a guerra só deveria cessar com a revolução mundial. Lênin e Stálin estavam isolados na defesa da conclusão imediata da paz. Lênin hesitava em impor sua autoridade pessoal. Stálin o encorajou a fazê-lo. Essa pequena conversa pesou significativamente sobre os destinos da Revolução. Além disso, naquele período:
Lênin não podia passar um dia sequer sem ver Stálin, — escreve Stanisław Pestkowski, — Certamente por isso seu departamento, em Smolny, ficava exatamente ao lado do de Lênin. Ao longo do dia, Lênin ligava para Stálin ou entrava em nosso escritório para levá-lo até sua sala. Stálin passava, assim, a maior parte do tempo com Lênin. [...] Certa vez, ao entrar na sala de Lênin, assisti a uma cena interessante: na parede havia um grande mapa da Rússia. Diante dele, Ilyich e Stálin estavam em pé sobre duas cadeiras, seguindo com o dedo uma linha rumo ao norte, na Finlândia.
E à noite, quando Smolny se tornava um pouco mais silencioso, Stálin ia até as linhas diretas e ali permanecia por horas a fio.
A Mão de Ferro
Outra tarefa de urgência aterradora: a guerra civil. Todos os inimigos armados — poderosamente equipados pelos grandes países da Europa — cercavam a Rússia, pressionando suas fronteiras, já transbordando por múltiplos pontos.
“Houve momentos, particularmente em outubro de 1919, em que a nova república pareceu prestes a sucumbir. Mas nem os exércitos brancos, nem a entrada da Polônia na guerra, nem os levantes camponeses, nem a fome conseguiram vencer sua vontade — e galvanizados por Lênin, os batalhões em farrapos triunfaram sobre quatorze nações”, — é forçado a escrever, em um de seus relatos, o Sr. Mallet, jornalista reacionário, com o capitalismo cravado no peito, e que, além disso, é declaradamente tendencioso.
É necessário, aqui, lançar luz sobre o papel pessoal de Stálin. Em todos os pontos em que o perigo se agravava na frente da guerra civil, Stálin era enviado.
No período de 1918 a 1920, o camarada Stálin foi, provavelmente, o único companheiro que o Comitê Central enviava continuamente de uma frente a outra, sempre para os pontos mais vulneráveis, os locais onde a ameaça à revolução se mostrava mais iminente.
Onde o Exército Vermelho cedia terreno, quando as forças contrarrevolucionárias ampliavam seus êxitos, quando a agitação e o pânico podiam a qualquer momento se transformar em catástrofe — lá estava Stálin. Não dormia à noite, organizava, assumia a direção, esmagava, persistia — e realizava o ponto de virada, restabelecia a situação.
A tal ponto que Stálin escreveu que o transformavam num especialista em limpar as burradas do Departamento de Guerra. (Kliment Voroshilov, fazendo alusão ao caos dos serviços sob direção de Trotsky).
Esse foi um dos aspectos mais surpreendentes da trajetória de Stálin, e um dos mais ignorados. A forma como se comportou, e os sucessos que obteve nas frentes de guerra durante dois anos, teriam sido suficientes para tornar célebre e popular qualquer comandante militar.
Eis alguns vislumbres oferecidos por Voroshilov e Kaganovich sobre o trabalho militar, durante esse período vertiginoso, daquele que Voroshilov chama de: “Um dos mais ilustres organizadores das vitórias na guerra civil”.
Em dois anos, Stálin esteve na frente de Tsaritsyn, com Voroshilov e Sergei Minin; na frente do 3º Exército, em Perm, com Felix Dzerzhinsky; na frente de Petrogrado (contra a primeira ofensiva de Nikolai Yudenich); na frente ocidental de Smolensk (contraofensiva polonesa); na frente sul (contra Anton Anton Denikin); de novo na frente polonesa ocidental, na região de Zhytomyr; e outra vez na frente sul (contra Pyotr Wrangel).
Não se pode conceber situação mais desesperadora do que aquela em que se encontravam os homens de outubro, em 1918 — em um país reduzido a um campo de batalha, coberto de escombros e cadáveres, onde se combatia até o fim por um objetivo supremo: o novo regime político.
Em Moscou, deflagra o levante dos esquerdistas socialistas-revolucionários; no Leste, Mikhail Muravyov se torna um traidor; nos Urais, a contrarrevolução tchecoslovaca se desenvolve e se fortalece; no extremo sul — os ingleses se aproximam de Baku. “Tudo arde num anel de fogo”.
Stálin chegou a Tsaritsyn. Uma fileira ininterrupta de telegramas corria entre ele e Lênin. Stálin não fora enviado a Tsaritsyn como inspetor militar, mas para dirigir o serviço de abastecimento alimentar pelo sul da Rússia. A situação de Tsaritsyn era de grande importância. A insurreição da região do Don e a perda de Tsaritsyn significariam também a perda desastrosa de todo o celeiro do Cáucaso do Norte. Logo ao chegar:
A linha ao sul de Tsaritsyn ainda não foi restabelecida. Descobriremos e puniremos os responsáveis. Espero que em breve a linha estará restabelecida. Pode ter certeza de que não pouparemos ninguém, nem a nós mesmos nem aos outros, e de que mandaremos o trigo a todo custo.
Se os nossos “especialistas” militares (canalhas!) não dormissem e não fossem tão ineptos, a linha de frente não teria sido rompida, e se a linha for restabelecida, não o será graças a eles, mas apesar deles.
Stálin havia encontrado, por toda a cidade, uma “desordem inacreditável”. As organizações soviéticas — sindicais e comunistas — e também as organizações militares estavam todas desagregadas, entregues à deriva. Em todos os flancos, deparava-se com a ofensiva fulminante da contrarrevolução cossaca, agora reforçada por poderosos contingentes do exército de ocupação alemão que operava na Ucrânia. As hordas brancas haviam tomado, uma a uma, as posições ao redor de Tsaritsyn, interrompendo brutalmente “a coleta do trigo” aguardada por Moscou e Petrogrado — e, além disso, ameaçavam diretamente a própria cidade.
Ao primeiro olhar, Stálin compreendeu que era preciso, antes de tudo, assumir o comando da direção militar — que se mostrava impotente e vacilante. Em 11 de julho de 1918, Stálin telegrafa a Lênin:
A situação é agravada pelo fato de o Quartel-General do Distrito do Cáucaso do Norte ter se mostrado totalmente inadimplente e inapto às condições reais de combate à contrarrevolução. Não se trata apenas de nossos “especialistas” serem psicologicamente incapazes de travar uma guerra decisiva contra a contrarrevolução, mas também de serem, na prática, meros funcionários administrativos, capazes apenas de “elaborar projetos” e redigir planos de reorganização. Eles demonstram completa indiferença às ações operacionais e, no geral, comportam-se como seres desconhecidos, como meros convidados e consultores. Os comissários militares não conseguiram preencher essa lacuna.
Stálin não era homem de se contentar com constatações. Era preciso agir — e ele agiu:
Não posso me permitir assistir a isso com indiferença, enquanto a Frente de Kalnin permanece isolada de seu ponto de abastecimento e do Norte de sua região produtora de grãos. Vou corrigir essas e muitas outras fraquezas diretamente no local. Estou tomando uma série de medidas, incluindo a demissão de oficiais e comandantes que estão destruindo a nossa causa, apesar dos obstáculos formais que, se necessário, superarei. Ao mesmo tempo, assumo, evidentemente, total responsabilidade perante todas as autoridades superiores.
Moscou responde com aprovação: é necessário recolocar toda a organização vermelha de pé!
Restabelecer a ordem, consolidar os destacamentos em unidades regulares, instaurar um comando adequado e demitir e expulsar todos os elementos insubordinados.
Quando essa ordem concisa — três linhas que condensavam uma tarefa colossal — chegou às mãos de Stálin, a situação já havia se agravado: os escombros do Exército Vermelho da Ucrânia começavam a chegar em desordem, recuando diante do avanço da ofensiva alemã pelas estepes do Don.
Parecia impossível restabelecer uma situação tão desastrosa. A vontade ardente de um único homem lançou-se à tarefa. E dessa força de vontade nasceu, como que do solo, um Conselho Militar Revolucionário, que imediatamente começou a organizar um exército regular. Rapidamente, formaram-se corpos de exército, ordenaram-se divisões, brigadas, regimentos. Todos os elementos contrarrevolucionários foram expulsos do Estado-Maior, da estrutura de suprimentos, das unidades de retaguarda — assim como das organizações soviéticas e comunistas ali presentes.
Ainda havia bolcheviques veteranos e firmes o bastante para fornecer base sólida à reorganização e reassumir seus postos. E foi assim que as coisas aconteceram: tudo foi reorganizado, e na linha de fronteira que marcava o avanço da contrarrevolução do Don, estabeleceu-se um claro e firme Estado-Maior vermelho, erguido contra os bandidos do interior e do exterior.
Mas isso não era tudo. Toda a cidade estava contaminada por elementos Brancos. Socialistas-revolucionários, terroristas e ultra-monarquistas ali se encontravam como em uma convenção. Essa cumplicidade de fato, constante e inevitável, entre os supostos revolucionários “puros” e os piores inimigos da Revolução — todos golpeando juntos com furor — dispensa comentários.
Tsaritsyn tornara-se lugar de veraneio para toda uma burguesia em fuga, que ali se refestelava com oficiais brancos que mal se escondiam, dominando as ruas, os jardins, os espaços públicos, acompanhados de orquestras. Tsaritsyn era um centro de conspiração a céu aberto.
Mas deixou de sê-lo. O Conselho Militar Revolucionário local, sob direção de Stálin, criou uma Tcheka especial, encarregada de investigar de perto todos esses indivíduos. E quando a guerra civil se intensificava em fúria por toda parte, em que os estranguladores estrangeiros da Revolução agiam em ritmo febril e multiplicado, não se passava um dia sem que os piores complôs fossem descobertos.
Um certo Anatoly Nosovich — traidor que, sendo chefe da direção militar das operações, passou-se para o exército de Krasnov — relatou toda essa situação num jornal branco, intitulado Donskaya Volna (A Onda do Don), edição de 3 de fevereiro de 1919. Foi obrigado a reconhecer o mérito de Stálin, que, mesmo tendo sua missão de grande organizador do abastecimento gravemente comprometida pelos acontecimentos da região, “não era homem de abandonar uma causa iniciada”, e o descreve assumindo tanto a operação militar quanto a civil, destruindo, um a um, todos os atentados e maquinações dos inimigos jurados da Revolução.
Naquele período — relata o mesmo Nosovich, — a organização contrarrevolucionária local — cuja plataforma era a convocação de uma Assembleia Constituinte — havia se fortalecido consideravelmente e, com o dinheiro recebido de Moscou, preparava uma intervenção ativa em apoio aos cossacos do Don em sua luta pela libertação de Tsaritsyn.
Infelizmente, o chefe dessa organização, o engenheiro Alexeev, que acabara de chegar de Moscou acompanhado de seus dois filhos, mal-informado sobre a situação real, apresentou um plano mal formulado, baseado na participação de um batalhão sérvio que havia servido aos bolcheviques na Tcheka.
Lênin temia fortemente um ataque dos esquerdistas socialistas-revolucionários contra Tsaritsyn, e telegrafou a Stálin. Este respondeu:
Quanto aos histéricos, fiquem tranquilos, nossa mão não tremerá; por enquanto, agiremos como inimigos contra nossos inimigos.
Essas medidas — severas, mas necessárias — contra adversários que atacavam de armas em punho em plena guerra estrangeira, e que apostavam unicamente no assassinato, tiveram um efeito salutar sobre o moral dos regimentos vermelhos na linha de frente. Seus dirigentes políticos e militares, bem como as massas de soldados, começaram a sentir que eram conduzidos por um homem firme, mas dotado de um ideal elevado e claro, implacável com os que desejavam fazer os antigos escravizados retornarem ao velho regime, ou armar emboscadas contra esse povo novo que rompia grilhões — e que, à sombra de bandeiras brancas, negras ou até vermelhas, tentavam apunhalar os libertos que agora se tornavam libertadores.
Stálin assumia a responsabilidade — mas exigia a autoridade, como o fazem todos que dela fazem uso verdadeiro. Mais uma vez, é o renegado Nosovich quem nos transmite, como testemunha, um episódio revelador:
Quando Leon Trotsky, preocupado com a destruição dos Comandos Distritais, cuja formação lhe custara tanto trabalho, enviou um telegrama insistindo na necessidade de manter o quartel-general e o comissariado nas condições anteriores e permitir-lhes continuar, Stálin escreveu uma anotação categórica e bastante expressiva no telegrama: “Ignorar. Não levar em consideração”.
Assim, o telegrama não foi levado em consideração, e toda a artilharia, assim como parte do comando do Quartel-General, permanece até hoje alojada na barcaça em Tsaritsyn.
Além disso, para fazer cumprir seus decretos e instaurar a ordem bolchevique, Stálin se deslocava pessoalmente até a linha de frente — uma frente de seiscentos quilômetros. Esse homem que nunca havia servido no exército possuía um tal senso organizativo geral que era capaz de compreender e resolver até as questões técnicas mais complexas e difíceis — agravadas ainda mais pela situação crítica, que se deteriorava diariamente num ritmo vertiginoso.
Lembro-me, como se fosse hoje, do início de agosto de 1918. As tropas cossacas de Krasnov lançaram um ataque contra Tsaritsyn, tentando, com um golpe concêntrico, empurrar os regimentos vermelhos em direção ao Volga. Durante muitos dias, as tropas vermelhas — lideradas pela divisão comunista composta inteiramente por trabalhadores do Donbass — repeliram, com força excepcional, o ataque das tropas cossacas, que eram perfeitamente organizadas e experientes.
Foram dias de enorme tensão. Era preciso ver o camarada Stálin naquela época: como sempre, calmo, concentrado, imerso em seus pensamentos, ele literalmente passava dias sem dormir, dividindo seu trabalho incansável entre as posições de combate e o quartel-general do Exército.
A situação na frente tornava-se praticamente catastrófica. As tropas de Krasnov, comandadas por Fichalaurov, Mamontov e outros, pressionavam nossas forças exaustas e muito desgastadas por meio de manobras habilmente planejadas.
A frente inimiga, organizada em forma de ferradura e com os flancos apoiados no Volga, nos apertava cada vez mais a cada dia. Não havia rotas de retirada. Mas Stálin não se deixava preocupar por isso. Ele estava tomado por uma única convicção, por um único pensamento: vencer, derrotar o inimigo a qualquer custo. Essa vontade inquebrantável de Stálin transmitiu-se a todos os seus colaboradores mais próximos e, mesmo diante daquela situação quase desesperadora, ninguém duvidava da vitória. E nós vencemos.
O inimigo, derrotado, foi repelido para longe, até as margens do rio Don.
O 3º Exército cedia, e fora obrigada a entregar Perm. Empurrado e acossado por um inimigo que avançava em semicírculo, esse exército encontrava-se, ao fim de novembro, completamente desmoralizado. O balanço dos seis últimos meses, tomados por combates ininterruptos, era desolador: não havia reservas, a retaguarda era frágil, a alimentação era abominável (a 29ª Divisão passou cinco dias sem receber sequer um pedaço de pão), sob -35°C de frio, com caminhos absolutamente intransitáveis, e uma Frente de extensão descomunal — mais de quatrocentos quilômetros — somado a um Estado-Maior em decomposição: “O 3º Exército não estava em condições de resistir aos ataques do inimigo”.
Além disso, os oficiais — ex-criados do czar — desertavam em massa, e regimentos inteiros, enojados com o comando de ineptos e libertinos, rendiam-se voluntariamente.
Então veio a derrocada: um recuo de trezentos quilômetros em vinte dias, uma perda de 18 mil homens, dezenas de canhões, centenas de metralhadoras. O inimigo avançava, ameaçando Viatka e toda a frente oriental. Lênin telegrafou ao Conselho Militar Revolucionário da República:
Há uma série de comunicações partidárias vindas de Perm sobre o estado catastrófico da armada e sobre o alcoolismo. Pensei em enviar Stálin.
O Comitê Central enviou Stálin e Dzerzhinsky. Stálin deixou em segundo plano o objetivo oficial da missão — “investigar as causas da perda de Perm” — e colocou em primeiro plano as medidas práticas e urgentes para restaurar a situação.
Esta se revelou ainda mais grave do que se imaginava — como ele comunicou ao Presidente do Conselho de Defesa (Lênin), em um telegrama em que exigia reforços imediatos para conter o perigo. Oito dias depois, listava as causas da rendição de Perm e, junto de Felix Dzerzhinsky, propunha toda uma série de medidas para elevar a capacidade de combate do 3º Exército e preparar a defesa futura.
Com sua velocidade particular de decisão, Stálin começou a aplicar na prática esse conjunto de medidas organizativas, tanto militares quanto políticas — e, ainda no mesmo mês (janeiro de 1919), a ofensiva do inimigo foi detida, a frente oriental passou ao contra-ataque, e a ala direita tomou a cidade de Ouralsk.
Outro drama semelhante ocorreu na primavera de 1919, desta vez com o 7º Exército, em confronto com o Exército Branco de Nikolai Yudenich, a quem Aleksandr Kolchak havia ordenado: “tomar Petrogrado” e atrair para seu setor as forças revolucionárias da frente oriental.
Nikolai Yudenich, apoiado pelos guardas brancos estonianos e finlandeses, e sustentado pela frota inglesa, lançou de repente uma ofensiva que ameaçou de fato a cidade de Petrogrado, como bem se recorda.
Tinha, aliás, aliados dentro da cidade: um complô foi descoberto em Petrogrado. Os fios do plano estavam nas mãos de técnicos militares infiltrados no Estado-Maior da frente ocidental, no 7º Exército, e na base naval de Kronstadt.
Enquanto Yudenich avançava sobre Petrogrado, Boulak-Boulakhovitch obtinha uma série de vitórias em direção a Pskov. As traições e deserções multiplicavam-se. As guarnições dos fortes Krasnaya Gorka e Seraya Loshad simpatizavam abertamente com os inimigos dos Sovietes. A distância entre os exércitos brancos e Petrogrado encurtava-se, os Vermelhos cediam. No estrangeiro, os operários aguardavam com angústia as notícias, realizando assembleias públicas desesperadas, com o coração tomado pela angústia e a cólera. (Lembrais-vos, camaradas da França!)
O Comitê Central enviou Stálin, que, em três semanas, restabeleceu a resistência revolucionária vitoriosa. Em apenas vinte dias, a hesitação e a confusão foram varridas do Exército e do Estado-Maior. Os operários e comunistas de Petrogrado foram mobilizados, as deserções cessaram. Os inimigos foram capturados e executados, os traidores, aniquilados. E Stálin passou, inclusive, a dirigir operações estritamente militares. Telegrafou a Lênin:
Após a captura de Krasnaya Gorka, a fortificação conhecida como Seraya Loshad foi neutralizada. Todo o armamento apreendido encontra-se em excelente estado operacional. Prossegue, em ritmo acelerado, a tomada de todos os fortes e posições fortificadas remanescentes.
Especialistas da Marinha alegam que a operação anfíbia que garantiu a conquista de Krasnaya Gorka contraria os princípios estabelecidos da ciência naval. Só posso registrar meu pesar por tais princípios.
A rápida captura de Gorka deve-se à intervenção direta e decidida de minha parte — e, de modo geral, de outros civis — nos assuntos estritamente operacionais, intervenção que incluiu a anulação de ordens emitidas pelas forças navais e terrestres e a imposição de diretrizes determinadas por nós.
Declaro, como obrigação de comando, que continuarei agindo dessa forma sempre que necessário, apesar de todo o respeito formal que tenho pela chamada “ciência militar”.
E toda a conclusão desta campanha, de uma rapidez trovejante, encontra-se noutro telegrama enviado, seis dias depois, ao mesmo destinatário:
Observa-se uma virada significativa no comportamento de nossas tropas. Ao longo de toda a última semana, não foi registrado um único caso de deserção — individual ou coletiva. Além disso, desertores que haviam abandonado suas unidades estão retornando em massa, aos milhares.
As deserções do inimigo para nossas linhas tornaram-se ainda mais frequentes: aproximadamente 400 homens cruzaram para o nosso lado somente nesta semana, a maioria trazendo armamento completo.
Ontem, no período da tarde, iniciamos a ofensiva. Apesar de o reforço prometido ainda não ter chegado, seria insustentável permanecer na linha anterior, excessivamente próxima de Petrogrado.
Até o momento, a operação avança de forma satisfatória. As forças brancas recuam, e hoje estabelecemos controle sobre a linha Kernovo–Voronino–Slepino–Kaskovo.
Foram capturados prisioneiros, duas ou mais peças de artilharia, metralhadoras e uma quantidade significativa de munições.
Nenhuma embarcação inimiga apareceu na área; tudo indica que evitam se aproximar devido ao controle firme que mantemos sobre Krasnaya Gorka.
E agora, a Frente Sul.
O outono de 1919 ficou marcado na memória de todos. — escreve Voroshilov, — Era o momento decisivo, o ponto de inflexão de toda a Guerra Civil.
E Voroshilov traça os contornos essenciais da situação, caracterizada pela penetração de Anton Denikin por toda a linha meridional. Abastecidas pelos Aliados, apoiadas e auxiliadas pelos Estados-Maiores inglês e francês, as tropas brancas de Denikin avançavam sobre Orel. Toda a enorme Frente Sul recuava em ondas lentas. No interior, a situação não era menos desastrosa. As dificuldades de abastecimento agravavam-se a cada instante, colocando problemas quase insolúveis. A indústria, três quartos demolida e carente de matérias-primas, combustível e mão de obra, paralisava. Por todo o país, e até mesmo em Moscou, os elementos contrarrevolucionários agitavam-se. O perigo ameaçava tanto Tula quanto Moscou.
O que fazer diante desta gigantesca corrente de naufrágio? O Comitê Central enviou Stálin para a Frente Sul como membro do Conselho de Guerra Revolucionário.
Hoje — escreve Voroshilov, — já não é necessário ocultar que, antes de aceitar sua designação, o camarada Stálin impôs três condições claras ao Comitê Central:
1. Trotsky não deveria interferir nos assuntos da Frente Sul nem cruzar suas linhas de responsabilidade;
2. Era preciso retirar imediatamente toda uma série de funcionários que o camarada Stálin considerava incapazes de restaurar a situação nas tropas;
3. E, finalmente, deveriam ser enviados à Frente Sul novos quadros, escolhidos por Stálin, capazes de cumprir essa tarefa.
Essas condições foram aceitas integralmente.
Contudo, essa colossal máquina de guerra que se designava coma Frente Sul estendia-se do Volga até a fronteira polaco-ucraniana, acumulando nas margens do país centenas de milhares de soldados. Para manobrar e movimentar tal aparelho, era imperativo um plano preciso de operações; era necessário “Formular claramente as tarefas da Frente”.
Somente assim se tornaria viável, ao propor um objetivo concreto às tropas, reagrupar as forças, equilibrá-las e distribuí-las organizadamente nos pontos e no momento exato.
Stálin encontrou na Frente a confusão e o marasmo. Uma atmosfera de tormenta e desesperança. O Exército Vermelho da República fora batido na linha principal: Kursk-Orel-Tula. O flanco leste, impotente, chafurdava no mesmo lugar.
O que fazer? Havia um plano de operações que o Comitê Superior de Guerra havia estabelecido no mês de setembro anterior. Esse plano consistia em liderar o grande ataque pelo flanco esquerdo, de Tsaritsyn a Novorossiysk através das estepes do Don.
Stálin constata primeiramente que o plano permanece o mesmo desde setembro: “O ataque deve ser desferido pelo grupo de Chórin, tendo como missão aniquilar o inimigo no Don e no Kuban.”
Stálin examina esse plano, perscruta-o, julga-o — e estima que não serve mais. Que não serve de fato. Era bom havia dois meses, mas as circunstâncias mudaram. É preciso encontrar outra coisa. Stálin vislumbra o que é necessário encontrar, e envia novas proposições a Lênin. Leiamos esta carta, documento histórico que elucida, simultaneamente, a situação no vasto setor do Sul e a lucidez resoluta do homem que a escreveu:
Há dois meses, o Comandante-Chefe não se opôs, em princípio, à execução de um ataque de Oeste para Leste através da bacia de Donetsk como eixo principal. Ele apenas deixou de avançar com esse plano citando a “herança deixada pela retirada das tropas do sul no verão”, isto é, o agrupamento espontâneo das unidades na antiga Frente Sudeste, cuja reorganização exigiria tempo demais e, nesse intervalo, beneficiaria Denikin.
Hoje, porém, a situação mudou radicalmente, assim como a disposição de nossas forças: o 8º Exército, antes o principal da antiga Frente Sul, deslocou-se para a nova região de operações e está agora diretamente orientado para a bacia do Donets; o corpo de exército de Semyon Budyonny — outra força decisiva — também foi transferido para esse setor; além disso, soma-se uma nova reserva ativa, a divisão letã, que dentro de um mês, reconstituída, voltará a representar uma ameaça séria para Denikin.
Diante desses fatos, permanece inexplicável por que o Quartel-General insiste em defender o plano antigo. A única explicação plausível é a teimosia ou, se preferir, o facciosismo — o mais obtuso e perigoso tipo de facciosismo — cultivado no Comando-Chefe por seu “ás dos estrategistas”. [Alusão à Trotsky.]
A insistência recente do Comando Supremo em ordenar a Shorin que avance sobre Novorossiysk através das estepes do Don, por uma rota que pode ser conveniente para nossos aviadores, mas que é totalmente impraticável para nossa infantaria e artilharia, ilustra bem esse descolamento da realidade. É desnecessário demonstrar que uma campanha tão “brilhante” conduzida em ambiente hostil e em completa ausência de estradas tem tudo para terminar num desastre. Na prática recente, operações desse tipo contra aldeias cossacas apenas uniram os cossacos contra nós em torno de Denikin, que passa a ser visto como protetor do Don; ajudaram a consolidar o seu prestígio; e, de fato, contribuíram para criar um Exército Cossaco a seu favor — em suma, fortaleceram Denikin.
Por essas razões, torna-se absolutamente necessário substituir sem demora o plano antigo — já invalidado pela realidade — por um plano cujo eixo principal seja o avanço através da região Kharkov–Donetsk em direção a Rostov. Primeiro, porque ali encontraremos um ambiente não hostil, mas favorável ao nosso movimento. Segundo, porque conquistaremos a importante rede ferroviária de Donetsk e, sobretudo, a principal linha logística de Denikin, a ferrovia Voronezh–Rostov. Terceiro, porque esse avanço dividirá o exército de Denikin em duas partes, deixando o Exército Voluntário vulnerável a Makhno e obrigando as unidades cossacas a enfrentar o risco de serem atacadas pela retaguarda. Quarto, porque criaremos as condições para uma cisão entre os cossacos e Denikin: caso tenhamos sucesso, Denikin tentará deslocar unidades cossacas para o oeste, movimento que grande parte dos cossacos rejeitará. Quinto, porque garantiremos o carvão, enquanto Denikin ficará privado dessa fonte vital. A aprovação desse plano não comporta atrasos.
Em síntese: o plano antigo, já desmentido pelos fatos, não pode, sob hipótese alguma, ser ressuscitado. Sua aplicação seria perigosa para a República e só serviria para aliviar a situação de Denikin. É imprescindível substituí-lo imediatamente por um novo plano. As circunstâncias não apenas amadureceram para essa mudança: elas a impõem de forma categórica. Sem essa substituição, meu trabalho na Frente Sul torna-se inútil, criminoso e improdutivo — o que me concede, ou melhor, me impõe o direito de partir para qualquer outro lugar, até mesmo para o inferno, mas não permanecer aqui.
Seu, Josef Stálin.
Serpukhov, 15 de outubro de 1919.
O Comitê Central não hesitou e adotou o plano de Stálin. Lênin, de sua própria mão, dirigiu ao Estado-Maior da Frente Sul a ordem de mudar as diretrizes estabelecidas. O ataque principal foi levado em direção a Kharkov-Bacia do Donetsk-Rostov. Sabe-se o que disso resultou. Os exércitos de Denikin foram lançados no Mar Negro. A Ucrânia e o Cáucaso do Norte foram libertados dos guardas brancos. A revolução vencia a Guerra Civil.
Os êxitos de Stálin parecem, por sua rapidez e plenitude, o feito de golpes de varinha mágica. O que é raro, totalmente excepcional, é uma tão perfeita dosagem de todos os elementos criadores do realismo — na prática e na ação — em um só e mesmo homem. O verdadeiro realista deve ter a clarividência de discernir, a coragem de proclamar, que o caminho mais longo é, por vezes, o mais curto, e ter a potência de conter a marcha das coisas em conformidade.
A passagem de Stálin pela Frente Sul também resultou na criação do Exército de Cavalaria, que teve uma participação tão significativa na varredura definitiva dos Brancos. Ele conseguiu, à força de tenacidade, fazer com que fossem adotadas, a esse respeito, concepções que não eram partilhadas por todo o Comitê Militar Revolucionário — a começar pela própria Frente Sul. Deve-se a ele, ainda, uma certa modificação da tática militar: o papel dos Grupos de Assalto.
Uma vez determinada a direção principal da ação, tratava-se de concentrar nela, imediatamente, as melhores unidades, visando um primeiro e súbito êxito.
Simultaneamente a essa estratégia de ação direta, Stálin não perdia de vista o vasto conjunto da organização militar e a imperiosa necessidade de tudo subordinar à harmonia desse todo. Ele havia escrito em janeiro de 1919, em concordância com Felix Dzerzhinsky:
O exército não pode operar como uma unidade autônoma ou isolada; sua eficácia depende inteiramente da ação coordenada com os exércitos vizinhos e, sobretudo, da observância rigorosa das diretrizes emitidas pelo Comitê Militar Revolucionário da República. Mesmo a unidade mais disciplinada e combativa está sujeita ao colapso caso o centro formule diretrizes equivocadas ou deixe de garantir uma coordenação efetiva entre as Frentes.
Por isso, é indispensável estabelecer — especialmente na Frente Oriental — um regime de centralização estrita, no qual todas as forças armadas atuem de acordo com diretrizes estratégicas nítidas, coerentes e cuidadosamente planejadas. A arbitrariedade ou a imprudência na elaboração dessas diretrizes, sem análise séria e fundamentada dos dados disponíveis, bem como as mudanças abruptas que daí resultam, somadas à incerteza geral das orientações — situação que o próprio CMR da República tem permitido — tornam impossível o comando adequado dos exércitos, dispersam recursos, desperdiçam tempo e lançam a frente na desorganização.
Não esqueçamos, neste capítulo sobre a guerra, que no 8º Congresso do Partido, Stálin defendeu a ideia de um “outro exército”, de um exército regular formado em um espírito de disciplina e enquadrado por seções políticas.
No entanto, subitamente, a Guerra Civil recrudesceu devido a Wrangel, o aventureiro megalomaníaco e cobiçoso, cumulado de dinheiro, soldados e munições pela França e pela Inglaterra, que insistiam em cumprir a todo custo sua missão de cúmplices dos russos brancos e de restauradores do regime do Czar e da escravidão.
Wrangel anunciou Urbi et Orbi uma campanha polonesa, saiu da Crimeia, e ameaçou terrivelmente a bacia do Donetsk recém-libertada — e, por conseguinte, todo o sul. A primeira ideia do Comitê Central é recorrer novamente a Stálin.
Decisão de 3 de agosto de 1920: Diante do avanço das forças de Pyotr Nikolayevich Wrangel e da instabilidade crescente na região do Kuban, reconhece-se que a Frente de Wrangel adquiriu importância estratégica própria e deve ser destacada como uma frente autônoma. Fica incumbido o camarada Stálin de organizar o respectivo Comitê Militar Revolucionário e concentrar todas as forças disponíveis nesse setor, cabendo a nomeação de Alexander Yegorov ou Mikhail Frunze para o comando da frente, conforme acordo entre o Comandante-em-Chefe e o camarada Stálin.
Stálin é avisado por Lênin: “Acabamos de deliberar sobre a divisão das frentes no Birô Político, para que se dediquem exclusivamente a Wrangel”.
Stálin organizou a nova Frente, afastou-se momentaneamente do trabalho por motivo de doença, mas estava presente fora da campanha polonesa, como membro do Comitê Militar Revolucionário da Frente Sudoeste. A derrota do exército polonês, a libertação de Kiev e da Ucrânia, a profunda penetração na Galícia são, em grande medida, resultados de sua direção. Foi ele quem teve a ideia do famoso ataque do 1º Exército de Cavalaria.
As tropas vermelhas podem passar à ofensiva geral após a debandada da Frente polonês, do aniquilamento quase completo do 3º Exército polonês na Ucrânia, do ataque a Berdychiv e Zhitomir e da ponta da 1º Exército de Cavalaria em direção a Kovno. Contudo, a derrota das tropas vermelhas perto de Varsóvia contra as forças polono-europeias quebrou o ímpeto da cavalaria que se preparava para atacar Lviv (ela havia chegado a dez quilômetros).
Stálin foi duas vezes condecorado com a Ordem da Bandeira Vermelha e nomeado membro do Conselho de Guerra da República (onde serviu de 1920 a 1923), em razão de suas magistrais reversões de situação, que ele conseguiu, em cada ocasião, efetuar nas partes mais disputadas e devastadas da Frente da Guerra Civil.
Diz-se: “Guerra Civil”, mas o termo não é exato. A revolução russa foi contra-atacada não somente pelos Brancos, mas também pelas grandes potências. O Exército Vermelho tinha à sua frente a soldadesca e os Estados-Maiores czaristas, franceses e ingleses, e japoneses, americanos, romenos, gregos — e outros.
As grandes potências imperialistas não se contentaram em prestar a mais aberta ajuda, em dinheiro, homens e quadros, aos chefes das hordas brancas (oficialmente reconhecidos um após o outro pelo governo francês). Mas, nesse período em que a grande guerra havia terminado, onde a paz estava feita, e contra todo e qualquer direito dos povos — as tropas francesas e as tropas inglesas, vindas por terra e por mar, depois das tropas alemãs, ocuparam, pisotearam e saquearam a Rússia, massacraram os habitantes, fuzilaram dirigentes, destruíram meticulosamente regiões industriais.
O exército alemão havia arrancado da Rússia os Países Bálticos e a Finlândia. Os Aliados, por sua vez, tomaram-lhe a Polônia e a transformaram — após reconstituí-la artificialmente — em um Estado “independente”. Não o fizeram por simpatia ao povo polonês, mas sim para convertê-la num tampão geopolítico contra a Rússia soviética. Roubaram ainda a Bessarábia, como moeda de troca para recompensar a Romênia, sem qualquer consideração pela vontade do povo bessarabiano. Convém repetir: tudo isso foi executado enquanto a Inglaterra e a França não estavam, de forma alguma, em estado de guerra com a Rússia. Ou seja, essa ofensiva não passava de uma operação contrarrevolucionária de larga escala.
Não se tratava apenas de revanche pela assinatura de uma paz separada. Recordemos que os primeiros a assinar o Tratado de Brest-Litovsk não foram os bolcheviques, mas sim os nacionalistas ucranianos — aliados tanto do imperialismo alemão quanto dos próprios Aliados. E não há necessidade de reiterar que a posição defendida pela Rússia Soviética em Brest era fundamentada na equidade e nos direitos dos povos, em contraste flagrante com a política traiçoeira, predatória e imperialista cujas consequências devastadoras se revelam ainda hoje.
Mas a “Livre Inglaterra” e a “França da Revolução” não conseguiam engolir o fato incontornável: o surgimento de uma revolução socialista bem no coração da Europa. Para elas, a existência de um governo popular, operário e camponês, era um pesadelo inaceitável — e estavam dispostas a usar qualquer método para exterminá-lo.
Veja-se o caso do Sr. René Pinon, escritor reacionário e porta-voz oficioso do governo francês, ao comentar o escândalo monstruoso da intervenção militar de 1919: o envio de uma esquadra francesa, acompanhada por uma divisão de infantaria, ao Mar Negro — uma intervenção armada, sem declaração formal de guerra, nas questões internas de um povo soberano. Segundo Pinon, tal ação “não representava exatamente uma intrusão nos assuntos internos de um Estado estrangeiro”; ao contrário, tratava-se de “libertar um país — e o mundo — de um perigo de ordem social e geral”. Difícil levar mais longe o cinismo reacionário e o jesuitismo burguês.
Que a intervenção aliada, que tentava confiscar à Rússia países aos quais a Revolução de Outubro havia conferido uma nova forma social, fosse essencialmente contrarrevolucionária, a prova disso ressalta de forma gritante apenas do fato da colaboração das tropas alemãs do Baltikum (Von der Goltz, Rosenberg) com as tropas aliadas.
Depois, todo o resto da Rússia foi libertada da contrarrevolução.
As qualidades que Stálin demonstrou nessas circunstâncias desgraçadas não constituem, de forma alguma, uma revelação para quem conhecia o homem. Ele apenas aplicou, numa nova esfera de atividade, as suas forças e recursos pessoais: a prontidão e a segurança do golpe de vista, a intuição dos pontos culminantes de uma situação concreta, a compreensão das verdadeiras causas e das consequências inevitáveis de um fato qualquer — e da posição desse fato no conjunto —, o horror à desordem e à confusão, a obstinação inflexível para preparar, fazer surgir e coordenar todas as condições necessárias à realização de um projeto, uma vez que este tenha sido calculado e decidido. Tudo isso, transposto aos campos de batalha, é o verdadeiro marxismo.
O dirigente que havia sondado e aperfeiçoado até tal ponto a prática da realização era severo — brutal mesmo — com os incapazes; era implacável com os traidores e sabotadores. No entanto, pode-se citar toda uma série de casos em que ele interveio veementemente em favor de homens que lhe pareciam acusados sem provas suficientes — por exemplo, Parkhomenko, que fora condenado à morte, e que ele o libertou.
Nesses períodos em que vacilam, ora de um lado, ora de outro, os destinos das populações, em que cada um joga tudo o que tem, em que a responsabilidade, queira-se ou não, imprime-se na carne, impõe-se a questão do valor da vida humana e do direito que se tem de dispor dela a serviço de uma causa.
É preciso colocar essa questão à luz do socialismo. Se estivéssemos diante de um regime capitalista, de uma autoridade imperialista, tal pergunta sequer se colocaria. É evidente demais que o princípio do capitalismo imperialista está fundado no desprezo pela vida humana: o comércio imposto pela força, o intercâmbio militarizado pelas alfândegas, o sistema de dominação e de guerra — individual e coletiva — erigido como instituição. O regime colonial é um regime penitenciário de rendimento intensivo. Os países colonizadores aprisionam populações indefesas, confiscam territórios, e o indígena é simultaneamente o inimigo e o animal doméstico: ele é explorado até a exaustão, dizimado, condenado aos trabalhos forçados e, se ousa querer a liberdade, é executado. O Congo Belga, o Marrocos, a África Ocidental Francesa, a Índia, a Indochina, Java — todos exemplos disso. E, além disso, fomentam-se guerras que abrem crateras visíveis na humanidade, tudo em benefício de uma firma nacional-internacional representada por alguns indivíduos.
Mas o sistema socialista é aquele que, ao contrário de tudo isso, serve aos interesses das pessoas. Através de uma organização lógica e justa de todos, ele busca melhorar ao máximo a condição de cada um. Pode-se dizer, com propriedade, que se trata do sistema “humanitário” por excelência.
A questão do respeito à vida humana se coloca, portanto, de modo especialmente rigoroso e grave para os bolcheviques — socialistas efetivos do nosso tempo —, e são eles próprios que a colocam.
É justamente por respeito à vida humana que afirmam que é necessário saber pôr fora de ação certas espécies de homens. (“Punir” não é, aqui, o termo exato: seria preciso que Deus existisse, e que interviesse nominalmente, para que se pudesse invocar a ideia sobrenatural da expiação.)
Na realidade, e com toda evidência, atinge-se uma criatura para salvar mil, para salvar cem mil, para salvar o futuro — para construir um mundo melhor, onde o homem não mais será a vítima do homem.
Victor Hugo, em seu denso romance épico “Os Miseráveis”, se expressa sobre a Revolução Francesa com sua habitual grandiloquência, mas também com uma amplitude visual acertada: “Dos seus golpes mais rudes, nasce uma carícia para o gênero humano”. Se essa afirmação lírica se tornou discutível no que diz respeito à grande Revolução abreviada de 1789 — que colocou a burguesia no comando do século 19 —, ela não o é para a revolução integral empreendida pelos homens de outubro com terrível probidade.
Diz-se facilmente: “Toda revolução é sangrenta, portanto, não quero revolução, porque tenho um coração sensível”. Os conservadores sociais que assim se exprimem são, na medida em que não estão representando um papel, de uma comovente miopia. Somos nós, os não-soviéticos, que vivemos mergulhados num regime de sangue.
De todas as partes, anunciam-se diante de nós iniquidades e massacres. Para percebê-los, basta olhar ao redor. Mas a maioria das pessoas não vai tão longe. São incapazes de discernir a dor alheia. E, no fim das contas, consideram a revolução não sob o ponto de vista do que ela trará para a humanidade, mas sim pelos transtornos e incômodos que ela poderá causar em sua casa.
Ouvi longamente Viacheslav Menjinsky — chefe da OGPU, e que acaba de falecer — explicar-me o quão absurdo é, em princípio, taxar de crueldade ou de desrespeito pela vida o partido político que dirige a União Soviética, sendo este movido pelo objetivo de promover a solidariedade entre todos os seres humanos sobre a Terra e o trabalho em paz. E, de fato, ele me mostrou o quanto a polícia revolucionária — irmã das massas trabalhadoras — vigia todas as ocasiões possíveis em que seja viável “curar”, não apenas os prisioneiros de direito comum (área em que os bolcheviques empurram a paciência e a indulgência até um ponto quase paradoxal), mas também os prisioneiros políticos. Os comunistas sustentam este duplo princípio: os delinquentes comuns são indivíduos que se enganam quanto aos próprios interesses e destroem suas vidas — e não há nada de mais justo do que lhes mostrar isso; e os inimigos da revolução proletária, prelúdio da revolução total, são também — ao menos os que são sinceros — pessoas que estão enganadas, e que igualmente precisam ser esclarecidas. Eis por que as prisões se esforçam, em toda a linha, por serem escolas.
O problema da repressão reduz-se, portanto, a uma questão de mínimo necessário em vista do progresso geral. E é tão culpável aquele que fica aquém desse mínimo quanto aquele que o ultrapassa. Aquele que poupa indivíduos que agirão contra a causa humana é um delinquente. Quem salva assassinos é ele próprio um assassino. O dever da verdadeira bondade é abraçar o futuro.
Se a Revolução Russa houvesse adotado — para a grande satisfação de alguns idealistas beatos — a prática de perdoar mecanicamente, recusando-se a utilizar, em sua própria defesa, as armas com que era atacada, ela não teria sobrevivido por muito tempo. Teria sido esfaqueada por França, Inglaterra, Polônia — que, de fato, tentaram a todo custo reinstalar o czar e os Brancos em Petrogrado, empregando todos os métodos possíveis.
Se a obra da revolução subsiste — e já embeleza os tempos por vir — é porque ela enfrentou, sem fraqueza e sem piedade, todo esse pavoroso emaranhado de traições, todos esses complôs — punhais cravados pelas costas — tramados pelos Guardas Brancos, pelos espiões imperialistas, pelos diplomatas e policiais, pelos sabotadores, pelos socialistas-revolucionários e anarquistas, pelos mencheviques nacionalistas, pelos “oposicionistas”, mais ou menos apoiados pelo estrangeiro — toda essa súcia encarniçada contra o país que dera o exemplo subversivo de levantar-se pela conquista do trabalho livre e da dignidade humana.
Stálin, respondendo há alguns anos (no final de 1931) a uma entrevista sobre “a atitude severa e implacável do governo soviético na luta contra seus inimigos”, disse o seguinte:
Quando os bolcheviques chegaram ao poder, começaram mostrando indulgência para com seus inimigos. Os mencheviques continuaram a existir legalmente e a publicar seu jornal. Os socialistas-revolucionários, igualmente. Até mesmo os cadetes (democratas-constitucionalistas) continuaram a publicar seu periódico. Quando o general Krasnov organizou sua marcha contrarrevolucionária sobre Petrogrado e caiu em nossas mãos, pelas regras da guerra poderíamos, ao menos, tê-lo mantido prisioneiro. Mais ainda: deveríamos tê-lo fuzilado. Mas o libertamos “sob palavra de honra”.
Qual foi o resultado disso? Logo se viu que tal brandura minava a solidez do poder soviético. Cometemos um erro ao sermos indulgentes com os inimigos da classe operária. Se tivéssemos reincidido nesse erro, teríamos cometido um crime contra a classe operária — teríamos traído seus interesses.
Isso logo se tornou evidente. Rapidamente, constatou-se que quanto mais indulgentes éramos com nossos inimigos, mais intensa era a resistência que eles nos opunham.
Pouco tempo depois, os socialistas-revolucionários, Gotz e outros, e os mencheviques de direita organizaram em Petrogrado a revolta dos alunos das escolas militares, o que resultou na morte de muitos de nossos marinheiros revolucionários.
Esse mesmo Krasnov, que libertamos “sob palavra”, organizou os cossacos brancos. Aliou-se a Mamontov e conduziu, durante dois anos, uma luta armada contra o poder soviético. Ficou claro que estávamos errados em sermos tão brandos.
E lembro, a propósito disso, o que Stálin me disse pessoalmente há sete anos, a respeito do célebre “Terror Vermelho”. Ele falou sobre a pena de morte:
Somos, por princípio, partidários da abolição da pena de morte. Acreditamos, inclusive, que não há nenhuma necessidade de mantê-la dentro do regime interno da URSS. Já a teríamos suprimido há muito tempo, se não fosse o mundo exterior — os outros, as grandes potências imperialistas — que nos obrigaram a mantê-la para garantir a nossa existência.
Com isso, Stálin evocava a acumulação dos atentados públicos mais cínicos e das conspirações clandestinas mais pérfidas que a URSS sofreu nas mãos da “grande política externa” do Império burguês — sempre e em toda parte aliada, por afinidades intensas, por afinidades químicas, aos piores inimigos da Revolução Russa.
Hoje — no fim de 1934 — a diplomacia francesa escancara os braços para a Rússia, e a simpatia pelos Sovietes está na moda entre nós, por razões de equilíbrio europeu. Mas esses jogos de superfície da grande política capitalista não devem iludir ninguém... Contudo, este estado de coisas permite, neste momento, estabelecer objetivamente diante do público francês uma verdade maior sobre a Revolução Russa e suas consequências — e isso, ao menos, é um resultado indelével. Quem ataca com justiça deve atacar com força.