Polônia 1939


Capítulo V. A beira do abismo


capa

A História, que frequentemente se apresenta com uma inesperada brutalidade, foi complacente em relação ao governo da Sanatzia. Em março de 1939, quando o governo hitlerista já estendia a mão para Dantzig, a História fez mais uma advertência à Sanatzia, advertência cujo preço foi pago pela Tchecoslováquia, ou, mais exatamente, pelo que restava da Tchecoslováquia, depois da barganha de Munique.

Os acordos de Munique, que implicavam no desmembramento da Tchecoslováquia, constituíam ao mesmo tempo um ato diplomático pelo qual a Inglaterra, a França a Itália e a Alemanha davam sua garantia comum ao que restava da Tchecoslováquia. Mas, a 15 de março de 1939, violando o acordo de Munique, desta vez sem o menor pretexto, Hitler em poucas horas, liquidava o remanescente da Tchecoslováquia desmembrada, e entrava em Praga.

Chamberlain e Daladier, os comparsas muniquistas, nem ao menos pestanejaram. Sem uma palavra aceitaram o novo fato consumado. Não deram a menor importância à opinião pública de seus países, onde se considerava como o cúmulo, da desmoralização esse completo abandono, essa entrega aos gangsters nazistas, dos últimos territórios da Tchecoslováquia, sem defesa.

Mais uma vez a História administrava à Polônia um duplo ensinamento. Era uma nova oportunidade para o governo da Sanatzia se convencer de que as declarações de Hitler, mesmo quando contidas em documentos, não passavam de farrapos de papel. Era preciso, na verdade, ser não apenas simplório, mas um louco furioso, para fiar-se em suas declarações. Mesmo um ignorante concluiria que chegara a vez da Polônia servir de alvo, na próxima agressão hitlerista. Não havia a menor razão para pensar que a atitude de Hitler a nosso respeito seria mais clemente do que a adotada em relação às outras vítimas.

O segundo ensinamento era ainda mais sério. Face à ocupação de Praga por Hitler, estávamos em condições de avaliar a importância das “garantias” dadas pela Inglaterra e pela França. A opinião pública ocidental indignou-se desde que surgiram as primeiras informações sobre o perjúrio de Hitler. O insulto era muito grave, Hitler zombava, evidentemente, das potências ocidentais. Multiplicavam-se as interpelações aos governos inglês e francês. Apesar disso, Chamberlain julgou possível declarar na Câmara dos Comuns que estava recebendo nos últimos tempos muitas reclamações contra perjúrio “baseadas em dados insuficientes” e que por isso não responderia a tais reclamações. E isto ao saber da ocupação de Praga! Um dos mais zelosos partidário de Chamberlain, Sir Archibald Southby, chegou a declarar nessa mesma sessão da Câmara dos Comuns:

“A Tchecoslováquia soçobrou porque devia soçobrar; esse soçobro teve causas internas.”

Apoiadas pelos Estados Unidos, a Inglaterra e a França continuavam de maneira tristemente consequente sua política de “não-intervenção”, que consistia, como já dissemos, em fornecer carne humana à fera hitlerista. Ainda não se tratava de carne britânica e francesa. Em troca de tal política Hitler continuaria atacando a Leste, e só a Leste — ao que pensavam os muniquistas.

Assim falou Stálin, no informe apresentado ao XVIII Congresso do Partido Comunista (bolchevique) da U.R.S.S., a 10 de março de 1939, sobre essa política de não-intervenção, iniciada quando Mussolini invadiu a Etiópia, repetida com a agressão do Eixo à Espanha e prosseguida pela Alemanha contra a Áustria e a Tchecoslováquia:

“A política de não-intervenção equivale a tolerar a agressão, a desencadear a guerra e, consequentemente, a transformá-la em guerra mundial. Na política de não-intervenção ressalta a aspiração, o desejo de não impedir aos agressores que realizem sua obra tenebrosa; de não impedir, por exemplo, que o Japão se envolva na guerra com a China e melhor ainda com a União Soviética; de não impedir a Alemanha, principalmente, de se imiscuir nos assuntos europeus, de se lançar numa guerra contra a União Soviética; de permitir a todos os beligerantes que se atolem até a cabeça no pântano de guerra, de encorajá-los dissimuladamente nesse sentido; de enfraquecê-los mutuamente e em seguida, quando estiverem suficientemente débeis, aparecer em cena com forças frescas, de intervir, naturalmente ‘no interesse da paz’ e de ditar condições aos beligerantes enfraquecidos.

Estou longe de falar sobre moral a propósito do tema da política de não-intervenção, de falar em traição, em perjúrio, etc. Seria ingenuidade falar de moral a pessoas que negam a moral. A política é a política, segundo dizem os corrompidos veteranos da diplomacia burguesa. É preciso, no entanto, considerar que o jogo político cheio de perigos e de complicações, adotado pelos paladinos da política de não-intervenção, pode terminar para eles em séria derrota.”

O dirigente da União Soviética, desse país que se forjou na luta pela paz e que, desde sua formação, não cessou de trabalhar de maneira consequente em defesa da paz no mundo inteiro, desse país que se propôs com perseverança cooperar com todas as suas forças num esforço comum de coerção ao agressor — Stálin — advertiu de maneira explícita ao mundo inteiro que a política de Hitler conduziria a uma nova guerra; deu ele a compreender que Londres e Paris queimavam os dedos no jogo de sua própria política, a qual empurrava Hitler para o Leste e excitava a Alemanha contra a União Soviética.

Os políticos ingleses e franceses mantiveram-se surdos ante essa advertência. Falando dos homens públicos ingleses em sua obra Diplomatic Prélude, 1938-1939, o historiador inglês L. B. Namier disse que eles então preocupavam-se...

“…. exclusivamente em manter as boas relações entre a Inglaterra e a Alemanha.”

Mas, no presente estudo, os muniquistas ingleses e francesas interessam menos que Beck e seus comparsas. Afinal, em 1939, não era a fronteira inglesa que devia prender nossa atenção, e sim nossa fronteira com a Alemanha, cuja extensão quase que duplicara depois de ocupada toda a Tchecoslováquia. Nós e não os britânicos é que fomos cercados por Hitler depois das terríveis “idas de março”, em 1939. E os nefastos políticos poloneses continuaram indiferentes a essa advertência fulgurante, que deveria esclarecer, em primeiro lugar, a si próprios.

Enfim, a 29 de abril de 1939, Hitler denunciou sem aviso prévio e pacto de não-agressão polono-alemão. A Polônia entrou então oficialmente a desempenhar um papel terrível, ao rufar dos tambores da propaganda hitlerista.

Em todo o mundo a opinião pública agitou-se. Em todo o mundo a opinião pública estava farta. Na Inglaterra e na França, mesmo os políticos de direita, diziam que os comunistas estavam certos, vendo em Munique a traição dos aliados e a traição da paz. Cada vez mais numerosas, elevavam-se vozes em favor da segurança coletiva, de uma aliança com a União Soviética, pedindo que se erguesse uma muralha contra novas agressões para salvar a Polônia, antes que fosse tarde demais.

Premidos por essa corrente de opinião, Chamberlain e Daladier enviaram uma missão política e militar a Moscou, encarregada de iniciar conversações com a União Soviética.

Contudo, as próprias condições em que essas missões eram enviadas, já demonstravam falta de sinceridade dos dirigentes políticos de Londres e Paris e o significado supérfluo de tal gesto.

Lembremos que quando se tratou de vender a Tchecoslováquia a Hitler, o venerável Primeiro-Ministro Chamberlain viajou de avião três vezes para a Alemanha, sem que antes disso tivesse voado uma só vez. Entretanto, quando se tratava de salvar a Polônia e a paz e de iniciar negociações com a União Soviética, enviou-se um homem de segundo plano, William Strang, e, o que é pior, desprovido de plenos poderes. Também é característico, sem dúvida, que para se dirigir à Alemanha o chefe do governo britânico tenha tido pressa, viajando de avião, a fim de atender a um simples aceno de Hitler e que, para a viagem à União Soviética, visando entabular conversações de importância histórica, tenha sido escolhido o meio de comunicação mais lento: um navio para Leningrado!

O relatório do Embaixador hitlerista em Londres, Dirksen, enviado a 1.º de agosto de 1939 (n.º 278) ao Ministro do Exterior de Berlim nos informa detalhadamente sobre a composição e os poderes dessa missão militar. A paz do mundo estava suspensa por um fio, os alemães começavam a provocar “incidentes” previstos em seus planos, perto da fronteira polonesa; e eis o que escrevia então Dirksen:

“A continuação de conversações tendo em vista um pacto com a Rússia, apesar do envio de uma missão militar — e talvez devido mesmo ao envio dessa missão — é considerada aqui com cepticismo. A composição da missão militar inglesa prova isso: um almirante, até agora comandante de Porthmouth, que está praticamente na reserva e que jamais serviu no Estado-Maior do Almirantado; um general também desligado da tropa; um general de aviação, bom piloto e notável instrutor da arma aérea, que entretanto não é um estrategista.

Isso prova que a missão militar tem mais em vista apreciar o valor combativo das forças soviéticas do que entabular acordos práticos.”

Essa apreciação é eloquente. Cinco minutos antes da hora H, Chamberlain e Daladier não chegavam a concluir uma aliança com a União Soviética. Por sua vez, Chamberlain assinou um pacto com a Polônia, que, segundo se previa, não se revestia de nenhuma importância prática para a Polônia. Tal previsão seria tragicamente confirmada em setembro de 1939.

A Alemanha também não ligava muita importância à “aliança” polono-britânica. A Alemanha sabia que o único perigo real para si estaria no combate em duas frentes, medindo forças com os exércitos soviéticos. Entretanto ela sabia muito bem que podia, em qualquer circunstância, contar com o “seu” governo polonês, com Rydz-Smigly e Beck. Não era por acaso que Dirksen escrevia depois a Ribbentrop, através de Weizsacker, a 19 de agosto de 1939:

“Começa-se a compreender que as dificuldades específicas de relações entre a Polônia e a Rússia diminuem o valor da Polônia como aliado.”

E com efeito, foi exatamente a política de Beck que deu o golpe de misericórdia nas negociações de Moscou entre a U.R.S.S., a Inglaterra e a França, negociações que de resto não eram conduzidas pela Inglaterra e a França senão para iludir a opinião pública. Apesar das dificuldades, as conversações iam tendo prosseguimento, até que o embaixador de Beck em Moscou, Grzybowski, interferiu nos entendimentos, declarando que

“…. a Polônia não considera possível concluir um pacto de assistência mútua com a União Soviética.” (Vide Falsificadores da História).

Convém observar que no curso dessas conversações soube-se que a “ajuda” prometida então pela Inglaterra em caso de agressão hitlerista constava de cinco divisões de infantaria e uma divisão motorizada, todas situadas além da Mancha, enquanto a União Soviética representava 136 divisões de infantaria, 5.000 peças de artilharia médias e pesadas, cerca de 100.000 tanques pesados e leves, mais de 5.000 aviões de combate, tudo isso nas proximidades da fronteira polonesa. Reflitamos sobre essas cifras que ilustram “ajuda” entre aspas e AJUDA com maiúsculas e assim compreenderemos toda a monstruosidade da declaração de Grzybowski.

Como já dissemos, a História foi generosa em relação aos chefes da Sanatzia: até ao último instante houve advertência, houve oportunidades para a saída do trágico isolamento, houve a possibilidade de receber uma ajuda preciosa. Em meio às inumeráveis façanhas criminosas e estúpidas que marcam o reinado da Sanatzia, esta que acabamos de narrar é a mais chocante.

É certo que Chamberlain e Daladier eram, nesses arranjos pró-nazismo, bem dignos do colega Beck, pois também passavam a corda no pescoço de seus povos. Permaneceram, até o derradeiro momento, fiéis à sua política: excitar e provocar a Alemanha hitlerista contra a União Soviética, política mascarada por manobras diplomáticas bem desastradas e até ingênuas, como o envio da missão Strang ou o envio dos generais de que trata de maneira tão justa o relatório de Dirksen. A todas essas manobras a União Soviética respondia com propostas concretas de ajuda mútua, baseadas no princípio da igualdade entre as partes contratantes.

É muito significativo que cada proposta concreta da U.R.S.S. — já no verão de 1939 — tenha esbarrado em recusas e sabotagens. Assim, quando a União Soviética propôs a convocação imediata de uma conferência entre os países interessados, Inglaterra, França, Romênia, Polônia, Turquia e União Soviética, para examinar o mais depressa possível a atitude desses países, dela tirando conclusões, o governo britânico julgou de bom alvitre declarar que a proposta soviética era prematura! Evidentemente, as bombas alemãs ainda não caíam sobre Londres. Antes, elas deveriam abater-se sobre Varsóvia e se os desejos do Sr. Chamberlain se realizassem, essas bombas também deveriam cair em primeiro lugar sobre Moscou….

Sob os mais diversos pretextos, os negociadores anglo-franceses faziam com que as conversações se arrastassem sem resultados. O velho Lloyd George, em forma concisa, assim comentava a situação:

Neville Chamberlain, Halifax e John Simon não desejam nenhum acordo com a Rússia.” (Falsificadores da História).

 

Qual a razão desse procedimento? Por que os negociadores faziam com que as conversações se arrastassem, impedindo que se chegasse a qualquer solução positiva do problema da assistência mútua? O Times de Londres responde a essa pergunta:

“Uma aliança rápida e resoluta com a Rússia pode prejudicar outras negociações.” (Falsificadores da História).

Que “outras negociações” seriam essas? Que negociações, que tocavam mais de perto o órgão dos conservadores britânicos do que a conclusão de uma aliança com a União Soviética às vésperas do ataque à Polônia? Ficamos sabendo quais, através da leitura dos arquivos do embaixador Dirksen em Londres, publicadas depois da guerra.

Desses documentos, cujas passagens principais reproduziremos aqui, tira-se a conclusão de que se tratava de entendimentos, ou, falando linguagem clara, de combinações anglo-alemãs, arquitetadas entre Londres e Berlim por intermédio de colaboradores íntimos de Chamberlain, do Ministro Robert Hudson e do conselheiro Horácio Wilson, com Helmuth Wohlthat, conselheiro de Hitler. Isto no mês de julho de 1939, isto é, no momento em que se desenrolavam os entendimentos de Moscou.

Mas, enquanto nas conversações de Moscou os ingleses se mostravam muito reticentes e não procuravam chegar a uma conclusão, em Londres sua atitude era bem diversa. Em nota de 21 de julho de 1939, assinada por Dirksen, podemos ler:

“Sir Horace Wilson disse expressamente ao Sr. Wohlthat que a conclusão de um pacto de não-agressão (com a Alemanha — N. do T.) permitiria à Inglaterra renunciar aos compromissos firmados com a Polônia. O que fazia o problema polonês perder muito de sua acuidade.”

O governo britânico estava disposto a pagar muito caro à Alemanha a possibilidade de se desobrigar de compromissos com a longínqua Polônia. (Lembremos que na época não havia Plano Marshall e que a Inglaterra tinha com que pagar….)

No mesmo documento vemos, mais adiante, que Wilson

“…. havia declarado que o Führer não tinha senão que apanhar uma folha de papel e anotar os pontos que lhe interessavam; o governo britânico estava pronto a examiná-los.”

O relatório que Dirksen enviou a Berlim a 1.º de agosto de 1939 (A. 3107) é muito mais concreto; sugere um plano preestabelecido para toda essa maquinação:

  1. A Alemanha compromete-se a não se imiscuir nos negócios do Império Britânico.
  2. A Inglaterra compromete-se a respeitar plenamente as esferas de interesse alemães, no Leste e no Sudeste europeus. Isso teria como consequência que a Inglaterra renunciaria às garantias concedidas a certos Estados situados nessas esferas. A Inglaterra compromete-se em seguida a trabalhar para que a França repudie sua aliança com a União Soviética e renuncie a todos os interesses que tenha no Sudeste da Europa.
  3. A Inglaterra compromete-se a pôr fim às conversações atualmente mantidas com a União Soviética, visando à conclusão de um pacto.

Nós, a Polônia, estávamos no número desses certos países “das esferas de interesse alemão”. E nós escrevemos isso com calma, sem exaltação, porque temos presentes as palavras de Stálin, dizendo que é ingênuo aplicar critérios morais a pessoas estranhas à moral humana.

Tratava-se, no caso, de assegurar, à custa da Polônia, a colaboração hitlerista, de atirar a Alemanha contra a União Soviética. Para os políticos britânicos a Polônia não era mais do que uma etapa, do que um passo à frente, sem nenhuma importância, que era preciso dar, para atingir ao objetivo. Diante desses documentos compreende-se melhor a sabotagem das conversações de Moscou. Somente para mostrar em que atmosfera se processavam as relações anglo-hitleristas, acrescentemos que, em seu Relatório Final, Dirksen, enviando, depois da declaração de guerra, o balanço de um ano de atividade como embaixador do Reich em Londres, conta uma conversação que teve com Halifax, então Ministro do Exterior:

Halifax chegou a dizer que o mais belo momento de sua vida seria aquele em que o Führer, em visita oficial a Londres, marchasse ao lado do Rei, ao longo do Mall (rua de Londres que conduz ao palácio de Buckingham).”

Tudo isso passava-se em Londres no momento em que os selos colocados no tratado de aliança polono-britânica ainda não haviam secado!

A questão da ajuda soviética à Polônia, o interesse em forçar a França e a Inglaterra a concluírem com a União Soviética um acordo sólido e leal de garantia da segurança polonesa, essas duas exigências deveriam naquele momento partir da Polônia. A voz da Polônia pedindo uma aliança com a U.R.S.S, deveria ressoar muito forte. A Polônia é que deveria de maneira a mais veemente exprimir sua impaciência ante a demora nas conversações de Moscou.

No entanto, em lugar disso….

Em lugar disso as conversações de Moscou foram interrompidas sem que se houvesse chegado a um entendimento. Dissemos antes que foi precisamente o coronel Beck quem lhe desferiu o golpe fatal. Tal fato chegou ao conhecimento de todo o mundo por ocasião da entrevista concedida ao Izvestia, a 27 de agosto de 1939, pelo marechal Vorochilov, a qual a seguir reproduzimos:

“PERGUNTA: Como terminaram as conversações realizadas com as missões militares francesa e inglesa?

RESPOSTA: Em vista do surgimento de sérias divergências, as conversações foram interrompidas. As missões militares deixaram Moscou.

PERGUNTA: Pode-se saber que divergências surgiram?

RESPOSTA: A missão militar soviética observava que a U.R.S.S., não tendo fronteira comum com o agressor, não podia prestar assistência à França, à Inglaterra e à Polônia senão na medida em que suas tropas pudessem passar pelo território polonês, pois não existe outro caminho que permita às tropas soviéticas entrar em contacto com as tropas do agressor. Como as tropas inglesas e americanas, durante a última guerra mundial, não poderiam participar da cooperação militar com os exércitos franceses se não operassem no solo francês, as forças armadas soviéticas não podiam tomar parte na cooperação militar com as forças armadas da França e da Inglaterra se não lhes deixassem penetrar no território polonês. Apesar do evidente fundamento dessa atitude, as missões militares inglesa e francesa não se colocaram no mesmo ponto de vista da missão soviética e o governo polonês declarou abertamente que não necessitava e que não aceitaria a ajuda militar soviética. Esta circunstância tornou impossível a cooperação militar da U.R.S.S. e desses países. Tal era o ponto das divergências. E foi nesse ponto que se interromperam as conversações.”

A política soviética não havia conseguido quebrar a resistência dos Chamberlain, Daladier e Beck; não deixaram que ela — no último minuto, no momento em que ainda era possível se afastar um perigo mortal para a Europa — edificasse a frente antifascista dos povos. Mais uma vez triunfaram os fomentadores da guerra. Mais uma vez os fomentadores de guerra tiveram a impressão de que, em detrimento da Polônia, haviam empurrado a Alemanha para o Leste, primeiro contra a Polônia e depois contra a União Soviética. Pensavam que Hitler desempenharia para eles o papel de gendarme antissoviético. E estavam prontos a pagar por esse trabalho um preço generoso, em territórios estrangeiros.

Hitler. no entanto, queria marchar não como gendarme e sim como patrão e senhor da Europa. E somente por esse motivo, e não devido a compromissos fictícios em relação à Polônia, Chamberlain e Daladier foram pouco depois obrigados a declarar (e somente declarar) guerra à Alemanha.

Pode-se então estranhar que em tais condições a U.R.S.S., embora não tendo jamais confiado na Alemanha hitlerista, que combateu desde seu surgimento com energia, enquanto outros a apoiavam — pode-se então estranhar, dizíamos nós, que em tais condições a U.R.S.S. tenha aceito, a 23 de agosto de 1939, a proposta alemã de concluir um pacto de não-agressão? Podia permitir-se a União Soviética não aproveitar, para sua própria segurança e em benefício da futura vitória sobre o fascismo, essa ocasião que se oferecia para derrotar os planos dos fomentadores de guerra que visavam, mediante o sacrifício da Polônia, empurrar a Alemanha contra a União Soviética isolada?

A atitude adotada então pela União Soviética é analisada de maneira judiciosa na publicação do Birô de Informações Soviéticas intitulada Os Falsificadores da História. Eis o que diz, à página 60, esse documento:

“A União Soviética estava diante desta alternativa:

OU BEM aceitar, com objetivo de autodefesa, a proposta feita pela Alemanha de assinar um pacto de não-agressão e assegurar assim para a União Soviética, o prolongamento da paz por um certo lapso de tempo que o Estado soviético utilizaria a fim de melhor preparar suas forças, tendo em vista a resposta ao ataque eventual do agressor;

OU BEM não aceitar a proposta da Alemanha relativa ao pacto de não-agressão e permitir assim aos provocadores de guerra do campo das potências ocidentais que envolvessem imediatamente a União Soviética num conflito armado com a Alemanha, isto numa situação absolutamente desfavorável para a União Soviética, que seria completamente isolada.

Nessas condições, o governo soviético viu-se obrigado a escolher e a assinar um pacto de não-agressão com a Alemanha.”

É preciso apresentar claramente esse dilema brutal, com toda a honestidade, e, com espírito consequente, eliminar todo vestígio da propaganda reacionária desse fim de agosto e do mês de setembro de 1939, da qual ainda se servem os provocadores ocidentais. Embora reconheçam que a Polônia da Sanatzia não alimentava senão ódio à U.R.S.S., que rejeitou sua ajuda e se recusou a permitir a passagem das tropas soviéticas pelo território polonês, os reacionários afirmavam que a União Soviética não tinha, apesar de tudo, o direito de garantir, mesmo provisoriamente, suas próprias fronteiras e de ganhar tempo visando preparar-se, visando repelir a agressão inevitável!

A esse respeito convém reproduzir a última parte da entrevista do marechal Vorochilov, a que nos referimos acima:

“Não foi porque a U.R.S.S. concluiu um pacto de não-agressão com a Alemanha que se interromperam as conversações militares com a Inglaterra e a França. A

U.R.S.S. concluiu um pacto de não-agressão com a Alemanha em consequência, entre outras coisas, do fato de que as conversações militares com a França e a Inglaterra haviam atingido a um ponto morto, em face de divergências insuperáveis.”

Podemos ainda acrescentar a essas palavras que a cronologia e o desenrolar dos acontecimentos provam indiscutivelmente que não foi porque a União Soviética houvesse concluído um pacto de não-agressão com a Alemanha, a 23 de agosto de 1939, que foram interrompidas sem resultados as conversações franco-anglo-soviéticas de abril a agosto de 1939. Ao contrário disso, a União Soviética concluiu um pacto de não-agressão com a Alemanha porque as conversações franco-anglo-soviéticas foram praticamente interrompidas sem resultado, por culpa da Inglaterra de Chamberlain, da França de Daladier e da Polônia de Beck e isso apesar dos esforços da diplomacia soviética, a primeira a dar o toque de alarma e a reclamar, durante anos, a conclusão de uma aliança defensiva entre os governos ameaçados pela agressão hitlerista.

A perspectiva e a clarividência da política soviética deveria aparecer mais tarde em toda sua plenitude. Quando, depois da derrota relâmpago da Polônia da Sanatzia, a União Soviética ocupou a Bielorrússia ocidental e Ucrânia ocidental, não apenas se consumava um ato de justiça histórica em relação aos povos bielorrusso e ucraniano, mas também se asseguravam as bases da vitória futura. A data de 17 de setembro de 1939 devia igualmente desempenhar um papel de importância particular no conjunto da luta contra o hitlerismo, instituindo uma das principais condições para a futura vitória de todo o campo democrático, a exigência fundamental da libertação da Polônia do jugo hitlerista.

Entre os políticos antissoviéticos mais categorizados o primeiro a se convencer dessa verdade foi o próprio Churchill. Falando a 1.º de outubro de 1939 na Câmara dos Comuns, declarou, depois de haver, como de seu costume, lançado toda uma série de invectivas antissoviéticas:

“É de toda evidência que os russos deviam forçosamente montar guarda nessa linha, a fim de garantir seu país contra a ameaça nazista. Seja como for, essa linha existe, o estabelecimento de uma frente oriental é hoje um fato consumado e a Alemanha nazista não ousa atacar essa frente. Quando o Sr. Ribbentrop foi convocado a Moscou, na última semana, era para tomar conhecimento desse fato e reconhecer que os nazistas deviam renunciar inteiramente e imediatamente a suas pretensões sobre os Estados bálticos e sobre a Ucrânia. (Falsificadores da História, pág. 67 da edição francesa).

Graças a isso, a União Soviética obteve mais de vinte meses de paz, que utilizou preparando-se intensamente para a luta contra Hitler. Graças a isso, enfim, o exército hitlerista não deveria iniciar sua ofensiva antissoviética a partir da linha Narev-Minsk-Kiev, mas de outra linha, situada a centenas de quilômetros atrás, o que sem dúvida diminuiu a duração da guerra e acelerou a libertação da Europa do jugo hitlerista.

Mas voltemos a setembro de 1939. Consequentes em sua loucura, os homens da Sanatzia empurraram a Polônia, na hora trágica de sua história, ao mais completo isolamento.

Não foi somente quanto à política externa que eles foram consequente até o fim. Era evidente que, devido à política externa da Sanatzia, ficando a Polônia só, face a face com Hitler e reduzida às suas próprias forças (a Inglaterra não tinha senão cinco divisões situadas em seu território), não poderíamos prolongar a defesa senão pela mobilização total das forças nacionais. O povo esperava, nas jornadas de agosto de 1939, pelo menos um gesto do governo que exprimisse um sentimento de união nacional. Esperava-se sobretudo a anistia dos presos políticos e uma série de outras medidas de caráter antifascista para se conseguir a união nacional contra Hitler. Não devíamos nós, com efeito, bater-nos contra os fascistas?

Mas não. Foi nomeado comissário especial do Interior o governador Kostek-Biernacki! O fato parece incrível e não podemos esquecê-lo. Entre todos os ignóbeis torturadores da Sanatzia, foi justamente esse o escolhido, um massacrador de operários e camponeses, um sádico dos cárceres de Brest-sobre-o-Bug e de Bereza-Kartuska!

A escolha era muito significativa: nada de histórias, nada de fraternidade de armas. Obediência cega e marchar para a frente!

Os senhores da Sanatzia não teriam sido fiéis a si mesmo no momento da agonia, se não se dirigissem ao povo como fanfarrões. A fanfarronada exprimia-se pelo grito de guerra: “Comandante, conduzi-nos a Berlim!”

Mas o comandante não pensava em Berlim….

Esse balanço sumário da “independência” burguesa da Polônia governada pela Sanatzia é terrível. Terrível mas também instrutivo. Contém ensinamentos mais profundos que os de uma vasta exposição teórica sobre o egoísmo e o cosmopolitismo da burguesia, sobre a completa ausência de sentimentos patrióticos, sobre o fato de que a burguesia só se orienta por seus interesses de classe.

Mais vale perecer sem ajuda da União Soviética a ser salvo graças a uma aliança com o Estado operário e camponês: tal era o pensamento político da burguesia polonesa à borda do abismo. Na verdade, os pilsudskistas, os nacional-democratas e os socialistas de direita pensavam de modo um pouco diferente. Pensavam: é melhor que o país se perca sem a ajuda soviética, é melhor que o país enfrente os tanques alemães com as mãos limpas, a salvar-se graças à ajuda do Estado Socialista.

Pessoalmente, esses senhores já preparavam a fuga na direção de Zaleszczyki.


Inclusão: 18/03/2024