O Futuro Era Agora
O movimento popular do 25 de Abril
Os 580 dias - Depoimentos orais e citações

Edições Dinossauro


Não soubemos explorar a crise de poder
Mariano Castro, vendedor, 40 anos


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O 25 de Abril apanhou-me na clandestinidade, em Loures. Eu militava nos CCR e, para não ser preso, havia quase dois anos que andava com nome falso, a saltar de casa em casa. Por azar, nessa altura tinha perdido os contactos. Apesar das notícias na rádio, achei mais prudente não aparecer de imediato. O golpe militar era há muito esperado, mas nada nos garantia que não redundasse a breve prazo num novo fôlego da ditadura. Só quando soube da manifestação do 1º de Maio é que não tive mais dúvida que se estava a dar uma grande reviravolta.

Entrei logo nos contactos entre os grupos marxistas-leninistas, com vista à formação dum novo partido comunista, revolucionário, porque sabíamos que aí estava a grande desvantagem da esquerda. Não tínhamos dúvida de que o PCP iria fazer malograr as potencialidades da queda do fascismo. A unificação dos grupos não foi fácil; as desconfianças eram grandes e foi só a força do movimento de massas que a tornou inevitável. Sobretudo a seguir ao 28 de Setembro, as ocupações de casas, a formação dos Grupos de Vigilância Antifascista e a criação da Voz do Povo contribuíram muito para derrubar as barreiras e pôr os militantes a trabalhar juntos. Em fins de 74, formou-se a UDP e a minha actividade passou a centrar-se aí, primeiro em Lisboa, mais tarde no Porto e, já depois do 25 de Novembro, em Trás-os-Montes.

Valerá a pena analisar um dia as ambiguidades dessa frente que tinha o emblema da foice e do martelo, acabando por criar uma grande confusão entre partido comunista e frente popular. Por outro lado, a implantação inicial dos marxistas-leninistas, muito mais nos bairros do que nas empresas, e a “vocação” que daí lhes veio para chefiarem o movimento de ocupações de casas deixou marcas em toda a sua actividade posterior, uma certa marginalidade em relação à corrente principal. As ocupações de terras, os saneamentos, as comissões e plenários de trabalhadores — esses é que foram sem dúvida os pontos mais avançados do movimento operário, com tal peso que caíam governos por se lhes tentarem opor. Ora, aí, a hegemonia coube sempre ao PCP.

Não esqueço que os grupos foram adquirindo posições fortes em algumas das maiores empresas. Com a grande manifestação da Lisnave, em Agosto de 74 e com a manifestação de 7 de Fevereiro [de 75], da comissão Inter-empresas, denunciada pelo PCP como “manobra da CIA”, os marxistas-leninistas começaram mesmo a minar a influência do PC em certos sectores operários e a marcar pontos na luta para arrancar a vanguarda operária à influência reformista. Do mesmo modo, no Alentejo começava a dar-se uma lenta penetração das nossas palavras de ordem. Mas os grupos nunca ganharam raízes no movimento sindical; a pouca intervenção que fizeram era muito sectária e, devido a isso, a sua influência ficou sempre muito fragilizada. Isso explica o esboroar tão rápido da corrente marxista-leninista depois do 25 de Novembro, quando a contra-revolução começou a ganhar terreno. Foi, claro, consequência da crise internacional desta corrente (o afundamento da China e da Albânia) mas foi também, e muito, devido à debilidade das suas raízes na classe operária e em particular nos sindicatos.

De qualquer modo, é altura de sublinhar que, com as manifestações conduzidas pelos revolucionários, pela primeira vez se exprimiram em Portugal, com amplitude de massa, posições frontalmente anti-imperialistas, anti-NATO, anti-americanas. Neste aspecto, a corrente marxista-leninista fez uma ruptura histórica com a prática vacilante, ambígua e conciliatória do PCP. O assalto à embaixada de Espanha, ainda hoje condenado por todas as forças políticas como acto de “aventureirismo” e “provocatório”, foi uma grande acção de solidariedade internacional.

Mas nesta como noutras acções avançadas, não podemos esquecer que a polícia não interveio porque o COPCON não o permitia. Grande parte da audácia do movimento popular vinha de as pessoas saberem que tinham um “guarda-chuva” que as protegia da repressão e nunca terem que encarar a necessidade de se preparar para uma luta frontal, violenta. Se o inimigo, em vez de ser quase invisível, tivesse aparecido e se tivessem travado combates parcelares, etapa a etapa, talvez os trabalhadores não tivessem ficado paralisados, como ficaram, perante o golpe de 25 de Novembro. Isto quer dizer que o COPCON, apoiando as acções populares, retirou-lhes sempre o protagonismo, pôs os fascistas e pides ao abrigo do castigo dos trabalhadores e evitou que estes atingissem a maioridade política.

Para se legitimar o 25 de Novembro, invoca-se habitualmente a necessidade de atalhar um “golpe de esquerda” que estaria em marcha. Pura mentira. No que respeita ao PCP, a revolução estava inteiramente fora da sua estratégia, embora não pudesse dizê-lo na cara dos trabalhadores; pretendia somente estabilizar uma democracia burguesa que lhe garantisse um lugar confortável nas instituições. A chamada “esquerda militar” não sabia o que fazer. E a extrema-esquerda estava muito longe de poder constituir-se num autêntico partido operário e revolucionário.

Só o prolongamento da crise de poder teria permitido que o movimento de massas viesse a produzir um pólo revolucionário. As forças burguesas compreenderam-no. Direita, PS, “moderados” e salazaristas viram que havia um perigo iminente de o poder “cair na rua” e não hesitaram em aliar-se. A figura de proa foi o Ramalho Eanes, mas o golpe foi do Jaime Neves e dos bombistas, com o beneplácito do Mário Soares.

★★★

O PCP não organizou, não participou e não apoiou as manifestações contra o congresso do CDS”.

(Organização Regional do Norte do PCP)

O boicote ao comício do CDS foi obra de grupos radicais desligados do processo da luta de classes (...). Esses manifestantes substituíram a análise da situação de classes e da relação de forças pela heroicidade aventureirista”.

(Comunicado do MES)

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Inclusão 23/11/2018