História da Revolução Russa

Léon Trotsky


A primeira coligação


A despeito de todas as teorias, declarações e marcas oficiais, o poder só pertence ao governo provisório no papel. A revolução, apesar da resistência da pretendida democracia, avançava, levantava novas massas, consolidava os sovietes, armava, ainda se de forma limitada, os operários. Os comissários provinciais do governo e «os comités de acção social» que se encontravam junto deles e nas quais predominavam, como habitualmente, representantes das organizações burguesas, eram expulsas naturalmente e sem esforço pelos sovietes. Em certos casos, quando os agentes do poder central teimavam, graves conflitos surgiam. Os comissários acusavam os sovietes provinciais de desconhecer o poder central. A imprensa burguesa metia-se a gritar, dizendo que Cronstadt, Schlusselburgo ou Tsaritsyne se tinham separado da Rússia e transformaram-se em repúblicas independentes. Os sovietes locais protestavam contra esta absurdidade. Os ministros agitavam-se. Os socialistas do governo partiam em passeios pelo país exortando, ameaçando, justificando-se diante da burguesia. Mas nada de tudo isso não modificou a relação de forças. A inevitabilidade do processo que sapava o duplo poder exprimia-se já pelo facto que em ritmos, na verdade desiguais, desenvolviam-se em todo o país.

Primeiro órgãos de controlo, os sovietes transformavam-se em órgãos administrativos. Eles não se resignavam a qualquer teoria de divisão dos poderes e intervinham na direcção do abastecimento e de transporte mesmo nos assuntos judiciários. Os sovietes decretavam, sob a pressão dos operários, o dia de oito horas de trabalho, eliminando os administradores demasiado reaccionários, destituíam os mais insuportáveis dos comissários do governo provisório, procediam a detenções e a buscas, proibiam os jornais hostis. Sob a influência das dificuldades de abastecimento constantemente agravadas e de penúria de mercadorias, os sovietes provinciais comprometiam-se na via das taxações, nas proibições de saída das reservas departamentais e das requisições. Portanto, à cabeça dos sovietes, em todo o lado, encontravam-se socialistas-revolucionários e mencheviques que afastavam com indignação a palavra de ordem bolchevique: «todo o poder aos sovietes».

Extremamente edificante, sob esse aspecto, aparece a actividade do Soviete de Tiflis, no próprio centro da Gironde menchevique, que deu à Revolução de Fevereiro líderes tais que Tseretelli e Tchkheidze, e seguidamente abrigou-os quando dispensaram em vão os últimos recursos em Petrogrado. O Soviete de Tiflis, dirigido por Jordania, futuro chefe da Georgia independente encontrava-se, a cada instante, obrigado a caminhar segundo os princípios do partido menchevique que aí dominava e agia como um poder. O Soviete confiscava para as suas necessidades uma tipografia privada, procedia a prisões, concentrava entre as suas mãos a instrução judiciária e os tribunais em questões políticas, racionava o pão, taxava os produtos alimentares e os objectos de primeira necessidade. A discordância entre a doctrina oficial e os factos vitais, que estabeleceram-se logo nos primeiros dias, aumentaram no decorrer de Março e Abril.

Em Petrogrado, respeitava-se, pelo menos, o decoro, ainda se, nós vimo-lo, nem sempre. As jornadas de Abril, todavia, mostraram de maneira pouco equívoca a impotência do governo provisório, o qual não encontrou, mesmo na capital, sérios apoios. Nos primeiros dias de Abril, o governo definhava e apagava-se. «Kerensky declarava com angústia que o governo já não existia, que em vez de trabalhar deliberava somente sobre a sua própria situação» (Stankevitch). Desse governo que se pode dizer, em suma, que, até às jornadas de Outubro, passou por crises nos momentos difíceis, e que, nos intervalos das crises... existia. Continuamente deliberando «sobre a sua situação», não tinha tempo de se ocupar dos assuntos.

Da crise provocada em Abril pela repetição geral das batalhas futuras, podia-se conceber teoricamente três saídas. Ou o poder devia voltar integralmente à burguesia: o que só era possível através da guerra civil; Miliokov tentou, mas falhou. Ou seria preciso remeter todo o poder aos sovietes: poder-se-ia aí chegar sem qualquer guerra civil, levantando somente o braço – bastava querer. Mas os conciliadores não queriam e as massas mantinham os conciliadores na sua sua estima, mesmo se enfraquecida. Assim, as duas saídas principais – na linha burguesa como na linha proletária – encontraram-se fechadas. Havia uma terceira possibilidade: a meia saída confusa, híbrida, traidora de um compromisso. O que se nomeia: coligação.

Pelo fim das jornadas de Abril, os socialistas nem mesmo pensaram numa coligação: esses homens, em geral, nunca previram nada. Pela resolução do 21 de Abril, o comité executivo tinha oficialmente transformado o duplo poder de facto em princípio constitucional. Mas a coruja da sabedoria, ainda desta vez, voou muito mais tarde: a consagração jurídica do dualismo instituido em Março – os reis e os profetas – teve lugar no momento onde esta forma acabara de explodir sob a pressão das massas. Os socialista tentaram fechar os olhos sobre a questão. Miliokov conta que, o governo tendo colocado a questão da coligação, Tseretelli declarou isto: «Qua vantagem vocês tiram da nossa entrada no governo? Porque enfim... no caso que vocês não sejam conciliantes, seremos forçados a sair ruidosamente do governo.» Tseretelli tentava fazer medo aos liberais ao prometer-lhes «ruído».

Como sempre, para motivar a sua política, os mencheviques apelaram aos interesses da própria burguesia. Mas a água subia-lhes até às barbas. Kerensky esforçou-se em intimidar o comité executivo: «O governo encontra-se hoje numa posição insustentável; os rumores da demissão que correm não correspondem a qualquer manobra política.» Ao mesmo tempo, exercia-se a pressão do lado das esferas burguesas. A duma municipal de Moscovo votou uma resolução em favor da coligação. No 26 de Abril, quando o terreno estava preparado, o governo provisório, num manifesto especial, proclamou a necessidade de juntar aos trabalhos do Estado «as forças criadoras activas do país que ainda não participavam nele.» A questão estava claramente colocada.

Contudo, a opinião resistia energicamente à coligação. No fim de Abril pronunciaram-se contra a entrada dos socialistas no governo os sovietes de Moscovo, de Tiflis, de Odessa, de Ekatarinburgo, de Nijni-Novgorod, de Tver e outros. Os seus motivos foram nitidamente exprimidos por um dos líderes mencheviques em Moscovo: se os socialistas entram no governo, não haverá ninguém para guiar o movimento de massas «para uma determinada direcção». Mas era difícil fazer com que se admitisse esta consideração aos operários e aos soldados contra os quais ela era dirigida. As massas, na medida que elas ainda não seguiam os bolcheviques, eram todas pela entrada dos socialistas no governo. Se é bom que Kerensky seja ministro, seis Kerensky ainda melhor. As massas não sabiam que isso se chama uma coligação burguesa, e que esta queria dissimular-se por detrás dos socialistas para agir contra o povo. A caserna, entreviam a coligação de forma diferente que no palácio Maria. As massas queriam, por intermédio dos socialistas, expulsar a burguesia do governo. Foi assim que duas pressões indo no sentido contrário combinaram-se por um momento numa só.

Em Petrogrado, um certo número de contingentes militares, cuja divisão de autos blindados simpatizava com os bolchevique, se pronunciaram por um governo de coligação. No mesmo sentido votou, uma esmagadora maioria, a província. As ideias da coligação predominavam entre os socialistas; eles temiam ter de entrar no governo sem os mencheviques. Pela coligação declarou-se enfim o exército. Um dos seus delegados exprimiu, mais tarde, em Junho, no Congresso dos sovietes, a atitude da frente em relação ao poder:

«Nós pensamos que a queixa que escapa ao exército, quando ele soube que os socialistas não queria entrar no governo, trabalhar em comum com os homens nos quais não confiavam, enquanto que todo o exército era forçado em continuar a morrer com homens em quem ele não confiava – nós pensamos que esta queixa não tinha sido ouvida em Petrogrado.»

Nesta questão como em todas as outras, a guerra tinha uma importância decisiva. Os socialistas dispunham-se primeiro a suspender diante da guerra, como diante do poder, em ganhar tempo. Mas a guerra não esperava. Os Aliados também não. A frente não queria esperar mais. Até ao momento da crise governamental chegavam ao comité executivo delegados da frente que colocavam aos seus líderes esta questão: fazemos a guerra ou não? O que significava: tomais a responsabilidade da guerra ou não? Era impossível de escapar-lhe pelo silêncio. A mesma questão era posta pela Entente numa linguagem meio ameaçadora.

A ofensiva de Abril sobre a frente Oeste da Europa custou muito caro aos Aliados e não deu resultados. No exército francês, algo foi abanado sob a influência da Revolução russa e o fracasso da própria ofensiva sobre a qual se tinham planeado tantas esperanças. O exército, segundo o marechal Pétain, «dobrava à mão». Para afastar esse processo ameaçador, o governo francês necessitava de uma ofensiva russa e, esperando, pelo menos, uma firme promessa ofensiva. Além do alívio material que devia resultar daí, era preciso, o mais cedo possível, arrancar a aureola de paz à Revolução russa, extirpar toda esperança do coração dos soldados franceses. Comprometer a revolução tornando-a cúmplice dos crimes da Entente, pisar a bandeira insurreccional dos operários e soldados russo no sangue e na lama da carnificina imperialista.

Para atingir esse objectivo elevado, todas as alavancas foram utilizadas. Entre elas, os sociais-patriotas da Entente não foram metidos na última fila. Os mais experientes dentre ele foram enviados em missão na Rússia revolucionária. Chegaram preparados, a consciência ligeira e a língua solta. «Os sociais-patriotas do estrangeiro – escreveu Sokhanov – foram recebidos de braços abertos no palácio Maria... Branting, Cachin, O' Grady, de Bruckere e outros, sentiam-se como em casa e constituíam com os nossos ministros uma frente única contra o Soviete.» É preciso reconhecer que mesmo o Soviete conciliador nem sempre à vontade com esses senhores.

Os socialistas aliados percorreram as frentes. «O general Alexeiev – escreveu Vandervelde – fazia tudo para que os nossos esforços se juntassem aos que um pouco mais cedo tinham feito das delegações de marinheiros do mar Negro, Kerensky, Albert Thomas, com o objectivo de completar o que ele chamava a preparação moral da ofensiva. «O presidente da IIª Internacional e antigo chefe do estado-maior de Nicolau II encontraram assim uma linguagem comum na luta pelos claros ideais da democracia. Renaudel, um dos líderes do socialismo francês pôde exclamar com alívio: «Agora, nós podemos falar sem corar da guerra do direito.» Com um atraso de três anos, a humanidade aprendeu que essa gente tinha motivo para corar. No primeiro de Maio, o comité executivo, tendo passado por todas as fases de hesitação imagináveis, por uma maioria de quarenta e um votos contra dezoito, e três abstenções, decidiu, enfim, participar no governo de coligação. Votaram contra somente os bolchevique e um pequeno grupo de mencheviques internacionalistas. Não deixa de ter interesse notar que, como vítima de uma aproximação mais estreita entre a democracia e a burguesia, caiu o líder confesso desta última, Miliokov. «Não fui eu quem saiu, meteram-me na rua», dizia ele a seguir. Gotchkov, eliminou-se ele próprio desde do 30 de Abril, ao recusar assinar a «Declaração dos direitos do soldado». A que ponto, desde desses dias, os liberais tinha ideias negras, via-se assim que o comité central do partido cadete, para salvar a coligação decidiu não insistir sobre a manutenção de Miliokov no antigo governo. «O partido traiu o seu líder», escreveu o cadete de direita Izgoiev. Aliás, esse partido não tinha muita escolha. O mesmo Izgoiev declara com toda a razão: «No fim de Abril, o partido cadete foi batido em toda a linha. Moralmente, recebeu um golpe do qual ele não se levantará mais.» Mas mesmo na questão de Miliokov, a última palavra pertencia à Entente. A Inglaterra estava completamente de acordo para aceitar a substituição dos patriotas das Dardanelas por um «democrata» mais ponderado. Henderson, que tinha chegado a Petrogrado com todos os poder para substituir Buchanan em caso de necessidade, como embaixador, após ter tomado conhecimento da situação, reconheceu que esta medida seria superflua. Com efeito, Buchanan estava no lugar certo, porque se mostrou o adversário resoluto das anexações, na medida que estas não respondiam aos apetites da Grande-Bretanha: «Do momento que a Rússia não necessita de Constantinopla – sussurrava meigosamente na orelha de Terechtchenko – mais depressa ela o dirá, melhor será.» A França tinha começado por apoiar Miliokov. Mas aqui Thomas jogou o seu papel que, segundo Buchanan e os líderes soviéticos, se pronunciou contra Miliokov. Foi assim que o político odioso das massas foi abandonado pelos Aliados, pelos democratas e, finalmente, pelo seu próprio partido.

Miliokov não merecia, em resumo, um castigo tão cruel, pelo menos vindo de tais mãos. Mas a coligação reclamava uma vítima expiatória. Miliokov foi representado às massas como um espírito malicioso que obscurecia a grande marcha triunfal para a paz democrática. Destacando-se de Miliokov, a coligação, do mesmo gesto, lavava-se dos pecados do imperialismo. A composição do governo de coligação e o seu programa foram aprovados pelo Soviete de Petrogrado, no 5 de Maio. Os bolcheviques só reuniram cem votos contra a coligação. «A assembleia saudava calorosamente os oradores ministros, - nota ironicamente Miliokov, contando esta sessão. Uma tempestade de aplausos acolheu todavia Trotsky, chegado da velha América, «velho líder da primeira revolução», que se queixava claramente da entrada dos socialistas no governo, afirmando que, logo, o «duplo poder» não seria suprimido, mas «somente transferido nos próprios ministérios», e que o verdadeiro poder único que «salvaria» a Rússia apareceria somente quando seria feito «o passo seguinte – a transmissão do poder às mãos dos deputados operários e soldados». Então abrir-se-ia «uma nova época – uma época de sangue e de ferro, não só na luta das nações contra nações, mas na luta da classe sofredora, oprimida, contra as classes dirigentes». É assim que Miliokov representa as coisas. Em conclusão do seu discurso, Trotsky formulava três regras de política das massas - «três mandamentos revolucionários: não confiar na burguesia; controlar os dirigentes; contar unicamente sobre as suas próprias forças.»

Sobre esse discurso, Sokhanov nota isto: «Evidentemente, ele não podia contar sobre a aprovação. «E efectivamente: a conduta estabelecida pelo orador foi mais fria que o acolhimento. Sokhanov, extremamente sensível aos rumores de corredor entre os intelectuais, acrescenta isto: «Dele, que ainda não tinha aderido ao partido bolchevique, o rumor já corria que ele era «pior que Lenine».

Os socialistas tomaram seis pastas sobre quinze. Eles queriam ser minoritários. Mesmo após se decidirem em participar abertamente no poder, continuavam a jogar ao quem perde ganha. O príncipe Lvov continuava primeiro-ministro. Kerensky tornava-se ministro da Guerra e da Marinha. Tchernov ministro da Agricultura. Miliokov, no posto de ministro dos Assuntos estrangeiros, foi substituído por especialista dos bailados de opera, Terechtchenko, tornava-se ao mesmo tempo homem de confiança de Kerensky e de Buchanan. Todos os três estavam de acordo sobre o ponto que Rússia podia perfeitamente passar-se de Constantinopla. À cabeça da Justiça foi colocado o insignificante advogado Pereversev, que obteve a seguir a efémera celebridade, em Julho, por ocasião do processo dos bolcheviques. Tseretelli contentou-se com a pasta do Correios e Telégrafos, afim de guardar o seu tempo para o comité executivo. Skobelev, ministro do Trabalho, prometeu, num momento caloroso, reduzir os lucros dos capitalistas a cem por cento integralmente – esta frase voou de boca em boca. Para fazer simetria, foi nomeado como ministro do Comércio e da Indústria um grande capitalista moscovita, Konovalov. Levou com ele algumas personagens da Bolsa de Moscovo, a quem foram confiados os postos muito importantes no Estado. Aliás, nos quinze dias, Konovalov demitiu-se, protestando por esse meio contra a «anarquia» na economia geral, enquanto que Skobelev, mesmo antes dele, tinha renunciado a atacar os lucros e ocupava-se da luta contra a anarquia: abafava as greves, convidando os operários a limitarem-se eles próprios.

A declaração do governo consistia, como é preciso, vindo de uma coligação, em lugares comuns. Ela mencionava uma política activa exterior em favor da paz, a procura de solução de abastecimento, e o exame preparatório da questão agrária. Eram frases redondantes. O único ponto sério, pelo menos nas intenções, precisava que o exército estaria preparado «para as operações defensivas e ofensivas para evitar a derrota possível da Rússia e das nações aliadas». Essa tarefa resume-se, em suma, o interesse capital da coligação que se constituía como o último motivo da Entente e a Rússia. «Um governo de coligação escrevia Buchanan – representa para nós a última e quase esperança de salvação, para a situação militar na frente.»

Foi assim que, por detrás das plataformas, os discursos, as conciliações e os votos dos líderes liberais e democratas da Revolução de Fevereiro, mantinha-se o gerente imperialista, na pessoa da Entente. Mostrando-se forçados a entrar tão apressadamente na composição do governo, em nome dos interesses da frente da Entente hostil à revolução, os socialistas tomaram para eles cerca de um terço do poder e a totalidade da guerra.

No novo ministro dos Assuntos estrangeiros teve que, durante quinze dias, diferir a publicação das respostas dos governos aliados à declaração do governo de coligação. «A actividade política exterior em favor da paz» consistia doravante nisto que Terechtchenko corrigia com aplicação os telegramas diplomáticas que redigiam para ele os velhos serviços da chancelaria e que apagando «reivindicações», escrevia « justas exigências», ou então em vez de garantir dos interesses», escrevia «o bem dos povos». Miliokov, rangendo os dentes, disse do seu sucessor «Os diplomatas aliados sabem que a terminologia «democrática» dos seus despachos era uma concessão involuntária às exigências do momento, e consideravam-a com indulgência.»

Thomas e Vandervelde recentemente chegados, não ficavam de braços cruzados: eles aplicavam-se com zelo a interpretar «o bem dos povos» num sentido conforme às necessidade da Entente e trabalhavam não sem sucesso os ingénuos do comité executivo. «Skobelev e Tchernov – comunicava Vandervelde – protestam energicamente contra qualquer ideia de paz prematura.» não era de admirar que Ribot, apoiando-se sobre tais colaboradores, tenha podido declarar, desde do dia 9 de Maio, ao parlamento francês, que se dispunha a dar uma resposta satisfatória a Terechtchenko, «sem renunciar ao que quer que seja.»

Sim, os verdadeiros mestres da situação não tinham de forma alguma intenção de deixar perder-se o que estava para colher. Justamente, nesses dias, a Itália proclamava a independência da Albania e, ao mesmo momento, colocava esta sob a sua protecção. Não era uma má lição das coisas. O governo provisório dispunha-se a protestar, não tanto em nome da democracia mas em razão da ruptura do «equilíbrio» nos Balcãs, mas a sua impotência reduzia-o logo a morder a língua.

Nada de novo na política exterior da coligação senão a sua aproximação apressada com a América. Esta nova amizade oferecia três vantagens não desprovidas de importância: os Estados-Unidos não estavam tão comprometidas pelas ignomínias da guerra como a França e a Inglaterra; a república transoceânica abria à Rússia grandes perspectivas em matéria de empréstimos e de produtos de guerra; enfim, a diplomacia de Wilson – combinação de hipocrisia democrática com a vigarice – correspondia melhor ao mundo das necessidades estilistas do governo provisório. Tendo enviado à Rússia a missão do senador Root, Wilson dirigiu ao governo provisório um dos seus mandamentos de pastor no qual dizia: «Nenhum povo não deve ser submetido pela força a uma soberania sob a qual ele não quer viver.» O objectivo da guerra estava definido pelo presidente americano de uma maneira pouco clara mas sedutora: «Assegurar a paz futura do mundo e, no futuro, o bem-estar e a felicidade dos povos.» Que poderia haver de melhor? Terechtchenko e Tseretelli só esperavam isso; novos créditos e os lugares comuns do pacifismo. Com a ajuda dos primeiros e sob a cobertura dos segundos, podia-se proceder aos preparativos da ofensiva que exigia o Shylock das margens do Sena sacudindo furiosamente no ar todas as letras vencidas.

Desde do 11 de Maio, Kerensky partia para a frente, abrindo uma campanha de agitação para a ofensiva. «A vaga de entusiasmo no exército aumentou e alargou-se», escrevia ao governo provisório o novo ministro da Guerra ofegante na exaltação do seu próprio discurso. No 14 de Maio, Kerensky editou uma ordem aos exércitos: «Vocês irão onde vos conduzirão vossos chefes», e para enfeitar esta perspectiva bem conhecida e pouco sedutora para os soldados, acrescentou: «Vocês levarão a paz na ponta das vossas baionetas.» No 22 de Maio foi destituído o prudente general Alexeiev que era aliás bastante desprovido de talento, e foi substituído, como generalíssimo, por um homem mais flexível e entreprenante, Brussilov. O democrata preparava com todas as forças a ofensiva, isto é a grande catástrofe da Revolução de Fevereiro.

O Soviete era o órgão dos operários e soldados, isto é dos camponeses. O governo provisório era o órgão da burguesia. A comissão de contacto era o órgão da conciliação. A coligação simplificou o mecanismo ao transformar o próprio governo provisório numa comissão de contacto. Mas a dualidade de poderes não era de forma alguma eliminada assim. Que Tseretelli fosse membro da comissão de contacto ou ministro dos Correios, não era solução. No país existiam duas organizações de Estado incompatíveis: uma hierárquica de antigos e de novos funcionários, nomeados do alto, tendo à cabeça o governo provisório, e um sistema de sovietes eleitos cujas ramificações desciam até à mais longínqua das companhias na frente.

Esses dois sistemas governamentais apoiavam-se em classes diferentes que ainda só estavam preparando os seus ajustamentos de contas históricas. Ao se coligando, os conciliadores esperavam a abolição pacífica e gradual do sistema soviético. Parecia-lhes que a força dos sovietes, concentrada em suas pessoas, se transmitiam desde então ao governo oficial. Kerensky afirmou categóricamente a Buchanan que «os sovietes morriam de morte natural». Esta esperança tornar-se-ia logo a doutrina oficial dos chefes conciliadores. No seu pensamento, o centro de gravidade da vida em todos os pontos do país devia passar dos sovietes a novos órgãos democráticos de administração autónoma. O lugar do comité executivo centra devia ser ocupada pela Assembleia constituinte. O governo de coligação dispunha-se assim a fazer a ligação para um regime de república burguesa parlamentar.

Mas a revolução não queria e não podia enveredar por esse caminho. A sorte das novas dumas municipais, era, nesse sentido, um presságio inequívoco. As dumas tinham sido eleitas sobre a base do direito eleitoral mais largo. Os soldados tinham votado igualmente com a população civil, a mulheres em igualdade com os homens. Quatro partidos participavam na luta. O Novoie Vremia, antigo órgão oficioso do governo czarista, um dos jornais mais desonestos do mundo – e o que não é pouco! - exortava a gente de direita, os nacionalistas, os outubristas, em votar nos cadetes. Mas quando a impotência política das classes proprietárias se revelou inteiramente, a maior parte dos jornais burgueses lançaram esta palavra de ordem: «Votai por quem quiserem, salvo nos bolcheviques!» Em todas as dumas e os zemstvos, os cadetes constituíram a ala direita, os bolcheviques eram uma minoria de esquerda que se reforçava. A maioria, habitualmente esmagadora, pertencia aos socialistas-revolucionários e aos mencheviques.

As novas dumas, parecia, distinguiam-se dos sovietes por uma representação mais completa, deveriam ter gozado de uma maior autoridade. Além disso, como instituições sociais juridicamente estabelecidas, as dumas tinham a enorme vantagem de ser oficialmente apoiadas pelo Estado. A milicia, o abastecimento, os transportes urbanos, a instrução pública pertenciam oficialmente às dumas. Os sovietes, como instituições «privadas», não tinham nem orçamento, nem direitos. E, contudo, o poder continuava entre as mãos dos sovietes. As dumas representavam em suma comissões municipais perto dos sovietes. A competição entre o sistema soviete e a democracia de forma pura era, pelos seus resultados, tanto mais impressionante que ela se manifestava sob a direcção dos mesmos partidos, socialistas-revolucionários e mencheviques, os quais, dominado nas dumas como nos sovietes, estavam profundamente persuadidos que os sovietes deviam ceder o lugar às dumas, e elas próprias faziam nesse sentido tudo o que podiam.

A explicação desse fenómeno notável, ao qual reflectiam-se relativamente pouco no turbilhão dos acontecimentos, é simples: as municipalidades, como em geral todas as outras instituições da democracia, não podem agir senão na base das relações sociais perfeitamente estáveis, isto é de um sistema determinado de propriedade. Ora, a revolução consiste essencialmente nisto que ela mete em questão esta base das bases e que a resposta não pode ser dada senão por uma verificação revolucionária das relações entre as forças de classes. Os sovietes, apesar da política de seus dirigentes, eram a organização combativa das classes oprimidas que, em parte meio conscientemente, se agrupavam estreitamente para modificar as bases da estrutura social.

As municipalidade davam por outro lado uma representação igual a todas as classes da população trazidas sob a denominação abstracta de cidadãos, e pareciam muito, nessas circunstâncias revolucionárias, a uma conferência diplomática que se explica numa linguagem convencional e hipócrita, no mesmo momento onde os campos hostis que ela representa se preparam febrilmente para a batalha. Na marcha diária da revolução, as municipalidades arrastam ainda uma existência meio fictícia. Mas nos momentos decisivos, quando a intervenção das massas determinava a direcção ulterior dos acontecimentos, as municipalidades saltavam, os seus elementos constitutivos encontravam-se situados nos lados opostos da barricada. Bastava confrontar os papéis paralelos dos sovietes e das municipalidades no decorrer do mês de Maio a Outubro para prever longamente com antecipação a sorte da Assembleia constituinte.

O governo de coligação não se apressava em convocar esta última. Os liberais que, no governo, a despeito da aritmética democrática, estavam em maioria, não tinham de jeito nenhum pressa em ver, numa Assembleia constituinte, a impotente ala direita que eles eram nas novas dumas. A conferência especial instituida pela convocação da Assembleia constituinte só se meteu ao trabalho no fim de Maio, três meses após a insurreição. Os juristas liberais cortavam cada cabelo em seis, agitavam nas provetas todos os resíduos democráticos, querelavam interminavelmente sobre os direitos eleitorais do exército, perguntando-se se era preciso ou não dar o direito de voto aos desertores que se contavam por milhões e aos membros da antiga família reinante que se contavam por dezenas. Tanto que possível, não se dizia uma palavra da data da convocação. Levantar esta questão na conferência era geralmente considerado como uma falta de tacto que só os bolcheviques eram capazes.

As semanas passavam, mas, apesar das esperanças e predições dos conciliadores, os sovietes não agonizavam. De tempos em tempos, adormecidos e desconcertados pelos seus chefes, eles caíam, na verdade, numa certa prostração, mas o primeiro sinal de perigo os remetia de pé e manifestavam incontestavelmente para todos que os sovietes eram os mestres da situação. Ao tentar sabotá-los os socialistas-revolucionários e os mencheviques eram forçados, em todos os casos importantes, em reconhecer a sua prioridade. Isso exprimia-se nomeadamente no facto que as melhores forças dos dois partidos estavam concentradas nos sovietes. Para as municipalidade e os zemstvos, reservava-se gente de segunda ordem, técnicos, administradores. Observava-se também a mesma coisa entre os bolcheviques. Só os cadetes que não tinham acesso nos sovietes, concentravam suas melhores forças nos órgãos municipais. Mas a impotente minoria burguesa não podia fazer deles um apoio.

Assim, ninguém acreditava ter as municipalidades como os seus próprios órgãos. Os antagonismos constantemente agravados entre operários e proprietários de fábricas, entre soldados e oficiais, entre camponeses e proprietários nobres, não podiam ser abertamente debatidos na municipalidade ou num zemstvo, como se discutia entre si, no Soviete, por um lado, nas reuniões «particulares» da Duma do Estado e em geral em todas as conferências dos políticos censitários, por outro. Pode-se entender com o adversário sobre bagatelas, mas não concordar com ele sobre questões de vida ou de morte.

Se adaptamos a formula de Marx dizendo que o governo é o comité da classe dominante, seria preciso dizer que os verdadeiros «comités» das classes em luta pelo poder se encontravam fora do governo de coligação. Em relação ao Soviete, representado no seio do governo como uma minoria, era absolutamente evidente. Mas não deixava de ser verdade em relação à maioria burguesa. Os liberais não tinham qualquer possibilidade de se entender de forma séria e eficaz, na presença dos socialistas, sobre as questões que tocavam mais a burguesia. A expulsão de Miliokov, líder bem conhecido e incontestável da burguesia, à volta do qual se juntava o estado-maior dos proprietários, tinha um carácter simbólico, revelando completamente, em todos os sentidos, a posição excêntrica do governo. A vida evoluía à volta de dois focos onde um era dirigido para a esquerda e outro para a direita do palácio Maria.

Sem ousar dizer o que pensavam no seio do governo, os ministros viviam numa atmosfera de convenção que eles próprios criavam. A dualidade de poderes, dissimulada pela coligação, tornou-se uma escola de equívocos, de astúcia, e, em geral, de toda a duplicidade. O governo de coligação passou, nos meses seguintes, por uma serie de crises, de consertos e de remodelações, mas conservou os seus aspectos essenciais de impotência e de falsidade até ao próprio dia da sua morte.

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Inclusão 01/09/2010