Ultra-Imperialismo

Karl Kautsky

11 de Setembro de 1914


Primeira edição: Die Neue Zeit, 11 de Setembro de 1914.
Fonte:
Tradução publicada em FREITAS, Giovanni B. de. Tradução e análise dos artigos de Karl Kautsky acerca do imperialismo e seus desdobramentos em relação à economia e sociedade contemporânea e o Brasil. 2012. Texto para Monografia do curso de Ciências Econômicas da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (FCLAr) da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Disponível em: http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/tcc/bar/3129/2012/freitas_gb_tcc_arafcl.pdf. Texto em inglês retirado de http://www.marxists.org/archive/kautsky/1914/09/ultra-imp.htm
Tradução: Giovanni Barillari de Freitas
HTML:
Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: Licença Creative Commons licenciado sob uma Licença Creative Commons.

O artigo abaixo foi concluído apenas algumas semanas antes do início da Guerra, e foi destinado para o número previsto no Congresso da Internacional. Como tantas outras coisas, este Congresso foi reduzido a nada pelos acontecimentos dos últimos dias. No entanto, embora puramente de natureza teórica, o artigo não perdeu a sua relevância para a prática que procurou ajudar a explicar. Publicamos o artigo com a omissão de passagens relacionadas com o Congresso da Internacional e com a adição de algumas considerações sobre a guerra.
Nota Editorial Die Neue Zeit, 11 de Setembro de 1914

Temos visto que o avanço imperturbável do processo de produção pressupõe que os diferentes ramos estão na proporção correta. Mas também é evidente que, dentro do modo de produção capitalista, há uma constante movimentação para a violação desta proporção, visto que dentro da especificidade do modo de produção capitalista há a tendência de que o desenvolver da indústria seja muito maior do que o da agricultura. Por um lado, esta é uma razão importante para as crises periódicas que constantemente atingem o setor industrial, e que, assim, restaura a proporção correta entre os diferentes ramos da produção. Por outro lado, a capacidade de crescimento da indústria capitalista de expansão constante, aumenta a pressão para estender a zona industrial à zona agrícola, proporcionando para indústria, não só gêneros alimentícios e matérias-primas, mas também, consumidores. A importância da zona agrícola para a indústria é dupla e a desproporção entre elas pode também ser expressa de duas maneiras. Primeiro, o mercado dos produtos industriais nas zonas agrícolas não pode crescer tão rápido quanto à produção industrial, o que se caracteriza como uma superprodução. E em segundo, a agricultura não pode prever a quantidade de alimentos e matérias primas necessárias para acompanhar o rápido crescimento da produção industrial. Esses dois fenômenos podem parecer mutuamente excludentes, mas na verdade, são estritamente inter-relacionados na medida em que derivam da desproporção entre produção industrial e agrícola, e não por outras causas tais como flutuações na produção de ouro ou alterações no poder dos produtores vis-à-vis aos consumidores através de cartéis, políticas comerciais e políticas fiscais.

Um dos dois fenômenos, escassez ou superprodução, podem facilmente variar de um para o outro, pois derivam dessa desproporção. Um aumento dos preços sempre prenuncia o começo de uma crise, embora uma crise surja como excesso de produção e traz com ela um colapso dos preços. Por outro lado, a movimentação constante dos países industrializados capitalistas para ampliar a zonas agrícolas envolvidos nas relações comerciais com eles, assume as mais variadas formas. Dado que esta movimentação é uma das próprias condições de existência do capitalismo, ainda está longe de ser provado que qualquer uma dessas formas é uma necessidade indispensável para o modo de produção capitalista.

Do Livre Comércio ao Imperialismo

Uma forma particular desta movimentação é o imperialismo. Outra forma o precedeu: o livre comércio. Meio século atrás, o livre comércio era visto como a última expressão do capitalismo, assim como imperialismo é hoje. O livre comércio passou a imperar graças a superioridade da indústria capitalista inglesa. O objetivo da Grã-Bretanha era tornar-se a oficina do mundo e, portanto, o mundo deveria tornar-se uma zona agrária que iria adquirir os produtos industriais da Inglaterra e fornecer-lhe gêneros alimentícios e matérias-primas na troca. O livre comércio era o mais importante meio pelo qual esta zona agrícola poderia ser ampliada continuamente de acordo com as necessidades da indústria Inglesa, assim, todos os lados deveriam ser beneficiados. De fato, os proprietários dos países que exportam para a Inglaterra eram tão inveterados defensores do livre comércio, como os industriais da Inglaterra.

Mas este doce sonho de harmonia internacional chegou rapidamente ao fim. Como regra geral, as zonas industriais querem subjugar e dominar as zonas agrárias. Isto era verdade antes, já em relação à cidade frente o campo, e é ainda verdadeiro, como um estado industrial frente a um estado agrário. Um Estado que permanece agrário enfraquece política e economicamente em geral, e também perde sua autonomia em ambos os aspectos. Daí os esforços para manter ou conquistar a independência nacional, ou para possuir a autonomia necessária para gerar, dentro do ciclo global de circulação capitalista internacional, esforços por uma indústria autônoma forte que deva apresentar condições de ser capitalista. O desenvolvimento de mercados para produtos industriais estrangeiros no Estado agrário em si cria uma série de condições para isso. Ele destrói a indústria pré-capitalista interna liberando uma grande quantidade de força de trabalho que estavam à disposição do capital como trabalho assalariado. Estes trabalhadores emigram para outros países com a indústria crescente se não conseguirem encontrar emprego em seu país de origem, entretanto preferem ficar em casa se a construção de uma indústria capitalista lhes proporcionasse isto. O capital estrangeiro em si se infiltra ao país agrário, em primeiro lugar para desobstruí-lo através da construção de ferrovias e, em seguida, a fim de desenvolver a produção de matérias-primas, que inclui não só a agricultura, mas também as indústrias extrativistas e mineiras. A possibilidade de surgir outras empresas capitalistas a partir daí cresce. Em seguida, se uma indústria autônoma capitalista se desenvolve, ela depende principalmente do poder político do Estado. Áreas como a Europa Ocidental e Oriental e os EUA se desenvolveram de Estado agrário em Estado industrial, em oposição à indústria inglesa. Eles impuseram tarifas protecionistas contra o livre comércio Inglês, e como alternativa a divisão internacional do trabalho entre as indústrias inglesas e a produção agrícola de todas as outras zonas que foram alvos da Inglaterra, eles propuseram que os grandes Estados industriais dividissem as zonas do mundo que ainda permaneciam livres, desde que estas não pudessem resistir. A reação da Inglaterra a esta situação foi o início do imperialismo.

O imperialismo foi particularmente encorajado a partir do sistema de exportação de capital para as zonas agrárias que emergiram ao mesmo tempo. O crescimento da indústria nos Estados capitalistas, hoje, é tão rápido que uma expansão suficiente do mercado não pode mais ser alcançada pelos métodos que foram empregados até 1870. Até então, os primitivos meios de transporte que existiam nas zonas agrárias eram suficientes, principalmente os canais que até então tinham sido a única forma possível de transporte em larga escala de alimentos e matérias-primas. As ferrovias eram então construídas quase que exclusivamente em regiões altamente industrializadas e zonas densamente povoadas. Agora, entretanto, tornaram-se o caminho para abrir zonas agrárias escassamente povoadas, fazendo o possível para levar seus produtos para o mercado, mas também para desenvolver sua população e sua produção.

Mas estas zonas não possuem os meios para construir suas próprias ferrovias. O capital necessário e a força de trabalho são fornecidas e dirigidas pelas nações industriais. Que avançaram o capital, elevando as suas exportações de material ferroviário e aumentando a oportunidade das áreas recém-inauguradas comprarem os produtos industriais dos países capitalistas através dos gêneros alimentícios e matérias-primas. Assim, o intercâmbio de materiais entre agricultura e indústria aumentou consideravelmente. Mas, se uma estrada de ferro no deserto é um negócio rentável, caso seja mesmo, é por obter a força de trabalho necessária para a sua construção e a segurança necessária para as suas exigências operacionais, deve haver uma autoridade do Estado forte e cruel o suficiente para defender os interesses dos capitalistas estrangeiros e até mesmo a ceder cegamente aos seus interesses.

Naturalmente, isto é mais bem executado pelos Estados nacionais de cada grupo capitalista. O mesmo é verdade no caso de licitações para extração de minérios mais valiosos ou para o incentivo a produção de culturas comerciais como o algodão e a construção de grandes obras de irrigação — as empresas tornam isto possível somente pela exportação de capitais dos países capitalistas. Assim como a tendência para a exportação de capital por parte dos Estados industriais para as zonas agrárias do mundo cresce, o mesmo acontece com a tendência de subjugar estas zonas sob o seu poder do Estado.

Houve outro momento importante para isso: os efeitos das exportações de capital para as zonas agrárias com o objetivo de dirigi-las podem ser muito diferentes. Já temos apontado os fatos negativos para os países agrários, neste contexto, e como eles devem aspirar a tornarem-se países industrializados, com interesse de sua própria prosperidade ou mesmo autonomia. Em um Estado agrário com força para garantir sua autonomia, o capital importado será utilizado, não só para a construção de ferrovias, mas também para o desenvolvimento de suas próprias indústrias — como nos EUA ou na Rússia. Em tais circunstâncias, as exportações de capitais dos Estados capitalistas mais antigos, só ajudam temporariamente sua própria indústria de exportação. Em última análise, os velhos países capitalistas aleijam sua indústria simplesmente por fomentar uma forte concorrência econômica na zona agrária. O desejo de impedir essa situação é o motivo para os estados capitalistas subjugar as zonas agrárias, diretamente — como colônias — ou indiretamente - como esferas de influência, a fim de impedi-los de desenvolver sua própria indústria e obrigá-los a restringir-se inteiramente à produção agrícola.

O Perigo Colonial e o Fardo das Armas

Estas são as principais raízes do imperialismo que substituiu o livre comércio. Será que ele representa a última forma possível da política capitalista mundial, ou outra ainda é possível? Em outras palavras, o imperialismo oferece a única forma restante e possível para concretizar a expansão do intercâmbio entre a indústria e a agricultura no capitalismo? Esta é a pergunta básica.

Não pode haver dúvida de que a construção de ferrovias, a exploração de minas e que o aumento da produção de matérias-primas e produtos alimentares nos países agrários tornaram-se uma necessidade para a vida para o capitalismo. É muito pouco provável que a classe capitalista cometa suicídio, e o mesmo é verdadeiro para todos os partidos burgueses sobre as zonas agrárias, e a redução de suas populações a escravos sem direito está estritamente ligado ao imperialismo. A submissão destas zonas só chegará ao fim quando suas populações ou o proletariado dos países industrializados capitalistas tenham se tornados fortes o suficiente para se libertar da opressão capitalista. Este lado do imperialismo só pode ser superado pelo socialismo.

Mas o imperialismo tem outro lado. A tendência para a ocupação e subjugação das zonas agrárias produziu contradições entre os Estados capitalistas industrializados. O resultado que a corrida armamentista, que anteriormente era apenas uma corrida para armamentos terrestres e que se tornou uma corrida armamentista naval, tornou-se fato na profetizada Guerra Mundial. Este lado do imperialismo é, sobretudo, uma necessidade para a sobrevivência do capitalismo ou isso pode ser superado com o próprio capitalismo?

Não há nenhuma necessidade econômica para continuar a corrida armamentista após a Guerra Mundial, mesmo na perspectiva da classe capitalista, com exceção de, no máximo, certos grupos que lucrariam com determinados armamentos. Pelo contrário, a economia capitalista é seriamente ameaçada gerando contradições entre seus membros. Todo clarividente capitalista hoje tem de recorrer a seus companheiros: os capitalistas de todos os países, uni-vos! Pois, em primeiro lugar, há a crescente oposição das zonas agrárias mais desenvolvidas, o que ameaça não apenas um ou outro dos Estados imperialistas, mas todos eles juntos. Isso é verdade para a situação da Ásia Oriental e da Índia, assim como o movimento pan-islâmico no Médio Oriente e no norte da África.

Esse aumento vem acompanhado pela oposição crescente do proletariado de países industriais contra qualquer aumento de nova carga tributária. Mesmo antes da guerra, era evidente que desde a Guerra dos Bálcãs, a corrida armamentista e os custos de expansão colonial atingiriam um nível que ameaçaria o crescimento rápido de acumulação de capital, e assim, a exportação deste capital, ou seja, a base do próprio imperialismo. A acumulação industrial dos países ainda avança continuamente graças ao progresso técnico. Mas o capital já não vai para exportação. Isto é visível a partir de que, mesmo em tempo de paz os Estados europeus tiveram dificuldades para cobrir seus empréstimos. A concessão das taxas de juros que eles foram forçados a pagar subiu. Isto se revela, por exemplo, os preços médios de mercado de:

  Empréstimo público
a 3% na Alemanha
Renda de 3%
na França
1905 89 99
1910 85 97
1912 80 92
meados 1914 77 83

Após a guerra, esta tendência vai piorar se a corrida armamentista e suas demandas no mercado de capitais continuarem a crescer.

O imperialismo vai, assim, cavar sua própria sepultura. O meio de desenvolver o capitalismo está se tornando um obstáculo para ele. No entanto, o capitalismo não necessariamente está no fim da linha. Do ponto de vista puramente econômico, pode continuar a se desenvolver, desde que o crescimento das indústrias dos países capitalistas induza a produção agrícola a se expandir de maneira correspondente. Isto se torna cada vez mais difícil, claro, com a produção anual do mundo industrial aumentando muito mais e ainda a abertura de zonas agrárias tornando-se cada vez menor. Enquanto este limite não for atingido, o capitalismo pode ser destruído no recife na crescente oposição política do proletariado, mas não precisa chegar ao fim num colapso econômico.

Por outro lado, essa bancarrota econômica iria ocorrer prematuramente como resultado da reprodução da atual política do imperialismo. Esta política de imperialismo, portanto, não pode ser reproduzida por muito mais tempo. Claro que, se a atual política do imperialismo for indispensável para a manutenção do modo de produção capitalista, pode em seguida, os fatores a que me referi não fazer nenhum efeito duradouro sobre a classe dominante e não levá-los a dar um rumo diferente às suas tendências imperialistas. Mas essa mudança só será possível se o imperialismo, a luta de cada grande Estado capitalista para alargar o seu próprio império colonial em oposição a todos os outros impérios da mesma natureza, representar apenas um entre vários modos de expansão do capitalismo.

A Próxima Fase: Ultra-Imperialismo

O que disse Marx do capitalismo também pode ser aplicado ao imperialismo: o monopólio cria concorrência e a concorrência gera o monopólio da concorrência. Como a concorrência desenfreada de empresas gigantes, os grandes bancos e multimilionários, abrigando os grandes grupos financeiros que foram absorvendo os pequenos, é necessário para pensar a noção do cartel. Da mesma forma, o resultado da Primeira Guerra Mundial entre as grandes potências imperialistas pode ser a formação de uma federação forte que renunciem a sua corrida armamentista.

Assim, do ponto de vista puramente econômico, não é impossível que o capitalismo ainda possa existir através de outra fase, a versão de uma cartelização na política externa: a fase de ultra-imperialismo, que, naturalmente, devemos lutar contra com a mesma energia, como fazemos contra o imperialismo, mas cujos perigos estarão em outra direção, não no da corrida armamentista e da ameaça à paz mundial.

A exposição acima foi concluída antes de a Áustria surpreender-nos com o seu ultimato à Sérvia. Conflitos como o entre a Áustria e a Sérvia não surgem meramente de tendências imperialistas. No Leste Europeu, o nacionalismo ainda é uma força motriz revolucionária, e o atual conflito entre a Áustria e Sérvia, tem essas raízes bem como imperialistas também. A Áustria tentou projetar uma política imperialista, anexando a Bósnia e ameaçando incluir a Albânia em sua esfera de influência. Isto despertou a oposição nacionalista da Sérvia, que se sentiu ameaçada pela Áustria e agora é um perigo para a existência da Áustria.

A Guerra Mundial não incluiu a Áustria porque o imperialismo era uma necessidade para ela, mas porque, pela sua própria estrutura em si é ameaçada por seu próprio imperialismo. O imperialismo só poderia ser praticado por um Estado internamente homogêneo que possui zonas agrárias culturalmente diferentes. Mas neste caso, com um território nacional dividido, um Estado semi-eslavo queria praticar o imperialismo à custa de um vizinho eslavo, cuja cultura tem a mesma origem das regiões vizinhas de seu oponente. Naturalmente, esta política só pode ter conseqüências inesperadas e enormes, porque há contradições e conflitos que o imperialismo criou entre as outras grandes potências. Todas as conseqüências do amadurecimento no seio da atual Guerra Mundial ainda não viram a luz. O seu resultado ainda pode ser que as tendências imperialistas acelerem a corrida armamentista no início - nesse caso, a paz posterior será um armistício curto.

Do ponto de vista puramente econômico, no entanto, não há mais nada para evitar que esta explosão de violência finalmente substitua o imperialismo por uma santa aliança dos imperialistas. Quanto mais tempo durar a guerra, esgotando todos os principais participantes fazendo que eles se recolham pelo receio de uma repetição do início do conflito armado, mais perto se chegará a esta última solução, mais improvável que isto possa parecer no momento.

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Inclusão 21/03/2014