Discurso a Favor da Resolução Sobre a Guerra

V. I. Lénine

27 de Abril (10 de Maio) de 1917

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Primeira edição: Publicado pela primeira vez em 1921, nas Obras de N. Lenine (V. Uliánov), t. XIV, parte II.
Fonte: Obras Escolhidas em Três Tomos, 1977, tomo 2, pág: 67 a 75. Edições Avante! - Lisboa, Edições Progresso - Moscovo

Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t. 31, pp. 387-400.

Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo

Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1977.


Acta

capa

Camaradas, li o projecto inicial de resolução sobre a guerra na conferência da cidade. Por causa da crise que absorveu em Petrogrado a atenção e as forças de todos os camaradas, não pudemos corrigir esse projecto. Mas ontem e hoje a comissão trabalhou com êxito, e ele foi sujeito a alterações, fortemente reduzido e, na nossa opinião, melhorado.

Quero dizer algumas palavras sobre a estrutura desta resolução. Ela está dividida em três partes: a primeira parte é dedicada a uma análise de classe da guerra, completada com uma declaração de princípios explicando as razões pelas quais o nosso partido adverte contra qualquer confiança nas promessas governamentais e contra qualquer apoio ao Governo Provisório. A segunda parte da resolução é dedicada à questão do defensismo revolucionário como uma corrente de massas extraordinariamente ampla que, actualmente, uniu contra nós a imensa maioria do povo. A tarefa consiste em como determinar o significado de classe desse defensismo revolucionário, em que consiste a sua essência, qual a correlação de forças real, e como lutarmos contra essa corrente. A terceira parte da resolução trata da questão de como terminar a guerra. A esta questão prática, da maior importância para o partido, era necessário responder pormenorizadamente, e julgamos que conseguimos dar uma resposta satisfatória a essa questão. Numa série de artigos ao Pravda e de jornais de província (que recebemos muito irregularmente: o correio não funciona e temos de aproveitar as ocasiões para conseguir as folhas locais para o CC), nos quais se publicou um grande número de artigos sobre a guerra, esclareceu-se a atitude negativa em relação à guerra e em relação à questão do empréstimo. Penso que a votação contra o empréstimo resolveu a questão da atitude negativa em relação ao defensismo revolucionário. Não me parece possível deter-me mais nisto.

«A guerra actual é, por parte de ambos os grupos de potências beligerantes, uma guerra imperialista, isto é, conduzida pelos capitalistas pela partilha das vantagens que provêm do domínio sobre o mundo, pelos mercados do capital financeiro (bancário), pela submissão dos povos fracos, etc».

A primeira e fundamental tese é a questão do conteúdo da guerra, questão de carácter geral e político, questão controversa, que os capitalistas e sociais-chauvinistas evitam cuidadosamente. Por isso, devemos colocá-la em primeiro lugar e fazer o seguinte acrescento:

«Cada dia de guerra enriquece a burguesia financeira e industrial e arruina e esgota as forças do proletariado e do campesinato de todos os países beligerantes, e depois também dos neutrais. E na Rússia o prolongamento da guerra põe, além disso, em grandíssimo perigo as conquistas da revolução, o seu desenvolvimento.

«A passagem do poder de Estado na Rússia para o Governo Provisório, governo de latifundiários e capitalistas, não mudou nem podia mudar esse carácter e significado da guerra por parte da Rússia.»

Esta frase que acabei de ler tem para nós uma grande importância em toda a propaganda e agitação. Mudou agora e pode mudar o carácter de classe da guerra? A nossa resposta baseia-se no facto de que o poder passou para as mãos dos latifundiários e dos capitalistas, para as mãos do mesmo governo que preparou esta guerra. Continuando, passamos a um dos factos que mostram com a maior evidência o carácter da guerra. Uma coisa é o carácter de classe, tal como se revela em toda a política que determinadas classes conduziram durante decénios, e outra coisa é o evidente carácter de classe da guerra.

«Este facto manifestou-se com particular evidência em que o novo governo não só não publicou os tratados secretos concluídos pelo tsar Nicolau II com os governos capitalistas da Inglaterra, da França, etc, como confirma formalmente, sem consultar o povo, estes tratados secretos, que prometem aos capitalistas russos a pilhagem da China, da Pérsia, da Turquia, da Áustria, etc. Com a ocultação desses tratados engana-se o povo russo sobre o verdadeiro carácter da guerra.»

Sublinho pois, uma vez mais, que pomos em relevo de maneira particularmente evidente a confirmação do carácter da guerra. Mesmo que não houvesse quaisquer tratados, nem por isso mudaria em nada o carácter da guerra, porque um acordo entre os grupos de capitalistas pode ser alcançado muito frequentemente sem quaisquer tratados. Mas eles existem, o seu significado é particularmente evidente, e nós, para unificar o trabalho dos agitadores e propagandistas, consideramos especialmente necessário sublinhar este facto e decidimos destacar este ponto. A atenção do povo concentra-se neste facto, e deve concentrar-se, tanto mais que esses tratados foram concluídos no nosso país pelo tsar que foi derrubado, de modo que é necessário chamar à atenção do povo que os governos prosseguem a guerra na base de tratados concluídos pelos antigos governos. Penso que aqui se evidenciam da forma mais expressiva as contradições entre os interesses dos capitalistas e a vontade do povo, e a tarefa dos agitadores é, revelando estas contradições, chamar para elas a atenção do povo, esforçar-se por esclarecer a consciência das massas, apelando para a sua consciência de classe. O conteúdo desses tratados é tal que não pode existir a menor dúvida de que eles prometem aos capitalistas lucros imensos mediante a pilhagem de outros países, já que esses tratados se mantêm secretos em todos os países. Não há no mundo uma só república que conduza abertamente a política externa. Enquanto existir o regime capitalista, não se pode esperar que os capitalistas abram os seus livros comerciais. Se existir a propriedade privada dos meios de produção, ela inclui também a propriedade privada das acções e das operações financeiras. O principal fundamento da diplomacia actual são precisamente as operações financeiras, que se reduzem à pilhagem e estrangulamento dos povos fracos. Tais são, do nosso ponto de vista, as teses fundamentais das quais deriva toda a apreciação sobre a guerra. Delas tiramos a conclusão:

«Por isso o partido proletário não pode apoiar nem a guerra actual, nem o governo actual, nem os seus empréstimos, sem romper por completo com o internacionalismo, isto é, com a solidariedade fraternal dos operários de todos os países na luta contra o jugo do capital.»

Esta é a nossa principal e fundamental conclusão, que determina toda a nossa táctica e nos separa de todos os outros partidos, por mais socialistas que se intitulem. Com esta tese, que é indiscutível para todos nós, fica determinada de antemão a questão da nossa atitude para com todos os outros partidos políticos.

Em seguida diz-se que o nosso governo colocou de um modo particularmente amplo a questão das promessas. Em torno destas promessas tem lugar uma prolongada campanha dos Sovietes, que se enredaram nestas promessas e põem à prova o povo. Por isso acreditamos ser necessário acrescentar à análise puramente objectiva da situação de classe uma apreciação das promessas, promessas que, naturalmente, não têm em si mesmas o menor significado para um marxista. Mas para as amplas massas significam muito e para a política ainda mais. O Soviete de Petrogrado emaranhou-se nessas promessas e dá-lhes peso prometendo o seu apoio. Eis porque acrescentamos a este ponto a seguinte fórmula:

«Não merecem nenhum crédito as promessas do governo actual de renunciar às anexações, isto é, à conquista de países estrangeiros, ou à retenção pela força, nos limites da Rússia, de quaisquer povos.»

E como a palavra «anexação» é estrangeira, damos-lhe uma definição política precisa que nem o partido dos democratas-constitucionalistas nem os partidos dos democratas pequeno-burgueses (populistas e mencheviques) podem dar. Nenhuma palavra foi usada de modo tão absurdo e tão impróprio como esta.

«Porque, em primeiro lugar, os capitalistas, unidos por milhares de fios do capital bancário, não podem renunciar às anexações nesta guerra sem renunciar ao lucro dos milhares de milhões investidos em empréstimos, em concessões, em empresas de guerra, etc; em segundo lugar, o novo governo, que renunciou às anexações para iludir o povo, declarou pela boca de Miliukov, em 9 de Abril de 1917, em Moscovo, que não renuncia às anexações e pela nota de 18 de Abril e pela sua explicação de 22 de Abril confirmou o carácter rapace da sua política.

«Ao prevenir o povo contra as promessas ocas dos capitalistas, a conferência declara, por isso, que é necessário distinguir rigorosamente entre a renúncia às anexações em palavras e a renúncia às anexações de facto, isto é, a publicação imediata e a anulação de todos os banditescos tratados secretos e a concessão imediata a todos os povos do direito de decidir por votação livre a questão de se desejam ser Estados independentes ou fazer parte de qualquer Estado existente.»

Julgámos necessário indicar isto porque a questão de uma paz sem anexações é a questão básica em todas estas discussões sobre as condições de paz. Todos os partidos reconhecem que a paz será uma alternativa e que uma paz com anexações constitui uma catástrofe inaudita para todos os países. E diante do povo, num país onde existe liberdade política, a questão da paz não pode ser colocada senão como uma paz sem anexações. E necessário, pois, manifestar-se por uma paz sem anexações, e não há outro meio senão mentir, obscurecendo o conceito de anexação, ou contornar esta questão. O Retch, por exemplo, grita que a devolução da Curlândia equivale precisamente a renunciar às anexações. Quando falei perante o Soviete de deputados operários e soldados, um soldado fez-me chegar uma nota com esta pergunta:

«Temos de nos bater para reconquistar a Curlândia. Acaso reconquistar a Curlândia significa ser pelas anexações?»

Tive de responder-lhe afirmativamente. Opomo-nos a que a Alemanha possa anexar a Curlândia pela força, mas opomo-nos também a que a Rússia conserve pela força a Curlândia. Por exemplo, o nosso governo lançou um manifesto sobre a independência da Polónia cheio de frases que não dizem nada. Escreveram que a Polónia deve estar em livre aliança militar com a Rússia. Estas três palavras apenas contêm a verdade. A livre aliança militar da pequena Polónia com a imensa Rússia é, de facto, a completa escravidão militar da Polónia. Pode dar liberdade à Polónia politicamente, mas, de qualquer modo, as suas fronteiras serão determinadas pela aliança militar.

Se lutarmos por conseguir que os capitalistas russos se apoderem da Curlândia e da Polónia nas suas antigas fronteiras, isso significa que os capitalistas alemães têm o direito de saquear a Curlândia. Eles podem objectar: saqueámos a Polónia juntos. Quando começámos a despedaçar a Polónia, nos fins do século XVIII, a Prússia era então uma potência muito pequena e fraca, e a Rússia era enorme, e a Rússia conseguiu um saque maior. Agora tornámo-nos mais fortes, permiti-nos, pois, arrancar uma parte maior. Nada há a opor a esta lógica dos capitalistas. Em 1863, o Japão, comparado com a Rússia, não era nada, em 1905 deu uma sova à Rússia[N70]. Nos anos de 1863 a 1873, a Alemanha, comparada com a Inglaterra, não era nada, mas agora é mais forte do que ela. Eles podem objectar: quando nos tiraram a Curlândia éramos fracos, agora somos mais fortes do que vós e queremos retomá-la. Não renunciar às anexações significa justificar guerras sem fim pela conquista dos povos fracos. Renunciar às anexações significa dar a todos os povos o direito de decidir livremente se querem viver separadamente ou conjuntamente com outros. Naturalmente que para isso as tropas deverão ser retiradas. Admitir a mais pequena vacilação na questão das anexações significa justificar guerras sem fim. Consequentemente, não podíamos permitir a este respeito quaisquer vacilações. No que se refere às anexações, a nossa resposta é: livre decisão dos povos. Que se deve fazer para que esta liberdade política seja também económica? Para isso é necessária a passagem do poder para as mãos do proletariado e o derrubamento do jugo do capital.

Passo agora à segunda parte da resolução.

«O chamado 'defensismo revolucionário', que hoje se apoderou na Rússia de todos os partidos populistas (dos socialistas populares, dos trudoviques, dos socialistas-revolucionários) e do partido oportunista dos sociais-democratas mencheviques (Comité de Organização, Tchkheídze, Tseretéli e outros) e também da maioria dos revolucionários sem partido, representa quanto ao seu significado de classe, por um lado, os interesses e o ponto de vista dos camponeses abastados é de parte dos pequenos patrões, os quais, do mesmo modo que os capitalistas, tiram proveito da violência contra os povos fracos. Por outro lado, o defensismo revolucionário é o resultado do engano pelos capitalistas de uma parte dos proletários e semi-proletários da cidade e do campo, os quais, pela sua posição de classe, não estão interessados nos lucros dos capitalistas nem na guerra imperialista.»

Portanto, aqui a nossa tarefa consiste em determinar de que camadas sociais pode brotar e brotou o estado de espírito defensista. A Rússia é o país mais pequeno-burguês, e as camadas superiores da pequena burguesia estão directamente interessadas na continuação desta guerra. O campesinato abastado, da mesma maneira que os capitalistas, tira benefícios dela. Por outro lado, a massa do proletariado e semiproletariado não tem interesse nas anexações visto que não recebe nenhum benefício do capital bancário. Como puderam então estas classes situar-se no ponto de vista do defensismo revolucionário? A atitude adoptada por estas classes perante o defensismo revolucionário é o resultado da influência da ideologia dos capitalistas, que na resolução se exprime com a palavra «engano». Essas classes não conseguem distinguir os interesses dos capitalistas dos interesses do país. Daí, para nós, a conclusão:

«A conferência considera absolutamente inadmissível e equivalente de facto à ruptura completa com o internacionalismo e o socialismo quaisquer concessões ao defensismo revolucionário. Quanto ao estado de espírito defensista das grandes massas populares, o nosso partido lutará contra este estado de espírito mediante o esclarecimento incansável, explicando a verdade de que a atitude de confiança inconsciente no governo dos capitalistas é, neste momento, um dos principais obstáculos ao rápido fim da guerra.»

Eis aqui, nestas últimas palavras, a expressão daquela particularidade que distingue claramente a Rússia de todos os países capitalistas ocidentais e de todas as repúblicas democráticas capitalistas. Pois não se pode dizer que, nesses países, a confiança das massas inconscientes seja a causa principal da continuação da guerra. Aí as massas encontram-se actualmente apertadas pelas tenazes de ferro da disciplina militar, e quanto mais democrática é a república, maior é a disciplina, já que nela o direito se apoia na «vontade do povo». Na Rússia não existe, devido à revolução, essa disciplina. As massas elegem livremente representantes para os Sovietes, fenómeno que não se dá hoje em parte alguma no mundo. Mas elas têm uma confiança inconsciente, e daí a sua utilização de um modo determinado para o combate. Aqui, excepto o esclarecimento, não há outra coisa a fazer. O esclarecimento deve referir-se aqui às tarefas e métodos de acção directamente revolucionários. Quando as massas são livres, tentar fazer algo em nome da minoria, sem esclarecer as massas, seria um blanquismo absurdo, uma simples tentativa aventureira. Só conquistando as massas — se for possível conquistá-las —, só assim criaremos uma base firme para a vitória da luta proletária de classe. Passo à terceira parte da resolução:

«No que diz respeito à questão mais importante de como acabar o mais cedo possível esta guerra dos capitalistas, mediante uma paz não imposta pela força mas verdadeiramente democrática, a conferência considera e delibera:

«Não se pode pôr fim a esta guerra com a recusa dos soldados de um só dos lados à continuação da guerra, com a simples cessação das actividades militares de uma das partes beligerantes.»

Esta ideia de pôr fim desse modo à guerra é-nos atribuída com frequência por pessoas que querem facilitar a luta contra os adversários por meio da adulteração das suas opiniões; é o método usual dos capitalistas, que nos imputam a ideia insensata de pôr fim à guerra pela recusa unilateral. E eles objectam: «não se pode pôr fim à guerra espetando a baioneta na terra», como disse um soldado, típico partidário do defensismo revolucionário. Mas isso não é uma objecção, digo eu. É uma ideia anarquista pensar que se pode pôr fim à guerra sem a substituição das classes governantes; ou é uma ideia anarquista que não tem significado, sentido estatal, ou uma ideia nebulosamente pacifista, que não compreende absolutamente a relação existente entre a política e a classe opressora. A guerra é um mal, a paz é um bem ... Naturalmente, devemos esclarecer esta ideia, popularizá-la entre as massas. E, falando em geral, todas as nossas resoluções são escritas para sectores dirigentes, para os marxistas, não servem de modo nenhum para leitura das massas, mas devem dar aos propagandistas e agitadores uma orientação unificadora de toda a política. Para isso acrescentou-se ainda um parágrafo:

«A conferência protesta uma e outra vez contra a baixa calúnia, difundida pelos capitalistas contra o nosso partido, de que simpatizamos com uma paz em separado com a Alemanha. Consideramos os capitalistas alemães tão bandidos como os capitalistas russos, ingleses, franceses e outros, e o imperador Guilherme um bandido coroado tal como Nicolau II e os monarcas inglês, italiano, romeno e todos os outros.»

A propósito deste ponto surgiram na comissão algumas discussões, por um lado, a propósito de que neste lugar teríamos passado a um estilo demasiado popular, e, por outro, de que os monarcas inglês, italiano e romeno não mereceriam a honra de serem aqui mencionados. Mas, depois de pormenorizadas discussões, chegámos ao acordo unânime de que nestes momentos, quando nos propusemos desmentir aquelas calúnias que o Birjovka[N71] de modo quase sempre grosseiro, o Retch de modo mais subtil e o Edinstvo por meio de alusões directas tentaram difundir contra nós, perante esta questão devemos proceder à crítica mais clara e acerba destes conceitos, tendo em vista as mais largas massas. E como nos dizem: se considerais Guilherme um bandido ajudai-nos a derrubá-lo, podemos replicar que também todos os outros são bandidos e que também contra eles é preciso lutar, razão pela qual não se deve esquecer os reis da Itália e da Roménia, pois tais bandidos existem também entre os nossos aliados. Estes dois parágrafos são dirigidos contra as calúnias que pretendem levar o assunto para os pogromes e os insultos mútuos. Eis por que devemos passar à questão séria e prática de como pôr fim a esta esta guerra.

«O nosso partido explicará ao povo com paciência, mas também com insistência, a verdade de que as guerras são conduzidas pelos governos, de que as guerras estão sempre inseparavelmente ligadas à política de classes determinadas e de que esta guerra pode terminar com uma paz democrática pela passagem de todo o poder de Estado, pelo menos em alguns países beligerantes, para as mãos da classe dos proletários e semiproletários, que é a única verdadeiramente capaz de pôr fim ao jugo do capital.»

Para um marxista, estas verdades relativas ao facto de que as guerras são conduzidas pelos capitalistas e que elas estão ligadas aos seus interesses de classe são verdades absolutas. O marxista não necessita de se deter nisso. Mas para as amplas massas todos os propagandistas e agitadores hábeis devem saber explicar esta verdade sem palavras estrangeiras, já que entre nós as polémicas degeneram habitualmente em disputas vazias, que não dão nada. É o que procuramos fazer em todas as partes da resolução. Dizemos: para compreender a guerra é preciso perguntar a quem beneficia; para compreender de que modo terminar a guerra é preciso perguntar que classes ela não beneficia. A ligação é aqui clara, e dela se tira a seguinte conclusão:

«A classe revolucionária, tendo tomado nas suas mãos o poder de Estado na Rússia, adoptaria uma série de medidas orientadas no sentido de destruir a dominação económica dos capitalistas e medidas orientadas no sentido da sua completa neutralização política, e proporia imediata e abertamente a todos os povos uma paz democrática, na base da renúncia total às anexações, quaisquer que fossem.»

Se falamos em nome da classe revolucionária, o povo tem o direito de perguntar: bem, e que faríeis vós no lugar deles para pôr fim à guerra? É uma pergunta inevitável. O povo elege-nos agora como seus representantes, e nós devemos dar uma resposta absolutamente precisa. A classe revolucionária, tendo tomado o poder, começaria a minar a dominação dos capitalistas e proporia a todos os povos condições de paz precisas, pois sem minar a dominação económica dos capitalistas tudo ficaria no papel. E isso só a classe vitoriosa o pode fazer, pode introduzir uma mudança na política.

Repito uma vez mais: para as massas do povo não desenvolvidas, esta verdade requer aqueles elos intermédios que servem para iniciar na questão as pessoas não preparadas. Todo o erro e toda a mentira da literatura popular sobre a guerra consiste em esquivar esta questão, em silenciá-la e expor o assunto como se não existisse tal luta de classes, como se dois países tivessem vivido amigavelmente e um atacasse o outro e este se defendesse. Isto é um raciocínio vulgar, no qual não há nem sombra de objectividade; é um engano consciente do povo pelos homens instruídos. Se soubermos abordar esta questão, qualquer representante do povo captará a essência, pois uma coisa são os interesses das classes dominantes e outra coisa os interesses das classes oprimidas.

Que aconteceria se a classe revolucionária tomasse o poder?

«Estas medidas e estas propostas abertas de paz criariam uma mútua confiança plena entre os operários dos países beligerantes ...»

Actualmente esta confiança não pode existir, não criaremos esta confiança com as palavras dos manifestos. Se um pensador disse que a língua foi dada ao homem para encobrir os seus pensamentos, os diplomatas dizem sempre: «as conferências reúnem-se para enganar as massas populares.» E raciocinam assim não só os capitalistas, mas também os socialistas. Em particular, isto pode dizer-se da conferência convocada para Borgbjerg.

«... e conduziriam inevitavelmente às insurreições do proletariado contra os governos imperialistas que se opusessem à paz proposta.»

Quando actualmente um governo capitalista diz: «somos pela paz sem anexações», ninguém acredita nisso. As massas populares têm o instinto das classes oprimidas, o qual lhes diz que nada mudou. Só quando num país a política de facto mudasse surgiriam a confiança e tentativas de insurreições. Dizemos «insurreições» porque aqui se fala de todos os países. «Eclodiu a revolução num país e agora deve eclodir na Alemanha» — este raciocínio é falso. Procura-se estabelecer uma ordem de sucessão, mas não se pode proceder assim. Todos vivemos a revolução de 1905, todos pudemos ouvir ou vimos como ela provocou o desenvolvimento das ideias revolucionárias no mundo inteiro, o que Marx sempre disse. Não se pode fabricar a revolução, nem estabelecer uma ordem de sucessão. A revolução não se faz por encomenda, a revolução brota. Isto é completo charlatanismo, que agora se aplica com especial frequência na Rússia. Dizem ao povo: «vós, na Rússia, fizestes a revolução, agora é a vez do alemão.» Se as condições objectivas mudarem, então a insurreição será inevitável. O que não sabemos é em que ordem, em que momento, nem com que êxito. Dizem-nos: se a classe revolucionária da Rússia tomar o poder nas suas mãos e nos outros países não se produzir a insurreição, que deverá fazer então o partido revolucionário? Que acontecerá então? A esta questão responde o último ponto da nossa resolução.

«Mas enquanto a classe revolucionária na Rússia não tiver tomado nas suas mãos todo o poder de Estado, o nosso partido apoiará por todos os meios os partidos e grupos proletários do estrangeiro que já durante a guerra conduzem de facto a luta revolucionária contra os seus próprios governos imperialistas e a sua própria burguesia.»

Eis tudo o que imediatamente podemos prometer e devemos fazer. A revolução cresce em todos os países, mas quando e em que medida ela cresce, isso ninguém sabe. Em todos os países existem homens que conduzem uma luta revolucionária contra os seus próprios governos. São eles, e só eles, que devemos apoiar. Estes são os factos, tudo o resto é apenas mentira. E acrescentamos:

«Em particular, o partido apoiará a confraternização em massa já iniciada entre os soldados de todos os países beligerantes na frente ...»

Esta observação responde à objecção de Plekhánov.

«O que resultará disto? — diz Plekhánov. — Bem, confraternizareis, e depois? Isto significa a possibilidade de uma paz separada na frente.»

Isto é malabarismo, não um argumento sério. Queremos a confraternização em todas as frentes e ocupamo-nos disso. Quando trabalhávamos na Suíça, publicámos o texto de um apelo em duas línguas: num lado em francês, no outro em alemão, e apelámos para aquilo que agora levamos aos soldados russos. Não nos limitamos à confraternização apenas entre a Rússia e a Alemanha, chamamos todos à confraternização. Ora, como compreender a confraternização?

«... procurando transformar esta manifestação espontânea de solidariedade dos oprimidos num movimento consciente e o melhor organizado possível para a passagem de todo o poder de Estado, em todos os países beligerantes, para as mãos do proletariado revolucionário.»

Actualmente a confraternização é espontânea, e não devemos enganarmos a nós próprios a este respeito. E necessário reconhecê-lo para não induzir o povo em erro. Os soldados que confraternizam não têm uma ideia política clara. Neles fala o instinto de homens oprimidos, que estão cansados, exaustos, e deixam de acreditar nos capitalistas: «enquanto continuais falando de paz — pois ouvimos isso há dois anos e meio - nós próprios começaremos.» Esse é o fiel instinto de classe. Sem esse instinto, a causa da revolução estaria perdida. Pois, como sabeis, ninguém libertaria os operários se eles próprios não se libertassem. Mas basta esse instinto? Só o instinto não nos levaria longe. Por isso é necessária a passagem do instinto à consciência.

No apelo Aos Soldados de Todos os Países Beligerantes respondemos à pergunta: em que deve transformar-se esta confraternização? Na passagem do poder político para as mãos dos Sovietes de deputados operários e soldados. Naturalmente que os operários alemães darão aos seus Sovietes outros nomes, mas isto não tem importância. O fundamental é que nós consideramos indubitavelmente como correcto que ela é espontânea e que não nos limitamos a encorajá-la, mas colocamo-nos a tarefa de converter essa aproximação espontânea dos operários e dos camponeses fardados de todos os países num movimento consciente, cuja meta seja a passagem do poder, em todos os países beligerantes, para as mãos do proletariado revolucionário. Esta é uma tarefa muito difícil, mas também a situação em que se encontra a humanidade devido ao poder dos capitalistas é incrivelmente difícil e conduz a humanidade directamente à ruína. Por isso ela provocará essa explosão de indignação, que é uma garantia para a revolução proletária. Eis a nossa resolução, que submetemos à atenção da conferência.

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Notas de fim de tomo:

[N70] Lenine refere-se à derrota da Rússia na guerra de 1904-1905 contra o Japão. (retornar ao texto)

[N71] Birjevíe Védomosti (Boletim da Bolsa): jornal burguês que se editou em Petersburgo de 1880 a 1917, O seu nome abreviado, Birjovka, tornou-se sinónimo de venalidade e de falta de escrúpulos e de princípios. (retornar ao texto)

Inclusão 13/03/2011