As Pretensas Cisões na Internacional

Karl Marx e Friedrich Engels

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Até hoje, o Conselho Geral impôs a si próprio uma reserva absoluta quanto às lutas internas da Internacional e nunca respondeu publicamente aos ataques públicos, lançados durante mais de dois anos contra ele por membros da Associação.

Mas, se a persistência de alguns intriguistas em manter deliberadamente uma confusão entre a Internacional e uma sociedade(1*) que, desde a sua origem, lhe foi hostil, poderia permitir ficar calado durante mais tempo, o apoio que a reacção europeia encontra nos escândalos provocados por essa sociedade, num momento em que a Internacional atravessa a crise mais séria desde a sua fundação, obrigaria o Conselho Geral a fazer a história de todas estas intrigas.

I

Após a queda da Comuna de Paris, o primeiro acto do Conselho Geral foi o de publicar o seu Manifesto sobre «a Guerra civil em França», no qual se tornou solidário de todos os actos da Comuna que, justamente nesse momento, serviam à burguesia, à imprensa e aos governos da Europa para cobrir com as calúnias mais infames os vencidos de Paris. Mesmo uma parte da classe operária não tinha ainda compreendido que a sua bandeira acabava de sucumbir. O Conselho adquiriu uma prova disso, entre outras, pelas demissões de dois dos seus membros, os cidadãos Odger e Lucraft, que repudiaram qualquer solidariedade com esse Manifesto. Pode dizer-se que da sua publicação em todos os países civilizados data a unidade de vistas da classe operária sobre os acontecimentos de Paris.

Por outro lado, a Internacional encontrou um meio de propaganda dos mais poderosos na imprensa burguesa e, sobretudo, na grande imprensa inglesa, forçada por este Manifesto a envolver-se numa polémica sustentada pelas réplicas do Conselho Geral.

A chegada a Londres de numerosos refugiados da Comuna obrigou o Conselho Geral a constituir-se em Comité de Socorro e a exercer durante mais de oito meses essa função, completamente fora das suas atribuições regulares. É desnecessário dizer que os vencidos e os exilados da Comuna nada tinham a esperar da burguesia. Quanto à classe operária, os pedidos de socorro vinham num momento difícil. A Suíça e a Bélgica tinham recebido já o seu contingente de refugiados que tinham de sustentar ou a quem tinham de facilitar a passagem para Londres. As somas recolhidas na Alemanha, na Áustria e em Espanha eram enviadas para a Suíça. Em Inglaterra, a grande luta pela jornada de 9 horas de trabalho, cuja batalha decisiva se travou em Newcastle,[N212] havia absorvido tanto as contribuições individuais dos operários como os fundos organizados de Trade Unions(2*), fundos que, de resto, segundo os próprios estatutos, não podem ser afectados senão às lutas de ofício. No entanto, por diligências e correspondências incessantes, o Conselho pôde reunir, em pequenas somas, o dinheiro que distribuía cada semana. Os operários americanos responderam mais largamente ao seu apelo. Ainda se o Conselho tivesse podido realizar os milhões que a imaginação aterrada da burguesia deposita tão generosamente no cofre-forte internacional!

Depois de Maio de 1871, um certo número de refugiados da Comuna foram chamados a substituir no Conselho o elemento francês que, em consequência da guerra, já aí se não encontrava representado. Entre os membros assim adjuntos, havia antigos internacionais e uma minoria composta por homens conhecidos pela sua energia revolucionária, e cuja eleição foi uma homenagem prestada à Comuna de Paris.

É no meio destas preocupações que o Conselho tem de fazer os trabalhos preparatórios para a Conferência dos Delegados que acabava de convocar.[N213]

As medidas violentas tomadas contra a Internacional pelo governo bonapartista tinham impedido a reunião do Congresso em Paris, prescrita pelo Congresso de Basileia[N108]. Usando do direito conferido pelo artigo 4 dos estatutos, o Conselho Geral, na sua circular de 12 de Julho de 1871, convocou o Congresso para Mainz. Nas cartas dirigidas ao mesmo tempo às diferentes federações(3*), propôs-lhes transferir a sede do Conselho Geral de Inglaterra para um outro país e pediu que se munissem os delegados de mandatos imperativos a este propósito. As federações pronunciaram-se por unanimidade pela sua manutenção em Londres. A guerra franco-alemã, ao rebentar poucos dias depois, tornou qualquer congresso impossível. Foi então que as federações consultadas nos deram o poder de fixar a data do próximo congresso consoante os acontecimentos.

Logo que a situação política pareceu permiti-lo, o Conselho Geral convocou uma Conferência privada, convocação apoiada nos precedentes da Conferência de 1865[N42] e das sessões administrativas privadas de cada Congresso. Um Congresso público era impossível e apenas teria denunciado os delegados continentais num momento em que a reacção europeia celebrava as suas orgias; em que Jules Favre pedia a todos os governos, mesmo ao da Inglaterra, a extradição dos refugiados como criminosos de direito comum; em que Dufaure propunha à assembleia rural[N165] uma lei que punha a Internacional fora da lei[N214] e de que Malou, mais tarde, servia aos Belgas uma contrafacção hipócrita; em que, na Suíça, um refugiado da Comuna era preso preventivamente, à espera da decisão do governo federal sobre o pedido de extradição; em que a caça aos Internacionais era a base ostensiva de uma aliança entre Beust e Bismarck, de que Vítor Manuel se apressou a adoptar a cláusula dirigida contra a Internacional; em que o governo espanhol, pondo-se inteiramente à disposição dos carrascos de Versalhes, forçava o Conselho Federal de Madrid a procurar refúgio em Portugal[N215]; no momento, enfim, em que a Internacional tinha como dever primeiro reestreitar a sua organização e aceitar o desafio lançado pelos governos.

Todas as secções que tinham relações regulares com o Conselho Geral foram em tempo oportuno convocadas para a Conferência que, embora não sendo um Congresso público, encontrou sérias dificuldades. É desnecessário dizer que a França, no estado em que se encontrava, não podia eleger delegados. Na Itália, a única secção então organizada era a de Nápoles: no momento de nomear um delegado, foi dissolvida pela força armada. Na Áustria e na Hungria, os membros mais activos estavam na prisão. Na Alemanha, alguns dos membros mais conhecidos eram perseguidos por crime de alta traição, outros estavam na prisão e os meios pecuniários do partido estavam absorvidos pela necessidade de ajudar as suas famílias. Os Americanos, ao mesmo tempo que dirigiam à Conferência um Memorando pormenorizado sobre a situação da Internacional no seu país, empregaram os custos da delegação para apoio dos refugiados. De resto, todas as federações reconheceram a necessidade de substituir o Congresso público pela Conferência privada.

A Conferência, depois de ter reunido em Londres de 17 a 23 de Setembro de 1871, deixou ao Conselho Geral o cuidado de publicar as suas resoluções, de codificar os regulamentos administrativos e de os publicar com os Estatutos Gerais, revistos e corrigidos, em três línguas, de executar a resolução substituindo os cartões de membro por selos de adesão, de reorganizar a Internacional em Inglaterra[N216] e, por último, de acorrer às despesas necessitadas por estes diversos trabalhos.

Desde a publicação dos trabalhos da Conferência, a imprensa reaccionária, de Paris a Moscovo, de Londres a Nova Iorque, denunciou a resolução sobre a política da classe operária(4) como encerrando desígnios tão perigosos — o Times[N179] acusou-a de «uma audácia friamente calculada» — que era urgente pôr fora da lei a Internacional. Por outro lado, a resolução que ajustava contas com as secções sectárias intrusas [interlopes][N217] foi o pretexto para a polícia internacional à espreita reivindicar barulhentamente a liberdade autónoma dos operários, seus protegidos, contra o despotismo aviltante do Conselho Geral e da Conferência. A classe operária sentia-se tão «pesadamente oprimida» que o Conselho Geral recebeu da Europa, da América, da Austrália e mesmo das índias Orientais adesões e anúncios de formação de novas secções.

II

As denúncias da imprensa burguesa assim como as lamentações da polícia internacional encontravam um eco simpático, mesmo na nossa Associação. Intrigas, dirigidas na aparência contra o Conselho Geral e na realidade contra a Associação, foram tramadas no seu seio. No fundo destas intrigas encontra-se a inevitável Aliança Internacional da Democracia Socialista, parida pelo Russo Mikhaíl Bakúnine. No seu regresso da Sibéria, pregou, no Kolokol de Herzen, como fruto da sua longa experiência, o pan-eslavismo e a guerra das raças.[N218] Mais tarde, durante a sua estada na Suíça, foi nomeado para o Comité director da «Liga da Paz e da Liberdade»[N219], fundada em oposição à Internacional. Como os negócios desta sociedade burguesa iam de mal a pior, o seu presidente, o Sr. G. Vogt, a conselho de Bakúnine, propôs uma aliança ao Congresso Internacional reunido em Bruxelas em Setembro de 1868.[N220] O Congresso declarou por unanimidade que das duas uma: ou a Liga perseguia o mesmo objectivo que a Internacional e, nesse caso, não tinha qualquer razão de ser ou o seu objectivo era diferente e, então, a aliança era impossível. No Congresso da Liga que se realizou em Berna alguns dias mais tarde, Bakúnine operou a sua conversão. Propôs aí um programa de ocasião cujo valor científico pode ser julgado por esta única frase: a igualização económica e social das classes[N221]. Apoiado por uma minoria ínfima, rompeu com a Liga para entrar para a Internacional, determinado a substituir os estatutos gerais da Internacional pelo seu programa de circunstância, rejeitado pela Liga, e o Conselho Geral pela sua ditadura pessoal. Com este fim, criou para si próprio um instrumento especial, a Aliança Internacional da Democracia Socialista, destinada a tornar-se uma Internacional na Internacional.

Bakúnine encontrou os elementos necessários para a formação dessa sociedade nas relações que tinha estabelecido durante a sua estada em Itália e num núcleo de russos exilados, que lhe serviam de emissários e de recrutadores entre os membros da Internacional na Suíça, em França e em Espanha. No entanto, foi só perante as recusas reiteradas dos Conselhos federais belga e parisiense em reconhecer a «Aliança» que ele se decidiu a submeter à aprovação do Conselho Geral os estatutos da sua nova sociedade, os quais não eram senão a reprodução fiel do programa «incompreendido» de Berna. O Conselho respondeu pela seguinte circular, com data de 22 de Dezembro de 1868:

O CONSELHO GERAL A ALIANÇA INTERNACIONAL DA DEMOCRACIA SOCIALISTA

Há cerca de um mês que um certo número de cidadãos se constituiu em Genebra como Comité Central Iniciador de uma nova sociedade internacional, dita a «Aliança Internacional da Democracia Socialista», dando-se por «missão especial estudar as questões políticas e filosóficas na base mesma deste grande princípio da igualdade, etc...»

O programa e o regulamento impressos deste Comité iniciador só foram comunicados ao Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores em 15 de Dezembro de 1868. Segundo estes documentos, a dita Aliança está «inteiramente fundida na Internacional», ao mesmo tempo que está inteiramente fundada fora desta Associação. Ao lado do Conselho Geral da Internacional, eleito pelos Congressos sucessivos de Genebra[N222], Lausanne[N223] e Bruxelas, haverá, segundo o regulamento iniciador, um outro Conselho Geral em Genebra que se nomeou a si próprio. Ao lado dos grupos locais da Internacional, haverá grupos locais da Aliança que, por intermédio dos seus bureaux nacionais funcionando fora dos bureaux nacionais da Internacional, «solicitarão ao Bureau Central da Aliança a sua admissão na Internacional», arrogando-se assim o Comité Central da Aliança o direito de admissão na Internacional. Em último lugar, o Congresso Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores encontrará ainda o seu duplo no Congresso Geral da Aliança, pois, diz o regulamento iniciador, no Congresso anual dos trabalhadores a delegação da Aliança Internacional da Democracia Socialista, como ramo da Associação Internacional dos Trabalhadores, «realizará as suas sessões públicas num local separado».

Considerando:

O Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, na sua sessão de 22 de Dezembro de 1868, resolveu por unanimidade:

  1. Todos os artigos do Regulamento da Aliança Internacional da Democracia Socialista, estatuindo sobre as suas relações com a Associação Internacional dos Trabalhadores, são declarados nulos e sem efeito;
  2. A Aliança Internacional da Democracia Socialista não é admitida como ramo da Associação Internacional dos Trabalhadores.

G. Odger, presidente da sessão
R. Shaw, secretário-geral
Londres, 22 de Dezembro de 1868.

Alguns meses depois, a Aliança dirigiu-se de novo ao Conselho Geral e perguntou-lhe se, sim ou não, ele admitia os princípios dela. Em caso afirmativo, a Aliança declarava-se pronta a dissolver-se em secções internacionais(5*). Recebeu em resposta a seguinte circular, de 9 de Março de 1869:



O CONSELHO GERAL AO COMITÉ CENTRAL DA ALIANÇA INTERNACIONAL DA DEMOCRACIA SOCIALISTA

Segundo o artigo I dos nossos Estatutos, a Associação admite todas as sociedades operárias que aspirem ao mesmo objectivo, a saber: o concurso mútuo, o progresso e a emancipação completa da classe operária.

Encontrando-se as secções da classe operária colocadas nos diversos países em condições diversas de desenvolvimento, segue-se necessariamente que as suas opiniões teóricas, que reflectem o movimento real, também são divergentes.

No entanto, a comunidade de acção estabelecida pela Associação Internacional dos Trabalhadores, a troca das ideias facilitada pela publicidade feita pelos órgãos das diferentes secções nacionais, enfim, as discussões directas nos Congressos Gerais, não deixarão de gerar gradualmente um programa teórico comum.

Deste modo, está fora das funções do Conselho Geral fazer o exame crítico do Programa da Aliança. Não temos de investigar se sim ou não ele é uma expressão adequada do movimento proletário. Para nós, trata-se apenas de saber se ele não contém nada de contrário à tendência geral da nossa Associação, isto é, a emancipação completa da classe operária. Há uma frase no vosso programa que, deste ponto de vista, falha. No artigo 2, lê-se:

«Ela» (a Aliança) «quer antes do mais a igualização política, económica e social das Classes.»

A igualização das Classes, interpretada literalmente, resulta na harmonia do Capital e do Trabalho, tão importunamente pregada pelos socialistas burgueses. Não é a igualização das Classes — contra-senso lógico, impossível de realizar — mas, pelo contrário, a abolição das Classes, esse verdadeiro segredo do movimento do proletário, que forma o grande objectivo da Associação Internacional dos Trabalhadores. No entanto, considerando o contexto em que essa frase — Igualização das Classes — se encontra, ela parece ter-se introduzido aí como um simples erro de pena. O Conselho Geral não duvida de que quereis de facto eliminar do vosso programa uma frase que se presta a mal-entendidos tão perigosos. Com reserva dos casos em que a tendência geral da nossa Associação seria contradita, corresponde aos seus princípios deixar a cada secção formular livremente o seu programa teórico.

Não existe, portanto, qualquer obstáculo para a conversão das secções da Aliança em secções da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Se a dissolução da Aliança e a entrada das secções para a Internacional fossem definitivamente decididas, tornar-se-ia necessário, segundo os nossos regulamentos, informar o Conselho do lugar e da força numérica de cada nova secção.

Sessão do Conselho Geral
de 9 de Março de 1869.

A Aliança, tendo aceite estas condições, foi admitida na Internacional pelo Conselho Geral que, induzido em erro por algumas assinaturas do programa Bakúnine, a supôs como reconhecida pelo Comité Federal romando de Genebra que, pelo contrário, nunca deixou de a manter à margem. Doravante ela tinha atingido o seu objectivo imediato: fazer-se representar no Congresso de Basileia. A despeito dos meios desleais de que os seus partidários se serviram — meios empregues nessa ocasião, e só dessa vez, num Congresso da Internacional —, Bakúnine ficou decepcionado na sua expectativa de ver o Congresso transferir para Genebra a sede do Conselho Geral e sancionar oficialmente a velharia saint-simoniana, a abolição imediata do direito de herança, de que Bakúnine tinha feito o ponto de partida prático do socialismo. Foi o sinal para a guerra aberta e incessante que a Aliança fez, não apenas ao Conselho Geral mas ainda a todas as secções da Internacional, que recusaram adoptar o programa dessa capelinha sectária e, sobretudo, a doutrina da abstenção absoluta em matéria política.

Já antes do Congresso de Basileia, tendo Netcháev vindo a Genebra, Bakúnine entrou em relações com ele e fundou na Rússia uma sociedade secreta entre os estudantes. Escondendo sempre a sua própria pessoa sob o nome de diferentes «comités revolucionários», reivindicou poderes autocráticos, eivados de todos os embustes e mistificações do tempo de Cagliostro. O grande meio de propaganda dessa sociedade consistia em comprometer pessoas inocentes perante a polícia russa, dirigindo-lhes de Genebra comunicações em envelopes amarelos, revestidos no exterior, em língua russa, da estampilha do «comité revolucionário secreto». Os relatos públicos do processo Netcháev provam que foi feito um abuso infame do nome da Internacional(6*).

A Aliança começou nesse tempo uma polémica pública contra o Conselho Geral, primeiro no Progrès[N225] de Locle, depois no Egalité[N116] de Genebra, jornal oficial da federação romanda, onde se tinham infiltrado alguns membros da Aliança na esteira de Bakúnine. O Conselho Geral, que havia desdenhado os ataques do Progrès, órgão pessoal de Bakúnine, não podia ignorar os do Egalité, que devia crer aprovados pelo Comité federal romando. Publicou então a circular de 1 de Janeiro de 1870(7*), onde se diz: «Lemos no Egalité, n.° de 11 de Dezembro de 1869:

« "É certo que o Conselho Geral descura coisas extremamente importantes. Lembramos-lhe as suas obrigações, com o artigo primeiro do regulamento: — O Conselho Geral é obrigado a executar as resoluções do Congresso, etc.... Teríamos perguntas suficientes a fazer ao Conselho Geral para que as suas respostas constituíssem um boletim bastante longo. Elas virão mais tarde... Aguardando, etc..."

«O Conselho Geral não conhece qualquer artigo, quer nos estatutos quer nos regulamentos, que o obrigue a entrar em correspondência ou em polémica com o Egalité ou a dar "respostas às perguntas" dos jornais. Só o Comité federal de Genebra representa, perante o Conselho Geral, os ramos da Suíça romanda. Quando o Comité federal romando nos dirigir pedidos ou reprimendas pela única via legítima, isto é, pelo seu secretário, o Conselho Geral estará sempre pronto a responder. Mas o Comité federal romando não tem o direito nem de abdicar das suas funções nas mãos dos redactores do Egalité e do Progrès nem de deixar esses jornais usurpar as suas funções. De um modo geral a correspondência administrativa do Conselho Geral com os comités nacionais e locais não poderia ser publicada sem trazer um grande prejuízo ao interesse geral da Associação. Portanto, se os outros órgãos da Internacional imitassem o Progrès e o Egalité, o Conselho Geral ver-se-ia colocado na alternativa ou de se desacreditar perante o público calando-se ou de violar os seus deveres respondendo publicamente. O Egalité juntou-se ao Progrès para convidar o Travail[N226] (jornal parisiense) a pelo seu lado atacar o Conselho Geral. É quase uma Liga do bem público[N227]

No entanto, antes de ter conhecimento desta circular, o Comité federal romando tinha já afastado da redacção do Egalité os partidários da Aliança.

A circular de 1 de Janeiro de 1870, assim como a de 22 de Dezembro de 1868 e a de 9 de Março de 1869, foram aprovadas por todas as secções da Internacional.

É desnecessário dizer que nenhuma das condições aceites pela Aliança alguma vez foi cumprida. As suas pretensas secções permaneciam um mistério para o Conselho Geral. Bakúnine procurava manter sob a sua direcção pessoal os poucos grupos esparsos em Espanha e em Itália e a secção de Nápoles que ele tinha desligado da Internacional. Nas outras cidades italianas, correspondia-se com pequenos núcleos, compostos não de operários mas de advogados, de jornalistas e outros burgueses doutrinários. Em Barcelona, alguns amigos mantinham a sua influência. Em algumas cidades do Sul da França, a Aliança esforçava-se por fundar secções separatistas sob a direcção de Albert Richard e de Gaspard Blanc, de Lyon, aos quais ainda teremos de voltar. Numa palavra, a sociedade internacional na Internacional continuava a agitar-se.

O grande golpe da Aliança, a tentativa para se apoderar da direcção da Suíça romanda, devia ser vibrado no Congresso de La Chaux-de-Fonds, aberto a 4 de Abril de 1870.

A luta travou-se a propósito do direito de admissão dos delegados da Aliança, direito contestado pelos delegados da Federação genebrina e das secções de La Chaux-de-Fonds.

Ainda que, segundo o seu próprio recenseamento, os partidários da Aliança não fossem senão a representação de um quinto dos membros da federação conseguiram, graças à repetição das manobras de Basileia, arranjar uma maioria fictícia de um ou dois votos, maioria que, no dizer do seu próprio órgão (ver Solidarité[N228] de 7 de Maio de 1870), não representava senão quinze secções, enquanto só em Genebra, havia trinta! A propósito desta votação o Congresso romando dividiu-se em dois partidos que continuaram as suas sessões separadamente. Os partidários da Aliança, considerando-se como os representantes legais de toda a federação, transferiram a sede do Comité federal romando para La Chaux-de-Fonds e fundaram em Neuchâtel o seu órgão oficial, o Solidarité, redigido pelo cidadão Guillaume. Este jovem escritor tinha por missão especial difamar «os operários de fábrica»[N229] de Genebra, esses odiosos «burgueses», fazer guerra ao Egalité, jornal da federação romanda, e pregar a abstenção absoluta em matéria política. Os artigos mais marcantes relativos a este último assunto tiveram por autores, em Marselha, Bastelica e, em Lyon, os dois grandes pilares da Aliança: Albert Richard e Gaspard Blanc.

No seu regresso, os delegados de Genebra convocaram as suas secções para uma assembleia geral que, apesar da oposição de Bakúnine e dos seus amigos, aprovou os seus actos no Congresso de La Chaux-de-Fonds. Daí a algum tempo, Bakúnine e os seus acólitos mais activos foram excluídos da antiga federação romanda.

Mal o Congresso romando se tinha encerrado, já o novo Comité de La Chaux-de-Fonds apelava para a intervenção do Conselho Geral numa carta assinada F. Robert, secretário, e Henri Chevalley, presidente, denunciado dois meses mais tarde como ladrão pelo órgão do Comité, o Solidarité de 7 de Julho. Depois de ter examinado as peças justificativas das duas partes, o Conselho Geral decidiu, a 28 de Junho de 1870, manter o Comité federal de Genebra nas suas antigas funções e convidar o novo Comité federal de La Chaux-de-Fonds a tomar um nome local. Perante esta decisão, que frustrava os seus desejos, o Comité de La Chaux-de-Fonds denunciou o autoritarismo do Conselho Geral, esquecendo que tinha sido ele o primeiro a pedir a sua intervenção. A perturbação que a sua persistência em usurpar o nome do Comité federal romando lançava na federação suíça obrigou o Conselho Geral a suspender quaisquer relações oficiais com esse Comité.

Louis Bonaparte acabava de entregar o seu exército em Sedan[N109]. De toda a parte se elevaram os protestos dos Internacionais contra a continuação da guerra. O Conselho Geral, no seu manifesto de 9 de Setembro, denunciando os projectos de conquista da Prússia, mostrava o perigo do seu triunfo para a causa do proletário e predizia aos operários alemães que eles seriam disso as primeiras vítimas. Provocava em Inglaterra meetings(8*) que contrariaram as tendências prussianas da corte. Na Alemanha, os operários internacionais fizeram manifestações reclamando o reconhecimento, da República e «uma paz honrosa para a França...»

Pelo seu lado, a natureza belicosa do fervilhante Guillaume (de Neuchâtel) sugeriu-lhe a ideia luminosa de um manifesto anónimo, publicado em suplemento e a coberto do jornal oficial Solidarité[N230] pedindo a formação de corpos-francos suíços para irem combater os Prussianos, o que ele sempre foi impedido de fazer, sem qualquer dúvida, pelas suas convicções abstencionistas.

Sobreveio a insurreição de Lyon[N231]. Bakúnine acorreu e, apoiado em Albert Richard, Gaspard Blanc e Bastelica, instalou-se, a 28 de Setembro, na Câmara Municipal, cujos acessos se absteve de guardar como de um acto político. Foi lastimosamente expulso de lá por alguns guardas nacionais no momento em que, após um parto laborioso, o seu decreto sobre a abolição do Estado acabava enfim de ver a luz do dia.

Em Outubro de 1870, o Conselho Geral, na ausência dos seus membros franceses, associou a si o cidadão Paul Robin, refugiado de Brest, um dos partidários mais conhecidos da Aliança e, para mais, autor dos ataques lançados no Egalité contra o Conselho Geral onde, a partir desse momento, não deixou de funcionar como correspondente oficioso do Comité de La Chaux-de-Fonds. Em 14 de Março de 1871, propôs a convocação de uma Conferência privada da Internacional para arrumar o diferendo suíço. O Conselho, prevendo que grandes acontecimentos se preparavam em Paris, recusou de pronto. Robin voltou à carga por várias vezes e propôs mesmo ao Conselho que tomasse uma decisão definitiva sobre o diferendo. A 25 de Julho, o Conselho Geral decidiu que esse assunto seria uma das questões submetidas à Conferência a ser convocada para o mês de Setembro de 1871[N210].

A 10 de Agosto, a Aliança, pouco desejosa de ver as suas actuações perscrutadas por uma Conferência, declarava que estava dissolvida a partir de 6 do mesmo mês. Mas, a 15 de Setembro, reaparece e pede a sua admissão ao Conselho sob o nome de Secção dos Ateus Socialistas. Segundo a resolução administrativa n.° V do Congresso de Basileia, o Conselho não teria podido admiti-la sem ter consultado o Comité federal de Genebra que estava cansado de dois anos de luta com as secções sectárias. Aliás, o Conselho havia já declarado às sociedades operárias cristãs inglesas (Young Meris Christian Association(9*) que a Internacional não reconhece secções teológicas.

A 6 de Agosto, data da dissolução da Aliança, o Comité federal de La Chaux-de-Fonds, ao mesmo tempo que renova o seu pedido de entrar em relações oficiais com o Conselho, declara-lhe que continuará a ignorar a resolução de 28 de Junho e a afirmar-se, face a Genebra, como Comité federal romando; e «que é ao Congresso Geral que pertence julgar este assunto». A 4 de Setembro, o mesmo Comité enviou um protesto contra a competência da Conferência, da qual, todavia, tinha sido o primeiro a pedir a convocação. A Conferência teria podido perguntar, por sua vez, qual era a competência do Conselho federal de Paris, que esse Comité tinha requerido, antes do cerco, que decidisse sobre o diferendo suíço[N232]. Contentou-se em confirmar a decisão do Conselho Geral de 28 de Junho de 1870. (Ver os motivos no Egalité de Genebra de 21 de Outubro de 1870.

III

A presença na Suíça de alguns dos proscritos franceses que aí tinham encontrado refúgio veio dar outra vez um vislumbre de vida à Aliança.

Os internacionais de Genebra fizeram pelos proscritos tudo o que estava ao seu alcance. Asseguraram-lhes socorros desde o primeiro momento e impediram, por uma agitação poderosa, as autoridades suíças de conceder a extradição dos refugiados, reclamada pelo governo de Versalhes. Muitos correram graves perigos ao irem a França ajudar refugiados a alcançarem a fronteira. Qual não foi, pois, o espanto dos operários genebrinos ao verem alguns dirigentes, tais como B. Malon(10*) porem-se imediatamente em relação com os homens da Aliança e com a ajuda de N. Júkovski, ex-secretário da Aliança, tentarem fundar, em Genebra, fora da federação romanda, a nova «Secção de Propaganda e de Acção Revolucionária Socialista[N234]». No primeiro artigo dos seus estatutos ela «declara aderir aos estatutos gerais da Associação Internacional dos Trabalhadores, reservando-se toda a liberdade de acção e de iniciativa que lhe é dada como consequência lógica do princípio de autonomia e de federação reconhecido pelos estatutos e pelos Congressos da Associação».

Noutros termos, ela reservou-se toda a liberdade de continuar a obra da Aliança.

Numa carta de Malon, de 20 de Outubro de 1871, esta nova secção dirigiu ao Conselho Geral pela terceira vez o pedido da sua admissão na Internacional. Em conformidade com a resolução V do Congresso de Basileia, o Conselho consultou o Comité federal de Genebra, que protestou vivamente contra o reconhecimento pelo Conselho desse novo «foco de intrigas e de dissensões». O Conselho foi, com efeito, suficientemente «autoritário» para não querer impor a toda uma federação as vontades de B. Malon e de N. Júkovski, ex-secretário da Aliança.

Tendo o Solidarité deixado de existir, os novos aderentes da Aliança fundaram La Révolution Sociale[N235] sob a superior direcção de Madame Andrée Léo que, no Congresso da Paz em Lausanne, acabava de declarar que

«Raoul Rigault e Ferré eram as duas figuras sinistras da Comuna que até aí» (até à execução dos reféns) «não tinham deixado, sempre em vão, de reclamar medidas sangrentas».

Desde o seu primeiro número, apressou-se a pôr-se ao nível do Fígaro, do Gaulois, do Paris-Journal[N236] e outros órgãos sujos, cujas porcarias contra o Conselho Geral reeditou. O momento pareceu-lhe oportuno para acender, mesmo na Internacional, o fogo dos ódios nacionais. Segundo ele, o Conselho Geral era um comité alemão, dirigido por um cérebro bismarckiano(11*).

Depois de ter bem estabelecido que certos membros do Conselho Geral se não podiam vangloriar de serem «Gauleses antes de tudo», a Révolution Sociale não soube senão apropriar-se da segunda palavra de ordem que a polícia europeia fazia circular e denunciar o autoritarismo do Conselho.

Quais eram, portanto, os factos em que se apoiavam estas berrarias pueris? O Conselho Geral tinha deixado morrer a Aliança de morte natural e, de acordo com o Comité federal de Genebra, tinha impedido a sua ressurreição. Além disso, tinha requerido ao Comité de La Chaux-de-Fonds que tomasse um nome que lhe permitisse viver em paz com a grande maioria dos Internacionais romandos.

Fora destes actos «autoritários», que uso tinha feito o Conselho Geral, desde Outubro de 1869 até Outubro de 1871, dos poderes bastante extensos que o Congresso de Basileia lhe tinha conferido?

1) A 8 de Fevereiro de 1870, a «sociedade dos proletários positivistas» de Paris pediu ao Conselho Geral a sua admissão. O Conselho respondeu que os princípios positivistas dizendo respeito ao capital, enunciados nos estatutos particulares da sociedade, estavam em flagrante contradição com os considerandos dos estatutos gerais(12*); que era, portanto, preciso riscá-los e entrar na Internacional, não como «positivistas» mas como «proletários», permanecendo ao mesmo tempo livres de conciliar as suas opiniões teóricas com os princípios gerais da Associação. A secção tendo reconhecido a justeza desta decisão, entrou na Internacional.

2) Em Lyon, tinha havido uma cisão entre a secção de 1865 e uma secção de formação recente em que, no meio de operários honestos, a Aliança estava representada por Albert Richard e Gaspard Blanc. Como é de uso em casos semelhantes, a sentença de um tribunal de arbitragem, formado na Suíça, não foi reconhecida. A 15 de Fevereiro de 1870, a secção de formação recente não só pediu ao Conselho Geral para estatuir sobre este diferendo em virtude da resolução vil do Congresso de Basileia, como lhe enviou uma sentença já pronta, excluindo e infamando os membros da secção de 1865, sentença que ele deveria assinar e devolver na volta do correio. O Conselho censurou este procedimento inaudito e requereu peças justificativas. Ao mesmo pedido, a secção de 1865 respondeu que tendo as peças de acusação contra Albert Richard sido submetidas ao tribunal de arbitragem, Bakúnine se tinha apropriado delas e se recusava a devolvê-las e que, por conseguinte, ela não podia satisfazer de uma maneira absoluta os desejos do Conselho Geral. A decisão do Conselho sobre este assunto, com data de 8 de Março, não levantou qualquer objecção nem de um lado nem do outro.

3) Tendo o ramo francês de Londres admitido elementos de um carácter mais do que duvidoso, tinha-se pouco a pouco transforma do numa comandita do Sr. Félix Pyat. Servia-lhe para organizar manifestações comprometedoras a favor do assassinato de L. Bonaparte, etc, e para propagar em França, a coberto da Internacional, os seus ridículos manifestos. O Conselho Geral limitou-se a declarar nos órgãos da Associação que, não sendo o Sr. Pyat membro da Internacional, ela não podia ser responsável pelos actos dele. O ramo francês declarou então que não reconhecia nem o Conselho Geral nem os Congressos: mandou afixar nas paredes de Londres que fora dela a Internacional era uma sociedade anti-revolucionária. A prisão dos internacionais franceses, na véspera do plebiscito[N135], sob o pretexto de uma conspiração, urdida na realidade pela polícia, e à qual os manifestos pyatistas deram um ar de verosimilhança, forçou o Conselho Geral a publicar na Marseillaise[N138] e no Réveil[N137] a sua resolução de 10 de Maio de 1870, declarando que o pretenso ramo francês já não pertencia à Internacional há mais de dois anos e que as suas actuações eram obra de agentes policiais. A necessidade desta diligência está provada pela declaração do Comité federal de Paris, nos mesmos jornais, e pela dos Internacionais parisienses aquando dos seus processos — apoiando-se ambas na resolução do Conselho. O ramo francês desapareceu no começo da guerra, mas, tal como a Aliança na Suíça, viria a reaparecer em Londres com novos aliados e sob outros nomes.

Nos últimos dias da Conferência, formou-se em Londres, entre os proscritos da Comuna, uma «secção francesa de 1871» com cerca de 35 membros. O primeiro acto «autoritário» do Conselho Geral foi denunciar publicamente o secretário dessa secção, Gustave Durand, como espião da polícia francesa. Os documentos que possuímos provam a intenção da polícia de fazer com que Durand assistisse primeiro à conferência e de o introduzir mais tarde no seio do Conselho Geral. Impondo os estatutos da nova secção aos seus membros «que não aceitassem qualquer delegação para o Conselho Geral que não fosse a da sua secção», os cidadãos Theisz e Bastelica retiraram-se do Conselho.

A 17 de Outubro, a secção delegou para o Conselho dois dos seus membros, portadores de mandatos imperativos, não sendo um deles senão o Sr. Chautard, ex-membro do comité de artilharia que o Conselho declinou associar a si antes de ter examinado os estatutos da «secção de 1871»(13*). Bastará lembrar aqui os pontos principais do debate a que estes estatutos deram lugar. Incidem sobre o artigo 2:

«Para ser aceite como membro da secção é preciso justificar os seus meios de existência, apresentar garantias de moralidade, etc.»

Na sua resolução de 17 de Outubro de 1871, o Conselho propôs que se riscassem as palavras: justificar os seus meios de existência.

«Em casos duvidosos», dizia o Conselho, «uma secção pode muito bem colher informações sobre os meios de existência como "garantia de moralidade", enquanto noutros casos, tais como os dos refugiados, dos operários em greve, etc, a ausência de meios de existência pode muito bem ser uma garantia de moralidade. Mas pedir aos candidatos para justificarem os seus meios de existência como condição geral para serem admitidos na Internacional seria uma inovação burguesa, contrária ao espírito e à letra dos estatutos gerais.» A secção respondeu que

«os estatutos gerais tornam as secções responsáveis pela moralidade dos seus membros e reconhecem-lhes, por conseguinte, o direito de tomarem, como entenderem, as suas garantias».

A isto o Conselho Geral replicava a 7 de Novembro: «Segundo essa maneira de ver, uma secção Internacional fundada por teetotallers(14*) (sociedade de temperança) poderia inserir nos seus estatutos particulares um artigo concebido assim: Para se ser aceite como membro da secção, é preciso jurar que se abstém de toda a bebida alcoólica. Numa palavra, as condições de admissão, na Internacional, mais absurdas e mais díspares poderiam ser impostas pelos estatutos particulares das secções, sempre sob o pretexto de que elas entendem assegurar desse modo a moralidade dos seus membros... "Os meios de existência dos grevistas", acrescenta a secção francesa de 1871, "consistem na caixa das greves." Pode responder-se a esta frase, em primeiro lugar, que essa caixa é frequentemente fictícia... Além disso, inquéritos oficiais ingleses provaram que a maioria dos operários ingleses... é forçada — quer pela greve ou o desemprego quer pela insuficiência dos salários ou em consequência dos prazos de pagamento e por muitas outras causas ainda — a recorrer constantemente aos montepios e às dívidas, meios de existência de que não se poderia exigir justificação sem se imiscuir de uma maneira inqualificável na vida privada dos cidadãos. Ora, das duas uma: ou a secção não procura nos meios de existência senão garantias de moralidade... e então a proposta do Conselho Geral preenche esse objectivo... Ou a secção, no artigo 2 dos seus estatutos, falou intencionalmente da justificação dos meios de existência como condição de admissão,para além, das garantias de moralidade... e, nesse caso, o Conselho afirma que é uma inovação burguesa, contrária à letra e ao espírito dos estatutos gerais.»(15*) No artigo 11 dos seus estatutos está dito:

«Um ou vários delegados serão enviados ao Conselho Geral.»

O Conselho pediu que este artigo fosse riscado, «porque os estatutos gerais da Internacional não reconhecem qualquer direito às secções de enviar delegados ao Conselho Geral». «Os estatutos gerais», acrescentou ele, «não reconhecem senão dois modos de eleições para os membros do Conselho Geral: ou a sua eleição pelo Congresso ou a sua adjunção pelo Conselho Geral...» E bem verdade que as diferentes secções existentes em Londres tinham sido convidadas a enviar delegados ao Conselho Geral que, para não infringir os estatutos gerais, sempre procedeu da seguinte maneira: Determinou primeiro o número de delegados a enviar por cada secção, reservando-se o direito de os aceitar ou de os rejeitar consoante os julgasse apropriados para as funções gerais que eles devem desempenhar. Estes delegados tornavam-se membros do Conselho Geral, não em virtude da delegação que tinham recebido das suas secções mas em virtude do direito que os estatutos gerais dão ao Conselho de associar a si novos membros. Tendo funcionado até à decisão tomada pela última Conferência, quer como Conselho Geral da Associação Internacional quer como Conselho Central para a Inglaterra, o Conselho de Londres achou útil admitir, para além dos membros que associava a si directamente, membros delegados em primeiro lugar pelas suas secções respectivas. Enganar-nos-íamos estranhamente querendo assimilar o modo de eleição do Conselho Geral ao do Conselho federal de Paris, o qual nem sequer era um Conselho nacional, nomeado por um Congresso nacional, como, por exemplo, o Conselho federal de Bruxelas ou o de Madrid. O Conselho federal de Paris não era senão uma delegação das secções parisienses... O modo de eleição do Conselho Geral está determinado pelos estatutos gerais... e os seus membros não poderiam aceitar outro mandato imperativo que não fosse o dos estatutos e regulamentos gerais... Se se tomar em consideração o parágrafo que o precede, o art. 11 não tem outro sentido senão o de mudar completamente a composição do Conselho Geral e de fazer dele, contrariamente ao artigo 3 dos estatutos gerais, uma delegação das secções de Londres em que a influência dos grupos locais se substituiria à de toda a Associação Internacional dos Trabalhadores. Por fim, o Conselho Geral, cujo primeiro dever consiste na execução das resoluções dos Congressos (ver o artigo 1 do regulamento administrativo do Congresso de Genebra), diz que «considera como não tendo de modo nenhum a ver com a questão... as ideias emitidas pela secção francesa de 1871 sobre uma mudança radical a introduzir nos artigos dos estatutos gerais relativos à sua constituição».

Aliás, o Conselho declarou que admitiria dois delegados da secção nas mesmas condições de que os das outras secções de Londres.

A «secção de 1871», longe de ficar satisfeita com esta resposta, publicou, a 14 de Dezembro, uma «declaração» assinada por todos os seus membros, cujo novo secretário foi pouco tempo depois expulso, como indigno, da sociedade dos refugiados. Segundo esta declaração, o Conselho Geral, ao recusar-se a usurpar atribuições legislativas, tornou-se culpado «de uma retrogressão completamente naturalista da ideia social».

Eis agora algumas amostras da boa-fé que presidiu à elaboração deste documento.

A Conferência de Londres tinha aprovado a conduta dos operários alemães durante a guerra[N237]. Era evidente que esta resolução, proposta por um delegado suíço(16*), apoiada por um delegado belga e votada por unanimidade, não dizia respeito senão aos internacionais alemães que expiaram na prisão e expiam ainda a sua conduta anti-chauvinista durante a guerra. Além disso, para obviar a qualquer interpretação malévola, o secretário do Conselho Geral para a França(17*) acabava de explicar numa carta, publicada pelo Qui Vive!, pelo Constitution, pelo Radical, pelo Emancipation, pelo Europe, etc, o verdadeiro sentido da resolução. Apesar disso, oito dias depois, a 20 de Novembro de 1871, quinze membros da Secção francesa de 1871 inseriam no Qui Vivei um «protesto» pleno de injúrias contra os operários alemães e denunciavam a resolução da Conferência como prova irrecusável de que a «ideia pangermânica» possui o Conselho Geral. Por seu lado, toda a imprensa feudal, liberal e policial da Alemanha se apoderou avidamente deste incidente para demonstrar aos operários alemães o nada dos seus sonhos internacionais. No fim disto tudo, o protesto de 20 de Novembro foi endossado por toda a secção de 1871 na sua declaração de 14 de Dezembro.

Para estabelecer «a vertente indefinida do autoritarismo pela qual desliza o Conselho Geral», ela cita «a publicação por este mesmo Conselho Geral de uma edição oficial dos estatutos gerais por ele revistos». Basta deitar uma vista de olhos à nova edição dos estatutos para ver que em cada alínea se encontra, no apêndice, a remissão às fontes que estabelecem a sua autenticidade! Quanto às palavras «edição oficial», o primeiro Congresso da Internacional tinha decidido que «o texto oficial e obrigatório dos estatutos e regulamentos gerais seria publicado pelo Conselho Geral». (Ver Congresso Operário da Associação Internacional dos Trabalhadores, realizado em Genebra de 3 a 8 de Setembro de 1866, página 27, nota.)

É desnecessário dizer que a secção de 1871 mantinha relações contínuas com os dissidentes de Genebra e de Neuchâtel. Um dos seus membros que tinha desenvolvido mais energia a atacar o Conselho Geral do que alguma vez tinha posto a defender a Comuna, Chalain, viu-se de repente reabilitado por B. Malon, que ainda há pouco formulava contra ele acusações muito graves numa carta a um membro do Conselho. De resto, a Secção francesa de 1871 mal tinha acabado de lançar a sua declaração quando a guerra civil rebentou nas suas fileiras. Primeiro, Theisz, Avrial e Camélinat retiraram-se dela. A partir daí, ela fragmentou-se em vários pequenos grupos, em que um é dirigido pelo senhor Pierre Vésinier, expulso do Conselho Geral pelas suas calúnias contra Varlin e outros, e depois posto fora da Internacional pela Comissão belga, que o Congresso de Bruxelas (1868) tinha nomeado. Outro desses grupos é fundado por B. Landeck, que a fuga imprevista do prefeito de polícia Piétri, em 4 de Setembro, libertou do seu compromisso

«escrupulosamente respeitado de não mais se ocupar de assuntos políticos, nem da Internacional em França!» (Ver Terceiro Processo da Associação Internacional dos Trabalhadores de Paris, 1870, p. 4.)

Por outro lado, a massa dos refugiados franceses em Londres formou uma secção que está em completa harmonia com o Conselho Geral.

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Notas de rodapé:

(1*) Aliança Internacional da Democracia Socialista. (retornar ao texto)

(2*) Em inglês no texto: sindicatos. (Nota da edição portuguesa) (retornar ao texto)

(3*) K. Marx, Comunicação Confidencial a Todas as Secções. (retornar ao texto)

(4*)Ver o Discurso Sobre a Acção Política da Classe Operária. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(5*) No presente texto, «internacionais» e «internacional» têm por vezes o sentido de «da Internacional» ou «membros da Internacional». (Nota da edição portuguesa .) (retornar ao texto)

(6*) Um extracto do processo Netcháev '" será publicado proximamente[N224]. O leitor encontrará aí uma amostra das máximas ao mesmo tempo idiotas e infames, cuja responsabilidade os amigos de Bakúnine fizeram pesar sobre a Internacional. (Nota dos Autores.) (retornar ao texto)

(7*) Ver K. Marx, O Conselho Geral ao Conselho Federal da Suíça Romanda. (retornar ao texto)

(8*) Em inglês no texto: comícios. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(9*) Associação dos Jovens Cristãos. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(10*) Os amigos de B. Malon que, num reclamo esteriotipado, lhe chamam, desde há três meses, fundador da Internacional, que anunciam o seu livro[N233] como a única obra independente sobre a Comuna, sabem eles da atitude tomada pelo adjunto das Batignolles na véspera das eleições de Fevereiro? Nesta época, B. Malon, que não previa ainda a Comuna e que não tinha em vista senão o sucesso da sua eleição para a Assembleia, fez intrigas para ser admitido na lista dos quatro comités como Internacional. Com este objectivo, negou descaradamente a existência do Conselho federal parisiense e submeteu aos comités a lista de uma secção fundada por ele nas Batignolles, como emanando de toda a Associação. — Mais tarde, em 19 de Março, insultava num documento público os promotores da grande Revolução realizada na véspera. — Hoje, este anarquista dos sete costados imprime ou deixa imprimir aquilo que dizia há já um ano aos quatro comités: A Internacional, sou eu! B. Malon encontrou maneira de parodiar, ao mesmo tempo, Luís XIV e o chocolateiro Preron. Só que este não declara que o seu chocolate é o único... comestível! (Nota dos Autores.) (retornar ao texto)

(11*) Eis qual a composição, por nacionalidades, deste Conselho: 20 Ingleses, 15 Franceses, 7 Alemães (em que cinco são fundadores da Internacional), dois Suíços, dois Húngaros, um Polaco, um Belga, um Irlandês, um Dinamarquês e um Italiano. (Nota dos Autores.) (retornar ao texto)

(12*) Ver Estatutos Gerais da Associação Internacional dos Trabalhadores. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(13*) Pouco tempo depois, este Chautard que tinham querido impor ao Conselho Geral era expulso da sua secção como agente da polícia de Thiers. Era acusado por aqueles mesmos que o tinham julgado digno entre todos para os representar no Conselho Geral. (Nota dos Autores.) (retornar ao texto)

(14*) Em inglês no texto: abstémios. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(15*) K. Marx, Projecto de Resolução do Conselho Geral sobre a Secção Francesa de 1871. (retornar ao texto)

(16*) N. Utine. (retornar ao texto)

(17*) A. Serrailler. (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N42] Trata-se da Conferência de Londres, que se realizou de 25 a 29 de Setembro de 1865, com a participação de membros do Conselho Geral e dos dirigentes de diversas secções. A conferência ouviu o relatório do Conselho Geral, aprovou o seu balanço financeiro e a ordem de trabalhos do congresso seguinte. A Conferência de Londres, preparada e realizada sob a direcção de Marx, desempenhou um grande papel na época da constituição e organização da Internacional. (retornar ao texto)

[N108] Trata-se do Congresso de Basileia da Internacional, realizado em 6-11 de Setembro de 1869, no qual, a 10 de Setembro, foi aprovada a seguinte proposta dos partidários de Marx sobre a propriedade fundiária:
«1) A sociedade tem o direito de abolir a propriedade privada da terra e de a transformar em propriedade social.
«2) É indispensável abolir a propriedade privada da terra e transformá-la em Propriedade social.»
No Congresso foram também adoptadas resoluções sobre a unificação dos sindicatos à escala nacional e internacional e uma série de resoluções com vista ao reforço orgânico da Internacional e ao alargamento dos poderes do Conselho Geral. (retornar ao texto)

[N109] A 2 de Setembro o exército francês foi derrotado em Sedan e feito prisioneiro, juntamente com o imperador. Entre 5 de Setembro de 1870 e 19 de Março de 1871 Napoleão III e os comandantes do exército estiveram presos em Wilhelmshöle (perto de Kassel), num castelo do rei da Prússia. A catástrofe de Sedan acelerou a derrocada do Segundo Império e levou à proclamação da república em França a 4 de Setembro de 1870. Foi formado um novo governo, o chamado «governo da defesa nacional». (retornar ao texto)

[N116] L’Egalité (A Igualdade): semanário suíço, órgão da Federação Romanda da Internacional. Publicou-se em Genebra, em francês, de Dezembro de 1868 a Dezembro de 1872. O jornal esteve durante um certo tempo sob a influência de Bakúnine. Em Janeiro de 1870, o Conselho Federal Romando conseguiu que os bakuninistas saíssem da redacção, após o que o jornal passou a apoiar a linha do Conselho Geral. (retornar ao texto)

[N135] O plebiscito foi organizado por Napoleão III em Maio de 1870, pretensamente para que as massas populares manifestassem a sua posição em relação ao império. As questões colocadas à votação estavam formuladas de tal modo que não era possível desaprovar a política do Segundo Império sem exprimir uma opinião contrária a todas as reformas democráticas. As secções da I Internacional em França desmascararam esta manobra demagógica e propuseram aos seus membros que se abstivessem da votação. Na véspera do plebiscito os membros da Federação de Paris foram presos sob a acusação de conspirarem para matar Napoleão III; a acusação foi utilizada pelo governo para organizar uma vasta campanha de perseguições contra os membros da Internacional em diferentes cidades da França. No julgamento dos membros da Federação de Paris, que decorreu de 22 de Junho a 5 de Julho de 1870, foi completamente demonstrada a falsidade da acusação de conspiração; no entanto vários membros da Internacional foram condenados a penas de prisão apenas por pertencerem à Associação Internacional dos Trabalhadores. As perseguições à Internacional em França provocaram protestos maciços por parte da classe operária. (retornar ao texto)

[N137] Le Réveil (O Despertar): jornal francês, órgão dos republicanos de esquerda; publicou-se em Paris de Julho de 1868 a Janeiro de 1871, sob a direcção de Louis Charles Delescluze. O jornal publicou documentos da Internacional e materiais sobre o movimento operário. (retornar ao texto)

[N138] La Marseillaise (A Marselhesa): jornal diário francês, órgão dos republicanos de esquerda; publicou-se em Paris de Dezembro de 1869 a Setembro de 1870. Publicava materiais sobre a actividade da Internacional e sobre o movimento operário. (retornar ao texto)

[N165] «Câmara de latifundiários», «assembleia de rurais»: designações desdenhosas da Assembleia Nacional de 1871, que se reuniu em Bordéus e que era composta na sua maioria por monárquicos reaccionários: latifundiários da província, funcionários, rentiers e negociantes, eleitos em círculos eleitorais rurais. Dos 630 deputados à Assembleia, cerca de 430 eram monárquicos. (retornar ao texto)

[N179] The Times (Os Tempos); grande jornal inglês, de tendência conservadora; publica-se em Londres desde 1785. (retornar ao texto)

[N210] A Conferência de Londres da I Internacional teve lugar entre 17 e 23 de Setembro de 1871. Foi convocada sob o clima de repressão brutal que se abateu sobre os membros da Internacional após a queda da Comuna de Paris, e o número de participantes foi bastante restrito: 22 delegados com voto deliberativo e 10 com voto consultivo. Os países que não puderam enviar delegados seus foram representados pelos secretários correspondentes do Conselho Geral. Marx representava a Alemanha, Engels a Itália.
A questão da acção política da classe operária foi o principal tema dos trabalhos da Conferência de Londres e foi analisada em todos os aspectos nos discursos de Marx e Engels. A Conferência aprovou a resolução «Sobre a Acção Política da Classe Operária», cuja parte principal foi, por decisão do Congresso da Haia, incluída nos Estatutos Gerais da Associação Internacional dos Trabalhadores. Várias resoluções da Conferência visavam os bakuninistas, que tentavam cindir a Internacional. (retornar ao texto)

[N212] Desde o fim dos anos 50, a jornada de trabalho de nove horas constituiu uma das reivindicações essenciais dos operários ingleses. Em Maio de 1871 os operários da construção civil e das construções mecânicas de Newcastle desencadearam uma grande greve dirigida pela Liga a favor da jornada de nove horas (Nine Hour's League) e que pela primeira vez associou à luta operários não sindicalizados. Barnett, presidente da Liga, pediu ao Conselho Geral da Internacional para impedir a entrada em Inglaterra de fura-greves, o que foi conseguido graças à acção enérgica do Conselho Geral. Em Outubro de 1871 a greve de Newcastle foi coroada de êxito: os operários obtinham a semana de trabalho de cinquenta e quatro horas. (retornar ao texto)

[N213] Em 25 de Julho de 1871, o Conselho Geral aprovou a proposta de Engels de convocar para Londres, em Setembro de 1871, uma conferência privada da Internacional. Desde então Marx e Engels efectuaram um grande trabalho, tanto no plano teórico como no plano organizativo, com vista à preparação da conferência: estabeleceram o programa de trabalhos e projectos de resoluções, que foram discutidos nas reuniões do Conselho Geral e depois propostos à Conferência de Londres (ver a nota 210). (retornar ao texto)

[N214] A circular de J. Favre de 26 de Maio de 1871 prescrevia aos representantes diplomáticos franceses no estrangeiro que obtivessem dos governos europeus a prisão e a entrega dos refugiados da Comuna como simples criminosos de direito comum. Dufaure propôs um projecto de lei, elaborado por uma comissão especial da Assembleia Nacional francesa e aprovado a 14 de Março de 1872, que tornava passível de prisão a adesão à Internacional. (retornar ao texto)

[N215] No Verão de 1871, Bismarck e Beust, chanceler da Áustria-Hungria, empreenderam diligências com vista a uma luta comum contra o movimento operário. A 17 de Junho de 1871, Bismarck enviou a Beust um memorando comunicando as medidas tomadas na Alemanha e em França contra a actividade da Internacional. A questão da luta comum contra a Internacional foi debatida no decorrer dos encontros dos imperadores alemão e austríaco em Gastein, em Agosto de 1871, e, em Setembro de 1871, em Salzburg. O governo italiano juntou-se à campanha geral contra a Internacional, ao proibir a secção de Nápoles em Agosto de 1871 e ao lançar perseguições contra os membros da Associação, designadamente T. Cuno.
No decurso da Primavera e do Verão de 1871, o governo espanhol decreto" medidas de repressão contra as organizações operárias e as secções da Internacional. Mora, Morago e Lorenzo, membros do Conselho Federal Espanhol, tiveram de emigrar para Lisboa. (retornar ao texto)

[N216] Por proposta de Marx, a Conferência de Londres encarregou o Conselho Geral de criar um Conselho Federal para a Inglaterra. Até ao Outono de 1871, essas funções eram desempenhadas pelo próprio Conselho Geral. Em Outubro de 1871, foi criado, com representantes das secções inglesas da Internacional, o Conselho Federal Britânico. Mas, desde o início surgiu na sua direcção um grupo de reformistas, conduzido por Hales, que desenvolveu uma luta contra o Conselho Geral e a sua política de intemacionalismo proletário na questão irlandesa. Hales e outros fizeram bloco com os anarquistas suíços, com elementos reformistas burgueses nos Estados Unidos, etc. Após o Congresso da Haia, a parte reformista do Conselho Federal Britânico recusou-se a reconhecer as decisões do congresso e empreendeu, em combinação com os bakuninistas, uma campanha de calúnias contra o Conselho Geral e
contra Marx. A outra parte do Conselho Federal Britânico apoiou energicamente Marx e Engels. No começo de Dezembro de 1872, o Conselho Federal Britânico cindiu-se; a parte que tinha permanecido fiel às decisões do Congresso da Haia constituiu-se em Conselho Federal Britânico e estabeleceu contactos directos com o Conselho Geral, cuja sede havia sido transferida para Nova Iorque. Os reformistas fracassaram nas suas tentativas para arrastar atrás de si a Federação Britânica da Internacional.
O Conselho Federal Britânico existiu de facto até 1874. Deixou de funcionar em ligação com a cessação da actividade da Internacional e também com a vitória provisória do oportunismo no movimento operário inglês. (retornar ao texto)

[N217] Trata-se da resolução II da Conferência de Londres de 1871 Designations of National Councils, etc. (Designações de Conselhos Nacionais, etc), que impedia a admissão na Internacional de diversos grupos sectários. (retornar ao texto)

[N218] Trata-se da proclamação de Bakúnine «Aos amigos russos, polacos e todos os eslavos», publicada em suplemento ao Kólokol, n.° 122-123, de 15 de Fevereiro de 1862.
Kólokol (O Sino): jornal revolucionário-democrata russo, editado entre 1857 e 1867 por Herzen e Ogariov em russo e em 1868-1869 em francês com suplementos em russo; publicou-se até 1865 em Londres e depois em Genebra. (retornar ao texto)

[N219] Liga da Paz e da Liberdade: organização pacifista burguesa criada em 1867 na Suíça por vários republicanos burgueses e pequeno-burgueses e liberais. (retornar ao texto)

[N220] O Congresso de Bruxelas da Internacional realizou-se entre 6 e 13 de Setembro de 1868. Marx participou directamente na preparação do Congresso, mas não assistiu a ele. No Congresso participaram 100 delegados, representando os operários da Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica, Suíça, Itália e Espanha. O Congresso adoptou uma decisão muito importante sobre a necessidade da passagem para a propriedade pública dos caminhos-de-ferro, do subsolo, das minas, das florestas e das terras aráveis. Esta decisão, que testemunhava que a maioria dos proudhonistas franceses e belgas havia adoptado as posições do colectivismo, marcou a vitória na Internacional das ideias do socialismo proletário sobre o reformismo pequeno­burguês. O Congresso adoptou igualmente as resoluções propostas por Marx sobre a jornada de trabalho de oito horas, sobre o emprego das máquinas, sobre a atitude em relação ao Congresso de Berna (1868) da Liga da Paz e da Liberdade (ver nota 219), assim como a resolução proposta por Lessner, em nome da delegação alemã, recomendando aos operários de todos os países que estudassem O Capital de Marx, e contribuíssem para a sua tradução para outras línguas. (retornar ao texto)

[N221] Trata-se da tentativa de Bakúnine para fazer adoptar no Congresso de Berna da Liga da Paz e da Liberdade (ver nota 219), em Setembro de 1868, o confuso programa socialista de que era autor («igualização social e económica das classes» supressão do Estado e do direito de herança, etc). Tendo o seu projecto sido rejeitado pela maioria dos votos, Bakúnine abandonou a Liga da Paz e da Liberdade e fundou a Aliança Internacional da Democracia Socialista. (retornar ao texto)

[N222] O Congresso de Genebra da Internacional realizou-se de 3 a 8 de Setembro de 1866. A ele assistiram 60 delegados do Conselho Geral, das secções e de associações operárias da Inglaterra, França, Alemanha e Suíça. As Instruções para os Delegados do Conselho Geral Provisório. As Diferentes Questões, redigidas por Marx, foram aí apresentadas como relatório oficial do Conselho Geral. A maior parte dos seus pontos, apesar da oposição dos proudhonistas que participavam no Congresso, foram aprovados como resoluções do Congresso. Este aprovou igualmente os Estatutos e o Regulamento da Associação Internacional dos Trabalhadores. (retornar ao texto)

[N223] O Congresso de Lausanne da Internacional realizou-se entre 2 e 8 de Setembro de 1867. Nele foi apresentado o relatório do Conselho Geral e relatórios de diferentes delegados locais, que testemunhavam o reforço da organização da Internacional em diversos países. Contra o Conselho Geral, os proudhonistas impuseram ao Congresso a sua ordem de trabalhos: foram novamente discutidas as questões da cooperação, do trabalho feminino, da educação, assim como uma série de questões menores, que desviaram a atenção do Congresso da discussão das questões realmente vitais propostas pelo Conselho Geral. Os proudhonistas conseguiram fazer adoptar várias resoluções suas. Contudo, não conseguiram tomar a direcção da Internacional. O Congresso reelegeu o Conselho Geral com a sua anterior composição e conservou a sua sede em Londres. (retornar ao texto)

[N224] Processo Netcháev: processo contra estudantes acusados de actividade revolucionária secreta, julgado em Sampetersburgo em Julho-Agosto de 1871. Netcháev estabeleceu, já em 1869, relações com Bakúnine e desenvolveu actividade para criar em diversas cidades da Rússia a organização conspirativa Naródnaia Rasprava (Represália do Povo), que defendia as ideias anarquistas da «destruição total». Jovens estudantes de tendências revolucionárias e representantes dos raznotchínets (intelectuais não pertencentes à nobreza), aderiam a esta organização atraídos pela sua crítica aguda do regime tsarista e pelos apelos à luta decidida contra ele. Utilizando o mandato de representante da União Revolucionária Europeia que recebera de Bakúnine, Netcháev procurava fazer-se passar por representante da Internacional, induzindo assim em erro os membros da organização por si criada. Em 1871 a organização foi desmantelada, e no processo intentado contra ela revelaram-se os métodos aventureiristas empregados por Netcháev para atingir os seus objectivos.
A Conferência de Londres encarregou Útine de elaborar um relatório sucinto sobre o processo. Em vez do relatório, Útine enviou a Marx, em fins de Agosto de 1872, para o Congresso da Haia, um longo relatório confidencial sobre a actividade hostil à Associação Internacional dos Trabalhadores de Bakúnine e de Netcháev. (retornar ao texto)

[N225] Le Progrès (O Progresso): jornal bakuninista; publicou-se em francês em Locle, de Dezembro de 1868 a Abril de 1870, sob a direcção de Guillaume. (retornar ao texto)

[N226] Le Travail (O Trabalho): semanário francês, órgão das secções parisienses da Internacional; publicou-se de 3 de Outubro a 12 de Dezembro de 1869 em Paris. (retornar ao texto)

[N227] Ligue du bien public (Liga do Bem Público): união da nobreza feudal, fundada nos finais de 1464 em França e dirigida contra a política de Luís XI de unificação da França num Estado centralizado. Os participantes na Liga afirmavam combater pelo «bem público» da França. (retornar ao texto)

[N228] La Solidarité (A Solidariedade): diário bakuninista publicado em francês em Neuchâtel (de Abril a Setembro de 1870) e em Genebra (de Março a Maio de 1871). (retornar ao texto)

[N229] Fábrica: na época designava-se por este termo a produção de relógios e de artigos de ourivesaria em grandes e pequenas manufacturas de Genebra e dos seus arredores e também por operários que trabalhavam em casa. (retornar ao texto)

[N230] Trata-se do apelo «Às secções da Internacional», de 5 de Setembro de 1870, redigido pelos bakuninistas J. Guillaume e G. Blanc e publicado em Neuchâtel como suplemento ao n.° 22 do jornal La Solidarité. (retornar ao texto)

[N231] A insurreição de Lyon começou em 4 de Setembro de 1870, quando se soube da notícia da derrota de Sedan (ver nota 109). Chegado a Lyon em 15 de Setembro, Bakúnine tentou tomar nas suas mãos a direcção do movimento e realizar o seu programa anarquista. Em 28 de Setembro os anarquistas tentaram levar a cabo um golpe de Estado. A tentativa fracassou por falta de um plano definido de acção e de ligações de Bakúnine e dos anarquistas com os operários. (retornar ao texto)

[N232] Em Abril de 1870 o bakuninista Paul Robin propôs ao Conselho Federal de Paris que reconhecesse o Comité Federal formado pelos anarquistas no Congresso de La Chaux-de-Fonds como Comité Federal romando. Depois de o Conselho Geral ter explicado aos membros do Conselho Federal de Paris o sentido da cisão na Suíça, este resolveu que não tinha o direito de se imiscuir neste assunto, que era da competência do Conselho Geral. (retornar ao texto)

[N233] B. Malon, La troisième défaite du prolétariatfrançais (A Terceira Derrota do Proletariado Francês), Neuchâtel, 1871. (retornar ao texto)

[N234] A Secção de Propaganda e de Acção Revolucionária Socialista foi criada em 6 de Setembro de 1871 para substituir a secção de Genebra, Aliança da Democracia Socialista, dissolvida em Agosto. Para além de antigos membros da secção, como Júkovski, Perron, etc, participaram na sua organização alguns exilados franceses, nomeadamente Jules Guesdes e Benoít Malon. (retornar ao texto)

[N235] La Révolution Sociale (A Revolução Social): diário publicado em Genebra, em francês, de Outubro de 1871 a Janeiro de 1872; desde Novembro de 1871, órgão oficial da Federação do Jura, anarquista. (retornar ao texto)

[N236] Le Figaro (O Fígaro): jornal reaccionário francês; publica-se em Paris desde 1854. Esteve ligado ao governo do Segundo Império.
Le Gaulois (O Gaulês): diário de tendência monárquica conservadora, órgão da grande burguesia e da aristocracia. Publicou-se em Paris de 1867 a 1929.
Paris-Journal (Paris-Jornal): diário reaccionário, ligado à polícia; foi editado por Henri de Pene em Paris de 1868 a 1874. Difundia calúnias grosseiras contra Internacional e a Comuna de Paris. (retornar ao texto)

[N237] Trata-se da resolução 2 do capítulo «Resoluções Especiais da Conferência» que assinalava que os operários alemães tinham cumprido o seu dever internacional; sobre a Conferência de Londres, ver a nota 210. (retornar ao texto)

Inclusão 22/12/2008
Alteração 16/09/2011