Carta de Kutais[N9]
[primeira carta]

J. V. Stálin

Setembro de 1904


Primeira Edição: Escrita em setembro de 1904, publicada pela primeira vez em 1946, na edição russa das "Obras".
Fonte: J.V. Stálin – Obras – 1º vol., pg. 66 a 68. Editorial Vitória, 1954 – traduzida da edição italiana da Obras Completas de Stálin publicada pela Edizioni Rinascita, Roma, 1949.
Tradução: Editorial Vitória
Transcrição: Partido Comunista Revolucionário
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Fernando A. S. Araújo.
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capa

Necessitamos aqui da Iskra[N10] (embora esta não produza centelha, precisamos dela, entretanto; ao menos produz uma crônica, que o diabo carregue; cumpre conhecer bem o inimigo, igualmente), a partir do número 63. Temos grande necessidade das publicações de Bontch-Bruievitch[N11]: "A luta pelo Congresso, Ao Partido (não é a "declaração dos 22"?)[N12], Nossas desinteligências, Sobre a essência do socialismo e Sobre as greves de Riadovoi (se saíram), o folheto de Lênin contra Rosa e Kautsky[N13], as atas do Congresso da Liga[N14], Um passo adiante[N15] (pode ser adiado, se for impossível conseguí-lo agora). Precisamos de todas as novidades, das simples declarações aos livros volumosos, relativos, de qualquer modo, à atual luta interna no Partido.

Li o folheto de Galiorka Abaixo o Bonapartismo. Assim, assim. Se houvesse batido com mais força e mais firmeza com seu martelo, teria sido melhor. O tom zombeteiro e o convite à indulgência tiram a força e o peso de seus golpes e prejudicam a impressão do leitor. Este defeito salta aos olhos tanto mais que o autor compreende bem, evidentemente, nossa posição, e explica e desenvolve otimamente algumas questões. Quem aceita nossa posição deve falar com voz firme e inflexível. Nesse ponto, Lênin é uma verdadeira águia da montanha.

Também li os artigos de Plekhánov, nos quais critica o Que fazer?[N16]. Ou ele ficou inteiramente louco, ou falam por sua boca o ódio e o rancor. Creio que neste caso agem as duas causas. Penso que Plekhánov está atrasado em relação aos novos problemas. Parece-lhe estar vendo os velhos adversários, e afirma repetidamente à velha maneira:

"A consciência social é determinada pelo ser social", "as idéias não caem do céu".

Como se Lênin dissesse que o socialismo de Marx era possível na época da escravidão e da servidão. Hoje em dia, até mesmo os estudantes do ginásio sabem que as idéias não caem do céu. Mas o fato é que hoje se trata de coisa muito diversa. Digerimos, há muito tempo, esta fórmula geral; chegou o momento de descer aos pormenores dessa questão geral. Interessa-nos saber, hoje, como, de idéias isoladas, se elabora um sistema de idéias (a teoria do socialismo), como idéias isoladas, grandes e pequenas, se ligam num sistema orgânico, a toria do socialismo e, por quem são elaboradas e ligadas. É a massa que dá a seus dirigentes um programa e o fundamento do programa, ou são os dirigentes que os dão à massa? Se a própria massa e seu movimento espontâneo nos dão a teoria do socialismo, então não vale a pena defender a massa contra a influência perniciosa do revisionismo, do terrorismo, do zubatovismo[N17], do anarquismo: "O movimento espontâneo gera, por si mesmo, o socialismo". Se o movimento espontâneo não gera por si mesmo a teoria do socialismo (não se deve esquecer de que, para Lênin, se trata da teoria do socialismo), isso quer dizer que esta última nasce fora do movimento espontâneo, do exame e do estudo do movimento espontâneo por homens armados dos conhecimentos de nosso tempo. Quer dizer que a teoria do socialismo é elaborada de "modo totalmente independente do desenvolvimento do movimento espontâneo", e mesmo apesar dele, é em seguida introduzida do exterior nesse movimento, e o corrige de modo conforme ao próprio conteúdo, o que vale dizer, de modo conforme às reivindicações objetivas da luta de classe do proletariado.

A conclusão (dedução prática) que daí se tira é a seguinte: elevemos o proletariado à consciência dos verdadeiros interesses de classe, à consciência do ideal socialista, mas não de modo que esse ideal seja substituído por pequenezas ou adaptado ao movimento espontâneo.

Lênin lançou a base teórica sobre a qual se ergue também essa dedução prática. Basta somente aceitar essa premissa teórica, e nenhum oportunismo poderá atingir-nos. Tal é o significado da idéia leninista. Chamo-a leninista porque ninguém, na literatura russa, a exprimiu tão claramente quanto Lênin. Plekhánov julga viver ainda no último decênio do século passado, e fica mastigando, após haver ruminado pela décima oitava vez, que duas vezes dois são quatro. E não se envergonha mesmo de chegar ao ponto de repetir as idéias de Martínov...

Conheceis seguramente a declaração dos 22... Esteve aqui um companheiro, vindo de vossa região, que trouxe consigo as resoluções dos comitês do Cáucaso para o Congresso extraordinário do Partido.

É falso considerar desesperada a empresa: o comitê de Kutais foi o único que teve vacilações, mas consegui persuadi-los, após o que começaram a declarar-se pelo bolchevismo. Não foi difícil convencê-los: a duplicidade da política do Comitê Central tornou-se evidente graças à declaração e, depois das novas informações aqui chegadas, não é mais possível ter dúvidas a esse respeito. Ele (Comitê Central) está quebrando o pescoço e para isso agem os companheiros daqui e os companheiros russos. Todos lhe mostram os dentes.

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Notas de fim de tomo:

[N9] Essa carta e a seguinte são endereçadas a M. Davitachvili. Escritas de Kutais em setembro e em outubro de 1904, foram encontradas, em tradução russa, entre a correspondência mantida por Lênin e N. K. Krúpskaia com as organizações bolchevistas da Rússia. Davitachvili, companheiro de Stálin no trabalho revolucionário na Transcaucásia, morava então em Leipzig e fazia parte do grupo bolchevique ali constituído. Sob os cuidados do grupo bolchevique de Leipzig, as cartas de Stálin eram traduzidas para o russo e transmitidas a Lênin. Os originais georgianos das cartas não foram encontrados. (retornar ao texto)

[N10] Trata-se da nova Iskra (A Centelha) menchevique. Como é sabido, após o segundo Congresso do P.O.S.D.R. os mencheviques, com o auxílio de Plekhánov, haviam se apoderado da Iskra e dela se serviam para lutar contra Lênin e os bolcheviques. A Iskra menchevique saiu até outubro de 1905. (retornar ao texto)

[N11] No outono de 1904, depois que os mencheviques se haviam apoderado da Iskra, V. D. Bontch-Bruieviteh, por incumbência de Lênin, havia organizado a publicação de escritos e documentos da maioria do segundo Congresso do Partido. (retornar ao texto)

[N12] A "declaração dos 22" é a mensagem Ao partido (Lênin, Obras completas em língua russa, IV edição, volume 7, págs. 420-427), escrita por Lênin e aprovada na Conferência dos 22 bolcheviques, realizada em agosto de 1904, na Suíça. O folheto "Ao partido" contém, além da mensagem "Ao partido", que se tornou o programa de luta dos bolcheviques para o terceiro Congresso, outros materiais também. Em setembro de 1904 o Comitê da União Caucásica e os Comitês de Tíflis e da Imerétia-Mingrélia aderiram à "declaração dos 22" e empreenderam uma campanha em prol da convocação imediata do terceiro Congresso do Partido. (retornar ao texto)

[N13] Trata-se do artigo de Lênin "Um passo adiante, dois passos atrás", escrito em setembro de 1904, em resposta ao artigo de Rosa Luxemburgo, Questões orgânicas da social-democracia russa, publicado no n.° 69 da Iskra e nos n.°" 42 e 43 da Neue Zeit, e à carta de C. Kautsky publicada no n.° 66 da Iskra. Lênin desejara publicar a sua resposta na Neue Zeit, mas a redação, que simpatizava com os mencheviques, recusou-se a publica-la (Lênin, Obras cit., vol. 7, págs. 439-450). (retornar ao texto)

[N14] As Atas do segundo Congresso ordinário da Liga "estrangeira da social-democracia revolucionária russa foram publicadas pela Liga em Genebra, no ano de 1904.  (retornar ao texto)

[N15] O livro de Lênin Um passo adiante, dois passos atrás foi escrito em fevereiro-maio de 1904 e publicado a 6 (19) de maio de 1904. (Editorial Vitória, Rio, 1946). (retornar ao texto)

[N16] Refere-se ao livro Que fazer? de Lênin. (Editorial Vitória, Eio, 1946). (retornar ao texto)

[N17] Zubatovismo: de Zubatov, chefe da Okhrana (policia secreta) de Moscou, fundador de organizações sindicais provocadoras que tinham por objetivo desviar os operários do movimento revolucionário. (retornar ao texto)

pcr
Inclusão 04/12/2010