Carta de Kutais[N9]
[segunda carta]

J. V. Stálin

Outubro de 1904


Primeira Edição: Escrita em setembro ou outubro de 1904, publicada pela primeira vez em 1946, na edição russa das "Obras".
Fonte: J.V. Stálin - Obras - 1º vol., pg. 69 a 71. Editorial Vitória, 1954 - traduzida da edição italiana da Obras Completas de Stálin publicada pela Edizioni Rinascita, Roma, 1949.
Tradução: Editorial Vitória
Transcrição: Partido Comunista Revolucionário
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Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

capa

Tardei a escrever-te; não leves a mal. Tenho estado sempre ocupado. Recebi tudo quanto me enviaste (as atas da Liga; As nossas desinteligências, de Galiorka e de Riadovoi; o número 1 do Sotzial-Demofcrat; os últimos números da Iskra). A idéia de Riadovoi (Uma dedução) agradou-me. Bom, também, o artigo contra Rosa Luxemburgo. Esses senhores, Rosa, Kautsky, Plekhánov, Axelrod, Vera Zassulitch e os outros criaram certamente, como velhos conhecidos, determinadas tradições de família. Não podem "trair-se" uns aos outros, e defendem-se mutuamente, como se defendiam os membros de um clã de estirpe patriarcal, sem se preocuparem com a culpabilidade ou não do parente. Foi justamente esse senso familiar, "de parentela", que não permitiu que Rosa considerasse objetivamente a crise do Partido (existem, de certo, outras causas, como, por exemplo, o mau conhecimento dos fatos, os "óculos de além-fronteira", etc). Assim se explicam, entre outras, algumas ações indignas de Plekhánov, de Kautsky e quejandos.

Todos gostaram, aqui, das publicações de Bontch, essas magistrais ilustrações da posição dos bolcheviques. Galiorka teria agido bem examinando a substância dos artigos de Plekhánov (nº 70 e 71 da Iskra). O argumento fundamental dos artigos de Galiorka é que Plekhánov ora diz uma coisa, ora diz outra e contradiz a si mesmo. Que importa isso? Será alguma novidade? Não é a primeira vez que ele se contradiz. E, provavelmente, isso e o faz orgulhoso, pois se considera a viva encarnação do "processo dialético". É evidente que a inconseqüência constitui uma mancha na figura política do "dirigente" e sem dúvida ela (mancha) deve ser assinalada. Mas para nós (isto é, nos nº 70 e 71) não se trata disso, porém do importante problema da teoria (problema da relação entre o ser e a consciência) e da tática (relação entre quem é dirigido e quem dirige). Na minha opinião, Galiorka deveria demonstrar que a luta teórica de Plekhánov contra Lênin é puro e simples quixotismo, é uma luta contra os moinhos de vento, já que, em seu folheto, Lênin se mantém do modo mais conseqüente na posição de Carlos Marx sobre a origem da consciência. A luta de Plekhánov em torno do problema da tática é uma completa confusão, característica em um "indivíduo" que se passou para o campo dos oportunistas. Se Plekhánov tivesse apresentado claramente a questão, mesmo sob esta forma: "Quem formula o programa, os dirigentes ou os dirigidos?", e em seguida: "Qual dos dois leva o outro à compreensão do programa, os dirigentes aos dirigidos, ou estes últimos aos primeiros?"; ou então: "Pode acontecer que, involuntariamente, os dirigentes levem a massa à compreensão do programa da tática e dos princípios de organização?" Portanto, se Plekhánov tivesse apresentado de modo tão claro tais questões, que, pela sua simplicidade e seu caráter tautológico encerram em si mesmas a própria solução, talvez se assustasse com seu propósito e não tivesse atacado Lênin tão ruidosamente. E, por não ter feito isso e ter embaralhado as questões com frases sobre "os heróis e a multidão", desviou-se para o oportunismo tático. Confundir as questões é o traço característico dos oportunistas.

Na minha opinião, teria sido preferível que Galiorka tivesse tratado desses problemas e de outros semelhantes em sua essência. Dirás que isso é tarefa de Lênin, mas não posso concordar, pois as opiniões criticadas de Lênin não são propriedade de Lênin e sua deformação atinge os outros membros do Partido tanto quanto a Lênin. Certamente Lênin teria podido executar essa tarefa melhor do que os outros...

Já existe uma resolução a favor da publicação de Bontch. Talvez já exista também o dinheiro. Li, provavelmente no número 74 da Iskra, as resoluções "a favor da paz". As resoluções dos comitês da Imerétia-Mingrélia, e de Baku não foram mencionadas, porque nada continham a respeito da "confiança" no Comitê Central. As resoluções de setembro, conforme escrevi, pediam com insistência o Congresso. Veremos o que acontecerá; isto é veremos que indicações conterão os resultados da reunião do Conselho do Partido(18).

Recebeste os seis rublos? Por estes dias receberás outros. Não te esqueças de enviar por aquela pessoa o folheto Carta a um camarada(19); aqui, muitos ainda não a leram. Manda também o novo número do Sotzial-Demokrat.

Kostrov(20) enviou-nos nova carta na qual se fala do espírito e da matéria (parece que se trata de tecido de algodão)(21). Esse burro não compreende que não está diante do círculo de leitores do jornal Kvali?(22) Que tem ele que ver com as questões orgânicas?

Saiu o novo número (sétimo) da A Luta do Proletariado (Proletariatis Brdzola)(23). Entre outros, este número contém um artigo meu contra o federalismo orgânico e político(24). Se fôr possível, enviá-lo-ei.

Escrita em outubro de 1904, publicada pela primeira vez em 1946, na edição russa das "Obras".

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Notas de fim de tomo:

[N9] Essa carta e a anterior são endereçadas a M. Davitachvili. Escritas de Kutais em setembro e em outubro de 1904, foram encontradas, em tradução russa, entre a correspondência mantida por Lênin e N. K. Krúpskaia com as organizações bolchevistas da Rússia. Davitachvili, companheiro de Stálin no trabalho revolucionário na Transcaucásia, morava então em Leipzig e fazia parte do grupo bolchevique ali constituído. Sob os cuidados do grupo bolchevique de Leipzig, as cartas de Stálin eram traduzidas para o russo e transmitidas a Lênin. Os originais georgianos das cartas não foram encontrados. (retornar ao texto)

(18) O Conselho do Partido, segundo os estatutos aprovados pelo segundo Congresso do P.O.S.D.R., era o órgão supremo do Partido e compunha-se de cinco pessoas: duas designadas pelo Comitê Central, duas pelo órgão central de imprensa, a quinta eleita pelo Congresso. O Conselho tinha a tarefa de coordenar e unificar a atividade do Comitê Central e do órgão central de imprensa. Logo após o segundo Congresso, os mencheviques impuseram-se no Conselho do Partido e transformaram-no num seu órgão de fração. (retornar ao texto)

(19) O opúsculo de Lênin "Carta a um companheiro sobre nossas tarefas orgânicas" saiu em 1904, em Genebra. (Vide Lênin, Obras cit., vol. 6, págs. 205-226). (retornar ao texto)

(20) Kostrov; An — pseudônimo de Noé Jordânia. (retornar ao texto)

(21) Intraduzível jogo de palavras. Em russo, o mesmo termo significa matéria e pano. (retornar ao texto)

(22) Kvali (O Sulco), jornal hebdomadário em lingua geogiana, órgão de tendência liberal nacionalista, e depois órgão dos mencheviques georgianos. Foi suprimido pelo governo em 1904. (retornar ao texto)

(23) Proletariatis Brdzola (A Luta do Proletariado), jornal ilegal georgiano, órgão da União Caucásica do P.O.S.D.R.; saiu de abril-maio de 1903 a outubro de 1905; após o aparecimento do décimo segundo número, foi suprimido. Depois de seu retorno da deportação, em 1904, ficou Stálin à testa da. redação, à qual também pertenciam A. G. Tsulukidze, S. G. Chaumian e outros. Os editoriais do jornal eram escritos por Stálin. Proletariatis Brdzola era o sucessor do jornal Brdzola. O I Congresso da União Caucásica do P.O.S.D.R. adotou a resolução de fundir com o jornal Brdzola o jornal social-democrático armênio Proletariat num órgão comum, que deveria ser publicado simultaneamente em três línguas: georgiano (Proletariatis Brdzola), armênio (Proletariati Kriw) e russo (Borba Proletariata). O conteúdo de todas as três edições era idêntico. A numeração correspondia ao órgão anterior na língua respectiva. Proletariatis Brdzola era, depois do Vperiód e do Proletari, o maior jornal bolchevique ilegal, que propugnava de modo conseqüente pelos fundamentos ideológicos, orgânicos e táticos do Partido marxista. A redação do Proletariatis Brdzola mantinha o mais estreito contato com Lênin e o centro bolchevique no exterior. Quando, em dezembro de 1904, correu a notícia sobre o aparecimento do Vperiód, o Comitê da União Caucásica formou um grupo literário para apoiar o Vperiód. Em resposta ao convite do Comitê da União, no sentido de colaborar no Proletariatis Brdzola, Lênin escreveu em carta de 20 de dezembro de 1904: "Caros camaradas! Recebi vossa carta sobre o Borba Proletariatis. Esforçar-me-ei por escrever e também entrar em entendimento com os colegas da redação." (Vide Obras completas de Lênin, vol. XV, pág. 267, ed. russa). O Proletariatis Brdzola imprimia regularmente artigos e materiais da Iskra leninista e mais tarde do Vperiód e do Proletari. No jornal eram publicados artigos de Lênin. No Proletari eram feitas repetidamente resenhas e apreciações sobre o Proletariatis Brdzola, bem como impressos artigos e correspondência deste último. No n.° 12 do Proletari foi assinalado o aparecimento do primeiro número do jornal Borba Proletariata em língua russa. No final da notícia diz-se: "Voltaremos ainda a tratar do conteúdo desse jornal interessante. Saudámos calorosamente a ampliação da atividade editorial da União Caucásica o deseja-mos-lhe novos êxitos na renovação do pensamento do Partido na Caucásia." (retornar ao texto)

(24) Trata-se do artigo "Como a social-democracia considera a questão nacional?, reproduzido no presente volume, à pág. 46. (retornar ao texto)

pcr
Inclusão 06/12/2010
Última alteração 22/09/2011