História da Revolução Russa

Léon Trotsky


O mês da grande calúnia


A 4 de Julho, à noite, quando cerca de duzentos membros dos dois comités executivos, o dos operários, dos soldados e o dos camponeses, se aborreciam entre duas sessões igualmente infrutíferas, um misterioso boato circulava entre eles; teriam descoberto indicações sobre a ligação de Lenine ao Estado-maior general alemão; amanhã os jornais publicarão os documentos denunciadores. Os sombrios agoiros do secretariado, atravessando a sala para alcançar os corredores onde têm lugar conciliábulos sem parar, respondem de má vontade e evasivamente às questões, mesmo às dos mais próximos. No palácio de Tauride, já quase abandonado pelo público exterior, é a emoção. Lenine ao serviço do Estado-maior alemão? A estupefacção, o assombro, a hostilidade aproximam os pequenos grupos sobreexcitados. «Bem entendido – nota Sokhanov, muito hostil aos bolcheviques durante as jornadas de Julho – ninguém, entre os homens efectivamente ligados à revolução, não duvidou um só minuto da absurdidade desses boatos.» Mas os homens tendo um passado revolucionário constituíam entre os membros do comité executivo uma ínfima minoria. Os revolucionários de Março, elementos acidentais, arrastados pela primeira vaga, predominavam mesmo nos órgãos dirigentes do soviete. Entre os provinciais, escriturário de cantão, lojistas, mandatários, encontravam-se os deputados que afloravam os espírito dos Cem Negros. Estes últimos, logo, desabafaram: eles tinham previsto a coisa, era bem isso que era preciso esperar!

Assustados pela reviravolta imprevista dos acontecimentos e demasiado brusca do assunto, os líderes tinham tentado ganhar tempo. Tchkheidze e Tseretelli convidaram por telefone as redacções dos jornais a se abster de imprimir as revelações sensacionais, como «não verificadas». Nenhuma redacção não ousou contrariar o «convite» do palácio de Tauride, com a excepção de uma só: o pequeno jornal de papel amarelo de um filho de Suvarine, o potente editor do Novoie Vremia (Tempo Novo) servia no dia seguinte aos seus leitores um documento com uma tonalidade oficial afirmando que Lenine recebia directivas e dinheiro do governo alemão. A racha estava feita e, apesar da proibição, toda a imprensa, um dia depois, estava cheia da informação sensacional. Foi assim que se abriu o episódio mais inverosímil de um ano fértil em acontecimentos: os líderes de um partido revolucionário que, durante dezenas de anos, tinham consagrado a sua vida a lutar contra as potências deste mundo, coroadas ou não, apresentavam-se ao país e ao mundo como agentes designados do Hohenzollern. A calúnia de uma envergadura nunca vista foi lançada profundamente nas massas populares cuja esmagadora maioria ouviu pela primeira vez a insurreição de Fevereiro os nomes dos líderes bolcheviques. A difamação tornou-se um factor político de primeira grandeza. É por isso que é indispensável estudar mais atentamente o mecanismo.

O documento sensacional tinha como primeira fonte as confissões de um certo Ermolenko. A figura desse herói foi completamente desenhada pelos serviços secretos oficiais: no período que vai da guerra russo-japonesa em 1913 – agente da contra-espionagem; em 1913 – colocado em disponibilidade, por motivos desconhecidos, com o posto de alferes; em 1914, mobilizado para a frente; valentemente, foi feito prisioneiro e ocupou-se da vigilância policial dos seus camaradas. O regime do campo de concentração não respondendo portanto aos seus gostos de bufo e, «sob a insistência dos seus camaradas» — tal foram as suas declarações – entrou ao serviço dos alemãs, com intenções, bem entendido, patrióticas. Um novo capítulo se abriu na sua vida. No 25 de Abril, o alferes foi «enviado» pelas autoridade militares alemãs através da fronteira russa, com a missão de dinamitar as pontes, de enviar relatórios de espião, de militar pela independência da Ucrânia e de fazer agitação em favor de uma paz separada. Os oficiais alemãs, os capitães Schidizki, e Libers, que tinham comprado os serviços de Ermolenko, ensinaram-lhe além disso como um acaso, sem qualquer utilidade prática, simplesmente, de toda evidência para o entusiasmar, que para além dele, alferes, havia também a trabalhar na Rússia no mesmo sentido... Lenine. Tal é a base de todo o assunto.

O quê e quem sugeriu a Ermolenko a sua deposição sobre Lenine? Não foram de qualquer forma os oficiais alemãs. Uma simples aproximação de datas e de factos introduzidos no laboratório mental do alferes. No 4 de Abril, Lenine publicou as suas famosas teses que significaram uma declaração de guerra ao regime de Fevereiro. No 20 e 21 houve uma manifestação armada contra o prolongamento da guerra. A perseguição contra Lenine desenvolveu-se sem parar. No 25, Ermolenko foi «enviado» do outro lado da frente e, na primeira quinzena de Maio, ligou-se ao serviço de espionagem russo do Grande Quartel General. Nos jornais, artigos equívocos, demonstrando que a política de Lenine era vantajosa ao Kaiser, davam a entender que Lenine era um agente da Alemanha. Na frente, os oficiais e os comissários, lutando contra o insustentável «bolchevismo» dos soldados, fazia ainda menos cerimónias na escolha das suas expressões quando falavam de Lenine. Ermolenko mergulhou logo nessa corrente. Que ele próprio tenha inventado uma frase puxada pelos cabelos sobre Lenine, que um instigador qualquer a tenha soprado na orelha ou que ela tivesse sido confeccionada, segundo Ermolenko, por agentes da contra-espionagem, isso não tem importância.

A queixa por difamação no que diz respeito aos bolcheviques reforçou-se de tal forma que a oferta não podia deixar de se produzir. O chefe do estado-maior do Grande Quartel General, o general Denikine, futuro generalíssimo dos Brancos na guerra civil, que não era superior, pela largueza da sua visão, aos agentes da contra-espionagem czarista, atribuiu ou fingiu atribuir às alegações de Ermolenko uma grande importância e comunicou-as com uma carta apropriada, no 16 de Maio, ao ministro da Guerra Kerensky, pensa-se, teve uma troca de pontos de vista com Tseretelli e Tchkheidze, os quais não puderam dispensar-se de conter a sua nobre fuga: assim se explica, evidentemente, que o assunto não tivesse seguido o seu curso. Kerensky escreveu mais tarde que, se Ermolenko tivesse assinalado a ligação de Lenine com o estado-maior alemão, era «sem provas suficientemente convincentes». O relatório de ErmolenkoDenikine, durante seis semanas, ficou à espera. A contra-espionagem despediu Ermolenko como queimado e o alferes partiu sem demora para o Extremo-Oriente, onde devia beber o dinheiro ganho em duas fontes diferentes.

Os acontecimentos das jornadas de Julho, tendo mostrado com toda a sua amplitude o formidável perigo do bolchevismo, suscitaram as lembranças das denúncias de Ermolenko. Ele foi convocado urgentemente por Blagovechtchensk, mas, falta de imaginação, não pôde, apesar de todas as denunciações, acrescentar uma só palavra às suas deposições iniciais. Entretanto, a justiça e a contra-espionagem estavam já, porém, em pleno trabalho. Sobre as possíveis relações criminais dos bolcheviques, interrogaram os políticos, generais, guardas, comerciantes, uma multitude de gente de diversas profissões. Os agentes prevenidos da Segurança czarista comportaram-se, no decurso desta instrução, muito mais prudentemente que os novos representantes da justiça democrática! «Informações escrevia o antigo chefe da Okhrana de Petrogrado, o imponente general Globatchev – segundo as quais Lenine teria trabalhado na Rússia para prejudicar o país e com ajuda do dinheiro alemão, não se encontraram nos serviços da Okhrana, pelo menos durante o tempo que aí trabalhei.» Outro alto funcionário da polícia, Iakubov, chefe da secção da contra-espionagem do distrito militar de Petrogrado afirmou: «Nada sei da ligação de Lenine e dos seus laços com o estado-maior alemão, tal como nada sei dos recursos com os quais trabalhava Lenine.» Serviços de delação do czar, que tinham vigiado o bolchevismo desde do nascimento, nada de útil se obteve.

Todavia, quando os homens, sobretudo armados do poder, teimam em procurar, eles encontram sempre qualquer coisa no fim dos fins. Um certo Z. Burstein, oficialmente classificado como comerciante, abriu os olhos ao governo provisório sobre «uma organização alemã de espionagem em Estocolmo, à cabeça da qual se encontrava Parvus», social-democrata alemão bem conhecido, de origem russa. A acreditar as deposições de Burstein, Lenine encontrava-se em relação com esta organização por intermediário dos revolucionários polacos Ganetzki e Koslowski. Kerensky escrevia no seguimento: «Dados extremamente sérios que, por infelicidade, não eram de carácter judiciário, mas provinham de agências de espionagem, deviam obter uma confirmação absolutamente incontestável quando Ganetsk, chegou à Rússia alvo de um mandato de captura na fronteira, e transformar num dossier judiciário suficientemente convincente contra o estado-maior bolchevique.» Kerensky sabia antecipadamente no que é que isto devia se transformar.

As deposição do comerciante Burstein diziam respeito às operações comerciais de Ganetzki e Koslowski entre Petrogrado e Estocolmo. Esse negócio do tempo da guerra, que recorria verosimilmente a uma correspondência convencional, não tinha qualquer relação com a política. O partido bolchevique não tinha qualquer relação com esse comércio. Lenine e Trotsky denunciavam na imprensa Parvus que se ouvia combinar bons negócios com uma má política, e convidavam os revolucionários a romper todas as relações com ele. Quem portanto, porém, tinha a possibilidade de se desvendar tudo isso no turbilhão dos acontecimentos. Uma organização de espionagem em Estocolmo, parecia claro. E a luz, mal acesa pelo alferes Ermolenko, reanima-se por outro lado. Na verdade, ainda aí, caíram sobre dificuldades. O chefe da secção da contra-espionagem do Estado-maior general, o príncipe Turkestanov, interrogado pelo juiz de instrução Alexandrov, empregado nos assuntos de importância especial respondeu que Z. Burstein era um individuo que não merecia qualquer confiança. Burstein é o tipo de homem de negócios desonesto a quem não repugna qualquer tipo de trabalho.» Mas a má reputação de Burstein podia impedir que se tentasse sujar a reputação de Lenine? Não, Kerensky não hesitou a declarar as deposições de Burstein «extremamente sérias». A instrução orientou-se desde então sobre a pista de Estocolmo. As denúncia do alferes que serviam os dois estados-maiores ao mesmo tempo e do homem de negócios duvidoso «que não merecia qualquer confiança» serviram de base à mais fantástica das acusações contra um partido revolucionário que um povo de cento e sessenta milhões se preparava a levar ao poder.

Como, porém, os materiais da instrução prévia caíram na imprensa, e mesmo no momento onde a ofensiva falhada de Kerensky começava a tornar-se uma catástrofe, enquanto que a manifestação de Julho em Petrogrado revelava a irresistível subida dos bolcheviques? Um dos iniciadores da empresa, o procurador Bessarabov, contou mais tarde abertamente à imprensa que, a ausência completa de forças militares seguras tendo evidenciada do lado do governo provisório em Petrogrado, tinham decidido no estado-maior da região provocar se possível uma reviravolta psicológica nos regimentos empregando os grandes meios. «Os representantes do regimento Preobrajensky, que era o mais ligado ao estado-maior, receberam a comunicação do essencial dos documentos: os assistentes puderam convencer-se da impressão formidável produzida por esta divulgação. A partir desse momento viu-se claramente que arma potente dispunha o governo.»

Após uma verificação experimental com tanto sucesso, os conspiradores da Justiça, do Estado-maior e da contra-espionagem apressaram-se a meter o ministro da Justiça ao corrente da descoberta. Pereverzev respondeu que não se podia fazer comunicado oficial, mas que, do lado dos membros actuais do governo provisório, «não se colocariam obstáculos à iniciativa privada». Os nomes dos oficiais do estado-maior ou dos funcionários da Justiça foram não sem razão, reconhecidos pouco compatíveis com os interesses da causa: para meter em circulação uma calúnia sensacional, era preciso «um homem político». Na ordem da iniciativa privada, os conspiradores descobriram sem dificuldades justamente o homem que precisavam.

Antigo revolucionário, deputado na segunda Duma, orador excitado e caluniador apaixonado, Alexinsky tinha estado durante um certo tempo na extrema esquerda dos bolcheviques. Lenine era aos seus olhos um incorrigível oportunista. Durante os anos da reacção, Alexinsky tinha criado um pequeno grupo particularmente ultra-esquerda à cabeça do qual ele manteve-se na emigração até à guerra, para tomar a seguir, desde do início das hostilidades, uma posição ultra-patriótica e tornar-se logo um especialista na denúncia de toda a gente e de qualquer um como vendidos ao Kaiser. Sobre esse aspecto, ele entregara-se em Paris a uma grande actividade de bufo, em conveniência com os patriotas russos e franceses da mesma especie. A associação parisiense dos jornalistas estrangeiros, isto é dos correspondentes dos países aliados e neutros, muito patriotas e de forma nenhuma rigorosos, viu-se forçada a declarar, por uma moção especial, Alexinsky «desonesto caluniador» e de o excluir do meio.

Regressado com este atestado a Petrogrado após a insurreição de Fevereiro, Alexinsky tendo tentado, na qualidade de antigo homem de esquerda, introduzir-se no comité executivo. Apesar de toda a sua indulgência, os mencheviques e os socialistas-revolucionários decidiram, no 11 de Abril, fechar-lhe a porta no nariz, convidando-o a tentar reabilitar-se. Era fácil dizer! Tendo concluído que era muito mais fácil de difamar outro que se reabilitar a si mesmo, Alexinsky ligou-se com a contra-espionagem e assegurou aos seus instintos caluniadores a expansão sobre o plano do Estado. Desde da segunda quinzena de Julho, ele começou a fechar nos laços da sua calúnia os mencheviques igualmente. O líder destes últimos, Dan, saindo da expectativa, imprimiu, nas Izvestia oficiais do Soviete (22 de Julho) uma carta de protesto: «... É tempo de acabar com os acções de um homem que foi oficialmente declarado caluniador desonesto». Não é claro que Themis, inspirada por Ermolenko e Burstein, não podia encontrar entre ela e a opinião pública melhor intermediário que Alexinsky? A assinatura deste último decora portanto o documento denunciador.

Nos corredores, os ministros socialistas protestavam contra a comunicação dos documentos à imprensa, tal como, aliás, aos dois ministros burgueses: Nekrassov e Terechtchenko. No próprio dia da publicação, no 5 de Julho, Pereverzev, cujo governo estava já há um certo tempo largamente disposto a abandoná-lo, viu-se forçado em dar a sua demissão. Os mencheviques davam a entender que era a sua vitória. Kerensky afirmou a seguir que o ministro tinha sido despedido por ter feito demasiadas revelações que tinham perturbado as diligencias da instrução. Se não foi a sua permanência no poder, Pereverzev deu, de qualquer forma pela sua partida, satisfação a toda a gente.

No mesmo dia, a sessão do secretariado do comité executivo, apresentou-se Zinoviev e, em nome do comité central dos bolcheviques, exigiu que se tomasse imediatamente medidas para reabilitar Lenine e para prevenir as consequências possíveis da calúnia. O secretariado não pode recusar constituir uma comissão de inquérito. Soukhanov escreve: «A comissão compreendia que se tratava de saber não se Lenine tinha vendido a Rússia, mas saber qual era a fonte da calúnia.» Mas a comissão chocou à rivalidade ciumenta dos órgãos da Justiça e da contra-espionagem que tinham razões em não desejar intrusões no seu ofício. Na verdade, os órgãos soviéticos, até a esse momento, regulavam sem dificuldade as contas com os órgãos governamentais quando eles se viam obrigados a isso. Mas as jornadas de Julho tinham produzido uma mudança séria no poder para a direita; além disso, a comissão soviética não se apressava de forma nenhuma em resolver uma tarefa evidentemente contrária aos interesses políticos dos ses mandatários.

Os mais sérios líderes conciliadores, na realidade somente os mencheviques, preocupavam-se em demonstrar que eles nada tinham a ver formalmente com a calúnia, mas não iam além disso. Todas as vezes que era impossível esquivar uma resposta franca, eles declinavam em algumas palavras qualquer responsabilidade da acusação; mas não se esforçaram para desviar a lâmina envenenada que ameaçava a cabeça dos bolcheviques. Uma imagem universal conhecida desta política, foi, outrora, a conduta do consul romano Ponce Pilatos. Sim, e poderiam agir de outra forma sem se traírem a eles próprios? É somente a calúnia lançada contra Lenine que, nas jornadas de Julho, destacou os bolcheviques uma parte da guarnição. Se os conciliadores tivessem desenvolvido a luta contra a calúnia, o batalhão do regimento Ismailovsky tivesse parado, pensa-se, em executar a Marselhesa em honra do comité executivo et tivesse regressado ao quartel, a menos que tivesse indo ao palácio Kczesinska.

Conforme à linha geral dos mencheviques, o ministro do Interior Tseretelli, tendo tomado a responsabilidade das detenções dos bolcheviques que tiveram logo lugar, considerou necessário, na verdade sob a pressão da fracção bolchevique, em declarar, na sessão do comité executivo, que pessoalmente ele não suspeitava de espionagem os líderes bolcheviques, mas que ele acusava-os de conspiração e de insurreição armada. No 13 de Julho, Liber, depositando uma moção que metia o partido bolchevique fora da lei, julgou indispensável fazer uma reserva: «Considero pessoalmente que acusação lançada contra Lenine e Zinoviev não assenta sobre nada». Tais declarações eram acolhidas por todos num aborrecido silêncio: aos bolcheviques elas pareciam indignamente evasivas, para os patriotas elas eram superfluas, porque desvantajosas.

No dia 17, falando na sessão unificada dos dois comités executivos, Trotsky dizia: «Cria-se uma atmosfera insuportável na qual vocês serão sufocados como nós. Lançaram acusações imundas contra Lenine e Zinoviev. (Uma voz: «É verdade.» Ruído. Trotsky continua). Acontece que há na sala homes que aprovam as acusações. Há aqui homens que se ingeriram na revolução. (Ruído. A campainha do presidente tem dificuldades a impor a calma)... Lenine combateu pela revolução durante trinta anos. Eu luto contra a opressão das massas populares há vinte anos. E não podemos ter só ódio pelo militarismo alemão... uma desconfiança em relação a nós nesse domínio pode ser somente proferido por aquele que ignora o que é um revolucionários. Fui condenado por um tribunal alemão a oito meses de prisão por ter combatido o militarismo alemão... e isso, todos sabem. Não permitam a ninguém nesta sala dizer que somos mercenários da Alemanha, porque não é a voz dos revolucionários convencidos, a a voz da cobardia. (Aplausos).»

Foi assim que este episódio foi apresentado nas publicações anti-bolcheviques da época – as publicações bolcheviques eram já proibidas. É necessário, todavia, explicar que os aplausos vinham somente de um pequeno sector de esquerda; um certo número de deputados vociferavam a sua animosidade, a maioria mantinha-se silenciosa. Ninguém, portanto, mesmo entre os agentes directos de Kerensky, não subiu à tribuna para apoiar a versão oficial da acusação ou, pelo menos, para a apoiar indirectamente.

Em Moscovo, onde a luta entre bolcheviques e conciliadores tinha em geral um carácter mais temperado que devia tomar formas mais ferozes em Outubro, a sessão unificada dos dois Sovietes, o dos operários e o dos soldados, decidiu no 10 de Julho «publicar e de manifesto no qual se indicaria que a acusação de espionagem levantada contra a fracção dos bolcheviques era um calúnia e provinha de uma cabala da contra-revolução». O soviete de Petrogrado, mais imediatamente dependente das combinações governamentais, não empreendiam nenhum diligência, esperando pelas conclusões da comissão de inquérito, a qual, porém, não se meteu ao trabalho.

No 5 de Julho, Lenine, numa conversa com Trotsky, colocava a questão: «Não nos irão fuzilar todos?» Só, uma intenção desse género podia em suma explicar a contra-assinatura oficiosa sobre a monstruosa calúnia. Lenine julgava os inimigos capazes de irem até ao fim em assuntos iniciados por eles e chegava a esta conclusão: nós não nos rendemos a eles. No dia 6 à noite, Kerensky chegou da frente, cheio de sugestões dadas pelos generais, e exigiu medidas decisivas contra os bolcheviques. Cerca das duas horas da manhã, o governo ordenou que se apresentem diante da justiça todos os dirigentes da «insurreição armada» e a dissolução dos regimentos que tinham participado no motim. O destacamento das tropas enviadas à casa de Lenine para fazerem uma rusga e para o prender teve que se limitar a uma busca, visto que o inquilino já não estava em casa. Lenine residia ainda em Petrogrado, mas escondia-se num alojamento operário e exigia que a comissão de inquérito do soviete o escutasse, assim como Zinoviev, em condições excluindo toda armadilha do lado da contra-revolução. Nas declarações enviadas à comissão, Lenine e Zinoviev escreviam: «Nesta manhã (sexta-feira 7 de Julho) a Duma deu a conhecer a Kamenev que a comissão viria no apartamento combinado hoje mesmo à tarde. Escrevemos essas linhas às seis horas e meia da noite, 7 de Julho, e constatamos que, até agora, a comissão ainda não se apresentou e não deu nada a conhecer... A responsabilidade para o atraso do interrogatório não cai sobre nós.» A abstenção da comissão soviética após promessa de inquérito convenceu definitivamente Lenine que os conciliadores metiam-se de lado, deixando aos guardas brancos o cuidado da repressão. Os oficiais e os junkeres que entretanto tinham já roubado a tipografia do partido, brutalizava e prendiam na rua qualquer um que protestasse contra as actividades de espionagem atribuídas aos bolcheviques. Então Lenine decidiu definitivamente furtar-se não à instrução, mas às sevícias possíveis.

No dia 15, Lenine e Zinoviev explicavam no jornal bolchevique de Cronstadt, que as autoridade não tinham ousado proibir, porque eles não julgavam possível colocar-se entre as mãos do poder: «Segundo uma carta do ex-ministro da Justiça Pereverzev, publicada domingo no jornal Novoie Vremia, tornou-se perfeitamente claro que o «assunto» de espionagem atribuido a Lenine e a outros foi construído conscientemente, pelo partido da contra-revolução. Pereverzev confessou abertamente que avançou as acusações não verificas com o objectivo de provocar furor (é literalmente a sua expressão) dos soldados contra o nosso partido. É a confissão daquele que era ontem ministro da Justiça!... não há uma garantia de justiça na Rússia no presente momento. Entregar-se nas mãos das de Miliokov, dos Alexinsky, dos Pereverzev, nas mãos da contra-revolucionários para quem todas as acusações lançadas contra nós são um simples episódio na guerra civil.» Para esclarecer o sentido da frase sobre «um episódio» na guerra civil, basta lembrar-nos da sorte de Karl Liebknecht e de Rosa Luxemburgo. Lenine sabia prever.

Enquanto que os agitadores do campo inimigo contavam com muitas variantes que Lenine tinha fugido para a Alemanha, seja num barco ou num submarino, a maioria do comité executivo apressou-se a condenar Lenine por se ter furtado à instrução. Deixando de lado a questão do conteúdo político essencial da acusação e das circunstâncias do progrom nas quais e pelas quais esta acusação foi formulada, os conciliadores pronunciavam-se como advogados de pura justiça. Era, de todas as posições que lhes restava a considerar, a menos desvantajosa. A resolução do comité executivo do 13 de Julho não somente declarava a conduta de Lenine e de Zinoviev «absolutamente inadmissível», mas exigia da fracção bolchevique uma condenação imediata, categórica e clara» dos seus líderes. A fracção recusou unanimemente o ultimato do comité executivo. Todavia, entre os bolcheviques, pelo menos na cimeira, houve flutuações do facto que Lenine se tinha substraído à instrução. Por outro lado, entre os conciliadores, mesmo os que eram mais à esquerda, o desaparecimento de Lenine provocou a indignação geral, nem sempre hipócrita, como se vê pelo exemplo de Sokhanov. O carácter calunioso dos documentos da contra-espionagem não faziam para ele, como se sabe, nenhuma dúvida logo no início. «A acusação absurda – escrevia, dissipou-se como o fumo. Ninguém a confirmou e ousou acreditar nisso.» Mas, para Sokhanov, continuava um enigma: como Lenine pôde decidir-se a esquivar o inquérito?» Era qualquer coisa de particular, nunca vista, incompreensível. Qualquer mortal não teria podido tornar-se alvo de ódio enraivecido da classes dirigentes. Lenine não era qualquer mortal e não esquecia um minuto a responsabilidade que tinha assumido. Ele sabia tirar de uma situação todas as deduções, ele sabia ignorar as oscilações da «opinião pública» por razões das tarefas às quais estava subordinada a sua vida. O dom-quixotismo e a sua pose eram-lhe igualmente estranhas.

Com Zinoviev, Lenine passou algumas semanas nos arredores de Petrogrado, ao pé de Sestroretsk, numa floresta; necessitavam de abrigo à noite e abrigarem-se da chuva. Camuflado em condutor de locomotiva, Lenine passou a fronteira da Finlândia numa máquina e escondeu-se no alojamento do chefe da polícia de Helsingfors, antigo operário de Petrogrado; logo, aproximou-se da fronteira russa, instalando-se em Vyborg. A partir do fim de Setembro, viveu clandestinamente em Petrogrado, onde devia, no dia da insurreição, após uma ausência de quase quatro meses, surge na arena, a céu aberto.

Julho tornou-se o mês da calúnia vergonhosa e vitoriosa; em Agosto, começava já a perder o fôlego. Exactamente um mês depois que a difamação foi lançada, Tseretelli, fiel a ele próprio, julgou necessário repetir na sessão do comité executivo: «No dia seguinte das prisões, dei uma resposta aberta à questão dos bolchevique, e disse: os líderes dos bolcheviques, acusados de serem os instigadores do levantamento dos dias 3 a 5 de Julho, não os suspeito da ligação ao Estado-maior alemão.» Ele não podia dizer menos. Dizer mais teria sido desvantajoso. A imprensa dos partidos conciliadores não foi para além das palavras de Tseretelli. Mas dado que ao mesmo tempo ela denunciava com ferocidade os bolcheviques como auxiliares do militarismo alemão, a voz dos jornais conciliadores confundiam-se do ponto de vista político com a gritaria do resto da impressa que tratava os bolcheviques não como «auxiliares» mas como mercenários de Ludendorff. As notas mais elevadas do coro eram dadas pelos cadetes. As Russkia Vedomosti (Informações russas), jornal dos professores liberais de Moscovo, comunicaram que no decurso da buscas à redacção da Pravda, ter-se-ia encontrado uma carta alemã, recebida de Haparanda, na qual um barão «felicitava os bolcheviques pela sua acção e «previa» a alegria que haveria em Berlim». O barão alemão da fronteira finlandesa sabia bem de quais cartas tinham necessidade os patriotas russos. Informações desse género preenchiam a imprensa da sociedade cultivada que se defendia contra a barbarie bolchevique.

Os professores e os advogados acreditavam naquilo que afirmavam? Admitir isso, pelo menos no que diz respeito aos líderes da capital, seria subestimar infinitamente demasiado o seu julgamento político. Apesar das considerações de princípio e de psicologia, simples motivos práticos deviam revelar a absurdidade da acusação, e, antes de tudo, considerações financeiras. Certamente, o governo alemão teria podido ajudar os bolcheviques, não com ideias, mas com dinheiro. Ora, precisamente, era o dinheiro que faltava aos bolcheviques. O centro do partido no estrangeiro, durante a guerra, debatia-se numa cruel indulgência, uma centena de francos pareciam-lhe uma grande soma, o órgão central manifestava-se uma vez em cada mês ou dois, e Lenine contava com cuidado as linhas para não ultrapassar o orçamento. As despesas da organização de Petrogrado durante os anos da guerra calculavam-se em alguns milhares de rublos gastos sobretudo na impressão de folhas ilegais: em dois anos e meio, só foram publicados em Petrogrado trezentos mil exemplares. Após a insurreição, o afluxo das adesões e de recursos, bem entendido, aumentou extraordinariamente. Os operários subscreviam com muito entusiasmo em proveito do soviete e dos partidos soviéticos. «Dons, pagamentos de toda a especie, colectas e cotizações em proveito do soviete – dizia num relatório no primeiro congresso dos sovietes, o advogado Bramson, trabalhista – afluíam no dia seguinte da eclosão da revolução... Podia-se observar o quadro extremamente impressionante de uma peregrinação em nossa direcção, no palácio de Tauride, desde do primeiro momento até tarde na noite para efectuar esses pagamentos.» Mais se avançava, mais os operários mostravam-se entusiasmados em cotizar para os bolcheviques. Todavia, apesar do crescimento rápido do partido e das suas receitas, a Pravda era, de todos jornais dos partidos, aquele que tinha o mais pequeno formato. Pouco após a sua chegada à Rússia, Lenine escrevia a Radek, em Estocolmo: «Escreva artigos para a Pravda sobre a política exterior, muito curto e no espírito da Pravda (temos muito pouco lugar, lutamos para crescer).» A despeito do regime esparciata da economia aplicada por Lenine, o partido não saía da penúria. Quando se tratava de atribuir dois ou três mil rublos do tempo da guerra em proveito da organização local, era cada vez um sério problema para o comité centra. Para enviar os jornais para a frente, era preciso abrir constantemente novas colectas entre os operários. E, contudo, os jornais bolcheviques atingiam as trincheiras em quantidade infinitamente menores do que as gazetas dos conciliadores e dos liberais. O resultado eram as queixas contínuas. «Viu-se somente o ruído que se fazia sobre o vosso jornal», escreviam os soldados.

Em Abril, a conferência local do partido em Petrogrado apelou aos operários da capital a colectar em três dias os setenta e cinco mil roubles que faltavam para a compra de uma impressora. Esta soma foi largamente atingida e o partido adquiriu enfim uma impressora para si, essa mesma que os junkers destruíram completamente em Julho. A influência das palavras de ordem bolcheviques tomava uma extensão como um incendio na estepe. Mas os recursos materiais da propaganda continuavam medíocres. Individualmente, o género de vida dos bolchevique dava ainda menos espaço à calúnia. O que ficava? Nada, no fim de contas, salvo a passagem de Lenine pela Alemanha. Mas justamente esse facto que foi o mais vezes levantado diante de auditórios pouco esclarecidos, como uma prova das relações de Lenine com o governo alemão, demonstrava na realidade o contrário: um agente da Alemanha atravessou o país inimigo escondido e em plena segurança; para se decidir e pisar abertamente as leis do patriotismo em tempo de guerra, ele não podia ser senão um revolucionário absolutamente seguro dele.

O ministério da Justiça não parou portanto diante da execução da tarefa ingrata: não era em vão que ele tinha herdado do passado os quadros educados pelo último período da autocracia, quando os assassinatos cometidos sobre os deputados liberais pelos Cem Negros que o país conhecia os nomes, não eram sistematicamente divulgados e que em contrapartida, em Kiev, um judeu, empregado do comércio, foi acusado de ter bebido sangue de uma criança cristã. Sob a assinatura do juiz instrutor Alexandrov, encarregado dos assuntos de importância especial, e de Karinsky, procurador no palácio da Justiça, no dia 21 de Julho, foi publicado uma convocação para comparecer, sob a acusação de alta traição, visando Lenine, Zinoviev, Kollontai, e um certo número de outras pessoas entre as quais o social democrata alemão Helphand Parvus. Os mesmos artigos 51, 100 e 108 do código criminal fora logo aplicadas também a Trotsky e Lunatcharsky, presos pelos destacamentos da tropa no dia 23 de Julho.

Segundo o texto da convocação, os líderes dos bolcheviques, «sendo cidadãos russos, por acordo prévio entre os acima mencionados e outras pessoas, para fins da cooperação com os Estados estando com a Rússia em hostilidade aberta contra esta última, entraram com agentes dos Estados mencionados com o fim de contribuir para a desorganização do exército russo e a retaguarda para enfraquecer a capacidade combativa do exército. Para isso, com os recursos financeiros recebidos desses Estados, organizaram a propaganda junto da população e das tropas, convidando-os a recusar imediatamente as operações militares contra o inimigo, e, igualmente com os mesmos objectivos, no período de 3 a 5 de Julho, organizaram em Petrogrado uma insurreição armada...» Qualquer pessoa sabendo ler, pelo menos na capital, conheceu, nesses dias, as condições nas quais Trotsky tinha chegado de Nova York, pelo Christiania e Estocolmo, a Petrogrado, o juiz de instrução metia na conta deste último o crime de ter atravessado a Alemanha. A justiça não querendo evidentemente deixar subsistir nenhuma dúvida sobre o valor dos documentos que a contra-espionagem tinha colocado à sua disposição.

A instituição da contra-espionagem não é em lado algum um viveiro de moralidade. Mas na Rússia, ela era lixeira do regime rasputiniano. O lixo do corpo dos oficiais, da polícia, da guarda, dos agentes metidos de parte da Okhrana constituíam os quadros desta instituição infame e poderosa. Coronéis, capitães, tenentes, inaptos como combatentes, tinham colocado nas suas atribuições todos os domínios da vida social e política, criando em todo o país uma feudalidade da contra-espionagem. «A situação tornou-se catastrófica – declarou, lamentando-se, o antigo director da polícia de Kurlov – quando, na direcção dos assuntos civis começou a intervir a famosa contra-espionagem.» O próprio Kurlov tinha no seu activo um bom número de de assuntos tenebrosos, nomeadamente uma participação indirecta no assassinato do primeiro-ministro Stolypine; contudo, a actividade da contra-espionagem fazia-o tremer, mesmo com a sua imagem de especialista. Enquanto que «a luta contra a espionagem inimiga... era levada pouco a sério», escrevia ele, suscitavam constantemente assuntos inventados conscientemente, que recaíam sobre individuos perfeitamente inocentes com um simples fim de chantagem. Kurlov caiu sobre um desses assuntos: «Aterrorizado, dizia ele, ouvi o pseudónimo de um agente secreto que eu conhecia, despedido por chantagem desde do tempo onde eu exerci no departamento da polícia.» Um dos chefes da contra-espionagem na província, um certo Ustinov, notário antes da guerra, nota nas sua Memórias os costumes da contra-espionagem pouco mais ou menos nesses termos idênticos aos do Kurlov: «Os agentes, nos seus inquéritos, fabricavam eles próprios a documentação.» É edificante verificar o nível da instituição segundo o próprio denunciante. «A Rússia está perdida – escreve Ustinov sobre Fevereiro – tendo sido vítima da revolução provocada pelos agentes da Alemanha com o ouro alemão».

A atitude do notário patriota em relação aos bolcheviques não precisa explicações. «Os relatórios da contra-espionagem sobre a actividade de Lenine, sobre a sua ligação com o estado-maior alemão, sobre o facto que ele tinha ganho ouro alemão eram tão convincentes que deviam enforcá-lo logo.» Kerensky não se decidia, somente porque ele próprio, acontece, era um traidor. «Em particular, estávamos estupefactos e mesmo simplesmente indignados de ver governar um pequeno mau advogado, o pequeno judeu Sacha Kerensky.» Ustinov testemunha que Kerensky «era bem conhecido como provocador que traía os seus camaradas». O general francês Anselme, como se explica mais longe, evacuou Odessa em Março de 1918 não sobre a pressão dos bolcheviques, mas porque ele tinha recebido um suborno considerável. De quem? Dos bolcheviques? Não, «os bolcheviques nada têm a ver com isso. São os franco-maçons que entram em cena.» Tal é o mundo.

Brevemente após a insurreição de Fevereiro, a mesma instituição, composta de canalhas, de falsificadores e de chantagistas, foi colocada sob a vigilância de um socialista-revolucionário patriota, regressado da emigração, chamado Mironov, que o sub-secretários de Estado Demianov, «socialista-populista», caráteriza nestes termos: «Exteriormente, Mironov produzia boa impressão... mas eu não me espantaria se soubesse que esse homem não era completamente normal.» Pode-se confiar neste este testemunho; é duvidoso que um homem normal consentisse tomar a direcção de uma instituição que era simplesmente necessário dissolver, regando as paredes com sublimado corrosivo.

No seguimento dos danos administrativos provocados pela insurreição, a contra-espionagem tornou-se subordinada ao ministro da Justiça, Pereverzev, homem de uma imprudência inconcebível e pouco incomodado com a escolha dos meios. O mesmo Demianov diz nas sua Memórias que o seu ministro «não gozava no soviete de qualquer prestígio». Sob a égide de Mironov e de Pereverzev, os agentes da contra-espionagem, assustados pela revolução, acordaram e adaptaram a sua antiga actividade à nova situação política. Em Junho, a ala esquerda da imprensa governamental começou a publicar informações sobre a corrupção e outros crimes cometidos pelos altos funcionários da contra-espionagem, incluindo os dois directores da instituição, Chtchukine e Broi, adjuntos directos do infortunado Mironov. Oito dias antes da crise de Julho, o comité executivo, sob a pressão dos bolcheviques, exigiu do governo que ele procedesse a uma imediata revisão da contra-espionagem, com a participação dos representantes do soviete. Os agentes da contra-espionagem tinham portanto razões de serviço, mais exactamente de cobardia, para bater rápido e o mais forte possível sobre os bolcheviques. O príncipe Lvov acabava de assinar um decreto dando à contra-espionagem o direito de deter qualquer pessoa durante três meses.

O carácter da acusação e dos próprios acusadores levanta inevitavelmente esta questão: como é que em geral homens com uma mentalidade normal podiam concordar ou pelo menos fazer de conta de acreditar numa patente mentira e totalmente absurda? O sucesso da contra-espionage teria sido, efectivamente, inconcebível fora do ambiente geral criado pela guerra, as derrotas, o desespero, a revolução e a exasperação da luta social. Nada tinha sucesso com as classes dirigentes russas desde Outono de 1914, o chão abria-se debaixo dos seus pés, tudo lhes caía das mãos, as calamidades abatiam-se de todos os lados: como se passar sem procurar um culpado?

O ex-procurador do palácio da Justiça, Zavadzky, menciona nas suas Memórias que «pessoas completamente sãs de espírito durante os alarmantes anos da guerra, tinham tendência a desconfiar da traição onde, verosimilmente ou sem qualquer dúvida, ela não existia. A maior parte dos assuntos desse género foram levantados no tempo quando eu era procurador, tornaram-se exageradamente aumentadas.» A iniciativa de tais assuntos, independentemente do espião maléfico, vinha do pequeno-burguês que tinha perdido a cabeça. Mas já, cedo, a psicose da guerra combinava-se com a febre política pré-revolucionária e começou a dar resultados tanto mais patéticos. Os liberais, de acordo com os generais azarentos, procuravam por todo o lado e em tudo a mão da Alemanha. A camarilha era julgada germanofilia. A clique da Rasputine, na sua totalidade, era considerada, ou pelo menos declarada, pelos liberais, como agindo sobre as instruções de Potsdam. A czarina era frequentemente e abertamente acusada de espionagem: atribuíam-lhe, mesmo nos meios da Corte, a responsabilidade de ter feito afundar pelos alemãs o navio sobre o qual o general Kitchner ia à Rússia.

Os homens de direita, bem entendido, não ficavam por aí. Zavadsky conta como o subsecretário de Estado do Interior Bieletsky tentou, no princípio de 1916, criar um caso contra o industrial nacional-liberal Gutchkov, acusando-o «de actos que, em tempo de guerra, atingiam de perto a alta traição...» Denunciando as acções de Bieletsky, Kurlov, ele também antigo secretário de Estado do Interior, perguntou por sua vez a Miliokov: «Porque qual trabalho honesto ao serviço da pátria ele recebeu duzentos mil rublos em dinheiro «finlandês», por correio dirigido ao seu porteiro?» As aspas que enquadram a palavra «finlandês» a propósito do dinheiro devem mostrar que se trata de dinheiro alemão. Ora, Miliokov também tinha fama bem merecida de germanófobo!

Nos círculos governamentais, estimava-se geralmente provado que todos os partidos da oposição agiam com o dinheiro da Alemanha. Em Agosto de 1915, como se esperavam sarilhos por ocasião da projectada dissolução da Duma, o ministro da Marinha Grigorovitch, considerado como um quase liberal, dizia em conselho de ministros: «Os alemãs propagam e pagam as organizações anti-governamentais.» Os outubristas e os cadetes, indignados face às insinuações desse género, não hesitavam em atribuí-los à esquerda. Sobre um discurso meio patriótico do menchevique Tchkheidze no início da guerra, o presidente da Duma Rodzianko escrevia: «Os acontecimentos mostraram as ligações de Tchkheidze com as esferas alemãs.» Esperava-se em vão uma sombra de prova!

Na sua História da segunda revolução Russa, Miliokov diz isto: «O papel das «fontes obscuras» na insurreição do 27 de Fevereiro não de forma completamente clara, mas a julgar por tudo o que seguiu, é difícil negar.» Mais resolutamente exprime-se um ex-marxista, actualmente eslávico reaccionário, de origem alemã, Peter von Struve: «Quando a revolução russa, conspirada e meditada pela Alemanha, conseguir, a Rússia em suma saída da guerra.» Para Struve como para Miliokov, tratava-se não da revolução de Outubro, mas da revolução de Fevereiro. Sobre o famoso Prikaz nº1, a grande Carta das liberdades do soldado, elaborada pelos delegados da guarnição de Petrogrado, Rodzianko, escrevia: «Não duvido um só instante da origem alemã do Prikaz nº1.» O chfe de uma das divisões, o general Barkovsky, contava a Rodzianko que o Prikaz nº1 «tinha sido distribuído, em quantidades formidáveis, às suas tropas por homens das trincheiras alemãs». Quando se tornou ministro da Guerra, Gotchkov, que tentaram, no tempo do czar, de incriminar por alta traição, apressou-se a lançar para a esquerda esta acusação. O Prikaz de Abril de Gotchkov ao exército dizia: «Gente que detestam a Rússia e que sem dúvida estão ao serviço dos nossos inimigos, insinuaram no exército da frente com uma perseverança que caráteriza os nossos adversários, e, verosimilmente, obtemperando às exigências destes últimos, pregam a necessidade de terminar a guerra mais cedo possível.» Sobre a manifestação de Abril, dirigida contra a política imperialista, Miliokov escreve: «A tarefa de eliminar os dois ministros [Miliokov e Gotchkov] foi nitidamente colocada na Alemanha. «Os operários, para participar à manifestação, teriam ganho, dos bolcheviques, quinze rublos por dia. A fonte de ouro alemã explicava ao historiador liberal todos os enigmas sobre os quais ele partia os dentes como político.

Os socialistas patriotas que perseguiam os bolcheviques como aliados involuntários, senão agentes da Alemanha dirigente encontravam-se eles próprios sob a acção de tais acusações vindas da direita. Viu-se o julgamento de Rodzianko sobre Tchkheidze. O mesmo Rodzianko não poupou Kerensky: «É ele, sem dúvida, que, por simpatia secreta pelos bolcheviques, mas talvez também em virtude de outras considerações, comprometeu o governo provisório a admitir os bolchevique na Rússia.» As «outras considerações«não podem significar nada senão a predilecção pelo ouro da Alemanha. Em curiosas Memórias que foram traduzidas em várias línguas estrangeiras, um general da guarda, Spiridovitch, assinala o grande número de judeus nos círculos dirigentes dos socialistas-revolucionários, acrescenta: «Entre eles brilhavam também nomes russos, tais como o do futuro ministro da aldeia, espião alemão, Victor Tchernov.» O líder do partido socialista-revolucionário não era somente suspeito pelo guarda, longe disso. Após o progrom contra os bolcheviques em Julho, os cadetes não perdendo tempo, lançaram uma forte campanha contra o ministro da Agricultura Tchernov, como suspeito por manter relações com Berlim, e o infeliz patriota teve que dar durante um certo tempo a demissão com o fim de lavar as acusações que pesavam sobre ele.

Pronunciando-se, durante o outono de 1917, sobre o mandato entregue pelo comité executivo patriota ao menchevique Skobelev pela sua participação na conferência socialista internacional, Miliokov, do alto da sua tribuna do pré-parlamento, demonstrava, com uma análise escrupulosamente sitáxica do texto, «a origem» evidentemente «alemã» do documento. O estilo do mandato, como aliás o de toda a literatura dos conciliadores, era efectivamente má. A democracia atrasada, desprovida de ideias, de vontades, olhando com temor à direita e à esquerda, apertava nos seus escritos reservas sobre reservas, das quais ela fazia má tradução de uma outra língua, assim como ela própria não era senão a sombra de um passado estrangeiro, Ludendorff, todavia, nesse assunto, nada tem a ver.

A passagem de Lenine pela Alemanha abriu à demagogia chauvinista possibilidades inesgotáveis. Mas como para mostrar mais claramente o papel dócil do patriotismo na sua política, a imprensa burguesa, que tinha acolhido com fingida benevolência Lenine nos primeiros tempos, não levanta contra a sua «germanofilia» uma campanha desenfreada senão após ter esclarecido o seu programa social. «A terra, o pão e a paz?» Ele não podia trazer tais palavras de ordem senão da Alemanha. Nesta época, não se falava ainda das revelações de Ermolenko.

Quando Trotsky e vários outros emigrados que regressavam da América foram presos pelo controlo militar do rei George, perto de Halifax, o embaixador da Grande-Bretanha em Petrogrado deu à imprensa um comunicado oficial numa inimitável linguagem anglo-russa: «Esses cidadãos russos a bordo do vapor Chrisianiafjord foram retidos em Halifax, porque foi comunicado ao governo inglês que eles tinham um relatório sobre um plano subsidiado pelo governo alemão para derrubar o governo provisório russo...» O comunicado do sir George Buchanan era datado de 14 de Abril: nesse momento, não somente Burstein, mas mesmo Ermolenko não tinham ainda surgido no horizonte. Miliokov, como ministro dos Assuntos estrangeiros, viu-se forçado a pedir ao governo inglês, por intermédio de Nabokov, embaixador da Rússia, a libertação de Trotsky e a autorização para regressar à Rússia. «Conhecendo Trotsky segundo a sua actividade na América – escreve Nabokov – o governo inglês estava estupefacto: O que era isso? Cegueira ou animosidade? Os ingleses levantavam os ombros, compreendiam o perigo, preveniam-nos.» Lloyd George teve portanto que ceder. Em resposta à questão colocada ao embaixador da Grande-Bretanha por Trotsky na imprensa de Petrogrado, Buchanan retirou lastimosamente a sua primeira explicação, declarando desta vez:«O meu governo reteve um grupo de emigrados em Halifax somente com o fim e na espera de um reconhecimento das suas personalidades pelo governo russo... A isso se reduz todo o assunto da prisão dos emigrados russos.» Buchanan não era simplesmente um cavalheiro, era também um diplomata.

Na conferência dos membros da Duma do Estado, no início de Junho, Miliokov, expulso do governo pelas manifestações de Abril, reclamava a prisão de Lenine e de Trotsky, indicando em termos inequívocos suas ligações com a Alemanha. Trotsky declarou, no dia seguinte, no congresso dos sovietes: «Enquanto que Miliokov não tiver retirado essa acusação, trará sobre a testa o estigma de um infâme caluniador.» Miliokov respondeu na Rietch que ele «estava descontente em ver os srs. Lenine e Trotsky passearem em liberdade, mas que ele tinha sido motivado pela necessidade da prisão deles» não por esse facto que eles seriam agentes da Alemanha, mas porque eles tinham suficientemente pecado contra o código criminal». Miliokov era diplomata sem ser cavalheiro. A necessidade de prender Lenine e Trotsky era para ele absolutamente claro antes das revelações de Ermolenko; como apresentar juridicamente a prisão – era uma questão técnica. O líder dos liberais jogava-se na política com uma acusação grave muito antes que ela fosse elaborada sob a sua forma «jurídica».

O papel da legenda sobre o ouro alemão pareceu mais evidente num episódio singular contado pelo secretário geral do governo provisório, o cadete Nabokov (não se confunda com o embaixador da Rússia em Londres mencionado mais acima). Numa das sessões do governo, Miliokov, aproveitando a ocasião, notou: «Não é segredo para ninguém que o dinheiro alemão jogou um papel no número de factores que contribuíram para a revolução...» Trata-se efectivamente de Miliokov, mesmo se a sua forma é evidente atenuada. Kerensky – conta Nabokov – ficou vermelho de raiva. Pegou na sua pasta e, jogando-a violentamente sobre a mesa, gritou: «Desde então que o sr. Miliokov ousou, na minha presença, caluniar a causa sagrada da grande revolução russa, não quero ficar aqui um só minuto.» Isso parece muito com Kerensky, ainda se os gestos são relatados de uma maneira exagerada. Um provérbio russo aconselha a não cuspir no poço onde iremos beber. Quando foi ameaçado pela revolução de Outubro, Kerensky não encontrou melhor do que articular contra o mito do ouro alemão. O que da parte de Miliokov, era «uma calúnia lançada contra uma causa sagrada«tornou-se para Burstein-Kerensky a causa sagrada da calúnia contra os bolcheviques.

A cadeia interrompida das prevenções de germanofilia e de espionagem que se prolongava desde da czarina, Rasputine, os círculos da Corte, passando pelos ministérios, os estados-maiores, a Duma, as redacções liberais, até Kerensky e uma parte da cimeira soviética, surpreende pela sua uniformidade. Os adversários políticos pareciam ter firmemente resolvido não fazer esforços de imaginação: eles fazem simplesmente passar e repassar uma só e mesma acusação de um ponto para outro, de preferência da direita para a esquerda. A calúnia de Julho lançada contra os bolcheviques, menos que qualquer outra, não caía do céu sereno; ela era o resultado natural do pânico e do ódio, o último anel da vergonhosa cadeia, a transmissão de uma formula caluniadora acabada, que reconciliava os acusadores e acusados da véspera. Todas as vexações sofridas pelos dirigentes, todas as suas apreensões, todas as suas exasperações voltaram-se contra o partido que se situava mais à esquerda e incarnava mais integralmente a força esmagadora da revolução. As classes possuidoras podiam ceder o lugar aos bolcheviques sem ter feito uma última tentativa desesperada para esmagar no sangue e na lama? A bola da calúnia, bem apertada à força de ser utilizada, devia fatalmente cair sobre a cabeça dos bolcheviques. As revelações de um alferes da contra-espionagem não eram senão a materialização do delírio das classes possuidoras quando se viram encalacradas num impasse. Foi por isso que a calúnia tomou tanta virulência.

A espionagem alemã não era, bem entendido, um devaneio. Ela estava infinitamente melhor organizada na Rússia que a espionagem russa na Alemanha. Basta lembrar que o ministro da Guerra Sukhomlinov já tinha sido, sob o antigo regime, preso como cúmplice de Berlim. Sem dúvida igualmente que os agentes da Alemanha se infiltraram não somente nos meios da Corte, e entre o Cem Negros, mas também nos meios da esquerda. As autoridades austríacas e alemãs, desde dos primeiros dias da guerra, esganavam-se a construir tendências separatistas, começando pelos emigrados da Ucrânia e do Cáucaso. É curioso notar que Ermolenko, alistado por elas em Abril de 1917, tinha por missão militar pela emancipação da Ucrânia. Desde do outono de 1914, Lenine tal como Trotsky, na Suíça, convidavam publicamente em romper com os revolucionários que se deixavam levar no início do militarismo autro-alemão. No princípio de 1917, Trotsky renovou na imprensa, em Nova Iorque, este aviso aos sociais-democratas alemãs de esquerda, partidários de Liebknecht com os quais agentes da embaixada britânica tentavam ligar-se.

Mas ao mesmo tempo que se pavoneavam com os separatistas com o objectivo de enfraquecer a Rússia e de intimidar o czar, o governo alemão estava longe de pensar derrubar o czarismo. O melhor testemunho disso está numa proclamação propagada pelos alemãs após a insurreição de Fevereiro, nas trincheiras russas, em que foi lida publicamente, a 11 de Março, na sessão do soviete de Petrogrado: «No início, os ingleses iam com o vosso czar, porque ele não concordava com as suas exigências interessadas. Derrubaram o vosso czar. Por que é que isso aconteceu? Porque ele compreendeu e revelou a intriga mentirosa e perfídia da Inglaterra.» Tanto na forma como no fundo, esse documento dá uma garantia de autenticidade. Da mesma maneira que não se saberia falsear um tenente prussiano, é impossível falsificar a sua filosofia histórica. Holfmann, tenente prussiano promovido ao posto de general, considerava que a revolução russa tinha sido combinada e orquestrada pela Inglaterra. Há contudo nisso menos absurdidade que na teoria dos MiliokovStruve, porque Potsdam continuou até ao fim esperando uma paz separada com Tsarkoie-Selo, enquanto que em Londres temiam sobre tudo esta paz separada. Foi somente quando a impossibilidade de uma restauração do czar se tornou patente que o estado-alemão mudou as suas esperanças para uma acção corrupta do processo revolucionário. Mas mesmo sobre a questão da passagem de Lenine pela Alemanha, a iniciativa vinha não dos círculos alemãs, mas do próprio Lenine, e, na sua forma primitiva, do menchevique Martov. O estado-maior alemão foi somente ao seu encontro, provavelmente não sem hesitações. Ludendorff ter-se-ia dito: será somente um alívio desse lado.

Durante o acontecimentos de Julho, os próprios bolcheviques procuravam discernir, por detrás de excessos inesperados e provocados com uma evidente premeditação, a obra de uma mão estrangeira e criminosa. Trotsky escrevia nesses dias: «Que papel jogou aqui a provocação contra-revolucionária, ou o serviço de espionagem alemão? É difícil presentemente dizer sobre isso qualquer coisa de certo... resta esperar os resultados de uma verdadeira instrução... Mas, a partir de agora, já se pode declarar com certeza: os resultados de tal inquérito pode lançar novos esclarecimentos sobre as acções dos bandos de Cem Negros e sobre o papel clandestino do ouro, que seja alemão, inglês ou da reacção russa, ou que seja enfim a primeira, a segunda e a terceira fonte ao mesmo tempo: mas o sentido político dos acontecimentos não pode ser alterado por qualquer instrução judiciária. As massas operárias e as tropas de Petrogrado não foram e não podiam ser compradas. Elas não estão ao serviço nem de Guilherme II, nem de Buchanan, nem de Miliokov... O movimento foi preparado pela guerra, pela fome iminente, pela reacção que levanta a cabeça, pelo governo que não tem cabeça, por uma ofensiva aventureira, pelo desafio político e as preocupações revolucionárias dos operários e dos soldados...» Todos os dossiers dos arquivos, os documentos, as memórias que se conheceram depois da guerra e as duas insurreições demonstram sem sombra de dúvida que a ingerência da espionagem alemã nos processos revolucionários da Rússia não se levantou um só momento acima da esfera militar e policial no domínio da alta política. É necessário insistir sobre isso após a revolução que se produziu na própria Alemanha? Como lamentável e impotente se mostrou o serviço de espionagem pretensamente todo poderoso do Hohenzollern, durante o outono de 1918, face aos operários e os soldados alemãs! «O cálculo dos nossos inimigos que tinham expedido Lenine para a Rússia era perfeitamente justo» declara Miliokov. Foi de outro modo que o próprio Ludendorff julgou os resultados da empresa: «Eu não podia supor – disse ele da revolução russa, para se justificar – que ela se tornasse a sepultura da nossa potência.» Isso só significa, que os estrategas: Ludendorff autorizando a passagem de Lenine, era Lenine que via melhor e mais longe.

«A propaganda inimiga e o bolchevismo – escreveu lamentavelmente Ludendoff nas suas Memórias – visavam, nos limites do Estado alemão um e só objectivo. A Inglaterra deu o ópio à China, os nossos inimigos deram-nos a revolução...» Ludendorff atribui à Entente o que Miliokov e Kerensky acusavam a Alemanha. Foi assim que se vingou cruelmente o sentido deformado da história! Mas Ludendorff não ficou por aí. Em Fevereiro de 1931, ele revelou ao mundo que, nas costas dos bolcheviques, se erguia o capital financeiro mundial, principalmente judeu, unificado na luta contra a Rússia czarista e a Alemanha imperialista. «Trotsky chega da América, pela Suécia, em Petersburgo, com grandes somas fornecidas pelo capital mundial. Outros fundos foram transmitidos da Alemanha para os bolcheviques pelo judeu Solmssen.» (Ludendorffs Volkswarte, 15 de Fevereiro de 1931.) Tão contraditórios que sejam os testemunhos de Ludendorff e os de Ermolenko, eles coincidiam todavia sobre um ponto: uma parte do dinheiro, acontece, vinha efectivamente da Alemanha, não de Ludendorff, é verdade, mas do seu inimigo mortal Solmssen. Só faltava esse testemunho para dar a todo o assunto um certo fim estético.

Mas nem Ludendorff, nem Miliokov, nem Kerensky não inventaram a pólvora, ainda se o primeiro a tivesse utilizado bastante, «Solmssen» teve percursores na História, tanto como judeu que como agente alemão. O conde de Fersen, embaixador da Suécia em França durante a grande Revolução, partidário zeloso do poder real, do rei e sobretudo da rainha, mandou mais de uma vez ao seu governo, em Estocolmo, relatórios deste género: «O judeu Efraim, emissário do sr. Herzberg, de Berlim (ministro prussiano dos Assuntos estrangeiros), enviou (aos jacobinos) dinheiro; não há muito tempo, recebeu seiscentos mil libras.» Um jornal moderado, As Revoluções de Paris, exprimia esta hipótese que, durante a insurreição republicana, «emissários da diplomacia europeia, tais como o judeu Efraim, agente do rei da Prussia, penetravam na multidão móvel e versátil...» O mesmo Fersen dizia num relatório: «Os jacobinos... seriam perdidos sem ajuda da plebe que eles compram.» Se os bolcheviques atribuíram subsídios diários aos participantes nas manifestações, eles seguiam o exemplo dos jacobinos, e, nos dois casos, o dinheiro destinado a compra «a plebe» era igualmente a fonte berlinense. A semelhança na maneira de agir dos revolucionários do século XX e do século XVIII seria espantosa se ela não se revestisse de uma identidade ainda mais impressionante da calúnia vinda dos inimigos. Mas não é necessário de se limitar somente aos jacobinos.

A história de todas as revoluções e das guerras civis prova invariavelmente que uma classe ameaçada ou derrubada tem tendência a procurar a cauda das suas desgraças não nela própria, mas nos agentes e emissários do estrangeiro. Não somente Miliokov, como douto historiador, mas mesmo Kerensky, na sua qualidade de leitor superficial, não podem ignorar. Todavia, como políticos, eles são as vítimas da sua própria função contra-revolucionária.

Por debaixo das teorias sobre o papel revolucionário dos agentes estrangeiros, há portanto, como sob todos os erros típicos das massas, um base histórica indirecta. Conscientemente ou não, todo o povo faz, em períodos críticos da sua existência, empréstimos particularmente grandes e ousados do tesouro de outros povos. Não é raro, além disso, que o papel dirigente seja interpretado num movimento progressista por pessoas que viveram no estrangeiro ou então por emigrados regressados à pátria. As ideias e as instituições novas apresentam-se logo às camadas conservadoras antes de tudo como produtos exóticos, estrangeiros. A aldeia ergue-se contra a cidade, o buraco da província contra a capital, o pequeno burguês contra o operário, defendendo-se na qualidade de forças nacionais contra as influências estrangeiras. O movimento dos bolcheviques era apresentado como «um movimento alemão», por Miliokov, no fim de contas pelas mesmas razões que teve o mujique russo, durante séculos em chamar alemão qualquer homem vestido como um citadino. Com a diferença que, nesse caso, o mujique era de boa-fé.

Em 1918, portanto após a insurreição de Outubro, o Gabinete da Imprensa do governo americano publicou solenemente uma compilação de documentos sobre a ligação dos bolcheviques com os alemãs. Esta falsificação, que não resiste nem a um sopro da crítica, foi admitido por muitas pessoas instruídas e perspicazes mesmo no momento onde se descobriu que os originais dos documentos, proveniente, pretendia-se, de diversos países tinham sido dactilografados sobre uma e mesma máquina. Os falsificadores não o faziam gratuitamente: eles estavam convencidos que a necessidade política de denunciar os bolcheviques era mais importante que a voz da crítica. E não se enganaram, porque os documentos foram-lhes pagos. Portanto, o governo americano, afastado do teatro da luta pelo oceano, não estava interessado senão em terceiro ou segundo grau.

Mas porquê, então, a calúnia política é em si tão indigente e monótona? Porque o psíquico social é poupado e conservador. Ele não despensa mais esforços do que é necessários para chegar aos seus fins, ele prefere emprestar do velho quando não é forçado em construir novo, mesmo no último caso, ele aglomera elementos do velho. Cada religião nova que surgiu, em vez de refazer uma mitologia nova, plagia as superstições do passado. É segundo o mesmo tipo que se constituíram os sistemas filosóficos, as doutrinas do direito e da moral. Os indivíduos, mesmo engenhosos, não se desenvolvem mais harmoniosamente do que a sociedade que os educa. A fantasia ousada acomoda-se num mesmo cerebro de uma fidelidade servil aos modelos acabados. Temerários discurso combinam-se com julgamentos grosseiros; Shakespeare alimentava as suas criações de sujeitos que lhe vinham da profundidade dos séculos. Pascal demonstrava a existência de um deus por meio da teoria das probabilidades. Newton descobriu as leis da atracção e tinha fé no Apocalipse. Desde que Marconi instalou um poste de TSF no Vaticano, o vigário de Cristo difunde pela rádio a graça mística. Em tempo normal, essas contradições não saem do estado de torpor. Mas, em tempos de catástrofe, elas adquirem uma violência explosiva. Quando se trata de interesses materiais ameaçados, as classes instruídas movimentam todos os preconceitos e os erros que a humanidade arrasta atrás de si. Podemos queixar-nos dos patrões derrubados da antiga Rússia que ergueram a mitologia da sua queda ao emprestar sem discernimento às classes que foram derrotadas antes deles? Na verdade, o facto que Kerensky, muitos anos após os acontecimentos, reproduz nas suas Memórias a versão de Ermolenko, aparece de qualquer modo superflua.

A calúnia dos anos da guerra e de revolução, dissemos, é impressionante pela sua uniformidade. Todavia há aí uma diferença. De uma quantidade acumulada resulta uma nova qualidade. A luta dos outros partidos entre eles parecia quase uma querela de família, comparativamente à perseguição que levavam em comum contra os bolcheviques. Nos seus conflitos entre eles, pareciam simplesmente treinarem-se para uma luta decisiva. Mesmo acusando-se gravemente um ao outro de estarem em ligação com os alemãs, eles não levaram o assunto até ao fim. Julho deu outro quadro. No avanço contra os bolcheviques, há todas as forças dominantes: o governo, a Justiça, a contra-espionagem, os estado-maiores, os funcionários, as municipalidades, os partidos da maioria soviética, sua imprensa, seus oradores constituem um conjunto grandioso. Mesmo as suas divisões, assim como os instrumentos diferentes num orquestra, reforçam somente o efeito geral. A absurda impostura de dois individuos desprezíveis é elevada ao nível de factor histórico. A calúnia joga-se como um Niagara. Se tomarmos em consideração as circunstâncias – a guerra e a revolução – e o carácter dos acusados – os líderes revolucionários de milhões de homens que levavam o seu partido ao poder – pode-se dizer sem exagero que Julho de 1917 foi o mês da maior calúnia conhecida da história mundial.

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Inclusão 10/02/2011
Última alteração 30/04/2014