A Cência da Logica

Georg Wilhelm Friedrich Hegel


Livro um: A doutrina do ser


Qual deve ser o início da Ciência?

SOMENTE nos tempos modernos veio à consciência de que é difícil encontrar um começo para a filosofia, e tem sido discutido amplamente o motivo dessa dificuldade, bem como a possibilidade de resolvê-la.

O começo da filosofia deve ser mediato ou imediato, e é fácil mostrar que não pode ser nem um nem o outro; de modo que ambas as formas de começo estão sujeitas a refutação.

O princípio de uma filosofia expressa, sem dúvida, também um começo, mas não tanto subjetivo quanto objetivo, isto é, o começo de todas as coisas. O princípio é um conteúdo determinado de certo modo: a água, o único, o Nus, a ideia, a substância, a mônada, etc.; ou, então se refere à natureza do conhecimento - e por isso deveria ser mais um critério do que uma determinação objetiva - pensar, intuir, sentir, eu, a subjetividade em si; de modo que em ambos os casos é a determinação do conteúdo que atrai
o interesse. Pelo contrário, o começo como tal, na medida em que é algo subjetivo, no sentido de que inicia a marcha da exposição de forma acidental, é despercebida e indiferente; e, portanto, a necessidade de posicionar o problema de com que se deve iniciar, também é insignificante comparado à necessidade do princípio, onde todo o interesse da coisa parece residir, isto é, o interesse de saber o que é o verdadeiro, o fundamento absoluto de tudo.

Mas a dificuldade moderna com o começo vem de uma necessidade mais profunda e desconhecida ainda por aqueles que estão dogmaticamente envolvidos em dar a demonstração do princípio, ou de maneira cética procurar um critério subjetivo contra o filosofar dogmático; necessidade negada por todos aqueles que gostariam de começar com um tiro de pistola, por suas revelações interiores, pela fé, a intuição intelectual, etc., e gostaria de dispensar o método e a lógica. Se o pensamento abstrato antigo se interessa primeiro somente pelo princípio considerado como conteúdo, então, com o progresso da cultura, vê-se forçado a prestar atenção à outra parte, isto é, ao comportamento do saber; então também a atividade subjetiva é concebida como um momento essencial da verdade objetiva e, portanto, surge a necessidade que o método se liga ao conteúdo, a forma com o princípio. Então, o princípio tem que ser também começo e o que é anterior (prius) para o pensamento, também deve ser o primeiro no curso do pensamento.

É necessário considerar aqui apenas como aparece o começo lógico. Os dois aspectos já foram mencionados em que podem ser considerados, seja mediatamente como resultado, ou imediatamente como verdadeiro começo.

Aqui não é o lugar para analisar a questão, que parece tão importante para a cultura moderna, para saber se o conhecimento da verdade é um conhecimento imediato, absolutamente inicial, uma fé, ou se é um conhecimento mediado. Como tal consideração poderia ser levantada anteriormente, já o foi em outra parte (em minha Enciclopédia das ciências filosóficas, 3 ed., no prolegômenos § 61 e segs.)(1). Sobre o assunto, apresentaremos aqui apenas o seguinte: não há nada no céu, na natureza, no espírito ou em qualquer lugar, que não contenha a imediação e mediação ao mesmo tempo, estas duas determinações são apresentadas como unidas e inseparáveis, e essa oposição parece sem valor. Mas, no que diz respeito à discussão científica, as determinações de imediação e mediação e, portanto, a discussão sobre sua oposição e sua verdade são encontradas em cada proposição lógica. Enquanto esta oposição, em relação ao pensamento, o saber e o conhecimento, assume a forma mais concreta de conhecimento imediato ou mediado, a natureza do conhecer é tratada em geral igualmente dentro da ciência da lógica, e o conhecimento em si em sua posterior forma concreta pertence à ciência do espírito e sua fenomenologia.

Mas querer antes que a ciência deixe claro o que é relacionado ao conhecimento, significa fingir que o conhecimento é examinado fora da ciência; mas fora disso, menos ainda pode ser feito científico, e aqui é apenas sobre o caminho científico.

O começo é lógico, na medida em que deve ser realizado no elemento do pensamento livre, que existe por si mesmo, isto é, em conhecimento puro.

É por isso que é mediado, pois o conhecimento puro é a última verdade absoluta da consciência. Na Introdução foi observada que fenomenologia do espírito é a ciência da consciência, que ela tem por finalidade, afirmar que a ciência tem como resultado final o conceito de ciência, isto é, o saber puro.

Nesse sentido, a lógica pressupõe a ciência do espírito fenomenológico, ciência que contém e demonstra a necessidade e, consequentemente, a prova da verdade, adequada ao ponto de vista do saber puro, e também contém sua mediação em geral. Nesta ciência do espírito em suas manifestações, parte-se da consciência empírica, sensível; e este é o saber verdadeiro imediato. Na mesma ciência, é examinado o que esse saber imediato contém. Com respeito a outras formas de consciência, como a fé nas verdades divinas, a experiência interna, o saber pela revelação interior, etc., estas se mostram, após breve reflexão, muito inadequadas para ser apresentada como saber imediato. Naquela exposição, a consciência imediata também constitui o primeiro e a imediato na ciência e, portanto, a pressuposição; mas na lógica o pressuposto consiste no que nessa consideração foi mostrado como resultado, isto é, a ideia como puro saber. A lógica é ciência pura, isto é, o saber puro na amplitude total do seu desenvolvimento. Mas esta ideia foi determinada em tal resultado como aquela que é a certeza convertida em verdade, a certeza que, por um lado, não está mais na frente do objeto, mas tornou-se interior e o conhece como a si mesma; e que, por outro lado, renunciou ao conhecimento de si mesma como algo situado diante da objetividade e que é sua negação; se desvinculou dessa subjetividade e constitui uma unidade com este desprendimento. A fim de alcançar agora que partindo desta determinação do saber puro, o começo é imanente à ciência do mesmo, nada tem que ser feito a não ser considerar com cuidado, ou melhor, deixar de lado todas as reflexões e todas as opiniões que se possa ter, e somente aceitar o que está em nossa presença.

O saber puro, enquanto que se fundiu nessa unidade, superou toda relação com qualquer outra e com toda mediação; é o indistinto; consequentemente, este indistinto deixa de ser ele mesmo saber; resta apenas presente a imediação simples.

A simples imediação é ela própria uma expressão da reflexão e refere-se à diferença em relação ao mediado. Em sua verdadeira expressão, esse simples imediatismo é, consequentemente, o puro ser. E como o puro saber não deve significar mais do que o saber como tal, totalmente abstrato, assim também o puro ser não deve significar mais do que o ser em geral: ser nada mais, sem outras determinações ou complementos.

  Aqui, ser é o que começa, apresentado como decorrente da mediação e precisamente de um mediação que é ao mesmo tempo a superação de si mesma; e é apresentado com o pressuposto do conhecimento puro concebido como resultado do conhecimento finito, isto é, da consciência. Mas, se não deve ser feito nenhum pressuposto, e se o começo em si é para ser tomado como imediato, então se determina somente na medida em que deve ser o começo da lógica, do pensamento por si. Não existe então, mas a decisão, que também pode ser conceituada como arbitrária, de considerar ao pensamento como tal. De modo que o começo tem que ser absoluto, ou o que aqui significa o mesmo, um começo abstrato; não deve pressupor nada, não deve ser mediado por nada, nem ter fundamento, mas deve ser ele mesmo alicerce de toda a ciência. Portanto, tem que ser absolutamente algo imediato, ou melhor o imediato mesmo. Assim como não pode ter uma determinação durante algum outro, tampouco pode conter uma determinação em si, não pode conter em si qualquer conteúdo, porque este mesmo seria uma diferença e uma relação de um diferente com outro e, portanto, uma mediação. O começo é, por consequência, o puro ser.

Para esta simples exposição do que pertence primeiro ao que é o mais simples de tudo, isto é, o começo lógico, outras reflexões podem ser adicionadas; no entanto, eles não precisam servir como esclarecimento ou confirmação da exposição que é completa por si, mas são causados somente por representações e reflexões, que podem ser apresentadas anteriormente em nosso caminho; No entanto, como todos os preconceitos anteriores, eles devem encontrar sua solução na ciência em si, e por isso realmente teria que dotar-se realmente de paciência.

A opinião de que a verdade absoluta é necessariamente um resultado e, inversamente, que um resultado pressuponha uma primeira verdade (que, no entanto, sendo a primeira, não tem o caráter necessário do ponto de vista objetivo, e do ponto de vista subjetivo não é reconhecido), levou, recentemente, a pensar que a filosofia só pode começar com uma verdade hipotética e problemática e, portanto, que filosofar não pode ser, em primeiro lugar, mais que uma busca; parecer sobre o qual Reinhold, nos últimos dias de sua filosofia, insistiu muitas vezes, e a justiça deve ser feita, porque tem como base um verdadeiro interesse relativo à natureza especulativa do começo filosófico.

A análise desta opinião oferece ao mesmo tempo uma oportunidade para introduzir uma explicação preliminar sobre o significado do procedimento lógico em geral; na verdade, essa opinião contém imediatamente em si a consideração do caminho a seguir. E na verdade o apresenta de tal forma que o avançar na filosofia é, antes, um recuar e por fundamento, por meio do qual somente resultaria que o com que se iniciou não é algo aceito pela pura arbitrariedade, mas representa uma parte a verdade e por outra a primeira verdade.

É necessário concordar que esta é uma consideração essencial - como resultará em mais detalhes na lógica em si - quer dizer, que o avançar, é voltar ao fundamento, ao original e verdadeiro, do qual depende o princípio com o qual se começou e pelo qual é realmente produzido.

É assim que a consciência, a partir da imediação, com a qual começa, é novamente levada pelo seu caminho ao conhecimento absoluto, como sua verdade mais íntima.

Este último, o fundamento, constitui, portanto, também aquele do qual surge o Primeiro, que primitivamente se apresentava como imediato. Então o espírito absoluto, que é apresentado como a verdade mais concreta, última e superior de todos os seres, é ainda mais reconhecido como o que no final do desenvolvimento se aliena com liberdade e emerge na forma de um ser imediato: isto é, que determina a criação de um mundo que contém tudo incluído no desenvolvimento que precedeu o resultado, e que, para esta posição invertida, em relação ao seu início, é transformada em algo que depende do resultado, como de seu a partir de seu princípio. Para a ciência, o essencial não é tanto que o começo seja um puro imediato, mas que seu conjunto é uma jornada circular em si mesma, na qual o Primeiro também se torna o Último, e o Último se torna  também o Primeiro.

Por outro lado infere-se disto que é igualmente necessário que aquilo cujo movimento retoma como a seu fundamento, seja considerado como resultado. De acordo com este ponto de vista, o primeiro é também o fundamento, e o último é um derivado. Enquanto se começa a partir do primeiro e, por deduções corretas, se chega ao último, como ao fundamento, este é o resultado. Além disso, avançando a partir do que constitui o começo, deve ser considerada apenas como uma determinação posterior do mesmo começo, de modo que aquilo com que se começa como o fundamento de tudo o que se segue e do qual não desaparece. O avançar não consiste em que algo diferente é deduzido, e quando esta ultrapassagem se verifica, também é superada novamente. Assim, o começo da filosofia é o fundamento atual e duradouro em todos os desenvolvimentos sucessivos; o que permanece imanente de maneira absoluta em suas determinações posteriores.

Com efeito, através deste avanço, o começo perde o que tem de unilateral, isto é, a qualidade de ser em geral um imediato e um abstrato; converte-se num mediado e a linha do movimento científico progressista assume, portanto, a forma de um círculo. Ao mesmo tempo, verifica-se que como o que é o começo ainda não está desenvolvido e carece de conteúdo, ainda não está, no começo mesmo, verdadeiramente conhecido; apenas a ciência, e precisamente em seu pleno desenvolvimento, leva a seu conhecimento completo, rico em conteúdo e verdadeiramente fundado.

Mas, como o resultado só se manifesta como fundamento absoluto, o progresso desse conhecimento não é algo provisório, nem problemático, nem hipotético, mas deve ser determinado pela natureza do assunto e do conteúdo em si. Esse começo não é arbitrário e apenas provisoriamente admitido; nem algo que apareça arbitrariamente e é assumido como postulado, do qual, no entanto, se demonstraria a seguir que foi certo tomá-lo como um começo. Isso não acontece aqui como nas construções necessárias para
 conseguir a demonstração de um teorema geométrico, onde só mais tarde, na demonstração, se vê se foi correto desenhar essas linhas, e então começar, na mesma demonstração, com a comparação dessas linhas ou desses ângulos; [O teorema] por si só não é entendido com o traçado destas linhas ou com a sua comparação.

Por este motivo pelo qual na ciência pura se começa com o ser puro, foi apontado diretamente na ciência em si. Esse ser puro é a unidade, para a qual retorna o saber puro; ou se se quiser mesmo manter esse saber, como forma, distinto de sua unidade, esse ser puro também constitui seu conteúdo. Este é o aspecto pelo qual este ser puro, este absoluto imediato, é igualmente um mediado absoluto Mas também deve ser tomado essencialmente em sua unilateralidade, na qual é pura imediação, precisamente porque neste caso é começo. Se não fosse por esta pura indeterminação, se fosse determinado, seria tomado como mediado, como já elaborado posteriormente; pois um determinado contém outra coisa, além de um primeiro. Portanto, pertence à natureza do próprio começo que este seja o ser, e nada mais. Portanto, não é necessário, para introduzir-se na filosofia, de qualquer outra preparação, nem de reflexões e pontos de relação vindos de outra parte.

Posto que o fato do começo seja o começo da filosofia, não pode, de fato, ser deduzido do nenhuma determinação mais exata, nem um conteúdo positivo para si. Pois, neste caso do começo, em que a coisa em si ainda não existe, a filosofia é uma palavra vã ou qualquer representação que se admite, mas ainda não está justificada. O saber puro oferece apenas essa determinação negativa, que deve ser o começo abstrato. Quando o ser puro é tomado como o conteúdo do saber puro, este tem que se retirar de seu conteúdo, deixar agir por si e não mais determiná-lo. Ou, se o ser puro tem que ser considerado como a unidade, na qual o conhecimento coincide em seu ponto mais alto de fusão com o objeto, então o conhecimento desaparece nesta unidade, não tem diferença alguma para com ela e portanto, não deixa de subsistir nenhuma determinação para si. Em qualquer caso, não há algo ou qualquer conteúdo que possa ser usado para constituir um começo determinado.

Mas também a determinação do ser, tomada até agora como começo, poderia ser omitida, de  maneira que apenas tem que exigir que um começo puro seja feito. Nesse caso, nada estaria fora do começo em si, e deveria ver em que consiste. Para fins de conciliação, poderia se propor posição àqueles que, por um lado, não se conformam que se comece pelo ser - sejam quais forem as reflexões pelas quais isto ocorra - e menos ainda com a consequência que o ser carregue consigo, de ultrapassar no nada; e que, por outro lado, não concebem em geral algo mais que uma ciência comece com a suposição de uma representação, representação que é então analisada, de forma que o resultado dessa análise ofereça o primeiro conceito determinado na ciência.

Mesmo se observássemos esse procedimento, não teríamos nenhum objeto em particular, porque o começo do pensar, deve ser totalmente abstrato, universal, pura forma sem qualquer conteúdo; não teríamos, portanto, nada mais do que a representação de um simples começo como tal. Portanto, apenas se trata de ver o que encontramos nessa representação.

Ainda não é nada e tem que se tornar algo. O começo não é puro nada, mas um nada do qual  algo tem de surgir; então também o ser já está contido no começo. O começo contém, em  consequência, a ambos: o ser e o nada; é a unidade do ser e do nada; isto é, é um não-ser que ao mesmo tempo é ser, que ao mesmo tempo, é não-ser.

Além disso: ser e nada existem no começo como diferentes; para o começo aponta para algo diferente; é um não-ser, que se refere a ser, como a um outro; o que começa ainda não existe; só vai em direção ao ser.

O começo, consequentemente, contém o ser como algo que se afasta do não-ser ou o supere, isto é, como um oposto do não-ser.

Mas, por outro lado, o que começa já existe, mas ao mesmo tempo ainda não existe. Os contrários, ser e não-ser, estão, portanto, no começo em uma união imediata; isto é, o começo é sua unidade indiferenciada.

A análise do começo, portanto, daria o conceito da unidade do ser e do não-ser - ou, de um modo reflexivo, o conceito da unidade do ser diferente e do ser indistinto - ou o da identidade da identidade com a não-identidade(2). Este conceito poderia ser tomado pela primeira definição, a mais pura, esta é a mais abstrata, do absoluto; como em efeito seria se tratasse aqui principalmente da forma das definições e dos nomes do absoluto. Nesse sentido, assim como aquele conceito abstrato seria a primeira definição do absoluto, da mesma forma que todas as determinações e desenvolvimentos posteriores só seriam definições mais determinadas e mais ricas desse absoluto. Mas aqueles que não estão satisfeitos em aceitar o ser como começo, porque o ser passa para o nada onde a unidade do ser e do nada surge, observem se com este outro começo, que principia com a representação do começo, e com sua análise, embora certamente seja correta, mas que leva igualmente à unidade do ser e do nada, se sentiriam mais satisfeitos do que com aquela posição que ergue ao ser como começo.

No entanto, ainda há outra consideração a ser feita sobre esse procedimento. A análise de que  falamos pressupõe como conhecida a representação do começo; isso foi feito seguindo o exemplo das outras ciências. Estes pressupõem seu objeto, e admitem como postulado que cada um pode ter a mesma representação dele e encontrar aproximadamente nele as mesmas determinações, que - mediante a análise, a comparação e outros raciocínios - acrescentam e expõem aqui e ali em relação ao objeto. Mas, o que constitui o início absoluto, também deve ser algo conhecido; agora, se é um concreto e, portanto, com várias determinações em si, então esta relação, que é o começo em si, é pressuposto como algo conhecido; e por essa razão é dado como um imediato; no entanto, não o é, porque é um relacionamento apenas na medida em que [é posto] entre as coisas diferentes e, consequentemente, contém a mediação em si.

Além disso, no concreto, apresentam-se o acidental e a arbitrariedade da análise e das diferentes determinações. As determinações que resultam, dependem do que cada um encontra em suas representações imediatas e acidentais. A relação contida em um concreto, em uma unidade sintética é necessária somente na medida em que não é encontrada, mas produzida pelo próprio movimento dos momentos que retornam a esta unidade, um movimento que é o oposto do procedimento analítico, isto é, de uma atividade extrínseca à coisa em si, e isso recai sobre o sujeito.

Nisto também se compreende, mais particularmente, que o que constitui o começo não pode ser um concreto, não pode ser algo que contenha uma relação dentro de si. Porque isso pressupõe em seu interior uma mediação e uma transferência de um primeiro a um outro, cujo resultado seria o concreto tornado simples. Mas o começo não deve ser ele mesmo um primeiro e um outro; o que em si é um primeiro e um outro, já contém um processo de progressão. O que constitui o começo, o começo em si, deve ser tomado como algo que não pode ser analisado; tem de ser tomado em sua imediação simples não preenchida de conteúdo, ou seja, como ser, como o absolutamente vazio.

Talvez por impaciência na consideração do começo abstrato, pode-se dizer que não se deve iniciar no começo, mas diretamente com a coisa; mas também essa coisa não é mais do que aquele ser vazio; posto que seja esta coisa, vai resultar precisamente no curso da ciência em si, e não pode ser pressuposto como conhecido antes dela.

Seja qual for a forma adotada, para ter um começo diferente do ser vazio, padecerá dos defeitos mencionados. Aqueles que continuam insatisfeitos com este começo podem ser convidados para a tarefa de começar de forma diferente e, assim, evitar esses defeitos.

No entanto, não se pode deixar de mencionar um início original da filosofia, que nos últimos tempos tornou-se famoso, o começo pelo Eu. Em parte, veio da reflexão que todo o seguinte deve inferir-se de uma primeira verdade e, em parte, da necessidade de a primeira verdade ser algo conhecido, e ainda mais uma certeza imediata.

Esse começo não é, em geral, uma representação acidental, e pode adquirir tal forma em um  sujeito e tal outra em outro assunto, Porque o eu, esta consciência imediata de si mesmo, em primeiro lugar aparece ele mesmo como um imediação, e também como algo conhecido em um sentido muito mais elevado do que  qualquer outra representação; com efeito, qualquer outro conhecido certamente pertence ao eu, mas mesmo assim difere dela e, consequentemente, é ao mesmo tempo um conteúdo acidental; o eu, pelo contrário, é a simples certeza de si mesmo. Mas em geral o eu, ao mesmo tempo, é um concreto, ou melhor, é o mais concreto, isto é, a consciência de si mesmo como de um mundo infinitamente variado. Para que o eu seja o começo e fundamento da filosofia, é preciso separar-se deste concreto, isto é, o ato  absoluto, por meio do qual o eu se purifica e penetra em sua consciência como o eu abstrato.

No entanto, esse eu puro não é mais um imediato, nem o eu conhecido; não é o eu comum do nossa consciência, ao qual a ciência poderia unir-se diretamente e para todos. Esse ato realmente não seria mais elevar-se à posição de conhecimento puro, onde a diferença entre o subjetivo e o objetivo desaparece. Mas, enquanto que tal elevação é exigida imediatamente, ela representa um postulado subjetivo; para manifestar-se como uma exigência verdadeira, seria necessário que o movimento progressista do eu concreto, que  da consciência imediata para o conhecimento puro, indicado e exposto no próprio eu, através da sua necessidade própria. Sem este movimento objetivo, o puro saber, mesmo sendo determinado como uma intuição intelectual, aparece como um ponto de vista arbitrário, ou como um dos estados empíricos da consciência, com respeito ao qual se tentaria ver se alguém o encontrasse ou pudesse produzi-lo em si e a outro não.

Mas, como esse eu puro deve essencialmente ser puro conhecimento, e o conhecimento puro é colocado na consciência individual apenas por meio do ato absoluto de auto-elevação e não existe nela imediatamente, se perde apenas a vantagem que deveria surgir desse começo de filosofia, isto é, partir de algo absolutamente conhecido, que cada um encontra imediatamente em si mesmo e ao qual as reflexões podem ser atadas  posteriormente. Aquele eu puro é, antes, em sua essência abstrata, algo desconhecido para a consciência comum, algo que ainda não está nela. Daí surge, pelo contrário, a desvantagem de produzir a ilusão de que se fala de algo conhecido, do eu da autoconsciência empírica, enquanto em a realidade é algo estranho para essa consciência. A determinação do puro saber como eu, leva continuamente consigo a reminiscência do eu subjetivo, cujas limitações devemos esquecer, e mantém presente a conjectura de que as proposições e relações resultantes do desenvolvimento posterior do eu possam apresentar-se na consciência comum e que é precisamente isso que as afirma.

Esta transformação, em vez de produzir clareza imediata, produz, pelo contrário, uma confusão muito profunda e uma desorientação completa; externamente causou os erros mais grosseiros por si só.

Além disso, no que diz respeito à determinação subjetiva do eu em geral, o saber puro remove do eu seu significado limitado, isto é, ter sua oposição intransponível em um objeto. Mas, por essa razão, seria pelo menos superfina para manter essa posição subjetiva e a determinação da essência pura como eu.

Além disso, essa determinação não só traz consigo uma ambiguidade perturbadora, mas também permanece, Se observar com mais cuidado, um eu subjetivo. O verdadeiro desenvolvimento da ciência, que parte do eu mostra que o objeto tem e retém nele a determinação perene de um outro, em troca do eu, e que, portanto, o eu, do qual se parte, não é puro saber, que realmente superou a oposição própria da consciência, mas ainda está preso no fenômeno.

A este respeito, ainda é necessário fazer a observação essencial de que o eu poderia muito bem ser determinado em si como o puro saber ou como uma intuição intelectual e ser afirmado como começo mas na ciência não é sobre o que existe em si ou intrinsecamente, mas sobre a existência do intrínseco no pensamento e da determinação que um certo (intrínseco) tem nessa existência.

Mas o que existe da intuição intelectual ou bem - quando seu objeto é chamado de eterno, o divino, o absoluto- , o que existe de eterno e absoluto no início da ciência, não pode ser mais do que uma primeira determinação imediata e simples. Seja qual for o nome mais valioso que seja, mais valioso do que o que expressa a simples palavra ser, somente pode ser levado em conta de que maneira tal absoluto penetra no saber pensante e na enunciação do dito saber. A intuição intelectual é a mais poderosa repulsa da mediação e da reflexão demonstrativa, extrínseca. Porém a mais de uma simples imediação, ela expressa um concreto, que contem em si diferentes determinações. Entretanto, a enunciação e exposição deste concreto constitui, como já se fez notar, um movimento de mediação, que inicia em uma das determinações e avança para a outra, e esta também retorna à primeira; é um movimento, que não pode ao mesmo tempo ser arbitrário ou assertórico. Consequentemente em tais exposições não se começa com o concreto em si, somente com a simples imediação, de onde parte o movimento. Por outro lado, quando se toma um concreto como começo, falta a prova que se necessita para estabelecer a vinculação das determinações contidas no concreto.

Se, consequentemente, a expressão do absoluto ou do eterno, ou de Deus (e Deus teria o direito incontestável de que o começo se fizesse com ele), se sua intuição, seu pensamento contem mais que o puro ser, então o que esta ali deveria apresentar-se somente no saber entendido, como pensante, não como representativo; pois por mais rico que seja o que está nele, a determinação que se apresenta primeiramente no saber, é algo simples; porque somente no simples existe mais que o puro começo; e somente o imediato é simples, porque somente no imediato não existe ainda uma progressão de um ao outro.

Portanto, aquilo que deve ser expresso ou contido além do ser, nas formas mais ricas da representação do absoluto ou de Deus, não representa no começo mais que uma palavra vazia, e somente o ser; e este simples, que não tem qualquer significação posterior, este vazio, constitui, sem mais nem menos, o começo da filosofia.

O referido conceito por si mesmo é tão singelo, que este começo, como tal, não precisa qualquer preparação nem introdução mais extensa; e estas considerações prévias à maneira de raciocínios sobre o assunto não podiam ter a intenção de introduzir tal começo, senão sim a de afastar toda consideração prévia.

Divisão Geral do Ser

Em primeiro lugar o ser está determinado em geral diante de outro; em segundo lugar se determina dentro de si mesmo; em terceiro lugar, se se recusa este caráter prévio da divisão, o ser é a indeterminação e a imediação abstratas mais quais ele tem de constituir o começo.

Segundo a primeira determinação o ser se divide contra a essência, enquanto que, no progresso de seu desenvolvimento, sua totalidade se apresenta somente como uma única esfera do conceito e lhe opõe, como momento, outra esfera.

De acordo com a segunda, o ser é uma esfera dentro da qual caem as determinações e o movimento total de sua reflexão. O ser disporá nesta esfera das três determinações seguintes:

  1. Como determinação, como tal, qualidade;
  2. Como determinação superada: grandeza, quantidade;
  3. Como quantidade determinada qualitativamente: medida.

Esta divisão, como se advertiu em geral na introdução acerca de semelhantes divisões, é aqui uma indicação provisória; suas determinações tem que originar-se somente do movimento do ser em si, e por esse meio definir-se e justificar-se. Não é necessário recordar aqui a divergência desta divisão relativa à costumeira enumeração das categorias, isto é, quantidade, qualidade, relação e modalidade (as quais por outro lado, em Kant deveriam representar somente os títulos para suas categorias, enquanto em verdade são categorias em si, somente que mais universais), porque todo o tratado mostrará qual é a divergência em geral com relação ao ordenamento e significado habituais das categorias.

Talvez apenas só possa observar-se ainda, que a determinação de quantidade se antepõe à de qualidade, e isso—como na maioria dos casos— sem maior fundamento. Já se mostrou que o começo se efetua com o ser como tal, e, consequentemente, com o ser qualitativo. Da comparação da qualidade com a quantidade resulta facilmente evidenciado que por sua natureza aquela é primeira. Posto que a quantidade seja a qualidade já convertida em negativa; a grandeza é a determinação que já não é uma com o ser, mas diferente dele, é a qualidade eliminada que se converteu em indiferente. Implica em si a mutabilidade do ser, sem que a coisa em si, isto é, o ser, cuja determinação é, seja modificada por ela; enquanto que pelo contrario, a determinação qualitativa é uma coisa só com seu ser, não o supera, nem está contida nele, mas que constitui sua imediata limitação. A qualidade portanto, como determinação imediata, é primeira, e ela deve constituir o começo.

A medida é uma relação, mas não a relação em geral, porém a relação determinada, entre a qualidade e a quantidade. As categorias, que Kant inclui na relação, terão seu lugar totalmente diferente. A medida pode, se se quer, for considerada também como uma modalidade; mas, posto que em Kant esta modalidade não deva constituir já uma determinação do conteúdo, mas referir-se somente à relação deste com o pensamento ou seja com o subjetivo, é uma relação totalmente heterogênea, à que de nenhum modo corresponde entrar aqui.

A terceira determinação do ser, cai na secção que corresponde à qualidade, pois o ser, como  imediação abstrata, se reduz a uma determinação particular diante de suas outras determinações dentro de sua esfera.

   

Notas de rodapé:

(1) Philos. Biblioth., Volume 33, p. 87 e segts. (retornar ao texto)

(2) Hegel já usou este termo em seus escritos juvenis (Differenz Wwe, Volume I, página 251) [Lasson]. (retornar ao texto)

Inclusão 30/08/2018