Os assassinos de crianças de Gaza
Uma operação “chumbo derretido” para corações sensíveis

Robert Kurz

2009


Primeira Edição: DIE KINDERMÖRDER VON GAZA. Eine Operation „Gegossenes Blei“ für die empfindsamen Herzen in www.exit-online.org. Publicado na revista EXIT! Krise und Kritik der Warengesellschaft, 6 (2009) [EXIT! Crise e Crítica da Sociedade da Mercadoria, nº 6 (2009)], ISBN 3-89502-289-0, 256 p., 13 Euro, Editora: Horlemann Verlag, Grüner Weg 11, 53572 Unkel, Deutschland, http://www.horlemann-verlag.de.

Fonte: http://www.obeco-online.org/robertkurz.htm

Tradução: Boaventura Antunes.

Transcrição e HTML: Fernando Araújo.


SÍNTESE: Em sua análise crítica da ideologia OS ASSASSINOS DE CRIANÇAS DE GAZA, Robert Kurz debate-se com os padrões de percepção da esquerda no conflito no Próximo Oriente. Depois de nos últimos anos terem sido fundamentalmente criticadas pela crítica da dissociação-valor as guerras capitalistas de ordenamento mundial e a sua afirmação através da ideologia “antialemã”, é mais que tempo de tomar como alvo o reverso desta interpretação, cujos portadores também estão positivamente com a socialização global do valor e seus produtos decadentes. Estas interpretações da situação mundial estão impregnadas por um “anti-israelismo” afectivo, também alimentado por um “ódio inconsciente aos judeus" (Micha Brumlik), sendo o Estado judaico e a sua acção militar por conta própria contra o Hamas e o Hezbollah unilateralmente subsumidos ao capital mundial e ao seu imperialismo securitário. A barbárie islâmica contra Israel já não surge, correspondentemente, como a outra face da mesma medalha do imperialismo de crise, mas como "resistência", de uma forma quase romântica. Neste contexto, empalidece a base de comparação do velho "anti-imperialismo" e o conflito no Próximo Oriente transforma-se em conflito por procuração, ao serviço de uma "crítica do capitalismo" de nova pequena burguesia, que digere regressivamente a crise mundial do capitalismo. (Apresentação do texto do Editorial da EXIT! nº 6, Agosto/2009)

As imagens não enganam, sobretudo imagens de cadáveres de crianças. Crianças mortas, crianças mutiladas, crianças aterrorizadas e a chorar, com os grandes olhos fixos na câmara por entre as ligaduras, pequenos caixões levados no meio de uma multidão clamando, mães gritando para o céu a sua dor — esta visão, cintilando nos ecrãs, condensa-se numa enorme acusação contra os judeus assassinos de crianças de Gaza. A percepção da guerra de semanas entre Israel e o Hamas resumiu-se, como em nenhum outro conflito anterior, a esta evidência bem nítida: os judeus são assassinos de crianças. Já se suspeitava disso há mais de mil anos; agora tornou-se evidente, perante os olhos da opinião pública mundial. Não em último lugar, uma determinada parte da esquerda foi tomada e arrastada por um sentimento avassalador contra o Estado de Israel assassino de crianças, sentimento que não admite qualquer outro pensamento. És a favor ou contra os israelitas assassinos de crianças de Gaza? Pois então. Agora se fica a saber onde param moralmente os amigos dos judeus.

Simultaneamente desenvolve-se em paralelo, como se nada fosse, a discussão sobre a guerra do século XXI como uma guerra mediática de imagens. Existe uma consciência clara do facto de podermos ter sido abalados no fundo do coração por imagens que só puderam sair para o exterior sob controle do regime do Hamas. E afirma-se, já quase piscando o olho, que este regime, entrincheirado nos poros da população de Gaza, já terá ganho a guerra das imagens. Dá-se assentimento de alma e coração, está-se convencido. Foram mortas sem qualquer dúvida crianças reais, ou não foram? E os poucos judeus bons, eles próprios o dizem, os últimos honestos amigos da paz em Israel, cujas tomadas de posição passam em certos segmentos da imprensa de esquerda e não só. Eles estão reduzidos a uma pequena minoria, precisamente nos círculos intelectuais de esquerda israelitas. Mas com eles pode-se partilhar e de imediato comprovar o peso moral da indignação contra os assassinos de crianças judeus, uma vez que neste caso nunca por nunca se pode tratar de anti-semitismo. Poderá haver álibi mais perfeito?

Estamos claramente perante uma síndrome de ambiguidade, ou mesmo de sentido múltiplo, perante a qual nada é o que parece. Aqui a questão é e não é que crianças foram mortas em actos de guerra. Os factos têm algo de horroroso; e o horror alimenta-se de qualquer consideração moral a partir das imagens do sofrimento, que representam uma experiência real e provocam empatia, pelo menos desde que ainda não tenha sido morto todo o sentimento. Um sentimento assim empático pode ser traduzido no imperativo abstracto: não matarás criancinhas. Se se parte do princípio de que representa verdadeiramente um consenso geral, então pergunta-se porque continuam a acontecer coisas destas; e mesmo que seja como efeito colateral de conflitos violentos. Aqui começa a ambiguidade, pois nada acontece sem um contexto condicional; e aí a empatia e o imperativo moral assumem uma importância de modo nenhum evidente, que é preciso trazer à luz do dia, pois apontam para algo completamente diferente. A desproporção entre sentimento e envolvimento, entre moral e história ameaça deslocar-se de certa maneira para um contexto instrumental fatal, precisamente no caso deste conflito permanente, que constitui um foco na situação da sociedade capitalista mundial tensa até à ruptura.

A ambiguidade do objecto, o seu carácter social simultaneamente local e mundial, histórico e actual, transversal a diversos planos, e a espécie de meia-luz da relação entre tudo isso deixam perceber que se trata de um conflito por procuração multidimensionalmente mediado, cuja percepção global de certa maneira é filtrada e carregada, o qual por isso também ganha uma força explosiva própria mesmo longe dos acontecimentos, e no qual, precisamente entre as próprias partes directas do conflito, se exprime mais do que o habitual entrechocar de forças inimigas que se pode observar frequentemente nas regiões de crise do capital mundial. O conflito por procuração tem as suas raízes na Guerra Fria e significava nesse contexto precisamente o enquadramento de guerras “quentes” e de conflitos armados regionalmente limitados no antagonismo Leste-Oeste, no qual as “super-potências” Estados Unidos e União Soviética agiam na plateia diplomática mundial como fornecedoras de armas e potências apoiantes de cada parte. Já então o conflito do Próximo Oriente se integrava nesta constelação mundial com uma qualidade adicional historicamente mediada.

Desde o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, o carácter do conflito por procuração no Próximo Oriente deslocou-se e entrou de modo específico não apenas numa nova interpretação da constelação global, mas também na percepção e interpretação do processo de crise que se agrava a olhos vistos. Ambas as partes se apresentam não apenas por si mesmas, mas simultaneamente por algo diferente que, mais do que nunca, não se reduz ao enquadramento numa relação de poder exterior, mas está ligado a posições sociais e a identidades políticas ou teóricas; não em último lugar até ao interior dos conflitos da crítica do capitalismo, que perdeu o seu antigo sistema de referência. Entre a esquerda defrontam-se agora uma posição mais ou menos violentamente “crítica de Israel” e uma acusação de anti-semitismo limitada a analogias históricas e mecanicamente definitória. Esta confrontação há muito tempo que rompeu o velho quadro do “anti-imperialismo”, ainda que os actores na sua maioria não estejam conscientes disso.

Roswitha Scholz diversas vezes chamou a atenção para a nova qualidade do conflito por procuração, referindo-se à polémica violenta no interior da esquerda após os ataques terroristas de 11 de Setembro, em vários textos que manifestamente depressa caíram outra vez no esquecimento. Assim afirma ela no livro DIFERENÇAS DA CRISE — CRISE DAS DIFERENÇAS (2005)- http://obeco-online.org/livro_crise_diferenca.htm - que “há muito é notório que o conflito israelo-palestiniano assumiu de certa maneira uma posição de substituto, no contexto do mal-estar na globalização despersonalizada. A discriminação dos palestinianos é aqui utilizada como área de atrito, para se conseguir ser com aparente legitimidade ‘corajosamente’ anti-sionista/anti-semita e simultaneamente denunciar como boa pessoa os males e abusos da globalização. Aqui supostamente nem uma coisa nem outra — segundo o próprio auto-entendimento — têm nada a ver com anti-semitismo”; ela alerta-nos também para as “imputações moralistas”. Entretanto alteraram-se novamente tanto a constelação global como o conflito do Próximo Oriente, agudizando-se no contexto do desabamento da actual crise. Por ocasião do conflito em Gaza, toda esta problemática mal digerida vem à memória, de um modo marcado emotivamente, que não augura nada de bom.

Pelas razões mencionadas o presente texto ocupa-se menos com a situação do conflito directo no Próximo Oriente e com a deslocação das frentes na guerra de ordenamento mundial, ainda que estes aspectos sejam naturalmente referidos (uma análise mais detalhada do contexto da crise económica mundial e da mudança de posição dos E.U.A. sob a administração Obama tem de ficar para um estudo específico). Aqui trata-se, em primeira linha, da percepção do conflito do Próximo Oriente e particularmente da guerra de Gaza na esquerda global e sobretudo na alemã, perante o pano de fundo de uma digestão emocional e ideológica da nova crise mundial. Abstive-me em grande parte de fazer citações e limitei-me à análise das estruturas da argumentação. O material é constituído pelas expressões que se pronunciaram exacerbadamente contra Israel e contra o conflito de Gaza, na imprensa de esquerda (como também na burguesa) e em inúmeros blogs.

Assimetria moral e análise histórica

Se a guerra de Israel contra o Hamas e o Hezbollah é reduzida ao facto moral de cadáveres de crianças e ao tópos de uma catástrofe humanitária em geral, então tal critério tem de ser levado a sério. Se a questão aqui fosse impor algo como uma ética pacifista, ela mereceria todo o respeito, ainda que tivesse de ser submetida a uma crítica filosófica. Os opositores à guerra por princípio eles próprios diminuíram em Israel e hoje na sua maioria são pacifistas motivados ético-moralmente, tal como noutros lugares. Mas é de algum modo hipócrita se precisamente a chamada esquerda radical pretende reconhecer neles a única voz judia legítima e apenas a eles dar a palavra. Pois tanto na esquerda do movimento, que a si própria se entende como militante, como no marxismo de partido tradicional, fora de Israel e fora da orquestração moral imediata deste conflito específico, tal posicionamento ético teria sido, não sem razão, considerado humanitarismo abstracto ou inconsequente pela maioria dos actualmente excitados anti-israelitas. A crítica social radical nunca foi simplesmente pacifista.

Isto aplica-se não só aos levantamentos sociais históricos, revoluções e lutas armadas, mas também à avaliação das guerras, nas quais as vítimas são sempre os chamados civis inocentes e por maioria de razão as crianças ainda mais inocentes. As modernas guerras industrializadas já não conhecem qualquer campo de batalha exterior às hordas de combatentes. Sem recusar a compaixão perante o sofrimento, sem se entregar a uma “luta como vivência interior” ou, inversamente, em oposição ao humanitarismo abstracto, enaltecer de modo igualmente abstracto a violência, para a teoria crítica e para os movimentos sociais foi sempre decisiva a análise histórica concreta, no posicionamento perante os conflitos armados. Sobre a posição ético-moral das elites e dos média capitalistas nesta questão nem vale a pena dizer nada.

Naturalmente que em todo o conflito do Próximo Oriente não há qualquer parte desarmada ou pacifista. Não são crianças inocentes que fazem frente à máquina militar israelita em Gaza; nem sequer, em geral, pessoas amantes da paz. As brigadas Kassam, a organização militar do Hamas, orgulham-se de trazer a morte e de procurar a morte; elas fazem parte da vanguarda dos bombistas suicidas nas cidades israelitas. Não seria difícil apontar, inversamente, as crianças judias desfeitas pelas cargas explosivas ou atingidas pelos rockets. Mas com tal contra-contabilização moralista nada se esclareceria; tal contabilização colocar-se-ia no mesmo plano. O saldo de uma contabilização recíproca de cadáveres de crianças poderia possivelmente revelar-se favorável ao Hamas, mas apenas porque até agora os seus rockets são em geral mais primitivos, o que não deveria representar uma vantagem moral. A comparação entre 20 e 200 cadáveres não teria razão de ser em sentido moral.

Os amantes da paz de esquerda não querem ir tão longe. De qualquer modo estão contra o lançamento de rockets pelo Hamas, dizem eles; apesar de se ter o descaramento de aduzir a quantidade respectiva de cadáveres, pelo menos como argumento flanqueador da avaliação. A fundamentação permanece assim na terra de ninguém moralista. E a questão primordial de saber quem começou pode ser esclarecida tão pouco como as brigas no pátio da escola. Mas tais discussões que não levam a nada não podem desviar-nos da questão fundamental: por que razão o sentimento moral só se torna seriamente arrebatador, as imagens só atingem o fundo do coração e provocam um grito irreprimível quando se trata de crianças mortas por armas judaicas; e porque razão a própria moral concentrada, de pessoas com pretensões de avaliação crítica através duma análise histórica concreta, é aqui de preferência posta de lado, estigmatizando como cinismo e desumanidade a chamada de atenção nesse sentido. Assim, a própria tomada de partido contra Israel já não precisa de ser fundamentada, mais ainda, ela já nem será admitida como tal.

Pode-se verificar facilmente que no caso da guerra de Gaza e em todo o confronto do Próximo Oriente se trata de um conflito por procuração, carregado não só ideologicamente mas também psico-historicamente, comparando-o com a avaliação de conteúdo e moral que se faz de outras guerras do passado e do presente. A maioria da esquerda e dos liberais consideraram e consideram justo que os aliados tivessem reduzido a Alemanha nazi a escombros e a cinzas na Segunda Guerra Mundial, apesar de, na circunstância, terem sido sem dúvida mortos ou gravemente feridos centenas de milhares de civis, incluindo crianças. À medida que, entretanto, também os alemães se descobrem como vítimas inocentes, o conteúdo legitimatório desta nova avaliação é bastante transparente. O apontar para o problema da legitimação não deve constituir uma analogia entre o conteúdo histórico da Segunda Guerra Mundial e o do conflito do Próximo Oriente. Trata-se, sim, de caracterizar a encenação associativa do impulso moral, com base na factualidade preparada a partir da constelação histórica, nomeadamente o facto de ser tirada a vida a crianças com acções de guerra, um modo de proceder de modo nenhum inquestionável. Talvez nem sequer os chorosos ideólogos das vítimas alemãs se atrevessem a subsumir simplesmente sob o ponto de vista do assassino de crianças as tropas aliadas em enorme acumulação a partir de 1944.

Tal critério falha, desde logo, no caso das guerras consideradas injustas, pelo menos pela esquerda comum. A intervenção, por exemplo, do exército turco nas zonas curdas tem causado cada vez mais vítimas entre a população civil, incluindo crianças. Todas as semanas são atingidas pelas bombas e rockets americanos aldeias nas montanhas do Afeganistão em que há suspeita de se esconderem soldados talibãs; e normalmente as vítimas civis são em número superior e poderiam aí examinar-se acusadores cadáveres de crianças amortalhadas. Nestes casos tais imagens das vítimas são invocadas na verdade no quadro da crítica ao etno-nacionalismo turco ou ao imperialismo de crise da guerra de ordenamento mundial ocidental, mas apenas no contexto de uma argumentação que se refere a um contexto superior do conflito ou à sua avaliação, ou seja, o problema não se reduz à apresentação moral das imagens das vítimas; por muito truncada que possa ser a análise, na medida em que se faz valer contra a autoritária razão de Estado turca apenas um etno-nacionalismo curdo complementar, ou, contra a guerra no Afeganistão, apenas um velho anti-imperialismo obsoleto. No entanto nunca aqui se fez prevalecer uma comoção de tal modo violenta e focalizada que, sem apresentar uma referência de conteúdo à constelação do conflito, exibe repetidamente com triunfalismo moral as imagens de cadáveres de crianças, imagens que correm mundo servindo de base à avaliação de Israel como parte do conflito.

O mesmo se aplica à guerra do Iraque em 2003, na qual morreram seguramente cem vezes mais crianças do que em Gaza. Até mesmo a crítica que se baseava mais no anti-americanismo do que na crítica do capitalismo nunca então reduziu a sua avaliação ao assassínio de crianças e aos crimes de guerra contra a população civil inocente. Para já não falar nas opacas guerras civis nos Estados africanos em desagregação, como o Congo ou o Ruanda, nos quais são chacinadas crianças com armas de fogo ou com machetes, como é do conhecimento geral. Estes acontecimentos surgem na percepção como se ocorressem noutro planeta; não existe aqui qualquer tomada de posição pré-formada histórica ou ideologicamente. No entanto, ou talvez por isso mesmo, a empatia nestes casos está de certo modo embotada, quando estas imagens cruzam os média, como as vindas de Gaza; sobretudo não existe aqui qualquer definição do culpado com imputação político-moralista.

Se, portanto, em todos os outros casos o papel da violência na História não é negado abstractamente, sendo, pelo contrário, o sofrimento imediato e a compaixão mostrados num contexto de avaliação historicamente mediado, ou se nem sequer já é particularmente abordado, pelo menos não na cena política, então, no caso da condenação dos ataques israelitas a Gaza tem de tratar-se de outro critério que não o ético-moral, critério que, no entanto, não é posto a descoberto, ou pelo menos não completamente. A imediatidade moral encobre um impulso, que emana da mediação social mundial do conflito por procuração, mas que se mantém disfarçado e apenas inibida e enviesadamente pode surgir na consciência. Este impulso foi prontamente esclarecido por uma afirmação de Anselm Jappe, no contexto dos debates no seio da esquerda depois do 11 de Setembro, cujo sentido é: “Os curdos têm o azar de não ser oprimidos por Israel”. Não era possível ir ao cerne da questão da diferença na avaliação dos conflitos com mais precisão. Esta assimetria moral carece de ser esclarecida.

A violenta comoção do inconsciente colectivo antijudaico

Para um certo inconsciente colectivo, há um escândalo obviamente maior que a opressão, a guerra e a violência em geral, a saber, o escândalo da existência de Israel como potência fortemente armada. O facto de serem os judeus que bombardeiam os seus inimigos e disparam os canhões dos tanques gera, ao que parece, uma qualidade diferente no nojo moral, que se manifesta amplamente, antes de qualquer enquadramento histórico do conflito. Não é possível esclarecer a diferença da comoção de outra maneira. E esta comoção situa-se ainda por baixo de qualquer ideologia anti-semita ordinária, que surja directa ou indirectamente à superfície, razão porque a acusação de anti-semitismo também é indignadamente repudiada, ainda que ser trate de uma síndrome global, a diversos níveis.

A dimensão profunda desta síndrome mostra-se na ausência de mediação com que se consumam ao longo desta linha rupturas ou divisões e se constituem amargas inimizades precisamente na esquerda, as quais, por ocasião da guerra de Gaza, ainda mais tempestuosamente do que por ocasião de anteriores combates no Próximo Oriente, ultrapassaram todas as anteriores frentes no espaço de dias ou até de horas e não se detêm perante qualquer relação. Assim, um artigo por mim escrito para um jornal brasileiro, com uma conclusão pró-israelita, à qual de modo nenhum faltava a mediação do conteúdo, encontrou prontamente eco junto de algumas pessoas de esquerda, que se tinham mostrado interessadas na elaboração teórica crítica do valor por mim também representada. Um até aí contribuinte da associação de apoio comunicou-me que tinha desviado a sua última contribuição para a Medico International, depois de ter lido “horrorizado” este artigo. Um leitor cancelou por precaução a assinatura da revista teórica EXIT, ainda que “não parta do princípio” de que este artigo represente a opinião de todos os autores da EXIT e espere uma “demarcação” da parte da redacção. Finalmente, um autor brasileiro da editora que publica a EXIT sugeriu indirectamente, numa carta cuspindo veneno e bílis, que o melhor seria excluir de vez a revista teórica do programa editorial.

Numericamente estas reacções não têm peso e não vale a pena sentimentalismos; temos de aceitar as inimizades que nos são propostas. É notável, em todo o caso, que 4.000 caracteres de um artigo de jornal sobre um acontecimento actual sejam aqui suficientes para sem mais fazer ir pela borda fora todo um conteúdo teórico volumosamente formulado. Tal como a vendedora de Hegel subsumia ao peixe podre toda a vida da freguesa má-língua, bem como a do filho e a do filho do filho, assim se subordina a uma única conclusão pró-israelita uma posição teórica elaborada ao longo de 20 anos, toda uma revista teórica e de resto também o carácter pessoal do autor com referência a anteriores conflitos. Se ainda se segue a anotação de que um mal-estar já há muito criado relativamente à interpretação das categorias político-económicas não dera azo a qualquer demissão, demissão para a qual já foram suficientes algumas frases do citado artigo, então revela-se a força emotiva abstracta que aqui existe.

Todo o debate teórico sobre o desenvolvimento social do capitalismo se torna nulo e de nenhum efeito quando o coração entra em ebulição contra o Estado judaico assassino de crianças. Tais casos isolados são sintomáticos para todo o debate sobre a guerra de Gaza, que em primeiro lugar aponta para um deslocamento emocional, desde 2001, relativamente à anterior constelação de luta. A fundamentação nos conteúdos históricos e na análise cada vez mais sub-iluminada desmorona-se quase completamente, para ceder a uma espécie de justiça do sentimento do estado de excepção moral, que reage a partir das entranhas e faz lembrar a decisão infundamentada e infundamentável de um Carl Schmitt. Mais precisamente: é suficiente como fundamentação na consciência a disposição emocional em si não mediada, para legitimar a própria tomada de partido, numa situação de crise ideológica mundial difícil de dominar, tomada de partido que a maior parte das vezes não deve ser nenhuma, porque ela, com aparente independência do objecto condicionado do conflito, procura criar espaço para si e pretende transcender aquele objecto.  

A razão desta disposição tem de ser reprimida; por isso ela aparece como emoção cega, que se torna tanto mais rigorosa e insusceptível de tolerar qualquer protesto, quanto mais penosamente ela depois se reveste duma argumentação reduzida à moral, mas de modo nenhum geral e unânime. Aqui pode exprimir-se um inconsciente colectivo à maneira do “ódio inconsciente aos judeus” de que fala Micha Brumlik, ódio esse que atravessa a sociedade até bem dentro da esquerda. A digestão projectiva antijudaica do sofrimento e dos desaforos da história da modernização, a que na Europa já corresponde uma pré-história cristã, também deixou os seus sedimentos no inconsciente; por exemplo, através de transformações logo no horizonte da percepção infantil. Esta emoção inconsciente de modo nenhum coincide com a racionalização ideológica igualmente projectiva e pode até ser contrária a esta. Ao tópos ideológico, mas também inconsciente, dos judeus como super-homens negativos, são complementares os tópoi dos negros como sub-humanos, no contexto colonial, e dos ciganos como contra-imagem do “expulso-cercado”, nas próprias sociedades ocidentais, os quais estão igualmente ancorados no inconsciente, mesmo antes de surgirem à superfície da consciência em determinadas situações.

É de esperar que elementos destes tópoi, no processo de constituição duma sociedade capitalista mundial pelo colonialismo histórico e através do desenvolvimento do mercado mundial, se tenham precipitado também noutras regiões mundiais como deformações projectivas no inconsciente colectivo. Assim, nos princípios da chamada Tricontinental e noutros lados, a contra-comoção em relação ao “ser branco” mediado colonial ou pós-colonialmente, racistamente, pode assumir também a forma de um “ódio inconsciente aos judeus”, se este “ser branco”, numa transferência por assim dizer osmótica de projecções originariamente endo-europeias, é inconscientemente identificado com a figura psico-historicamente carregada do judeu. A relação frequentemente tensa entre negros discriminados e judeus discriminados nos E.U.A. aponta talvez nesse sentido. No Próximo Oriente e no chamado espaço islâmico, um “ódio inconsciente aos judeus” assim mediado amalgama-se com particular facilidade com as habituais oposições de interesses capitalistas, cargas históricas e padrões ideológicos do anti-semitismo, há muito espalhados por todo o mundo e assumidos logo no início da Idade Moderna, os quais são diferentemente coloridos do ponto de vista cultural e histórico.

Tal como os alemães não podem perdoar Auschwitz aos judeus, também os árabes e outros não podem perdoar aos judeus o colonialismo europeu. Não é a mesma coisa, mas em ambos os casos estamos perante uma flutuação social mundial do inconsciente colectivo antijudaico que, de acordo com a situação, repetidamente transparece na superfície das atitudes e das opiniões. Mediado com a existência de Israel, “o judeu” pode tornar-se o símbolo por excelência da opressão colonialista “branca” ocidental. Espera-se, inconscientemente, que os próprios judeus não possam perdoar a si mesmos a sua existência, porque esta, na profundidade do sentimento dificilmente acessível, se tornou a representante de uma história de desaforos internalizada durante mais de 200 anos. Se os judeus, em vez disso, afirmam essa existência enquanto Estado, como potência capitalista armada, incluindo os maus deficits sociais, as medidas sujas e os dilemas morais sob condições tais de concorrência universal em si tidas como insuportáveis, então descarrega-se o “ódio inconsciente aos judeus” ainda antes da sua passagem a ideologia consciente, como violência emocional da projecção moral; como substituto da crítica às relações mundiais subjacentes, que são também as próprias.

Por isso se aplica neste caso uma bitola moral diferente da dos outros lados, ou a mesma bitola abstracta, mas com maior ênfase e maior força emocional. É indiferente ao inconsciente que a causa das condições históricas seja diferente ou até oposta, porque ele é apenas o que é, ou seja, nunca embaraçado com as contradições; menos ainda que a construção ideológica aberta. Assim se chega, na imediatidade da confrontação armada, à grande coligação moral contra os assassinos de crianças de Gaza, passando por cima de sepulturas históricas, sociais, políticas, teóricas e ideológicas.

A dificuldade reside em apreender a dimensão profunda do “ódio inconsciente aos judeus” na sua diferença relativamente à ideologia anti-semita e no seu simultâneo cruzamento com esta, e, ao mesmo tempo, pôr ambas a descoberto nos seus repúdios, envolvimentos e relações contraditórias. Uma avaliação histórica e de conteúdo do conflito assim determinada exige, no entanto, distanciamento da imediatidade moralista, que não vai além da empatia com as vítimas humanas. A diferença entre “ódio inconsciente aos judeus” e ideologia anti-semita não pode constituir, naturalmente, qualquer fundamento de minimização ou desculpa. Ela esclarece, no entanto, porque razão a comoção moral contra os assassinos de crianças de Gaza a maioria das vezes vai de par com uma igualmente furiosa comoção contra a acusação de anti-semitismo. A agitação anti-israelita ocupa um momento que nem sempre exclui uma crítica, pelo menos abstracta, do anti-semitismo ideológico e da sua fundamentação racionalizadora, por exemplo no aspecto económico. O cruzamento com o “ódio inconsciente aos judeus” aponta, porém, para uma gradação flexível da passagem ao estereótipo anti-semita e ao padrão ideológico que, no caso do dique moral contra os actos de guerra de Israel, são tacitamente aceites, ou rompem repentinamente na agitação.

Que fique claro: Se e na medida em que a assimetria moral nos modos de reagir a este confronto específico se alimenta dum inconsciente colectivo, ela não está de modo nenhum aberta a qualquer tipo de argumentação, muito menos ainda que as ideologias anti-semitas, racistas, anti-ciganistas ou sexistas, às quais se antepõe sempre o inconsciente. Ela só pode ser apontada e combatida no seu conteúdo projectivo. É precisamente isso que enraivece aqueles que se deixam esmagar e levar por ela. Pertence à mais amadurecida obra de uma conduta mediadora de apelo à calma e sem conteúdo, precisamente por isso, emitir o aviso de que não se deveria irritar mais esses furiosos, enquanto se analisa o seu estado, para que eles não se passem completamente. O controle de comportamento já foi assim por água abaixo; também já não adianta mirar o momento inconsciente do excesso emotivo, no preciso momento em que este, em contra-reacção, deixa transparecer até ao reconhecimento o conteúdo ideológico imanentemente posicionado. Nesse caso, pelo menos, prevalecem relações conscientes claras. Ou pretendem os apaziguadores afirmar que a força comunicativa de uma análise do inconsciente antijudaico poderia por si levar inocentes moralistas ao anti-semitismo?

O carácter dual do Estado de Israel

O apontar para a assimetria moral e para o “ódio inconsciente aos judeus” inscrito na sociedade por si só ainda não fornece qualquer avaliação histórico-analítica do conflito como tal, apenas ajuda a esclarecer os particulares modos de reagir à questão. Decisivo para uma análise é o estatuto do Estado de Israel e a sua polarização crítica. Aqui a elaboração ideológica consciente desempenha, tanto histórica como actualmente, o seu papel relativamente autónomo nas formas de evolução do desenvolvimento capitalista. O nascimento do Estado de Israel não ocorreu no quadro de uma construção nacional entre tantas, com os habituais conflitos de fronteiras, mas foi simultaneamente uma reacção dos judeus ao anti-semitismo mundial e particularmente europeu. Esta ideologia apresenta uma diferença em relação ao racismo “habitual”, uma vez que não se refere simplesmente a uma relação de exclusão imanente.

Tanto o racismo moderno como o anti-semitismo moderno se alimentam originariamente da ideologia do iluminismo europeu do século XVIII. O racismo formou-se, em ligação com a história da colonização externa, como constructo de um sub-humano não branco, ao qual desde logo seria preciso levar maneiras civilizatórias; na colonização interna, ele figurava no constructo do “negro preguiçoso”, como projecção e como educação para o “trabalho”. Esta projecção era marcada, não universal, mas sim particularmente pela atribuição da contra-imagem de qualidades indesejadas e supostamente atrasadas, como acontecia também com o anticiganismo de maneira diferente. Elementos destas atribuições racistas conseguiram universalizar-se na história da modernização, precisamente de formas particulares. Assim se desenvolveram racismos de múltiplas clivagens em todo o mundo a partir do racismo europeu do iluminismo, não só contra populações vizinhas ou migrantes de toda a ordem, mas até no plano interno dos Estados, em ligação com relações de concorrência ou com desníveis de desenvolvimento; como é sabido, por exemplo, do Norte de Itália contra o Sul de Itália. Também em Israel há muito vem sendo tematizado um racismo dos judeus europeus contra os não europeus, tal como dos judeus no seu conjunto contra os israelitas árabes.

O moderno anti-semitismo adquiriu, pelo contrário, um carácter cada vez mais universal em si, através de uma atribuição projectiva da negatividade da relação de capital em geral. Aqui reside a sua relação complementar com as ideologias racistas multiplamente diferenciadas. À medida que as categorias reais da “riqueza abstracta” foram sendo internalizadas e surgindo como condições naturais, começava a construção ideológica do moderno anti-semitismo que, em conexão com os pogroms cristãos pré-modernos contra os judeus, responsabilizava “o judeu” em geral pela violência da abstracção real social e pelos sofrimentos a ela ligados. Embora esta projecção também pudesse ter sido mobilizada para relações de concorrência imanente, ela brotava simultaneamente sobre a totalidade da constituição social; assim não houve um fantasma de conspiração mundial racista particularizado, mas sim um fantasma de conspiração mundial anti-semita universal. A projecção anti-semita fez dos judeus, como “outros” não sub-valorizados mas sim ameaçadoramente sobrevalorizados, o objecto de repulsa da formação nacional e duma interpretação fantasmaticamente agressiva da modernização capitalista, na Europa e para além dela. Precisamente por isso, o ódio aos judeus, na senda do desenvolvimento do mercado mundial, pôde ancorar-se no inconsciente colectivo, mesmo através de contextos culturais completamente diferentes.

Por causa desta história, a relação da constituição do Estado e da Nação judaicos com o capitalismo, incluindo os momentos inconscientes, é uma relação objectivamente fraccionada. O Estado de Israel assumiu um carácter dual. Por um lado, como Estado, ele apenas pode reproduzir a relação de capital como qualquer outro Estado e desenvolver as respectivas contradições para o interior e para o exterior; e por outro lado, como “judeu entre os Estados”, ele representa a contradição imanente com a síndrome anti-semita da modernidade, apesar de os próprios judeus, na sua existência estatal, pretenderem ser apenas normais entre os normais, no sentido da subjectividade capitalista. Esta constituição estatal com o seu carácter dual apenas ganhou plena contundência através do Holocausto.

O estatuto do Estado de Israel na sociedade mundial determinado a partir daí inclui diversos aspectos, nem todos da mesma importância. Assim, pertence à história da fundação o papel dos Kibutzes, cuja forma cooperativa se deve às ideias emancipatórias no contexto dos movimentos sociais do século XIX e início do século XX. Este paradigma não pôde manter-se no desenvolvimento capitalista posterior; não ocorreu a sua transformação numa crítica prática da forma da mercadoria no plano da síntese social. Sem dúvida que os Kibutzes ruíram e já não desempenham hoje qualquer papel em Israel, ou tornaram-se empresas no mercado. Mas nem esta queda deve ser especialmente imputada ao desenvolvimento havido em Israel, nem o carácter dual deste Estado está dependente disso. De maior significado para esse carácter é Israel como lugar de refúgio sempre aberto para os judeus perseguidos pelo anti-semitismo global. Este aspecto mantém-se, mas está a ser posto em questão de dois lados. Por um lado, os bombistas suicidas, a queda cada vez mais frequente de rockets e em geral a consciência de estar cercado por forças fundamentalmente inimigas transforma o Estado-refúgio simultaneamente num lugar de insegurança vital. Seria, no entanto, paradoxal trazer a terreiro, contra o carácter dual do Estado de Israel, precisamente esta insegurança fundamental; pelo contrário, daqui decorre a justificação e a necessidade de uma actuação mesmo militar contra essa ameaça.

Por outro lado, o conflito permanente está ligado a um endurecimento da situação interna de Israel, em que os fanáticos nacionalistas e ultra-ortodoxos vão ganhando força. Para os migrantes judeus com pretensões de esquerda e seculares, esta tendência pode tornar-se uma exigência pouco razoável; acresce a insegurança social e económica em relação ao peso dos custos da auto-afirmação num ambiente inimigo, que se vem agravando com a crise mundial. Se, por isso, para alguns judeus a vida em Israel parece mais insegura do que nos E.U.A. ou na Europa Ocidental, tal situação aponta para o estatuto cada vez mais precário desse Estado, mas não desmente fundamentalmente o seu carácter dual, que consiste precisamente em que a razão da sua constituição está em contradição com a sua forma capitalista (não consistindo, portanto, apenas na precariedade da sua função como lugar de refúgio). De resto, também na Europa Ocidental e noutros lugares a situação pode mudar rapidamente, se mais graves investidas da crise despertarem a ideologia assassina do anti-semitismo; já ocorreram ataques a sinagogas e a habitações de residentes judeus (por exemplo, em França).

O carácter dual do Estado de Israel não pode, portanto, ser posto em questão por razões pragmáticas de insegurança empírica; ele deriva da oposição à violência material da ideologia de crise anti-semita no capitalismo mundial em geral e, nessa medida, mantém-se enquanto se mantiver esta relação mundial. Se esta relação social se dissolve de forma catastrófica e a universalidade abstracta dos Estados em toda a parte se transforma em failed States, também Israel não pode ficar incólume. É possível que Israel seja destruído na crise mundial, tanto a partir de fora como a partir de dentro; o que significaria, no entanto, que o seu carácter dual não pôde resistir ao processo de crise, mas de modo nenhum significaria que em si não tenha existido. Infelizmente há boas razões para uma possível queda na barbarização geral; mas negar por isso esse carácter dual, sem mediação e a priori, seria apoiar implicitamente o ponto de vista dos inimigos de Israel, que pretendem atar o problema geral à existência do Estado judaico, como seu representante. Da perspectiva da crítica radical, a ameaça de queda em relações barbarizadas não pode ser afirmada, logo em primeiro lugar e exemplarmente, contra o carácter dual de Israel. Este contexto já há muito tempo foi teórica e historicamente exposto sob diversos aspectos e com mais insistência na polarização global de crise dos últimos dez anos(1); mas continua a ser escamoteado para, em vez disso, se classificar Israel identitariamente nesta polarização.

A identificação positiva e negativa de Israel com o capital mundial

Para um pensamento na lógica da identidade e positivista é quase impossível suportar as contradições objectivas do tema em si, contradições que são mediadas subjectivamente e até bem dentro do inconsciente. Se acresce ainda uma formação afectiva que não só deriva de uma longa história como também está inscrita num conflito por procuração agudizadamente actual, tanto maior tem de ser a tendência para dissolver a contradição numa classificação simplesmente definitória. Simplesmente não se pode admitir que o estatuto de Israel seja transversal aos conflitos que desabrocham no capitalismo de crise global, mesmo se ele está forçosamente embutido neles e neles também já tem uma história. Por isso este estatuto não é separado analiticamente de tais conflitos nem posto em relação com as suas formas de desenvolvimento, mas é equiparado imediatamente a eles. O que acontece mais uma vez de maneira dual e contraditória.

Por um lado, Israel é identificado positiva e unidimensionalmente com o seu carácter de Estado capitalista e de parte integrante do capital mundial, até na medida em que obtém protecção dos Estados centrais ocidentais, no contexto das constelações de interesses estratégicos. Embora esta protecção não se alimente fundamentalmente do reconhecimento do carácter dual do Estado judaico, ela é instrumentalizada ideologicamente pelas elites e pelos média do Ocidente para a legitimação do capital mundial a fim de, nas formas de desenvolvimento da crise mundial desde a terceira revolução industrial, poderem denunciar qualquer crítica do capitalismo per se já como anti-semita; o que, no entanto, não impede as tendências populistas da classe política e mediática de simultaneamente, por necessidade, apelarem mal disfarçadamente ao “ódio inconsciente aos judeus” e aos estereótipos anti-semitas, para tornar eventualmente aceitáveis as contradições da administração de crise. A identificação positiva de Israel com o capital mundial encontrou nos últimos anos acolhimento até na parte da esquerda que inicialmente pretendia declarar-se solidária com a auto-afirmação de Israel, mesmo a partir do ponto de vista exterior ao carácter dual deste Estado, mas que com essa identificação falha a dialéctica da relação. Em múltiplas levas, esta parte da esquerda passou-se com diversas designações para uma posição “pró-ocidental” abstracta, no espaço de língua alemã sob a designação dos chamados “antialemães” (além do mais, ignorando a sua génese específica).

Por outro lado, Israel também é unidimensionalmente identificado por partes da esquerda e do movimento de crítica da globalização, mas de modo negativo, como Estado do capital mundial, sendo o seu carácter dual por maioria de razão escondido, só que em sentido contrário. Por outras palavras: a legitimação ideológica do capitalismo de crise, percebida como dominante e irreversível, que faz passar por anti-semitas quaisquer críticas em si, surge inversamente como contralegitimação para se virar fundamentalmente contra Israel em nome do “anti-capitalismo” e definir o seu poder armado integralmente como momento da administração de crise militar do capital mundial. Uma crítica do capitalismo em todo o caso já truncada, que na maior parte das vezes se mantém fenomenologicamente reduzida, acopla-se assim ao “ódio inconsciente aos judeus” ou aos estereótipos anti-semitas, no fundo como o populismo político e mediático, ou até já quase como sua parte integrante.

A acusação de anti-semitismo é aqui rejeitada; mas apenas porque ele já surge quase exclusivamente sob o aspecto de ser uma afirmação legitimatória da ordem dominante. Deixa de ser admitido no discurso que a análise e a crítica da efectividade dum inconsciente colectivo antijudaico e dos clichés da ideologia anti-semita na esquerda política e nos movimentos sociais também é possível e necessária precisamente a partir da perspectiva de uma crítica radical do fetiche do capital; ultimamente a coberto da comoção moral contra os assassinos de crianças de Gaza, a qual já por si pertence à síndrome de recalcamento do contexto real.

As identificações positiva e negativa de Israel com o capital mundial validam-se reciprocamente. Deste modo, o conflito do Próximo Oriente, na agudização da crise capitalista mundial, torna-se mais que nunca o conflito por procuração, na base do qual, porém, já não está a constelação da história do pós-guerra posterior a 1945. As posições aparentemente bem definidas da sociedade mundial foram amplamente dissolvidas e reagrupadas no processo de crise. A polarização tornou-se político-economicamente difusa porque é o próprio sistema global de produção de mercadorias que está em decomposição. Daí que os conflitos são formulados menos político-economicamente e mais de modo culturalista, sem na realidade o serem; por exemplo, na maneira de dizer de Samuel Huntington, mas também inversamente da parte do islamismo pós-moderno.

Em geral, o pensamento pós-moderno fornece tanto mais a matriz ideológica de interpretação dos conflitos na exacta medida em que o seu fundo social real, na figura da economia das bolhas financeiras, se dissolve, entrando a crise mundial numa situação qualitativamente nova. Uma vez que a ronda pós-moderna na esquerda deixou a crítica da economia política quase sem objecto, também o “anti-capitalismo” se virtualiza numa construção difusa e amplamente aconceptual, ideologicamente susceptível de adesão de muitas maneiras, ou que aplica ideologias de épocas passadas como retroversões, em misturas em parte bizarras. Tanto mais o conflito do Próximo Oriente é carregado como conflito por procuração, porque ele, na “nova falta de transparência” (Habermas), parece oferecer um fundamento pretensamente prático, ao qual se pode colar a polarização difusa.

Na constelação de crise modificada, o confronto entre um “imperialismo global ideal” ocidental da administração de crise global, e um chamado terrorismo, que se vê principalmente nas manifestações da barbárie islamista, constitui um aspecto central da polarização no interior do capital mundial em decomposição; de permeio sobem outros conflitos “multipolares”. Na medida em que a focagem no conflito do Próximo Oriente parece reduzir novamente a complexidade destrutiva a uma identificação unívoca, por maioria de razão o estatuto do Estado de Israel se torna fatalmente o centro das atenções. Aqui se deslocam mais uma vez os padrões de interpretação, na medida em que são de certo modo restringidos ao confronto local. O carácter do conflito por procuração inverte-se; ele já não surge como expressão de um contexto capitalista mundial anteposto, o qual se tornou mesmo intransparente, mas é este contexto que por sua vez surge como expressão do conflito directo de Israel com os seus vizinhos, ou que é percebido nas formas deste, a fim de salvar identidades políticas de outro modo insustentáveis, reformulando-as e resolvendo-as neste plano da imediatidade.

As exigências impossíveis de um paradoxo real

A falsa identificação e a falsa contra-identificação derivam metodicamente da não compreensão do carácter dual de Israel, que representa de certa maneira um paradoxo real. Pois a existência como Estado capitalista, como única possível nas condições dadas, por um lado, e a existência como reacção ao anti-semitismo global, por outro lado, não constituem de modo nenhum um facto compreensível e “definível” de modo positivista, constituindo, pelo contrário, uma contradição em si. A constituição como Estado capitalista inclui necessariamente todos os atributos, condições e procedimentos que são visados na perspectiva emancipatória da crítica radical. Ao mesmo tempo, esta crítica inclui também, necessariamente, a luta contra aquela forma de anti-semitismo por sua vez constitutiva da existência desse Estado. Para poder lidar com esta dificuldade, exige-se uma abordagem que tenha em conta ambos os momentos, sem cair na identificação; e a solidariedade para com Israel como Estado, contra o anti-semitismo global, só pode ser eficaz no reconhecimento da contradição da sua existência.

Isto exige ainda um segundo reconhecimento, no mesmo nível da consciência em que este primeiro reconhecimento do carácter dual de Israel é de algum modo possível. Como Estado capitalista, subjaz a Israel necessariamente a correspondente razão de Estado. Nesta razão de Estado, no entanto, o seu carácter dual, histórica e socialmente mediado à escala mundial, só com mais mediação consegue surgir, se é que consegue. Para as agências desta razão de Estado, o anti-semitismo é de facto de algum modo percebido como condição constitutiva; mas apenas superficialmente, não como momento de uma crítica crítico-emancipatória, que por isso também não pode determinar a sua acção como condutora do conhecimento. O conhecimento conceptual do estatuto contraditório de Israel decorre de uma reflexão dificilmente possível para os representantes duma máquina estatal capitalista, reflexão que por isso também, mesmo em Israel, tem de ficar limitada à esfera teórica. Nem aqui nem em qualquer outro lugar do mundo existe uma força social em cuja acção este ponto de vista como tal tenha podido entrar. Para isso ser possível teria de se constituir um movimento transnacional e com poder de intervenção, cujo objectivo prático fosse uma sociedade mundial para além das relações de fetiche modernas; estamos muito longe disso.

Assim, o carácter dual de Israel, histórica e socialmente dado em si a nível mundial, desfaz-se em dois momentos contraditórios da consciência. Para as agências e representantes de Israel como Estado, na prática existe apenas a habitual razão de Estado capitalista, com todas a suas consequências que, no entanto, e contrariamente a todas as outras razões de Estado, se depara com a síndrome anti-semita como determinação externa do inimigo. Para a reflexão crítica, pelo contrário, existe apenas o reconhecimento teórico do duplo carácter de Israel, que não pode dissolver-se imediatamente naquela razão de Estado, mas que por sua vez se depara com ela como condição externa. Daqui decorre, portanto, que estes momentos contraditórios e opostos, nos quais o estatuto de Israel surge diferente em cada caso para a consciência, não podem ser lançados um contra o outro.

O que significa que há aqui uma relação de tensão que não se pode dissolver identitariamente. Nem se deve apoiar, sem ver, qualquer acção em conformidade com a razão de Estado israelita per se, já em nome da luta contra o anti-semitismo global, nem, inversamente, se pode subsumir simplesmente esta acção à sua qualidade capitalista, e assim per se submetê-la à crítica desta. Estes são precisamente os pontos extremos entre os quais balança a análise crítica que, ou se transforma na identificação com a relação de capital, enquanto solidariedade com Israel meramente identitária, ou, enquanto crítica à acção capitalista do Estado israelita, se torna uma “crítica a Israel” pura e simples, nessa medida susceptível de ser anexada pelo “ódio inconsciente aos judeus” e pelas atribuições ideológicas anti-semitas.

O reconhecimento crítico do carácter dual de Israel inclui o momento em que aquela razão de Estado capitalista é ela própria novamente contraditória em si, incluindo o perigo de auto-destruição. Israel está, portanto, ameaçado também a partir do interior, no sentido do seu significado como contrapeso ao anti-semitismo e às suas causas, uma vez que Israel, como qualquer Estado, desenvolve designadamente aquelas tendências já referidas, hoje bem à vista e de efeitos agravados, tendências autoritárias, social-darwinistas, radicais de direita, nacionalistas, militaristas etc. e, sob as condições de crise global agravadas, cria a sua própria potencialidade de barbarização. Um procedimento crítico-emancipatório não pode poupar-se ao confronto com tais inevitáveis manifestações, se o potencial da crítica social não deve ser tragado pelo paradoxo real do estatuto de Israel, para dissolver este numa afirmação cega até das piores situações e modos de proceder capitalistas, apenas por serem israelitas. Assim se perderia precisamente a justificação da solidariedade para com Israel contra o anti-semitismo e, com ela, também o reconhecimento do carácter dual deste Estado.

Mas a contradição também pode ser resolvida unilateralmente em sentido contrário e, assim, mal resolvida. Tal como o ponto de partida crítico-emancipatório se extingue, não se alcançando o carácter dual de Israel, quando todas as consequências da condição capitalista deste Estado são objecto de uma afirmação imediata, por maioria de razão não se alcança esse carácter dual se, inversamente, Israel é obrigado a satisfazer também imediatamente o critério de um modo de pensar e de agir da crítica emancipatória. Então o paradoxo real transforma-se em exigências impossíveis para uma razão de Estado capitalista, que já não seria razão de Estado nenhuma, sem que, por outro lado, as condições histórico-sociais tivessem sido suplantadas. Consciente ou inconscientemente entende-se que Israel teria de agir não como um Estado, mas como um movimento de crítica radical.

A solidariedade com Israel transforma-se assim no seu contrário, pois precisamente a este Estado, mais do que a qualquer outro, é apontada a acção de Estado habitual no campo das relações mundiais político-económicas de crise. Todas as manifestações capitalistas de Israel, do ponto de vista social, político e ideológico, surgem então também dissimuladamente como múltiplas razões contra a existência deste Estado, porque ele não satisfaz as exigências impossíveis de uma consciência crítico-emancipatória hipócrita.

A solidariedade abstracta e até apenas legitimatoriamente declarada a favor de Israel contra o anti-semitismo torna-se assim, em cada confronto concreto do conflito do Próximo Oriente, na razão para proferir o anátema contra o verdadeiro Israel. O facto, por exemplo, de a acção do Estado de Israel, numa típica avaliação do inimigo, ter inicialmente promovido o Hamas por razões tácticas contra a Fatah então ainda dominante, funciona também como culpa fundamental e recai na acusação de alianças tácticas com a Turquia autoritária e em geral de envolvimento político nas opacas relações do caos do Próximo Oriente; para já não falar da aliança estratégica com os E.U.A. e com o mundo capitalista ocidental. Enquanto o posicionamento há muito tempo anti-israelita de grande parte da esquerda global é reconhecido quase como princípio condicional, a falsa consciência crítica denuncia a política israelita como geralmente reaccionária e em aliança com todos os regimes autoritários, apoiada pelo capital mundial; como se a razão de Estado israelita tivesse obrigação de encontrar a sua auto-afirmação apenas em ligação com as forças fracas, para não dizer patéticas, da crítica truncada do capitalismo na região e em todo mundo. No Próximo Oriente a crítica de inspiração marxista foi em grande parte destruída e os movimentos laicistas da ideologia da modernização posicionaram-se logo na sua génese também como anti-semitas (por exemplo, a organização do antigo Partido Baath na Síria e no Iraque). O Estado de Israel não pode com seriedade ser obrigado a um “progressismo” burguês há muito obsoleto na região, ou a uma acção que deva caminhar de acordo com a esquerda global ideologicamente regressiva.

Estas exigências absurdas agudizam-se cada vez que há intervenções militares. Se não é bom declarar cegamente a acção militar da máquina estatal israelita per se como expressão da auto-defesa contra o anti-semitismo, tão pouco tal acção pode per se ser negada, como expressão de política repressiva e reaccionária, se o reconhecimento do carácter dual de Israel em geral deve ter algum significado. Independentemente da situação concreta e das suas modificações, os ataques militares israelitas já são sempre considerados como autênticas medidas de auto-destruição. Assim se consuma aquela exigência impossível que pretende obrigar Israel a um comportamento para além da razão de Estado e, precisamente por isso, ela própria volta a perder a pretensão de crítica emancipatória, pretensão que é imposta justamente a este mesmo Estado.

A dialéctica desta falsa pretensão leva também à liquidação da condição estatal judaica, tal como entre os inimigos de Israel e anti-semitas notórios, pois, sob as condições reais do conflito do Próximo Oriente num mundo de capitalismo de crise, a dimensão militar da auto-defesa não pode ser mantida meramente latente. Uma vez que o reconhecimento abstracto do direito à existência de Israel nega a condição concreta da razão de Estado israelita, a definição adjectivada de uma “solidariedade crítica” com Israel transforma-se numa fórmula vazia e a crítica específica a determinadas formas de manifestação capitalistas transforma-se numa “crítica a Israel” fundamental, que já não deve ser diferenciada de uma hostilidade fundamental contra Israel e que, tal como esta última, é finalmente legitimada com a comoção moral assimétrica.

A razão de Estado de Israel nas guerras contra o Hamas e o Hezbollah

Para manter o reconhecimento do carácter dual de Israel e não cair na falsa imediatidade de identificações cegas ou exigências impossíveis, chega-se à célebre análise concreta da situação concreta. O conflito do Próximo Oriente sofreu uma alteração desde 2004 e mais intensamente desde 2006. Até aí podia parecer que o poder e a actividade militares de Israel estavam completamente ligados à administração de crise mundial capitalista e que poderiam encontrar a sua auto-afirmação só e apenas nesse contexto. Desde então, no entanto, a situação voltou a modificar-se, uma vez que Israel conduziu duas guerras por conta própria contra os seus inimigos directos; primeiro contra o Hezbollah no Líbano e agora contra o Hamas na Faixa de Gaza. Estas duas forças inimigas, respectivamente na vizinhança norte e sul, representam a parte mais implacável do mundo árabe e islâmico. Neste caso há muito que não se trata de meras reivindicações territoriais, ou de vulgares interesses capitalistas, pelo contrário, o Hamas e o Hezbollah, tal como o islamismo pós-moderno em geral, amalgamaram a sua auto-legitimação com a ideologia do anti-semitismo de um modo específico. A qualidade particular deste anti-semitismo, construído ao longo do processo de crise da globalização, não altera em nada o carácter de tal construção ideológica, que se pode manifestar em diferentes contextos histórico-culturais.

Há uma diferença decisiva em relação às pretensões da antiga Fatah, ou da OLP, que também não pode ser escamoteada com a ideia de que Israel seria o verdadeiro causador deste desenvolvimento, com anteriores avaliações erradas, no contexto da sua razão de Estado; ideia com que, de resto, se faz valer novamente aquela exigência impossível, e até mesmo o velho estereótipo anti-semita, segundo o qual os próprios judeus seriam os responsáveis pelo anti-semitismo, pela simples razão de agirem de modo tão deficiente como todos os outros. A equiparação das novas formas de poder armadas e munidas do anti-semitismo islamista, Hezbollah e Hamas, com os jovens lançadores de pedras da primeira Intifada nos territórios ocupados não só é contrafactual, mas também já é expressão de um deslocamento da percepção, pelo qual as relações de poder modificadas na Palestina e no Líbano são desvalorizadas, ou até tratadas com simpatia, e que pertence a um diferente contexto de fundamentação do conflito por procuração qualitativamente novo.

O Hamas e o Hesbollah não só declararam publicamente a aniquilação de Israel como seu objectivo supremo, quanto ao qual nunca poderá haver concessões, como também se armaram, sob protecção do Irão, para o “conflito assimétrico” que de facto conduziram. Assim se criou uma nova situação militar, pois os rockets de construção simples e fáceis de produzir, que também são contrabandeados através da esburacada rede de controle, provocam um certo número de vítimas e traumatizam a população local. Entretanto, estas milícias foram armadas pelo Irão com armas mais precisas, mísseis terra-ar etc. Além disso, o Hesbollah e o Hamas entrincheiraram-se como regimes armados na chamada “sociedade civil” de cada um, e de facto alavancaram a fraca soberania, tanto do Líbano como da Autoridade Palestiniana autonómica. Com esta base político-militar, eles podem operar tacticamente no sentido do seu objectivo supremo e ganhar fôlego para, perante os possíveis desabamentos da situação que são de esperar no contexto dos surtos de crise globais, se aproximarem do seu propósito de destruir o Estado de Israel. 

Chegados a este ponto, a razão de Estado autónoma de Israel tinha por força de se manifestar militarmente, contra a constelação inimiga declaradamente armada nas suas fronteiras. Esta constelação já não tem nada a ver com a anterior Intifada nos territórios ocupados; e a intervenção militar também já não pode ser criticada da mesma maneira, nem tão-pouco pode ser subsumida aos crimes de guerra auto-destruidores para Israel, como foi o caso dos ataques aos campos de refugiados palestinianos no Líbano na década de oitenta. Por isso também a guerra contra o Hamas e o Hesbollah não pode ser simplesmente reduzida ao facto de o governo estar dominado por partidos conservadores de direita, nacionalistas, “belicistas” e de resto sob suspeita de corrupção, como gostaria de sugerir a esquerda anti-israelita e não só. Qualquer governo israelita, mesmo com objectivos democratas de esquerda, constituído contra os nacionalistas de linha dura ou fanáticos ultra-ortodoxos, teria tido de proceder de acordo com a mesma razão de Estado, para a qual nem é admissível o lançamento de rockets e o armamento islamista nas suas fronteiras, nem o Hamas e o Hesbollah podem ser reconhecidos.

Se assim fosse, Israel poderia designadamente admitir também o postulado da sua aniquilação, como posição no quadro da liberdade geral de opinião e da negociação. Essa é também a razão porque o movimento pela paz em Israel vai diminuindo e os pacifistas de princípio, bem como alguns intelectuais de esquerda isolados, que tomaram posição contra esta guerra como se nada tivesse mudado, lamentam o seu isolamento crescente. Eles abandonam o campo à direita israelita, quando capitulam à maneira pacifista perante a situação modificada, e invocam uma paz impossível com o Hamas e o Hesbollah, paz para a qual estes, desde logo por causa da sua condição ideológica de existência, nunca poderiam estar disponíveis. Isto não significa, naturalmente, que a regressão de direita em Israel possa ser considerada uma coisa boa. Pelo contrário, esta viragem em si merece ser criticada, como de resto em todo o lado, e neste ponto pode compreensivelmente dar-se razão à esquerda intelectual que se lhe opõe. É, porém, algo completamente diferente, reduzir falsamente a intervenção militar contra o Hamas a uma mera regressão política de direita e usar a necessária crítica desta como pretexto para denunciar qualquer acção militar israelita contra a barbárie do Hamas. Na realidade, esta acção como tal é com toda a razão apoiada mesmo pela grande maioria dos críticos da viragem de direita no interior de Israel. É fatal deixar de mencionar estas vozes, predominantes do espectro de esquerda e liberal de Israel, porque se pretende condenar em cada caso a acção militar israelita em si, atribuindo esta, convenientemente, apenas à direita.

Esta atribuição foi posteriormente misturada também com a crítica no interior de Israel ao modo de conduzir a guerra, em parte formulada pelos soldados em serviço militar obrigatório. Questionavam-se aqui determinadas estruturas de comando e modos de procedimento; uma crítica já expressa de modo semelhante por ocasião da campanha contra o Hesbollah e que encontrou expressão em comissões de inquérito. A resistência expressa publicamente contra a obediência cega e contra a crueldade de motivação racista, que neste caso não derivam dos objectivos da guerra em si, é sempre legítima. Se se pode estar de acordo com tais críticas dos participantes directos, não se deve esconder que no caso se tratava em grande parte de uma simples crítica do procedimento táctico e da denúncia de medidas militares não justificadas (o que, de resto, não teria sido possível do lado contrário) e nunca de uma condenação da guerra contra a forma de poder islamista em geral. Utilizar esta discussão no interior de Israel como prova do carácter ilegítimo das acções militares no seu conjunto significa falsificá-la e instrumentalizá-la ideologicamente; mais uma vez de acordo com o mote de que são os próprios judeus que o dizem.

Há uma boa razão pela qual também a maioria da esquerda israelita em sentido lato entretanto já não reprova fundamentalmente as operações militares e os seus objectivos. Nomeadamente, se o velho propósito, formulado de modo “anti-imperialista”, do nacionalismo palestiniano e do universo dos Estados árabes de “empurrar os judeus até ao mar” já tinha formado em Israel um forte posicionamento militar, transversal a todas as posições políticas e ideológicas, também não admira nada que agora o mesmo se repita. Porém, este propósito de aniquilação, outrora contido no contexto do “anti-imperialismo”, ainda fora discutido com veemência na esquerda global, e mais tarde abandonado mesmo pelos de linha dura; agora a sua reformulação pelo Hamas e pelo seu protector iraniano é tacitamente aceite pelos excitados anti-israelitas. Aqui está a essência da mudança de percepção.

Nenhum Estado permitiria tal deslocação de forças no seu campo de visão, desde que tivesse poderes para isso. Se esta deslocação não atingiu ainda a massa crítica, que coloque o inimigo na posição de pôr em prática imediatamente o seu objectivo declarado, mantendo-se pelo contrário o poder militar próprio superior a médio prazo, esta factualidade seria em regra a ocasião para simplesmente arrasar a região inimiga oportunamente e sem piedade. Para isso podem trazer-se exemplos à escolha da história da modernização e frequentemente com motivo menor. Só tem o direito de classificar tais medidas como bárbaras quem no caso critica a constituição histórico-social como tal. Só para além desta, portanto para além da sociedade mundial do capital e do Estado, se tornaria desnecessária a relação de poder, incluindo a de carácter dual de Israel.

Ora Israel não aplicou a sua máquina militar nesta opção final, embora esta fosse de facto possível, contra as duas estreitas regiões inimigas. Ignora-se que Israel poderia também ganhar a “guerra assimétrica” neste espaço limitado aplicando todos os meios. Há aqui uma diferença militar relativamente às guerras de ordenamento mundial do imperialismo de crise, que pretendem manter sob controle grandes áreas incontroláveis, nas quais quase só podem aplicar o seu poder de fogo superior a partir do ar, enquanto no terreno uma “condução da guerra assimétrica” é impossível de desenrolar quilómetro quadrado a quilómetro quadrado, pois para isso não há forças nem logística em numero suficiente. Israel, pelo contrário, no espaço reduzido das suas fronteiras, poderia limpar completamente as milícias do Hesbollah e do Hamas, num combate casa a casa e rua a rua, tanto mais que não há decisivamente qualquer outra pretensão de controlo sócio-económico ou político, no sentido de interesse sistémico superior, para além da sua própria razão de Estado. No entanto, essa opção estaria ligada não só a um número igualmente elevado de vítimas da população local, mas também a elevadas perdas próprias.

A opinião pública mundial anti-israelita e a decomposição ideológica da esquerda

O facto de Israel ter renunciado a ambas as opções de eliminação definitiva, do Hamas e do Hesbollah, pouco se deverá a considerações humanitárias de princípio; pois nenhuma razão de Estado do mundo é em si humanitária, ainda que este ponto de vista esteja permanentemente a ser invocado de forma legitimatória. Por isso é despropositado pretender defender Israel neste sentido com uma contabilização do humanismo, como se precisamente este Estado tivesse de satisfazer uma mais elevada pretensão moral do que os seus inimigos. A razão da condução da guerra por Israel de forma em última instância limitada foi, além do receio das consequências políticas internas de perdas próprias relativamente elevadas, em primeiro lugar, a incerteza quanto à posição dos seus até aqui protectores ocidentais, pois nem a União Europeia nem os E.U.A. se colocaram claramente atrás de Israel nesta guerra. Por outro lado, a atenção à chamada “opinião pública mundial” política e mediática seguramente que desempenhou o seu papel. Aqui mais uma vez vem a terreiro indirectamente o problema do estatuto social mundial de Israel, mesmo junto dos actores da sua própria razão de Estado, e precisamente como condição de travagem desta razão, ultrapassando tentativas de deslegitimação semelhantes noutras constelações de conflito.

Aqui também pesou a tomada de posição de uma maioria da esquerda global. Poder-se-ia dizer que a já ampla identificação de Israel com o capital mundial e com a sua administração global de crise se pôde aqui relativizar, pelo menos no sentido em que assomou, no mínimo, a diferença entre esta qualificação e a guerra conduzida por Israel por conta própria contra inimigos locais, que têm a firme vontade de aniquilá-lo como Estado. O caso foi exactamente o contrário. A comoção contra os assassinos de crianças de Gaza, superior à avaliação de qualquer outro conflito, já deixa adivinhar que, no fundo, as acções militares conduzidas por Israel no seu próprio interesse contra organizações como o Hamas e o Hesbollah suscitam uma raiva muito maior do que as guerras de ordenamento mundial do imperialismo de crise. Por detrás da assimetria moral, que permite escamotear a avaliação de conteúdo fictícia num ponto de vista puramente humanitário e emocionalmente colocado, logo vem à luz, no entanto, a assimetria política e, se assim se pode dizer, histórico-analítica, em que a tomada de posição ganha claros contornos ideológicos.

Para o pacifismo ético-moral, que existe de facto em Israel e noutros lugares, a tomada de posição contra a razão de Estado israelita apenas pode fazer valer uma “desproporcionalidade” quantitativa no armamento militar e na sua aplicação e invocar um equilíbrio pacífico. Esta exigência compreensível tem de esconder o carácter modificado do confronto. O desespero emocional associado a isto, no entanto, em partes da esquerda movidas por motivações de modo algum pacifistas, transformou-se numa raiva completamente diferente, que é devida ao conflito por procuração do capital mundial ou à sua redução ao confronto local. Daqui resulta uma diferenciação entre os opositores à guerra, que é tapada por uma identidade emocional apenas aparente; designadamente entre, por um lado, um programa de paz e de compromisso aplicado à situação local, que radica num contexto condicional passado e actualmente tornado inverídico, e, por outro lado, um programa militante dos inimigos de Israel de linha dura, que usa a situação local como plano de sustentação dum “anti-capitalismo” em que se reflecte ideologicamente a decomposição da esquerda.

É impressionante a rapidez com que esta fracção de linha dura entre os opositores de esquerda à intervenção militar israelita se constituiu transversalmente a todos os anteriores movimentos e posições e como, em poucas semanas, foram deixadas cair todas as inibições relativamente a comparações ou equiparações, até então ainda consideradas inaceitáveis, de Israel com os autores de genocídios, com todos os senhores da guerra dos grandes impérios e até mesmo com o Estado nacional-socialista. Antes só havia conhecimento disto com tal intensidade da parte de radicais de direita e de negadores do Holocausto. O descomedimento com que Israel foi declarado inimigo da humanidade por ocasião da guerra de fronteiras contra o Hamas repercute-se na exigência de um tribunal de julgamento de crimes de guerra do governo e dos oficiais do exército israelita, tal como num apelo de Naomi Klein, um ícone do movimento de crítica da globalização, para o boicote universal dos produtos israelitas, apelo que reformula sem rodeios a palavra de ordem nazi “não comprar nada aos judeus” e que foi apoiado no britânico Guardian por toda uma turma de ilustres professores de esquerda.

O “ódio inconsciente aos judeus” como base liga-se com o momento do estereótipo anti-semita na crítica social truncada e difusa a um “anti-capitalismo” que já não identifica o Estado dos judeus com uma simples parte do capital mundial, mas regride definitivamente para a posição de considerá-lo representante da relação de capital em geral, e processa esta projecção no confronto local directo. Para esta posição, que já não é desorientada, a hostilidade contra Israel solidificou-se como foco actual de todo o impulso do sofrimento social. O mais tardar desde a guerra de Gaza, não só o carácter dual de Israel deixou de ser alcançado, mas também o anti-semitismo histórico foi inequivocamente elevado à altura do século XXI por pessoas que a si mesmas se entendem como de esquerda. E a pretensa “solidariedade crítica” com Israel, que não quer perceber esta mudança brusca, torna-se um recurso de tal formação anti-semita, uma vez que faz do adjectivo “crítica” a substância da sua avaliação, fazendo coro com uma condenação emotivamente moralista, que há muito tempo flanqueia uma causa completamente diferente.

Uma "terceira posição" que não é posição nenhuma

A posição, levada até à reconhecibilidade do seu anti-semitismo, da fracção de linha dura de um “anti-capitalismo” ideologicamente degradado não é, por consequência, partilhada pela maioria da esquerda, opositores à guerra incluídos, mas é tolerada até certo ponto. Cada tomada de posição pró-israelita, pelo contrário, independentemente da fundamentação do seu conteúdo, que dificilmente se chega a conhecer ou que se resume de modo desfigurado, é em parte brutalmente atacada por um amplo espectro da esquerda, e em parte pelo menos “unilateralmente” condenada. Atrás desta condenação na unilateralidade está uma posição de “equilíbrio” e uma postura de mediação aparente, cuja visão se assemelha até à confusão com percepção oficial política e mediática da União Europeia e em parte entretanto também dos E. U. A., sobretudo no conflito de Gaza.

Entre a esquerda, esta posição simplesmente apaziguadora vira-se também contra a “violência comunicativa” dos extremos reciprocamente agressivos da avaliação do conflito. Gostar-se-ia, sobretudo, de esconder ou fazer desaparecer este confronto, tal como supostamente as criaturas muito sensíveis da consciência de classe média não querem ouvir mais notícias más, para poderem sentir-se bem no mundo habermasiano incólume do “discurso livre da dominação”, pelo menos entre as figuras dos círculos de esquerda, “oferecendo argumentos” entre si que já nem levam a sério o objecto. Este posicionamento é tanto mais dúplice quanto transporta inteiramente aquela tomada de posição anti-israelita, que não pretende ser tomada de posição nenhuma, e afoga o problema do conteúdo num reconhecimento recíproco formal de meras expressões de opinião, para por trás poder impor-se à vista através do coração.

Tal pseudo-mediação esquece que a reflexão mediadora não pode ser uma mistura de água com azeite, nem uma neutralidade aparente em relação a extremos excluidores da unidade, mas tem de transcender a oposição abstractamente política, moralista e em geral superficial, para chegar a uma polarização ainda mais agudizada num outro nível. Isto aplica-se particularmente à pretensão de um “terceira posição”, relativamente aos conflitos globais imanentes do capitalismo de crise, desde o início das novas guerras de ordenamento mundial. Nos debates da esquerda sobre as intervenções militares do imperialismo colectivo da administração de crise global sob direcção dos E.U.A., essa pretensão já foi formulada desde as guerras na Jugoslávia dos anos noventa. Ela referia-se, contudo, a uma argumentação completamente diferente da que agora é reclamada por certos moderadores de esquerda com a sua atitude pseudo-mediadora relativamente ao conflito de Gaza.

A argumentação original assumia rejeitar fundamentalmente a polarização no plano da contradição social mundial entre uma posição abstractamente “pró-ocidental”, afirmativa do capitalismo de crise global pelo menos como mal menor, por um lado, e, por outro lado, uma tomada de posição “anti-imperialista” a favor dos objectos das guerras de intervenção, como o nacionalismo sérvio em primeiro lugar e depois a barbárie islâmica. A fundamentação residia em que se tratava aqui das duas faces da mesma medalha; nomeadamente de uma contradição no interior do capitalismo de crise global, que representava de ambos os lados apenas o processo de dissolução do sistema mundial, e que por isso mesmo já não podia ser tomado um dos lados por perspectiva emancipatória, como era o caso ainda na Segunda Guerra Mundial contra o regime nacional-socialista, ou na guerra do Vietname nos anos sessenta.

Como pano de fundo estava a tese da teoria da crise de que o movimento de acumulação do capital esbarra num limite interno absoluto na terceira revolução industrial. Por isso, tanto a perspectiva de uma “civilização” capitalista do Ocidente, a reformular como sempre, quanto a perspectiva de um “desenvolvimento” no capitalismo de Estado, na periferia do mercado mundial, ficam historicamente sem objecto. De ambos os lados assoma o fundamento violento e bárbaro do patriarcado moderno produtor de mercadorias. A conclusão foi que é preciso constituir uma posição contrária, transcendendo a contradição imanente, em primeiro lugar na esfera pública teórica, posição que já não apresenta uma crítica radical do contexto da forma capitalista em nome de urgências de momento, mas toma-a como ponto de partida de uma avaliação do conflito analiticamente fundamentada, mesmo que actualmente não possa desenvolver qualquer poder de intervenção prática.

Nada disto mudou até hoje. Porém, o que agora, por ocasião da guerra de Gaza, aparece como pretensa “terceira posição”, apoiando-se indirectamente nesta argumentação, torce a sua fundamentação até à irreconhecibilidade, e de duas maneiras. Por um lado, o problema não é agarrado por assim dizer metodicamente, uma vez que o posicionamento na avaliação do conflito é meramente agnóstico e, bem à moda pós-moderna, relativista. Uma verdadeira posição contrária à polarização imanente não pode relativizá-la, mas tem de transcendê-la através de um ponto de vista superior. O resultado não pode consistir em dar de algum modo uma razão relativa a ambas as partes, mas sim em que ambas têm de ser igualmente combatidas e suplantadas, a partir de um outro ponto de vista. Isto aplica-se não só aos guerreiros do ordenamento mundial, mas também aos islamistas e outros inimigos. Daí que também não se falava de uma “terceira posição” relativista, mas de uma “terceira força”, que teria de abrir uma frente transversal ao confronto oficial. O que é, portanto, o contrário de uma posição meramente moderadora.

Por outro lado, a falsa “terceira posição” distorce completamente o contexto de argumentação originário também quanto ao conteúdo, uma vez que a crítica a uma tomada de posição, na polarização entre o capitalismo de crise global e os produtos da sua própria decomposição, é traduzida imediatamente na polarização entre Israel e o Hamas ou o Hesbollah, mais o seu protector Irão. Assim se apaga, por assim dizer com um gesto casual, o reconhecimento do carácter dual de Israel, que desde o início era parte integrante daquela análise crítica, a qual pretende transcender o conflito artificial no plano do capital mundial. Israel surge apenas num dos lados da decadência bárbara da “civilização” capitalista, ou é imediatamente subsumido à polarização imanente nela construída. Com isso a assim invocada “terceira posição” perde a sua força de análise crítica e torna-se igual à polarização imanente artificial (cuja negação está em pano de fundo) precisamente no ponto em que identifica Israel, como representante dessa polarização, apenas e ainda como parte integrante ou como representação do capital mundial. A consequência necessária é que o anti-semitismo à escala mundial, como ideologia de crise profundamente implantada e atingindo até ao inconsciente, é revogado da constituição do Estado judaico.

Com isto também as contradições internas de Israel são percebidas já só unidimensionalmente e são equiparadas a relações capitalistas vulgares, de tal modo que desaparece a sua mediação com a síndrome anti-semita e esta já só superficial e abstractamente é rejeitada; e isto na medida em que o próprio não se passou ainda para a interpretação anti-semita aberta. É o que se vê, por exemplo, no facto de se gostar de confundir, com um sorriso irónico enviesado, o racismo, mesmo em Israel discutido, contra os judeus não europeus e sobretudo contra os israelitas árabes ou contra os vizinhos palestinianos, com a auto-afirmação “étnica” de Israel como Estado dos judeus. Esta condição constitutiva da fundação do Estado já surge apenas como um etno-nacionalismo entre tantos, que deveria ser criticado no plano geral de tal ideologização.

Ligada a isto está frequentemente a exigência de que Israel deve desistir da auto-legitimação “étnica”, devendo passar a fundamentar a sua condição estatal já apenas como universalidade política abstracta e possivelmente deixar “regressar” os descendentes dos antigos refugiados palestinianos, que foram repartidos pelos Estados vizinhos e mantidos em guetos artificiais, e reconhecê-los como cidadãos com direito de voto. Deste modo os judeus seriam naturalmente uma minoria em Israel, como se declara simplesmente com malícia, como consequência agora inevitável da legitimação democrática. Esconde-se que a constituição “étnica” de Israel, como fundamento geral do Estado, foi imposta por um anti-semitismo global, e que os judeus de muitos países, nos quais tinham desenvolvido verdadeiramente um auto-entendimento há muito secular e não étnico, foram catalogados pelos seus próprios concidadãos como corpo estranho “étnico”, rácico ou religioso, tendo por isso de entender Israel como o seu Estado; e ao esconder isto está-se a virar de pernas para o ar a condição constitutiva do Estado. Os judeus, na sua condição estatal especificamente judaica, surgem assim imediatamente como ramo particularmente mau do nacionalismo “rácico”, ou como etno-freaks, que deveriam ser colocados no mesmo patamar que, por exemplo, o nacionalismo culturalista e os regimes tribalistas em todo o mundo, produtos de decomposição da crise mundial, ou até que o fundamento de sangue e de estirpe da nacionalidade alemã. A rabulice de tal argumentação é tão óbvia como o seu conteúdo anti-semita. Para uma análise crítico-histórica, pelo contrário, o carácter judaico de Israel é incontornável como resultado histórico e social mundial, enquanto este mundo for capitalista, sendo que a crítica ao sentimento racista dos judeus “brancos” europeus ou dos fanáticos ultra-ortodoxos contra os seus concidadãos se coloca noutro plano e merece apoio em Israel tal como noutros lados.

Igualmente unidimensional e negadora do carácter dual do Estado de Israel procede a pseudo-mediadora “terceira posição” relativamente às contradições externas de Israel. A sua auto-afirmação, inclusive com intervenções militares, cuja mediação com o anti-semitismo global desaparece, é abstractamente equiparada ao postulado do Hamas e do Hesbollah de varrer do mapa o Estado judaico e de nesse sentido se armarem para o “combate assimétrico”. A distorção do conteúdo do contexto histórico liga-se aqui com o método relativista: ambos os lados deveriam ser de algum modo condenados por igual, porque idênticos no seu carácter de produtos da crise do capital mundial, ou, por outro lado, deveriam ter de algum modo o seu “direito” no plano do conflito local. O relativismo pós-moderno apresenta aqui de modo particularmente drástico o seu carácter absurdo, pois esta avaliação diz apenas que Israel deve existir um pouco menos e que o Hamas deve exigir um pouco menos a aniquilação de Israel. Tal como se poderia exigir que o capitalismo devia ser um pouco menos capitalista, o anti-semitismo devia ser um pouco menos anti-semita, e os felinos deviam ser um pouco menos devoradores de carne.

Como este absurdo é impossível de sustentar em termos de análise teórica ou argumentativamente, os seus representantes refugiam-se, consequentemente, no sentimento moralista contra os assassinos de crianças de Gaza e numa “corajosa” emocionalidade esmagadora da reflexão crítica, que mobiliza o “ódio inconsciente aos judeus”, mas com isso, no entanto, também apresenta simultaneamente o desmentido da sua “neutralidade” inverídica. A “terceira posição” assim formulada limita a sua suposta postura mediadora à especificidade abstracta do conflito local, retira apressadamente a conclusão política de que se deveria poder reconhecer Israel, o Hamas e o Hesbollah como “factos” e mantê-los nos respectivos territórios. Revela-se assim como uma tomada de posição contra Israel, não só sentimentalmente moralista, mas também política ordinária e em última instância militar. Um transcender não relativista não pode ocorrer no plano da especificidade local, mas sim no plano da polarização social mundial. Se, porém, só a crítica da constituição de fetiche capitalista como tal constitui neste sentido a medida da avaliação do conflito, então tem de entrar nesta avaliação o contexto condicional histórico e ideológico, ou seja, também o reconhecimento do carácter dual de Israel. Já por essa razão é impossível uma pseudo-neutralidade superficial nos conflitos do Estado dos judeus com o Hamas e o Hesbollah, neutralidade que também não é sustentável no plano dos factos.

Tal como no caso das diferenças entre as expressões racistas e o carácter judaico de Israel, importa estabelecerer uma diferença fundamental entre uma pressão expansionista de fanáticos da própria religião ou de nacionalistas, por exemplo do movimento dos colonos, que para Israel também se tornou um pesado fardo interno, e os confrontos com as novas formações de poder islamistas com carga anti-semita nas fronteiras do Estado. Tal como o racismo interno e em ligação com ele, também o movimento de colonos nacionalistas do “grande Israel”, que recruta quase à força famílias israelitas sem qualquer sentimento nacionalista através de uma política de espaços para habitar, se desenvolve no plano vulgar da constituição capitalista. Mas não é isso que afecta o carácter dual de Israel. Construir aqui uma conexão causal com o surgir do Hamas e do Hesbollah, não é só factualmente falso, porque no Líbano não há colonos judeus e os colonatos em Gaza até foram liquidados. Mais que isso, surge aqui mais uma vez a expressão da velha figura do pensamento anti-semita de que os judeus serão eles próprios os culpados do ódio aos judeus, porque eles não são as melhores pessoas e entre eles há tantas bestas como noutro lado qualquer.

Decisivo para a avaliação da guerra de fronteiras de Israel contra os seus inimigos existenciais é o seu carácter no contexto da situação regional modificada e o encaixar do conflito numa função ideológica de representante da sociedade mundial. Uma vez que a “terceira posição” fraca e relativista nega tanto esse carácter como esse contexto, em ambos os casos, mas de modo particularmente claro na guerra de Gaza, ela comunga assim com o anti-semitismo mundial, apesar de todas as afirmações em contrário, anti-semitismo cujas expressões ela tolera ou ignora, de modo nenhum por acaso, nas manifestações dos opositores à guerra. Por isso ela também não quer compreender que a auto-afirmação de Israel é transversal às frentes da guerra de ordenamento mundial capitalista, embora esta factualidade se revele cada vez mais claramente.

A rejeição da guerra de ordenamento mundial contra o Iraque também era correcta pelo facto de só com ela ter sido possível a subida relativa do Irão a potência regional político-militar e o deslocamento da constelação nas fronteiras de Israel. Este reconhecimento é obstinadamente recusado pelas esquerdas tornadas pró-ocidentais, como cá na terra os “antialemães”, apesar de eles terem feito a mais completa triste figura com as suas avaliações de 2003. Perante este pano de fundo, também não se fará esperar a separação de interesses dos E.U.A. e da Europa Ocidental no contexto da guerra de ordenamento mundial, por um lado, e do interesse de auto-afirmação de Israel, por outro. A identificação positiva ou negativa de Israel com o capital mundial começa a desmentir-se facticamente e devia levar à necessidade de esclarecimento das correspondentes ideologias.

Crime e castigo ou crítica radical historicamente mediada?

O problema do conflito por procuração relaciona-se também, naturalmente, com a história alemã, com o regime nacional-socialista e com o Holocausto. Pode constatar-se que na RFA houve escrúpulos relativamente maiores quanto à condenação moral dos judeus assassinos de crianças de Gaza do que em países comparáveis da Europa Ocidental, embora essa tomada de partido emocionada também cá na terra se tenha expressado transversalmente ao espectro político e mediático com difíceis relativizações, e embora a esquerda alemã também tenha feito coro maioritariamente com a gritaria anti-israelita da esquerda global. Mesmo assim fez-se notar, transversalmente aos grupos, movimentos e contextos políticos de esquerda, uma minoria com tomadas de posição pró-israelitas. Além disso, tanto quanto sei, também só na RFA houve grandes manifestações de solidariedade para com Israel com participação da esquerda. No entanto, as razões mantêm-se sem excepção na consciência da falsa imediatidade; a solidariedade com Israel fez-se notar sem suficiente mediação com o contexto condicional da história e da sociedade mundial e no mesmo plano que a hostilidade a Israel, ficando assim impotente.

Este fenómeno reduz-se, evidentemente, a uma consciência de culpa especificamente alemã. Há uma argumentação particularmente refinada que pretende agora instrumentalizar o contexto pressuposto e com ele a Shoá, para a partir daí destilar uma tomada de partido precisamente contra Israel. Tal como a Lua em Christian Morgenstern, a recordação do Holocausto e a referência ao anti-semitismo em geral figura aqui na avaliação do actual conflito como “assunto especificamente alemão”. Assim, na medida em que na esquerda alemã ocorrem tomadas de posição pró-israelitas, elas são consideradas depreciativamente como expressão de um complexo de culpa “alemão de esquerda”. Com franca compaixão, representantes italianos, franceses ou latino-americanos de um “anti-capitalismo” inimigo de Israel atestam à minoria da esquerda alemã pró-israelita, ou até apenas com procedimento cautelosamente discreto, que ela estaria ainda tomada por um sentimento de culpa anacrónico e que deveria finalmente acabar com a eterna expiação, a fim de descobrir os judeus como povo autor de crimes de guerra, Gaza como um enorme campo de concentração e a guerra contra o Hamas como o Holocausto de palestinianos inocentes. Esta atribuição fala ao coração não só de um Martin Walser, o qual por si já há muito não faz sepulturas de assassinos; também ao ditador sírio Assad foi possível, numa entrevista à Spiegel, tentar benevolentemente convencer disso os alemães no seu conjunto.

Esta analogia só é assumida à paridade pela esquerda alemã na medida em que já não é esquerda nenhuma; nomeadamente pelos hardliners daquele “anti-capitalismo” abertamente anti-semita que se sente reconhecido pela comunidade de sentimento noutros países. Contra isso surge, junto de outras partes da esquerda “críticas de Israel”, uma figura semelhante de pensamento de modo particularmente retorcido. Neste caso Israel não é directamente equiparado ao regime nacional-socialista, sendo, inversamente, certificado aos seus inimigos locais, nas figuras do Hamas e do Hesbollah, um certo bónus relativamente ao Holocausto nacional-socialista. O argumento diz que estes e em geral os inimigos islamistas árabes de Israel não teriam cometido afinal de contas aquele crime contra a humanidade, e que portanto também não se deveria responsabilizá-los indirectamente por isso nem classificá-los nesse contexto. Precisamente os palestinianos é que quase estariam a pagar pela culpa alemã. Os alemães deveriam portanto assumir a própria culpa, em vez de descarregá-la nos palestinianos, como seus substitutos. Esta figura argumentativa entra em contacto com a versão anti-semita hardcore na medida em que inclui, expressamente ou não, a ideia de que os judeus outrora vítimas se teriam agora transformado por sua vez em criminosos assassinos de crianças.

Assim se escamoteia, no entanto, o “ódio inconsciente aos judeus” inscrito em contextos completamente diferentes por todo o mundo, as construções ideológicas anti-semitas dele decorrentes e com ele relacionadas, bem como os conflitos correspondentemente carregados, tanto do Próximo Oriente como também os relativos à actual situação de crise do capital mundial, a fim de delimitar cuidadosamente o problema a um contexto de crime e castigo especificamente alemão. Deste modo, a qualidade assassina do anti-semitismo surge a uma luz fundamentalmente relacionada com o passado e é “historicizada”, apenas com uma acentuação algo diferente da de Ernst Nolt, enquanto todas as actuais formas de manifestação desta síndrome são submetidas de preferência a uma crítica moderada ou, se fora da Alemanha, são consideradas francamente irrelevantes. Assim, porém, todos os casos ficam excluídos. Não se trata de modo nenhum apenas de um entendimento de crime e castigo da moral burguesa, mas da crítica radical das condições objectivas de constituição e dos modos subjectivos de digestão (inconscientes, bem como ideológicos), a partir dos quais se tornou possível Auschwitz. A culpa alemã e o respectivo acerto de contas não podem ser separados desta crítica radical, se não se quiser aterrar numa democrática “superação do passado” e num turismo da memória barato.

Se o dito de Adorno de que deve ser feito tudo para que tal não se repita é para ser levado a sério, daqui resulta uma dupla tarefa. Por um lado, é necessário analisar o efeito continuado da síndrome anti-semita na sociedade de mercado mundial democrática alemã, descobrir as suas formas de manifestação modificadas após, apesar e até por causa de Auschwitz e, não em último lugar, investigar o que se prepara neste aspecto sob o impacto da nova crise mundial; com uma acentuação diferente na RFA e na Áustria, por causa da História. Isto é não só o contrário de uma “superação do passado” hipócrita e arrogante, mas aqui se inclui a tematização da consciência com a qual também cá na terra é percebido o conflito do próximo Oriente e que se desloca para uma nova posição de substituição, na digestão emocional e ideológica da experiência de sofrimento do capitalismo de crise.

Aqui se revela a duplicidade e decididamente a inverdade da figura argumentativa acima esboçada. Pois, por outro lado, uma discussão da síndrome anti-semita que não a “historiciza” esterilmente, nunca pode limitá-la ao contexto especificamente alemão, sob as condições da globalização e da nova crise mundial. Também aqui se mostra a diferença entre a crítica radical e a “superação do passado” moralista burguesa. Uma superação do passado crítica tem de abranger o carácter global do “ódio inconsciente aos judeus” e as novas construções ideológicas anti-semitas. O facto de Auschwitz não se repetir mecanicamente não significa de modo nenhum que o pensamento que aí conduziu não possa ser forjado também noutro lado, com outros fundamentos e numa configuração ideológica e cultural diferente, precisamente porque tal pensamento não pode ser circunscrito à Alemanha e à Europa Central. Trata-se, portanto, de ligar a discussão do efeito continuado especificamente alemão desta síndrome com a crítica e a análise do seu surgimento noutros contextos.

Aqui provocou grandes estragos uma interpretação que, de Einzensberger até aos “antialemães”, pretendeu descobrir em toda a parte o “regresso de Hitler”. Ahmadinejad é tão pouco o regresso de Hitler como Saddam Hussein, o Irão do início do século XXI não é a Alemanha da crise económica mundial e o islamismo nas suas diversas formas não é nenhum “socialismo de Umma” análogo ao nacional-socialismo. É precisamente em tais toscas equiparações, que se encostam a uma abstracção estragada na lógica da identidade e cujos representantes se limitam a juntar numa misturada de provas aparentes empíricas não mediadas pela análise conceptual, é precisamente em tais toscas equiparações que se alimenta aquela figura de argumentação por sua vez falsamente historicizada, a qual então, inversamente, equipara precisamente Israel com o nacional-socialismo, ou pelo menos minimiza a síndrome anti-semita específica do Próximo Oriente e de outras regiões mundiais invocando os crimes contra a humanidade alemães.

Pois trata-se de uma minimização quando a este respeito se fala de uma espécie de presunção de inocência dos regimes de Ahmadinejad, do Hamas e do Hesbollah. O anti-semistismo construiu aqui, no contexto da globalização e dos “religionismos” ideológicos pós-modernos (Roswitha Scholz), uma verdadeira amálgama. Que esta se tenha concentrado na condição estatal judaica de Israel, com uma emocionada demarcação “religionístico”-cultural, em vez de com uma clientela rácica pseudo-“científico-natural”, tal facto já constitui a especificidade da sua ideologia de aniquilação, que de resto, com a explicação do actual desabamento da crise, como Ahmadinejad a formulou, a partir de uma conspiração mundial judaica do capital financeiro, se liga também de novo ao padrão europeu clássico e à sua disseminação por todo o mundo. Também isso é minimizado pelos relativizadores da História, apesar de se poder comprovar evidente e documentadamente.

A discussão da história alemã e do seu efeito continuado sob condições modificadas deve ser, portanto, analiticamente separada da discussão das formas de manifestação de um anti-semitismo pós-moderno, como ideologia capitalista de crise, noutros contextos históricos e culturais como no Próximo Oriente, mas estas diferentes manifestações devem ser simultaneamente referidas umas às outras como parte integrante da síndrome conjunta global e na sua relação recíproca relativamente ao conflito por procuração do Próximo Oriente. Aquela presunção de inocência minimizadora, pelo contrário, torna a Alemanha o umbigo do mundo enquanto sua contraparte, só que mais uma vez ao contrário.

O resultado é diferente do que se pretende. Pois a inocência histórica ingenuamente invocada dos palestinianos e dos regimes islamistas ignora o seu carácter e não só; ela também aponta menos para a culpa histórica da Alemanha e muito mais para a culpa actual da auto-afirmação israelita contra os regimes que proclamam a sua aniquilação como Estado. A definição directa ou indirecta dos judeus como “povo criminoso” assassino de crianças não desloca o centro das atenções para a culpa histórica alemã, pelo contrário, relativiza precisamente esta de um modo bastante indecoroso. É neste preciso sentido que se relaciona também com o “anti-capitalismo” hardcore abertamente anti-semita quanto à importância do holocausto.

Uma viragem particularmente bizarra assume a figura argumentativa de que aqui tratamos quando a fundação do Estado judaico é problematizada relativamente à sua localização geográfica, com um olhar igualmente ingénuo. O presidente do Irão, Ahmadinejad, como é sabido, não só negou o Holocausto, mas ainda acrescentou: se é verdade que houve um crime alemão contra os judeus, o que ele não acredita, então no mínimo o Estado de Israel devia ser deslocado para a Alemanha, como castigo adequado. Esta “proposta”, naturalmente, não é séria nem para ser levada a sério, pelo contrário, não passa de propaganda retórica, no sentido da vontade de aniquilação do Estado judaico real. A tagarelice da clientela dos blogs e outras expressões mediáticas da esquerda “crítica de Israel” tiveram o descaramento de considerar ocasionalmente este jogo retórico, com uma “correcção da História” segundo o padrão da ficção científica, como se fosse um pensamento “no fundo legítimo”, ainda que impossível de realizar.

A “experiência de pensar” que Israel poderia ser desenraizado da sua história real e da sua posição geográfica, a fim de rectificar o decurso do século XX, afastar do mundo um escândalo e oferecer a paz ao Próximo Oriente, só pode ser simulada para perceber toda a sua perfídia. Como se poderia imaginar tal desenraizamento? Os judeus do antigo Estado de Israel teriam então naturalmente de entregar à ONU os caças, os mísseis, os tanques, as peças de artilharia e as armas ligeiras, que assim se tornariam particularmente despropositados; e, por maioria de razão, entregar as bombas atómicas, para eles ainda menos adequadas, à Agência Internacional de Energia Atómica, que desactivaria e desmantelaria profissionalmente todo o arsenal. Talvez então também o Irão tivesse a ganhar em renunciar a um programa de armamento atómico.

Seria permitido aos judeus, abastecidos com sopa pelas milícias do Hamas e do Hesbollah assim tornadas pacíficas, voltar a descobrir a sua velha paciência de Job e esperar sentados nas malas e mochilas, até chegarem os alemães dispostos para a expiação, a fim de embarcá-los para a sua reserva em Mecklenburg-Vorpommern. Aí eles poderiam, livres da ameaça de rockets artesanais a partir da Dinamarca ou da Polónia, entregar-se despreocupadamente ao folclore judaico, por exemplo, a música klezmer em toda a parte adorada, para conseguirem um rendimento modesto mas suficiente através do turismo; não em último lugar dos emiratos árabes, cuja casta dominante já sempre se vai tornando amiga de viajar e curiosa dos costumes de todo o mundo. Mas, presumivelmente, os mal agradecidos judeus recusam também esta amável proposta, simplesmente porque não querem a paz.

Este jogo intelectual, que evidentemente instrumentaliza a culpa alemã, é sob diversos pontos de vista fingido. O inconsciente colectivo anti-judaico arranja assim espaço, uma vez que a existência de Israel como Estado armado é pensada como autêntica pedra de escândalo, para condenar os judeus, se não a serem reconduzidos ao papel hereditário de vítimas, pelo menos a uma vida inofensiva e desamparadamente paciente, num mundo de crise enriquecido de anti-semitismo. Era assim que se gostaria; possivelmente ainda com a simpática ideia de neles despertar antipatia contra a posição de um protector condescendentemente paternalista, com o que toda a suspeita de ressentimento anti-semita estaria então afastada. A cereja em cima do bolo, porém, nesta aprazível fantasia, está em que o “castigo” alemão consiste precisamente em realizar o programa do Hamas e do Hesbollah. Deste modo, todos os intervenientes históricos e actuais se teriam afirmado, à excepção dos judeus. Mais completamente não se pode pôr em dia, nem sequer na imaginação, o problema que assim se dá a conhecer sem qualquer ambiguidade.

Um coração pelo regime da Sharia

Poder-se-ia pensar que já vai chegando e bem; mas não chega, nem de perto nem de longe. Pois a sensibilidade dos corações cansa-se já não apenas com o carácter infame do Estado judaico assassino de crianças, mas também, de maneira algo diferente, com a avaliação dos seus inimigos, que em debates anteriores apenas de passagem vinha à fala. Já ficou claro que o carácter especificamente anti-semita destes regimes é minimizado ou negado. Também não tenho nenhum prazer em voltar a citar mais uma vez a Carta do Hamas que se pode consultar na Internet e que, como é sabido, não só proclama a aniquilação de Israel, mas também simplesmente declara com palavras rebuscadas que o assassinato dos judeus é uma obra de acordo com os ensinamentos de Deus. Também se sabe há muito tempo que a velha e miserável obra anti-semita O Protocolo dos Sábios de Sião já desde antes da tomada do poder pelo Hamas circula como material para as escolas palestinianas e não só, material de resto financiado pela União Europeia, que supostamente nada sabe. Pretender documentar tudo isto mais uma vez em pormenor seria o equivalente a uma patética tentativa de justificar “ter permissão” de demonstrar o anti-semitismo flagrante em geral, colocando assim a consciência anti-israelita numa posição de juiz, ao qual seria permitido ponderar se pretende reconhecer a matéria de facto ou não.

De facto, também a parte da esquerda aparentemente apenas contrária à guerra, que não pretende alinhar com o “anti-capitalismo” abertamente anti-semita, se recusa, de modo obstinadamente carrancudo, a levar a sério o carácter anti-semita do Hamas, na sua condenação da guerra de Gaza. Procede-se como se não fosse evidente que simplesmente se tomou partido por este regime; mas, da mesma assentada, o seu propósito de aniquilação anti-semita é sistematicamente minimizado. Já não se trataria verdadeiramente de um anti-semitismo eliminatório, que aqui levanta a cabeça, mas apenas de uma espécie de exagero de interesses legítimos, exagero pelo qual, de resto, Israel mais uma vez seria também culpado, em virtude da sua política de confronto. Não se poderia levar muito a sério a Carta do Hamas, pelo contrário, Israel é que deveria apenas procurar o compromisso, reconhecendo a situação de facto; assim já se relativizariam os propósitos de aniquilação e poderia desencadear-se um processo de negociação. O entrave principal à domesticação da ideologia anti-semita do Hamas estaria nos condutores da guerra em Israel.

Para poder avaliar a importância deste murmúrio, basta um olhar às reacções emocionadas das mesmas pessoas logo que o propósito declarado do Hamas, mesmo que apenas por alusão, é virado contra si mesmo. No artigo já citado (verdadeiramente apenas um comentário) para um jornal brasileiro sobre a guerra de Gaza com uma conclusão pró-israelita, apontara eu a aniquilação do Hamas e do Hesbollah como pressuposto para a melhoria da situação, ou seja, a dissolução destas organizações de poder, a destruição da sua logística e o desarmamento das suas milícias, como se teria podido deduzir. É impressionante a reacção que o substantivo “aniquilação” neste contexto suscitou em diversos comentadores. Mesmo em tomadas de posição, blogs etc. com posicionamento supostamente crítico do Hamas esta palavra foi associativamente carregada tão imediata como inconscientemente e entendida como um grave deslize. Portanto, enquanto o conceito de aniquilação inequivocamente formulado na declaração do Hamas contra o Estado judaico surge como frívolo e inocente, a mesma palavra relativa ao Hamas assume por si o odor do Holocausto e de todos os grandes crimes da história da modernização, como se com ela se propagandeasse a extinção dos seres humanos nos países islâmicos em geral. A delicada sensibilidade e permeabilidade ao ruído torna-se aqui na insensibilidade e no eclipse da própria consciência; em simples meio para fazer surgir a sentença mais crua sobre o assunto como expressão de requinte. Mais crassa e traiçoeiramente não poderia expressar-se a assimetria das interpretações do conflito e da inconfessada tomada de partido comovida a favor do regime anti-semita de Gaza.

A mesma rabulice crispada na caracterização deste regime prossegue na avaliação das relações de poder internas. Até o facto de o Hamas ter chegado a uma dominação exclusiva ditatorial em Gaza, através duma guerra civil sangrenta contra a Fatah, e de ter usado o estado de guerra anómico para assassinar em série os quadros concorrentes da anterior Intifada é submerso numa média luz inverosímil. A Fatah, antes celebrada como força anti-imperialista, ter-se-ia tornado completamente corrupta, a criminalidade teria aumentado e com o Hamas ter-se-ia voltado a poder andar novamente nas ruas em segurança; um argumento fatal a que sempre se recorreu para a justificação populista dos regimes autoritários em estado de emergência, incluindo o fascismo e o nacional-socialismo.

Se a corrupção habitual, sob o pano de fundo de processos de dissolução social, se transforma no terror fanático da virtude, será de esperar que na perspectiva da crítica emancipatória um tal desenvolvimento não possa ser considerado como melhoria. Mas uma chamada esquerda, pela qual a situação foi subsumida totalmente na condenação emocionada dos ataques militares israelitas, teve de descobrir também que o seu coração bate pelo regime da Sharia, o qual, em Gaza e noutros sítios, submete as mulheres de modo específico ao “patriarcado pós-modernamente asselvajado” (Roswitha Scholz), persegue a homossexualidade e ameaça de morte o pensamento marxista. A desavergonhada legitimação do Hamas como “poder da ordem” mostra apenas como uma esquerda que assim raciocina vendeu a sua alma de crítica social.

Assim, também não admira que se descubra e aprove a veia social do Hamas vitorioso. Neste aspecto, ocorre a mesma identificação contraditória que no enquadramento do conflito na polarização capitalista mundial. Enquanto uma interpretação “antialemã” pró-ocidental equipara a rede social islamista com o pretenso “socialismo de Umma”, na lógica enganadora da identidade imediata com o nacional-socialismo, os minimizadores do Hamas, pelo contrário, gostariam de reconhecer aí uma espécie de quase-“socialismo” positivo, possivelmente da gloriosa multitude. Na realidade, não se trata aqui nem de uma cooperativa popular racista de Estado social, nem de uma transformação emancipatória mesmo que muito remota das relações de reprodução em quebra, mas sim de um paternalismo específico da barbárie islamista e dos seus warlords ideologicamente fanatizados. Este reverso do regime da Sharia alimenta-se única e exclusivamente dos donativos em dinheiro da irmandade muçulmana egípcia e dos ayatollahs iranianos, contrabandeados nas remessas para Gaza, flanqueado pelos voluntários da ONU que estão sob estrito controlo do Hamas. Assim se financia o soldo das milícias, enquanto reprodução “social”, bem como uma esporádica esmola aos pobres, e um sistema de ensino, no qual o anti-semitismo islamista se tornou a disciplina principal. Ver neste autoritário paternalismo de sopa dos pobres e de esmolas atravessado de ideologia uma “ancoragem social” positiva do Hamas releva do mais acabado serviço da decadência democrática de esquerda.

Nem pode faltar que também o fetiche da democracia burguesa seja chamado em defesa do Hamas. Afinal de contas o Hamas obteve a maioria em eleições livres, tornando-se assim a expressão autêntica da vontade popular palestiniana em Gaza; uma argumentação que se move evidentemente para o nível de reflexão do século XVIII. Assim se poderia, naturalmente, considerar legítima qualquer ditadura de estado de emergência livremente eleita. Na verdade, revela-se neste e noutros casos a democracia como “forma vazia” que, enquanto vontade popular numérica, pode assumir qualquer conteúdo arbitrário. Então também a eutanásia, as leis racistas ou a lapidação seriam justificadas, desde que tivessem sido sancionadas por uma decisão maioritária.

Por detrás do reconhecimento da legitimação formal do Hamas espreita a inconfessada simpatia pelos conteúdos da sua ideologia assassina. Na verdade a decisão da maioria a favor do Hamas em Gaza significa única e exclusivamente que aqui não há população civil em si inocente. Entretanto, mesmo assim, acumulam-se os relatórios sobre desesperadas tentativas de partes da população de Gaza para se livrarem de ser abusados como escudos humanos pelas milícias do Hamas, enquanto estas últimas denunciam tal resistência como “cobardia” e “colaboracionismo”, a fim de contra ela mobilizarem o terror islamista da virtude, através de intimidações e execuções. Que beleza que este procedimento seja considerado, pelo menos pelos amigos da paz de esquerda, sob o ponto de vista da legitimidade democraticamente assegurada.

O determinismo da consciência e o papel dos heróis

Na medida em que a “vontade popular” maioritária em Gaza se bateu pelo lado do regime do Hamas, tratou-se de uma decisão consciente, pela qual os seus autores podem ser responsabilizados. Ora a “consciência social” da esquerda ergue aqui o seu protesto revoltado. A população de Gaza está na miséria extrema, não tem água nem medicamentos e já quase não tem comida. Na maneira de dizer das estratégias de minimização da esquerda, a justificação desta decisão reside na situação de miséria social. O facto de administração israelita ter ordenado pausas nos combates para permitir o transporte de alguns bens alimentares é considerado como mero cinismo. Assim, os palestinianos mal aguentariam o sofrimento de terem sido simplesmente condenados a entregar o seu destino ao Hamas, como última “força da ordem”. Um pouco de anti-semitismo e um pouco de terror da Sharia seriam devidos à pressão do sofrimento e deveriam ser entendidos a partir desta determinação.

A lógica desta argumentação vai dar em que, em última instância, se recusa às pessoas qualquer liberdade de decisão, na sua reacção à necessidade social. Estão aqui paralisados, não conhecem mais nada. Na verdade, precisam menos de pão do que da identidade ideológica que lhes fornece o Hamas. O que é notável nesta legitimação determinista é que ela vem duma esquerda que no resto tem sempre à mão a acusação de “objectivismo”; por exemplo, relativamente à teoria da crise. Na sensibilidade para com o regime do Hamas, pode-se argumentar objectivistamente, contra a melhor consciência.

O determinismo ideológico prossegue na avaliação das possíveis consequências da guerra, no que diz respeito ao estado de consciência dos palestinianos. Até mesmo aquela parte da esquerda opositora da guerra contra o Hamas, que minimiza um pouco menos este regime e que, em nome da “solidariedade crítica” com Israel, reconhece ao Estado judaico, pelo menos em princípio, o direito à auto-defesa militar, sucumbe a este modo de pensar determinista; a maior parte das vezes flanqueado pela referência mais uma vez minimizadora à sempre verificada superioridade militar de Israel, enquanto as formações armadas islamistas nas fronteiras não teriam assim tanta importância e os ataques com rockets não passariam de alfinetadas. A eliminação ou mesmo um dano severo do Hamas causariam apenas novos potenciais de ódio, Israel só poderia perder politicamente a guerra das imagens e das ideias e poderia apenas promover a sua auto-destruição com as consequências internas dos ataques militares.

A estrutura lógica desta argumentação consiste em que cada acção determinada com meios militares contra as novas organizações armadas de poder do islamismo na fronteira directa é interpretada como um marco no caminho da auto-destruição de Israel, assim se negando, de facto, o direito a uma força militar própria, admitido em abstracto; em todo o caso, um desejo profundo do “ódio inconsciente aos judeus”. A consequência só poderia ser que Israel, por causa de uma justa igualdade de oportunidades, atacasse o Hamas e o Hesbollah no máximo com armas ligeiras, ou até que renunciasse de todo à opção militar e deixasse em paz estes regimes até eles estarem providos de armas melhores (o que de facto já acontece). Percebe-se que esta figura de pensamento não tem nada a ver com a crítica no interior de Israel aos aspectos ilegítimos dos procedimentos militares.

A suposta determinação de sempre novos potenciais de ódio bate-se furtivamente pelo lado dos regimes do islamismo anti-semita e implica a inutilidade a priori de todas as tentativas de combatê-los de outra maneira que não seja o reconhecimento amistoso. Vistas assim as coisas, o melhor seria que a barbárie islamista “vencesse”, que fosse cortado o braço armado de Israel e que a sua existência ficasse em última instância sujeita a negociação. Só poderia haver sossego para a consciência determinada quando o objecto da sua cólera desaparecesse dos ecrãs. A pretensa preocupação com a auto-destruição de Israel vai dar numa variante da hostilidade de princípio a Israel. Se assim fosse de facto, se todos os governos israelitas tivessem as mãos atadas pelas intervenções da política mundial, se a opinião pública mundial, com a ajuda activa dos amigos da paz de esquerda, ficasse sempre irritada com qualquer acção militar do Estado judaico, e se a população palestiniana, perante qualquer ataque contra o Hamas ou o Hesbollah, não pudesse reagir senão com uma mais forte identificação com a barbárie islamista — então Israel naturalmente teria de perder sempre.

Neste caso, no entanto, a preocupação dos críticos amigáveis de Israel revela-se como self-fulfilling-prophecy [profecia de auto-cumprimento]. Um determinismo assim abstracto também poderia então ser lançado contra a crítica social radical. Pois se uma reacção só pode provocar uma contra-reacção ainda maior, se qualquer combate contra a hidra pode fazer crescer nesta sempre novas cabeças, se qualquer crítica da ideologia apenas reforça o seu objecto, então resta apenas deixar tudo com está, porque a consciência de fetiche está totalmente determinada e as próprias pessoas simplesmente estão doentes. A “paz eterna” realizar-se-ia assim, simplesmente, na forma de uma capitulação incondicional perante a facticidade realmente existente. O mundo é o que é; e o que é, precisamente como o capital mundial, é mais ou menos o anti-semitismo islamista, enquanto o escândalo de Israel, pelos vistos, deve ser menos determinado. O que noutro caso não se pode admitir sem o próprio desistir, para este caso particular deve ter validade, porque o determinismo aqui constitui a desculpa mais conveniente para encobrir a sentida tomada de partido anti-israelita.

Assim, muitos críticos de esquerda de Israel não são de modo nenhum pelo Hamas, pois então. Eles apenas acham que não se deve dramatizar o anti-semitismo islamista nem demonizar este regime, que este mantém a “força da ordem” contra a corrupção, que estará socialmente ancorado e de resto será a expressão da vontade popular democrática, que os palestinianos sofredores de facto nunca conheceram outra coisa senão carregar o potencial de ódio ideológico, e que Israel também só perderia e se destruiria a si próprio se não deixasse em paz os poderes que aspiram à sua destruição; no entanto, tudo isto não constitui de modo nenhum uma tomada de partido a favor do Hamas. Não se diz nada, simplesmente fala-se. A afirmação de que este raciocínio de “compreensão” pinga, para não dizer fede a favor do regime anti-semita pós-moderno da Sharia tem de ser rejeitada com séria indignação. Isto naturalmente apenas prova que aqui existe uma decisão que já não se quer nem pode fundamentar, pelo contrário, já apenas procura desesperadamente justificações de cuja manifesta inverdade não é preciso envergonhar-se, porque a vontade inconsciente já regulou tudo antes de qualquer fundamentação.

Os corações sensíveis permitem-se, assim, não apenas indignar-se contra os assassinos de crianças de Gaza, mas também obter alguma coisa para os seus inimigos. A peça que tem um vilão tem também um herói; assim é mais uma vez. Como que por si e mais ou menos abertamente atribui-se o papel de heróis às milícias do Hamas e do Hesbollah e aos seus caciques ideológicos. Eles figuram imaginariamente como orgulhosos “combatentes” de um romance de Karl May, aos quais o Kara ben Nemsi da esquerda alemã também não pode negar a sua admiração. Assim se descobriu o termo “resistência” para a sua apresentação na imprensa burguesa e também em comentários de esquerda, termo que radica no vocabulário das lutas sociais. O mesmo conceito, de resto, já fora tentado em partes da imprensa de esquerda para os bombistas islamistas sob a ocupação do Iraque pelos E.U.A., apesar de estes representarem simultaneamente fracções de uma guerra civil e atingirem sobretudo a muito invocada população civil, incluindo muitas crianças.

Na medida em que, por ocasião das reacções à guerra de Gaza, tais imaginações de “combatentes” e de “resistência”surgiram também na inconfessada tomada de partido de uma posição de equidistância aparente face a Israel e ao Hamas, por maioria de razão desmentiram a pretensa “terceira posição”. Não é a partir de uma nova formulação da teoria crítica e da análise da crise da sociedade mundial, mas sim a partir de comoções pré-teóricas e de disposições emocionais que organizações como o Hamas e o Hesbollah ou outros fenómenos semelhantes passam na imaginação da esquerda global para o lugar do velho aparelho conceptual da “luta de libertação”, da “resistência social” ou até do “socialismo”, ou de algum modo são relacionados com estes, por muito grotesca que essa classificação também seja, obviamente. Uma tal degradação ideológica da esquerda, que vai bem além da fracção de linha durado “anti-capitalismo” tornado abertamente anti-semita, carece de uma explicação; ela já não pode dever-se apenas ao efeito continuado do velho “anti-imperialismo” tornado obsoleto.

O conflito por procuração e a desmoralização da crítica do capitalismo

A análise do capital mundial baseada na teoria da crise, que já desde os anos noventa esteve ligada a uma crítica radical das novas guerras de ordenamento mundial do “imperialismo ideal global e de crise” sob direcção dos E.U.A., foi pelos vistos entendida e recebida de modo altamente unilateral, se agora, para alguns comentadores de esquerda, a mesma tomada de posição pró-israelita na guerra de Gaza surge como incompreensível ruptura com a posição assumida alguns anos antes. Correspondendo aos factos subjazia então o tema de debate no confronto com a parte da esquerda virada “pró-ocidental” que no espaço de língua alemã dá pelo nome de “antialemães” e que desde 2001 se passou de bandeiras desfraldadas para o lado dos guerreiros do ordenamento mundial e para a glorificação despudorada da “civilização” capitalista. Já nesses debates não ficou qualquer dúvida de que a crítica radical do capitalismo de crise tem de incluir a crítica igualmente radical da barbárie islamista, como sua parte integrante, e com esta também a crítica radical de uma oposição que ainda pretendia continuar a legitimar-se no clássico sentido “anti-imperialista”.

É verdade que este reverso do mesmo confronto foi percebido e pelo menos superficialmente recebido; no entanto, na polémica de então não ficou completamente esclarecido, caso contrário não seria agora possível que a guerra de Gaza fosse vista por certos receptores no mesmo plano que a guerra de ordenamento mundial imperial global e que as conclusões pró-israelitas fossem vistas como passagem para as posições “antialemãs” pró-ocidentais. Daí que a recente tomada de posição pró-israelita é denunciada como “belicismo”, apesar de este conceito nos debates a partir de 2001 estar claramente ligado à guerra de ordenamento mundial, e não ser devido a um pacifismo de princípio, nem a uma rejeição de princípio de qualquer intervenção militar de Israel contra o islamismo anti-semita, o qual, aliás, só depois da guerra do Iraque em 2003 pôde emproar-se como poder pós-estatal armado nas fronteiras de Israel.

Como já a confusão de método e de conteúdo do conceito de “terceira posição” tinha mostrado, agora a crítica da guerra de ordenamento mundial é associada a uma “crítica de Israel” que minimiza a síndrome anti-semita e esconde ou invalida de facto o carácter dual de Israel. O debate polémico com os “antialemães” tinha-se orientado contra a identificação positiva de Israel com o capital mundial e contra a denúncia de qualquer crítica da guerra de ordenamento mundial como “anti-semita”. O que se aplicava também à discriminação racista da população palestiniana no movimento dos colonos nacionalistas, ou no fanatismo dos ultra-ortodoxos em Israel, crítica que era também registada como “anti-semitismo” pelos “antialemães”, na sua maneira de pensar maniqueísta.

Porém, é algo completamente diferente se entretanto a recepção desta crítica às manifestações capitalistas e construções ideológicas habituais, que também ocorrem no interior de Israel, se transforma numa “crítica a Israel” geral, e se a pretensa “solidariedade crítica” se transforma numa comovida condenação da guerra de Gaza, que de modo nenhum pode ser reduzida a deficiências internas de Israel. Trata-se aqui não só da ignorância relativamente às relações de poder e à constelação do conflito modificadas no Próximo Oriente, mas também daquele deslocamento da percepção na esquerda que equivale a um deslocamento de terras ideológico. Isto aplica-se à já esboçada percepção tanto de Israel como dos seus inimigos locais. Aqui os “antialemães” acabam por não ter razão, pelo contrário, eles contribuíram para este desenvolvimento, com a sua interpretação ideologicamente distorcida.

Diferentemente da posição aqui representada, a crítica da guerra de ordenamento mundial que se apresenta de modo anacronicamente “anti-imperialista” desde 2001 que minimizou o anti-semitismo islamista ou até argumentou mesmo com estereótipos anti-semitas. O que com razão foi designado como “crítica truncada do capitalismo”, que penetra bem dentro do movimento de crítica da globalização, continuou desde então a transformar-se apressadamente. Há muito que, em relação ao conflito do Próximo Oriente, deixaram de se perfilar claramente uma posição “do antigo anti-imperialismo” contra uma posição “antialemã”. Enquanto os antialemães, pelo que me é dado ver, se decompuseram amplamente e se diferenciaram em todas as direcções possíveis e impossíveis (até ao neoliberalismo declarado), entretanto, o deslocamento da percepção relativamente à função de representante deste conflito atravessou transversalmente todo o restante espectro da esquerda, situação em que a comoção anti-israelita e a simpatia meio escondida meio declarada para com o Hamas já só apresenta um certo ponto de contacto com o antigo “anti-imperialismo”, mas sem nele ficar absorvida de modo nenhum. O impulso para uma “libertação nacional”, em todo o caso já sempre questionável, ficou muito claramente sem objecto histórico, na Palestina tal como em todo o antigo “terceiro mundo”. Hoje já não se trata tanto deste paradigma de uma época passada tornado anacrónico, mas sim de uma digestão ideológica da nova situação social mundial. Precisamente por isso não há quase nenhum agrupamento ou corrente de esquerda que não tenha sido atingido.

Esta polarização no interior da esquerda no sentido mais lato, por ocasião da guerra de Gaza, não se pode explicar a partir de uma qualidade especial deste conflito, mas sim, apenas, como reacção irracionalmente carregada ao desabar totalmente inesperado da crise global de alcance histórico. Não é por acaso que a violenta comoção anti-israelita na fase “quente” da guerra se inflamou poucas semanas após a “segunda-feira negra” nas bolsas mundiais e foi de par com um alastramento dramático da chamada crise financeira. Associado a isto esteve o fim miserável da era designada como neoliberal e da administração Bush. A referência à guerra contra o Hamas e o pânico da crise dificilmente mantido a coberto, no intermundium inseguro entre Bush e Obama, parecem ter-se fundido num estado de paranóia total, precisamente nas cabeças de uma esquerda que ficou ela própria desnorteada.

Perante a nova crise económica mundial que se inicia, juntamente com o fetiche do capital, com o seu movimento de valorização e com a razão burguesa que sintetiza esta relação mundial, também o pensamento da esquerda, ele próprio ligado à história da modernização capitalista, esbarra no seu limite histórico; agora, porém, apenas na imediatidade do horizonte do acontecimento actual. A razão iluminista do capitalismo, nunca suplantada nos teoremas e ideologias marxistas ou pós-modernos de esquerda, decompõe-se nas suas oposições polares internas, que não podem ser superadas no terreno destas “formas de pensamento objectivas” (Marx). Tal como a valorização do capital, há muito substancialmente corrompida, pôde prosseguir nos últimos vinte anos apenas como fenómeno virtual da economia das bolhas financeiras, também uma crítica do capitalismo, há muito igualmente corrompida, nesse período se pôde manter em vida aparente, apenas no coma espiritual de uma virtualidade pretensamente continuadora dos velhos paradigmas. Ambas pertencem uma à outra e, portanto, ambas batem agora juntas no fundo, ou seja, revelam-se como inverdadeiras e irreais.

Os espectros da esquerda tinham rejeitado a teoria de um limite interno objectivo da valorização do valor porque, inconscientemente, tinham em consideração a sua ligação ao contexto da forma capitalista; desde a ontologia do “trabalho”, passando pela forma do sujeito e da política, até à relação de género objectivada do moderno patriarcado produtor de mercadorias. Na mesma medida em que este contexto da forma se desfaz na dinâmica historicamente amadurecida da sua auto-contradição interna objectiva, revela-se também violentamente a sua essência como “sujeito automático” (Marx) de uma socialização negativa e destrutiva. A esquerda tinha escondido elementos centrais da crítica de Marx e tinha ontologizado sempre a forma fetichista básica da modernidade, ou, quando muito, tinha-a percebido como mera “dissimulação” de uma factualidade “verdadeira”, a qual deveria consistir essencialmente em relações de vontade subjectivas de exploração e de dominação, em vez de reconhecer estas como meras funções da relação fetichista social sobrejacente. Quando agora embate historicamente num nível de desenvolvimento demasiado maduro dessa relação, esta esquerda, embaraçada, já não sabe o que deve ser “o capital” em geral.

Correspondentemente lastimáveis são as ideias de transformação social. O velho programa de uma mera nacionalização “socialista” das categorias capitalistas, surgido no contexto da “modernização atrasada”, está historicamente esgotado; as actuais medidas de nacionalização do pragmatismo de crise em desespero não têm nada a ver com esse programa e também não são levadas a sério nesse sentido. O que restou como objectivos de esquerda na época do capital virtualizado foi um anémico keynesianismo residual saído do baú de velharias da economia política e uma magra infusão de economia de alternativa de nova pequena burguesia (produção cooperativa em nichos etc.), possivelmente flanqueada por trapalhadas monetárias à moda de Silvio Gesell, ou a ilusão de um rendimento mínimo público (em última instância também ele keynesianamente definido). Foram precisamente tais formas tristes de objectivos “socialistas” que não puderam deixar de murchar a olhos vistos no tempo da economia das bolhas financeiras, enquanto para a consciência da virtualidade parecia ser “tudo possível”, sobretudo o mais disparatado.

Já a meio do último grande surto de crise, divagava o filósofo do direito Uwe Justus Wenzel, ainda a propósito das perspectivas correspondentes, por ocasião dos duzentos anos do nascimento do utópico (anti-semita) Proudhon: “A Reserva Federal americana… não baixou há pouco a taxa de juro directora quase até zero? Se isto ainda é o espírito do capitalismo, então é de um capitalismo cooperativo, pós-capitalista, como Pierre-Joseph Proudhon o imaginou” (Neue Zürcher Zeitung, 15.01.2009). Isto não é para rir, pois o mesmo parece ser o pensar a duas cabeças da consciência keynesiana e da economia alternativa, numa crítica do capitalismo desmoralizada tanto teórica como praticamente. Naturalmente que, apesar disso, se sabe ou se pressente que a crise mundial, qualitativamente nova, em breve porá fim a toda esta tralha ideal.

O único alívio prometido ainda é a apresentação de bodes expiatórios, culpados, ávidos exploradores e sujeitos de dominação etc. De facto não há falta disso, mas, simultaneamente, faz-se notar na consciência social global uma reflexão que de certa maneira põe a ridículo tal reducionismo e aponta para o carácter objectivo do desastre. Perante a maturidade do desenvolvimento e da crise capitalista isto realmente já não é nada. Até a esquerda mais estúpida tem de ter em conta de algum modo este ponto de vista. Porém, quando o reconhecimento da dimensão sistémica da crise não é formulado como crítica da constituição de fetiche, só pode desembocar numa afirmativa resignação ao destino. Por outro lado, esse é o destino da própria crítica do capitalismo da esquerda desmoralizada, que não quer passar o Rubicão, porque está identitariamente ligada às formas fetichistas basilares e receia afastar-se muito da respectiva consciência normal.

Neste ponto veio a calhar a possibilidade de descarregar emocionalmente no conflito de Gaza a própria miséria. A subjectivação da crise sistémica, aliás susceptível de cair em ridículo, pôde, por assim dizer, ser mais uma vez indirectamente invocada, na medida em que, numa acção de deslocamento mental, a guerra de Gaza assumiu imaginariamente uma função de substituto para a ameaça da crise, e neste contexto o Estado dos judeus foi colocado como substituto da relação de capital em geral; não apenas perante os representantes do “anti-capitalismo” tornado abertamente anti-semita, pelo contrário, também, matizadamente mas com a mesma comoção, junto de grande parte da esquerda que dele (ainda) se distancia. No aspecto psicanalítico poder-se-ia dizer que a esquerda historicamente decadente projecta o ódio a si mesma e o desprezo por si mesma no Estado de Israel, perante a sua própria falha na nova crise sistémica, assim se aliviando. Se com o desenvolvimento da crise também o conflito armado de Israel com o Hamas e o Hesbollah se desenvolve, nesta digestão projectiva o anti-israelismo afectivo crescente pode ajudar a encobrir os deficits de uma crítica do capitalismo subjectivista, que deixou de ser possível fundamentar teoricamente.

Inversamente, o mesmo mecanismo projectivo também se pode decifrar no posicionamento de carga notoriamente positiva perante os regimes anti-semitas islamistas pós-estatais nas fronteiras de Israel. Para se poder compreender este contexto é preciso um rápido esboço do sujeito social ideologizado portador da crítica do capitalismo tradicional e da pós-moderna. À subjectivação de esquerda do capital, no sentido de uma mera vontade de exploração da “classe dominante” de acordo com o seu “poder de disposição”, correspondia sempre a construção de um contra-sujeito ontologicamente fixado no “trabalho” eterno, que seria subjugado pelo capital (entendido como grupo de sujeitos) apenas externamente. Assim, o “trabalho” não era reconhecido como abstracção real especificamente capitalista e a constituição de fetiche moderna era completamente mal interpretada. O paradoxal “sujeito objectivo” classe operária não podia ser “em si e por si” senão a máscara de carácter do “capital variável”; e o movimento operário histórico, para irritação de Marx, nunca se comportou senão como tal. A oposição social entre capital e trabalho, portanto, nunca marcou qualquer fundamentação ontológica da crítica do capitalismo, pelo contrário, representou apenas a forma do movimento imanente do fetiche do capital, na forma da luta de classes. Emancipatório seria apenas o romper do contexto da forma comum; e a esse ponto nunca se chegou até hoje.

A nova esquerda, desde 1968, em vez de reconhecer e rejeitar a questão falsa e afirmativa de um “sujeito objectivo” ontologizado, virou e revirou sucessivamente a velha fórmula. Se, no caso, cada vez mais foram sendo procuradas todas as possíveis sub-rogações desse sujeito, desde os “povos” da periferia, passando pelos “grupos marginais” (Herbert Marcuse) nos centros, até às mulheres, de acordo com uma ontologia da “feminilidade”, ou aos suportes de uma economia de subsistência imaginária, isso remete para o facto de o velho sujeito do “trabalho” se ter tornado obsoleto, sem que se tenha reflectido sobre a problemática que aí assoma. O desvanecer da ontologia do “trabalho” e a queda empírica do sujeito de classe objectivo a ela referido representam apenas o reverso do limite interno absoluto da valorização, atingido com a terceira revolução industrial. A aparente capacidade de suporte do paradigma da luta de classes tinha o seu fundamento na capacidade do capital para a acumulação sem limites, isto é, para transformar “trabalho” em mais-valia. A queda do “trabalho” e da luta de classes foi, portanto, equivalente à queda da produção de mais-valia real e, com ela, do sistema de referência fetichista comum.

O pós-operaismo, influente pelo menos nos tempos mais recentes do movimento, em vez de perceber este contexto, criou uma ontologia completamente vazia do contra-sujeito objectivo imaginado, na figura da chamada multitude, que significa tudo e nada.Este ponto final e conceptualmente fundeiro do velho paradigma já não é mediado com nada e pode, portanto, ser preenchido quase arbitrariamente com conteúdos e expressões de subjectividade da decadência capitalista e com igual arbitrariedade carregado de significado. Simultaneamente, esconde-se atrás da decadência do pensamento da luta de classes da ontologia do trabalho, com todas as suas sub-rogações e aberrações imaginativas, o interesse concorrencial perfeitamente descarado de uma posição social que apenas muito recentemente foi posta a descoberto em parte. O processo de socialização capitalista tinha produzido uma nova e ampla classe média com qualificações académicas, cuja existência económica depende da absorção de mais-valia real produzida. Com a ruína da substância do trabalho, esta existência, tal como toda a reprodução capitalista, fica a pairar no ar e só pôde ser prolongada nos últimos trinta anos através do crédito público e da economia das bolhas financeiras.

A esquerda e os chamados novos movimentos sociais, correspondendo às mudanças sociais devidas ao processo de crise gradual, desde 1968 até hoje representaram no essencial um movimento de classe média, que de início pretendeu ligar-se intelectualmente à ideologia obsoleta do marxismo do movimento operário, mas que, através da imaginação de sub-rogações do velho “sujeito objectivo”, na realidade fez progressivamente do seu interesse próprio a medida das coisas. Na nova crise económica mundial iniciada, que repentinamente agrava e dá a conhecer todas as contradições, vem ao de cima a passagem da precarização à queda do capital humano academicamente qualificado, como ideologia manifestamente de classe média, que ameaça desencadear todas as fúrias da consciência de crise da nova pequena-burguesia.

Quando os interesses de sobrevivência precarizada da classe média e, com eles, conceitos duvidosos de keynesianismo residual e de economia alternativa neo-proudhoniana ocupam o lugar da crítica radical da forma do valor, do fetiche do capital e da relação de género capitalista, então o gritante deficit deste pensamento regressivo, que não consegue enxergar-se a si mesmo, tem de ser fantasmaticamente revestido. O sempre presente padrão de explicação da crise classicamente pequeno-burguês, a partir dos “excessos” e da “cobiça” dos tubarões da finança etc., que apresenta traços de anti-semitismo estrutural ou até mesmo manifesto, mas que se quebra no carácter sistemicamente objectivo da crise tornado reconhecível, precisa de uma projecção adicional, que se encontra no conflito por procuração do Próximo Oriente.

O interesse obsoleto do capital humano qualificado, o asselvajamento pós-moderno do patriarcado produtor de mercadorias e a simpatia furtiva pelos anti-semitas barbudos do islamismo palestiniano armado, cujos quadros também são vidas de classe média e de bazar, misturam-se numa liga ideológica peculiar. Assim, o homem europeu de classe média transformado em dona de casa gostaria de descobrir, sob o impacto da crise agravada, uma alma francamente gémea entre os “combatentes” do Hamas, ainda que a referência aqui já não seja Karl Marx, mas, sim, Karl May. Neste nível a militância não pacifista pode então validar-se de novo. Uma ideologia de esquerda tornada sarna projecta desesperadamente nos aparelhos de poder do Hamas e do Hesbollah uma qualidade “social”; até às expressões de bloggers que pretendem reconhecer no povo eleitor do Hamas, ou mesmo no próprio regime, a “comuna de Paris” de 1871. Uma cegueira pior dificilmente se pode imaginar; mas as conclusões por analogia histórica tornam-se tanto mais despudoradas quanto mais reagem já apenas emocionalmente ao beco sem saída do próprio padrão de pensamento.

Atrás da bizarra identificação, admitida ou não admitida, com a barbárie islamista, incluindo os seus fervores romantizados, esconde-se no entanto também uma opção bem firme da consciência da esquerda, escondida na ideologia de classe média. Se o Hamas e o Hesbollah são cada vez mais percebidos como “forças da ordem” na decadência de crise da socialidade, tanto nos padrões de legitimação da esquerda global como também no mainstream burguês, isso aponta para um determinado modo de reagir afirmativo no limite histórico do capitalismo, para o qual não há qualquer conceito suficiente. As fantasias de lareira sobre a re-regulação eficaz dos mercados financeiros e sobre ilusórias estratégias de contrato social neo-keynesiano, bem como sobre conceitos de economia alternativa de realização aparente, apontam para um encostar furtivo duma parte crescente da esquerda política e do movimento à administração da crise capitalista, e à sua possível atribuição de dinheiro e lugares. Começa a surgir claramente uma viragem nacionalista e neo-autoritária neste sentido. A identificação com o aspecto de “força da ordem” nos regimes semi-estatais islamistas pode legitimar ideologicamente esta tendência e fazê-la passar por uma espécie de “movimento social”; talvez na esperança de que a administração de crise nos centros possa disponibilizar ainda mais meios do que a irmandade muçulmana ou o Irão.

Tal como a raiva pequeno-burguesa ao capital financeiro, que pôs fim à bela continuação da vida miserável nas categorias capitalistas, pretende criar espaço, tendo como substituto a comoção contra o Estado judaico criminoso de guerra e assassino de crianças, assim se agrava a raiva, para lá da própria existência como satisfação miserável historicamente em queda, numa identificação emocional com a “resistência” ao poder militar judaico, cujas cabeças afinal são intelectualmente tão ocas como as próprias. A coisa funciona mesmo como alívio psíquico, tomando o fantasma o lugar da teoria crítica, pois só assim é possível colocar-se na pose de uma “alternativa social”, cujos conteúdos são constituídos pelo ódio aos judeus libertado do inconsciente e pela opção por uma “força da ordem” imanente, em cujos tachos imaginados se gostaria de conseguir também deleitar-se, como quadro precário com pretensões já apenas difusamente de esquerda.

Anti-israelismo — a matriz de um novo anti-semitismo

Pode, portanto, falar-se perfeitamente de um novo anti-semitismo, até bem dentro da esquerda, que de facto também mostra concordância com a ideologia do anti-semistismo clássico a partir do século XIX, tendo, contudo, assumido uma nova qualidade. Aqui pertence, também, o campo de referência da globalização, ou do capital mundial, que se distingue claramente da formação das nações no século XIX e dos espaços constituídos como nações até meados do século XX. Os estereótipos e ideologemas anti-semitas amplamente difundidos incluem a sua própria definição positiva, pela qual o judeu é repelido como o estranho, definição ela própria já apenas numa forma virtualizada pós-moderna (nação, etnia, religião), já sem qualquer perspectiva de futuro real. A irrealidade do próprio ponto de vista imaginativo vira, porém, ainda mais violentamente na comoção anti-semita, porque com isto se abre uma outra dimensão da atribuição projectiva de culpa. Se os judeus foram outrora objecto de repulsa na construção real da nação, agora tornam-se o bode expiatório da sua decadência.

Também a ideologia de crise económica em sentido estrito anti-semiticamente carregada se modificou e não apenas porque perdeu o seu campo de referência na economia nacional. A nível mundial, já antes do novo desabamento da crise estava em expansão o novo padrão de explicação do processo de crise, o qual, como é sabido, inverte a relação de causa e feito, não derivando as bolhas financeiras do limite interno da valorização real, antes pelo contrário, derivando este daquelas, reduzindo a miséria, em última instância, num “anti-capitalismo” de linha dura abertamente anti-semita, ao carácter judaico do capital financeiro e finalmente à ameaça mundial judaica. Este momento constitui naturalmente o maior acordo com o anti-semitismo clássico; mas é nova a sua reformulação, diferente e no entanto ligada a uma síndrome global, na sociedade mundial do começo do século XXI.

Fora dos centros capitalistas a explicação anti-semita da crise constrói-se, de acordo com o conteúdo abstracto, com uma coerência semelhante à da Europa e da América do Norte no período entre as duas guerras. A já referida interpretação despudoradamente anti-semita da grande crise financeira feita pelo presidente Ahmadinejad é agarrada sem rodeios, não só no arco islâmico que vai do sudeste da Ásia ao Magreb, mas também na América Latina, na Europa Oriental, na Rússia e até em África. Esta abrangente Internacional do anti-semitismo económico, que ainda não tinha existido assim na anterior crise económica mundial, poderia ser designada com ironia negra como a última onda da “modernização atrasada”, que já consiste apenas na assunção da velha explicação anti-semita da crise.

É verdade que na Europa e na América do Norte também volta a encontrar-se esta interpretação; o “anti-capitalismo” de “esquerda” abertamente anti-semita mistura-se aqui cada vez mais com os correspondentes padrões de digestão da direita radical. Simultaneamente, porém, uma grande parte da esquerda metropolitana tem em consideração o mesmo padrão num modo descontínuo e diferenciado, a fim de poder continuar a rejeitar, escandalizada, a próxima acusação de anti-semitismo. Esta síndrome manifesta-se multidimensionalmente com referência ao movimento de crítica da globalização. Explicações da crise abertamente anti-semitas são, por um lado, criticadas, por outro lado, porém, não lhes são aplicadas sanções duras, continuando, pelo contrário, a ser de facto calmamente toleradas; precisamente em ligação com as reacções emotivas ao conflito por procuração do Próximo Oriente. Aqui entra em jogo uma condenação adicional, na medida em que uma determinada parte da esquerda denuncia publicamente esta tolerância, assim se julgando livre de perigo, fazendo simultaneamente, porém, um jogo de cintura relativamente à “crítica do capitalismo truncada” meramente económica, que, como grande parte da ATTAC, insiste no capital financeiro. Estes factos carecem de esclarecimento mais detalhado.

Quando representantes da ATTAC, sob o impacto da crise financeira global que se abate, se puseram a apregoar a palavra de ordem “Vamos encerrar o casino!”, podia-se reconhecer aí, sem dificuldade, aquela inversão de causa e efeito que é típica da interpretação corrente actual, não só no movimento de crítica da globalização, mas também na economia política e nos média burgueses. Segundo essa ilusão, bastaria que fossem corrigidos os “excessos” da economia das bolhas financeiras e que os mercados financeiros fossem novamente submetidos a uma regulação rigorosa para que a economia supostamente real pudesse recompor-se e o fluxo financeiro fosse novamente dirigido para postos de trabalho “normais”. O reconhecimento de que a causa mais profunda da crise reside na falta de produção de mais-valia real não pode, no entanto, ser completamente negado na esquerda residual, na medida em que esta de algum modo ainda adopta elementos da crítica da economia política de Marx; mesmo que a respectiva recepção esteja completamente banalizada e que seja negado o carácter da crise como limite histórico da valorização. Até no interior do conselho científico da ATTAC se podem encontrar argumentações que qualificam aquela explicação da crise superficial e invertida, pelo menos até certo ponto, como “crítica do capitalismo truncada”. A questão, no entanto, é como se vive com isso.

Nos debates no interior da esquerda desde os anos noventa, como já referido, o conceito de “crítica do capitalismo truncada” foi frequentemente caracterizado como “anti-semitismo estrutural”. Não interessa aqui a escolha da palavra; poder-se-ia talvez falar, por exemplo, de proto-anti-semitismo. A legitimação deste atributo está em que, na história da modernização, uma crítica pequeno-burguesa clássica inicial, por exemplo, a de Proudhon, ao capital que rende juros, ou ao sistema de crédito (em vez de crítica ao modo de produção como tal) estava tão geralmente ligada às ideologias anti-semitas, como a falsa explicação da crise a partir das bolhas de especulação, na base desse sistema de crédito. Esta relação é tão óbvia que até quase uma criança a pode perceber.

É neste ponto que entra novamente uma peculiar rabulice da esquerda, que tanto reconhece como esconde essa relação. Por um lado, apesar da negação de ter sido atingido um limite histórico do capitalismo, aponta-se o carácter da “crítica do capitalismo truncada” e até se chama a atenção, cautelosamente, para o “perigo” de um padrão de interpretação anti-semita nela ínsito. Por outro lado, recusa-se o conceito de “anti-semitismo estrutural” com o fundamento de que nem “toda” essa crítica do capitalismo truncada é à partida anti-semita. Joga-se assim com a flutuação do conceito entre a falsa explicação da crise meramente económica e o anti-semitismo manifesto, para fazer desaparecer a sua manifesta relação interna. A construção ideológica é em ambos os casos minimizada.

Ultimamente faz-se notar nesta minimização um oportunismo político em relação à consciência das massas e do movimento. Até mesmo uma esquerda algo reflectida gostaria de não perder as boas graças da sua suposta clientela, para manter ou ganhar “influência”. A necessária crítica da ideologia permanece, portanto, superficial e é meio retirada. Aqui se manifesta, no entanto, o carácter social da esquerda, como movimento de classe média. A crítica do capitalismo truncada de modo diferente do antigo marxismo do movimento operário apresentava de facto pontos de contacto com a ideologia anti-semita sem, porém, sucumbir a esta. O pressuposto para isso era o programa de um capitalismo de Estado “proletário”, que deveria herdar a socialização do capitalismo financeiro (assim em Hilferding), em vez de explicar a qualidade negativa do desenvolvimento a partir do capital financeiro, reinterpretando este de modo anti-semita. Uma vez que agora a hegemonia do discurso da consciência de classe média representa apenas o reverso da decadência do antigo movimento operário e da acumulação real de capital, rompeu-se a barreira contra as explicações da crise da nova pequena burguesia e contra os conceitos de realização correspondentemente falsos e compatíveis com o anti-semitismo. Porém, “após Auschwitz”, isto apenas pode exprimir-se de modo diferenciado, inibido e ideologicamente sustido.

Encontramos assim um amplo espectro de “crítica do capitalismo truncada”, “anti-semitismo estrutural”, anti-semitismo aberto e uma esquerda residual presa nesta órbita e de certo modo a respirar com dificuldade, que de facto não gostaria de comungar incondicionalmente com isto, mas ao mesmo tempo se empurra imparavelmente nesta direcção, porque já não consegue formular qualquer oposição fundamental e negligenciou a transformação numa crítica mais profunda das modernas relações de fetiche. Na diferenciação regional mundial, a explicação da crise de forma brutal e abertamente anti-semita tem o seu centro de gravidade na periferia do mercado mundial. Nos centros é (ainda) minoritária; aqui, até agora, ela encontra o seu equivalente naquele anti-semitismo estrutural capaz de fazer maioria no movimento de crítica da globalização e que é pelo menos minimizado ou negado por partes da esquerda residual. Esta postura é completada pela minimização do anti-semitismo islamista e de construções ideológicas semelhantes noutras regiões periféricas, que em parte até são percebidas como “susceptíveis de aliança”.

No novo anti-semistismo, portanto, é novo, em primeiro lugar, o deslocamento do campo de referência para a globalização do capitalismo de crise; em segundo lugar, a perda a isso associada e a virtualização do ponto de partida da repulsa no processo de dissolução das identidades nacionais e étnicas; em terceiro lugar, o envolvimento ideologicamente descontinuado da esquerda global na explicação errónea da crise e capaz de anexação anti-semita, ligado com estratégias de minimização. No entanto, aqui estão apenas as condições sociais exteriores, económicas e históricas do novo anti-semitismo. Essencial, porém, é a consequência diferente de todas estas construções ideológicas. Novos em comparação com o anti-semitismo clássico até meados do século XX são sobretudo o pano de fundo histórico do Holocausto e a existência do Estado judaico armado.

“Após Auschwitz”, o conjunto da síndrome económico-ideológica no contexto da falsa explicação da crise não pode continuar a desembocar com a mesma linearidade no postulado da aniquilação dos judeus. É verdade que o anti-semitismo especificamente islamista, por exemplo do negador do Holocausto Ahmadinejad, tal como o correspondente propósito de aniquilação física na Carta do Hamas, está próximo do potencial abstracto de aniquilação, ainda que num contexto ideológico diferente. Mas o propósito de aniquilação concentra-se menos na população judaica do mundo em geral, mas sim essencialmente no Estado de Israel. O ponto de vista eliminatório do novo anti-semitismo deslocou-se para a existência deste Estado. Aqui se manifesta o carácter do conflito por procuração em toda a sua consequência.  

Se esta tendência continua a expressar-se no vocabulário do “anti-sionismo” e, pelo menos em partes da esquerda, rejeita a acusação de anti-semitismo, isso é enganador. O chamado sionismo foi a legitimação para a formação dum Estado nacional moderno autónomo dos judeus, como reacção ao anti-semitismo. O anti-sionismo, que por sua vez reagiu ideologicamente contra ele, teve razões completamente diversas. Assim, há um anti-sionismo judaico, especialmente de proveniência ultra-ortodoxa, que deriva da tradição contra-iluminista das corporações religiosas do judaísmo e condena o Estado secular moderno a partir de uma posição meramente reaccionária. No interior de Israel, é precisamente este anti-sionismo ultra-ortodoxo que, na sua transformação pós-moderna, constitui um potencial de barbárie autónomo, em muitas das suas expressões perfeitamente equiparável ao islamismo pós-moderno. Por outro lado, há um anti-sionismo do marxismo tradicional, especialmente de proveniência trotskista, que é apoiado pela esquerda judaica secular. Aqui entra, por assim dizer, um honroso anti-nacionalismo, que se alimenta da ideia da “revolução mundial” erguida precisamente no trotskismo e que no contexto judaico se levanta contra o nacionalismo (sionista) “próprio”; todavia, tal como no marxismo tradicional em geral, sem suficiente reflexão sobre a ideologia anti-semita em geral, como condição constitutiva do Estado judaico e do seu carácter dual.

A mais significativa importância histórica teve, no entanto, o anti-sionismo palestiniano e árabe-islâmico, que se enquadrou no velho contexto “anti-imperialista” da modernização atrasada e, nesta base, conseguiu ligar-se a elementos do pensamento do marxismo tradicional. Não é possível aqui entrar em pormenor nas distorções e contradições aí construídas. No que diz respeito ao anti-sionismo especificamente palestiniano da antiga OLP, ele ia dar numa formação nacional alternativa árabe-palestiniana. Ora é evidente que no mesmo território não podem constituir-se dois Estados nacionais opostos; daí também aquele propósito originário de “empurrar os judeus até ao mar”. A avaliação deste conflito tornado facticamente falso é clara do ponto de vista da teoria crítica radical. À legitimação da fundação do Estado judaico como reacção ao anti-semitismo global e ao carácter dual de Israel daí resultante não corresponde de modo algum do lado palestiniano qualquer contralegitimação adequada. O conceito de “nação palestiniana”, tal como no caso das formações nacionais árabes em geral, é puramente artificial e neste caso especial constitui apenas uma reacção formal contra a fundação do Estado judaico.

Sob as condições do capitalismo de crise globalizado, a fundação dum Estado palestiniano é completamente obsoleta; a ideia só se mantém de pé ideologicamente e por força dos interesses dos respectivos aparelhos e elites. A única solução possível consiste em os palestinianos terem autonomia no interior de Israel, ser finalmente dada a respectiva nacionalidade aos descendentes dos refugiados nos guetos nos países vizinhos e integrar nos Estados árabes vizinhos os territórios palestinianos fora de Israel; igualmente com o estatuto de autonomia. Que uma “nação” deva ser o máximo dos máximos e até mesmo um objectivo vital é tão absurdo e anacrónico para a população palestiniana com para os curdos; tanto mais que as nações se estão a desfazer e a tribalizar em grande parte do mundo. O próprio Estado judaico é uma solução de emergência a partir de um contexto social mundial para o qual não existe qualquer equivalente palestiniano. Como mostra a guerra civil entre Hamas e a Fatah em Gaza, o Estado palestiniano desfaz-se ainda antes da sua possível fundação. Regimes bárbaros pós-estatais como o Hamas e o Hesbollah não têm qualquer direito à existência.

As posições do anti-sionismo esboçadas já ultrapassaram, todas elas, a data de validade; e todas elas foram, desde o início, reaccionárias ou deficitárias. Se agora a esquerda “crítica de Israel”, com a sua costumeira rabulice, põe à consideração com pseudo-ingenuidade que o anti-sionismo não é propriamente a mesma coisa que o anti-semitismo, isso então já não é sequer meia verdade. Se ignorarmos a ideologia anti-sionista dos ultra-ortodoxos em Israel, ela própria já transformada de modo pós-moderno, o vocábulo ficou verdadeiramente sem razão de ser. Se hoje se formula uma ideologia anti-sionista da parte dos regimes islamistas, mas também na esfera pública burguesa do Ocidente e não em último lugar na esquerda global, isso integra exclusivamente a função de conflito por procuração sob as novas condições de crise. Cuja digestão projectiva, na referência ao conflito local, teria de ser melhor designada como anti-israelismo pós-moderno. Na realidade, há muito que já não se trata aqui do velho anti-nacionalismo de judeus trotskistas, nem sequer da formação de uma nação palestiniana, pelo contrário, trata-se de Israel como área de fricção e ponto de repulsa de um “anti-capitalismo” regressivo, que dá a sua forma continuada ao novo anti-semitismo “após Auschwitz”.

Através de construções ideológicas abertamente anti-semitas, da “crítica truncada do capitalismo”, do “anti-semitismo estrutural” que lhe está associado e de todos os incentivos da esquerda à minimização, o potencial global do novo anti-semitismo focaliza-se, assim, na hostilidade declarada a Israel. Aqui as máscaras podem cair porque se pode expressar a síndrome, de resto mais ou menos difusa, como comoção moral contra os assassinos de crianças de Gaza e assim arranjar espaço para um estado de alma de resto não claramente formulável. Tal como o anti-semitismo clássico abrangia um amplo espectro, da repulsa profunda, da discriminação e expropriação, passando pelo pogrom espontâneo, até à política de aniquilação, também o novo anti-semitismo abrange o respectivo espectro, da assimetria moral na avaliação do conflito e da condenação da razão de Estado militar israelita, passando pela “crítica a Israel” por princípio, até ao propósito de aniquilação do Estado de Israel. O anti-israelismo tornou-se a matriz adequada de um anti-semitismo ideologicamente abrangente do século XXI, ainda que ele não se queira dar a conhecer como tal precisamente na esquerda. Nesta matriz pode esconder-se a explicação pequeno-burguesa clássica da crise, descarregando a sua militância regressiva num campo de substituição. O reconhecimento deste contexto na situação mundial modificada constitui o critério da crítica da ideologia, precisamente se ela parte da negação fundamental da forma de fetiche do capital.

A esquerda como Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Uma vez que há tendências contraditórias, também nas declarações relativamente ao conflito de Gaza, a esquerda não constitui uma massa homogénea, que tenha sido absorvida sem ruptura nas formas de manifestação do novo anti-semitismo e nas suas formas de representação no conflito por procuração do Próximo Oriente. Se tal absorção se presume nas ex-esquerdas viradas pró-ocidentais e nos neófitos liberais deles provenientes, também nunca ocorre uma identificação absoluta com uma crítica da ideologia consequente, cujos pressupostos a maior parte das vezes foram lançados borda fora. É verdade que a crítica originária dos “antialemães” ao anti-israelismo de esquerda e à passagem corrente que lhe estava associada para interpretações da crise estrutural ou manifestamente anti-semitas teve a sua plena legitimidade. Mas essa crítica virou-se precisamente naquela glorificação racionalista-iluminista da “civilização” capitalista, como pretenso baluarte contra a barbarização da sociedade mundial dela exactamente decorrente. Assim se desmente o próprio momento correcto da crítica e perde o seu contexto de fundamentação.

A solidariedade de pseudo-Realpolitik com os administradores da crise do capital mundial em nome da solidariedade com Israel teve um efeito devastador; ela levou não só a denunciar per se como anti-semita esta e qualquer crítica do capitalismo, mais ainda, apresentou a conclusão inversa de legitimar as tendências regressivas criticadas. Em vez de se abrir uma necessária polarização no interior da esquerda, esta foi declarada como um bloco anti-civilizatório hermético, enquanto se procurava os mais absurdos “parceiros de aliança”. Os hardliners invertidos desta viragem revelaram-se, como todos os convertidos, uma trupe particularmente fanática, que se sente obrigada a demonstrar a sua fé na liberdade, na igualdade e em Bentham, todos os dias e a toda a hora.

É impossível, do ponto de vista da defesa do capitalismo como “poder civilizatório”, criticar que grandes partes da esquerda residual, no contexto de um anti-israelismo emocional, de projecções fantasmáticas e da política de minimização face aos elementos do anti-semitismo global, se transformem de modo francamente pavoroso no seu próprio contrário e se livrem do seu saldo histórico de pretensões emancipatórias por cumprir. Pelo contrário, só é possível fazer-se uma frente suficiente contra isso se se caracterizarem estes posicionamentos ou modos de digerir ideológicos e inconscientes como consequência da falta de crítica radical da constituição de fetiche capitalista.

A mesma falta ou abandono da crítica radical se pode verificar, no entanto, também do lado dos “antialemães” pró-ocidentais, apenas em sentido inverso. A esquerda anti-israelita e os convertidos “antialemães” pró-ocidentais constituem as duas faces da mesma medalha, tal como os guerreiros do ordenamento mundial do imperialismo de crise ocidental e a barbárie islamista. Têm em comum não apenas a desmoralização na crítica do capitalismo, que num caso decai à maneira da nova pequena burguesia e no outro regride “provisória” ou definitivamente, mas também o sufocar sob a “herança burguesa” da razão iluminista. O marxismo do movimento operário tinha cuidado dessa “herança” até deitar por fora, precisamente porque nunca chegou à crítica da constituição de fetiche moderna. Quando agora a polaridade interna desta vai pelos ares e a oposição hostil entre particularismo (nação, etnia, “cultura”) e universalismo (trabalho, forma do valor) já não pode ser mantida em equilíbrio, uma esquerda presa no horizonte deste pensamento tem de travar o último combate contra si mesma.

O transcender desta oposição incompreendida só pode consistir em fazer saltar o horizonte fechado da constituição de fetiche e da razão iluminista na esquerda e fundamentalmente abrir um novo ponto de vista para lá da crítica do capitalismo truncada e da lamechice da civilização burguesa, tal como na referência ao conflito por procuração do Próximo Oriente; e assim também para lá do anti-israelismo e do pró-israelismo meramente abstracto, como identificação com o capital mundial; uma falsa solidariedade para com Israel que nem sequer consegue resistir às actuais formas de desenvolvimento em que a razão de Estado israelita e os interesses da administração de crise global começam a entrar em conflito. Isso significa também, nos actuais debates com a esquerda residual, desenvolver um outro modo de procedimento, em que a crítica do anti-israelismo reformule simultaneamente a pretensão emancipatória não cumprida, contra a relação de fetiche capitalista global.

Relativamente ao conflito por procuração do Próximo Oriente, pode-se reconhecer o esboço dessa polarização na medida em que as oposições e as rupturas por ocasião da guerra de Gaza deixaram atrás de si a constelação dos anos pós-2001 na esquerda e se expressam independentemente da atitude para com os convertidos pró-ocidentais. Se o distanciamento relativamente aos “críticos de Israel” puder estender-se também, através de um espectro maior ou menor de grupos, correntes ou partidos, mesmo que diferentemente implantados e no seu conjunto minoritários nos vários países, então haverá aqui um ponto de ruptura pré-determinado, em que a cunha tem de ser metida. No entanto é tão notável como problemático que a polarização aqui ocorra quase exclusivamente no plano da percepção do conflito imediato, estando precisamente por isso emocionalmente carregada; sobretudo da parte dos excitados anti-israelitas. A falsa imediatidade desta polarização evidencia-se no facto de ela ocorrer no interior das diferentes posições e não entre elas.

Poder-se-ia mais uma vez ilustrar os factos através de um jogo intelectual, se pudéssemos recuar no tempo até à velha pretensão de esquerda de “solidariedade internacional”, cujo patrocinador clássico no entanto se sumiu. A expressão mais forte desta pretensão era o apoio à luta armada noutros países; basta pensar nas “Brigadas Internacionais” na Guerra Civil de Espanha. Se, como experiência intelectual, transportássemos essas manifestações para a situação actual da esquerda, então membros de um e mesmo grupo, corrente etc., ainda há pouco amigos, estariam se confrontando de armas na mão como “Brigadas Internacionais” em nome, por um lado, da “solidariedade para com Israel” e, por outro lado, da “solidariedade para com a Palestina”. Já não é possível aqui uma atitude agnóstica ou relativista; quem tentar assumi-la ficará sob o fogo de ambos os lados, e com toda a razão, porque a contradição aqui não é de modo nenhum acidental ou passageira.

Não é a primeira vez que algo assim acontece; mas nunca o confronto surgido foi assim imediato. Se os anteriores conflitos se desenvolveram com base na história do acontecimento, sempre mais ou menos claramente ao longo de contradições amadurecidas na análise social geral e do fraccionamento a ela associado, a avaliação do conflito do Próximo Oriente mantém-se surpreendentemente exterior às posições teóricas ou políticas. O objecto do conflito e as suas formas de manifestação, como a guerra de Gaza, não ultrapassam na consciência o estado da particularidade abstracta, como já mostrou a carga emocional, na sua desproporção com a análise histórica.

Mas não é possível, sem cruzamento com uma reflexão do todo social, consumar a ruptura de um contexto imediato de acontecimento apenas na avaliação de contrários não identificados, ruptura que é sugerida de modo meramente emocional-afectivo e deixa atrás um sabor insípido. Como “absoluta fragilidade da particularidade” (Hegel), este objecto imediato não pode, por si, fundar qualquer posição de crítica social abrangente nem, portanto, trazer uma verdadeira polarização. Daí que a esquerda, na sua referência ao conflito por procuração, surge como o “Dr. Jekyll e Mr. Hide” de Stevenson; as diferentes posições, na atitude pró ou contra Israel, contrapõem-se a si mesmas, como seu outro imediato, sem conseguirem transcender-se, para lá desta particularidade contraditória.

O conflito do Próximo Oriente substitui também, como representante, uma auto-contradição não amadurecida na esquerda, que não quer ir até ao fundo da sua insegurança e no seu conjunto é esmagada pela dinâmica de crise sempre negada. Isto atinge, até certo ponto, mesmo a posição aqui representada, de uma transformação ainda não suficientemente conseguida do pensamento da esquerda tradicional, que se apresenta como crítica do valor; sobretudo nas recepções superficiais. Se apenas a tematização da abstracção da forma social e a teoria de uma barreira objectiva da crise são agarradas e, pelo contrário, o desenvolvimento da análise e da crítica da ideologia é escondido ou permanece facultativo, então uma crítica do valor meramente abstracta pode ser amalgamada com todos os possíveis clichés ideológicos herdados da ascendência histórica dos seus receptores; e o ponto de ruptura poderia então ser constituído, sem qualquer mediação, pelo conflito por procuração do Próximo Oriente, tal e qual como aconteceu com outras correntes.

Porém, no sentido de uma transformação para lá do velho sistema de referência da esquerda tornado obsoleto, é precisamente a crítica do fetiche do capital e da “razão” burguesa que minimamente se consegue manter, perante a particularidade abstracta de um tal objecto do conflito por procuração. Este objecto, pelo contrário, deve ser desenvolvido a partir da “totalidade concreta” da história e da crise do capital, em vez de como forma da contradição imediata, na medida em que isso é possível conceptual e analiticamente. Não se trata aqui, portanto, de concluir falsos compromissos naquela maneira de dizer relativista que gostaria de poder fazer valer sem solução “opinião vazia” (Hegel) contra “opinião vazia”. Pelo contrário, trata-se de chegar a uma clarificação em que a questão é tratada não afectivamente, mas pela apresentação do conteúdo; tanto relativamente à situação modificada da situação do Próximo Oriente em si, como relativamente à sua função ideológica de representante, sob as novas condições de crise.


Notas de rodapé:

(1) Ver os textos do autor ECONOMIA POLÍTICA DO ANTI-SEMITISMO (1995) e O PRÓXIMO ORIENTE E A SÍNDROME DO ANTI-SEMITISMO que constitui o capítulo IV do livro A Guerra de Ordenamento Mundial (2003) (Nota do tradutor) (retornar ao texto)

Inclusão: 05/11/2020