História da Revolução Russa

Léon Trotsky


Os dirigentes e a guerra


Que pensava tirar desta guerra e deste exército o governo provisório e o comité executivo?

Antes de mais, é necessário compreender a política da burguesia liberal, dado que ela tocava o primeiro violão. Aparentemente, a política de guerra do liberalismo continuava a ser a da ofensiva patriótica, uma política de presa, e sem piedade. Na realidade, esta política era contraditória, cobarde e tornava-se rápidamente derrotista.

«Se não houvesse revolução, a guerra teria sido perdida na mesma, e, segundo toda a probabilidade, uma paz separada teria sido concluida», escrevia Rodzianko, cujos julgamentos não se distinguiam pela sua originalidade, mas exprimiam tanto melhor a opinião média dos círculos liberais-conservadores. O levantamento dos batalhões da Guarda era para as classes possuidoras um presságio não de vitória exterior, mas de derrota no interior. A esse respeito, os liberais não se iludiam, tanto mais que tinham previsto o perigo e tinham-no combatido tanto quanto puderam. O inesperado optimismo revolucionário de Miliokov, declarando que a revolução era um passo para a vitória, representava em suma o último recurso do desespero. A questão da guerra e da paz deixou de ser para três quartos os liberais uma questão independente. Eles sentiam que não lhes seria dada oportunidade de utilizar a revolução para a guerra. Tanto mais imperiosamente impunha-se-lhes uma tarefa: utilizar a guerra contra a revolução.

O encontro da hipnose bélica e da moral chauvinista abria à burguesia a única e última possibilidade de ligação política com as massas, antes de tudo com o exército, contra o que se chama «os aprofundadores» da revolução. A tarefa era de apresentar ao povo a guerra herdada do czarismo, com os precedentes aliados e os mesmos objectivos, como uma nova guerra, como a defesa das conquistas e das esperanças revolucionárias.

Se chegássemos aí – mas como? - o liberalismo contava firmemente dirigir contra a revolução toda esta organização da opinião pública patriota que, na véspera, lhe tinha servido contra a clique de Raspotine. Se não conseguiram salvar a monarquia, como instância suprema contra o povo, era preciso ainda mais se agarrar aos aliados: durante a guerra, de qualquer modo, a Entente constituía um tribunal supremo incomparavelmente mais potente que não poderia ter sido a monarquia do país.

A continuação da guerra devia justificar a conservação do antigo aparelho militar e burocrático, o adiantamento da Assembleia constituinte, a subordinação do país revolucionário à frente, isto é aos generais nas suas ligações com a burguesia liberal. Todas as questões interiores, antes de tudo o problema agrário, e toda a legislação social estavam relegadas até ao fim da guerra e este mesmo fim, por sua vez, era adiado até à vitória na qual os liberais não acreditavam. A guerra por esgotamento do inimigo transformava-se em guerra pelo esgotamento da revolução. Talvez não fosse um plano acabado, discutido e ponderado antecipadamente por sessões oficiais. Mas não era necessário. O plano decorria de toda a política anterior do liberalismo e da situação criada pela revolução.

Obrigado a caminhar pela via da guerra, Miliokov não tinha, bem entendido, motivos de renunciar antecipadamente à partilha do espólio. Porque, enfim, as esperanças da vitória dos Aliados continuavam presentes e, com a entrada da América na guerra, tinham extraordinariamente aumentado. Na verdade a Entente é uma coisa e a revolução outra. Os líderes da burguesia russa tinham aprendido no decorrer dos anos que por razões de fraqueza económica e militar da Rússia, a qual todas as variantes possíveis eram examinadas, sairia necessariamente da guerra quebrada e enfraquecida. Mas os imperialistas liberais decidiram conscientemente fechar os olhos sobre esta perspectiva. Eles não tinham mais nada a fazer. Gotchkov declarava no seu círculo que a Rússia não poderia ser salva senão pelo milagre e que a esperança de um milagre constituía o seu programa de ministro da Guerra.

Miliokov, para a política interior, necessitava do mito da vitória. Em que medida ele próprio acreditava nisso, não tem importância. Mas obstinava-se em afirmar que Constantinopla devia ser nossa. E aí, agia com o cinismo que o caracterizou. No dia 20 de Março, o ministro russo dos Assuntos estrangeiros exortava os embaixadores aliados a trair a Sérvia para comprar, por esse meio, a traição da Bulgária em relação aos impérios centrais. O embaixador da França franzia o sobrolho. Miliokov, contudo, insistia sobre «a necessidade de renunciar, nesta questão, às considerações sentimentais», e, assim, ao neo-eslavismo que tinha pregado desde do esmagamento da primeira revolução. Não foi erradamente que Engels escreveu a Bernstein já em 1882: «Ao que se resume todo o charlatanismo dos paneslavistas russos? À tomada de Constantinopla – e é tudo.»

As acusações de germanofilia e mesmo a compra pela Alemanha, ainda ontem dirigida contra a camarilha do palácio, eram hoje voltadas, com uma ponta envenenada, contra a revolução. Mais se avançava, cada vez mais ousadamente, ruidosamente, insolentemente, ouvia-se esta nota no discurso e os artigos do partido cadete. Antes de se apoderar das águas turcas, o liberalismo turvava as fontes e envenenava os poços da revolução.

Não foram todos os líderes liberais, longe disso, ou pelo menos logo, que adoptaram após a insurreição uma atitude intransigente sobre a questão da guerra. Muitos deles encontravam-se ainda na atmosfera moral pré-revolucionária que se ligava à perspectiva de uma paz separada. Certos cadetes dirigentes contaram isso seguidamente com uma grande franqueza. Nabokov, confessou que, logo no 7 de Março, conspirava com numerosos membros do governo sobre uma paz separada. Vários membros do centro cadete tentavam colectivamente demonstrar ao líder a impossibilidade do prolongamento da guerra. Miliokov, com a nítida frieza que o caracteriza expunha – conta o barão Nolde – que os objectivos da guerra devia ser atingidos. «O general Alexeiev que, entretanto se tinha aproximado dos cadetes, apoiava Miliokov, afirmando que «o exército podia ser substituído». Para essa substituição foi designado esse homem do estado-maior, organizador de catástrofes.

Alguns, mais ingénuos, entre os liberais e os democratas, não compreendiam o curso seguido por Miliokov e considerava-o como o próprio cavaleiro da fidelidade aos aliados, o Dom Quixote da Entente. Que absurdidade! Quando os bolcheviques tomaram o poder, Miliokov não hesitou um instante em partir para Kiev, ocupada pelos alemãs, e a propor os seus serviços ao governo do Hohenzollern, o qual, na verdade, não se apressou em aceitá-lo. O objectivo imediato de Miliokov, nesse assunto, era obter, para a luta contra os bolcheviques, o mesmo ouro alemão que ele tinha procurado utilizar o fantasma para sujar a revolução. O apelo de Miliokov à Alemanha pareceu, em 1918, a muitos liberais tão incompreensível como tinha sido, nos primeiros meses de 1917, o seu programa de esmagamento da Alemanha. Mas aí estava o verso e reverso da mesma medalha. Preparando-se a trair os aliados como, precedentemente a Sérvia, Miliokov não se traiu nem a sua classe. Ele seguia uma só e mesma política, e não foi por sua culpa se ela tinha má aparência. Procurando às apalpadelas, sob o czarismo, as vias de uma paz separada com o objectivo de evitar a revolução: reclamando a guerra até ao fim para esmagar a revolução de Fevereiro: tentando mais tarde uma aliança com os Hohenzollern, para derrubar a Revolução de Outubro – Miliokov continuava invariavelmente fiel aos interesses dos possuidores. Se ele não consegui ajudá-los, chocando cada vez contra um novo muro, foi porque os seus patrocinadores encontravam-se num impasse.

O que faltou particularmente a Miliokov nos primeiros tempos que seguiram a insurreição, foi uma ofensiva do inimigo, uma boa tareia alemã no crânio da revolução. Por infelicidade, Março e Abril, pelas suas condições climáticas, eram pouco propícias, na frente russa, às operações de grande envergadura. E sobretudo, os alemãs, cuja situação se tornava cada vez mais penosa, resolveram, após grandes hesitações, deixar a revolução russa seguir o seu processo interno. Só, o general Linsingen deu provas de uma iniciativa privada, nos dias 20 e 21 de Março em Stokhod. Seu sucesso assustou o governo alemão, e contentou o governo russo. O Grande Quartel General, com a impudência que metia, no tempo do czar, em exagerar os mais pequenos sucessos, dava importância excessiva à derrota de Sokhod. A imprensa liberal seguia-o. Os casos de instabilidade, de pânico e as percas do exército russo eram descritos com mais gosto que antes as capturas de prisioneiros e dos troféus. A burguesia e os generais evidentemente concluíam no derrotismo. Mas Linsingen recebeu do alto a ordem de parar e a frente parou de novo nas lamas primaveris e na expectativa.

A ideia de utilizar a guerra contra a revolução podia ter possibilidades de sucesso somente na condição que os partidos intermediários, que seguiam as massas populares, consentissem em encarregar-se do papel de mecanismo de transmissão para a política liberal. Ligar a ideia da guerra à da revolução ultrapassava as forças do liberalismo: ainda na véspera, tinham pregado a ideia que a revolução seria desastrosa para a guerra. Era preciso passar esta tarefa à democracia. Mas, bem entendido, sem revelar-lhe «o segredo». Não para iniciar um plano, mas para pescar. Era preciso apanhá-lo pelos seus preconceitos, pelas suas pretensões à sabedoria política, pelas apreensões diante da anarquia, pela sua obsequiosidade supersticiosa diante da burguesia.

Nos primeiros dias, os socialistas – somos obrigados a chamar assim brevemente os mencheviques e os socialistas-revolucionários – não sabiam que fazer com a guerra. Tchkheidze suspirava: «Falámos sempre contra a guerra, como posso eu agora incitar à continuação da guerra?» No 10 de Março, o comité executivo decidiu enviar um telegrama para saudar Franz Mehring. Por essa pequena manifestação, a ala esquerda tentava acalmar a sua consciência socialista que não era muito exigente. Sobre a guerra em si, o Soviete continuava calado. Os líderes temiam provocar, sobre esta questão, um conflito com o governo provisório e obscurecer a lua-de-mel do «contacto». Eles não deixavam de temer a discórdia no seu próprio meio. Havia entre eles partidários da defesa nacional e zimmerwaldianos. Uns e outros sobrevalorizavam as suas diferenças.

Largos círculos intelectuais revolucionários tinham sofrido, durante a guerra, uma importante metamorfose burguesa. O patriotismo confessado ou disfarçado, tinha ligado os intelectuais com as classes dirigentes desligando-os das massas. A bandeira de Zimmerwald com a qual se cobria a ala esquerda não impunha grandes obrigações e, ao mesmo tempo, permitia não mostrar uma solidariedade patriótica com a clique de Raspotine. Mas, agora, o regime do Romanov tinha sido derrubado. A Rússia tornou-se um país democrático. Sua liberdade, iridiscente com todas as nuanças, destacava-se brilhantemente sobre um fundo policial da Europa tomada nas tenazes de uma ditadura militar. Não íamos defender a nossa revolução contra o Hohenzollern? Perguntavam os antigos e novos patriotas colocados à cabeça do comité executivo. Os zimmerwaldianos, do tipo de Sokhanov e de Stieklov, alegavam sem certezas que a guerra continuava imperialista: porque enfim os liberais afirmavam que a revolução deve assegurar as anexações projectadas no tempo do czar. «Como poderei agora incitar ao prolongamento da guerra?» perguntava Tchkheidze assustado. Mas como os próprios zimmerwaldianos eram os iniciadores da transmissão do poder aos liberais, seus objectivos ficavam suspendidos. Após algumas semanas de hesitações e de resistência, a primeira parte do plano de Miliokov foi, com a ajuda de Tseretelli, resolvida de forma satisfatória: os maus democratas que se consideravam como socialistas atrelaram-se aos arreios da guerra e, sob o chicote dos liberais, empregavam todas as suas fracas forças para segurar a vitória... da Entente sobre a Rússia, da América sobre a Europa.

A função principal dos conciliadores consistia em ligar a energia revolucionária das massas à corrente patriótica. Tentaram, por um lado, despertar a combatividade do exército – o que era difícil: tentaram, por outro, incitar os governos da Entente a renunciar à pilhagem – e era ridículo. Nas duas direcções, iam das ilusões às decepções e dos erros às humilhações. Notemos os primeiros marcos desse caminho.

Nos momentos da sua curta grandeza, Rodzianko tinha tido tempo de promulgar o regresso imediato dos soldados nas casernas, substituindo-os por ordem dos oficiais. A efervescência da guarnição causada por esta ordem obrigou o Soviete a consagrar uma das suas primeiras sessões à questão da sorte ulterior do soldado. Na atmosfera ardente dessa hora, no caos de uma sessão parecida a uma reunião política, sob a direcção dos soldados que os líderes ausentes não poderiam ter parado, nasceu o famoso «Prikaz Nº 1» (Ordem nº1) o único documento respeitável da Revolução de Fevereiro, a carta das liberdades do exército revolucionário. Os seus parágrafos audazes dando aos soldados uma saída organizada sob uma nova via, decidiam: criar em todos os contingentes da tropa comités eleitos: eleição dos representantes dos soldados no Soviete e nos seus comités: manter as armas sob controlo dos comités de companhia ou de batalhão e «em nenhum caso remetê-las aos oficiais»: no serviço, a mais severa disciplina militar: fora do serviço, a saudação militar e os títulos hierárquicos são suprimidos: é proibido aos oficiais maltratar os soldados, em particular de os tratar por tu, etc..

Tais eram as deduções feitas pelos soldados de Petrogrado da sua participação na insurreição. Poderiam ser diferentes? Ninguém ousou resistir. No momento da elaboração do «Prikaz», os líderes do Soviete estavam distraídos pelas preocupações mais importantes: eles mantinham conversações com os liberais. Isso possibilitou a evocação de um alibi quando tiveram que se justificar diante da burguesia e do comando.

Ao mesmo tempo que o «Prikaz nº1», o comité executivo, tendo tido tempo de se dominar, tinha expedido à tipografia, como antídoto, um apelo aos soldados, o qual, ao mesmo tempo que parecia condenar a linchagem dos oficiais, exigia submissão diante do antigo comando. Os tipógrafos recusaram simplesmente de compor o documento. Os autores, democratas, indignaram-se: onde iremos? Não seria correcto imaginar que os tipógrafos exerceriam represálias sangrentas contra os oficiais. Mas, quando se exortava a tropa a obedecer à oficialidade do czar, no dia seguinte à insurreição, os operários tipógrafos viam aí a porta aberta à contra-revolução. Certamente, os tipógrafos tinham cometido um abuso de poder. Mas não se sentiam somente tipógrafos. Tratava-se, no espírito deles, da cabeça da revolução.

Nos primeiros dias, quando a sorte dos oficiais que voltavam aos seus regimentos irritava demasiado os soldados como os operários, a organização social democrata inter-distritos, próximo dos bolcheviques, colocou a questão irritante com ousadia revolucionária. «Para que os nobres e os oficiais não vos enganem – diz-se no apelo dirigido aos soldados – elegeis vós próprios vossos chefes de pelotão, de companhia, e de regimento. Não aceiteis entre vós senão os oficiais que vocês conhecem como sendo amigos do povo.» Mas o que aconteceu? A proclamação que respondia completamente à situação foi imediatamente confiscada pelo comité executivo, e Tchkheidze, no seu discurso, indicou como uma provocação. Os democratas, vêmo-los, não se incomodavam para limitar a liberdade da imprensa quando se tratava de golpear a esquerda. Felizmente, a sua própria liberdade era suficientemente limitada. Ao apoiar o comité executivo como o seu órgão supremo, os operários e soldados, em todos os momentos graves, corrigiam a politica dos dirigentes por uma intervenção directa.

Alguns dias mais tarde, o comité executivo tentava, por um «Prikaz nº2» abolir a primeira ordem dada, limitando o seu alcance ao corpo do exército de Petrogrado. Em vão! O «Prikaz nº2» era indestrutível, porque não inventava nada, mas só consolidava o que rebentava por todo o lado, na retaguarda como na frente, e exigia ser reconhecido. Frente a frente com os soldados, mesmo os deputados liberais esquivavam as questões e as censuras sobre o «Prikaz nº1». Mas na grande política, a ordem audaciosa tornou-se o principal argumento da burguesia contra os sovietes. Vencidos, os generais descobriram desde então, no «Prikaz nº1», o principal obstáculo que lhes impedia de esmagar os exércitos alemãs. Atribuía-se à origem alemã o «Prikaz». Os conciliadores não paravam de justificar a sua cumplicidade e enervavam os soldados procurando retomar com a mão direita o que tinham largado com a mão esquerda.

Entrementes, no Soviete, a maioria dos deputados exigia já a eleição dos chefes. Os democratas ficaram transtornados. Não encontravam melhores motivos, Sokhanov tentou intimidar, dizendo que a burguesia, a qual tinha o poder, não admitiria a eleição. Os democratas escondiam-se por detrás de Gotchkov. No seu jogo, os liberais ocupavam o lugar que a monarquia teria tomado no jogo do liberalismo. «Voltando da tribuna para o meu lugar – conta Sokhanov tropecei num soldado que me impedia de passar e, mostrando-me o punho sob os olhos, gritava enraivecido sobre os senhores que nunca apoiaram o soldado.» Após este «excesso», correu procurando Kerensky, e foi somente com o auxílio deste último que «o assunto se resolveu de um modo qualquer». Esses homens só se ocupavam em arranjar assuntos.

Durante quinze dias, conseguiram fingir nada querer saber da guerra. Enfim, tornou-se impossível adiá-lo mais. No 14 de Março, o comité executivo apresentou ao Soviete um projecto de manifesto redigido pelo Sokhanov: «Aos povos do mundo inteiro».

A imprensa liberal declarou logo, sobre esse documento que unia os conciliadores da direita e da esquerda, que era um «Prikaz nº1» no domínio da política exterior. Mas esta apreciação elogiosa era tão falsa como o documento que fazia referência. O «Prikaz nº1» constituía uma resposta honesta, directa, da base às questões colocadas pela revolução diante do exército. O manifesto do 14 de Março era uma resposta falaciosa do alto às questões postas honestamente pelos soldados e operários.

O manifesto, bem entendido, exprimia um desejo de paz, e mesmo de paz democrática, sem anexações nem contribuições. Mas os imperialistas do Ocidente tinham aprendido a servirem-se desta fraseologia muito antes da insurreição de Fevereiro. Foi precisamente em nome de uma paz sólida, honesta, «democrática», que Wilson se dispôs, nesse tempo, a entrar na guerra. O devoto Asquith apresentou no parlamento uma classificação científica das anexações segundo a qual resultaria indubitavelmente que se devia condenar como imorais todas as anexações que seriam contrárias aos interesses da Grande-Bretanha. No que diz respeito à diplomacia francesa, ela consistia a dar à cupidez do lojista e do usurário a expressão mais libertadora.

O documento expedido pelo Soviete, que não poderemos negar uma certa sinceridade simplista, caía fatalmente na difícil situação da hipocrisia oficial francesa. O manifesto prometia «defender resolutamente a nossa própria liberdade» contra o militarismo estrangeiro. Isso implicava precisamente na indústria dos sociais patriotas franceses desde Agosto 1914. «O tempo chegou para os povos de encontrarem uma solução à guerra ou a paz», declarava o manifesto cujos autores, em nome do povo russo, tinham acabado de deixar esta questão à discrição da alta burguesia. O manifesto lançava este apelo aos operários alemãs e austro-húngaros: «Renunciai a servir de instrumento de conquista e de violência nas mãos dos reis, dos proprietários e banqueiros!» Esses termos continham a quinta-essência da mentira, porque os líderes do Soviete não pensavam de forma nenhuma romper sua aliança com os reis da Grande-Bretanha e da Bélgica, com o imperador do Japão, com os proprietários e os banqueiros, os do país russo e os de todos os países da Entente. Tendo transmitido a direcção da política exterior à Miliokov que, ainda recentemente, dispunha-se a transformar a Prússia Oriental em província russa. Condenar teatralmente a carnificina, isso não mudava nada a nada, o papa também ocupava-se disso. Com frases patéticas, dirigidas contra as sombras do banqueiro, do proprietário nobre e do rei, os conciliadores faziam da Revolução de Fevereiro a arma dos verdadeiros reis, proprietários e banqueiros.

Já no seu telegrama de felicitações ao governo provisório, Lloyd George apreciava a revolução russa como provando que «a guerra actual, essencialmente, é uma luta pelo governo popular e pela paz». O manifesto do 14 de Março, «essencialmente», se solidarizava com Lloyd George e dava um apoio precioso à propaganda militarista na América. Ele tinha três vezes razão, o jornal de Miliokov, quando ele escrevia que «o apelo, começou com tons pacifistas, desenvolve-se no fundo em ideologia que temos em comum com todos os nossos aliados». Se os liberais russos, contudo, atacaram-se mais uma vez, e furiosamente, no manifesto, recusou-se em geral a deixá-lo passar, isso vinha do medo da interpretação dada a esse documento pelas massas revolucionárias, mas ainda confiantes.

Redigido por um zimmerwaldiano, o manifesto marcava a vitória de princípio da ala patriótica. Na província, os sovietes tomaram em consideração o sinal. A palavra de ordem «guerra à guerra» foi declarada inadmissível. Mesmo no Ural e em Kostroma, onde os bolcheviques eram fortes, o manifesto patriota obteve a aprovação unânime. Não é de admirar: porque, mesmo no Soviete de Petrogrado, os bolcheviques não opuseram nada a esse documento mentiroso.

Algumas semanas mais tarde, era preciso efectuar um pagamento parcial sobre a despesa. O governo provisório contraiu um empréstimo de guerra que, bem entendido, foi chamado «empréstimo da liberdade». Tseretelli demonstrava que o governo cumpriria «no conjunto e integralmente» as suas obrigações, a democracia devia apoiar o empréstimo. No comité executivo, a ala opositora reuniu mais do que o terço dos votos. Mas, no plenário do Soviete (22 Abril), votaram contra o empréstimo só cento e doze delegados sobre quase dois mil. Daí, chegava-se à seguinte conclusão: o comité executivo está mais à esquerda que o Soviete. Mas não é exacto. O Soviete era mais honesto que o comité executivo. Se a guerra é a defesa da revolução, é preciso dar dinheiro para a guerra, é preciso apoiar o empréstimo. O comité executivo não era mais revolucionário nem mais evasivo. Vivia de equívocos e de subterfúgios. Apoiava o governo estabelecido por ele, «no conjunto e totalmente» na medida onde e tanto que...» Essas pequenas astúcias eram alheias às massas. Os soldados não podiam nem combater «na medida que» nem morrer «no conjunto e totalmente».

Para consolidar a vitória da concepção governamental das divagações, o general Alexeiev, que se dispunha no 5 de Março a mandar fusilar os bandos propagandistas, foi oficialmente colocado, no primeiro de Abril, à cabeça das forças armadas. Doravante, tudo entrava na ordem. O inspirador da política exterior do czarismo, Miliokov, era ministro dos Assuntos exteriores. O comandante em chefe do exército do czar, Alexeiev, tornou-se o generalíssimo da revolução. O princípio da sucessão estava integralmente restituído.

Ao mesmo tempo, os líderes do Soviete foram obrigados pela lógica da situação a alargar as malhas da rede que eles próprios tricotaram. A democracia oficial temia extremamente os chefes do exército que ela tolerava e apoiava. Ela não podia dispensar-se de lhe opor um controlo, tentando ao mesmo tempo apoiar esse controlo sobre os soldados e também de lhe restituir, tanto que possível, independentemente destes últimos. Na sessão do 6 de Março, o comité executivo reconheceu que era desejável instalar os seus comissários em todos os contingentes da tropa e nas administrações militares. Assim se constituía uma tripla ligação: as tropas delegavam os seus representantes ao Soviete: o comité executivo enviava os seus comissários às tropas: enfim, à cabeça da cada contingente colocava-se um comité recrutado por eleição que representava de certa forma uma célula de base do Soviete.

Uma das mais importantes obrigações dos comissários era vigiar a integridade política dos estados-maiores e da oficialidade. «O regime democrático talvez ultrapassou o da da autocracia», exclamou com indignação Denikinie, e, sobre isso, ele gabava-se da habilidade do seu estado-maior que interceptava e lhe transmitia a correspondência codificada dos comissários com Petrogrado. Vigiar os monarquistas e os partidários da servidão – o que há mais ultrajante? Mas é um outro assunto se se rouba o correio dirigido pelos comissários ao governo. Qualquer que fosse a moral, as relações interiores do aparelho dirigente do exército manifestavam-se claramente: as duas partes têm medo uma da outra e observam-se com hostilidade. O que os une, é somente o medo que elas têm dos soldados. Os próprios generais e almirantes, quaisquer que fossem as suas esperanças e planos para o futuro, viam claramente que falta do véu da democracia o assunto deles não funcionava bem. O estatuto dos comités da frota foi elaborado por Koltchak. Contava assim abafá-los mais tarde. Mas como, por enquanto, não se podia dar um passo sem os comités, Koltchak intervinha junto do Grande Quartel General para obter a sua autorização. De mesma maneira, o general Markov, um dos futuros capitães do exército branco, enviou, no início de Abril, ao ministério, um projecto de instauração de comissários para a vigilância da lealdade do comando. Foi assim que «as leis seculares do exército», isto é as tradições da burocracia militar, quebraram-se como palhas, sob a pressão da revolução.

Os soldados vinham aos comités de um ponto oposto e agrupavam-se à volta deles contra o comando. E se os comités protegiam os chefes contra os soldados, era somente em certa medida. A situação do oficial que tinha entrado em conflito com um comité tornava-se intolerável. Assim constituía-se o direito não escrito dos soldados em destituir seus chefes. Sobre a frente Oeste, segundo Denikine, em Julho, tinham despedido perto de sessenta oficiais, desde de um comandante do corpo do exército até um chefe de regimente. Mutações do mesmo género tinha lugar no interior dos regimentos.

Entretanto, cumpria-se com minúcia no ministério da Guerra, no comité executivo, nas reuniões da comissão de contacto, trabalho tendo por fim criar formas «razoáveis» de relações no exército e retirar a autoridade dos chefes, reduzindo os comités do exército a um papel secundário, principalmente administrativo. Mais tarde, enquanto que os grandes chefes limpavam com um simulacro de vassoura um simulacro de revolução, os comités desenvolveram-se num poderoso sistema centralizado, que ia até ao comité executivo de Petrogrado e consolidando pela organização a autoridade deste sobre o exército. Desta autoridade, todavia, o comité executivo utilizava-a para levar de novo, por intermédio dos comissários e dos comités, o exército à guerra. Os soldados tinham cada vez mais frequentemente razão para se questionarem porquê os comités eleitos por eles exprimissem muitas vezes não o que eles pensavam, eles soldados, mas o que os chefes queriam deles.

As trincheiras enviam à capital deputados cada vez mais numerosos para saber o que se passa. No início de Abril, o movimento dos homens da frente tornou-se incessante, cada dia têm lugar no palácio Tauride conversações colectivas: os soldados enviados têm dificuldades em compreender os mistérios da política do comité executivo, o qual não é capaz de responder claramente a uma só questão. O exército transfere-se lentamente para a posição soviética para se convencer tanto mais claramente da inconsistência da direcção soviética.

Os liberais, não se atrevendo a opor-se abertamente ao Soviete, ainda tentam levar o exército à luta. Como laço político com ele, o chauvinismo deve ser, evidentemente, mantido. O ministro cadete Chingarev, numa entrevista com os delegados das trincheiras, defendia a ordem de Gotchkov contra «a indulgência excessiva» em relação aos prisioneiros, alegando «os actos de selvajaria dos alemãs». O ministro não obteve a menor expressão de simpatia. A assembleia pronunciou-se resolutamente pela melhoria da sorte dos prisioneiros. E eram os homens que os liberais acusavam em todas as ocasiões de excessos e de ferocidade. Mas os obscuros homens da frente tinham seus critérios próprios. Para eles era inadmissível de se vingar de um oficial pelas humilhações infligidas aos soldados: mas parecia-lhes cobarde vingar-se de um soldado alemão prisioneiro por actos de selvajaria reais ou fictícios de um Ludendorff. As normas eternas da moral, infelizmente! Continuavam estranhos a esses mujiques ásperos e sórdidos.

Tentativas da burguesia para se apoderar do exército resultou no congresso de delegados da frente Oeste (7-10 de Abril) uma competição entre liberais e conciliadores que aliás não se desenvolveu. O primeiro congresso de uma das frentes devia ser decisivo para verificar a política do exército, e os dois partidos enviaram a Minsk os seus melhores representantes. Para o Soviete: Tseretelli, Tchkheidze, Skobelev, Gvozdiev; para a burguesia, Rodzianko e outros. A agitação era extrema no teatro de Minsk, cheio de assistentes, e espalhavam-se por ondas em toda a cidade. Segundo testemunhos dos delegados, descobriu-se o quadro da situação real. Sobre toda a frente, confraterniza-se: os soldados tomam a iniciativa cada vez mais ousadamente, o comando nem mesmo pensa nas medidas de repressão. Que poderiam dizer os liberais? Diante deste auditório apaixonado, logo renunciaram à ideia de opor as suas resoluções às do Soviete. Eles limitavam-se às notas patrióticas nos discursos de inauguração e foram logo nitidamente dominados. A batalha foi ganha pelos democratas sem dar um tiro. Eles não precisavam de levar as massas contra a burguesia, eles tinham que as conter. A palavra de ordem da paz, inserida de maneira equivoca com a palavra de ordem da defesa da revolução, no espírito do Manifesto do 14 de Março, dominava o congresso. A resolução do Soviete sobre a guerra foi adaptada por seiscentos e dez votos contra oito e quarenta e seis abstenções. A última esperança dos liberais em opor a frente à retaguarda, o exército ao Soviete, desfazia-se. Mesmo os líderes democratas regressavam do Congresso mais assustados da sua vitória do que entusiasmados por ela. Tinham visto quais eram os espíritos despertados pela revolução, e tinham sentido que esses espíritos estavam acima das suas forças.

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Inclusão 03/06/2010