Lutar Pela Mobilização de Todas as Forças Para a Vitória da Guerra de Resistência

Mao Tsetung

25 de Agosto de 1937


Primeira Edição: Teses de propaganda e agitação, redigidas pelo camarada Mao Tsetung em Agosto de 1937, para uso dos departamentos de propaganda do Comité Central do Partido Comunista da China. Essas teses foram adoptadas pela Reunião Alargada do Birô Político do Comité Central do Partido, realizada em Luotchuan, norte de Xensi.
Tradução: A presente tradução está conforme à nova edição das Obras Escolhidas de Mao Tsetung, Tomo II (Edições do Povo, Pequim, Agosto de 1952). Nas notas introduziram-se alterações, para atender as necessidades de edição em línguas estrangeiras.
Fonte: Obras Escolhidas de Mao Tsetung, Pequim, 1975, Tomo I, pág: 17-26
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo

capa

A. O Incidente de Lucouquiao, no dia 7 de Julho, marcou o início da ofensiva em grande escala do imperialismo japonês contra a parte da China situada a sul da Grande Muralha. A resistência das tropas chinesas em Lucouquiao marca o começo da resistência da China em escala nacional. Os ataques incessantes do invasor japonês, a luta resoluta da totalidade do nosso povo, a tendência da burguesia nacional a resistir ao Japão e o facto de o Partido Comunista da China ter preconizado activamente, e aplicado com firmeza, uma política de frente única nacional anti-japonesa, que goza do apoio geral do país, forçaram as autoridades chinesas a esboçar uma mudança de política depois do Incidente de Lucouquiao, passando da não resistência observada desde o Incidente de 18 de Setembro de 1931 à resistência, e, por outro lado, levaram a revolução chinesa, se a consideramos no seu desenvolvimento depois do Movimento de 9 de Dezembro de 1935, a passar da etapa caracterizada pela cessação da guerra civil e preparação da resistência à etapa da resistência efectiva. A viragem que começou a desenhar-se na política do Kuomintang, a partir do Incidente de Si-an e da Terceira Sessão Plenária do Comité Executivo Central do Kuomintang, e a declaração de 17 de Julho sobre a resistência ao Japão, feita em Luxan pelo Sr. Tchiang Kai-chek, bem como muitas medidas de defesa nacional tomadas por este, são todas dignas de aprovação. As tropas na frente — exércitos de terra, forças aéreas e unidades locais — resistiram todas com valentia, demonstrando o heroísmo característico da nação chinesa. Em nome da revolução nacional, o Partido Comunista da China saúda com o máximo calor todas as tropas e cidadãos patriotas do país.

B. Não obstante, as autoridades kuomintanistas, mesmo depois do Incidente de 7 de Julho de Lucouquiao, continuam a aplicar essa política errada que vêm invariavelmente seguindo desde o Incidente de 18 de Setembro, e que consiste em fazer compromissos e concessões(1), reprimir o ardor dos exércitos patriotas e o movimento de salvação nacional das populações patriotas. Não resta a menor dúvida que, depois de capturar Pepim e Tientsim, o imperialismo japonês, apoiando-se na força bruta dos seus exércitos, beneficiando da ajuda do imperialismo alemão e italiano e explorando as hesitações do imperialismo inglês e o isolamento do Kuomintang, que se desligou das grandes massas trabalhadoras, há-de persistir na sua política de ofensiva de grande envergadura, passará à realização da segunda e terceira etapas do plano de operações, e lançará furiosos ataques contra todo o Norte da China e outras regiões do país. As chamas da guerra crepitam já no Tchahar, Xangai e outros lugares. Para salvar a pátria em perigo, para resistir aos ataques do inimigo, que é forte, para defender o Norte da China e as regiões costeiras, para recuperar Pepim, Tientsim e o Nordeste, o povo todo da China e as autoridades kuomintanistas devem tirar o máximo benefício das lições decorrentes da perda do Nordeste, de Pepim e Tientsim; devem extrair uma lição da subjugação da Abissínia, estudar a história da luta vitoriosa da URSS contra os inimigos exteriores(2), imbuir-se da experiência da Espanha, que neste momento defende com êxito Madrid(3), e unir-se solidamente para combater até ao fim pela defesa da pátria. Daqui cm diante, a tarefa consiste na “mobilização de todas as forças para a vitória da Guerra de Resistência” e, para realizá-la, o essencial está na mudança completa, radical, da política kuomintanista. Como é evidente, os progressos do Kuomintang na questão da Guerra de Resistência são de louvar; trata-se aliás daquilo que o Partido Comunista da China e a totalidade do povo esperavam dele desde há anos; e nós saudamos esse progresso. Mas o Kuomintang não mudou ainda a sua política em questões como a mobilização das massas populares e a realização de reformas políticas; no fundamental ele recusa-se sistematicamente a anular a interdição do movimento popular anti-japonês; tão-pouco pensa em proceder a uma transformação de princípio no aparelho governativo; continua sem política de melhoria das condições de vida do povo; e, nas suas relações com o Partido Comunista, não dá provas de sincera cooperação. Se num momento assim crítico, com o país ameaçado de subjugação e o povo de extermínio, o Kuomintang não sai da rotina, não muda ràpidamente de política, um rnal imenso será causado à Guerra de Resistência. Alguns membros do Kuomintang dizem: ocupar-nos-emos das reformas políticas depois da vitória! Eles pensam poder vencer os agressores japoneses graças aos esforços exclusivos do governo, o que é um erro. Uma guerra de resistência mantida exclusivamente pelo governo não pode dar mais que uns quantos resultados isolados e nunca uma vitória completa, a qual não pode ser alcançada senão através duma guerra de resistência feita pela totalidade da nação. Ora, para que tal guerra seja possível, torna-se necessária uma mudança completa, radical, da política do Kuomintang, é necessário que toda a nação, desde o topo à base, una os seus esforços para aplicar um programa consequente de resistência, o programa de salvação nacional inspirado nos Três Princípios do Povo revolucionários e nas Três Grandes Políticas, tais como o Dr. Sun Yat-sen formulou, pessoalmente, na altura da primeira cooperação entre o Kuomintang e o Partido Comunista.

C. Animado pelos sentimentos mais sinceros, o Partido Comunista da China propõe ao Kuomintang, à totalidade do povo, a todos os partidos e grupos políticos, a todos os sectores sociais e forças armadas do país, o Programa em Dez Pontos para a Salvação da Pátria, a fim de derrotar-se completamente o agressor japonês. O Partido Comunista está firmemente convencido de que só a aplicação integral, sincera e resoluta desse programa permitirá a realização do objectivo de defesa da pátria e vitória sobre o agressor. Doutro modo as responsabilidades terão de cair sobre aqueles que temporizam e deixam deteriorar-se a situação; e uma vez subjugado o país, será tarde para arrependimentos e lamentações. Eis o Programa em Dez Pontos para a Salvação da Pátria:

1. Abater o imperialismo japonês.

Romper relações diplomáticas com o Japão, expulsar-lhe os funcionários, prender-lhe os espiões, confiscar-lhe os haveres na China, anular as dívidas chinesas frente a ele, denunciar os tratados com ele concluídos e recuperar todas as concessões japonesas.

Bater-se até a última gota de sangue na defesa do Norte da China e das regiões costeiras.

Bater-se até a última gota de sangue pela recuperação de Pepim, Tientsim e Nordeste.

Expulsar os imperialistas japoneses da China.

Combater toda a hesitação e compromisso.

2. Mobilizar todas as forças armadas do país.

Mobilizar todas as forças de terra, mar e ar para a resistência em escala nacional.

Opor-se ao princípio operacional passivo de pura defesa e aplicar o princípio activo de independência e autonomia nas operações.

Instituir um conselho permanente de defesa nacional para discutir e definir os planos de defesa nacional e os princípios operacionais.

Armar o povo e desenvolver a guerra de guerrilhas anti-japonesa, no sentido de apoiar as operações das forças regulares.

Reorganizar o trabalho político no exército de modo a realizar-se a unidade entre comandantes e combatentes.

Realizar a unidade entre o exército e o povo e desenvolver o espírito de iniciativa no exército.

Apoiar o Exército de Coalizão Anti-Japonês do Nordeste e desarticular a retaguarda do inimigo.

Tratar em pé de igualdade todas as tropas que participam na Guerra de Resistência.

Criar em todo o país regiões militares e mobilizar a totalidade da nação para a guerra, de modo a passar-se progressivamente do sistema mercenário ao serviço militar obrigatório.

3. Mobilizar a totalidade do povo.

Reconhecer às populações, exceptuados os traidores, a liberdade de palavra, imprensa, reunião e associação para a resistência ao Japão e salvação da pátria, bem como o direito de pegar em armas contra o inimigo.

Abolir as velhas leis e decretos que entravam o movimento patriótico do povo e promulgar leis e decretos novos, revolucionários.

Pôr em liberdade todos os presos políticos, patriotas e revolucionários, e anular a interdição dos partidos políticos.

Fazer de modo que o povo inteiro se mobilize, pegue em armas e participe na Guerra de Resistência. Que cada um dê o que tem, uns força de trabalho, outros dinheiro, outros armas, outros conhecimentos.

Mobilizar para a resistência comum ao invasor os mongóis, os hueis e as outras minorias nacionais, de acordo com o princípio da autodeterminação e autonomia nacionais.

4. Reorganizar o aparelho de governo.

Instituir uma assembleia nacional que represente autênticamente o povo, a fim de adoptar-se uma verdadeira constituição democrática, definir-se uma política de resistência ao Japão e salvação da pátria e eleger-se um governo de defesa nacional.

O governo de defesa nacional deve admitir no seu seio revolucionários de todos os partidos e grupos políticos, bem como de todas as organizações populares, à exclusão dos elementos pró-japoneses.

O governo de defesa nacional deve praticar o centralismo democrático, ser simultâneamente democrático e centralizado.

Esse governo aplicará uma política revolucionária de resistência ao Japão e salvação da pátria.

Impõe-se instituir uma autonomia regional, destituir todos os funcionários corrompidos e formar um governo íntegro.

5. Adoptar uma política exterior anti-japonesa.

Sem prejuízo da integridade territorial e da soberania da China, concluir, com todos os países opostos à política agressiva do Japão, alianças contra a agressão e acordos de ajuda militar mútua para resistir ao Japão.

Apoiar a frente internacional de paz e combater a frente de agressão germano-nipo-italiana.

Aliar-se às massas operárias e camponesas da Coreia e do Japão para a luta contra o imperialismo japonês.

6. Adoptar uma política financeira e económica de guerra.

A política financeira deve basear-se no princípio de “os que têm dinheiro contribuem com dinheiro”, bem como no confisco dos bens dos traidores, a fim de custear as despesas de guerra. A política económica deve consistir na reorganização e ampliação da produção destinada à defesa nacional, no desenvolvimento da economia rural e na garantia do abastecimento através das nossas próprias forças, em matéria de produtos necessários ao tempo de guerra. Impõe-se estimular o consumo das mercadorias chinesas, melhorar a qualidade dos produtos locais, interditar rigorosamente as mercadorias japonesas, golpear os traficantes e combater todo o tipo de manobra e especulação.

7. Melhorar as condições de vida do povo.

Melhorar a situação dos operários, empregados, professores e militares anti-japoneses.

Acordar tratamento preferencial às famílias dos militares anti-japoneses.

Abolir os impostos exorbitantes e as taxas múltiplas.

Reduzir as rendas e as taxas de juro.

Assistir aos desempregados.

Ajustar o aprovisionamento em cereais.

Socorrer as vítimas das calamidades naturais.

8. Adoptar uma política de educação ao serviço da resistência ao Japão.

Abolir o antigo sistema de educação e os velhos programas; introduzir sistema e programas novos, orientados para a resistência ao Japão e salvação da pátria.

9. Liquidar os traidores, os vende-pátrias e os elementos pró-japoneses, consolidar a retaguarda.
10. Realizar a unidade nacional contra o Japão.

Na base da cooperação entre o Kuomintang e o Partido Comunista, criar uma frente única nacional anti-japonesa de todos os partidos e grupos políticos, sectores sociais e forças armadas do país, para dirigir a Guerra de Resistência, unir-se com toda a sinceridade e enfrentar a crise nacional.

D. Há que rejeitar a política que confia a resistência exclusivamente ao governo e adoptar uma política de resistência geral da nação. O governo deve unir-se ao povo, fazer reviver em toda a sua integridade o espírito revolucionário do Dr. Sun Yat-sen, aplicar o Programa em Dez Pontos exposto acima e combater pela conquista da vitória completa na Guerra de Resistência. O Partido Comunista da China, bem como as massas populares e as forças armadas que dirige, está decidido a, aplicando esse programa, manter-se nas primeiras linhas da Guerra de Resistência e defender a Pátria até à última gota do seu sangue. Em virtude da política que sempre preconizou, o Partido Comunista da China está disposto a combater sobre uma mesma frente com o Kuomintang e demais partidos e grupos políticos do país, bem como a formar com eles, de mãos dadas, uma grande muralha indestrutível, a Frente Única Nacional, a fim de derrotarem os infames agressores japoneses e lutarem por uma China nova, independente, livre e feliz. Para atingir-se tal objectivo há que combater resolutamente as teorias de compromisso e capitulação dos traidores, assim como o derrotismo nacional, que considera invencível o invasor japonês. O Partido Comunista da China tem a firme convicção de que a realização do Programa em Dez Pontos assegurará a vitória sobre os agressores japoneses. Se os nossos quatrocentos e cinquenta milhões de compatriotas unem os seus esforços, a vitória final pertencerá à nação chinesa!

Abaixo o imperialismo japonês!

Viva a guerra revolucionária nacional!

Viva a China nova, independente, livre e feliz!

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Notas:

(1) Ver nota (1) ao artigo “Linha Política, Medidas e Perspectivas na Luta contra a Ofensiva Japonesa”. (retornar ao texto)

(2) Ver Compêndio de História do Partido Comunista (Bolchevique) da U.R.S.S., capítulo VIII. (retornar ao texto)

(3) Em 1936, os fascistas alemães e italianos serviram-se de Franco, caudilho fascista espanhol, para desencadearem uma guerra de agressão contra a Espanha. Sob direcção do Governo da Frente Popular, o povo espanhol opôs uma heróica resistência em defesa da democracia e contra a agressão. Essa guerra revestiu particular encarniçamento na defesa de Madrid, capital da Espanha. Começada em Outubro de 1936, a luta pela defesa de Madrid durou 2 anos e 5 meses. Em Março de 1939 Madrid cedeu, devido á ajuda prestada aos agressores pela hipócrita política, dita de “não intervenção”, seguida pelos imperialistas ingleses, franceses c outros, e também devido à desintegração verificada no seio da própria Frente Popular. (retornar ao texto)

Inclusão 06/08/2012