História da Revolução Russa

Léon Trotsky


As «Jornadas de Julho»: o ponto culminante e esmagamento


A direcção imediata do movimento passa definitivamente, a partir desse instante, para as mãos do comité peterburguês do partido, cujo principal agitador era Volodarsky. A mobilização da guarnição é confiada à organização militar. Ela tinha à cabeça dois velhos bolcheviques aos quais ele deve muito pelo seu desenvolvimento ulterior. Podvoisky – brilhante e original figura nas fileiras do bolchevismo, com traços de revolucionário russo de tipo antigo, saído do semanário, homem de grande envergadura, ainda se de uma energia indisciplinada, dotado de uma imaginação criadora que, na realidade, perdia-se facilmente em fantasia. «Isso é de Podvoisky», dizia logo Lenine com uma bonomia irónica e circunspecta. Mas os lados fracos desta natureza efervescente devia resaltar sobretudo após a conquista do poder, quando a abundância das possibilidades e dos meios deu demasiados impulsos à prodigiosa energia de Podvoisky e à sua paixão pelas empresas decorativas. Nas condições da luta revolucionária pela conquista do poder, a sua resolução optimista, a sua abnegação, a sua infatigabilidade fazia dele um dirigente insubstituível da massa desperta dos soldados.

Nevsky, no seu passado de docente, de uma constituição mais prosaica que Podvoisky, mas não menos que ele devotado ao partido, de forma nenhuma organizador e, somente por um acaso infeliz, caído um ano depois, por pouco tempo, no posto de ministro soviético das Vias e Comunicações, atraía a si os soldados pela sua simplicidade, sociabilidade e intenções delicadas. À volta destes dirigentes juntou-se um grupo de assistentes muito próximos, soldados e jovens oficiais, entre os quais vários deviam em breve desempenhar um papel importante. Na noite do 3 ao 4 de Julho, a organização militar passa bruscamente ao primeiro plano. Junto de Podvoisky, que, sem dificuldades, tomou as funções de comando, se criou um Estado-maior improvisado. A todos os efectivos da guarnição foram enviados breves apelos e instruções. Para proteger os manifestantes contra os ataques, ordenaram a disposição, junto dos pontos que levam dos arrabaldes ao centro e aos principais cruzamentos das grandes artérias, viaturas blindadas. Os metralhadores, logo na noite, tinham já colocado o corpo da guarda diante da fortaleza Pedro e Paulo. Por telefone e por estafetas, informaram a manifestação no dia seguinte as guarnições de Oranienbaum, de Peterhof, de Krasnoie-Selo e outros pontos próximos da capital. A direcção política geral continua, bem entendido, nas mãos do comité central.

Os metralhadores só voltaram para os quartéis pela manhã, fatigados e a tremer de frio, mesmo se ainda era Julho. Dado que tinha chovido durante a noite, os operários de Potilov estavam encharcados até aos ossos. Os manifestantes juntaram-se pelas onze horas da manhã. A tropa sai ainda mais tarde. O primeiro regimento de metralhadoras ainda está hoje na rua. Mas ele não desempenha como na véspera o papel de instigador. O primeiro lugar foi tomado pelas fábricas. No movimento não são comprometidas a empresas que, na véspera, continuavam à parte. Lá onde os dirigentes hesitam ou se opõem-se, a juventude operária obriga o membro do comité de fábrica que está ao serviço a dar o sinal para parar o trabalho. A fábrica do Báltico, onde predominam os mencheviques e os socialistas-revolucionários, sobre cinco mil operários, cerca de quatro mil meteram-se em marcha. Na fábrica de calçado Skorokhod, que tinha sido considerada há muito tempo como a cidadela dos socialistas-revolucionários, a opinião tinha-se bruscamente modificado, um socialista-revolucionário, teve que renunciar durante alguns dias a mostrar-se.

Todas as fábricas estavam em greve, comícios tinham lugar. Elegeram os dirigentes para a manifestação e delegados que apresentaram reivindicações ao comité executivo. Novamente centenas de milhares de homens alinhara-se, convergiam em direcção do palácio de Kczesinska. O movimento nesse dia é mais imponente e melhor organizado que aquele da véspera: apercebem a mão do partido que o guia. Mas a atmosfera é hoje mais quente: os soldados e os operários procuram obter uma conclusão à crise. O governo está em transe, visto que, no segundo dia da manifestação, a sua impotência é ainda mais evidente que na véspera. O comité executivo espera tropas seguras e recebe de todo o lado relatórios anunciando que contingentes hostis marcham para a capital. De Cronstadt, de Novy-Peterhof, de Krasnoie-Selo, do forte de Krasnaia Gorka, de toda a periferia, pelo mar e por terra avançam marinheiros e soldados, com música à cabeça, armados, e ainda pior, com cartazes bolcheviques. Certos regimentos, como durante os dias de Fevereiro, trazem com eles seus oficiais fazendo conta que manifestam sob o seu comando.

«O conselho de ministros ainda não tinha terminado – conta Miliokov – quando disseram do Estado-maior que, sobre a Nevsky, tinha tido lugar um tiroteio. Decidiram transferir a sessão para o Estado-maior. Lá se encontrara o principe Lvov, Tseretelli, o ministro da Justiça Pereverzev, dois secretários de Estado do ministério da Guerra. Houve um momento onde a situação do governo pareceu desesperada. Os regimentos Preobrajensky, Semenovsky, Ismailovsky que não se juntaram aos bolcheviques, declararam ao governo que eles também se mantinham-se «neutros». Na praça do Palácio, para defender o Estado-maior, só havia inválidos e algumas centenas de cossacos.» O general Polovtsev, na manhã do 4 de Julho, fixou um aviso, anunciando que Petrogrado se desembaraçaria dos bandos armados: os habitantes estavam severamente avisados para fecharem as portas e de não sair, salvo em caso de extrema necessidade.

Esta ordem ameaçadora mostrou-se como um tiro sem chumbo. O comandante do corpo do exército só conseguia lançar sobre os manifestantes pequenos destacamentos de cossacos e de junkers. Durante o dia, eles provocaram tiroteio sem sentido e escaramuças sangrentas. Um comandante do primeiro regimento do Don, que guardava o palácio de Inverno, fez um relato à comissão de instrução: «A ordem tinha sido dada para desarmar os pequenos grupos de pessoas que passavam diante de nós, qualquer que fosse a sua composição, tal como os automóveis armados. Executando esta ordem, nós saímos de tempos a tempos, a passo de corrida, do palácio, em ordem de batalha, e ocupámo-nos do desarmamento... A narração ingénua do comandante de cossacos desenha sem erros as relações de forças e o quadro da luta. As tropas «amotinadas» saem do quartel por companhias e batalhões, ocupam as ruas e as praças. As tropas do governo agem por emboscadas, por incursões, por pequenos destacamentos, isto é precisamente da maneira que utilizam os franco-atiradores. A mudança de papeis explica-se pelo facto que quase toda a força armada do governo lhe é hostil, ou, no melhor dos casos, continua neutra. O governo vive sobre a confiança do comité executivo, o qual se mantém ele próprio com essa esperança das massas que ele raciocinará afim de tomar o poder.

A manifestação tomou uma grande magnitude quando apareceram em Petrogrado os marinheiros de Cronstadt. Já na véspera, na guarnição da fortaleza marítima, delegados dos metralhadores tinham agido. Na praça da Tinta, de maneira inesperada para as organizações locais, um comício formou-se, sob a iniciativa de anarquistas chegados de Petrogrado. Rochal, estudante de medicina, um dos jovens heróis de Cronstadt e favorito da praça da Tinta, tentou pronunciar um discurso apaziguador. Milhares de vozes cortaram-lhe a palavra. Rochal, habituado a ser recebido de outra forma, teve que abandonar a tribuna. Foi só na noite que se soube que os bolcheviques, em Petrogrado, apelavam a descer à rua. Isso decidia a questão. Os socialistas-revolucionários de esquerda – não havia e não podia haver direita em Cronstadt! - declararam que eles também tinham intenção de participar na manifestação. Esses homens, pertencendo ao mesmo Partido que Kerensky que, entretanto, agrupavam tropas sobre a frente para esmagar os manifestantes.

O estado de espírito na sessão da noite dos organizadores de Cronstadt foi tal que mesmo o tímido comissários do governo provisório Partchevsky votou pela marcha sobre Petrogrado. Um plano foi estabelecido, mobilizou-se uma frota, para as necessidades de uma intervenção de ordem política; o arsenal entregou mais de uma tonelada de munições. Sobre os reboques e os vapores para os passageiros, cerca de dez mil marinheiros, soldados e operários armados entraram no estuário do Neva ao meio-dia. Desembarcando sobre as duas margens do rio, eles uniram-se num só cortejo, de espingarda ao ombro, música à cabeça. Atrás dos destacamentos de marinheiros e de soldados, colunas de operários dos distritos de Petrogrado e de Vassili-Ostrov, misturados às companhias de combate da Guarda vermelha. Nos lados, viaturas blindadas; acima das cabeças, numerosos cartazes e bandeiras.

O palácio de Kczesinska está a dois passos. Pequenino, enfezado, negro, como alcatrão, Sverdlov, um dos principais organizadores do partido, introduziu, na conferência de Abril, no comité central, mantinha-se na varanda, e como homem atarefado, como sempre, dava ordens lá do alto, com uma potente voz de baixo: «Fazer avançar a cabeça da manifestação, apertar as filas, juntar os atrasados.» Os manifestantes foram saudados do alto da varanda por Lunatcharsky, sempre pronto a se deixar contaminar pelo ambiente sabendo impor-se pela sua maneira de estar e sua voz, eloquente orador, nem sempre muito certo, mas muitas vezes insubstituível. Foi acolhido em baixo por uma tempestade de aplausos. Mas os manifestantes desejavam ouvir o próprio Lenine – que, justamente, nessa manhã tinham feito vir do seu asilo provisório em Finlândia — e os marinheiros insistiram de tal forma que, apesar do seu mau estado de saúde, Lenine não se pode furtar. Uma corrente irresistível, simplesmente a corrente de Cronstadt, entusiasta, encontrou, em baixo, a aparecimento do chefe à varanda.

Impacientemente e, como sempre, um pouco confuso, esperando o fim dos aplausos, Lenine começou a falar antes que as vozes se acalmassem. O seu discurso que, a seguir, durante semanas e semanas, sob todas as formas, a imprensa adversa viu e reviu, consistiu em algumas frases simples: saudação aos manifestantes; expressão de segurança que a palavra de ordem «todo o poder aos sovietes» finalmente seria vencedor; apelo à perseverança e à firmeza. Com novos gritos, a manifestação desenrolou-se ao som da música. Entre essa abertura de festa e a etapa mais próxima onde sangue foi vertido, introduziu-se um episódio curioso. Os dirigentes dos socialistas-revolucionários de Cronstadt, apenas notaram no Campo de Março, à cabeça da manifestação, o imenso cartaz do Comité central dos bolcheviques, que apareceu após a paragem diante da casa de Kczesinska, fervendo de ciúme de partido, exigiram que esse cartaz desaparecesse. Os bolcheviques recusaram. Então os socialistas-revolucionários declararam que iam embora. Nenhum dos marinheiros nem soldados não seguiu todavia os líderes. Toda a política dos socialistas-revolucionários de esquerda consistia nessas hesitações caprichosas, ora cómicas, ora trágicas.

Na esquina da Nevsky e da Liteiny, a retaguarda dos manifestantes foi alvo de um tiroteio, houve várias vítimas. Um tiroteio mais violento produziu-se na esquina da Liteiny e da rua Panteleimonovska. Aquele que guiava os homens de Cronstadt, Raskolnikov, lembra-se qual foi a violenta impressão dos manifestantes diante «do desconhecido: onde estava o inimigo? Donde disparava?» Os marinheiros pegaram nas suas espingardas, um tiro desordenado começou em todas as direcções, várias pessoas foram mortas ou feridas. Foi com grande dificuldade que se conseguiu restabelecer um faz de conta de ordem. O cortejo continuou a avançar ao som da música, mas já não havia traço do seu entusiasmo de festa. «Em todo o lado pensava-se ter visto o inimigo dissimulado. Os fuzis já não eram pacificamente levados no ombro esquerdo, mas estavam cruzados.»

Durante o dia, sobre diversos pontos da cidade, não houve escaramuças sangrentas. Em parte, não se pode dispensar de acusar de malentendidos, de confusões, os tiros disparados de uma maneira ou de outra, o pânico. Esses acasos trágicos entram nos custos falsos inevitáveis de uma revolução que é ela própria um falso custo no desenvolvimento histórico. Mas também o elemento de provocação mortífero nos acontecimentos de Julho, absolutamente incontestável, foi revelado nos próprios dias e confirmado logo a seguir. «Quando os soldados manifestantes – conta Podvoisky – começaram a passar pela Nevsky e pelas ruas adjacentes, habitadas sobretudos por burgueses, sintomas sinistros de choques manifestaram-se: estranhos tiros que partiam não se sabe donde nem de quem... As colunas sentiram-se logo perturbadas, a seguir os menos firmes e os menos moderados abriram um tiroteio desordenado.»

Nas Izvestia oficiais, o menchevique Kantorovitch descrevia o tiroteio dirigido sobre uma das colunas operárias nos termos seguintes: «Na rua Sadovaia caminhava uma multidão de sessenta mil operários vindos de numerosas fábricas. No momento que passavam diante da igreja, os sinos começaram a tocar e, como um sinal, do alto dos telhados começou o tiroteio dos fuzis e de metralhadoras. Quando a multidão de operários avançou do outro lado da rua, do alto dos telhados da frente começaram a disparar.«Dos telhados e sótãos onde, em Fevereiro, se tinham instalado os faraós de Protopopov armados de metralhadoras, agora agiam os membros das organizações dos oficiais. Ao disparar sobre os manifestantes, eles tentavam, não sem sucesso, espalhar o pânico e provocar choques entre as unidades do exército. Perseguições feitas nas casas donde tinham disparado levaram à descoberta de ninhos de metralhadoras, às vezes mesmo metralhadores.

Os principais causadores da infusão de sangue eram, porém, tropas do governo, impotentes em dominar o movimento, mas suficientes para provocar. Cerca das oito horas da noite, como a manifestação estava no auge, dois grupos de cossacos, com artilharia ligeira, estavam a caminho para irem proteger o palácio de Tauride. Recusando obstinadamente, a caminho, de travar conversa com os manifestantes, o que já era de mau presságio, os cossacos confiscaram, onde foi possível, viaturas armadas e desarmavam os pequenos grupos. As peças de artilharia dos cossacos, nas ruas ocupadas pelos operários e soldados, pareciam uma intolerável provocação. Tudo fazia prever um choque. Perto da ponte Liteiny, cossacos chegavam junto das massas compactas do adversário que teve tempo de construir aqui, no caminho levando ao palácio de Tauride, algumas barragens. Um minuto de silêncio sinistro, rasgado por tiros vindos das casas vizinhas. «Os cossacos vazam carregadores inteiros, escreve o operário Metelev; os operários e os soldados, dispersos atrás dos seus abrigos ou simplesmente deitados sobre os passeios, respondem, sob o tiroteio, da mesma maneira. O tiroteio dirigido pelos soldados obriga os cossacos a recuar. Tendo penetrado no cais da Neva, estes últimos abrem fogo de artilharia, três salvas que foram assinaladas pelas Izvestia. Mas, atingidos pelo tiroteio, batem em retirada na direcção do palácio de Tauride. Uma coluna de operários que eles encontram dá-lhe o golpe decisivo. Abandonando seus canhões, seus cavalos, e carabinas, os cossacos escondem-se nos vestíbulos da casas burguesas ou dispersam-se.

O choque sobre a Liteiny, verdadeira pequena batalha, foi o maior episódio da guerra dos dias de Julho e há narrações nas lembranças de numerosos participantes da manifestação. Bourssine, operário da fábrica Erickson, tinha marchado com os metralhadores, conta que, encontrando-se frente a frente com eles «os cossacos abriram fogo imediatamente. Numerosos operários jaziam mortos no chão. Eu também, nesse sítio, recebi uma bala que me atravessou a perna e penetrou na outra... Guardo como lembrança viva dos dias de Julho uma perna inválida e uma muleta»... No choque na Liteiny, sete cossacos foram mortos, dezanove feridos. Entre os manifestantes, houve seis mortos e cerca de vinte feridos. Aqui e ali, jaziam cadáveres de cavalos.

Nós possuímos um testemunho interessante do campo oposto. Averine, o comandante que, logo na manhã, se entregara aos ataques dos partidários sobre os insurrectos regulares, conta isto: «Às oito horas da noite, recebemos do general Polovtsev ordem de avançar junto com dois grupos, com dois canhões de tiro rápido, para o palácio de Tauride... Atingimos a ponte Liteiny, sobre o qual vi operários, soldados e marinheiros armados... Com o meu destacamento à cabeça, aproximei-me deles e pedi-lhes para devolver as armas. Mas não consideraram o meu conselho e todo este grupo fugiu pela ponte em direcção ao bairro de Vyborg. Não tive tempo de os perseguir quando um soldado de baixa estatura, sem galões, voltam-se para mim e dispara, mas falhou o alvo. Esse tiro serviu de certa forma como sinal, e, por todo o lado dispararam de forma desordenada. Gritos vieram da multidão: «Os cossacos disparam sobre nós!» Na realidade, era isso que se passava: os cossacos desceram das montadas e meteram-se a disparar, houve mesmo tentativas de disparar canhões, mas os soldados abriram fogo em rajada que obrigou os cossacos a recuar e a dispersarem-se pela cidade».

Nada de impossível para que um soldado tenha disparado sobre os comandantes: um oficial dos cossacos devia esperar mais por uma bala que por cumprimentos na multidão de Julho. Mas muito mais verdadeiro são os testemunhos numerosos dizendo que os primeiros tiros tinham partido não da rua mas de certas emboscadas. Um cossaco das fileiras, pertencendo ao mesmo grupo que o comandante, disse convencido que os cossacos tinham recebido tiros disparados do palácio da Justiça e a seguir dos edifícios, na rua Samursky e na Liteiny. Na gazeta oficial do soviete, foi mencionado que os cossacos, antes de chegar à ponte Liteiny, tinham estado debaixo do fogo das metralhadoras disparado de uma casa de pedra. O operário Metelev afirma que, quando esses soldados revistaram essa casa, encontraram, no apartamento de um general, munições, nomeadamente duas metralhadoras com fitas de cartuchos.

Não há nada aí de inverosímil. O comandante, por todos os meios lícitos e ilícitos, coleccionava, em tempo de guerra, muitas armas de toda a especie. A tentação de regar com chumbo a «canalha« era demasiado grande. Na verdade os tiros atingiram os cossacos. Mas, na multidão dos dias de Junho, estavam certos que os contra-revolucionários disparavam conscientemente sobre as tropas governamentais para provocar represálias impiedosas. O corpo de oficiais que, ainda na véspera, gozava de uma autoridade ilimitada, não conhecia, na guerra civil, limites à perfídia e à crueldade. Em Petrogrado abundavam um grande número de organizações secretas e meio secretas de oficiais que gozavam de apoios generosos. Numa informação confidencial que deu o menchevique Liber quase um mês antes das Jornadas de Julho, notou-se que os oficiais conspiradores tinham acesso a Buchanan. Com efeito, os diplomatas da Entente não podiam preocupar-se da instauração mais rápida possível de poder forte?

Os liberais e os conciliadores procuravam, em todos os excessos, a mão dos «anarco-bolcheviques» e dos agentes da Alemanha. Os operários e os soldados atribuíam com toda a certeza a responsabilidade das escaramuças de Julho que tinham causado vítimas aos provocadores patriotas. De qual lado está a verdade? Os julgamentos da massa, bem entendido, não são exemplos de erros. Mas comete-se uma grande falta se se pensar que a massa é cega e crédula. Aí onde é atingida, é nos milhares de olhos e ouvidos que ela regista os factos e as suposições, que ela verifica pelo teste dos rumores, adoptando uns, eliminando outros. Aí, onde as versões no que diz respeito os movimentos de massa são contraditórios – mais próximo da verdade será a interpretação que a própria massa assimilou. É por isso que são tão estéreis para a ciência os sicofantas internacionais do tipo de Hipólito Taine que, estudando os grandes movimentos populares, ignoram as vozes da rua, recolhendo com cuidado os mexericos dos salões, engendrados pelo isolamento e o medo.

Os manifestantes cercavam de novo o palácio de Tauride e exigiam uma resposta. No momento que surgiram os homens de Cronstadt, um certo grupo pediu a Tchernov para os encontrar. Sentindo o estado de espírito da multidão, o ministro pronunciou um curto discurso, escamoteando a crise do poder e mostrando desprezo pelos cadetes que tinham abandonado o governo: «Boa viagem!» Foi interrompido pelas exclamações: «Mas porquê não nos disse isso mais cedo?» Miliokov assegura mesmo que um operário alto, estendendo o punho na cara do ministro gritou, furioso: « Quando te derem o poder toma então, filho de uma cadela,!» Se não há nada mais que uma anedota, ela não exprime com menos precisão um pouco rudemente o essencial da situação de Julho. As respostas de Tchernov são sem interesse: de qualquer modo, elas não lhe conquistaram os corações de Cronstadt...

Dois ou três minutos depois, alguém irrompeu na sala de sessões do comité executivo, gritando que Tchernov tinha sido preso pelos marinheiros que tinham a intenção de lhe pregar uma partida. Na agitação indescritível, o comité executivo expediu, para tirar o ministro de sarilhos, alguns dos seus membros mais conhecidos, exclusivamente internacionalistas e bolcheviques. Tchernov logo depôs na comissão governamental que, descendo da tribuna, tinha notado por detrás das colunas, perto da entrada, o movimento hostil de alguns individuos.

«Uns rodearam-me, impedindo-me de alcançar a porta... Um individuo estranho, comandando os marinheiros que me tinham preso, indicava constantemente a viatura, que se encontrava nas proximidade... Nesse momento aproximou-se do automóvel saindo do palácio de Tauride, Trotsky que, subindo sobre o capô no automóvel onde me encontrava, pronunciou um breve discurso.» Propondo libertar Tchernov, Trotsky pediu aos que não estavam de acordo para levantarem a mão. «Nem uma mão se levantou: então o grupo que me tinha conduzido ao automóvel afastou-se com ar descontente. Trotsky, tanto que me parece, tinha dito: Ninguém, cidadão Tchernov, não vos impede de voltar livremente para casa... O quadro geral que se apresenta não me permite duvidar que uma tentativa foi feita, preparada com antecedência, por sombrios individuos, agindo fora da massa dos operários e dos marinheiros, para me fazer sair e me prender.»

Uma semana antes de ser preso, Trotsky dizia na sessão unificada dos comités executivos: «Esses factos entrarão na história e nós tentaremos de restabelecê-los tais como eles foram... Vi que perto da entrada, mantinha-se um pequeno grupo de suspeitos. Disse a Lunatcharsky e a Riazanov que eram gente da Okhrana que tentavam de penetrar no palácio de Tauride. (Lunatcharsky, do seu lugar: «É verdade!»... Teria podido distingui-los numa multidão de dez mil pessoas.» Nas suas deposições do 24 de Julho, estando já preso na sua célula na prisão de Kresty, Trotsky escrevia: «... Eu tinha primeiro decidido de sair da multidão com Tchernov e os que queriam prendê-lo, no mesmo automóvel, para evitar os conflitos e o pânico na multidão. Mas é impossível... Se vocês vão de carro com Tchernov, amanhã dirão que os marinheiros de Cronstadt queriam prendê-lo. É preciso entregar Tchernov imediatamente.» Logo que um clarim convidou a multidão ao silêncio e me deu a possibilidade de pronunciar um breve discurso terminando por esta questão: «Aquele que é pela violência que levante a mão!» - Tchernov teve logo a possibilidade de voltar para o palácio sem obstáculos.»

As deposições de duas testemunhas, que foram ao mesmo tempo os principais actores – no incidente, relatam integralmente o que é aqui a realidade. Mas isso não impede de forma nenhuma a imprensa hostil aos bolcheviques de expor o caso Tchernov e a «tentativa» de prisão de Kerensky como as provas mais convincentes da organização pelos bolcheviques de uma insurreição armada. Não deixaram de alegar, sobretudo na agitação verbal, que a prisão de Tchernov teria sido dirigida por Trotsky. Esta versão chegou mesmo ao palácio de Tauride. O próprio Tchernov, quem conta de uma maneira aproximadamente verdadeira as circunstâncias da sua prisão de meia-hora, num documento secreto de instrução, abstendo-se todavia de qualquer manifestação pública sobre o assunto para não impedir o seu partido de fomentar a indignação conta os bolcheviques. Além disso, Tchernov fazia parte do governo que tinha encarcerado Trotsky na prisão de Kresty. Os conciliadores teriam podido, na verdade fazer observar que um bando de tipos esquisitos conspiradores não ousou chegar-se a tão temível projecto de prender um ministro na multidão em pleno dia, sem esperança que a hostilidade da multidão em relação à «vítima» seria um disfarce suficiente. Foi assim até um certo ponto. Ninguém, à volta da viatura, não fez, pela sua própria iniciativa, a tentativa de obter a liberdade de Tchernov. Se, para cumulo, Kerensky tinha sido preso nalgum sítio, nem os operários nem os soldados não se teriam preocupado. Nesse sentido, a participação moral das massas aos atentados reais e imaginários sobre os ministros socialistas era adquirida e era motivo para acusar os homens de Cronstadt. Mas, para sair francamente este argumento, os conciliadores ficaram incomodados pelo cuidado que eles tiveram em salvar qualquer coisa do seu prestígio democrático: evitando hostilmente os manifestantes, eles não deixaram de resistir ao sistema dos sovietes operários, soldados e camponeses no palácio de Tauride cercado.

Cerca das oito horas da noite, o general Polovtsev, pelo telefone,deu algumas esperanças ao comité executivo: dois grupos de cossacos, com canhões, dirigiam-se para o palácio Tauride. Enfim, enfim! Mas as esperanças, ainda desta vez, foram ludibriadas. Os telefonemas à direita e à esquerda agravavam o pânico: os cossacos tinham desaparecido sem deixar traço, com se tivessem evaporado com os seus cavalos, e seus canhões de tiro rápido. Miliokov escreveu que, pela noite, começaram a se revelar «os primeiros resultados das chamadas dirigidas pelo governo às tropas»; foi assim que, para libertar o palácio de Tauride, o 176º regimento teria partido à pressa. Esta alegação, aparentemente tão preciosa, caráteriza de uma maneira curiosa os mal-entendidos que se produzem inevitavelmente no primeiro período de uma guerra civil quando os campos começam a diferenciar-se.

Na realidade, um regimento chegou ao palácio de Tauride em farda de campanha: mochila, capote enrolado à bandoleira, marmita e cantil. Os soldados, a caminho, tinham ficado molhados até aos ossos e estavam extenuados: chegaram a Krasnoie-Selo. Era o 176º. Mas ele não estava disposto a ajudar o governo: em ligação com os delegados inter-distritos, o regimento meteu-se em marcha sob a direcção de dois soldados bolcheviques, Levinson e Medvedev para exigir o poder para os sovietes. Os dirigentes do comité executivo, que estavam alertados, foram imediatamente avisados que por debaixo das janelas estava, para descansar, um regimento vindo de longe, em perfeita ordem, com os seus oficiais. Dan, que trajava uniforme de médico major, pediu ao comandante para estabelecer postos da guarda para a protecção do palácio. Sentinelas foram com efeito logo colocadas. Dan, acredite-se, referiu com satisfação ao presidente, et, daí, o facto foi inserido nos relatos dos jornais. Sukhanov afirma nas sua memórias a docilidade com a qual o regimento bolchevique aceitou a execução da ordem do líder menchevique: mais uma prova da «absurdidade»da manifestação de Julho!

Na realidade, o caso era e mais simples e mais complexo. Convidado a colocar sentinelas, o chefe do regimento dirigiu-se a um ajudante de serviço, o jovem tenente Prigorovsky. Infelizmente, Prigorovsky era bolchevique, membro da organização inter-distritos, e veio logo pedir conselho a Trotsky, o qual, com um pequeno grupo de bolcheviques, ocupava um posto de observação numa das salas laterais do palácio. Aconselharam, bem entendido, a Prigorovsky a colocar imediatamente, onde era preciso, sentinelas: é mais vantajoso ter, nas entradas e nas saídas, amigos que inimigos. Foi assim que o 176º, vindo para manifestar contra o poder protegia esse poder contra os manifestantes. Se tivesse sido efectivamente questão de uma insurreição, o tenente Progorovsky, com somente quatro soldados, teria sem dificuldades prendido todo o comité executivo. Mas ninguém não pensava prender ninguém, os soldados do regimento bolchevique montaram a guarda conscientemente.

Quando os grupos de cossacos, único obstáculo no caminho do palácio de Tauride, foram varridos, muitos manifestantes imaginaram que a vitória estava assegurada. Na realidade, o principal obstáculo residia no interior do palácio. A sessão unificada dos comités executivos, que começou cerca das seis horas da tarde, estavam presentes noventa representantes das cinquenta e quatro fábricas e oficinas. Cinco oradores, aos quais foi combinado dar a palavra, começaram por protestar contre esse facto que os manifestantes foram caluniados nos apelos do comité executivo, como contra-revolucionários. «Vocês vêm o que se lê sobre os cartazes, declara um. Tais são as decisões tomadas pelos operários... Nós exigimos a partida dos dez ministros capitalistas. Nós temos confiança no soviete, mas não naqueles que o soviete coloca suas esperanças... Nós exigimos que a terra seja confiscada imediatamente, que um controlo da produção seja imediatamente estabelecido, nós exigimos que se lute contra a fome que nos ameaça...» Outro acrescentou: «Vocês têm diante de vós não um motim, mas uma manifestação perfeitamente organizada. Exigimos que se abroge as ordens dirigidas contra o exército revolucionário... Agora que os cadetes recusaram trabalhar convosco, nós perguntamos com quem vocês terão ainda negociações. Nós exigimos que o poder passe para as mãos dos sovietes.»

As palavras de ordem de propaganda da manifestação do 18 de Junho tinham-se tornado um ultimato de combate das massas. Mas os conciliadores já estavam fortemente amarrados à carroça dos ricos. O poder dos sovietes? Isso significa antes de mais uma política ousada de paz, a ruptura com os Aliados, a ruptura com a burguesia do país, um completo isolamento, a catástrofe em algumas semanas. Não, a democracia consciente do seu dever não se comprometerá na via das aventuras! «As circunstâncias presentes – dizia Tseretelli – não permitia que, no ambiente de Petrogrado, se encontrem novas soluções.» Fica isto: «Reconhecer o governo tal que ele se constituiu... Convocar um congresso extraordinário dos sovietes em quinze dias num lugar onde se possa trabalhar sem obstáculos, e o melhor seria em Moscovo.»

Mas a sessão é constantemente interrompida. A porta do palácio de Tauride batem os operários de Potilov: eles só se meteram em movimento à noite, cansados, sobreexcitados, enfurecidos. Tseretelli! Traz para aqui Tseretelli!» Uma massa de trinta mil homens envia ao palácio os seus delegados, alguém grita atrás que se Tseretelli não quer sair de boa vontade, sairá à força. Da ameaça à acção há uma distância, mas o caso já se mostra ruim, e os bolcheviques apressam-se a intervir. Zinoviev, logo, conta isto: «Os nossos camaradas convidaram-me a ir diante dos operários de Potilov... Um mar de cabeças tal como nunca vi. Várias dezenas de milhar de homens. Os gritos: «Tseretelli!» continuavam... Eu começava: «Em vez de Tseretelli, sou eu quem sai.» (Risadas.) Isso fez uma reviravolta dos espíritos. Posso pronunciar um discurso bastante longo... Concluindo, peço a este auditório de se dispersar logo, pacificamente, mantendo uma ordem perfeita e não deixando, em qualquer caso provocar gestos agressivos. (Tempestade de aplausos.) Os homens reunidos metem-se em filas e começam a se dispersar.» Este episódio ilustra melhor, e o descontentamento das massas, e a ausência de um plano ofensivo, e o papel real do partido nos acontecimentos de Julho.

Enquanto que Zinoviev explicava-se no exterior com os operários de Potilov, na sala das sessões interveio um grupo muito numeroso dos seus delegados de forma veemente, alguns com carabinas. Os membros dos comités executivos sobressaltaram dos seus lugares. «Alguns não mostraram suficiente bravura e seguros deles próprios», escreveu Sokhanov que deixou uma viva descrição desse momento dramático. Um dos operários, «o sem cueca clássico, de boné e de camisa azul curta sem cintura, de arma na mão» saltou sobre a tribuna, tremendo de emoção e de cólera... «Camaradas! Iremos tolerar, nós, operários, a traição? Vocês entendem-se com a burguesia e os proprietários das terras... Nós, os de Potilov, nós somos aqui trinta mil... Obteremos o que quisermos!...» Tchkheidze, que tinha debaixo do nariz uma arma, soube conter-se. Debruçando-se tranquilamente do seu estrado, deslizava na mão que tremia um apelo imprimido: «Tome, camarada, pegue isso, faça favor, e leia. Dizem aí o que devem fazer os camaradas da fábrica Potilov...» O apelo nada dizia a não ser que os manifestantes deviam voltar para casa senão seriam tratados como traidores à revolução. E que poderiam dizer ainda os mencheviques?

Na agitação junto das paredes do palácio de Tauride, tal como em geral no turbilhão da agitação deste período, um grande lugar foi ocupado por Zinoviev, orador de uma força excepcional. A sua voz alta de tenor ecoava no primeiro momento e logo conquistaria pela sua musicalidade original. Zinoviev era um agitador nato. Sabia ceder ao contágio da massa, comover-se das suas emoções e encontrar pelos sentimentos e pensamentos uma expressão talvez um pouco difusa, mas impressionante. Os adversários diziam de Zinoviev que ele era o maior demagogo entre os bolcheviques. Assim, eles prestavam homenagem ao mais forte dos seus traços, isto é a sua capacidade de penetrar a alma do Demos e de brincar com as suas cordas. Não se pode portanto negar que sendo somente um agitador, sem ser um teórico, um estratega revolucionário, Zinoviev, quando não era retido por uma disciplina exterior, deslizava facilmente, na via da demagogia, não no sentido vulgar, mas no sentido científico da palavra, isto é mostrava inclinação a sacrificar interesses longínquos aos sucessos do momento. O faro de agitador de Zinoviev fazia dele um conselheiro extremamente precioso na medida onde se tratava de avaliação política por uma circunstância, mas não profundamente. Nas reuniões do partido, ele sabia convencer, conquistar, enfeitiçar, quando chegava com uma ideia política já confeccionada, verificada num dos comícios de massas e, diria, completamente saturada das esperanças e de ódios dos operários e dos soldados. Zinoviev era incapaz, por outro lado, numa assembleia hostil, mesmo no comité executivo de então, dar aos pensamentos mais extremos e os mais explosivos uma forma envolvente, insinuante, penetrando os cerebros dos que o consideravam com uma desconfiança antecipada.

Para chegar a esses resultados inapreciáveis, não lhe bastava sentir-se somente no seu direito; para se consolar, ele precisava de saber com toda a certeza que estava exempto da responsabilidade política por uma força resistente e sólida. Esta segurança vinha-lhe de Lenine. Armado de uma formula de estratégia já feita, revelando o próprio fundo da questão, Zinoviev, engenhosamente e com faro, preenchia-a de exclamações novas, de protestos, de reivindicações, colhidas na hora mesmo na rua, na fábrica ou no quartel. Em tais momentos, ele era um mecanismo ideal de transmissão entre Lenine e a massa, parcialmente entre a massa e Lenine. Zinoviev seguia sempre o seu mestre, excepção feita de casos pouco numerosos; mas a hora das dissensões chegava logo no momento ou se decidia da sorte do partido, da classe, do país. A agitador da revolução não tinha suficientemente carácter revolucionário. Tanto que não se tratava de conquistar as cabeças e as almas, Zinoviev era um militante infatigável. Mas perdia logo a sua convicção combativa quando se encontrava diante da necessidade de agir. Então recuava bruscamente diante da massa, como diante de Lenine, ele tinha reacções somente diante das vozes indecisas, recolhia dúvidas, só via os obstáculos, e a sua voz insinuante, quase feminina, deixava de ser persuasiva, traindo a sua fraqueza íntima. Sob as paredes do palácio de Tauride, durante as jornadas de Julho, Zinoviev era extremamente activo, inventivo e forte. Ele produzia nas mais altas notas a excitação das massas – não para as chamar para os actos decisivos, mas, pelo contrário, para as impedir. Isso respondia às circunstâncias e à política do partido. Zinoviev estava plenamente no seu elemento.

O combate na Liteiny ocasionou no seguimento da manifestação uma brusca quebra. Ninguém já olhava o cortejo do alto das janelas ou das varandas. As pessoas importantes, ocupando as gares, desertavam a cidade. A luta nas ruas transformava-se em escaramuças, aqui e ali, sem fim determinado. Durante as horas nocturnas, houve lutas de corpo a corpo entre manifestantes e patriotas, desarmava-se as pessoas ao acaso, as armas passavam de uma mão para a outra. Grupos de soldados dos regimentos que tinham destroçado as fileiras agiam de um lado e outro. «Elementos esquisitos e provocadores que se tinham inserido entre eles incitáva-os a cometer actos anárquicos», acrescenta Podvoisky. A procura de culpados do tiroteio feito a partir das casas, grupos de marinheiros e de soldados procediam a rigorosas rusgas. Sob o pretexto de revistar, as pilhagens tinham lugar aqui e ali. Por outro lado, os progroms começaram. Comerciantes, nos bairros da cidade onde eles se sentiam em força, jogavam-se com furor sobre os operários e golpeavam-os sem piedade. «Aos gritos de «batam nesses judeus e nos bolcheviques, joguem-nos à água!» conta Afanassiev, operários da fábrica Novy-Lessnerl – a multidão cai sobre nós e bateu duro.» Uma das vítimas morreu no hospital. O próprio Afanassiev, martirizado e sangrando, foi retirado do canal Ekarininsky pelos marinheiros...

Choques, vítimas, uma luta sem resultados, cujo objectivo prático não era palpável, e isso limitava o movimento. O comité central dos bolcheviques decidiu convidar os operários e os soldados a parar a manifestação. Agora esse apelo, imediatamente levado ao conhecimento do comité executivo, não teve quase qualquer resistência nos meios da base. As massas voltaram para os arrabaldes e não se dispuseram a recomeçar a luta no dia seguinte. Elas tinham sentido que a questão do poder do soviete apresentava-se de uma maneira muito mais complicada do que tinham pensado.

O cerco do palácio de Tauride foi definitivamente levantado, as ruas vizinhas ficaram desertas. Mas os comités executivos continuavam vigilantes, com suspensões das sessões, des discursos entusiastas, sem significado e alcance. Descobriu-se somente mais tarde que os conciliadores ficavam à espera de qualquer coisa. Nos lugares do lado, os delegados das fábricas e dos regimentos fartava-se de esperar. «Meia-noite já passou – conta Metelev – e continuamos à espera de uma «solução»... Martirizados pela fatiga e fome, esperávamos na sala Alexandrovsky... Às quatro horas da madrugada, no dia 5 de Julho, as nossas esperanças chegaram ao fim... Pela grande porta aberta da entrada principal do palácio irromperam ruidosamente oficiais e soldados armados.» Por todo o edifício ecoava o som dos instrumentos de cobre da Marselhesa. O bater das botas e a barulheira dos instrumentos nessa hora matinal provocam na sala das sessões uma emoção extraordinária. Os deputados levantaram-se bruscamente dos seus lugares. Um novo perigo? Mas, na tribuna, Dan...: «Camaradas, anunciou, acalmem-se! Não há qualquer perigo! São os regimentos fiéis à revolução que chegam.»

Sim, eles chegavam enfim, as tropas seguras, há muito esperadas. Elas ocupam as passagens, jogando-se raivosamente sobre alguns operários que se encontram ainda no palácio, retiram suas armas aos que têm, prendem-nos, levam-nos. À tribuna sobe o tenente Kutchine, menchevique bem conhecido, em traje de campanha. Dan que preside dá-lhe um abraço com acentos de vitória de orquestra. Ofegantes de entusiasmo e esmagando as esquerdas com olhares triunfantes, os conciliadores apertavam-se as mãos, e, de goela aberta, misturam seu entusiasmo ao som da Marselhesa. «É a cena clássica de um início de contra-revolução!» exclamou Martov, que sabia observar e compreender bem as coisas. O sentido político da cena relatada por Sokhanov se tornará ainda mais significativo se nos lembrarmos que Martov era do mesmo partido que Dan, pelo qual esta cena marcava um triunfo supremo da revolução.

Foi somente então, ao notar a alegria transbordante da maioria, que a ala esquerda começou a compreender exactamente a que ponto o órgão supremo da democracia oficial se encontrava isolada quando a autêntica democracia desceu à rua. Essa gente, durante trinta e seis horas, tinha cada um por sua vez desaparecido dos corredores para se meter, pela cabine telefónica, em contacto com o Estado-maior, com Kerensky na frente, para reclamar tropas, chamar, convencer, suplicar, enviar ainda e ainda agitadores, e esperar de novo. O perigo tinha passado, mas o medo subsistia por inércia. E o ruído das botas dos «fiéis» por volta das cinco horas da manhã soou nas orelhas como um sinfonia de libertação. Da tribuna partiram enfim os discursos francos sobre o feliz esmagamento do motim armado e sobre a necessidade de acabar com ele, desta vez, com os bolcheviques.

O destacamento que tinha entrado no palácio de Tauride não tinha chegado da frente como muitos acreditaram na primeira ocasião: ele tinha sido recolhido na guarnição de Petrogrado, principalmente sobre três batalhões da Guarda, os mais atrasados: os do regimento Preobrajensky, Seirtenovsky e Ismailovsky. No 3 de Julho, eles tinham-se declarado neutros. Foi em vão que se tentou de lhe impor com a autoridade do governo e do comité executivo: os soldados ficaram aborrecidos, fechados nas suas casernas, na expectativa. Foi somente na tarde do dia 4 de Julho que as autoridades descobriram, enfim, um potente meio de acção: mostraram aos homens do regimento Preobrajensky documentos que provavam como dois e dois são quatro que Lenine era um espião da Alemanha. Isso resultou. A notícia espalhou-se nos regimentos. Os oficiais, os membros dos comités de regimentos, os agitadores do comité executivo dobraram de ardor no trabalho. A opinião dos batalhões neutro foi bruscamente modificada. Pela madrugada, quando não havia necessidade nenhuma deles, conseguiram reuni-los e a fazê-los marchar nas ruas desertas em direcção ao palácio de Tauride que se tinha esvaziado. A Marselhesa foi tocada pela orquestra do regimento Ismailovsky, esse mesmo que, sendo o mais reaccionário, tinha sido encarregado, no 3 de Dezembro de 1905, de prender o primeiro soviete de deputados operários de Petrogrado, cujo presidente era Trotsky. O encenador cego da história obtém a cada passo surpreendentes golpes de teatro sem os ter procurado: ele larga simplesmente a rédea à lógica das coisas.

Quando as ruas ficaram desembaraçadas das massas, o jovem governo da revolução aliviou os seus membros de impotência: representantes de operários foram presos, armas confiscadas, bairros da cidade cortados uns dos outros. Cerca das seis horas da manhã, diante da redacção da Pravda, parou um automóvel carregado de junkers e de soldados, com uma metralhadora que foi imediatamente apontada à janela. Após a partida dos intrusos, a redacção apresentava um espectáculo de demolição: as gavetas das mesas tinham sido forçadas, o soalho cheio de manuscritos rasgados, os fios dos telefones cortados. Os homens da guarda e os empregados da redacção e da administração tinham levado uma sova de socos e presos. O saque tinha sido ainda maior na tipografia pela qual os operários nos três últimos meses tinham colectado fundos: destruídas as rotativas, estragados os monotipos, demolidos os linótipos. Foi erradamente que os bolcheviques acusavam a falta de energia o governo de Kerensky!

«As ruas, no conjunto, voltaram ao normal, escreve Sokhanov. Não há quase reuniões e comícios no exterior. Os armazéns estão quase todos abertos.» Logo pela manhã se propagou o apelo dos bolcheviques, convidando a cessar de manifestar, a a última produção da tipografia demolida. Os cossacos e os junkers prendem nas ruas os marinheiros, soldados, operários, e mandam-nos ou para as prisões, ou para as salas da polícia. Nas lojas e nos passeios, fala-se do dinheiro alemão. Prendem qualquer um que ouse dizer uma palavra a favor dos bolcheviques. «Não se pode mais declarar que Lenine é um homem honesto: senão, conduzem ao comissariado.» Sokhanov, como sempre, mostra-se atento observador do que se passa nas ruas da burguesia, da intelligentsia, dos pequeno-burgueses.

Mas trata-se de outra coisa nos bairros operários. As fábricas e as oficinas ainda não trabalham. Os estado de espírito está ansioso. Segundo os rumores, tropas teriam chegado da frente. As ruas do bairro de Vyborg estão cheias de grupos que discutem a conduta a tomar em caso de ataque. «Os guardas vermelhos e, em geral, a juventude das fábricas – conta Metelev preparam-se a penetrar a fortaleza de Pedro e Paulo para apoiar os destacamentos que estão cercados. Dissimulando granadas nos bolsos, nas botas e no peito, eles passam o rio em barcas, alguns pelas pontes.» O operário compositor Smirnov, do bairro de Kolomna, conta nas suas Lembranças:«Vi chegar pelo Neva reboques cheios de guardas marinheiros, vindo de Duderhof e de Oranienbaum. Cerca das duas horas, a situação começou a desenhar-se num mau sentido... Vi como, isoladamente, por caminhos afastados, marinheiros voltavam a Cronstadt... Espalhou-se esta versão que todos os bolcheviques eram espiões da Alemanha. Perseguições infames foram empreendidas...» O historiador Miliokov resume com satisfação: «O estado da opinião e a composição do público nas ruas tinham-se completamente modificado. Pela noite, Petrogrado estava absolutamente calma.»

Enquanto que as tropas não tinham tempo de chegar, o Estado-maior da região, com a ajuda política dos conciliadores, conseguiu disfarçar as suas intenções. No dia tinham-se apresentado no palácio Kczesinska, para conferenciar com os líderes dos bolcheviques, membros do comité executivo, Liber à cabeça: só esta visita testemunhava os sentimentos mais pacíficos. O acordo obtido obrigava os bolcheviques a enviar os marinheiros de Cronstadt, a retirar da fortaleza de Pedro e Paulo a companhia de metralhadoras, a substituir dos seus postos os carros blindados e os destacamentos da guarda. O governo prometia pelo seu lado em não tolerar nenhuma perseguição, qualquer represália em relação aos bolcheviques e a libertação dos que tinham sido presos, excepto os criminosos de direito comum. Mas o acordo não foi mantido por muito tempo. À medida que se propagava o rumor sobre o dinheiro alemão e a chegada para breve das tropas da frente. Descobri-se na guarnição cada vez mais contingentes grandes e pequenos que se lembravam da sua fidelidade à democracia e a Kerensky. Eles enviavam delegados ao palácio de Tauride ou ao Estado-maior da região. Enfim, as camadas da frente começaram a chegar efectivamente.

O estado de espírito entre os conciliadores tornava-se cada vez mais feroz a cada hora que passava. As tropas chegadas da frente preparavam-se a libertar a capital, numa luta sangrenta, dos agentes do Kaiser. Agora que já não havia necessidade das tropas, era preciso se justificar o facto de os ter chamado. Com medo de cair eles próprios na suspeição, os conciliadores esforçavam-se para demonstrar aos chefes militares que os mencheviques e os socialistas-revolucionários estavam com eles num só e mesmo lado e que os bolcheviques eram o inimigo comum. Quando Kamenev tentou de lembrar aos membros do secretariado do comité executivo o acordo concluído algumas horas antes, Liber respondeu com um tom inflexível de um homem de Estado: «Agora, a relação de forças está modificada.» Segundo os discursos e vulgarização de Lassalle, Liber sabia que um canhão é um elemento importante para uma Constituição.

A delegação dos marinheiros de Cronstadt, tendo à cabeça Raskolnikov, foi várias vezes chamado à comissão militar do comité executivo, onde as exigências, a cada hora mais elevadas, chegaram ao ultimato de Liber: consentir imediatamente ao desarmamento dos homens de Cronstadt. «Ao sair da sessão da Comissão militar – conta Raskolnikov nós retomámos o nosso conciliábulo com Trotsky e Kamenev. Lev Davidovitch (Trotsky) aconselhou a enviar imediatamente para suas casas e em segrego os marinheiros de Cronstadt. Foi tomada a decisão de enviar os camaradas nos quartéis e de prevenir os marinheiros do desarmamento pela força que se preparava.» A maior parte dos homens de Cronstadt tinham partido em tempo útil, só restavam alguns pequenos destacamentos na casa Kczesinska e na fortaleza Pedro e Paulo. Com o conhecimento dos ministros socialistas, o príncipe Lvov, desde de 4 de Julho, tinha dado ao general Polovtsev a ordem escrita «de prender os bolcheviques que ocupavam a casa Kczesinska, de evacuar esta casa e de colocar aí as tropas.»

Agora, após o saque da redacção e da tipografia, a questão da sorte do quartel-geral dos bolcheviques colocava-se com grande acuidade. Era preciso meter o hotel particular em estado de defesa. Como comandante dos locais, a organização militar designou Raskolnikov. Ele compreendeu a sua tarefa, à maneira de Cronstadt, reclamou o envio de canhões e mesmo a presença na foz do Neva de um pequeno navio de guerra. Raskolnikov explicou mais tarde este esforço da maneira seguinte: «Bem entendido, do meu lado, os preparativos militares foram feitos, mas somente para que no caso onde nós tivéssemos que nos defender, visto que, no ar, havia um odor não somente de pólvora mas assim de perseguições... Eu considerava, não sem razão, me parece, que bastaria fazer chegar no estuário do Neva um bom barco para que o governo provisório perdesse consideravelmente a sua energia.» Tudo isso é bastante imprevisto e pouco sério. Convém antes de mais supor que, no dia 5 de Julho, os dirigentes da organização militar, e Roskolnikov com eles, não tinham ainda apreciado completamente a reviravolta da situação e, no momento onde a manifestação armada devia se apressar de bater em retirada para não se transformar num levantamento armado imposto pelo adversário, certos dirigentes militares deram alguns passos em frente ao acaso e irreflectidos.

Não era a primeira vez que os jovens líderes da Cronstadt passavam da medida. Mas pode-se fazer uma revolução sem a participação de homens que passam a medida? E não haverá necessariamente uma certa percentagem de leviandade em todas as grandes empresas humanas? Desta vez, tudo se limitou a ordens que, aliás, foram logo anuladas pelo próprio Raskolnikov. No hotel particular afluíam todavia notícias cada vez mais inquietantes: um tinha visto, à janela de uma casa situada na margem da frente, metralhadoras apontadas para a casa Kczesinska; outro tinha observado uma coluna de carros blindados avançando na mesma direcção; um terceiro anunciava a aproximação de patrulhas de cosaques. Dois membros da organização militar foram enviados para conversações ao comandante do bairro. Polovtsev assegurou aos parlamentares que o saque da Pravda tinha sido feito sem que ele soubesse e que ele não preparava de forma nenhuma as represálias contra a organização militar. Na realidade, ele esperava receber somente da frente os reforços suficientes.

Enquanto que Cronstadt batia em retirada, a frota do Báltico, no conjunto, ainda preparava a sua ofensiva. Era nas águas finlandesas que se mantinha a grande parte da frota, contando no total até setenta mil marinheiros; além disso, na Finlândia, estava aquartelado um corpo do exército, e a fábrica do porto de Helsingfors ocupava cerca de dez mil operários russos. Era impressionante, o punho da revolução. A pressão dos marinheiros e dos soldados era de tal maneira irresistível que em mesmo em Helsingfors o comité dos socialistas-revolucionários se pronunciou contra a coligação, no seguimento disso todos os órgãos soviéticos da frota e do exército, na Finlândia, exigiram unanimemente que o comité executivo central tomou o poder na mão. Para apoiar a sua reivindicação, os homens do Báltico estavam prontos a avançar, a qualquer momento, para o estuário do Neva; o que os fazia esperar, porém, era o temor de enfraquecer a linha de defesa marítima e de facilitar à frota alemã um ataque sobre Cronstadt e Petrogrado.

Mas aí produziu-se qualquer coisa de absolutamente imprevisto. O comité central da frota do Báltico – chamado Tsentrobalt – convocou no dia 4 de Julho, os comités dos navios a uma sessão extraordinária, na qual o presidente Dybenko revelou publicamente duas ordens secretas recentemente recebidas pelo comandante da frota, sob a assinatura de Dodarev, ministro-adjunto da Marinha: o primeiro aconselhava o almirante Verderevsky a enviar a Petrogrado quatro torpedeiros para impedir pela força uma descida dos revoltados vindo de Cronstadt: o segundo exigia do comandante da frota que, sob nenhum pretexto, não permitia aos navios a ida de Helsingfors para Cronstadt e que não hesitaria em afundar, com a ajuda de submarinos, os barcos insubmissos. Encontrando-se entre dois fogos, o almirante tomou a iniciativa e transmitiu os telegramas ao Tsentrobalt declarando que não executaria as ordens, mesmo se Tsentrobalt os confirmasse com o seu carimbo.

A leitura dos telegramas transtornou os marinheiros. Na realidade, em qualquer ocasião, eles invectivavam impiedosamente Kerensky e os conciliadores. Mas era aí, a seus olhos, uma luta íntima nos sovietes. Porque enfim, no comité executivo central, a maioria pertencendo aos mesmos partidos que no comité regional de Finlândia que acabava de se pronunciar pelo poder dos sovietes. É claro: nem os mencheviques, nem os socialistas-revolucionários não podem aprovar que se afunde navios que se pronunciam pelo poder do comité executivo. Então como é que o velho oficial da marinha Dodarev tenha podido intrometer-se numa discussão de família nos sovietes para a transformar em batalha naval? Ainda na véspera, os grandes navios estavam oficialmente considerados como o apoio da revolução, ao contrário dos torpedeiros de espírito mais atrasado e dos submarinos apenas sensibilizados pela propaganda. É possível que as autoridades se dispusessem agora, seriamente, com a ajuda dos submarinos, afundar os barcos! Tais factos não se podiam manter nos espíritos teimosos dos marinheiros.

A ordem que lhe parecia por boas razões vinda de um sonho era portanto, em Julho, o rebento legítimo das sementes de Março. Desde de Abril, os mencheviques e os socialistas-revolucionários tinham começado a mobilizar a província contra Petrogrado, aos soldados contra os operários, à cavalaria contra os metralhadores. Eles tinham dado às companhias uma representação nos sovietes mais vantajosa que a das fábricas; eles tinham patrocinado as pequenas empresas espalhadas em vez das fábricas gigantes da metalurgia. Representando o passado de ontem, eles procuravam um apoio entre os atrasados de toda a especie. Perdendo equilíbrio, eles excitavam os recuados contra os avançados. A política tem a sua lógica, sobretudo em tempo de revolução. Pressionados de todos os lados, os conciliadores viram-se forçados a impor ao almirante Verderevsky o cuidado de afundar os barcos onde reinava um espírito mais avançado. Infelizmente para os conciliadores, os espíritos atrasados sobre os quais eles queriam se apoiar esforçavam-se cada vez mais e alinhar-se com os espíritos avançados; as tripulações dos submarinos não deixaram de se indignar com a ordem de Dodarev tal como as tripulações dos couraçados.

À cabeça do Tsentrobalt encontravam-se homens cujo temperamento não era de forma nenhuma o de um Hamlet: de acordo com os membros dos comités de vasos, sem perder tempo, eles tomaram a seguinte resolução: o torpedeiro da esquadra Orfeu, designado para enviar para o fundo os homens de Cronstadt seria expedido com urgência para Petrogrado, em primeiro lugar para obter as informações sobre o que se passava, em segundo lugar «para prender o adjunto do ministro da Marinha Dodarev». Imprevista que possa parecer esta resolução, ela prova com uma força particular até que ponto os marinheiros do Báltico ainda consideravam os conciliadores como o adversário interior, pensando diferentemente de Dodarev que eles julgavam como inimigo comum. O Orfeu entrou no estuário do Neva vinte e quatro horas após terem abordado nesse sítio dez mil marinheiros armados de Cronstadt. Mas «a relação de forças tinha-se modificado.» Todo o dia, foi proibida à tripulação de desembarcar. Foi somente à noite que uma delegação composta de setenta e sete marinheiros do Tsentrobalt e das tripulações da frota, foi admitida na sessão unificada dos comités executivos, onde se fazia o balanço dos primeiros resultados dos dias de Julho. Os vencedores banhavam-se na alegria da sua recente vitória. O relator Voitinsky descreveu, com satisfação, as horas de fraqueza e de humilhação para dar relevo ao triunfo que tinha seguido. « A primeira unidade que veio ao nosso socorro – dizia ele – foram os carros blindados. Tomámos a firme resolução, para que no caso que um bando armado nos assaltasse, de abrir fogo... Vendo todo o perigo que ameaçava a revolução, demos ordem a certos contingentes (da frente) de subir nos comboios e de vir ajudar-nos...» A maioria da alta assembleia respirava ódio em relação aos bolcheviques, particularmente aos marinheiros.

Foi neste ambiente que caíram os delegados do Báltico, munidos de um mandato de prisão contra Dodarev. Foi por gritos selvagens, por uma barulheira de murros nas mesas, por batidas de pés, que os vencedores acolheram a leitura da resolução da frota báltica. Prender Dodarev? Mas o valente capitão de navio tinha simplesmente preenchido um dever sagrado em relação à revolução, à qual estes, esses marinheiros, amotinados, contra-revolucionários, atraiçoavam pelas costas. Pour uma resolução especial, a assembleia unificada solidarizou-se solenemente com Dodarev. Os marinheiros escancaravam os olhos ao olharem os oradores e a se entre-olhar. Agora somente começavam a compreender o que se passava diante deles. Toda a delegação foi presa no dia seguinte e acabou a sua educação política na prisão. A seguir prenderam o presidente do Tsentrobalt, que tinha chegado ao socorro, o cabo de marinheiros Dybenko, e também o almirante Verderevsky convocado para a capital para explicações.

Na manhã do dia 6, os operários voltaram para o trabalho. Nas ruas, como manifestantes só há tropas vindas da frente. Os agentes da contra-espionagem verificam os passaportes e procedem às prisões à direita e à esquerda. Um jovem operário, Voinov, que distribuia o Listok Pravda (panfleto da Pravda) publicado no lugar do jornal bolchevique que foi saqueado na véspera, foi assassinado na rua por um bando, talvez os mesmos agentes da contra-espionagem. Os elementos da reacção, os Cem Negros, tomam gosto a esmagar o motim. Pilhagens, violências, aqui e acolá tiroteio continuam nas diferentes partes da cidade. No decorrer do dia chegam, uns após outros, uma divisão da cavalaria, o regimento dos cossacos do Don, uma divisão de lanceiros, o regimento Izborsky, o regimento Pequeno Russo, um regimento de dragões, e outros. «Os contingentes cossacos que chegaram em grande número – escreve o jornal de Gorki – estão muito agressives.» Sobre o regimento Izborsky, que acabara de chegar, abriram fogo de metralhadoras em dois lugares da cidade. Nos dois casos, descobriu-se que os metralhadoras tinham sido instaladas nos celeiros, os culpados não foram descobertos. Dispararam sobre os contingentes que desembarcavam ainda noutros lugares. A loucura calculada deste tiroteio transtornou profundamente os operários. Era claro que provocadores experientes recebiam os soldados com chumbo com o objectivo de os vacinar contra o bolchevismo. 148 operários esforçavam-se para explicar isso aos soldados que chegavam, mas não os deixavam aproximar: pela primeira vez, desde dos dias de Fevereiro, entre o operário e o soldado se colocava o junker e o oficial.

Os conciliadores acolhiam com alegria os regimentos que chegavam. A assembleia dos representantes das tropas, em presença de um grande número de oficiais e de junkers, o mesmo Voitinsky exclamou pateticamente: «Agora pela rua Millionnaia desfilam as tropas e os carros blindados em direcção da praça do palácio, para se colocarem à disposição do general Polovtsev. Aqui está a força real sobre a qual nos apoiamos.» Como cobertura política, colocaram ao serviço do comandante da região quatro socialistas: Avksentiev e Gotz do comité executivo, Skobelev e Tchernov do governo provisório. Mas isso não salvou o comandante. Kerensky, logo, se vangloriou diante dos guardas brancos de ter, no seu regresso da frente, no decurso das jornadas de Julho, despedido o general Polovstev «por falta de decisão.»

Agora podia-se enfim resolver o problema há muito adiado: destruir o ninho de vespas dos bolcheviques na casa de Kczensiska. Na vida social em geral, em tempo de revolução em particular, tomam às vezes uma grande importância factos de segunda ordem que agem sobre a imaginação pelo seu sentido simbólico. Foi assim que se atribuiu uma importância desproporcionada, na luta contra os bolcheviques, à «confiscação» por Lenine do palácio de Kczesinska, bailarina da corte, menos famosa pela sua arte do que pelas suas relações com os representantes masculinos da dinastia dos Romanov. Seu hotel particular era o benefício de tais relações, inauguradas verosimilmente por Nicolau II quando ele ainda era o czar herdeiro. Antes da guerra, os pequenos burgueses bisbilhotavam no covil situado em frente do palácio de Inverno, lugar de encontros de luxo, de botas com esporas, de diamantes, com uma nuança de respeito invejoso; durante a guerra, dizia-se bastantes vezes: «É roubo»; os soldados falavam ainda com mais azedume. Aproximando-se da idade limite, a bailarina refugiou-se na carreira patriótica. O cândido Rodzianko conta a esse propósito: «O generalíssimo (o grão-duque Nicolau Nicolaievitch) mencionou que conhecia a acção e a influência, nos assuntos da artilharia, da bailarina Kczesinska por entremedio da qual diversas firmas obtinham encomendas. «Não é de surpreender que após a insurreição o palácio vazio de Kczesinska não despertava no povo grandes simpatias. Quando a revolução precisava de instalações, o governo não ousava tomar qualquer casa particular. Requisitar os cavalos dos camponeses para a guerra – é uma coisa. Requisitar para a revolução os hotéis particulares que estão vazios é um outro assunto. Mas as massas populares raciocinavam de outra forma.

A procura de um local que lhe convinha, a divisão da reserva dos carros blindados caiu, nos primeiros dias de Março, no hotel de Kczsinska e ocupou-o: a bailarina tinha uma boa garagem. A divisão cedeu de boa vontade ao comité dos bolcheviques de Petrogrado o andar superior do edifício. A amizade feita entre os bolcheviques e as equipas de carros blindados completou a sua amizade com os metralhadores. A ocupação do palácio, afectada algumas semanas antes da chegada de Lenine, passou primeiro pouco mais ou menos despercebida. A indignação contra os ocupantes aumentava à medida que crescia a influência dos bolcheviques. Os boatos dos jornais afirmando que Lenine estaria alojado no quarto da bailarina e que toda a mobília do hotel teria sido saqueado, eram simplesmente mentiras. Lenine vivia num modesto apartamento da sua irmã, e, no que respeita à mobília da bailarina, o comandante do lugar tinha-o feito arrumar à parte. Sokhanov, que visitou o palácio no dia da chegada de Lenine, fez uma descrição do lugar que não deixa de ter interesse. «Os apartamentos da famosa bailarina tinham um aspecto estranho e extravagante. Os tectos e as paredes, feéricas, não se harmonizavam com a mobília rudimentar, com mesas, cadeiras e bancos primitivos, dispostos de qualquer maneira tendo por só fim a sua utilidade. As divisões da casa estavam pouco guarnecidas. O mobiliário de Kczesinska tinha sido retirado...»

Iludindo prudentemente o caso da divisão dos carros blindados, a imprensa representava Lenine como o responsável da confiscação, à mão armada, de uma casa pertencendo a uma inofensiva sacerdotisa da arte. Esse tema alimentava os editoriais e os folhetins. Operários e soldados sujos entre os veludos, as sedas e as tapeçarias! Todos os salões da capital ferviam de indignação. Tal como outrora os girondinos tinham atribuído aos jacobinos a responsabilidade dos massacres de Setembro, o desaparecimento dos colchões num quartel e a propaganda a favor da lei agrária – agora, os cadetes e os democratas acusavam os bolcheviques de sapar as bases da moral humana e de cuspir no chão do hotel de Kczesinska. A bailarina da dinastia tornou-se o símbolo de uma cultura espezinhada pelas botas cardadas da barbarie. Esta apoteose deu asas à proprietária, que se queixou à justiça, e o tribunal decidiu que os bolcheviques seriam expulsos do lugar.

Mas não era tão simples assim. «Os carros blindados que vigiavam no pátio pareciam suficientemente imponentes», nota nas suas lembranças Zalejsky, membro do Comité de Petrogrado nessa época. Além disso, o regimento dos metralhadores, assim como outras unidades, estava pronto, em caso de necessidade, a apoiar as equipas dos carros blindados. No 25 de Maio, o secretariado do comité executivo, por causa da queixa da bailarina, reconheceu que «os interesses da revolução exigiam o respeito das decisões dos tribunais». Os conciliadores não iam para além desse aforismo platónico, apesar da mágoa da bailarina que não tinha tendência para o platonismo.

No hotel particular continuavam a trabalhar lado a lado com o Comité central, o Comité de Petrogrado e a Organização militar. «Na casa Kczesinska – conta Raskolnikov – não havia constantemente multidão. Uns visitava para tratar assuntos, outros iam ao depósito da livraria... outros iam à redacção da Soldatskaia Pravda (Pravda dos Soldados), outros enfim a uma sessão qualquer. Reuniões tinham lugar muitas vezes, por vezes em permanência – seja na vasta sala de baixo, seja no andar superior, à volta de uma grande mesa, numa sala que tinha sido aparentemente a sala das refeições da bailarina.» Do alto da varanda do hotel particular, acima do qual flutuava a imponente bandeira do comité central, oradores improvisavam sem parar comícios, não somente durante o dia, mas mesmo à noite. Muitas vezes, na obscuridade completa, avançava para o edifício, um contingente de soldados, ou então uma multidão de operários reclamavam um orador. Diante da varanda paravam também, ocasionalmente, grupos de pequenos burgueses cuja curiosidade era periodicamente despertada pelos boatos lançados pelos jornais. Durante os dias críticos aproximaram-se do edifício das manifestações, hostis entretanto, exigiam a prisão de Lenine e a expulsão dos bolcheviques. Sob a torrente de homens que chegavam junto do palácio, sentia-se fervilhar as profundezas da revolução. O assunto da casa Kczesinska atingiu o apogeu durante os dias de Julho. «O grande Estado-maior do movimento – diz Miliokov – não se encontra no palácio de Tauride, mas da cidadela de Lenine, a casa Kczesinska, na varanda clássica.» O esmagamento da manifestação levava fatalmente à destruição do quartel-general dos bolcheviques.

A três horas da manhã, marcharam, separados por uma fita branca para a casa Kczesinska e a fortaleza de Pedro e Paulo, o batalhão de reserva do regimento de Petrogrado, um efectivo de metralhadores, uma companhia do regimento Semenovsky, uma companhia do regimento Preobrajensky, o efectivo dos alunos oficiais do regimento Volhynia, duas peças de canhão e um destacamento de oito carros blindados. Às sete horas da manhã, o ajudante do comandante das tropas do distrito de Kozmina, socialista-revolucionário, exigiu a evacuação do hotel particular. Não querendo entregar as armas, os marinheiros de Cronstadt, que não eram mais do que cento e vinte no palácio, voltaram rapidamente para a fortaleza Pedro e Paulo. Quando as tropas do governo ocuparam o hotel, não encontraram lá ninguém, excepção feita de alguns empregados... Restava a questão da fortaleza. Do bairro de Vyborg, como nos lembramos, jovens guardas vermelhos tinham ido para a fortaleza para ajudar em caso de necessidade. «Sobre as muralhas da fortaleza — conta um deles — algumas peças de canhão foram apontadas, verosimilmente para os marinheiros, no caso... Isso começa a cheirar a sangue...» Mas conversações diplomáticas encontraram uma solução pacífica. Sobre ordem do comité central, Estaline propôs aos líderes conciliadores tomar medidas comuns para liquidar sem efusão de sangue as manifestações dos homens de Cronstadt. A dois, com o menchevique Bogdanov, convenceram sem grandes dificuldades os marinheiros de se submeter ao ultimato lançado na véspera por Liber. Quando os automóveis blindados do governo se aproximaram da fortaleza, uma delegação saiu pela porta principal para declarar que a guarnição se submetia ao comité executivo. As armas devolvidas pelos marinheiros e soldados foram levadas em camiões. Os marinheiros desarmados tinham embarcações para voltar para Cronstadt. A rendição da fortaleza pode ser considerada como o episódio final do movimento de Julho. As equipas de carros blindados chegadas da frente ocuparam o palácio Kczesinska e o forte, evacuados pelos bolcheviques, e elas deviam passar pela sua vez, na véspera da insurreição de Outubro, para o lado destes últimos.

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Inclusão 31/01/2011
Última alteração 30/04/2014